Na década de 1950 ocorre a produção de novos psicofármacos, resultando em sua integração com as práticas de cuidado em Saúde Mental. A clorpromazina, sob o mote de primeiro antipsicótico eficaz, foi um ator-chave desse processo, sendo sua história pesquisada por diversos autores. O artigo busca compreender o “giro químico” que tais moléculas produziram na Saúde Mental, afastando-se de análises que os compreendam como “revolucionários” ou como meras tecnologias de “controle social”. A análise destaca a multiplicidade de efeitos que os psicofármacos podem propiciar, mantendo em aberto os problemas trazidos por essas complexas substâncias.
Palavras-chave
Psicotrópicos; História; Saúde mental
ABSTRACT
The new psychotropic drugs produced in the 1950s became integrated into mental health care practices. Chlorpromazine, touted as the first effective antipsychotic, was a key actor in this process, and its history has been researched by various authors. This article aims to understand the “chemical shift” that these molecules produce in mental health, moving away from analyses that view them as "revolutionary" or simple technologies of “social control”. The analysis highlights the multiplicity of effects that psychotropic drugs can have, while keeping open the questions brought by these complex substances.
Keywords
Psychotropics; History; Mental health
En la década de 1950 ocurre la producción de nuevos psicofármacos que resultan en su integración con las prácticas de cuidado de salud mental. La clorpromazina, bajo el lema de ser el primer antipsicótico eficaz, desempeñó un papel clave en ese proceso y su historia fue investigada por diversos autores. El artículo busca comprender el “giro químico” que tales moléculas produjeron en la salud mental, apartándose de análisis que las comprendan como “revolucionarias” o como meras tecnologías de “control social”. El análisis subraya la multiplicidad de efectos que los psicofármacos pueden propiciar, manteniendo en abierto los problemas causados por esas complejas substancias.
Palabras clave
Psicotrópicos; Historia; Salud mental
Introdução
A prescrição de psicofármacos tornou-se rotineira no tratamento de diversos transtornos mentais. De modo que, no senso comum, a imagem do psiquiatra associa-se à prescrição de um fármaco (ou ao temor de tal prescrição). É digno de nota, ao observar a história da disciplina, que os psicofármacos tenham assumido essa importância apenas recentemente, já que seu uso era secundário no tratamento até a década de 1950.
O presente artigo busca analisar a história da introdução dos psicofármacos na década de 1950, defendendo a tese de que tal acontecimento promoveu modificações na prática psiquiátrica, de modo que adicionasse as modulações neuroquímicas como uma faceta importante de uma questão tão cara quanto desafiadora à sociedade: o manejo e o cuidado dos transtornos mentais. Vale destacar que os psicofármacos não superaram tratamentos psicoterápicos, de mudança de estilo de vida, ocupacionais ou mesmo as internações psiquiátricas, mas produziram diferentes maneiras de se relacionar com tais técnicas.
A história da introdução dos psicofármacos na década de 1950 já foi estudada por diversos autores1-5. Entretanto, se o presente é considerado algo vivo, a história deve ser entendida da mesma maneira. Revisitar a história dos psicofármacos é uma tática capaz de colocar questões de interesse(b) para a Saúde Mental. A proposta aqui desenvolvida não é uma revisão extensiva da historiografia sobre o tema, tampouco é colocar “questões de fato” mediante uma análise “verdadeira” sobre o passado. De maneira distinta, deve-se buscar argumentar que o sentido histórico dos psicofármacos precisa ser mantido com certo grau de equivocidade, a ponto de captá-los em seu devir.
Tal reformulação implica que as questões colocadas pela história dos psicofármacos ensejem um esforço coletivo para a contínua reflexão sobre o uso e os desafios éticos de tais moléculas. O que, seguindo a ainda não completamente desenvolvida proposição de Donnangelo, implica afirmar que discutir saúde é discutir sociedade7. Como ponto de partida, será realizada uma breve retomada da história da clorpromazina, uma vez que foi o psicofármaco consagrado por fornecer o pontapé inicial da psicofarmacologia moderna.
