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Entre páreos e galopes: dinâmicas sociais e as corridas de cavalos no contexto sul-rio-grandense do início do século XX

Between races and galloping: social dynamics and horse racing in Rio Grande Do Sul context at the beginning of the 20th Century

RESUMO

Esta pesquisa busca investigar conformações das práticas equestres de corrida no espaço social de Santa Cruz do Sul/Rio Grande do Sul na primeira década do século XX. Com base em preceitos históricos e socioculturais, foram analisados indícios em documentos impressos, especialmente o jornal Kolonie. A partir do cotejamento e interpretação das evidências, pondera-se sobre uma configuração cunhada pelas dependências dinâmicas de pessoas que se organizavam em torno de práticas centradas no cavalo, estabelecendo relações socioculturais, equilibradas em aproximações e distanciamentos sobre noções de identidade e classe.

Palavras-chave:
corridas de cavalos; turfe; história do esporte

ABSTRACT

This research seeks to investigate conformations of horse racing practices in the social space of Santa Cruz do Sul/Rio Grande do Sul in the first decade of the 20th century. Based on historical and sociocultural precepts, evidence in printed documents were analyzed, especially the Kolonie newspaper. From the comparison and interpretation of evidence, we ponder on a configuration coined by the dynamic dependencies of people who organized themselves around horse-centered practices, establishing sociocultural relations, balanced in approximations and detachments on notions of identity and class.

Keywords:
horse racing; turf; sport history

A colônia alemã de Santa Cruz do Sul foi fundada em 1849 na região central do Estado do Rio Grande do Sul, mais especificamente na localidade denominada Vale do Rio Pardo. Santa Cruz do Sul, até os dias atuais, preserva práticas e representações reminiscentes de uma cultura teuto-brasileira, trazida pelos imigrantes alemães que se instalaram na localidade em meados do século XIX. Indícios desse atravessamento cultural são identificados em vários domínios até mesmo no associativismo esportivo, que remonta a iniciativas dos imigrantes alemães no século XIX (MAZO, 2003MAZO, Janice Zarpellon. A emergência e a expansão do associativismo desportivo em Porto Alegre (1867-1945): espaço de representação da identidade cultural teuto-brasileira. 2003. Tese (Doutorado em Ciência do Desporto) - Universidade do Porto, Porto - Portugal, 2003.; ASSMANN, 2015ASSMANN, Alice Beatriz. O associativismo esportivo em Santa Cruz do Sul/Rio Grande do Sul: configurações de práticas culturais (da década de 1880 à década de 1910). 2015. 156 f. Dissertação (Mestrado em Ciências do Movimento Humano) - Escola de Educação Física, Fisioterapia e Dança, Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 2015., 2019).

Após um período de adaptação ao novo meio, os imigrantes e descendentes de alemães se uniram para organizar associações esportivas que oportunizassem momentos de sociabilidade e compartilhamento de costumes e ideais. Por meio da apropriação de práticas culturais, os santa-cruzenses produziram e negociaram representações de identidades e distinções. Dentre as práticas apropriadas pelos teuto-brasileiros de Santa Cruz do Sul, em finais do século XIX, e institucionalizadas em associações, destacavam-se as de tiro ao alvo, de cavaleiros, de bolão e de ginástica. Tais práticas, oriundas de modelos europeus, foram reinventadas a fim de legitimar um espaço social com representações de distinção social e de identidades étnico-culturais teuto-brasileiras. Enquanto as associações voltadas para o tiro ao alvo e à cavalaria manifestavam representações paramilitares, a sociedade de ginástica, fundada em 1893, fomentava o movimento Turnen, promovendo práticas culturais, eventos e discursos voltados ao culto do corpo alemão.

No início do século XX foram incorporadas novas práticas nas associações de Santa Cruz do Sul, como corridas de cavalos, tênis e futebol. Relacionada à manifestação de tais práticas culturais, observamos a introdução do termo sport pela imprensa santa-cruzense. Assim, para analisarmos tal iniciação do emprego desse termo, primeiramente evidenciamos que estamos trabalhando com a definição de sport a partir do termo inglês que emergiu da Inglaterra, sport, e que “foi largamente adoptado por outros países como um termo genérico para esse tipo de passatempo” (ELIAS, 1992ELIAS, Norbert. Ensaio sobre o desporto e a violência. In: ELIAS, Norbert; DUNNING, Eric. A busca da excitação. Lisboa: Difel, 1992. p. 223-256., p. 187). Contudo, há uma distinção entre esporte, passatempos e divertimentos.

Elias e Dunning (1992ELIAS, Norbert. Ensaio sobre o desporto e a violência. In: ELIAS, Norbert; DUNNING, Eric. A busca da excitação. Lisboa: Difel, 1992. p. 223-256.) diferenciam os esportes dos passatempos e divertimentos “de um estádio anterior do desenvolvimento” (ELIAS; DUNNING, 1992ELIAS, Norbert. Ensaio sobre o desporto e a violência. In: ELIAS, Norbert; DUNNING, Eric. A busca da excitação. Lisboa: Difel, 1992. p. 223-256., p. 78). Esses autores consideram o esporte como parte integrante de um processo de civilização, no qual esta prática age como produtor e produto social (ELIAS; DUNNING, 1992ELIAS, Norbert. Ensaio sobre o desporto e a violência. In: ELIAS, Norbert; DUNNING, Eric. A busca da excitação. Lisboa: Difel, 1992. p. 223-256.). Assim, os passatempos e divertimentos de até, aproximadamente, o século XVIII, hoje designados como esportes, consistiram em uma das formas como a Inglaterra buscou superar dificuldades de risco de confusões e desordens socialmente inaceitáveis e de lesões recíprocas, garantindo aos indivíduos, ainda que em uma sociedade cada vez mais regulamentada, “os meios suficientes de excitação agradável em experiências compartilhadas” (ELIAS, 1992ELIAS, Norbert; DUNNING, Eric. A busca da excitação. Lisboa: Difel, 1992., p. 256). Deste modo, analisar as práticas culturais esportivas implica, invariavelmente, em considerar a sociedade na qual estão inseridas. Mais especificamente, no que tange às corridas de cavalos, em sua abordagem histórica, conforme alerta Freitas (2020FREITAS, Gustavo da Silva. As corridas de cavalo como divertimento no bairro-balneário Cassino em meados do século XX (1940-1960). Conexões: Educação Física, Esporte e Saúde, Campinas, v. 18, e020037, 2020.), há muito constam no programa de investigação dentre estudiosos/as que se aplicam à assimilação dos entrecruzamentos socioculturais e econômicos presentes dentre a manifestação das práticas esportivas e a composição das atividades urbanas.

No Brasil, especificamente no Rio de Janeiro, capital do país à época, no início do século XX, a pesquisa de Pereira (1998PEREIRA, Leonardo Affonso de Miranda. Footballmania: uma história social do futebol no Rio de Janeiro (1902-1938). 1998. 380 f. Tese (Doutorado em História) - Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, Universidade Estadual de Campinas, Campinas, 1998., p. 40) constatou que as corridas de cavalos indicavam ser “a própria definição do esporte”, conforme notícias veiculadas nos jornais. No caso do Estado do Rio Grande do Sul, o estudo de Assman (2015ASSMANN, Alice Beatriz. O associativismo esportivo em Santa Cruz do Sul/Rio Grande do Sul: configurações de práticas culturais (da década de 1880 à década de 1910). 2015. 156 f. Dissertação (Mestrado em Ciências do Movimento Humano) - Escola de Educação Física, Fisioterapia e Dança, Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 2015.) sobre a localidade de Santa Cruz do Sul averiguou que a expressão sport foi mencionada pela primeira vez no jornal Kolonie, datado do ano de 1896, quando fez referência às sociedades esportivas existentes na Alemanha, denominadas sportliche Vereinigungen1 1 O termo Sport foi inserido no dicionário Duden, de ortografia alemã, em 1887. . Vale lembrar que o ano de 1896 marca a realização da primeira edição dos Jogos Olímpicos de Verão da Era Moderna na cidade de Atenas, na Grécia, e a Alemanha participou desse evento. Nesse mesmo ano, em Porto Alegre, capital do Estado do Rio Grande do Sul, foi realizado um acontecimento marcado por competições de “ginástica de aparelhos” (atualmente denominada ginástica artística), promovido pela Turnenbund (atual Sogipa), no espaço onde hoje situa-se o Parque Moinhos de Vento (conhecido como Parcão). Os “ginastas” (atletas) vencedores das competições ganharam medalhas; mas, além dessa premiação, um ginasta que se destacou pela “conduta moral” durante as competições recebeu uma coroa de ramos de oliveira (coroa de louros), prêmio concedido aos atletas nos Jogos Olímpicos da Antiga Grécia (MAZO, 2003MAZO, Janice Zarpellon. A emergência e a expansão do associativismo desportivo em Porto Alegre (1867-1945): espaço de representação da identidade cultural teuto-brasileira. 2003. Tese (Doutorado em Ciência do Desporto) - Universidade do Porto, Porto - Portugal, 2003.). Contudo, vale a ressalva de que havia uma confrontação muito ampla, nesse período, entre ginástica e esporte. Assim, a própria aproximação do Turnen com o termo sport chegaria mais tarde, próximo à década de 1910 (ASSMANN, 2015ASSMANN, Alice Beatriz. O associativismo esportivo em Santa Cruz do Sul/Rio Grande do Sul: configurações de práticas culturais (da década de 1880 à década de 1910). 2015. 156 f. Dissertação (Mestrado em Ciências do Movimento Humano) - Escola de Educação Física, Fisioterapia e Dança, Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 2015., 2019ASSMANN, Alice Beatriz. Figurações do turnen no sul do Brasil: redes de interdependência em escolas e clubes (décadas 1870-1920). 2019. 213 f. Tese (Doutorado em Ciências do Movimento Humano) - Escola de Educação Física, Fisioterapia e Dança, Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 2019.; ASSMANN; MAZO, 2017ASSMANN, Alice Beatriz; MAZO, Janice Zarpellon. Turnen para além da ginástica: configurações dinâmicas em um espaço de práticas esportivas. Revista Brasileira de Educação Física e Esporte, v. 31, n. 2, p. 489-503, abr./jun. 2017.; QUITZAU, 2019QUITZAU, Evelise Amgarten. Entre a ginástica e o esporte: educação do corpo e manutenção da identidade nas sociedades ginásticas teuto-brasileiras. Educação em Revista, Belo Horizonte, v. 35, e217174, 2019.).

