A Escola de Pesca do Abrigo Cristo Redentor do Rio de Janeiro e a formação profissional do pescador brasileiro no Estado Novo, 1937-1945

The Fishing School at Abrigo Cristo Redentor do Rio de Janeiro and the professional training of fishermen during the Estado Novo period in Brazil, 1937-1945

Mônica Cruz Caminha Sobre o autor

Resumo

O artigo apresenta, com apoio de imagens, a Escola de Pesca Darcy Vargas, um dos departamentos da instituição filantrópica Abrigo do Cristo Redentor do Rio de Janeiro, e sua importância no contexto do Estado Novo. Estabelecida na ilha da Marambaia, no início da década de 1940, a escola visava à formação técnica e profissional de pescadores locais e de várias regiões litorâneas do país, colaborando, dessa forma, para o surgimento de um “trabalhador/cidadão” apto a contribuir para o desenvolvimento socioeconômico almejado pelo “Estado Nacional” dirigido por Vargas.

escola de pesca; instituição filantrópica; educação; Estado Novo (1937-1945; Marambaia

Abstract

This illustrated article presents the Darcy Vargas Fishing School, a department at the philanthropic institution Abrigo do Cristo Redentor do Rio de Janeiro, and its importance in the context of the Estado Novo period in Brazil. Established on the island of Marambaia in the early 1940s, the school provided technical and professional training for fishermen from the local area and from different parts of the Brazilian coast, contributing to the emergence of “worker/citizens” capable of contributing to the socioeconomic development envisaged by President Vargas for the “National State.”

fishing school; philanthropic institution; education; Estado Novo (1937-1945; Marambaia

A Escola de Pesca Darcy Vargas (EPDV)1 1 Escola de Pesca Darcy Vargas (EPDV) foi o nome dado a essa instituição de 1939 a 1942. Em 1942, a escola recebeu o caráter de estabelecimento federal de ensino e passou a ser chamada Escola Técnica Darcy Vargas (ETDV). A ETDV continuou sendo dirigida pelo ACR, mas, a partir de então, sob a fiscalização do Ministério da Educação e Saúde. No período de 1965 a 1970 passou a se chamar Colégio Técnico Darcy Vargas. Neste texto optou-se por adotar o título Escola de Pesca Darcy Vargas (EPDV). surgiu na ilha da Marambaia, município de Mangaratiba, Rio de Janeiro, em 1939, como um dos departamentos da instituição filantrópica Abrigo do Cristo Redentor (ACR), do Rio de Janeiro,2 2 O Abrigo do Cristo Redentor (ACR) foi criado na cidade do Rio de Janeiro, em 1935, por iniciativa de Rafael Levi Miranda (1889-1969), como Obra de Assistência aos Mendigos e Menores Desamparados. Com sua expansão, tanto no número de departamentos como na diversificação do público-alvo atendido, passou a ser denominado, em 1943, Fundação Abrigo Cristo Redentor (Brasil, 19 ago. 1943). com o objetivo de fornecer ensino técnico e profissional de pesca aos filhos de pescadores locais e de diversas regiões litorâneas do país.

Com a instalação da EPDV, os dirigentes do ACR pretendiam criar não apenas um educandário, onde fosse ensinada a pesca por meio de técnicas modernas, mas também uma vila onde a família do pescador pudesse viver com infraestrutura, em um ambiente higienizado e onde a venda do pescado pudesse ser realizada diretamente ao entreposto, propiciando uma remuneração honesta a esse trabalho (ACR, 1938-1945ACR. Abrigo Cristo Redentor. Relatórios oficiais do Abrigo Cristo Redentor, 1938-1945. (Arquivo Central do Ministério do Desenvolvimento Social, Brasília). 1938-1945., relatório 1942, p.16).

As obras em prol desse empreendimento tiveram início provavelmente no segundo semestre de 1939.3 3 Para mais detalhes sobre verbas para o financiamento das obras da EPDV, ver Caminha (2012, p.84, 85). No ano seguinte, o presidente da República, Getúlio Vargas, o ministro da Marinha, almirante Henrique Aristides Guilhem, o interventor do estado do Rio de Janeiro, Ernani do Amaral Peixoto, entre outros, estiveram na ilha da Marambaia, em comitiva, onde foram recebidos pela população local e “desfilaram” num bonde puxado por menores com uniforme de marinheiro4 4 Não foram encontrados registros ou fontes que pudessem confirmar que esses meninos uniformizados eram alunos da EPDV. Além disso, a informação que se possui é a de que as atividades de ensino nessa escola só começaram em 1941. (Figuras 1 e 2). Na ocasião, o idealizador e “provedor perpétuo” do ACR, Levi Miranda, juntamente com Romero Estelita Cavalcanti Pessoa, membro do Conselho Fiscal daquela entidade filantrópica, e Rodolpho Fuchs,5 5 Rodolpho Fuchs foi cedido pelo Ministério da Educação e Saúde, onde era diretor da Divisão de Ensino Industrial do Departamento Nacional de Educação, para inicialmente assumir a direção técnica geral do Instituto Profissional Getúlio Vargas (IPGV), um dos departamentos do ACR, em 14 de novembro de 1938. Posteriormente, foi também nomeado diretor-geral da parte educativa de todas as escolas integrantes do ACR (Caminha, 2012, p.114-116). funcionário do Ministério da Educação e Saúde (MES) cedido pelo governo para colaborar na área de ensino do ACR, os conduziram para conhecer as obras em andamento da EPDV (Figura 3).

