Resumo
O presente estudo objetiva compreender os diversos elementos da construção das masculinidades em uma comunidade quilombola do agreste pernambucano e seus respectivos impactos na saúde. A pesquisa se constitui em um estudo do tipo qualitativo exploratório, na qual foi utilizado como instrumento de coleta de dados entrevistas em profundidade com sete homens quilombolas de uma comunidade do agreste pernambucano. A análise ocorreu por meio da análise temática de conteúdo, e o texto foi organizado em três grandes tópicos que apontam características importantes do ser homem quilombola. A reprodução das masculinidades em territórios quilombolas representa um processo multifacetado que é impulsionado pelas estruturas machista e racista, dois elementos indispensáveis no processo de compreensão desses homens. Denotou-se a urgência na ampliação de ações em saúde do homem de maneira a reduzir os riscos e vulnerabilidades relacionados aos adoecimentos com essa população.
Palavras-chave
Masculinidades; Comunidades quilombolas; Saúde do homem; Homens quilombolas
Abstract
The aim of this study was to understand the various elements underlying the construction of masculinities in a Quilombola community in the semi-arid region of Pernambuco and associated health impacts. We undertook an exploratory qualitative study using in-depth interviews conducted with seven Quilombola men living in the community. The data were analyzed using thematic content analysis, and the results were organized into three core topics that encompass the key characteristics of being a Quilombola man. The reproduction of masculinities in Quilombola territories is a multifaceted process driven by sexist and racist structures, which are two essential elements in the process of understanding these men. The findings reveal an urgent need to expand the scope of men's health in order to reduce health risks and vulnerability in this population.
Keywords
Masculinities; Quilombola communities; Men's health; Quilombola men
Resumen
El objetivo del presente estudio es comprender los diversos elementos de la construcción de las masculinidades en una comunidad quilombola de la región del agreste pernambucano y sus respectivos impactos sobre la salud. La investigación se constituye como un estudio del tipo cualitativo exploratorio en donde se utilizó como elemento de colecta de datos las entrevistas en profundidad con siete hombres quilombolas de una comunidad de la región del agreste pernambucano. El análisis se realizó por medio del análisis temático de contenido y el texto se organizó entres grandes tópicos que señalan características importantes del ser hombre quilombola. La reproducción de las masculinidades en territorios quilombolas muestra un proceso multifacético impulsado por la estructura machista y racista, dos elementos indispensables en el proceso de comprensión de esos hombres. Se denotó la urgencia de la ampliación de acciones de salud del hombre para reducir los riesgos y vulnerabilidades relacionados con las enfermedades de esa población.
Palabras clave
Masculinidades; Comunidades Quilombolas; Salud del hombre; Hombres quilombolas
Introdução
As comunidades quilombolas são espaços de resistência que se instituíram contra o regime escravocrata e nas quais se organizaram as pessoas escravizadas que conseguiam fugir das senzalas e firmar um espaço de proteção contra o processo massacrante de colonização. Esses territórios são até hoje espaços de resistência e pautam suas lutas na afirmação do território como lugar de direito para a necessária reprodução de vida1. Os quilombos eram considerados organizações criminosas durante o período colonial, saindo da legislação brasileira somente no ano de 1888, após a Lei Áurea. Até os dias atuais esses territórios continuam resistindo às diversas formas de opressão que sofrem, pois onde existir opressão sempre haverá resistência2.
Por tais motivos, quando nos referimos a quilombos no Brasil, dispara-se a associação com questões de luta pela terra, resistência, conflitos e diferenças étnicas e culturais3. Porém, considerando a complexidade de forças e tensionamentos que existem nesses territórios, é importante que se avance na produção e ampliação dos estudos nessas comunidades. Desse modo, produzir reflexões sobre as masculinidades e atenção à saúde do homem explicita elementos que por vezes passam despercebidos na maioria dos estudos e se constitui como um campo de inovação do âmbito das pesquisas voltadas às comunidades quilombolas.