Diante de tais indícios, ponderamos que, na capital do Estado, o termo sport já circulava anteriormente ao ano veiculado pelo jornal de Santa Cruz do Sul. Afinal, a Turnenbund (atual Sogipa), foi fundada no ano de 1867, em Porto Alegre, pela iniciativa de imigrantes alemães que, possivelmente, conheciam sociedades esportivas na Alemanha. Essa sociedade de ginástica, desde os primeiros anos, não apenas introduziu práticas esportivas mas disseminou para as sociedades de ginástica sucessoras e atuou na promoção de eventos locais e regionais, como os “Festivais de Ginástica”.

Contudo, também se salienta que as relações entre o sport e o Turnen (ginástica alemã) não foram aceitas sem hostilidade e ressalvas entre os adeptos da ginástica. Naquele período, o sport remetia a práticas sociais e culturais que eram vistas como contraditórias ao que apregoava o movimento Turnen. Assim, o termo sport passou a compor, no Brasil e no Rio Grande do Sul, o vocabulário das entidades de ginástica - de forma conciliatória e não substitutiva - somente no início do século XX (ASSMANN, 2019ASSMANN, Alice Beatriz. Figurações do turnen no sul do Brasil: redes de interdependência em escolas e clubes (décadas 1870-1920). 2019. 213 f. Tese (Doutorado em Ciências do Movimento Humano) - Escola de Educação Física, Fisioterapia e Dança, Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 2019.; QUITZAU, 2019QUITZAU, Evelise Amgarten. Entre a ginástica e o esporte: educação do corpo e manutenção da identidade nas sociedades ginásticas teuto-brasileiras. Educação em Revista, Belo Horizonte, v. 35, e217174, 2019.). Essa modulação no discurso está relacionada à emergência de práticas esportivas como o futebol, bem como aos preceitos higienistas.

Ao retomarmos a alusão ao termo sport pelo jornal Kolonie, constatamos que, talvez, tenha sido motivada pela obtenção de tal informação em algum jornal alemão, uma vez que os imigrantes alemães e seus descendentes tinham acesso a jornais e revistas oriundos da Alemanha (ASSMAN, 2019ASSMANN, Alice Beatriz. Figurações do turnen no sul do Brasil: redes de interdependência em escolas e clubes (décadas 1870-1920). 2019. 213 f. Tese (Doutorado em Ciências do Movimento Humano) - Escola de Educação Física, Fisioterapia e Dança, Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 2019.). No entanto, observou-se que o vocábulo sport, quando utilizado pelo jornal Kolonie, não designava as práticas esportivas vigentes no século XIX em Santa Cruz do Sul, como o tiro ao alvo, a cavalaria, o bolão e a ginástica, as quais eram denominadas pela tradução no idioma alemão. Embora o termo sport tenha sido utilizado de forma pontual para referir-se às associações esportivas da Alemanha, quando as associações locais eram citadas pelo jornal, assumiam as nomenclaturas Vereine (sociedade), Klub (clube) e Club (clube), sendo predominante a primeira terminologia. É somente a partir da divulgação das corridas de cavalos que ocorriam na região, no início da primeira década do século XX, que o termo sport começa a ser citado no jornal Kolonie, alusivo a uma prática esportiva. Lembremos que os estudos de Mazo (2003MAZO, Janice Zarpellon. A emergência e a expansão do associativismo desportivo em Porto Alegre (1867-1945): espaço de representação da identidade cultural teuto-brasileira. 2003. Tese (Doutorado em Ciência do Desporto) - Universidade do Porto, Porto - Portugal, 2003.), Silva (2015SILVA, Carolina Fernandes da. Esportes náuticos e aquáticos no Rio Grande do Sul, Brasil: a esportivização e contatos culturais nos clubes. 2015. 263 f. Tese (Doutorado em Ciências do Movimento Humano) - Escola de Educação Física, Fisioterapia e Dança, Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 2015.) e Pereira (2016PEREIRA, Ester Liberato. Configurações sócio-históricas da equitação no Rio Grande do Sul: uma investigação das redes de interdependência nas práticas esportivas equestres. 2016. 254 f. Tese (Doutorado em Ciências do Movimento Humano) - Escola de Educação Física, Fisioterapia e Dança, Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 2016.) acerca das identidades culturais no âmbito do associativismo esportivo constataram que as corridas de cavalos eram identificadas com as associações fundadas pelos luso-brasileiros.

A corrida de cavalos, de acordo com Riess (2014RIESS, Steven. The cyclical history of horse racing: the USA’s oldest and (sometimes) most popular spectator sport. The International Journal of the History of Sport, v. 31, n. 1-2, p. 29-54, 2014.), foi o primeiro esporte euro-americano desde a era colonial. Conforme esse autor, essa prática manteve-se popular até o final do século XIX, contando com 314 pistas de corrida, cobrindo grande parte dos Estados Unidos da América. Desta forma, pode-se inferir que a apropriação do termo sport para designar as corridas de cavalos está associada, no jornal Kolonie, a manifestações que se diferenciavam das tradicionais práticas germânicas. Evidenciou-se que a palavra sport e seus derivados foram utilizados com mais frequência nas páginas do jornal na década de 1910, quando sucedeu a prática do tênis, do futebol e das modalidades da ginástica em Santa Cruz do Sul. Contudo, não era apenas o Kolonie que passava a usar o termo sport. Ainda no final do século XIX, o jornal Diário de Pelotas, publicado no Município de Pelotas, na região sul do Estado, estava empregando a mesma expressão, mas para designar outra prática (DIÁRIO DE PELOTAS, 10 abr. 1891DIÁRIO DE PELOTAS. Sport. Pelotas, ano XVII, 10 abr. 1891.). Aqui, o vocábulo sport fazia alusão às denominadas carreiras de cancha reta, que também envolviam corridas de cavalos realizadas desde o século XIX no Sul do Brasil (SANTOS; VARGAS; REMEDI, 2020SANTOS, João Manuel Casquinha Malaia; VARGAS, Jonas Moreira; REMEDI, José Martinho Rodrigues. “Uma reunião de carreiras de cavalos”: lazer, esporte e os paradoxos da modernidade no Rio Grande do Sul, séculos XIX e XX. Topoi (Rio de Janeiro), Rio de Janeiro, v. 21, n. 45, p. 682-704, set./dez. 2020.). De novo, o termosportrelacionado com práticas equestres.

Diante de tais informações, o presente estudo trata de uma temática ainda pouco problematizada na historiografia nacional: as corridas de cavalo. Segundo Ricci (2020RICCI, Marcelo Rezende. Um panorama da historiografia do turfe no Brasil: possibilidades e perspectivas. Semina - Revista dos Pós-Graduandos em História da UPF, v. 19, n. 3, p. 165-180, set./dez. 2020.), acerca da historiografia dessa prática no país, são revelados resultados que expõem que, apesar do crescimento no número de trabalhos a respeito das corridas de cavalos na última década, as perspectivas ainda são restritas. Nesta direção, o objetivo da pesquisa é investigar as conformações das práticas equestres de corrida no espaço social de Santa Cruz do Sul/Rio Grande do Sul na primeira década do século XX.

Para acercar-se da complexidade do objetivo proposto, a pesquisa sucedeu por meio da análise de documentos impressos. Foram selecionados documentos oficiais de associações ligadas às corridas de cavalos e álbuns comemorativos, bem como reportagens e anúncios de jornais, com especial atenção ao jornal Kolonie, escrito inteiramente em alemão gótico. A escolha desse jornal justifica-se porque, no período desse estudo, o Kolonie era o jornal de maior expressividade na região de Santa Cruz do Sul (WESCHENFELDER, 2010WESCHENFELDER, Greyce. A imprensa alemã no Rio Grande do Sul e o romance-folhetim. 2010. 146 f. Dissertação (Mestrado em Comunicação Social) - Faculdade de Comunicação Social, Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 2010.), tendo sido editado de 1891 a 1941 no local. Esse periódico consistiu em um relevante meio de consulta, já que, afora proporcionar o cotejamento de informações, viabilizou a coleta de dados também sobre a prática das corridas de cavalos, cujos documentos históricos são esparsos.