Figura 1
: Comitiva do presidente Getúlio Vargas chegando à ilha da Marambaia, em bonde puxado por meninos uniformizados, sendo recebida pela população, em 1940 (Agência Nacional, 23 jun. 1940)

Figura 2
: Vargas e sua comitiva chegando à ilha da Marambaia. Dentro do bonde (da esquerda para a direita): Vargas, sentado; Ernani do Amaral Peixoto, de terno branco; em pé, Levi Miranda e Romero Estelita (Agência Nacional, 23 jun. 1940)

Figura 3
: (Da esquerda para direita) Romero Estelita Cavalcanti Pessoa, Rodolpho Fuchs, Getúlio Vargas, almirante Henrique Aristides Guilhem, Levi Miranda (com chapéu na mão direita) e Ernani do Amaral Peixoto visitando as obras da EPDV na ilha da Marambaia (Agência Nacional, 23 jun. 1940)

A Escola de Pesca do ACR trouxe para aquela região uma ampla infraestrutura, que, em 1941, contava com dez pavilhões, igreja, hospital-maternidade, ambulatório, padaria, lavanderia, fábrica de gelo, fábrica de conservas, fábrica de óleo de fígado de cação, fábrica de redes, oficina e estaleiro de construção naval, frigoríficos, dependências técnicas para o ensino da pesca, quarenta casas de pescadores, 12 residências de funcionários e 15 residências para os empregados da seção industrial (ACR, 1938-1945ACR. Abrigo Cristo Redentor. Relatórios oficiais do Abrigo Cristo Redentor, 1938-1945. (Arquivo Central do Ministério do Desenvolvimento Social, Brasília). 1938-1945., relatório 1940, p.10; relatório 1941, p.27, 29; relatório 1942, p.12, 13). É possível ter noção da dimensão alcançada por esse núcleo assistencial mediante a leitura de um trecho da matéria “Na cidade dos pescadores” publicada no jornal A Noite em 28 de dezembro de 1941:

Dizer apenas ‘escola’, assim, ‘tout-court’, é reduzir a ideia que se pode conceber de um empreendimento muito mais amplo ..., porque, na realidade a Escola de Pesca é uma verdadeira cidade que surgiu do nada.... Além do grande edifício principal, da escola primária, da escola profissional, do hospital, da maternidade, da farmácia e do templo prestes a ser inaugurado há, ainda, 50 casas confortáveis, pequenas e modernas, com luz elétrica e todas as comodidades para a moradia dos pescadores e sua família. ... Essas casas e os edifícios administrativos formam, por assim dizer, o bairro residencial e centro da cidade dos Pescadores, porque, completando-a, há também um bairro industrial que compreende uma fábrica para industrialização do cação e o seu aproveitamento integral, uma fábrica de redes de pesca, outra de gelo, uma completa serraria mecânica, um estaleiro e uma usina de força motriz que tanto pode funcionar a vapor como a óleo combustível (Na cidade..., 28 dez. 1941NA CIDADE... Na cidade dos pescadores. A Noite. 28 dez. 1941., capa e p.9).

O ensino primário na EPDV teve início em outubro de 1941, com o total de 105 alunos advindos de vários estados do litoral do Brasil, com exceção do Rio Grande do Sul, Maranhão e Pará, que não se fizeram representar. Essas vagas foram ofertadas pelo ACR ao presidente Getúlio Vargas por ocasião do seu aniversário (ACR, 1938-1945ACR. Abrigo Cristo Redentor. Relatórios oficiais do Abrigo Cristo Redentor, 1938-1945. (Arquivo Central do Ministério do Desenvolvimento Social, Brasília). 1938-1945., relatório 1942, p.16). Uma prática mantida em anos posteriores, como é possível constatar por meio de carta escrita por Rafael Levi Miranda a Getúlio Vargas, em 19 de abril de 1944 (Figura 4).

Figura 4
: Carta de Levi Miranda ao presidente da República oferecendo novas vagas na Escola Técnica Darcy Vargas (Miranda, 19 abr. 1944)

Os critérios de admissão dos candidatos interessados em ingressar na Escola de Pesca do ACR eram ser filho de pescador morador de praia distante das capitais; ter de 12 a 14 anos; saber ler, escrever e contar; ter certidão de nascimento e batismo, atestado de sanidade e capacidade física fornecido por autoridades federais ou estaduais, assim como atestado da Colônia de Pesca que comprovasse sua condição de filho de pescador (Queiroz, 8 jun. 1944QUEIROZ, Alberto de Andrade. Circular aos interventores federais. Gabinete Civil da Presidência da República (Arquivo Nacional, Rio de Janeiro). 8 jun. 1944.). Tais exigências, entretanto, nem sempre eram observadas pelas autoridades estaduais responsáveis pelo recrutamento dos menores, conforme expõe o presidente do ACR, doutor Hélion Póvoa,6 6 O doutor Hélion de Menezes Póvoa foi o segundo presidente do ACR e redator dos relatórios oficiais da instituição de 1936 até 1944, ano do seu falecimento. no relatório de 1943 da instituição: “Desatendendo vocações e desrespeitando justas prerrogativas da classe dos pescadores, erroneamente enviaram-nos, sem dúvida com endereços trocados, meninos filhos de industriais, comerciantes e funcionários públicos” (ACR, 1938-1945ACR. Abrigo Cristo Redentor. Relatórios oficiais do Abrigo Cristo Redentor, 1938-1945. (Arquivo Central do Ministério do Desenvolvimento Social, Brasília). 1938-1945., relatório 1943, p.31). Naquele momento, Póvoa pleiteava a resolução definitiva do assunto em favor de uma maior eficiência da escola e do cumprimento da promessa feita pelo governo e pela diretoria daquela instituição filantrópica aos pescadores e seus órgãos de classe.

A EPDV funcionava num sistema de internato, com atividades planejadas ao longo do dia, e as visitas aconteciam uma vez por mês. Durante os dias de semana, os alunos assistiam ao total de sete horas de aula, distribuídas em dois turnos, três horas pela manhã e quatro horas à tarde. Todos os dias eles precisavam cumprir obrigações cívicas, como o hasteamento da bandeira e desfile, incluídos domingos e feriados, quando estavam liberados das atividades de estudo e dedicavam-se a práticas esportivas (Alves, 2010ALVES, Vladimir Zamorano. Antiga Escola da Marambaia: história e memória de uma experiência do ensino industrial da pesca (1939-1971). Dissertação (Mestrado) – Departamento de Educação, Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro. 2010., p.43). As missas também eram diárias e obrigatórias, também em dias de festividade, como na visita de autoridades à instituição (Figura 5).