As primeiras pesquisas com RP-4560 (Clorpromazina)
Os principais representantes das classes de psicofármacos foram desenvolvidos durante a década de 1950: antidepressivos, antipsicóticos, ansiolíticos e estabilizadores do humor. A clorpromazina ganhou notoriedade, pois, com a reserpina (que teve menor impacto), se consolidou como eficaz no tratamento das psicoses. É em torno da história do desenvolvimento da clorpromazina que as principais linhas de entendimento histórico sobre os psicofármacos foram desenvolvidas, tornando ainda mais oportuna sua análise.
A síntese da clorpromazina possui uma história tortuosa e remonta à indústria têxtil europeia e ao azul de metileno. A empresa alemã Badische Anilin und Soda Fabrik, com sede em Ludwigshafen, em 1876, produz uma nova série de corantes para roupas e, entre eles, o azul de metileno4. Para a decepção da indústria têxtil alemã, o novo corante não teve muita utilidade na tintura de roupas. Todavia, à luz do microscópio, apresentou uma propriedade de particular interesse à microbiologia: a capacidade de corar seletivamente diferentes estruturas celulares. Trata-se de uma propriedade fundamental dos fármacos: a ligação a determinados grupos de moléculas e não a outras. Foi graças à seletividade química do azul de metileno e à presença do microscópio que foi possível isolar o Mycobacterium tuberculosis, agente causador da tuberculose, por Robert Koch em 18828.
Além de corar a microbactéria, o azul de metileno também possui uma afinidade química com os agentes causadores da malária, tornando-os distinguíveis na microscopia5. Essa ligação seletiva fez surgir a hipótese de que poderia haver um efeito tóxico desse fármaco para com as estruturas celulares dos parasitas do gênero Plasmodium, de modo que, Paul Ehrlich, em 1891, utilizou o azul de metileno como uma droga antimalárica8. Foi a primeira substância sintética, isto é, produzida integralmente dentro de um laboratório que teve um uso clínico.
O desenvolvimento da química orgânica e da capacidade de síntese de moléculas em laboratório ampliou as possibilidades de intervenção no organismo. Até a síntese e a utilização do azul de metileno, as substâncias utilizadas pela medicina eram extraídas in natura e apenas sofriam processos físicos rudimentares como extração, mistura e aquecimento. Esses processos físicos são capazes de gerar pouca (ou nenhuma) alteração na estrutura carbonada das moléculas. Uma das principais características da psicofarmacologia moderna é a capacidade de, por meio de diversas técnicas de engenharia molecular, modificar a estrutura de carbono dos fármacos, alterando substancialmente suas propriedades químicas e farmacológicas.
O azul de metileno contém em sua estrutura o núcleo fenotiazínico. O laboratório francês Rhône-Poulenc, sob liderança de Paul Charpentier, dedicou-se a pesquisas com derivações desse núcleo orgânico. Essas investigações resultam na síntese, entre 1946 e 1948, da prometazina e, poucos anos depois, em 1950, do RP-4560, que foi nomeado de clorpromazina4. A história dessas duas moléculas se encontra com um personagem inesperado: o cirurgião militar Henri Laborit.
Motivado pela busca por fármacos capazes de bloquear o sistema autonômico adrenérgico durante o ato cirúrgico, Laborit identificou nos derivados fenotiazínicos um potencial promissor devido à sua capacidade farmacológica de reverter alguns efeitos adrenérgicos. A partir desse insight, em 1949, Laborit iniciou o uso da prometazina na prevenção do choque cirúrgico9. Ele adotou a prática de administrar um “coquetel lítico” durante cirurgias, composto inicialmente por prometazina (posteriormente substituída pela clorpromazina) combinada com opiáceos. Essa técnica chegou a ser utilizada por Laborit e outros cirurgiões na França por volta da década de 19505.