A fonte básica desta pesquisa, portanto, é a imprensa, aqui abarcada não como fonte de dados objetivos, mas como relevante espaço de conflitos e manejo de interesses. Nesta direção, concebe-se a imprensa não apenas como transmissora imparcial dos fatos. Luca (2010LUCA, Tânia Regina. História dos, nos e por meio dos periódicos. In: PINSKY, Carla Bassanezi (org.). Fontes históricas. São Paulo: Contexto, 2010. p. 111-153.) adverte para determinados pontos a serem avaliados, a fim de localizar o/a pesquisador/a e auxiliar uma leitura crítica dos dados. A partir das orientações da historiadora, procurou-se considerar, em todas as análises críticas do periódico Kolonie, os responsáveis e contribuintes da publicação, o público a que se propunha o jornal e os seus atributos, bem como a periodicidade, a impressão, a existência ou não de iconografias e de anúncios (LUCA, 2010LUCA, Tânia Regina. História dos, nos e por meio dos periódicos. In: PINSKY, Carla Bassanezi (org.). Fontes históricas. São Paulo: Contexto, 2010. p. 111-153.). Ao longo de todo o método, o problema de pesquisa foi, consecutivamente, o norteador das apreciações e análises críticas. Os exemplares do periódico encontram-se no CEDOC UNISC e foram fotografados desde as edições de 1891, quando foi fundado o periódico, até 1917. Dos exemplares coletados, foram selecionados os dados que condiziam com as ocorrências das categorias “associativismo esportivo”, “identidades” e do termo sport nas práticas equestres de corrida no espaço social de Santa Cruz do Sul.

Além disso, foram consultados livros, artigos, monografias, dissertações e teses. Para analisar as fontes históricas, foram empregados pressupostos teóricos alicerçados na perspectiva dos estudos históricos e socioculturais (BURKE, 2005BURKE, Peter. O que é História Cultural? Rio de Janeiro: Zahar, 2005.; ELIAS; DUNNING, 1992ELIAS, Norbert. Ensaio sobre o desporto e a violência. In: ELIAS, Norbert; DUNNING, Eric. A busca da excitação. Lisboa: Difel, 1992. p. 223-256.). Ainda nessa orientação investigativa, a análise dos documentos mencionados foi concretizada apresentando como alicerce as técnicas e métodos da análise documental (CORSETTI, 2006CORSETTI, Berenice. A análise documental no contexto da metodologia qualitativa: uma abordagem a partir da experiência de pesquisa do Programa de Pós-Graduação em Educação da Unisinos. UNIrevista, São Leopoldo, v. 1, n. 1, p. 32-46, jan. 2006.). A análise, o cruzamento e a interpretação das fontes históricas amparadas pelo referencial teórico designado comportou a integração dos dados coletados nos quatro tópicos que seguem.

Entre os páreos de Santa Cruz do Sul no início do século XX

No início do século XX, mais precisamente no ano de 1900, os santa-cruzenses assistiram à inauguração de um novo espaço: o Prado Santa Cruz. No jornal Kolonie, um anúncio avisava aos proprietários de cavalos locais: “previne-se que está prompta a cancha do ‘Prado Sta. Cruz’ e podem ahi ser galopeados cavallos” (KOLONIE, 06 jan. 1900KOLONIE. Santa Cruz do Sul, 06 jan. 1900.). Percebe-se que a notícia conclamava a comparecer, no prado, um público restrito: aqueles que tinham cavalos. Os prados eram destinados às corridas de cavalos conhecidas como turfe. Para Melo (2009MELO, Victor Andrade de. Das touradas às corridas de cavalo e regatas: primeiros momentos da configuração do campo esportivo no Brasil. In: DEL PRIORE, Mary; MELO, Victor Andrade de (org.). História do Esporte no Brasil: do império aos dias atuais. São Paulo: Editora UNESP, 2009. p. 35-70., p. 48), a prática do turfe marcou “os primeiros momentos do sport” no Brasil. Inspiradas nos modelos ingleses, as corridas de cavalos estavam associadas à “identificação com o mundo europeu” e ao “glamour ao redor da atividade”.

No final do século XIX, a capital do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, já contava com quatro prados, onde era realizada a prática do turfe (PEREIRA, 2012PEREIRA, Ester Liberato. As práticas equestres em Porto Alegre: percorrendo o processo de esportivização. 2012. 157 f. Dissertação (Mestrado em Ciências do Movimento Humano) - Escola de Educação Física, Fisioterapia e Dança, Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 2012.). Outra cidade que se destacava, no período, era Pelotas, com três prados, conforme o jornal Correio Mercantil, que, em reportagem, também citou as corridas de cavalos, principalmente onde se situa hoje a atual Estação Férrea e o Jockey Club Pelotense, o primeiro da cidade, organizado pela elite luso-brasileira no Bairro Fragata (GAZETA DE PORTO ALEGRE, 13 maio 1880GAZETA DE PORTO ALEGRE. Porto Alegre, 13 maio 1880., p. 1). Era uma época em que o Rio Grande do Sul passava por transformações sociais, políticas e econômicas, as quais repercutiram na ocupação de seus espaços. Consequentemente, novos modelos para homens e mulheres, condizentes com um incipiente cenário que se impunha, passaram a ser importados de metrópoles. Muitos costumes eram oriundos, especialmente, do Rio de Janeiro, capital do país na época.

Em meio ao processo de modernização do Estado do Rio Grande do Sul, também se estabeleceram associações esportivas dedicadas à promoção de novas práticas corporais e esportivas (MAZO, 2003MAZO, Janice Zarpellon. A emergência e a expansão do associativismo desportivo em Porto Alegre (1867-1945): espaço de representação da identidade cultural teuto-brasileira. 2003. Tese (Doutorado em Ciência do Desporto) - Universidade do Porto, Porto - Portugal, 2003.). Assim como em diferentes países, no Brasil a solidificação dos esportes apresentou vinculação aos distintos períodos de urbanização, inclusive porque a prática esportiva estava densamente articulada com o traçar de uma cultura “civilizada” e urbana, “[...] desdobramento da valorização da esfera pública como lócus de experiências [...]”, fato que traz, como um dos aspectos, o fortalecimento de um comércio em torno dos divertimentos (MELO, 2019MELO, Victor Andrade de. Um hipódromo suburbano: a experiência do Club de Corridas Santa Cruz (Rio de Janeiro - 1912/1918). Topoi (Rio de Janeiro), Rio de Janeiro, v. 20, n. 40, p. 157-184, jan./abr. 2019., p. 158). As práticas, paulatinamente, passariam a ser orientadas como um meio para a constituição de corpos dispostos a tratar a representação capitalista como valor ético primordial. As práticas culturais que incorporam caraterísticas dos esportes (ou são esportivizadas), passam a enfraquecer as corridas de cavalos na capital, apesar de outrora, na última década do século XIX, terem se equiparado, como atesta Franco (1998FRANCO, Sergio da Costa. Porto Alegre: guia histórico. 3. ed. Porto Alegre: Ed. Universidade/UFRGS, 1998., p. 103): “o prado era o estádio de futebol do porto-alegrense”.

Foram inauguradas, entre 1899 e 1907, em Porto Alegre, diferentes entidades que tentaram minimizar os conflitos entre as diferentes associações que gerenciavam cada prado e proporcionar benefícios ao turfe, tais como o Derby Club e o Turf-Club. Em 1907, uma proposta de organização de uma nova associação foi aceita e, por fim, vingou como entidade representativa do turfe sul-rio-grandense de forma permanente: a Associação Protetora do Turf. Vale mencionar que essa entidade, no ano de 1944, passou a constituir o Jockey Club do Rio Grande do Sul (ROZANO; FONSECA, 2005ROZANO, Mário; FONSECA, Ricardo da (org.). História de Porto Alegre: Jockey Club. Porto Alegre: Nova Prova, 2005.), vigente até os dias atuais. A fundação da Associação Protetora do Turf foi uma estratégia para recuperar a prática do turfe na cidade: da pluralidade de prados, sucedeu a unificação, visando preservar e consolidar o turfe. Assim como os demais prados da capital, a Associação Protetora do Turf foi organizada por uma aristocracia luso-brasileira com o intuito de reanimar o turfe na cidade, a qual passava por uma “crise bem difícil” na primeira década do século XX (CANTEIRO, 1907CANTEIRO, Oscar. Ata da 1a Sessão Preparatória. Porto Alegre, 7 set. 1907., p. 1).

Justamente no período de tratativas para uma reestruturação do turfe na capital, é inaugurado um prado em Santa Cruz do Sul. É possível que, dentre as ações para fortalecer a organização da prática em torno das corridas de cavalos, estivesse, também, o fomento à instituição de espaços em outras cidades do Estado. No mesmo ano de inauguração do Prado Santa Cruz, encontramos referência sobre corridas que aconteceriam no Prado Boa Vista, de Venâncio Aires, cidade vizinha a Santa Cruz do Sul. Na nota do jornal Kolonie, convidava-se para a “2ª Corrida”, a acontecer em um domingo, sugerindo que as atividades no local eram recentes (KOLONIE, 15 set. 1900KOLONIE. Santa Cruz do Sul, 15 set. 1900.). Cabe esclarecer que, na localidade de Venâncio Aires, residia um número expressivo de imigrantes alemães e descendentes e, talvez por isso, o jornal Kolonie tenha noticiado a corrida de cavalos da cidade coirmã.