Figura 5
: Alunos ajoelhados em celebração de missa realizada no interior da igreja da EPDV por ocasião da visita de Vargas à ilha da Marambaia (Agência Nacional, 13 jan. 1945)

Sendo o ACR uma instituição católica, dirigida e administrada por fiéis dessa religião, não é de surpreender a ênfase concedida ao ensino e às práticas religiosas em todos os seus departamentos. No interior de cada uma de suas unidades, como na Escola de Pesca, existia uma igreja, cuja fachada exibia uma estátua do Cristo com braços estendidos “à humanidade transviada e sofredora” (Figura 6), e capelães, a quem era entregue a direção espiritual do estabelecimento (ACR, 1938-1945ACR. Abrigo Cristo Redentor. Relatórios oficiais do Abrigo Cristo Redentor, 1938-1945. (Arquivo Central do Ministério do Desenvolvimento Social, Brasília). 1938-1945., relatório 1945, p.15, 37). Estatísticas de missas, confissões, batismos, extremas-unções, primeiras comunhões, crismas etc. eram disponibilizadas nos relatórios oficiais da entidade filantrópica (Caminha, 2012CAMINHA, Mônica de Souza Alves da Cruz. Abrigo do Cristo Redentor: estado e assistência social no primeiro Governo Vargas (1936-1945). Dissertação (Mestrado) – Casa de Oswaldo Cruz/Fiocruz, Rio de Janeiro. 2012., p.81, 82), nos quais, por exemplo, se encontra a informação de que, apenas em 1942, foram realizados 7.783 atos religiosos na Escola de Pesca (ACR, 1938-1945, relatório 1942, p.34). O “provedor perpétuo” Levi Miranda acreditava que por meio do “amparo ao menor” o ACR prestava um imenso serviço ao Brasil, mas, ao mesmo tempo, encontrava “um excelente meio para levar almas ao encontro do Cristo” (ACR, 1938-1945ACR. Abrigo Cristo Redentor. Relatórios oficiais do Abrigo Cristo Redentor, 1938-1945. (Arquivo Central do Ministério do Desenvolvimento Social, Brasília). 1938-1945., relatório 1943, p.17).

Figura 6
: Fachada da igreja da EPDV com a imagem do Cristo de braços abertos, diante do qual está sentado um capelão com um grupo de alunos daquela escola (Agência Nacional, 2 jan. 1944)

O documentário Marambaia, produzido pelo Instituto Nacional de Cinema Educativo (Ince)7 7 Criado em 1936, sob a coordenação do Ministério da Educação e Saúde, o Ince foi o primeiro órgão estatal brasileiro dedicado ao cinema e “produziu mais de quatrocentos documentários de curtas e médias metragens voltados à educação popular, divulgação da ciência e tecnologia” até 1966, quando foi transformado em Instituto Nacional de Cinema (INC), direcionado à produção industrial e tendo removido seu caráter educativo (Carvalhal, 2008, p.22, 73, 86). em 1945, com direção de Humberto Mauro, é outra fonte de informação sobre as atividades diárias realizadas pelos menores na EPDV. As imagens, acompanhadas de uma narrativa em off, apresentam os alunos realizando exercícios de remo em escaler e da disciplina semáfora – correspondente à comunicação por meio de sinais com bandeirolas (Figura 7) –, assim como trabalhando na secagem e reparação das redes de pesca, prática que também foi captada pelas lentes de um fotógrafo da Agência Nacional8 8 A Agência Nacional era um órgão de informação do governo federal, vinculado ao Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP), responsável pela produção e distribuição de matérias a todos os órgãos de imprensa, garantindo assim praticamente o monopólio do noticiário (Cardia, 2016; DIP, s.d.). (Figuras 8 e 9). Sobre esta última atividade, o narrador faz uma curiosa revelação: “Não obstante a existência de máquinas para o fabrico de redes, os alunos são obrigados a confeccioná-las manualmente recebendo remuneração por tarefa”. Essa exigência é justificada por Rodolpho Fuchs em matéria para o jornal A Manhã, em que menciona, devido ao fato de o país ainda não ter “um completo desenvolvimento da sua indústria mecanizada”, ser necessária a adoção de dois planos de ensino na escola – um “rudimentar, usando o menos possível o maquinário e complicações da mecanização” e o outro com o “uso eficiente de maquinário, aparelhos, filtros etc.” –, porque numa situação de falta de maquinário os alunos saberiam substituí-lo por sua habilidade e técnica (Desenvolvendo..., 30 out. 1942DESENVOLVENDO... Desenvolvendo a indústria da pesca em nosso país. A Manhã. 30 out. 1942., p.10). Quanto à remuneração concedida por tarefa aos menores, era uma prática adotada não apenas naquela unidade do ACR, mas em todas as demais, como no Instituto Profissional Getúlio Vargas (IPGV), conforme mencionou o doutor Hélion Póvoa num dos relatórios oficiais da entidade: “O Instituto gratifica aqueles que, aprendendo, já produzem ... jamais explorando o trabalho de quem quer que seja” (ACR, 1938-1945ACR. Abrigo Cristo Redentor. Relatórios oficiais do Abrigo Cristo Redentor, 1938-1945. (Arquivo Central do Ministério do Desenvolvimento Social, Brasília). 1938-1945., relatório 1942, p.23).

Figura 7
: Alunos da EPDV fazendo exercícios da disciplina semáfora, correspondente à comunicação por meio de sinais com bandeirolas (Marambaia, 1945MARAMBAIA. Marambaia. Direção: Humberto Mauro. Rio de Janeiro: Instituto Nacional de Cinema Educativo. Documentário, curta-metragem. 35mm, 18 min 22 seg. Disponível em: <http://cinemateca.gov.br>. Acesso em: 11 set. 2011. 1945.
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)

Figura 8
: Alunos da EPDV reparando redes de pesca (Agência Nacional, 2 jan. 1944)

Figura 9
: Alunos da EPDV reparando redes de pesca (Agência Nacional, 2 jan. 1944)

O documentário do Ince aborda também o modo como era estruturado o ensino na EPDV. Os alunos da primeira série aprendiam e praticavam a pesca denominada arrastão. Depois, eram iniciados na pesca de caniço ou de linha e, posteriormente, na de caráter industrial, feita em embarcações motorizadas, que propiciavam a pesca da sardinha, peixes de fundo e, sobretudo, do cação e do boto. A equipe envolvida com este último tipo de pesca era composta por pescadores experientes, instrutores e pela turma de aprendizes (Caminha, 2012CAMINHA, Mônica de Souza Alves da Cruz. Abrigo do Cristo Redentor: estado e assistência social no primeiro Governo Vargas (1936-1945). Dissertação (Mestrado) – Casa de Oswaldo Cruz/Fiocruz, Rio de Janeiro. 2012., p.88). Nas fábricas, os alunos eram envolvidos em todas as etapas de preparação da sardinha em conserva, desde a limpeza do peixe até seu ajuste nas latas (Figuras 10 e 11).