Os testes laboratoriais iniciais já mostravam particularidades da clorpromazina em relação às outras fenotiazinas: efeito anticolinérgico pronunciado; inibição de reflexos aprendidos em roedores com pouca sedação; efeito antiemético. Laborit, por seu conhecimento empírico da clorpromazina no ato cirúrgico, sugere que poderia existir também um potencial terapêutico na psiquiatria, pois, de acordo com suas observações, os pacientes sentiam-se muito mais calmos e relaxados após o uso (désintéressement)4.
Pierre Deniker, psiquiatra no Hospital Sainte-Anne em Paris, recebe notícias por meio de seu cunhado cirurgião, sobre o uso da clorpromazina por Laborit e seus efeitos neuropsiquiátricos. Em 1952, junto com Jean Delay, Deniker solicita a Rhône-Poulenc amostras da clorpromazina para uso psiquiátrico5. Por um salto da anestesia para a Psiquiatria, o grupo francês foi o primeiro a utilizar a clorpromazina isoladamente e atuar ativamente na divulgação científica dos efeitos psicotrópicos do fármaco. Ambos os pesquisadores, segundo evidencia Caponi, destacam-se como principais figuras de divulgação da clorpromazina.
Dentre os estudos apresentados em 1952 por Deniker e Delay, destaca-se o denominado “38 casos de psicose tratada pela cura prolongada e contínua de 4560 RP”. Nesse texto, Deniker e Delay analisam os efeitos da droga em um conjunto de pacientes que foram divididos em cinco grupos: excitação psíquica e agitação; estados de confusão; estados ansiosos e melancólicos; esquizofrenia; e, finalmente, o grupo composto por delirantes, alucinados e obsessivos. O primeiro grupo é composto por dez pacientes homens e uma mulher, com idades entre 26 e 57 anos; o segundo, por cinco homens e uma mulher; o terceiro, por oito homens e duas mulheres; o quarto, por seis homens; e o quinto grupo é composto por cinco homens e uma mulher3. (p. 49)
No início, a clorpromazina foi experimentada e utilizada no tratamento de diversos transtornos mentais. Ao longo do tempo, as evidências foram se consolidando e sua aplicação foi direcionada aos transtornos psicóticos, especialmente a esquizofrenia. Em 1955, apenas três anos após sua introdução clínica, Deniker nomeou a clorpromazina, bem como todo o grupo dos “antipsicóticos”, de “neurolépticos”10. O termo advém do grego neuro e lepsis, que em uma tradução direta significa aquilo que “prende os nervos”. Portanto, os primeiros pesquisadores da clorpromazina já estavam cientes de seus efeitos extrapiramidais (que produzem variados graus de rigidez psicomotora), ainda que não compreendessem os detalhes neuroquímicos de sua ação no organismo.
Nos anos seguintes à introdução da clorpromazina, houve vários relatos de sucesso terapêutico e de alta hospitalar com seu uso5. Pesquisadores brasileiros, no seio do entusiasmo e de dúvidas que rondavam as novas substâncias, também participaram das pesquisas com a clorpromazina, bem como outros psicofármacos produzidos na época11. Um grande ensaio clínico randomizado multicêntrico, realizado pelo National Institute of Mental Health (NIMH), publicado em 1964, foi um marco importante para a consolidação das evidências terapêuticas sobre o uso dos neurolépticos12. A despeito do uso clínico que se consagra nas décadas seguintes, existem pesquisadores que questionam aspectos metodológicos das pesquisas, o que, por conseguinte, coloca em xeque a eficácia das medicações13. O próprio Deniker reconhece a limitação terapêutica da clorpromazina e dos primeiros neurolépticos: “Inicialmente, os neurolépticos são especialmente ativos contra sintomas ‘positivos’ como agitação, alucinações e delírios. Os primeiros neurolépticos são praticamente ineficazes contra o déficit social, afetivo e a volição”10 (p. 86, traduzido). Os problemas com a chegada dos novos fármacos não incidiam apenas no que se pode conceber como “efeitos colaterais” ou em debates sobre os vieses dos estudos que buscam definir sua eficácia. Existem importantes descrições de uso de doses maciças de neurolépticos em hospitais psiquiátricos com características asilares14, nos quais, sem dúvidas, os psicofármacos agenciam-se como mais uma das tecnologias do regime asilar.