Nesse sentido, a produção desses estudos suscita possibilidades de enfrentamento dos impactos em torno da saúde do homem, pois, com base em um relatório feito pela Organização Mundial de Saúde (OMS) em 2019, comportamentos comuns em uma masculinidade dominante – tais como condutas de risco, dificuldade na expressão de emoções, violência e inexistência do cuidado de si – ocasionam inúmeros problemas de saúde pública4. A percepção desses problemas na comunidade quilombola em que a pesquisa ocorreu partiu da produção de um diagnóstico territorial realizado pelo autor principal durante o trabalho desenvolvido com a comunidade no âmbito da Atenção Primária à Saúde, somado a questões percebidas pela coautora a partir de um programa de extensão desenvolvido pela Universidade de Pernambuco. Assim, a identificação das necessidades de construção de estratégias de cuidado perante esse contexto foi um dos fatores disparadores deste estudo.
Diante disso, é expressivo o fato de a Política Nacional de Atenção Integral à Saúde do Homem (PNAISH)5, efetivada pela portaria n. 1.944/2009, surgir como uma maneira de sistematizar ações específicas para esse público e assim reduzir os riscos e vulnerabilidades expressos nos preocupantes indicadores de adoecimento e morte da população masculina. Além disso, a política se faz importante ao demarcar o impacto que a dimensão do gênero tem na formação do masculino, exigindo assim ações que intervenham sobre esse constructo muitas vezes problemático. Logo, este estudo pode colaborar com a construção de diálogos referentes a alguns dos objetivos assinalados na PNAISH.
Pensar a masculinidade sob uma perspectiva de gênero é um caminho interessante para podermos nos aproximar de diversas problemáticas que envolvem a relação homens e saúde, uma vez que algumas características valorizadas como sendo naturalmente masculinas distanciam os homens das práticas de cuidado de si e dos outros6, trazendo diversas consequências negativas no âmbito coletivo. Gênero se constitui como um campo de observação do caráter social dos papéis do que seria ser homem e ser mulher e assim pode ser um modo possível de decodificar as complexas formas de interações humanas7.
Sob essa perspectiva, é possível identificar que há um distanciamento tido como natural entre o cuidado e os homens, sobretudo no que diz respeito ao cuidado de si, pois a expressão de algum tipo de fragilidade não é uma característica socialmente bem-vista entre homens.
As representações do que é “ser homem” tendem a não contemplar a imagem de um homem afeito ao cuidado, que se cuida, que pode cuidar de alguém, que sofre, que adoece e que reconhece e admite publicamente ser vulnerável8. (p. 11)
Em razão dessas influências culturais sobre a masculinidade, os homens abdicam do cuidado e negam suas dores e vulnerabilidades. Silenciam, adoecem e morrem.
A masculinidade hegemônica9 é uma das expressões utilizadas para se referir a essas práticas sociais que assume um papel normativo, adotado pela maioria dos homens, e corresponde a um padrão de práticas assumidas pelo gênero masculino que tende a valorizar as formas mais honradas de ser homem legitimadas socialmente. Em alguns contextos, esse conceito denota práticas nocivas, bem como delineia posições discursivas adotadas e reguladas pelas realidades cotidianas.
