Resumo
O estudo objetivou explorar, na literatura científica global, os desafios e as potencialidades da Atenção Primária à Saúde (APS) para abordagem das situações de violência contra homens nos diferentes ciclos de vida. Trata-se de uma revisão de escopo realizada em janeiro de 2024 em dez bases de dados e que incluiu 19 publicações. Os resultados foram descritos por ciclo de vida em dois temas. A invisibilidade da violência contra os homens e a falta de formação dos profissionais foram os principais desafios. Os atributos da APS para identificar e atender homens em situação de violência de forma integral, promovendo vínculos de confiança e articulando ações intersetoriais, foram as principais potencialidades. Concluiu-se que a APS enfrenta barreiras na abordagem da violência contra homens, mas possui potencialidades a serem exploradas. É essencial fortalecer a formação dos profissionais e as pesquisas; e promover intervenções intersetoriais para aprimorar o cuidado.
Palavras-chave
Violência; Saúde do homem; Atenção Primária à Saúde; Revisão de escopo
Abstract
The study aimed to explore the challenges and potential of Primary Health Care (PHC) in addressing situations of violence against men in different life cycles in the global scientific literature. A scoping review was carried out in January 2024 on 10 databases, which included 19 publications. The results were described by life cycle in two themes. The invisibility of violence against men and the lack of training for professionals were the main challenges. The main strengths were PHC's ability to identify and provide comprehensive care for men in situations of violence, fostering bonds of trust and coordinating intersectoral actions. It was concluded that PHC faces barriers in dealing with violence against men, but has potential to be exploited. It is essential to strengthen professional training, research and promote intersectoral interventions to improve care.
Keywords
Violence; Men's health; Primary Health Care; Scoping review
Resumen
El objetivo del estudio fue explorar, en la literatura científica global, los desafíos y las potencialidades de la Atención Primaria de la Salud (APS) para el abordaje de las situaciones de violencia contra hombres en los diferentes ciclos de la vida. Revisión de alcance realizada en enero de 2024 en diez bases de datos, incluyendo 19 publicaciones. Los resultados se describieron por ciclo de vida en dos temas. La invisibilidad de la violencia contra los hombres, así como la falta de formación de los profesionales fueron los principales desafíos. Los atributos de la APS para identificar y atender a hombres en situación de violencia de forma integral, promoviendo vínculos de confianza y articulando acciones intersectoriales, fueron las principales potencialidades. Se concluyó que la APS enfrenta barreras en el abordaje de la violencia contra hombres, pero posee potencialidades que hay que explorar. Es esencial fortalecer la formación de los profesionales, las investigaciones y promover intervenciones intersectoriales para el perfeccionamiento del cuidado.
Palabras clave
Violencia; Salud del hombre; Atención Primaria de la Salud; Revisión del alcance
Introdução
A violência é um fenômeno complexo; relacional; multifacetado; e determinado pelos contextos sociais, culturais, políticos e econômicos. Considerada um grave problema de saúde pública, é definida como o uso intencional de força física ou poder, seja de forma real ou ameaça, contra si próprio, outra pessoa ou grupo, resultando em lesões, morte, sofrimento psicológico, privações ou problemas no desenvolvimento1.
Os homens são associados à violência como perpetradores; todavia, eles também são afetados como vítimas, especialmente em casos de violência física, sexual e homicídios2-4. As masculinidades hegemônicas, que valorizam atributos como força, dominação, autossuficiência e resistência emocional desde a infância5, dificultam as relações de cuidado e expressão de vulnerabilidades pelos homens, reforçando o papel de agressor e invisibilizando as violências que sofrem2,6,7.
A população masculina é acometida por violências físicas não letais, resultantes de brigas e conflitos interpessoais2,5. A violência sexual também é identificada entre os homens nos diferentes ciclos de vida8,9. Estudos apresentam prevalências de violência sexual variando entre 1% e 71%, destacando a subnotificação dos casos4,9. Além disso, os homens da comunidade LGBTQIAPN+ sofrem violências psicológicas, físicas e sexuais, motivadas pela heteronormatividade compulsória e manifestas pela homo, bi e transfobia10.
Homens representam 81% das vítimas de homicídios no mundo, sendo as principais vítimas de violências letais, segundo a Organização das Nações Unidas (ONU)11. Uma revisão de estudos brasileiros apontou que homens pretos; adultos jovens; e com baixos níveis socioeconômicos e escolares são as principais vítimas fatais de causas externas12.