Os dados encontrados no jornal Kolonie levam a crer que, pelo menos no dia da inauguração do prado, em Santa Cruz do Sul, estiveram presentes pessoas vindas de Porto Alegre (KOLONIE, 21 mar. 1900KOLONIE. Santa Cruz do Sul, 21 mar. 1900.; MARTIN, 1999MARTIN, Hardy Elmiro. Recortes do passado de Santa Cruz. Organizado e atualizado por Olgario Paulo Vogt e Ana Carla Wïnsch. Santa Cruz do Sul: Edunisc, 1999.). É possível que a visita de representantes do turfe porto-alegrense no evento sinalizasse o estabelecimento de uma rede hípica entre a entidade de Santa Cruz do Sul e a de Porto Alegre. Provavelmente, os visitantes de Porto Alegre eram convidados para a festividade de inauguração em Santa Cruz do Sul; afinal, os primeiros prados/hipódromos constituídos no Estado do Rio Grande do Sul foram organizados na cidade de Porto Alegre, a partir da segunda metade do século XIX. Desta forma, pode-se sugerir que o Prado de Santa Cruz buscava espelhar-se em associações de turfe onde a prática já estava constituída, como no caso da capital Porto Alegre.

O prado de Santa Cruz do Sul estabeleceu um sistema de apostas (KOLONIE, 25 out. 1900KOLONIE. Santa Cruz do Sul, 25 out. 1900.). As apostas já ocorriam nos prados de Porto Alegre, como também em outras cidades do Estado onde ocorriam corridas de cavalos. Até mesmo em outros locais do Brasil, as apostas nas corridas de cavalos eram recorrentes, mas isso não necessariamente as vincula com os acontecimentos de Santa Cruz do Sul. Contudo, é admissível que dirigentes da associação de Santa Cruz do Sul tenham buscado adotar práticas no turfe de acordo com o modelo de outras cidades.

Dentre os primeiros diretores do prado, encontra-se Jorge Frantz, empresário do setor comercial e um dos fundadores da Caixa de Crédito Santa Cruzense, em 1904 (NORONHA, 2012NORONHA, Andrius Estevam. Beneméritos empresários: história social de uma elite de origem imigrante do sul do Brasil (Santa Cruz do Sul, 1905-1966). 2012. 371 f. Tese (Doutorado em História) - Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas, Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 2012.). A presença desse agente no turfe sugere que os negócios poderiam favorecer o estabelecimento de relações intermunicipais. Considera-se que indivíduos, por meio de suas disposições básicas - isto é, suas necessidades -, são orientados uns para os outros e vinculados uns aos outros dos mais diversos modos. Esses indivíduos, assim, estabelecem “teias de interdependência” que produzem “configurações” de muitos tipos: desde a família, passando pela noção de cidade, Estado, e até de nações. Deste modo, as configurações insurgem da interdependência entre os indivíduos, suas identidades, instituições e, no caso do objeto de estudo aqui privilegiado, os praticantes, a assistência, os dirigentes, as associações e entidades, que se equilibram em uma balança de poder (simbólico, cultural e econômico), cultivando suas inter-relações sob uma tensão característica (ELIAS; DUNNING, 1992ELIAS, Norbert. Ensaio sobre o desporto e a violência. In: ELIAS, Norbert; DUNNING, Eric. A busca da excitação. Lisboa: Difel, 1992. p. 223-256.; ELIAS, 1992ELIAS, Norbert; DUNNING, Eric. A busca da excitação. Lisboa: Difel, 1992.).

Representação de status em meio à prática equestre

A primeira diretoria do Prado Santa Cruz era composta, majoritariamente, por teuto-brasileiros.2 2 Em votação da diretoria do prado, ocorrida em nove de setembro de 1900, foi escolhido como presidente Louis Bernhard; vice-presidente Fritz Sthohschön; tesoureiro Karl D. Iserhhard; secretários Philipp Jacobus e João Genz; e diretores Jorge Frantz, Eduard Frantz, J. F. Klafke e I. F. Pires. Causa estranheza que, na conjuntura de organização do prado, constava como diretor F. Weber (KOLONIE, 3 fev. 1900), nome que não aparece entre os eleitos para administrar o local. As corridas de cavalos, inclusive, já foram investigadas e analisadas como os maiores acontecimentos esportivos e de maior popularidade em outras colônias alemãs, como, por exemplo, Correa (2013CORREA, Sílvio Marcus de Souza. As corridas de cavalos na colônia alemã do sudoeste africano (1884-1914). Cadernos de Estudos Africanos, Lisboa, v. 26, p. 127-152, jul./dez. 2013.) expõe com relação ao sudoeste africano (atual Namíbia), desde o final do século XIX. No entanto, diferentemente das associações identificadas com representações germânicas no Rio Grande do Sul, encontramos, dentre os dirigentes do Prado Santa Cruz, um indivíduo com sobrenome de origem portuguesa: I. F. Pires. Talvez a presença deste luso-brasileiro seja explicada por sobressair-se na criação de cavalos e ocupar uma posição social distinta em Santa Cruz do Sul.

Tal configuração apresenta uma relação oposta à identificada no Prado Navegantes, em Porto Alegre. Silva, Pereira e Mazo (2012SILVA, Carolina Fernandes da; PEREIRA, Ester Liberato; MAZO, Janice Zarpellon. Clubes sociais: práticas esportivas e identidades culturais. Licere, Belo Horizonte, v. 15, n. 2, p. 1-21, jun. 2012.) apontaram a presença de um teuto-brasileiro entre os fundadores dessa associação, composta majoritariamente por luso-brasileiros. Além disso, registraram a presença de espectadores vindos de São Leopoldo, primeira colônia alemã do estado. Segundo as autoras Silva, Pereira e Mazo (2012SILVA, Carolina Fernandes da; PEREIRA, Ester Liberato; MAZO, Janice Zarpellon. Clubes sociais: práticas esportivas e identidades culturais. Licere, Belo Horizonte, v. 15, n. 2, p. 1-21, jun. 2012., p. 10), esse poderia ser um indício “de uma possível tentativa dos teuto-brasileiros apropriarem-se e fazerem-se presentes em uma prática identificada com os luso-brasileiros”. Tais evidências apontam para os processos de trocas de interesses proporcionadas pelo contato com diferentes grupos étnicos e suas práticas, estabelecendo relações.

Em Santa Cruz do Sul, apesar da maioria teuto-brasileira, o prado parece ter se constituído enquanto espaço de convívio social de indivíduos com diferentes representações identitárias ou que buscavam aproximar-se dessa premissa. As publicidades encontradas no jornal Kolonie permitem inferir que esse local se destinava tanto aos homens que falavam a língua portuguesa, quanto àqueles que se comunicavam em idioma alemão. Os anúncios convidativos para participação nas corridas eram colocados no jornal em ambos os idiomas (KOLONIE, 30 jan. 1900KOLONIE. Santa Cruz do Sul, 30 jan. 1900.), algo incomum às demais associações locais no período. Além da utilização da língua portuguesa, também foram encontrados, dentre os proprietários de cavalos que participavam desses eventos, sobrenomes que remetem a representações identitárias lusas, italianas e alemãs. Desta forma, pode-se depreender que a associação visava congregar, socialmente, indivíduos com diferentes representações culturais de identidades.

Todavia, no princípio das atividades no prado, os anúncios para as assembleias gerais, bem como os convites para novos acionistas, eram publicados somente em idioma alemão. Com relação à participação de não acionistas nas corridas, essa dependia de uma licença prévia dos diretores (KOLONIE, 03 fev. 1900KOLONIE. Santa Cruz do Sul, 03 fev. 1900.; KOLONIE, 30 jan. 1900KOLONIE. Santa Cruz do Sul, 30 jan. 1900.). Tal postura pode manifestar o interesse, por parte da direção, em manter o estabelecimento sob responsabilidade dos teuto-brasileiros, condicionando a participação social de indivíduos de outras etnias à sua vontade. Entretanto, isso foi logo alterado, pois, já em 1901, as reuniões da direção são noticiadas também em ambos os idiomas (KOLONIE, 13 fev. 1901KOLONIE. Santa Cruz do Sul, 13 fev. 1901.). Provavelmente, tal alteração também está relacionada com a entrada de outros dirigentes e/ou acionistas luso-brasileiros na associação.

No decorrer dos primeiros anos de funcionamento, o cargo máximo do Prado Santa Cruz foi presidido por diferentes nomes. Em abril de 1903, a presidência foi assumida por Galvão Costa (KOLONIE, 22 abr. 1903KOLONIE. Santa Cruz do Sul, 22 abr. 1903.),3 3 Vice-presidente: Luiz Bernhard; primeiro secretário: João Fidencio Simões Lopes Pires; segundo secretário: João Genz; tesoureiro: Otto Scherer; diretores: Peter Kroth, Anton Risch, Wilhelm Barth, Friederich Strohschoen, Eduard Farbtz, J. Klafke, João Fernando Klafke, Heinrich Schirmer; administrador: Henrique Kessler (KOLONIE, 22 abr. 1903). e na gestão seguinte, em 1905, por Abílio Gomes. Quando focamos nos sobrenomes das lideranças do prado e nos proprietários de cavalos, percebe-se que o Prado Santa Cruz, de modo progressivo, se modifica, assumindo, predominantemente, representações luso-brasileiras. Nessa direção, cabe considerar-se a noção de identidade de um grupo, a qual “corresponde à sua definição social, definição que permite situá-lo no conjunto social” (CUCHE, 1999CUCHE, Denys. A noção de cultura nas ciências sociais. Tradução de Viviane Ribeiro. Bauru: EDUSC, 1999., p. 177).