A história da clorpromazina demarca um momento de transição importante da Psiquiatria. A psicofarmacologia começa a integrar o cotidiano da especialidade, de modo que a intervenção direta na bioquímica cerebral se torna possível. Todavia, seria enganoso afirmar que os psicofármacos isoladamente produziram tal mudança. Nikolas Rose e Abi-Rached15 produzem, na obra “Neuro: the new brain sciences and the management of the mind”, uma genealogia das neurociências, indicando como a presença de uma ampla gama de novas tecnologias e áreas de pesquisas – receptores, biomarcadores, epigenética, sistemas de neurotransmissão, neuroimagem, psicofármacos – estabelecem, em conjunto, uma nova maneira de compreensão (e, sublinhe-se, de governo) do campo “psi”, o qual agora se torna imbricado pelas neurociências. É desse complexo acontecimento que surge um cérebro biomolecular, plástico, visível e possível de ter sua neurotransmissão modulada por fármacos. Dessa forma, não existe um protagonismo dos psicofármacos, mas uma complexa relação agonística entre elementos que produzem um novo entendimento neurocientífico da vida. Além das inovações inerentes ao campo científico, o heterogêneo processo de desinstitucionalização na Psiquiatria, que no Brasil segue o caminho da Reforma Psiquiátrica Brasileira, favorece algumas (e não todas) modalidades de uso de psicofármacos, uma vez que são substâncias que podem ser utilizadas fora dos muros dos hospitais, em serviços comunitários ou ambulatoriais.
Novos problemas em torno da dose, da eficácia, de efeitos colaterais e dilemas éticos acerca do uso dentro e fora dos hospitais começam a ser colocados em torno dos psicofármacos. Não se deve, todavia, afirmar que, antes da década de 1950, inexistia tratamento medicamentoso na Psiquiatria; ao contrário, havia um amplo uso de sedativos e hipnóticos como hidrato de cloral, paraldeído, narcóticos e barbitúricos. Todavia, sua importância era mínima para a terapêutica; eram sedativos e nada mais9. A novidade empregada pelos novos psicofármacos foi a sua capacidade de, pela associação com diversos outros atores, produzir uma nova rede16 que modificou as maneiras de fazer Saúde Mental, o que também significa dizer, como tão bem colocado pela Saúde Coletiva7, novos modos do social, isto é, do viver em conjunto. O que exige reformular os problemas de acordo com as inflexões produzidas pela modulação química.
Vertentes históricas sobre os psicofármacos
Uma das principais tarefas que a história coloca para si é produzir compreensões críticas sobre seus objetos, auxiliando outras disciplinas no exercício de recolocação permanente dos objetos em direção às questões de interesse. A história dos psicofármacos necessita, portanto, produzir reflexividade em torno dessas substâncias para colocar problemas pertinentes. O problema, nada simples, é precisamente: Quais são os problemas?
É possível afirmar, pecando por certa simplificação, que existem duas vertentes concorrentes sobre a história dos psicofármacos. Uma delas, alinhada com a ideia de progresso da Ciência, considera o advento dos psicofármacos como responsável por uma verdadeira “revolução psicofarmacológica”. É feita uma analogia com a penicilina; de maneira que, similar à noção de que o antibiótico “revolucionou” o tratamento das infecções bacterianas, a clorpromazina teria produzido um efeito parecido na esquizofrenia, justificando, assim, a alcunha “revolução psicofarmacológica”4. De tal vertente destaca-se a obra de Judith Swazey: “Chlorpromazine in Psychiatry: study of therapeutic innovation”1. A perspectiva “revolucionária” valoriza a eficácia dos novos psicofármacos e como, a partir deles, produziu-se uma significativa melhora no tratamento das psicoses.
