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Os historiadores e as epidemias na América Latina

Nas últimas décadas, os historiadores da medicina atuando na América Latina estudaram importantes e complexos eventos epidêmicos ( Cook, 1981COOK, Noble David. Demographic collapse: Indian Peru, 1520-1620. New York: Cambridge University Press. 1981. ). O foco de tais investigações transitou do impacto demográfico das epidemias, especialmente durante a conquista europeia, para a pesquisa em temas sociais, políticos, culturais e de saúde pública ( Cooper, 1980COOPER, Donald. Las epidemias en la ciudad de México, 1761-1813. Ciudad de México: Instituto Mexicano del Seguro Social. 1980. ). A maioria das investigações históricas dos séculos XIX e XX, salvo notáveis exceções, reduziu a ênfase em demografia, como mostram estudos sobre a famosa epidemia de influenza de 1918 que levou enorme parcela da população mundial a óbito (Porras, Davis, 2014). As epidemias serviram como lente para o aprendizado sobre as desigualdades sociais e sobre o pensamento de médicos, curandeiros nativos, enfermeiros, milagreiros e ativistas em relação ao corpo, à saúde e às doenças (Cueto, Palmer, 2015; Cueto, 2020CUETO, Marcos. El regreso de las epidemias: salud y sociedad en el Perú del siglo XX. [EPub]. Lima: Instituto de Estudios Peruanos. 2020. ). Nos últimos anos, pesquisas sobre as epidemias elucidaram mudanças e continuidade na coleta de dados epidemiológicos, o surgimento de narrativas dominantes sobre saúde e desenvolvimento, e as respostas às ansiedades sociais e ao pânico moral. Os historiadores das epidemias também analisaram como medicina e saúde pública se relacionam com os diferentes significados das liberdades civis, como, por exemplo, defender a população saudável isolando os enfermos em quarentenas e lazaretos e proteger aqueles que convivem com a doença. A recorrência das epidemias é também demonstração da baixa prioridade atribuída à prevenção por parte de governos que se conformaram em viver à iminência de um desastre. Fora da América Latina, análises sobre epidemias inspiraram modelos teóricos sobre como os historiadores deveriam estudar as doenças (Rosenberg, Golden, 1992) e também geraram novos modelos. O complexo entrelaçamento entre sociedade e natureza se torna ainda mais evidente em tempos de angústia, um conceito caro ao promissor campo da saúde planetária que interconecta historiadores de saúde e meio-ambiente (Dunk, Anderson, 2020).

Ultimamente, historiadores profissionais têm sido muito procurados por jornais, webcasts, blogs e eventos especiais para que comentem sobre a epidemia de covid-19 (Campos, Perdiguero-Gil, Bueno, 2020). Respondendo essas solicitações, construíram um valioso diálogo com novos públicos, evitando comparações precipitadas e, ao mesmo tempo, oferecendo diferentes interpretações. Os historiadores profissionais contextualizaram os acontecimentos, lançaram mão de evidências arquivísticas coletadas há anos, citaram estudos históricos anteriores e advertiram contra previsões de um futuro pós-pandemia apocalíptico ou paradisíaco. Os historiadores têm outra vantagem: podem falar a verdade ao poder, ao contrário de representantes governamentais da saúde que são obrigados a oscilar entre a lealdade ao conhecimento e as obrigações perante as autoridades.

Alguns problemas debatidos por historiadores ressurgem no contexto da covid-19: desigualdades sociais, estigma, neoliberalismo e panaceias. O coronavírus, inegavelmente, revela a pobreza dos sistemas de saúde sob ataque do neoliberalismo, assim como a vulnerabilidade dos pobres. Latino-americanos moradores de comunidades pobres densamente habitadas jamais conseguiriam implementar as recomendações europeias de distanciamento social, por exemplo, porém quase todos os governos na região ignoraram essa vulnerabilidade e fizeram contribuições insuficientes aos próprios sistemas de saúde, os mesmos que foram prejudicados por anos de programas de ajustes estruturais ditados pelo Fundo Monetário Internacional.