No contexto desse estudo, em que o campo de discussão é afunilado às masculinidades negras, é relevante compreender que essa categoria de análise está inscrita no entrelaçamento entre diversos marcadores sociais, que são herdeiros de cicatrizes decorrentes de um processo histórico permeado por violências. Assim, não é possível desconsiderar as marcas que ficam do processo de formação histórica do Brasil, na qual as subjetividades negras foram marcadas:
[...] pelos processos de colonização, eliminação física, escravização, inferiorização e negação produtiva do(a) outro(a), sempre marcado(a) como o(a) diferente no campo do imaginário social e/ou nas relações assimétricas de poder no cotidiano da sociedade10. (p. 191)
Assim, é indispensável o necessário cuidado com a reprodução de olhares coloniais sobre esses corpos, uma vez que as masculinidades negras são práticas complexas e polissêmicas, com processos de subjetivação multifacetados11. Prontamente, é necessário bastante rigor na produção de pesquisas, haja vista os diversos estigmas que permeiam esses corpos, pois, ainda que atualmente se compreenda que as justificativas biológicas ou culturais não são parâmetros para justificar nenhum tipo de exclusão ou discriminação entre os seres humanos, a ideia de raça fincada nas sociedades tem uma dimensão política importante na manutenção de desigualdades, segregação e genocídio de povos considerados minoritários12. Logo, é preciso considerar as formas de expressão do racismo e de suas diversas vias de propagação.
Considerando tais aspectos, este estudo tem como objetivo geral compreender os diversos elementos da construção das masculinidades em uma comunidade quilombola do agreste pernambucano e seus respectivos impactos na saúde, constituindo-se, assim, como ponto de intersecção entre masculinidades e homens quilombolas, e visa à produção de reflexões para a promoção do cuidado com esses homens e com a comunidade. Quando se cuida deles, cuida-se também das famílias e do coletivo.
Métodos
O presente estudo compõe parte dos resultados da dissertação de mestrado apresentada ao programa de Mestrado Profissional em Psicologia Práticas e Inovação em Saúde Mental, da Universidade de Pernambuco – campus Garanhuns. A pesquisa compôs o projeto guarda-chuva intitulado “A determinação social da saúde nas comunidades quilombolas do município de Garanhuns, Pernambuco”, aprovado pelo Comitê de Ética e Pesquisa do Centro Integrado de Saúde Amaury de Medeiros (CISAM), da Universidade de Pernambuco, pelo parecer de número 4.241.755.
A pesquisa aconteceu em uma comunidade quilombola localizada no agreste meridional pernambucano, região que possui cerca de 35 comunidades Quilombolas. A comunidade em pauta foi uma das primeiras em Pernambuco que recebeu o título de descendentes de quilombos pela Fundação Cultural Palmares, após reconhecimento do intenso processo de luta e resistência travado pelos povos que ali vivem. O território se constituiu a partir de pessoas escravizadas que fugiram do massacre na Serra da Barriga, em Alagoas, no quilombo Palmares.
Trata-se de uma pesquisa qualitativa-exploratória13, que é o tipo de pesquisa que visa investigar um fenômeno pouco estudado e aprofundar as discussões sobre o assunto. Como instrumento para coleta de dados, foram realizadas entrevistas em profundidade13, também chamadas de entrevistas abertas, que são aquelas em que o pesquisador convida o informante a falar livremente sobre determinado assunto, fazendo perguntas apenas em busca de aprofundar as reflexões do entrevistado. A pergunta disparadora da entrevista foi: “Como é para você ser um homem quilombola?”. A partir dela, os pesquisadores foram buscando aprofundar a compreensão em torno da temática. Todas as entrevistas foram realizadas em um local escolhido por cada entrevistado, sendo utilizado um gravador de áudio para registro e posterior transcrição das falas. Todas as transcrições foram feitas pelos próprios pesquisadores, mantendo a fidedignidade e originalidade das falas expostas.
Participaram da pesquisa sete homens quilombolas, com idade entre 18 e 82 anos, que aceitaram participar da pesquisa após terem compreensão das informações detalhadas no Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE). Como modo de preservar a identidade dos participantes, estes foram aqui nomeados a partir de grandes nomes da luta abolicionista: Luiz Gama, André Rebouças, Ganga Zumba, José do Patrocínio, Zumbi dos Palmares, Benedito Meia-Légua e Chico da Matilde.