Vários pesquisadores, divergindo de uma história do progresso na Ciência, elaboram uma vertente mais crítica sobre os psicofármacos3,5,14,17. Sandra Caponi coloca em dúvida as certezas que falam da existência da denominada “revolução psicofarmacológica”3, na medida em que existe o questionamento se a introdução dos novos fármacos significam uma novidade na Psiquiatria ou apenas uma reatualização de conhecidas práticas asilares. Em sua análise, fortemente apoiada na analítica do poder foucaultiana, Caponi privilegia a manutenção de dispositivos de poder “disciplinares” e “de segurança” no uso dos psicofármacos.
Necessário afirmar, porém, que existem pesquisadores, os quais são difíceis de classificar na vertente “revolucionária” ou “crítica”, pois conjugam a questão de outra maneira. E, de diferentes formas, aproximam-se da tese aqui defendida. Temos como exemplo Hencke, que não nega o aspecto revolucionário das mudanças ocorridas entre os anos 1950 e 1970; todavia, busca antes as enquadrar em um conjunto heterogêneo de mudanças na Psiquiatria e na organização social do que exclusivamente nos efeitos dos psicofármacos2. Outro exemplo, já citado aqui, é Nikolas Rose e Abi-Rached15 que compreendem, por meio de uma analítica da governamentalidade, os psicofármacos como parte da formação de um campo neurocientífico que produz novas maneiras de governo da vida.
Dessa forma, existe uma heterogeneidade de maneiras de colocar os problemas em torno dos psicofármacos pela história. Entretanto, mesmo sob o risco de analisar de modo deveras dicotômico, será escolhido examinar melhor o ponto de discordância entre a vertente “revolucionária” e a “crítica”. Antes do que destacar os pontos mais extremistas, superando-os em uma síntese dialética, de forma contraintuitiva vai se buscar entender a factibilidade de ambos os entendimentos, porém adicionar um condicional: a factibilidade depende da situação. Para essa tarefa, faz-se necessário um breve recuo sobre o seio de produção dos psicofármacos: as terapias biológicas em pleno uso nos hospitais psiquiátricos. Esse recuo permitirá tornar mais claras as divergências que a história dos psicofármacos engendram.
O início do século 20 marca um período de modernização da Psiquiatria. Trata-se de um momento no qual o tratamento baseado exclusivamente no isolamento e em técnicas de controle comportamental – o conhecido traitement moral de Pinel e seus desdobramentos – demonstra sua insuficiência e os hospitais buscam modernizar-se com o desenvolvimento de novos tratamentos18,19, o que, importante o destaque, não eliminou o “tratamento moral”, mas adicionou novos. Nesse período, os tratamentos biológicos foram desenvolvidos como um esforço de aproximação com os procedimentos e técnicas do restante das especialidades médicas. Isto é, na medida em que a medicina do início do século 20 proliferou uma série de inovações tecnocientíficas – radiografia, anestésicos, vacinas, eletrocardiograma, antibióticos, dentre outras –, a Psiquiatria também buscou modernizar seu arsenal terapêutico.
O Hospital do Juquery, em São Paulo, é um interessante exemplo, uma vez que foi o local de inúmeras pesquisas, de formação profissional e de introdução de novos tratamentos visando atingir maior estatuto de prática científica. Pacheco e Silva (1898-1988), diretor do hospital e professor da cadeira de “Clínica Psiquiátrica” da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo e da Escola Paulista de Medicina, afirma: “A antiga patologia mental, denominada psiquiatria de asilo, cedeu lugar à chamada psiquiatria dita de hospital. O doente mental, por sua vez, foi elevado à dignidade dos demais doentes”19 (p. 56).