Figura 10
: Aluno da EPDV limpando sardinhas sob as vistas de Vargas e sua comitiva (Agência Nacional, 13 jan. 1945)

Figura 11
: Alunos da EPDV trabalhando na preparação das sardinhas em lata (Agência Nacional, 13 jan. 1945)

Como na ilha da Marambaia o cação era abundante, chegando à produção de aproximadamente 12 mil quilos ao mês, o doutor Humberto Cardoso, assistente técnico do Instituto Oswaldo Cruz (IOC), instalou ali um laboratório para realização de pesquisas sobre a natureza e a riqueza do óleo de fígado de cação, sobretudo em relação a sua concentração de vitamina D. A expectativa do doutor Cardoso era que o óleo de fígado de cação substituísse o óleo de fígado de bacalhau num momento de escassez desse produto no mercado interno devido ao contexto de guerra internacional (Cardoso, 1946CARDOSO, Humberto T. Estudos sobre óleos de fígado de cação, II. Memórias do Instituto Oswaldo Cruz, v.44, n.2, p.215-220. 1946., p.1, 2). O pesquisador defendia a retirada dos fígados do peixe o mais cedo possível, logo após a chegada do material à terra, porque havia um sensível declínio da riqueza vitamínica do animal após sua morte. Dessa forma, segundo ele, ocorria a preservação da vitamina A e se garantia a qualidade do próprio óleo. Os alunos da Escola de Pesca participavam de todo o processo de preparação industrial do óleo de fígado de cação, da pesca e limpeza do peixe às atividades laboratoriais (Figuras 12 e 13).

Figura 12
: Aluno fazendo a limpeza do cação na ocasião da visita de Vargas à EPDV (Agência Nacional, 13 jan. 1945)

Figura 13
: Aluno trabalhando na preparação do óleo de fígado de cação no laboratório da EPDV (Marambaia, 1945MARAMBAIA. Marambaia. Direção: Humberto Mauro. Rio de Janeiro: Instituto Nacional de Cinema Educativo. Documentário, curta-metragem. 35mm, 18 min 22 seg. Disponível em: <http://cinemateca.gov.br>. Acesso em: 11 set. 2011. 1945.
http://cinemateca.gov.br>...
)

Havia também na EPDV, além dos departamentos Industrial e Marítimo – este último responsável pelo escoamento da produção da escola –,9 9 Além da pesca e da sua industrialização, como sardinha enlatada e o óleo de fígado de cação, a EPDV envolvia-se no cultivo de verduras e legumes e na produção da padaria, que fornecia pão e doces para toda a cidade, assim como para as outras unidades daquela obra assistencial (ACR, 1938-1945, relatório 1941, p.33, 34; Núcleo modelar..., 29 dez. 1941, p.9). uma seção de Construção Naval, onde os alunos aprendiam a construir barcos e fazer peças para diversas embarcações (Desenvolvendo..., 30 out. 1942DESENVOLVENDO... Desenvolvendo a indústria da pesca em nosso país. A Manhã. 30 out. 1942., p.10). Somente em 1944 foram construídos ali cinco baleeiras, três canoas de pesca, uma canoa a motor, duas lanchas e uma catraia (ACR, 1938-1945ACR. Abrigo Cristo Redentor. Relatórios oficiais do Abrigo Cristo Redentor, 1938-1945. (Arquivo Central do Ministério do Desenvolvimento Social, Brasília). 1938-1945., relatório 1944, p.34). Os alunos também se dedicavam ao reparo de toda a frota de pesca nos estaleiros da escola, que em 1944 totalizava dez embarcações: as traineiras Presidente Vargas e Ministro Capanema, que faziam o serviço de transporte entre a ilha e o Rio de Janeiro; as traineiras Almirante Guilhem, Hildebrando Góes, D. Santa e Amaral Peixoto; o barco Romero Estelita; as caçoeiras Carneiro de Mendonça, São Francisco de Assis e a lancha Alzirinha (Os estaleiros..., 7 jan. 1944OS ESTALEIROS... Os estaleiros de Marambaia. A Noite. 7 jan. 1944., p.9) (Figuras 14 e 15).

Figura 14
: Alunos da EPDV aprendendo a construir barcos e consertar peças das embarcações nos estaleiros da Escola (Agência Nacional, 2 jan. 1944)

Figura 15
: Alunos da EPDV aprendendo a construir barcos e consertar peças das embarcações nos estaleiros da Escola (Agência Nacional, 2 jan. 1944)

A formatura da primeira turma de alunos da EPDV ocorreu em 1945. Em meio às autoridades presentes na solenidade ocorrida na ilha da Marambaia estavam: o presidente Getúlio Vargas, o chefe da Casa Civil, Firmo Freire do Nascimento, os ministros da Marinha e da Educação e Saúde, almirante Aristides Guilhem e Gustavo Capanema, respectivamente, Ernani do Amaral Peixoto, entre outros. Na ocasião, o ministro Gustavo Capanema discursou sobre a “missão” que aqueles alunos teriam ao sair da escola:

A vossa ‘missão, a missão dos pescadores’, tem uma responsabilidade enorme para a Nação. Sois, por um lado, ‘trabalhadores’ da economia nacional. Bem sabeis que até agora a indústria da pesca era primitiva, insegura e falha em nosso país. Sois os primeiros diplomados pela Escola Darcy Vargas e isso confere à vossa responsabilidade um sentido de maior exigência. Em segundo lugar, tendes responsabilidades com as defesas de nossos rios e litoral, com isso haveis de construir preciosa falange de soldados brasileiros, na constante vigia e guarda de nossas águas (citado em Alves, 2010ALVES, Vladimir Zamorano. Antiga Escola da Marambaia: história e memória de uma experiência do ensino industrial da pesca (1939-1971). Dissertação (Mestrado) – Departamento de Educação, Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro. 2010., p.27; destaques meus).