Os critérios de inclusão foram: pessoas que se autoidentificam como homens, que são da referida comunidade em que o estudo foi realizado e maiores de 18 anos de idade. Por outro lado, foram excluídos da amostra aqueles que não tiveram interesse em participar da pesquisa, que tinham algum comprometimento psíquico e/ou cognitivo diagnosticado que impossibilitava a participação de forma contundente ou que não pactuaram em contribuir com o estudo. A quantidade de participantes da pesquisa foi definida a partir da amostragem por saturação14, que é uma ferramenta comumente utilizada no campo da Saúde em pesquisas qualitativas. A análise dos dados foi feita a partir da Análise Temática de Conteúdo15, que sinaliza um modo de análise de dados que, de uma maneira geral, contempla os seguintes passos: momento de pré-análise, que consiste na preparação/seleção do material e realização da leitura flutuante; de codificação, que se dá pela exploração do material e identificação de temáticas emergentes; e, por fim, de realização da categorização dos temas e inferências no conteúdo.
A sistematização dos conteúdos será apresentada nos tópicos de discussão que traz à tona pistas iniciais sobre a formação e reprodução das masculinidades, a partir de um quilombo do agreste pernambucano. O estudo evoca assim pertinentes discussões no campo da saúde pública e, especialmente, da atenção à saúde dos homens quilombolas.
Resultados e discussão
Masculinidades quilombolas: silenciamentos e “embrutecimento”
Observando os perfis dos participantes da pesquisa, identificamos a participação majoritária de homens heterossexuais, que se autodeclaram pretos, sendo possível perceber que os mais jovens possuem um nível maior de escolarização. As dificuldades para acessar uma maior expressividade na diversidade de masculinidades existentes no território foram muitas; entre estas, ganham ênfase o não alcance a homens LGBTQIA+. A pouca expressividade de masculinidades dissidentes é um aspecto comum em contextos nos quais há uma significativa hegemonia masculina, que tende a assumir força de normatividade dos ideais de masculinidade9.
Além disso, a partir das abordagens realizadas no território e com a associação de moradores, foi perceptível uma maior resistência dos homens mais jovens em aceitar participar do estudo, havendo uma maior prevalência e facilidade em aceitar participar da pesquisa os homens acima de 30 anos de idade. As informações sobre o perfil dos participantes estão sistematizadas na tabela 1, considerando aspectos como idade, estado civil, escolaridade, raça/cor, sexualidade e ocupação.
Os resultados demonstrados nesse território demonstram que a dimensão da formação das masculinidades se dá a partir de um processo social que tende a evocar a valoração de algumas características em detrimento de outras e no qual, em um nível mais amplo, aspectos assumidos como naturais são reforçados pelas mídias, igrejas e Estado9. No entanto, infelizmente é notável que as condutas reforçadas pelo meio social e assumidas pela maioria dos homens denotam um contexto de formação do masculino que é bastante problemático e que pode acarretar em diversas questões não somente para os homens, mas também para a sociedade como um todo6.
Na presente pesquisa, foi possível perceber que algumas dessas características compreendidas como problemáticas se fazem presentes no âmbito singular deste estudo. A dimensão do silêncio das emoções e a dificuldade de abertura para o diálogo foram duas questões consensuais entre os participantes da pesquisa, sendo estas características marcantes entre os homens quilombolas. Em seus relatos, eles evidenciam certos contextos, tais como:
Ah meu filho, esses... [se referindo aos homens da comunidade] !! Você assim… não dizendo que eles são… mas quando a gente pega um bichinho assim que tá no momento de vacina você já viu como é que é!? “Boraaa, bora seu danado!” Pronto, quase do mesmo jeito! Eles tão quase assim!