É na busca de tornarem-se científicas que as terapias biológicas, denominadas por Pacheco e Silva como “terapias de choque”, são desenvolvidas. Tratava-se de terapias muito heterogêneas entre si, que, entretanto, apresentavam em comum a produção de reações “drásticas” no organismo, as quais, mesmo sem uma clareza de sua ação, eram consideradas indispensáveis ao efeito terapêutico.
As principais “terapias de choque” consistiam em: malarioterapia, injeção de cardiazól e cálcio, insulinoterapia, eletroconvulsoterapia e psicocirurgias5. É nesse caldeirão de experimentações de técnicas biológicas, que o grupo francês em Sainte-Anne, do qual Deniker participava, começa a utilizar a clorpromazina junto com o gelo na promoção de uma “hibernação artificial”. É evidente a proximidade da técnica da hibernação com as “terapias de choque”, de modo que a reação drástica ocorrida pela via da hibernação com gelo era hipoteticamente necessária para o desfecho terapêutico. Entretanto, as observações empíricas passaram a sugerir que efeitos neuropsiquiátricos específicos da clorpromazina ocorriam independentemente da técnica da hibernação5. Ou seja, começava a ficar claro que não era preciso produzir uma reação drástica no organismo: a clorpromazina era capaz de produzir efeitos terapêuticos isoladamente.
É no corpo que tanto as terapias biológicas como os psicofármacos atuam. A despeito de as primeiras observações de Deniker sugerirem a eficácia isolada da clorpromazina, ainda houve, nas primeiras décadas após sua introdução, uma zona de interseção entre esses tratamentos, evidenciada pela proposição de que os neurolépticos, em uma nova interface com o “modelo do choque”, necessitavam produzir uma potente síndrome extrapiramidal para serem efetivos20. É apoiada na proximidade inicial entre terapias biológicas, hospital psiquiátrico e os psicofármacos que Caponi considera que a função principal dos neurolépticos produz um tipo de “biopolítica da indiferença”3, na medida em que tranquiliza o paciente e o adapta (até certo ponto) ao hospital psiquiátrico e à normatividade social. Após a introdução da clorpromazina no Sainte-Anne, há o relato anedótico da comunidade próxima do hospital notar a diminuição no barulho advindo do hospital21, isto é, os pacientes tornaram-se mais tranquilos. O próprio Pierre Deniker declara explicitamente que a clorpromazina “produz um estado muito particular de desinteresse”22 (p. 371, traduzido). Tais indicativos permitem levar à conclusão de que os psicofármacos podem produzir um modo de vida baseado na “indiferença” como propõe Caponi. Todavia, esse efeito resiste a ser generalizado.
O uso dos psicofármacos é, de início, feito dentro dos hospitais psiquiátricos; entretanto, em clara contraposição com as terapias biológicas que nunca saíram dos muros asilares, seu uso começa a integrar o regime de tratamento na comunidade14. Os psicofármacos compõem uma série de modificações na prática psiquiátrica do pós-Guerra que privilegia os atendimentos em consultas individuais fora do hospital psiquiátrico2. Fenômeno esse que continua mediante o uso de fármacos em casa, predominantemente prescritos dentro dos serviços comunitários e consultórios.
O contraste entre psicofármaco-asilo e psicofármaco-comunidade permite identificar diferentes modos de utilização, indicando que uma molécula “não é a mesma” em função de: diferenças entre classes farmacológicas, dose utilizada, uso dentro ou fora de uma lógica manicomial, por exemplo. Certos usos, em proximidade com as terapias biológicas manicomiais, funcionam de forma agressiva no corpo, produzindo, no melhor dos cenários, uma tranquilização química; e, no pior, efeitos sedativos e colaterais graves. Outros usos, porém, parecem destacar os psicofármacos tanto de suas terapias predecessoras quanto do próprio asilo, podendo integrá-los em uma lógica de cuidado comunitário com participação ativa do paciente sobre o próprio uso das medicações; tem-se como exemplo animador os Grupos Autônomos de Medicação (GAM).