A violência direcionada à população masculina, nos diferentes ciclos de vida, é pouco investigada no contexto nacional e internacional. As pesquisas sobre agressores focam em homens, enquanto as sobre vítimas focam em mulheres13,14. Essa lacuna é maior quando se observa o fenômeno no contexto da Atenção Primária à Saúde (APS), que deveria desempenhar papel fundamental na identificação e no cuidado desses homens3,6.
Considerando os objetivos da Política Nacional de Atenção Integral à Saúde do Homem (PNAISH), essa invisibilidade compromete a atenção à saúde dos homens14. Como porta de entrada prioritária e ordenadora do cuidado no Sistema Único de Saúde (SUS), a APS deve acolher esse grupo e suas demandas, proporcionando espaço para o diagnóstico, a notificação e o suporte àqueles que sofrem violências14,15.
Assim, propõe-se realizar uma revisão de escopo com o objetivo de explorar, na literatura científica global, os desafios e as potencialidades da APS para abordagem das situações de violência contra homens nos diferentes ciclos de vida.
Método
Foi realizada uma revisão de escopo conforme o manual do Joanna Briggs Institute16. Foram utilizadas as recomendações do PRISMA-SrC, checklist com 21 itens para melhorar a qualidade das revisões17.
A questão da pesquisa – “Quais são os temas abordados sobre violência contra homens no contexto da APS na literatura global?” – foi construída por meio do método população, conceito, contexto (PCC), em que a população eram homens nos diferentes ciclos de vida, o conceito era a violência e o contexto, a Atenção Primária à Saúde. A escolha de uma pergunta ampla e aberta visou obter maior diversidade na produção científica sobre o tema.
Não foi realizado recorte de tempo, idioma ou local dos estudos. Os critérios de inclusão foram estudos primários (quantitativos e qualitativos), estudos de revisão e guias/protocolos sobre abordagem das violências contra homens no contexto da APS, publicados em periódicos indexados na área da saúde. Os critérios de exclusão foram estudos provenientes de outros níveis de atenção à saúde; relacionados a especialidades médicas, a outros serviços públicos, privados e sociais; artigos teóricos; editoriais; e cartas.
Foram selecionadas as seguintes palavras-chave: “violence”, “male” e “Primary Health Care”. A estratégia de busca foi desenvolvida e aplicada com apoio de um bibliotecário especialista em pesquisas na área da saúde. A chave utilizada na Scopus e adaptada para as outras bases foi: (“violence” OR “violences” OR “atrocities” OR “assaultive behavior”) AND (“male” OR “males” OR “men” OR “man” OR “masculinity”) AND (“Primary Health Care” OR “Primary Healthcare” OR “Primary Care” OR “Basic Health Care” OR “Basic Care” OR “Basic Service”).
As buscas foram realizadas em janeiro de 2024 na Scopus, Web of Science, Scielo, Pubmed/Medline, Lilacs, BDENF, CINAHL, Embase e Psycinfo, escolhidas pela abrangência e relevância na área da Saúde. A literatura cinza foi explorada no Google Scholar, com análise dos cem primeiros trabalhos. Os materiais recuperados foram exportados para o Rayyan QCRI para remoção de duplicatas e seleção.
Dois pesquisadores realizaram a seleção de forma independente. Utilizaram-se os critérios de inclusão e exclusão nos seguintes passos: seleção por títulos, seleção por resumos e seleção por leitura na íntegra. As referências citadas nos artigos selecionados foram verificadas para identificar novos estudos. As divergências na inclusão ou exclusão foram deliberadas em caráter final por um terceiro pesquisador.
Para extração dos dados, utilizou-se uma planilha no software Excel com estes campos: autores; ano de publicação; revista; país da pesquisa; objetivo; delineamento do estudo; população analisada; forma de recrutamento dos participantes; número de participantes; idade dos participantes; ciclo de vida dos participantes; ferramentas de coleta; período de coleta; potencialidades e desafios; práticas setoriais na APS e intersetoriais; principais resultados; e principais conclusões. Dois pesquisadores realizaram a extração independentemente e, após a comparação dos resultados obtidos, as divergências foram consensuadas.