Em anúncio sobre as corridas de cavalos que aconteceriam por ocasião da inauguração da estrada de ferro, em Santa Cruz do Sul, no ano de 1905, Abílio Antônio Gomes salienta que desejava “reerguer o prado promovendo corridas a que se presidirá a mais severa moralidade”. A notícia acrescenta, ainda, uma súplica de Abílio Gomes para atingir seu propósito: “espero o concurso de todos os senhores carreiristas e amigos da diversão predilecta do povo riograndense” (GOMES, 04 nov. 1905GOMES, Abílio. Programma das corridas. Santa Cruz do Sul: Kolonie, 1905.). No discurso de Abílio Gomes, salientam-se, pelo menos, duas representações que merecem atenção neste estudo.

A primeira apropriação que enfatizamos é a representação identitária sul-rio-grandense, quando Abílio Gomes destaca tal prática como elemento simbólico do “povo riograndense”. Agregada a tal representação, aponta-se, ainda, outra particularidade das corridas de cavalos. Em todas as matérias encontradas, para fins deste estudo, sobre a prática em Santa Cruz do Sul, os cavalos que participavam das corridas, no prado, recebiam nomes na língua portuguesa, como, por exemplo, “Demorado”, “Bugre”, “Jagunço”, “Encantado” (KOLONIE, 28 mar. 1900KOLONIE. Santa Cruz do Sul, 28 mar. 1900.).

A segunda refere-se à “moralidade severa”, remetendo à produção social de um espaço destinado à civilidade, aos homens distintos, representação atrelada ao discurso de uma elite. Por meio do cotejamento das informações encontradas por Noronha (2012NORONHA, Andrius Estevam. Beneméritos empresários: história social de uma elite de origem imigrante do sul do Brasil (Santa Cruz do Sul, 1905-1966). 2012. 371 f. Tese (Doutorado em História) - Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas, Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 2012.) e dos nomes de dirigentes da associação de turfe, podemos deduzir que seus idealizadores eram filhos de políticos e comerciantes locais que ascendiam junto a uma elite santa-cruzense no período. De acordo com Pereira (2012PEREIRA, Ester Liberato. As práticas equestres em Porto Alegre: percorrendo o processo de esportivização. 2012. 157 f. Dissertação (Mestrado em Ciências do Movimento Humano) - Escola de Educação Física, Fisioterapia e Dança, Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 2012., p. 130) “os proprietários de animais e os apostadores, em geral, pertenciam às camadas mais privilegiadas economicamente. Para estes, as representações desta prática associavam-se à distinção”. A criação do prado, em Santa Cruz do Sul, possivelmente, também estava relacionada aos lucros de distinção que esta prática era capaz de prover para um grupo que buscava visibilidade e posicionamento social elevado.

Por meio de práticas culturais, o associativismo esportivo estabeleceu-se, no Rio Grande do Sul, por um lado, com o protagonismo dos teuto-brasileiros; mas, por outro lado, houve a participação de luso-brasileiros e outros grupos. Conforme estudo de Mazo (2003MAZO, Janice Zarpellon. A emergência e a expansão do associativismo desportivo em Porto Alegre (1867-1945): espaço de representação da identidade cultural teuto-brasileira. 2003. Tese (Doutorado em Ciência do Desporto) - Universidade do Porto, Porto - Portugal, 2003.), os imigrantes alemães que colonizaram o sul do Brasil produziram e propagaram representações culturais de identidades. No caso dos locais de práticas equestres de corridas, esses podem ser vislumbrados como espaços sociais nos quais ocorriam “lutas de representação” (CHARTIER, 2000CHARTIER, Roger. A história cultural: entre práticas e representações. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2000.), onde imigrantes foram assimilados e teceram relações mais amplas com outros grupos. É plausível, assim, discorrer acerca de um espaço relacional das corridas de cavalos no Rio Grande do Sul, isto é, o aparelho de coordenadas que determina a conjuntura dos seres humanos envolvidos com tais práticas, uns em relação aos outros, em dado momento histórico.

A construção do espaço físico do prado em Santa Cruz do Sul e sua arquitetura sofisticada para os padrões locais remetem a um local de marcação de diferenças. Cabe a ressalva de que, certamente, comportava um espaço menor que os prados da capital. No entanto, deve ser compreendido dentro de seu próprio contexto. De tal modo, no respectivo período histórico, o prado pode ser visto como um espaço imponente na paisagem de Santa Cruz do Sul. Na fotografia referente ao dia de inauguração do prado, observa-se um prédio de dois pavimentos. O pavimento superior, semelhante a um camarote, constituía-se em um espaço aberto nas laterais, permitindo ampla visibilidade das corridas. Portanto, esse pavimento, provavelmente, estava destinado a uma parcela específica e vista como distinta da comunidade santa-cruzense, dentre os quais, os dirigentes do prado. No gramado, são visualizadas pessoas que se posicionam ao longo do trajeto da corrida. Não são observadas arquibancadas, estrutura comum aos hipódromos de Porto Alegre (PEREIRA, 2012PEREIRA, Ester Liberato. As práticas equestres em Porto Alegre: percorrendo o processo de esportivização. 2012. 157 f. Dissertação (Mestrado em Ciências do Movimento Humano) - Escola de Educação Física, Fisioterapia e Dança, Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 2012.).

Corridas de cavalos e suas relações com o associativismo local

Para além do prado, Santa Cruz do Sul era um lugar que comportava outras formas associativas que contavam com a participação do cavalo para promover práticas: as sociedades de cavalaria. Nessas, evidenciando as relações que se estabeleciam no princípio do novo século, bem como as teias de interdependência próprias de uma configuração em torno do cavalo, uma nova prática é identificada. Conforme o jornal, eram as chamadas Wettrennen (corrida de aposta) ou Rennsport (esporte de corrida) (KOLONIE, 15 abr. 1903KOLONIE. Santa Cruz do Sul, 15 abr. 1903.; KOLONIE, 20 jan. 1904KOLONIE. Santa Cruz do Sul, 20 jan. 1904.; KOLONIE, 30 mar. 1904KOLONIE. Santa Cruz do Sul, 30 mar. 1904.), ou, como eram conhecidas desde meados do século XIX em outros locais do Rio Grande do Sul, as corridas de cavalos de cancha reta.

Na conjuntura do Rio Grande do Sul, por volta da segunda metade do século XIX, sobressaíam-se as corridas de cavalos conhecidas por “carreiras de cancha reta”. As carreiras de cancha reta eram disputas que ocorriam em pistas retas, sob a medida de quadras, em uma cancha com o solo sem vegetação, ou seja, capinada, com a terra plana e raias pequenas e estreitas (ROZANO; FONSECA, 2005ROZANO, Mário; FONSECA, Ricardo da (org.). História de Porto Alegre: Jockey Club. Porto Alegre: Nova Prova, 2005.). Essas compunham o jogo preferencial dos homens que habitavam os campos sul-rio-grandenses. A relação do ser humano com o cavalo faz parte do imaginário social e cultural do sul-rio-grandense e remonta ao período das conquistas de território do Estado (CALLAGE, 1929CALLAGE, Roque. O cavallo e o homem. Revista do Globo, Porto Alegre, ano 1, n. 11, 1929.; ROZANO; FONSECA, 2005ROZANO, Mário; FONSECA, Ricardo da (org.). História de Porto Alegre: Jockey Club. Porto Alegre: Nova Prova, 2005.). A prática era apreciada em diferentes regiões do Estado do Rio Grande do Sul. Em meio à tradição sul-rio-grandense de uma elite rural na criação e aperfeiçoamento de raças de cavalos, aliada ao acompanhamento do processo de desenvolvimento das cidades e de sua população, as carreiras de cancha reta favoreceram a fundação dos primeiros hipódromos para a prática do turfe de Porto Alegre, Rio Grande, Pelotas e Bagé (PEREIRA, 2016PEREIRA, Ester Liberato. Configurações sócio-históricas da equitação no Rio Grande do Sul: uma investigação das redes de interdependência nas práticas esportivas equestres. 2016. 254 f. Tese (Doutorado em Ciências do Movimento Humano) - Escola de Educação Física, Fisioterapia e Dança, Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 2016.).

Todavia, ao contrário do que aconteceu nas regiões supracitadas, onde as corridas de cancha reta fomentaram a construção dos prados, em Santa Cruz do Sul a situação parece ter se invertido. As corridas de cancha reta, pelo menos no jornal, alcançaram visibilidade após a criação do prado. Destarte, sugere-se que, após a introdução do turfe no cenário de Santa Cruz do Sul, especificamente na região central, os teuto-brasileiros instituíram, ou começaram a divulgar, as corridas de cancha reta, especialmente no interior da localidade. A instituição dessa prática no início do século XX em Santa Cruz do Sul foi evidenciada em uma publicação da associação de cavaleiros da localidade de Holzpick, onde, após um Preisstechen (lança à prêmio), ocorreu uma carreira “há tempos prometida” (KOLONIE, 11 out. 1905KOLONIE. Santa Cruz do Sul, 11 out. 1905.). A expressão “há tempos prometida” indica que essa é uma prática nova na associação. Nas associações de cavaleiros, a prática regular consistia na lançaria, na qual o cavaleiro, montado em seu cavalo, deveria acertar um alvo feito de couro com uma lança (KIPPER, 1967KIPPER, Maria Hoppe. Sociedades de cavalaria em área de colonização alemã (Santa Cruz do Sul - RS). São Leopoldo: mimeog., 1967.).