O argumento aqui defendido, portanto, é de que não é preciso escolher entre uma narrativa “crítica” ou “revolucionária”, menos pela falsidade delas, mas pelo oposto: as duas são “verdadeiras”. A questão que impera, como será mais bem discutida no tópico a seguir, é que os psicofármacos, a depender da situação de uso, isto é, dependendo da sua relação com outros elementos, fazem coisas diferentes. É válido retomar o sentido profundo do termo pharmakon, radical presente nos psicofármacos, no qual veneno e remédio são virtualidades possíveis23. O que vai definir? A miríade de relações trabalhistas, químicas, clínicas, institucionais, econômicas e etárias (para citar algumas) em que o pharmakon vai atuar.
É possível analisar a introdução dos psicofármacos em uma narrativa soteriológica de magic pills ou por meio de críticas desenfreadas às medicações, as quais apenas seriam mais uma forma de exercício de controle dos corpos desviantes da sociedade. Existe, entretanto, um caminho diferente que busca permanecer com a intuição inicial de ambas as análises, que consiste na percepção de os psicofármacos serem elementos importantes no modo de produção de Saúde Mental, ao mesmo tempo que evita conclusões gerais “capazes” de solucionar problemas que precisam ficar abertos.
O “giro químico”: mantendo os problemas
A vasta e heterogênea literatura dos Science and Technology Studies (STS) traça importantes relações com as proposições aqui defendidas. De maneira geral, os STS apresentam um modo particular de compreender a importância que os desenvolvimentos técnicos e científicos possuem na modificação da organização das práticas sociais16,24, dentre elas: a saúde25. Essa literatura considera que uma inovação científica, como a clorpromazina, produz mudanças na forma em que determinada prática se realiza no caso explorado: a Saúde Mental. Isto é, uma tecnologia não é uma “mera ferramenta” a ser utilizada, trata-se de um ator que adiciona novos ingredientes à organização social. Então, se por um lado é preciso destacar que os desenvolvimentos tecnocientíficos mudaram as práticas de saúde, por outro é necessário negar qualquer possibilidade de definição geral das mudanças. Isso significa, retendo-se ao objeto aqui em estudo, compreender os psicofármacos como atores16, enfatizando sua capacidade de produzir mudança, ao mesmo tempo em que permanece aberta a direção da mudança. Ou, melhor dizendo, os múltiplos condicionantes do agir são reconhecidos. Afinal, toda ação se faz em uma situação.
O ator, numa interessante definição prosaica, é simplesmente aquilo que “faz algo” para Latour. Há mudança; traça-se uma ação, existe um ator; ao contrário, nenhuma mudança perceptível: não há ação, nem ator16. A simplicidade dessa definição contrasta com sua potência analítica inquietante de convidar ao estudo empírico dos atores. Então, afinal, qual é “a ação” dos psicofármacos? Em outras palavras, como objeto de estudo da história, de que modo compreender seu impacto? Um caminho possível é considerar os psicofármacos, parafraseando uma expressão de Annemarie Mol, como objetos que são “mais do que um e menos do que muitos”25 para a história. Isto é, ser “mais do que um” torna impossível uma definição única, ao mesmo tempo em que ser “menos do que muitos” nos afasta do pesadelo relativista.
Uma maneira melhor de convocar a história da psicofarmacologia é produzir uma compreensão crítica que demonstra importância histórica dos psicofármacos para a prática psiquiátrica; todavia, não encerra o debate em uma univocidade de sentido. Dessa forma, enseja-se a investigação da equivocidade no agir dessas moléculas. Ou seja, é necessário uma atenção ética sobre seus efeitos, que ainda não estão determinados, mas existem como virtualidades possíveis de se atualizar junto com os coletivos de diferentes modos.