O ministro Capanema chamava a atenção dos menores para a responsabilidade que agora teriam, como artífices da pesca, em trabalhar em prol do desenvolvimento econômico do país e da defesa nacional, já que naquele momento receberiam também o certificado de reservistas navais (ACR, 1938-1945ACR. Abrigo Cristo Redentor. Relatórios oficiais do Abrigo Cristo Redentor, 1938-1945. (Arquivo Central do Ministério do Desenvolvimento Social, Brasília). 1938-1945., relatório 1944, p.20).

No auditório, onde se realizava a formatura, atrás da mesa onde sentavam as autoridades, observava-se na parede, além do crucifixo, duas frases atribuídas a Getúlio Vargas: “O melhor cidadão é o que pode ser mais útil aos seus semelhantes” e “O trabalho é o maior fator da elevação da dignidade humana”. As frases transmitiam uma mensagem a todos os presentes: o trabalho era o meio pelo qual o indivíduo se transformava em um cidadão útil aos seus semelhantes e à pátria. Essa era a ideologia propagada pelo Estado Novo, de valorização do trabalho e dos trabalhadores, que era a “expressão viva e máxima de nossas possibilidades de desenvolvimento socioeconômico” para o estabelecimento de uma nação próspera e harmoniosa (Gomes, 1982GOMES, Ângela de Castro. O redescobrimento do Brasil. In: Gomes, Ângela de Castro; Oliveira, Lúcia Lippi; Velloso, Mônica Pimenta (Org.). Estado Novo: ideologia e poder. Rio de Janeiro: Zahar. p.109-150. 1982., p.122) (Figuras 16, 17 e 18).10 10 É importante apontar que as fotografias da Escola de Pesca representam apenas uma determinada visão do passado, um recorte de um fragmento daquela realidade realizado por um sujeito histórico, o fotógrafo da Agência Nacional. Conforme afirma Kossoy (1989, p. 72,73): “[a fotografia é] o resultado final de uma seleção de possibilidades de ver, optar e fixar um certo aspecto da ‘realidade primeira’, cuja decisão cabe exclusivamente ao fotógrafo”. Ou seja, a fotografia deve ser considerada uma escolha realizada num conjunto de escolhas possíveis, “guardando esta atitude uma relação estreita entre a visão de mundo daquele que aperta o botão e faz ‘clic”’ (Mauad, 1996, p.4). Dentro dessa perspectiva, é relevante considerar a possibilidade de essas imagens serem o resultado de uma “manipulação” técnica, estética ou ideológica realizada pelo seu autor, que, ora “Dramatizando ou valorizando esteticamente os cenários”, ora “omitindo ou introduzindo detalhes”, utiliza todos os recursos interpretativos para satisfazer a expectativa dos seus clientes (Kossoy, 1989, p.73, 76). No caso da Escola de Pesca, as imagens apontam frases de cunho ideológico (de valorização ao trabalho, afim à ideologia estadonovista), a presença de elementos religiosos (como o crucifixo na parede), assim como a disposição em cena de autoridades e meninos recém-formados, como profissionais da pesca, com uma expressão sisuda, ao lado do presidente Vargas, padrinho daquele projeto social e político. Por isso, tais imagens precisam ser analisadas em conexão com outras fontes históricas, para que seja obtida melhor compreensão dessa realidade passada, para se ter, conforme nos orienta o próprio Kossoy (1989, p.80), “maiores elementos para compreender a atitude dos personagens estáticos e mudos dos cenários parados no tempo”.

Figura 16
: Discurso do ministro Gustavo Capanema na formatura da primeira turma de artífices da pesca na EPDV, tendo à mesa (da esquerda para direita) Firmo Freire do Nascimento, Vargas, Capanema (ao centro e de pé), Ernani do Amaral Peixoto, padre Olímpio de Melo (Agência Nacional, 13 jan. 1945)

Figura 17
: Vargas entregando o diploma de artífice da pesca a um dos alunos da EPDV. Da direita para a esquerda, Ernani do Amaral Peixoto, Gustavo Capanema, Rodolph Fuchs (atrás de Vargas), Firmo Freire do Nascimento, almirante Aristides Guilhem e Levi Miranda (de terno escuro) (Agência Nacional, 13 jan. 1945)

Figura 18
: Vargas com a primeira turma de formandos da EPDV (Agência Nacional, 13 jan. 1945)

Não foi à toa que o governo apoiou a Escola de Pesca do ACR desde os primeiros anos, pois esse estabelecimento estava dedicado à transformação dos menores em trabalhadores, artífices da pesca, aptos a contribuir para o esforço coletivo em prol do desenvolvimento nacional. Como outras instituições voltadas para a assistência de menores na época, a EPDV recebeu grande incentivo por parte do governo varguista, que considerava a educação uma das principais estratégias para viabilizar a concretização do seu projeto nacionalizador. Conforme afirma Helena Bomeny (1999BOMENY, Helena M. B. Três decretos e um ministério: a propósito da educação no Estado Novo. In: Pandolfi, Dulce (Org.). Repensando o Estado Novo. Rio de Janeiro: Editora FGV. p.137-166. 1999., p.139; destaque no original):

Formar um ‘homem novo’ para um Estado Novo, conformar mentalidades e criar o sentimento de brasilidade, fortalecer a identidade do trabalhador, ou por outra, forjar uma identidade positiva no trabalhador brasileiro, tudo isso fazia parte de um grande empreendimento cultural e político para o sucesso do qual contava-se estrategicamente com a educação por sua capacidade universalmente reconhecida de socializar os indivíduos nos valores que as sociedades, através de seus segmentos organizados, querem ver internalizados.