As associações de cavaleiros foram numerosas na localidade de Santa Cruz do Sul e estabeleceram-se enquanto espaços privilegiados de sociabilidade de teuto-brasileiros desde a década de 1880 (ASSMANN, 2015ASSMANN, Alice Beatriz. O associativismo esportivo em Santa Cruz do Sul/Rio Grande do Sul: configurações de práticas culturais (da década de 1880 à década de 1910). 2015. 156 f. Dissertação (Mestrado em Ciências do Movimento Humano) - Escola de Educação Física, Fisioterapia e Dança, Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 2015.).4 4 Assmann (2015) contabilizou o total de 21 sociedades de cavalaria em Santa Cruz do Sul até o fim da década de 1900. Deste modo, pode-se sugerir que as carreiras de cancha reta se desenvolveram em associações onde o cavalo, comumente, já participava de uma prática, como a cavalaria. Contudo, após o surgimento de uma nova possibilidade, como as corridas de cavalos realizadas no prado, a prática foi apropriada também nesses espaços. Vale mencionar que, nas associações de cavalaria, entidades marcadamente teuto-brasileiras (ASSMANN; BERTOLDI; MAZO; 2017ASSMANN, Alice Beatriz; BERTOLDI, Rafaela; MAZO, Janice Zarpellon. Associações esportivas paramilitares em Santa Cruz do Sul: espaços de legitimação social e lazer (1880-1900). Licere, Belo Horizonte, v. 20, n. 4, p. 22-58, dez. 2017.), foram encontrados cavalos de corrida com denominações associadas às representações utilizadas para delimitar, etnicamente, grupos teuto-brasileiros, como, por exemplo, “Bismarck”, sobrenome do chanceler alemão aclamado pela unificação da Alemanha, em 1871 (KOLONIE, 20 jan. 1904KOLONIE. Santa Cruz do Sul, 20 jan. 1904.). No entanto, prevaleciam denominações em língua portuguesa nas corridas de cancha reta que aconteciam em outros locais de Santa Cruz do Sul.

Segundo Pereira (2016PEREIRA, Ester Liberato. Configurações sócio-históricas da equitação no Rio Grande do Sul: uma investigação das redes de interdependência nas práticas esportivas equestres. 2016. 254 f. Tese (Doutorado em Ciências do Movimento Humano) - Escola de Educação Física, Fisioterapia e Dança, Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 2016.), a partir da coexistência de ambas as práticas - carreiras em cancha reta e turfe - as carreiras de cancha reta passaram por um processo de esportivização e profissionalização, características primeiramente manifestadas pelo turfe. Ao permitir a presença de espectadores, Pereira (2016PEREIRA, Ester Liberato. Configurações sócio-históricas da equitação no Rio Grande do Sul: uma investigação das redes de interdependência nas práticas esportivas equestres. 2016. 254 f. Tese (Doutorado em Ciências do Movimento Humano) - Escola de Educação Física, Fisioterapia e Dança, Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 2016.) afirma que as disputas de carreiras de cancha reta apresentam um invariável volume de dinheiro envolvido no jogo com as apostas, acabando por transformar-se também em uma atividade de negócios. O sistema de apostas foi também evidenciado nas corridas de cavalos em cancha reta na localidade de Villa Thereza, distrito subordinado a Santa Cruz até 1959, e hoje cidade de Vera Cruz. Em 1904, um anúncio de realização de uma Wettrennen (corrida de aposta), no local, estabelecia que o campeão da corrida arrecadasse o valor da aposta, denominada, em alemão, como Wettbetrag (KOLONIE, 20 jan. 1904KOLONIE. Santa Cruz do Sul, 20 jan. 1904.).

Outra relação entre as associações que contavam com a participação de cavalos à prática esportiva foi identificada a partir dos dirigentes. Dentre os nomes que configuram a gerência do Prado Santa Cruz, chama a atenção o nome do administrador: Henrique Kessler. Kessler foi um dos sócios fundadores da associação teuto-brasileira denominada Ulanenklub Santa Cruz. O Ulanenklub era uma associação de cavalaria que congregava ulanos, diferenciando-se das demais associações de cavalaria devido à apropriação de práticas culturais singulares e ao aporte financeiro (KIPPER, 1967KIPPER, Maria Hoppe. Sociedades de cavalaria em área de colonização alemã (Santa Cruz do Sul - RS). São Leopoldo: mimeog., 1967.). Tal característica do Ulanenklub, distinguida das outras associações de cavalaria, principalmente pelo aporte financeiro, gera uma aproximação com as carreiras de cancha reta e o turfe, atributo que talvez explique porque Henrique Kessler transita em ambas as associações. Assim, pondera-se que, em maior ou menor grau, as pessoas envolvidas com as práticas equestres no Rio Grande do Sul encontravam-se, em grande parte, constituídas e vinculadas por uma rede particular de funções nessas práticas equestres, uma configuração particular de vida comunitária que também desenha e alia todos os componentes. A individualidade desses homens, bem como a sua subordinação social, relaciona-se, de forma recíproca e interdependente, tendo o “eu” condicionado socialmente, mas também autônomo.

Uma prática tradicionalmente distinta em meio a dinâmicas e sujeitos

No início, a entrada no prado para assistir as corridas era gratuita (KOLONIE, 11 abr. 1900KOLONIE. Santa Cruz do Sul, 11 abr. 1900.). Provavelmente, essa era uma estratégia para angariar adeptos e aumentar o público das corridas, tendo em vista que a prática se configurava como uma nova atração em Santa Cruz do Sul. A despeito de, no princípio, não obter dinheiro com ingressos, o prado adquiria ganhos indiretos e, provavelmente, tinha arrecadação proveniente dos sócios. Dentre as disputas no evento inaugural, realizado no dia primeiro de abril de 1900, foram anunciadas, pelo jornal, quatro provas com corridas “em 1000 metros” e uma “corrida em 500 metros” (KOLONIE, 28 mar. 1900KOLONIE. Santa Cruz do Sul, 28 mar. 1900.). O número de participantes nas provas variava entre seis e quatro cavalos. Contudo, não foi possível distinguir motivos para a divisão dos grupos que disputavam cada corrida por meio dos dados disponibilizados no jornal. É possível que o critério estabelecido fosse a ordem de inscrição ou sorteio. Cada corrida equivalia a uma premiação específica (para primeiro e segundo lugares) que variava de 100 a 400 réis.

Anos depois, em 1905, houve modificações nas provas. Essas foram divididas em metragem e de acordo com o “tipo” de cavalo: “novos e que ainda não tenham corrido em prado”; “animaes místicos”, “petiços crioulos”, “animaes de qualquer procedencia”, “animaes carroceiros” (GOMES, 1905GOMES, Abílio. Programma das corridas. Santa Cruz do Sul: Kolonie, 1905.). Tal organização reflete um processo de especialização e igualdade de oportunidades, também apontado no estudo de Pereira (2012PEREIRA, Ester Liberato. As práticas equestres em Porto Alegre: percorrendo o processo de esportivização. 2012. 157 f. Dissertação (Mestrado em Ciências do Movimento Humano) - Escola de Educação Física, Fisioterapia e Dança, Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 2012.) a respeito das práticas equestres. Notou-se que os valores das premiações diminuíram com relação ao ano de 1900. Além disso, cabe aludir que, assim como no programa do primeiro evento em 1900, no qual se destacava o nome dos cavalos, seguidos pelo “pello” (pelagem), peso e proprietário, sem registro do nome dos jóqueis que conduziam os cavalos nas disputas, no programa do evento realizado cinco anos depois, em 1905, a situação repetia-se. Tal constatação revela que, na rede de interdependência dessas práticas equestres, os protagonistas são os cavalos e seus proprietários. Os anúncios nos jornais, geralmente, mencionavam os nomes dos “criadores de cavalo” e o nome dos “cavalos campeões” das provas, não dando visibilidade ao personagem que conduzia os cavalos nas corridas: o jóquei.

Cabe salientar que poucas alusões aos jóqueis que participavam das corridas foram encontradas no jornal ou na revisão bibliográfica. Sobre esse personagem, foram encontradas duas citações no jornal Kolonie. Uma corresponde ao acidente ocorrido com o “Corredor João Alves” no dia da inauguração do prado. João Alves, um porto-alegrense de sobrenome luso-brasileiro, chamado de “Corredor” pelo jornal, possivelmente representa o jóquei (KOLONIE, 21 mar. 1900KOLONIE. Santa Cruz do Sul, 21 mar. 1900.). Segundo Pereira (2012PEREIRA, Ester Liberato. As práticas equestres em Porto Alegre: percorrendo o processo de esportivização. 2012. 157 f. Dissertação (Mestrado em Ciências do Movimento Humano) - Escola de Educação Física, Fisioterapia e Dança, Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 2012.), os jóqueis eram, normalmente, oriundos de classes sociais mais populares. Esse pode ser o motivo pelo qual não são citados no jornal. Ao corroborar com as afirmações da autora Pereira (2012PEREIRA, Ester Liberato. As práticas equestres em Porto Alegre: percorrendo o processo de esportivização. 2012. 157 f. Dissertação (Mestrado em Ciências do Movimento Humano) - Escola de Educação Física, Fisioterapia e Dança, Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 2012.), a segunda citação do jornal Kolonie menciona que, a partir do ano seguinte, seriam admitidos, no Prado Santa Cruz, somente “os jockeys que forem matriculados mediante proposta assignada pelo pretendente e dois cidadãos acionistas que se responsabilizem pelas multas em que incorrer aquelle” e ficando a admissão desses sujeita à votação da diretoria (KOLONIE, 24 nov. 1900KOLONIE. Santa Cruz do Sul, 24 nov. 1900.). A nota, redigida, respectivamente, em língua portuguesa e no idioma alemão, sugere que os jóqueis eram pessoas consideradas de fora do grupo específico e que não teriam as mesmas condições financeiras dos acionistas do prado. Para além disso, ressoava, no imaginário dos dirigentes e seus relacionados, uma representação social dos jóqueis como desordeiros, sem respeito às regras, passíveis de levar multas e não as pagar.