Realizou-se análise temática18 para organizar e tratar os materiais incluídos. Para identificação e descrição dos temas, norteou-se pela pergunta da revisão e observaram-se as similaridades e diferenças nos resultados extraídos dos materiais incluídos. Buscaram-se os desafios e as potencialidades da APS para atuar com os homens que sofrem de violência, especificando-os por ciclos de vida.
Resultados
As buscas recuperaram 3.338 registros. Após a exclusão dos duplicados, restaram 2.068 para a seleção. Na análise dos títulos, foram selecionados 703 materiais; na análise por resumos, 104; e, após a leitura integral dos estudos, 19 foram incluídos na revisão, conforme apresentado na figura 1.
A abrangência temporal dos estudos selecionados compreende o período de 1997 a 2018, sendo a maioria conduzida no Brasil (n=13), seguido por estudos por Estados Unidos (n=4) e Canadá (n=2). Desses, dez materiais abordaram crianças e adolescentes; quatro, homens adultos; três abrangeram todos os ciclos de vida; um abordou crianças, adolescentes e adultos; e um não especificou o ciclo de vida. No quadro 1 são apresentados os dados bibliométricos dos materiais incluídos.
Os resultados foram organizados em dois temas e especificados por ciclo de vida, conforme descrito a seguir. Um organograma dos resultados está na figura 2.
Organograma de desafios, potencialidades e recomendações para abordagem da população masculina em situação de violência na APS.
Desafios do manejo na APS das violências contra a população masculina
A formação insuficiente, resultando em despreparo dos profissionais da saúde para o manejo dos casos de violência, foi apontada na maioria dos estudos3,20-22,26-29,31-35. Foram destacados temas como a pouca nitidez conceitual3, o despreparo para identificar casos sem sinais explícitos e a identificação apenas de agressões físicas27. As deficiências formativas foram mencionadas na dificuldade de notificar os casos, devido ao desconhecimento das fichas de registro e aos obstáculos para seu preenchimento27.
O despreparo também gerou medo nos profissionais para atendimento das violências contra homens. Identificaram-se sentimentos de incapacidade, falta de proteção e decepção com as abordagens dos casos, que ficaram mais evidentes nos casos de abusos sexuais com crianças e adolescentes, pela impotência frente à situação22.
A não superação do modelo biomédico na APS foi apontado como um desafio na abordagem dos homens em situação de violência3,25,26. Esse cenário resultou em diagnósticos e encaminhamentos equivocados, dificuldade de criação de vínculos de confiança e atenção em saúde direcionada aos efeitos físicos da violência sofrida.
Outros desafios foram as falhas e o despreparo das redes de atenção à violência. O desconhecimento de instituições e setores que deveriam compor a rede de cuidados contribui para fragilizar os vínculos dessa estrutura26. A dificuldade no fluxo de informações, referência e contrarreferência também foi apontada como limitadora do cuidado, especialmente em casos complexos26. Estudos apontaram que esse cenário prejudica a implementação de abordagens preconizadas nas políticas de saúde3,26.
Em relação a crianças e adolescentes, identificou-se que os profissionais tendem a considerar castigos, punições físicas, gritos e xingamentos como práticas normais. Os profissionais consideram aceitável que os pais ou familiares adotem práticas violentas para corrigir comportamentos inadequados27,32. Outro desafio foi a dificuldade dos profissionais de identificarem a violência sexual por falta de formação ou pela invisibilidade do fenômeno26-28,32,34.
Entre os homens adultos, foram identificadas dificuldades dos profissionais no acesso e na familiarização com as políticas e legislações para abordagem da violência24,29, bem como na inclusão e no uso de protocolos e triagens nas consultas de rotina e para o acolhimento na APS3,24. Foi destacada a dificuldade de os profissionais reconhecerem que os homens adultos sofrem violências21.
Para homens idosos, apenas um dos materiais elencou desafios30. Destacou-se a dificuldade em identificar o abuso por vergonha, medo e sentimento de culpa desses homens. A naturalização da violência contra os idosos pelos profissionais, entendida como parte das relações familiares, foi destacada como entrave, visto que os familiares são os principais perpetradores de negligências e violências.
Potencialidades e recomendações no contexto da APS
Nas ações setoriais na APS, os trabalhos apontam para a necessidade de consolidação e fortalecimento das diretrizes deste nível de atenção. As reuniões de equipe foram destacadas como espaços-chave para o fortalecimento e a qualificação do manejo dos casos de violência contra os homens – um local seguro e potente para definir estratégias de cuidado e acompanhamento multiprofissional adequado25,26,34.