Nesse sentido, a educação era considerada um instrumento capaz de viabilizar a formação desse “homem novo”, com uma nova mentalidade, imbuído de valores morais e cívicos, de uma concepção positiva do trabalho (Caminha, 2012CAMINHA, Mônica de Souza Alves da Cruz. Abrigo do Cristo Redentor: estado e assistência social no primeiro Governo Vargas (1936-1945). Dissertação (Mestrado) – Casa de Oswaldo Cruz/Fiocruz, Rio de Janeiro. 2012., p.111). Em relação ao papel desempenhado pelo ACR nesse sentido, o doutor Hélion Póvoa, seu dirigente, testemunhava que aquela instituição, por meio da educação, havia modificado “muitos maus destinos, permutando [sic] por prováveis probos operários, senhores de ofícios manuais valiosos” (ACR, 1938-1945ACR. Abrigo Cristo Redentor. Relatórios oficiais do Abrigo Cristo Redentor, 1938-1945. (Arquivo Central do Ministério do Desenvolvimento Social, Brasília). 1938-1945., relatório 1940, p.39-41).

Os dirigentes do ACR também tinham a expectativa de propiciar a formação de profissionais adaptados à realidade nacional, conforme é possível constatar por meio das palavras do seu dirigente, doutor Hélion Póvoa, num dos relatórios oficiais da instituição:

Um ponto, porém, é capital, e os dirigentes do ‘Abrigo’, quer na Diretoria como na Superintendência técnica, sempre o abordaram com o máximo de preocupação: necessitamos de profissionais e técnicos, em número extraordinário, quanto mais melhor, mas é imprescindível que a preparação se faça num sentido não raro esquecido: ‘formação de profissionais para o Brasil, ajustado as suas realidades’, ao nosso salário, com o equipamento de ferramentas que possuímos, e não um trabalhador cheio de exigências e imposições, com ordenados exorbitantes, desejando só trabalhar nos grandes centros, correndo para as capitais e abandonando o interior do país (ACR, 1938-1945ACR. Abrigo Cristo Redentor. Relatórios oficiais do Abrigo Cristo Redentor, 1938-1945. (Arquivo Central do Ministério do Desenvolvimento Social, Brasília). 1938-1945., relatório 1941, p.29; destaques meus).

Sendo assim, o ACR do Rio de Janeiro, por meio da sua Escola de Pesca, buscava formar trabalhadores para um “Brasil real”, “ajustados” a sua realidade, desejosos de trabalhar não apenas nos grandes centros, mas também em outras regiões do país, como pescadores.

A Escola de Pesca do ACR também veio preencher uma lacuna até então existente no ensino profissional da época, como afirmou o próprio ministro Gustavo Capanema em seu discurso de lançamento do barco batizado com seu nome:

A escola de pesca, fundada na ilha de Marambaia, não só por ter vindo suprir uma das maiores deficiências de nosso aparelho educacional como também pelo admirável plano com que foi estabelecida, mereceu desde logo o apoio e a colaboração do governo (Lançado ao mar..., 12 nov. 1942LANÇADO AO MAR... Lançado ao mar, na Escola Técnica Darcy Vargas, o barco “Ministro Capanema”. A Manhã. 12 nov. 1942.).

Sem dúvida, a Escola de Pesca do Abrigo do Cristo Redentor se constituiu numa “experiência singular no âmbito do ensino industrial do Brasil” (Alves, 2012ALVES, Vladimir Zamorano. Missão, industrialismo e obra assistencial: a criação da Escola de Pesca Darcy Vargas (1939). Revista de Educação Popular, v.11, n.1, p.126-135. 2012., p.126), mas o amplo apoio e a colaboração recebidos do governo11 11 Pode-se mensurar a dimensão desse auxílio governamental a partir dos dados relativos a verbas liberadas para suas obras de construção e demais iniciativas, que propiciaram uma rápida expansão de suas instalações (Caminha, 2012). não se deveram apenas a isso. Como foi abordado, a EPDV possuía uma proposta assistencial voltada para a classe de pescadores e suas famílias na ilha da Marambaia, um projeto educacional destinado aos filhos menores de pescadores locais e de diversas outras regiões do país e um discurso afinado com a ideologia estadonovista (Figura 19). Dessa forma, a Escola de Pesca do ACR cumpria seu papel formando artífices pescadores, trabalhadores de um “Brasil real”, que contribuiriam para o esforço coletivo em prol do desenvolvimento socioeconômico do país moderno e harmonioso propagandeado por Vargas.

Figura 19
: Vista panorâmica da EPDV, com o seu pavilhão principal à esquerda, sendo identificadas à frente as torres da igreja. Acredita-se que as casas perfiladas mais ao fundo que compunham a vila dos pescadores (Agência Nacional, 2 jan. 1944)