De acordo com Guttmann (1994GUTTMANN, Allen. Games and empires: modern sports and cultural imperialism. New York: Columbia University, 1994.), desde o século XVII as corridas de cavalos já estabeleciam diferenciações de classe no contexto estadunidense. Isso porque, nos Estados Unidos do final do século XIX, consta um número majoritário de jóqueis de origem afrodescendente. No caso de Porto Alegre, Pereira, Silva e Mazo (2014PEREIRA, Ester Liberato; SILVA, Carolina Fernandes da; MAZO, Janice Zarpellon. Os primeiros vestígios da esportivização das práticas equestres em Porto Alegre. Revista Brasileira de Ciência e Movimento, Brasília, v. 22, n. 2, p. 121-132, 2014.) não encontraram evidências nesse sentido, embora a cidade também tivesse parcela da população composta por afrodescendentes. Todavia, as autoras atentam para o silêncio a respeito desses personagens nas fontes impressas, cujos registros eram, preferencialmente, atribuídos aos cavalos em detrimento dos jóqueis.

Importa assinalar que a supressão dos jóqueis, nas fontes históricas, não sucedeu somente nos jornais de Santa Cruz do Sul. Em outras cidades, como, por exemplo, Pelotas e Porto Alegre, os jornais pautavam-se, geralmente, pela mesma forma de noticiar as corridas de cavalos, como demonstram os estudos de Pereira (2016PEREIRA, Ester Liberato. Configurações sócio-históricas da equitação no Rio Grande do Sul: uma investigação das redes de interdependência nas práticas esportivas equestres. 2016. 254 f. Tese (Doutorado em Ciências do Movimento Humano) - Escola de Educação Física, Fisioterapia e Dança, Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 2016.).5 5 Para corroborar com a afirmação, ressalta-se o álbum Rio Grande do Sul Sportivo, publicado em 1919 por Lemos e Carvalho, o qual dedica, desde as páginas iniciais, um significativo espaço com informações e imagens dos “criadores de cavalos” e breve biografia de cada um dos proprietários de cavalos e de seus bens (LEMOS; CARVALHO, 1919). É presumível que havia elos entre os proprietários de cavalos e os editores de jornais, pessoas, talvez, próximas social e financeiramente. Todavia, apesar das ausências nos jornais impressos, as fontes imagéticas evidenciaram práticas e representações veladas nas demais fontes. Em fotografias referentes a corridas de cancha reta nos arredores de Santa Cruz do Sul, encontradas no CEDOC/UNISC, é possível identificar a presença de jóqueis e espectadores. Nessas, observa-se o local da corrida, com pistas capinadas em meio à terra plana. As corridas acontecem com disputas entre duas composições de jóqueis e cavalos. A partir das características das imagens e das pessoas nelas representadas, podemos inferir que se localizam nas primeiras décadas do século XX.

As fotografias não apresentam personagens fazendo poses, mas sim em momentos descontraídos, e parecem representar as etapas da corrida, desde a preparação até a linha de chegada. Os homens que correm com os cavalos, os jóqueis, são afrodescendentes, e os espectadores, que assistem em pé e sentados ao longo da reta, são, na maioria, homens e meninos brancos bem-vestidos. Dentre eles, para além de poucas mulheres e meninas, é possível observar alguns homens e meninos afrodescendentes assistindo às provas, talvez alguns jóqueis que fossem participar das corridas. Para os primeiros jóqueis e joquetas, as participações em corridas de cavalos eram apropriadas como ocupação, por meio da qual poderiam ascender socialmente, enquanto que os proprietários de animais e os apostadores, em geral, pertenciam às camadas mais privilegiadas economicamente (PEREIRA; SILVA; MAZO, 2014PEREIRA, Ester Liberato; SILVA, Carolina Fernandes da; MAZO, Janice Zarpellon. Os primeiros vestígios da esportivização das práticas equestres em Porto Alegre. Revista Brasileira de Ciência e Movimento, Brasília, v. 22, n. 2, p. 121-132, 2014.).

Destarte, se as diferenças entre os grupos étnicos reafirmam fronteiras, as características e formas de organização concretizadas nas carreiras de cancha reta pareciam proporcionar contatos que abalizam para a formação de redes de interdependência entre pessoas de distintas culturas e costumes. Contudo, vale destacar que tais formações são socialmente aceitas, pois não desequilibram as tensões necessárias para manter o status quo desejado. Nessa esteira, ainda pode-se sugerir que, em Santa Cruz do Sul, Município colonizado predominantemente por descendentes de alemães, as corridas de cavalos em cancha reta eram realizadas em um formato muito semelhante ao das carreiras tradicionais das regiões da campanha e do Vale do Taquari. Nesta última, os imigrantes, bem como seus descendentes, apropriaram-se dessa atividade já praticada pelos primeiros sul-rio-grandenses, inserindo-a em seu dia a dia (SCHERER, 2014SCHERER, Emanuele Amanda. Carreiras no Vale do Taquari: as corridas de cavalo em cancha reta. 2014. 112 f. Monografia (Graduação em História) - Centro de Ciências Humanas e Sociais , Centro Universitário Univates, Lajeado, 2014.).

Dentre as características que tangenciavam as corridas de cavalos, uma prática que tencionava as redes de interdependência entre os sujeitos envolvidos - proprietários, jornais e espectadores - eram as apostas. As corridas de cavalos em Porto Alegre estavam centradas em um sistema de apostas. Segundo Silva, Pereira e Mazo (2012SILVA, Carolina Fernandes da; PEREIRA, Ester Liberato; MAZO, Janice Zarpellon. Clubes sociais: práticas esportivas e identidades culturais. Licere, Belo Horizonte, v. 15, n. 2, p. 1-21, jun. 2012., p. 3), “os lugares onde ocorria a prática do turfe não possuíam o mesmo caráter associativo dos clubes fundados pelos imigrantes alemães”. Em reportagens sobre corridas que aconteceram no Prado Santa Cruz, após citar o valor da premiação, encontramos o valor de “Poule”, terminologia que se refere ao valor da aposta (KOLONIE, 25 out. 1900KOLONIE. Santa Cruz do Sul, 25 out. 1900.; KOLONIE, 21 out. 1903KOLONIE. Santa Cruz do Sul, 21 out. 1903.). De tal modo, percebe-se que o turfe estava “centrado nas apostas em dinheiro”, diferentemente das associações dos alemães, que não adotavam o sistema de apostas. No entanto, em algumas dessas, como as sociedades de atiradores e de cavaleiros, era apreciada a premiação em dinheiro nas disputas.

É possível depreender que as atividades, no prado, não aconteciam de forma regular ou frequente, com programações estabelecidas prévia e rigorosamente seguidas, como era observado nas associações de tiro, cavaleiros ou Turnen de Santa Cruz do Sul (ASSMANN, 2015ASSMANN, Alice Beatriz. O associativismo esportivo em Santa Cruz do Sul/Rio Grande do Sul: configurações de práticas culturais (da década de 1880 à década de 1910). 2015. 156 f. Dissertação (Mestrado em Ciências do Movimento Humano) - Escola de Educação Física, Fisioterapia e Dança, Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 2015.; KIPPER, 1969KIPPER, Maria Hoppe. Sociedades de cavalaria entre os imigrantes alemães. Revista de Estudos Leopoldenses, São Leopoldo, p. 57-94, 1969.). Possivelmente, a prática não alcançou um público muito expressivo e assíduo na localidade devido às conformações organizacionais diferenciadas. No jogo de forças que tencionavam as práticas associadas com representações teuto-brasileiras e aquelas que circundavam as corridas, parece que estas últimas acabaram sucumbindo. Segundo Pereira (2016PEREIRA, Ester Liberato. Configurações sócio-históricas da equitação no Rio Grande do Sul: uma investigação das redes de interdependência nas práticas esportivas equestres. 2016. 254 f. Tese (Doutorado em Ciências do Movimento Humano) - Escola de Educação Física, Fisioterapia e Dança, Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 2016.), as representações culturais de identidade dessa prática equestre, eminentemente relacionada à sociedade aristocrática rural e que passava a confrontar a cultura burguesa em formação, têm relação com a desaceleração do turfe na capital no período de transição do século XIX para o XX. Uma nova classe social burguesa passou a atacar, por meio de seu discurso, o turfe, devido ao seu caráter de jogo, já que esse segmento passava a se identificar com o remo, o ciclismo, e com o futebol, práticas essas que, naquele momento, estavam associadas a representações teuto-brasileiras (MAZO, 2003MAZO, Janice Zarpellon. A emergência e a expansão do associativismo desportivo em Porto Alegre (1867-1945): espaço de representação da identidade cultural teuto-brasileira. 2003. Tese (Doutorado em Ciência do Desporto) - Universidade do Porto, Porto - Portugal, 2003.).