Esse espaço foi apontado como local de proteção da equipe, proporcionando o compartilhamento das responsabilidades e suporte emocional para abordar casos complexos de violência32. O acompanhamento regular; com consultas e visitas domiciliares3,25; a possibilidade de escuta qualificada e acolhimento; e o conhecimento sobre a realidade e territórios em que os homens vivem3,20,21,24,34,36 foram apontados como potenciais para a maior resolutividade para abordagem de homens em situação de violência.
Os ACSs são destacados como essenciais na definição e validação das ações planejadas em equipe, alertando sobre riscos e prováveis fracassos; mediando conflitos entre profissionais e usuários; e auxiliando na escolha de intervenções para abordagem dos homens. Eles identificam responsáveis e aliados para trabalharem com as situações de violência na comunidade, bem como detectam possíveis negligências e abusos25-27,30.
O Plano Terapêutico Singular (PTS) foi trazido como estratégia colaborativa entre profissionais da saúde e usuários, considerando aspectos clínicos e contextuais para promover um cuidado humanizado aos homens que sofrem violência3. A organização dos ambientes das unidades de saúde como um espaço acolhedor, seguro e confiável para homens foi apontado como um fator potencial. Recomenda-se a utilização de cartazes, panfletos e outras informações sobre violência doméstica para o público masculino em salas de espera, banheiros e áreas de sala de exame24,31.
As ações intersetoriais foram destacadas como fundamentais na assistência aos homens em situações de violência, especialmente pela função de coordenação do cuidado da APS3,26,34. Foi apontada a necessidade de os profissionais conhecerem a rede de apoio existente, os protocolos e os processos de referência e contrarreferência. Essa abordagem por meio da rede de atenção à violência foi colocada como indispensável para o cuidado integral dos homens e a resolutividade dos serviços3,33.
O conhecimento de práticas comunitárias, que atuam como fatores de proteção para as famílias envolvidas em situações de violência, tem implicações diretas nos cuidados prestados, oferecendo suporte e segurança aos homens em situação de violência26,33. A oferta de lista com locais/abrigos e outros ambientes de acolhimento que prestem apoio para pessoas em situação de violência foi trazida enquanto recomendação para a APS24.
Para crianças e adolescentes, as ações preventivas na APS são fundamentais. Orientações para as crianças sobre as formas e os locais apropriados para serem tocadas20 e instruções para os responsáveis sobre as formas de violência, inclusive no ambiente doméstico, devem ser incorporadas pelos profissionais20,30,33.
O olhar preventivo para as situações de violência na assistência pediátrica e o acolhimento nos programas de puericultura e imunização são apontados como potencializadores para a identificação precoce dos casos33. Visto que a violência doméstica e sexual é recorrente nesse grupo, foi destacada a necessidade do trabalho intersetorial em rede para a efetiva integralidade da assistência30.
A articulação da saúde com os setores jurídico, policial, de serviço social e de Psicologia; e organizações não governamentais, religiosas, esportivas e culturais contribui para tomada da melhor decisão referente aos casos30,33. Em relação aos pontos da rede intersetorial, destaca-se a centralidade do Conselho Tutelar28.
Para violência sexual, maior enfoque dos estudos, ressaltou-se a necessidade de conhecimentos de Psicologia infantil, técnicas de conversação/entrevistas adaptadas à idade, legislação pertinente e protocolos de encaminhamento para uma abordagem segura e qualificada22. No acolhimento desses casos na APS, as entrevistas devem ser realizadas com os responsáveis20 e, ao se identificar que o agressor é membro da família, não é conveniente informá-lo, pois aumenta os riscos de represálias e revitimização. Nesses casos, outros membros da família devem ser contatados de maneira estratégica, preferencialmente por indicação da própria criança ou do adolescente30.
A necessidade de formação específica para o atendimento dos casos de violência envolvendo crianças e adolescentes foi mencionada como essencial para garantir um cuidado abrangente, seguro e qualificado22.
Para homens adultos, foi elencada a necessidade de os profissionais serem instrumentalizados para incorporar aspectos culturais, especialmente os relacionados às construções de masculinidades, como a ideia de força, invulnerabilidade e independência, que pode levar os homens a não procurarem cuidados de saúde em situações de violência3,21. O contexto da APS é indicado para isso devido à sua proximidade com o contexto social e os territórios em que os homens vivem3,24.