REFERÊNCIAS

  • ACR. Abrigo Cristo Redentor. Relatórios oficiais do Abrigo Cristo Redentor, 1938-1945. (Arquivo Central do Ministério do Desenvolvimento Social, Brasília). 1938-1945.
  • AGÊNCIA NACIONAL. Presidente Getúlio Dornelles Vargas (1939-1945) fora do Palácio do Catete: visita a ilha de Marambaia, Rio de Janeiro, RJ. BR RJANRIO EH.0.FOT, PRP.1750 (Arquivo Nacional, Rio de Janeiro). 13 jan. 1945.
  • AGÊNCIA NACIONAL. Reportagem na Escola de Pesca em Marambaia e Santa Cruz, Rio de Janeiro, RJ, BR RJANRIO EH.0.FOT, EVE.8249 (Arquivo Nacional, Rio de Janeiro). 2 jan. 1944.
  • AGÊNCIA NACIONAL. Presidente Getúlio Dornelles Vargas (1939-1945) fora do Palácio do Catete: visita a ilha de Marambaia, RJ. BR RJANRIO EH.0.FOT, PRP.1425 (Arquivo Nacional, Rio de Janeiro). 23 jun. 1940.
  • ALVES, Vladimir Zamorano. Missão, industrialismo e obra assistencial: a criação da Escola de Pesca Darcy Vargas (1939). Revista de Educação Popular, v.11, n.1, p.126-135. 2012.
  • ALVES, Vladimir Zamorano. Antiga Escola da Marambaia: história e memória de uma experiência do ensino industrial da pesca (1939-1971). Dissertação (Mestrado) – Departamento de Educação, Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro. 2010.
  • BOMENY, Helena M. B. Três decretos e um ministério: a propósito da educação no Estado Novo. In: Pandolfi, Dulce (Org.). Repensando o Estado Novo Rio de Janeiro: Editora FGV. p.137-166. 1999.
  • BRASIL. Decreto-lei n.5.760, de 19 ago. 1943. Autoriza a celebração de acordo com o Abrigo do Cristo Redentor, para a instituição, pela União Federal, de uma fundação, e dá outras providências. Disponível em: <https://www2.camara.leg.br/legin/fed/declei/1940-1949/decreto-lei-5760-19-agosto-1943-415918-publicacaooriginal-1-pe.html> Acesso em: 13 nov. 2019. 19 ago. 1943.
    » https://www2.camara.leg.br/legin/fed/declei/1940-1949/decreto-lei-5760-19-agosto-1943-415918-publicacaooriginal-1-pe.html>
  • CAMINHA, Mônica de Souza Alves da Cruz. Abrigo do Cristo Redentor: estado e assistência social no primeiro Governo Vargas (1936-1945). Dissertação (Mestrado) – Casa de Oswaldo Cruz/Fiocruz, Rio de Janeiro. 2012.
  • CARDIA, Mirian Lopes. Fundo Agência Nacional. Disponível em: <http://www.arquivonacional.gov.br/br/ultimas-noticias/262-fundo-agencia-nacional.html> Acesso em: 13 ago. 2019. 19 out. 2016.
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  • CARDOSO, Humberto T. Estudos sobre óleos de fígado de cação, II. Memórias do Instituto Oswaldo Cruz, v.44, n.2, p.215-220. 1946.
  • CARVALHAL, Fernanda Caraline de Almeida. Luz, câmera, educação! O Instituto Nacional de Cinema Educativo e a formação da cultura áudio-imagética escolar. Dissertação (Mestrado) – Universidade Estácio de Sá, Rio de Janeiro. 2008.
  • DESENVOLVENDO... Desenvolvendo a indústria da pesca em nosso país. A Manhã 30 out. 1942.
  • DIP. Departamento de Imprensa e Propaganda. Disponível em: <https://cpdoc.fgv.br/producao/dossies/AEraVargas1/anos37-45/EducacaoCulturaPropaganda/DIP> Acesso em: 13 ago. 2019. s.d.
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  • GOMES, Ângela de Castro. O redescobrimento do Brasil. In: Gomes, Ângela de Castro; Oliveira, Lúcia Lippi; Velloso, Mônica Pimenta (Org.). Estado Novo: ideologia e poder. Rio de Janeiro: Zahar. p.109-150. 1982.
  • KOSSOY, Boris. Fotografia e história São Paulo: Ática. 1989.
  • LANÇADO AO MAR... Lançado ao mar, na Escola Técnica Darcy Vargas, o barco “Ministro Capanema”. A Manhã 12 nov. 1942.
  • MARAMBAIA. Marambaia. Direção: Humberto Mauro. Rio de Janeiro: Instituto Nacional de Cinema Educativo. Documentário, curta-metragem. 35mm, 18 min 22 seg. Disponível em: <http://cinemateca.gov.br> Acesso em: 11 set. 2011. 1945.
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  • MAUAD, Ana Maria. Através da imagem: fotografia e história: interfaces. Tempo, v.1, n.2, p.73-98. 1996.
  • MIRANDA, Levi. Carta ao Presidente Getúlio Vargas. Rio de Janeiro. Gabinete Civil da Presidência da República (Arquivo Nacional, Rio de Janeiro). 19 abr. 1944.
  • NA CIDADE... Na cidade dos pescadores. A Noite 28 dez. 1941.
  • NÚCLEO... Núcleo modelar da indústria da pesca. A Noite 29 dez. 1941.
  • OS ESTALEIROS... Os estaleiros de Marambaia. A Noite 7 jan. 1944.
  • QUEIROZ, Alberto de Andrade. Circular aos interventores federais. Gabinete Civil da Presidência da República (Arquivo Nacional, Rio de Janeiro). 8 jun. 1944.