Os historiadores, contudo, conseguem indicar que a sabotagem dos sistemas de saúde e a indiferença às desigualdades sociais não são os únicos fatores de agravamento da epidemia. A pandemia do coronavírus também traz à tona a insuficiência dos programas sociais para redução da pobreza, os quais foram lançados na virada do século XXI por governos de centro e centro-esquerda na América Latina que acreditavam que esses projetos pudessem coexistir com políticas econômicas neoliberais. O neoliberalismo avançou com mais rapidez e, aliado aos negacionistas da ciência e evangélicos conservadores, multiplicou a pobreza, a culpabilização e a doença. A aliança entre neoliberais e evangélicos em muitos países latino-americanos é o pano de fundo de uma explicação chave para desastres relacionados às doenças: uma obsessão em culpar as vítimas. Em primeiro lugar, o neoliberalismo culpa os pobres por sua miséria e doença a fim de corroborar a ordem social em que apenas poucos usufruem da riqueza do mundo; de maneira análoga, os evangélicos culpam os pecadores (em geral, seus seguidores nas comunidades pobres) pela devassidão de seu estilo de vida e desprezo aos valores tradicionais da família. Segundo essa lógica, os pobres são responsáveis por sua miséria, os doentes por sua doença e os pecadores pelo crime. A ordem social injusta não carrega culpa alguma nessas explicações, as quais são úteis para um potencial retorno total do neoliberalismo liderado pela concorrência fragmentada por vacinas. Tal competição suscita outro tópico que foi analisado por historiadores latino-americanos: as balas mágicas. Rápidas soluções tecnológicas como vacinas e a cloroquina de hoje foram experimentadas no passado com o intuito de conter epidemias sem que se modificassem as condições de vida dos pobres.

Os artigos desta edição de História, Ciências, Saúde – Manguinhos nos lembram do quanto é valiosa a pesquisa histórica para que se compreenda passado e presente. Gostaria de chamar a atenção para um desses estudos, de autoria de Soraya Lodola e Cristina de Campos, sobre a reorganização do Serviço Sanitário de São Paulo, no início do século XX, para o controle do tracoma. Esse extraordinário estudo trata de temas analisados por historiadores de epidemias, tais como doenças entre populações pobres, centralização de respostas sanitárias e esforços para combater as doenças em zonas urbanas e rurais.

Gostaria ainda de informar aos leitores sobre algumas mudanças em andamento em História, Ciências, Saúde – Manguinhos: instruções novas e claras para os autores, que serão publicadas no primeiro semestre de 2021. Parte das novidades nas instruções está relacionada à ciência aberta e inclui a aceitação de originais do tipo preprint , isto é, textos completos finalizados já tornados públicos em respeitadas plataformas como o SciELO Preprints.

Sinceramente espero que esta edição e a convicção de que a história é uma ferramenta fundamental para a compreensão da sociedade promovam alguma esperança em tempos tão difíceis.

REFERÊNCIAS

  • CAMPOS, Ricardo; PERDIGUERO-GIL; Enrique, BUENO, Eduardo (Ed.). Cuarenta historias para una cuarentena: reflexiones históricas sobre epidemias y salud global. Madrid: Sociedad Española de Historia de la Medicina. 2020.
  • COOK, Noble David. Demographic collapse: Indian Peru, 1520-1620. New York: Cambridge University Press. 1981.
  • COOPER, Donald. Las epidemias en la ciudad de México, 1761-1813. Ciudad de México: Instituto Mexicano del Seguro Social. 1980.
  • CUETO, Marcos. El regreso de las epidemias: salud y sociedad en el Perú del siglo XX. [EPub]. Lima: Instituto de Estudios Peruanos. 2020.
  • CUETO, Marcos; PALMER, Steven. Medicine and public health in Latin America. New York: Cambridge University Press. 2015.
  • DUNK, James; ANDERSON, Warwick. Assembling planetary health: histories of the future. In: Myers, Samuel; Frumkin, Howard (Ed.). Planetary health: protecting nature to protect ourselves. Washington: Island Press. p.17-35. 2020.
  • PORRAS, María Isabel; DAVIS, Ryan (Ed.). The Spanish influenza pandemic of 1918-1919: perspectives from the Iberian Peninsula and the Americas. Rochester: University of Rochester Press. 2014.
  • ROSENBERG, Charles; GOLDEN, Janet L. (Ed.). Framing disease: studies in cultural history. New Brunswick: Rutgers University Press. 1992.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    18 Dez 2020
  • Data do Fascículo
    Oct-Dec 2020
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