Recomenda-se documentar adequadamente as suspeitas de abuso, os sinais físicos de violência – incluindo a extensão e a natureza das lesões – e os planos de tratamento19,23,30. Atendimentos que garantem manutenção da confiança, ambiente empático, sem julgamento e seguro auxiliam no diagnóstico clínico de violência por parceiro íntimo e doméstica entre homens24.
Destacou-se a necessidade da oferta de apoio e estratégias para cessar os episódios abusivos, evitando um ciclo constante de violência e observando os impactos na saúde (insônia, dor crônica, lesões e problemas de saúde mental)19,30. É recomendado identificar e capacitar os recursos comunitários e as redes de apoio dos homens em situação de violência para que colaborem no processo de acompanhamento30.
Nas situações de violência contra homens, outros homens podem estar envolvidos como perpetradores; assim, indica-se avaliação do impacto da violência na vida e saúde da vítima para interromper os episódios violentos34. É recomendado em consultas demonstrar que o comportamento violento contribui para os problemas de saúde36.
A utilização de cartazes, panfletos e outras informações sobre acolhimento dos homens em situação de violência nos serviços foi apontada como recurso preventivo e ideal para aproximar os homens dos serviços para pedirem apoio19.
Para homens idosos, é importante estar atento a fatores relacionados à negligência e violência, como acesso frequente ao serviço de saúde, sofrer três ou mais quedas em um ano, ter um cuidador único, ter cuidadores com saúde física e mental prejudicadas ou que façam uso abusivo de substâncias, ter família com problemas econômicos, divórcio e falta de moradia30.
Acerca da identificação dos casos, foram elencados sinais específicos a serem observados nos diferentes tipos de violência: lacerações, queimaduras, ausência de cabelos ou couro cabeludo sensível, atraso na busca de tratamento e lesões em estágios diferentes de cicatrização (violência física); presença de sêmen ou sangue ressecado, lesão na genitália externa ou no ânus, infecções sexualmente transmissíveis inesperadas para a condição do idoso (violência sexual); episódios de medo, raiva, confusão, retraimento, baixa autoestima, depressão, comportamento excessivamente cauteloso perto do cuidador, autoagressão e ideações suicidas (violência psicológica)30.
No que tange às situações de negligência, deve-se atentar a sinais como higiene insatisfatória, roupas inadequadas para a estação, ausência em retornos, problemas de saúde não tratados, desnutrição, privação ou auxílio inadequado para a mobilidade, ausência de dentaduras ou dentes cariados/quebrados e privação de contatos sociais30.
Recomenda-se que os profissionais atuem de forma preventiva, inclusive para situações de violência patrimonial, orientando a não realizar transações de dinheiro, bens materiais e/ou assinar documentos em troca de auxílios sem buscar assistência jurídica adequada. A participação em grupos de convivência, organizados pela APS ou por outras instituições, deve ser estimulada para formação de rede de apoio e socialização30.
Discussão
A produção científica da área da Saúde sobre a abordagem da APS aos homens acometidos por violências demonstra a necessidade da compreensão de aspectos socioculturais e estruturais relacionados às violências e à saúde dos homens e que ultrapassam o campo da saúde, tais como as construções de masculinidades e a compreensão social sobre violência e cuidado.
As construções de masculinidades estão intrinsecamente ligadas à compreensão e à manifestação da violência entre os homens5,6. As normas socioculturais direcionadas a esse grupo frequentemente impõem, desde a infância, um padrão de comportamento que valoriza a força, a dominação e a resistência emocional, contribuindo para atitudes violentas5. A dificuldade em expressar vulnerabilidades e buscar ajuda, pelo medo de parecerem fracos ou menos masculinos, mantém ciclos de violência tanto como perpetradores quanto como vítimas6.
Quando se trata de homens idosos, crianças e adolescentes, a naturalização social da violência como forma de educação e disciplina é um dificultador da atuação sobre a problemática. Ainda persiste a ideia equivocada de que punir verbalmente ou fisicamente é eficiente para educação e forma de cuidado sem impactos na saúde37,38.
Essas naturalizações refletem-se no diminuto volume de pesquisas sobre o tema e dificultam a percepção das implicações desses comportamentos como questões de saúde, tanto para meninos e homens que sofrem violências quanto para os profissionais da saúde. Nesta revisão, isso apareceu como principal desafio na abordagem dos profissionais da APS aos homens acometidos por violência nos diferentes ciclos de vida27,32,30.