NOTAS

  • 1
    Escola de Pesca Darcy Vargas (EPDV) foi o nome dado a essa instituição de 1939 a 1942. Em 1942, a escola recebeu o caráter de estabelecimento federal de ensino e passou a ser chamada Escola Técnica Darcy Vargas (ETDV). A ETDV continuou sendo dirigida pelo ACR, mas, a partir de então, sob a fiscalização do Ministério da Educação e Saúde. No período de 1965 a 1970 passou a se chamar Colégio Técnico Darcy Vargas. Neste texto optou-se por adotar o título Escola de Pesca Darcy Vargas (EPDV).
  • 2
    O Abrigo do Cristo Redentor (ACR) foi criado na cidade do Rio de Janeiro, em 1935, por iniciativa de Rafael Levi Miranda (1889-1969), como Obra de Assistência aos Mendigos e Menores Desamparados. Com sua expansão, tanto no número de departamentos como na diversificação do público-alvo atendido, passou a ser denominado, em 1943, Fundação Abrigo Cristo Redentor (Brasil, 19 ago. 1943BRASIL. Decreto-lei n.5.760, de 19 ago. 1943. Autoriza a celebração de acordo com o Abrigo do Cristo Redentor, para a instituição, pela União Federal, de uma fundação, e dá outras providências. Disponível em: <https://www2.camara.leg.br/legin/fed/declei/1940-1949/decreto-lei-5760-19-agosto-1943-415918-publicacaooriginal-1-pe.html>. Acesso em: 13 nov. 2019. 19 ago. 1943.
    https://www2.camara.leg.br/legin/fed/dec...
    ).
  • 3
    Para mais detalhes sobre verbas para o financiamento das obras da EPDV, ver Caminha (2012CAMINHA, Mônica de Souza Alves da Cruz. Abrigo do Cristo Redentor: estado e assistência social no primeiro Governo Vargas (1936-1945). Dissertação (Mestrado) – Casa de Oswaldo Cruz/Fiocruz, Rio de Janeiro. 2012., p.84, 85).
  • 4
    Não foram encontrados registros ou fontes que pudessem confirmar que esses meninos uniformizados eram alunos da EPDV. Além disso, a informação que se possui é a de que as atividades de ensino nessa escola só começaram em 1941.
  • 5
    Rodolpho Fuchs foi cedido pelo Ministério da Educação e Saúde, onde era diretor da Divisão de Ensino Industrial do Departamento Nacional de Educação, para inicialmente assumir a direção técnica geral do Instituto Profissional Getúlio Vargas (IPGV), um dos departamentos do ACR, em 14 de novembro de 1938. Posteriormente, foi também nomeado diretor-geral da parte educativa de todas as escolas integrantes do ACR (Caminha, 2012CAMINHA, Mônica de Souza Alves da Cruz. Abrigo do Cristo Redentor: estado e assistência social no primeiro Governo Vargas (1936-1945). Dissertação (Mestrado) – Casa de Oswaldo Cruz/Fiocruz, Rio de Janeiro. 2012., p.114-116).
  • 6
    O doutor Hélion de Menezes Póvoa foi o segundo presidente do ACR e redator dos relatórios oficiais da instituição de 1936 até 1944, ano do seu falecimento.
  • 7
    Criado em 1936, sob a coordenação do Ministério da Educação e Saúde, o Ince foi o primeiro órgão estatal brasileiro dedicado ao cinema e “produziu mais de quatrocentos documentários de curtas e médias metragens voltados à educação popular, divulgação da ciência e tecnologia” até 1966, quando foi transformado em Instituto Nacional de Cinema (INC), direcionado à produção industrial e tendo removido seu caráter educativo (Carvalhal, 2008CARVALHAL, Fernanda Caraline de Almeida. Luz, câmera, educação! O Instituto Nacional de Cinema Educativo e a formação da cultura áudio-imagética escolar. Dissertação (Mestrado) – Universidade Estácio de Sá, Rio de Janeiro. 2008., p.22, 73, 86).
  • 8
    A Agência Nacional era um órgão de informação do governo federal, vinculado ao Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP), responsável pela produção e distribuição de matérias a todos os órgãos de imprensa, garantindo assim praticamente o monopólio do noticiário (Cardia, 2016CARDIA, Mirian Lopes. Fundo Agência Nacional. Disponível em: <http://www.arquivonacional.gov.br/br/ultimas-noticias/262-fundo-agencia-nacional.html>. Acesso em: 13 ago. 2019. 19 out. 2016.
    http://www.arquivonacional.gov.br/br/ult...
    ; DIP, s.d.).
  • 9
    Além da pesca e da sua industrialização, como sardinha enlatada e o óleo de fígado de cação, a EPDV envolvia-se no cultivo de verduras e legumes e na produção da padaria, que fornecia pão e doces para toda a cidade, assim como para as outras unidades daquela obra assistencial (ACR, 1938-1945ACR. Abrigo Cristo Redentor. Relatórios oficiais do Abrigo Cristo Redentor, 1938-1945. (Arquivo Central do Ministério do Desenvolvimento Social, Brasília). 1938-1945., relatório 1941, p.33, 34; Núcleo modelar..., 29 dez. 1941, p.9).
  • 10
    É importante apontar que as fotografias da Escola de Pesca representam apenas uma determinada visão do passado, um recorte de um fragmento daquela realidade realizado por um sujeito histórico, o fotógrafo da Agência Nacional. Conforme afirma Kossoy (1989KOSSOY, Boris. Fotografia e história. São Paulo: Ática. 1989., p. 72,73): “[a fotografia é] o resultado final de uma seleção de possibilidades de ver, optar e fixar um certo aspecto da ‘realidade primeira’, cuja decisão cabe exclusivamente ao fotógrafo”. Ou seja, a fotografia deve ser considerada uma escolha realizada num conjunto de escolhas possíveis, “guardando esta atitude uma relação estreita entre a visão de mundo daquele que aperta o botão e faz ‘clic”’ (Mauad, 1996MAUAD, Ana Maria. Através da imagem: fotografia e história: interfaces. Tempo, v.1, n.2, p.73-98. 1996., p.4). Dentro dessa perspectiva, é relevante considerar a possibilidade de essas imagens serem o resultado de uma “manipulação” técnica, estética ou ideológica realizada pelo seu autor, que, ora “Dramatizando ou valorizando esteticamente os cenários”, ora “omitindo ou introduzindo detalhes”, utiliza todos os recursos interpretativos para satisfazer a expectativa dos seus clientes (Kossoy, 1989KOSSOY, Boris. Fotografia e história. São Paulo: Ática. 1989., p.73, 76). No caso da Escola de Pesca, as imagens apontam frases de cunho ideológico (de valorização ao trabalho, afim à ideologia estadonovista), a presença de elementos religiosos (como o crucifixo na parede), assim como a disposição em cena de autoridades e meninos recém-formados, como profissionais da pesca, com uma expressão sisuda, ao lado do presidente Vargas, padrinho daquele projeto social e político. Por isso, tais imagens precisam ser analisadas em conexão com outras fontes históricas, para que seja obtida melhor compreensão dessa realidade passada, para se ter, conforme nos orienta o próprio Kossoy (1989KOSSOY, Boris. Fotografia e história. São Paulo: Ática. 1989., p.80), “maiores elementos para compreender a atitude dos personagens estáticos e mudos dos cenários parados no tempo”.
  • 11
    Pode-se mensurar a dimensão desse auxílio governamental a partir dos dados relativos a verbas liberadas para suas obras de construção e demais iniciativas, que propiciaram uma rápida expansão de suas instalações (Caminha, 2012CAMINHA, Mônica de Souza Alves da Cruz. Abrigo do Cristo Redentor: estado e assistência social no primeiro Governo Vargas (1936-1945). Dissertação (Mestrado) – Casa de Oswaldo Cruz/Fiocruz, Rio de Janeiro. 2012.).

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    27 Jan 2020
  • Data do Fascículo
    2019

Histórico

  • Recebido
    24 Jan 2019
  • Aceito
    28 Ago 2019
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