Segundo Martin (1999MARTIN, Hardy Elmiro. Recortes do passado de Santa Cruz. Organizado e atualizado por Olgario Paulo Vogt e Ana Carla Wïnsch. Santa Cruz do Sul: Edunisc, 1999.), o Prado de Santa Cruz teria fechado suas portas logo após a inauguração. No entanto, as publicidades encontradas no jornal Kolonie permitem depreender que a associação permaneceu como espaço social no cenário santa-cruzense (KOLONIE, 11 fev. 1902KOLONIE. Santa Cruz do Sul, 11 fev. 1902.; KOLONIE, 14 mar. 1902KOLONIE. Santa Cruz do Sul, 14 mar. 1902.), apesar das dificuldades encontradas pela diretoria para reunião dos acionistas, manutenção do local e das corridas (KOLONIE, 23 fev. 1901KOLONIE. Santa Cruz do Sul, 23 fev. 1901.). A associação, provavelmente, esteve paralisada em alguns momentos. Segundo Martin, em 1913 as instalações do prado foram reformadas para reinauguração e, cinco anos mais tarde, no ano de 1918, cedidas ao quartel militar (MARTIN, 1999MARTIN, Hardy Elmiro. Recortes do passado de Santa Cruz. Organizado e atualizado por Olgario Paulo Vogt e Ana Carla Wïnsch. Santa Cruz do Sul: Edunisc, 1999.). Vale lembrar que o referido ano assinala o fim da Primeira Guerra Mundial (1914-1918), com a derrota da Alemanha, acontecimento que repercutirá no Brasil, principalmente nas regiões com presença marcante de teuto-brasileiros, como era o caso de Santa Cruz do Sul.

Considerações finais

O presente estudo pondera que as práticas equestres de corrida em localidades do Rio Grande do Sul, em especial em Santa Cruz do Sul, eram domínios socializadores que coexistiam em uma relação de interdependência. Em outras palavras, identificou-se que as práticas relacionadas ao cavalo constituíam domínios que configuravam um formato constante e dinâmico de relação entre práticas culturais, noções de identidade e de classe em um cenário sociocultural. Com o intuito de demonstrar as relações estabelecidas na conjuntura das práticas equestres de corrida, que foram produzidas em diferentes espaços sociais e agregavam práticas socioculturais de diferentes grupos sociais, explorou-se, neste estudo, a noção de configuração cunhada por Norbert Elias para evidenciar essa interdependência (ELIAS, 2001ELIAS, Norbert. A Sociedade de Corte: investigação sobre a sociologia da realeza e da aristocracia de corte. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2001., 1993ELIAS, Norbert. O Processo Civilizador: formação do estado e civilização. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1993. v. 2 .). Assim, pode-se depreender sobre uma configuração cunhada pelas relações dinâmicas de pessoas que se organizavam em torno de práticas que tinham, no cavalo, seu fundamento central.

O prado divergia das demais associações de Santa Cruz do Sul, estabelecendo contatos culturais entre pessoas de diferentes etnias. No entanto, cabe referir que, apesar das diferenças, a prevalência, certamente, era de pessoas brancas e abastadas para aquele contexto. As relações estabelecidas nesse espaço parecem, progressivamente, culminar em negociações para forjar e legitimar uma identidade sul-rio-grandense, um personagem construído em relação ao mosaico identitário constituído, especialmente, por imigrantes e descendentes luso-brasileiros e teuto-brasileiros. Certos aspectos, como a denominação dos cavalos em cada uma dessas práticas, por exemplo, são apontados para estabelecer diferenças, tencionando as práticas e seus praticantes ou dirigentes. Segundo a narrativa, ainda se fazia necessário interiorizar e exteriorizar tal identidade, condicionando-a a determinados comportamentos/etiquetas. Dentre tais condutas, destaca-se a participação, fosse como assistência, como apostador, como jóquei, ou como proprietário de cavalos, no contexto da prática equestre das carreiras de cancha reta como elemento simbólico da representação identitária do “povo rio-grandense”.

Nas representações de “povo”, alguns sul-rio-grandenses são constantemente esquecidos ou apagados, como as mulheres, os indígenas e os afrodescendentes. Conforme evidenciado, a figura do jóquei era omitida pelo jornal, espaço este que detinha o poder de informar e formar representações em torno de um fenômeno. Isso dá a ler um interesse velado em manter essas pessoas nos bastidores do cenário sociocultural. A despeito disso, salientamos a presença do personagem jóquei e o seu papel nas práticas equestres de corrida, assumindo protagonismo no conjunto ser humano e cavalo. Logo, com base no cruzamento entre os estudos apontados nesta pesquisa e as fontes coletadas, pode-se depreender que uma história das práticas equestres no Rio Grande do Sul e, mais especificamente em Santa Cruz do Sul, consiste em uma história cujos alicerces se baseiam em classes sociais.

A questão da classe social atravessa o presente estudo. Tenha-se em conta que processos de institucionalização das práticas equestres compuseram um arcabouço de afluência de pessoas de status social paralelo, ainda que sem conexões orgânicas sociais ou econômicas, mas relacionadas pelas teias que compõem o meio social que circulam. Nesta esteira, chega-se ao encontro de que a maior diferenciação de uma sociedade propicia amplitude na rede de interdependências. O período de transição, portanto, entre os séculos XIX e XX, no qual as carreiras de cancha reta e o turfe estabelecem relações, apresenta e dissemina o ideário da modernidade, o qual concebe o culminar da convergência para a especialização e diferenciação funcional dos distintos campos de racionalidade humana.

Enquanto configuração, portanto, as práticas equestres de corrida estão condicionadas às dinâmicas sociais e, assim, diferem-se e aproximam-se. Tem-se, por exemplo, que, enquanto em Porto Alegre a prática do turfe mostrava-se em curvatura descendente, em Santa Cruz do Sul, a prática insurgia. Ao considerar que a noção de interdependência está intimamente ligada à noção de equilíbrio das tensões (engajamento e distanciamento), notam-se elos entre uma identidade europeia e uma identidade regional e local sul-rio-grandense por meio, por exemplo, da prática do turfe, que emerge e passa a compartilhar espaço físico e simbólico com as carreiras de cancha reta no Estado. De tal modo, são estabelecidos processos circulares de duplos vínculos. Isso se dá, em grande medida, por meio da conexão das ações que acoplam os componentes desta sociedade diferenciada e caracterizada, assim como pelo autocontrole ao qual a educação e o ensino os coagem.

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NOTAS

  • 1
    O termo Sport foi inserido no dicionário Duden, de ortografia alemã, em 1887.
  • 2
    Em votação da diretoria do prado, ocorrida em nove de setembro de 1900, foi escolhido como presidente Louis Bernhard; vice-presidente Fritz Sthohschön; tesoureiro Karl D. Iserhhard; secretários Philipp Jacobus e João Genz; e diretores Jorge Frantz, Eduard Frantz, J. F. Klafke e I. F. Pires. Causa estranheza que, na conjuntura de organização do prado, constava como diretor F. Weber (KOLONIE, 3 fev. 1900KOLONIE. Santa Cruz do Sul, 03 fev. 1900.), nome que não aparece entre os eleitos para administrar o local.
  • 3
    Vice-presidente: Luiz Bernhard; primeiro secretário: João Fidencio Simões Lopes Pires; segundo secretário: João Genz; tesoureiro: Otto Scherer; diretores: Peter Kroth, Anton Risch, Wilhelm Barth, Friederich Strohschoen, Eduard Farbtz, J. Klafke, João Fernando Klafke, Heinrich Schirmer; administrador: Henrique Kessler (KOLONIE, 22 abr. 1903KOLONIE. Santa Cruz do Sul, 22 abr. 1903.).
  • 4
    Assmann (2015ASSMANN, Alice Beatriz. O associativismo esportivo em Santa Cruz do Sul/Rio Grande do Sul: configurações de práticas culturais (da década de 1880 à década de 1910). 2015. 156 f. Dissertação (Mestrado em Ciências do Movimento Humano) - Escola de Educação Física, Fisioterapia e Dança, Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 2015.) contabilizou o total de 21 sociedades de cavalaria em Santa Cruz do Sul até o fim da década de 1900.
  • 5
    Para corroborar com a afirmação, ressalta-se o álbum Rio Grande do Sul Sportivo, publicado em 1919 por Lemos e Carvalho, o qual dedica, desde as páginas iniciais, um significativo espaço com informações e imagens dos “criadores de cavalos” e breve biografia de cada um dos proprietários de cavalos e de seus bens (LEMOS; CARVALHO, 1919LEMOS, Antenor; CARVALHO, Edmundo (org.). Álbum d’O Rio Grande do Sul Sportivo. Porto Alegre: Livraria do Globo, 1919.).

Editado por

Editores:

Karina Anhezini e Eduardo Romero de Oliveira

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    11 Dez 2023
  • Data do Fascículo
    2023

Histórico

  • Recebido
    11 Maio 2021
  • Aceito
    15 Mar 2022
Universidade Estadual Paulista Julio de Mesquita Filho Faculdade de Ciências e Letras, UNESP, Campus de Assis, 19 806-900 - Assis - São Paulo - Brasil, Tel: (55 18) 3302-5861, Faculdade de Ciências Humanas e Sociais, UNESP, Campus de Franca, 14409-160 - Franca - São Paulo - Brasil, Tel: (55 16) 3706-8700 - Assis/Franca - SP - Brazil
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