Em relação à prática na APS, os resultados apontam para a persistência de um olhar biomédico na atenção aos homens em situação de violência. Ou seja, ignoram-se os determinantes sociais e as atividades de prevenção; lidando-se apenas com os efeitos da violência – em especial, os físicos. A APS foi construída como o espaço para a reorientação do modelo de atenção; entretanto, a literatura aponta que esse ainda é um desafio a ser superado, especialmente na abordagem da violência39.
A formação dos profissionais da saúde deficiente para atuação com base nos determinantes sociais de saúde; e a sobrecarga e os modelos de avaliação da APS, que priorizam procedimentos quantificáveis, são entraves que precisam ser enfrentados40. Em relação à falta de formação para atuar em situações de violência envolvendo homens, a literatura destaca que, no contexto universitário e mesmo na educação permanente, esse ainda é um desafio pela invisibilidade da temática, apesar de iniciativas como a PNAISH14,41 e de algumas estratégias direcionadas para APS6,13.
Conforme identificado neste estudo, os profissionais ficam inseguros e com medo de atuar nesses casos e percebem que as redes de atenção à violência são deficientes, especialmente para os homens. O medo é recorrente quando os profissionais precisam lidar com temas complexos ou que necessitam de atuação intersetorial42.
Revisão de estudos qualitativos sobre experiências de profissionais da APS que atuam com mulheres em situações de violência aponta que a insegurança em atuar com a violência é um fator determinante para o não atendimento dos casos13. Machineski43, em estudo no contexto brasileiro, corrobora essa perspectiva e acrescenta que a falta de formação e conhecimento influencia negativamente na abordagem profissional da violência na APS.
Embora as pesquisas com homens sejam restritas, percebe-se que a sensibilização e a instrumentalização dos profissionais para atuarem nos casos de violência são necessárias para qualificar os serviços da APS13,42. Identificou-se que uma barreira comum, nos diferentes ciclos de vida, é a invisibilidade dos homens em situação de violência por parte dos profissionais, seja pela percepção de que os adultos não sofrem violências, pela naturalização das violências sofridas por crianças, adolescentes e idosos ou ainda pela falta de formação para lidar com o tema26-28,32,34.
Por outro lado, o trabalho na APS apresenta potenciais para abordagem do tema da violência contra homens, especialmente pelas características estruturantes e atribuições dos profissionais nesse nível de atenção, como a abordagem integral, multiprofissional e direcionada à população em territórios delimitados, nos quais as equipes assumem responsabilidade sanitária e coordenam o cuidado na rede de atenção3,15.
A compreensão das dinâmicas sociais dos territórios e o contato longitudinal com os homens permitem reconhecer como a violência está enraizada em construções sociais de masculinidades, que variam entre os territórios, possibilitando estratégias de intervenção que transcendam a abordagem dos sintomas físicos, abarcando também as dimensões psicossociais e culturais envolvidas3,15. A presença dos ACSs, por sua inserção na comunidade, é essencial para a compreensão das dinâmicas sociais, bem como para a implementação das ações com os homens em situação de violência25,27.
Conforme identificado, é recomendável inserir a temática da violência em discussões de casos nas reuniões de equipe, incluir protocolos no acolhimento dos usuários e disponibilizar informações nas salas de espera que identifiquem o estabelecimento de saúde como seguro para homens que sofrem violência.
Para Mendonça et al.3, a atuação da APS permite uma abordagem individualizada e sensível às questões de gênero, com uma prática interdisciplinar. Nessa perspectiva, os profissionais precisam estar atentos à possibilidade de identificação de violência ou abuso entre os usuários homens, mesmo diante de relutâncias em reportar tais situações durante as consultas e outras atividades. Ambientes de diálogo e acolhimento na APS podem questionar os padrões de masculinidade vigentes, oferecendo alternativas saudáveis de expressão e conduta para os homens, com impactos na promoção da saúde mental e física, e para a transformação das normas sociais que perpetuam as violências7.
Ademais, a PNAISH visa promover a melhoria das condições de saúde da população masculina brasileira, buscando contribuir de modo efetivo para a redução da morbimortalidade dessa população, por meio do enfrentamento racional dos fatores de risco e mediante a ampliação do acesso às ações e aos serviços de atenção integral à saúde masculina14.