É por essa razão que se propõe considerar que o advento dos psicofármacos na década de 1950 produziu um “giro químico”, isto é, a intervenção química no corpo foi incorporada às práticas de saúde. Todavia, os efeitos de tal intervenção química nunca podem ser generalizados ou sintetizados como um todo, mas tomados como virtualidades prontas a se tornarem atuais a depender de suas relações. O “mesmo” psicofármaco não é o mesmo em um grupo de Gestão Autônoma da Medicação e em uma unidade com características asilares (em suas formas atuais de expressão).
Afirmar que os psicofármacos se tornaram componentes de forte presença no cuidado em Saúde Mental e deixar em aberto seus efeitos não é uma falha analítica, mas é levar a análise até onde ela pode ir. Se há uma potência na história em ser um estudo de permanente crítica do presente pelo passado, a atitude crítica não deve temer uma dose de equivocidade, mas sim temer qualquer análise unívoca, isto é, que tenha a pretensão de possuir o ponto de vista universal.
Negar uma narrativa que já tenha resolvido a questão da função dos psicofármacos – em geral um diagnóstico que termina em “benéfico” ou “maléfico” – implica exigir um esforço dos coletivos em investigar, por meio dos problemas reais que cada situação coloca, os efeitos de tal substância. O estudo da história possui menos a função de aplicar uma normatividade geral sobre a saúde do que, por uma realidade múltipla (isto é, saúdes com “s”), estimular a atividade normativa. Situar, como defende Stengers26, não tem relação com um ponto de vista especial; enfim, a verdade transcendental. Ao contrário, situar implica abrir o conhecimento para se relacionar com tudo e todos aqueles que importam para a situação, isto é, um conhecimento pela imanência. Tal estratégia nega qualquer forma de perspectiva privilegiada (logo, universal) sobre a questão dos fármacos.
Dessa forma, a história pode ser uma importante ferramenta para situar a questão dos psicofármacos, desde que abdique de um ponto de vista privilegiado e instigue o surgimento de problemas que não possuem solução fácil (e geralmente não única) acerca dos efeitos sociotécnicos dessas substâncias. Em outras palavras, narrar a história que destaca a importância dos psicofármacos exige, para se manter fiel ao espírito crítico, manter em aberto os problemas sobre o uso dessas substâncias em suas situações práticas.
Conclusão: situando os psicofármacos
Discutir a história da introdução dos psicofármacos é importante para compreender o devir que a Psiquiatria rumou nas últimas décadas. É fundamental evitar maniqueísmos que glorificam ou demonizam as medicações. Em vez disso, é possível reconhecer que esses medicamentos introduziram um “giro químico” na Psiquiatria, trazendo novos problemas clínicos e éticos. As intervenções químicas, apesar de importantes, não devem ser vistas como panaceias, mas como atores cujo impacto varia conforme a situação específica de seu uso.
Portanto, a história dos psicofármacos deve ser uma forma de contínua colocação de problemas antes do que resolvê-los, de modo que propicie reflexões contínuas sobre seu uso e seu impacto. Essa abordagem situa os psicofármacos em relação aos problemas práticos, convocando a compreender a diversidade de efeitos que eles podem produzir. Por fim, o caminho proposto permite reconhecer os psicofármacos como multiplicidade, isto é, possuindo uma variação definida em função de conexão com atores outros. Essa é uma maneira de convocar a história dos psicofármacos a produzir um objeto mais rico e aberto à tão necessária participação popular.
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(b)
O texto “Por que a crítica perdeu a força? De questões de fato a questões de interesse” de Bruno Latour desenvolve com clareza a diferença entre “questões de interesse”, que abrem a discussão, e “questões de fato”, que a encerram na medida em que descrevem a “realidade tal como é”6.
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Seabra DS. História dos psicofármacos: reabertura do debate. Interface (Botucatu). 2025; 29: e240333 https://doi.org/10.1590/interface.240333
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Editado por
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Editor
Tiago Rocha Pinto
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Editor associado
Alberto Rodolfo Velzi Diaz