Para atingir seus objetivos, essa política foi elaborada com base em cinco eixos temáticos, sendo um deles a prevenção de violências e acidentes. Nesse eixo, destaca-se a importância de ações na APS para redução da morbimortalidade masculina, especialmente por meio de prevenção, identificação e cuidados dos homens em situação de violência9. Embora existam avanços na implementação da PNAISH na APS, percebe-se a manutenção da invisibilidade dos homens nos serviços, especialmente enquanto vítimas de violência44.
A abordagem centrada no usuário e no contexto social fortalece a capacidade da APS de identificar, acolher e tratar adequadamente casos de violência, contribuindo para uma assistência integral e qualificada, inclusive para homens que sofrem violência. No entanto, sabe-se da necessidade de uma articulação intersetorial para abordagem integral e resolutiva, também identificada na revisão como potencial da APS.
As ações intersetoriais são fundamentais para a assistência eficaz aos homens em situação de violência, proporcionando abordagem integrada e abrangente45. Por ser ordenadora da rede, a APS tem papel estratégico na montagem e no referenciamento dos usuários aos serviços15. Entretanto, sabe-se que há entraves no que tange à formação de redes para atenção a mulheres em situação de violência43, sendo que as direcionadas para homens inexistem.
Em relação às potencialidades da APS, no que tange à atenção aos homens em situação de violência, identificou-se que o contato próximo à realidade dos usuários e famílias; a construção de vínculos e a articulação com outros setores podem contribuir positivamente na abordagem nos diferentes ciclos de vida3,20,30.
Em relação às crianças e aos adolescentes, essas características dos serviços permitem a prevenção e identificação de violências no contexto familiar e comunitário, bem como o encaminhamento para o Conselho Tutelar e outros serviços46. Para os adultos, a construção de vínculos de confiança contribui para que os homens relatem a situação de violência vivenciada e construam novas práticas de masculinidades2. Por fim, com os idosos, os profissionais conseguem identificar sinais de violência e negligência, inclusive patrimonial, em consultas ou visitas domiciliares, orientando cuidadores e denunciando casos constatados para outros setores47.
Conclusão
Esta revisão analisou a abordagem da APS frente às situações de violência contra homens, revelando barreiras estruturais, socioculturais e formativas. Os principais desafios para essa abordagem foram o despreparo dos profissionais para identificar e manejar casos de violência; a predominância do modelo biomédico, que restringe a visão integral do cuidado; e as falhas nas redes de atenção à violência. A naturalização da violência e a invisibilidade dos homens afetados por ela – especialmente crianças, adolescentes e idosos – foram pontos críticos.
Entretanto, a APS apresenta potencialidades que podem ser aproveitadas, como a proximidade aos territórios; e a possibilidade do cuidado integral e multiprofissional baseado nos determinantes sociais de saúde. O papel dos ACSs é estratégico, assim como as reuniões de equipe, o acolhimento e o trabalho intersetorial, que podem ser estruturados para aprimorar o manejo dos homens que sofrem violências.
A relação entre as construções de masculinidades hegemônicas e a forma como os homens e os profissionais de saúde lidam com as violências foram identificadas de forma transversal. Os homens, socializados para se verem como invulneráveis, expõem-se a situações de violência, e os profissionais, por sua vez, não reconhecem essa população como vulnerável ou necessitada de cuidados específicos nessa área.
Destaca-se que há lacunas de conhecimento sobre como a APS lida e deveria lidar com homens que sofrem violência, em especial da população LGBTQIAPN+. São necessárias novas pesquisas que investiguem indicadores de qualidade no cuidado oferecido por esse nível de atenção, bem como o engajamento dos profissionais para atuar nesse fenômeno. Percebe-se a necessidade de fortalecer a PNAISH nos territórios e incluir o tema nos currículos das graduações, bem como nas formações de educação permanente e continuada em saúde.
Por fim, é crucial compreender que a violência é um fenômeno complexo que transcende os limites da saúde, exigindo ações coordenadas e intersetoriais. Embora a APS tenha um papel estratégico na identificação e no manejo de casos de violência contra homens, as intervenções para mitigar seus impactos não se restringem a esse nível de atenção, nem devem ser vistas como responsabilidade exclusiva desses profissionais.
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Editado por
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Editor
Tiago Rocha Pinto
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Editor associado
Wagner dos Santos Figueiredo



Fonte: Elaborada pelos autores.
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