(Luiz Gama)
É porque os homens daqui são muito fechados, cara, eles não têm diálogo, ver... eles não conversa... não se abrem com ninguém, o que é o nosso é isso que eles são muito fechado. Conversa nada! Tem que ser muito família, muito conhecido deles, muito mesmo, para ele se abrirem conversar em alguma coisa, algum problema deles… porque é raro isso acontecer, é difícil! Acho que nem entre a família, entre a própria família ele se abrem… e se conversam…
(André Rebouças)
Assim... a questão do homem é como a gente falou, né, ali no início, homem ele é mais, ele é mais… é… durão! Ele não é de se abrir muito, de se relacionar muito, né!? De se expor, né!? Ele… principalmente o homem mais… mais dessa época que eu te falei, ele, nós éramos mais é… retrancados! Nós éramos mais calados, era mais… hoje, eu acredito que hoje tá começando a desenvolver mais em questão da saúde...
(Ganga Zumba)
Ói… o caba quando repara pra eles, eles baixam logo a cabeça, que tem uma garça de gente sem vergonhe. Baixa a cabeça ou trosse a cara que nem jumento. O cabra pode sair de perto dali que aquele bicho ali é que nem cavalo, pra dá um coice é num instante. Eu não vou nem apontar esses novo, que esses novo descunhamba tanto você. É por nossa senhora! Essa porcada nova que tem, não vá não! São uns ignorante safado…
(Zumbi)
A partir desses relatos, podemos perceber que existe uma intensa dificuldade na expressão das emoções e na abertura para o diálogo. No entanto, faz-se importante considerar que esses homens não são meramente embrutecidos e se mostram sempre “durões” pela dimensão estrita que a construção do gênero masculino opera em suas vidas. Assim, é importante considerar que tais aspectos também são resquícios do processo massacrante de desumanização ao qual a população negra foi submetida durante o processo de escravização e colonização, no qual foram animalizados a bestas de carga, subjugados e destituídos de sua humanidade16. Logo, marcados pela violência, aprendem a encarar os problemas sozinhos:
Rapaz, quando eu tô triste eu entro dentro de casa e ligo a televisão para ninguém não me ver, fica o dia todinho trancado… para não adoecer ninguém eu fico lá deitado… só fico só assistindo, não converso com ninguém.
(Benedito Meia-Légua)
Eu não sei... é difícil pensar assim porque eu não gosto de ter um diálogo assim com uma pessoa, tô dialogando contigo porque é uma pesquisa mesmo, mas eu não sou muito de me abrir com ninguém não... por isso que eu disse, eu decidi me isolar das pessoas pra não...
(José do Patrocínio)
Encara sozinho! Geralmente encara sozinho ou às vezes procura um amigo, né!? Às vezes a gente se sente mais à vontade… eu acredito assim, o homem ele é… o homem do campo, eu acredito que por carência de alguma coisa, alguma forma às vezes a gente não se sente bem em conversar com alguém de casa, é mais procurar sempre um amigo para conversar, né!? Para dividir, né, para desabafar um pouco…
(Ganga Zumba)
Encarar as angústias de maneira solitária e em silêncio é uma das condutas mais relatadas entre os homens entrevistados, sendo essa uma questão bastante preocupante, haja vista o grande número de adoecimentos que isso pode gerar. Esses aspectos são potencializados pelas influências culturais que estimulam os homens a negarem suas dores e vulnerabilidades, uma vez que esses sentimentos não são bem-vistos socialmente no âmbito do universo masculino5. Desse modo, o silêncio das emoções se constitui como uma prova do ser homem de verdade17, porém, é justamente nesse silencio que os homens adoecem e morrem. Quando o assunto são os homens negros, Bell Hooks18 é enfática e parece traduzir o que é expresso nos relatos:
Homens negros são incapazes de articular completamente e reconhecer a dor em suas vidas. Eles não têm um discurso público ou um espaço dentro da sociedade racista que lhes permita falar a respeito de sua dor. Infelizmente, homens negros com frequência evocam a retórica racista que identifica o homem negro como animal, falando de si mesmos como “espécies em extinção”, como “primitivos”, em suas súplicas para ter seu sofrimento reconhecido. (p. 75)
Quando indagados sobre as influências de tais comportamentos, os homens quilombolas associaram a influência que receberam no processo de educação, no qual não havia referências que apontassem para outro modo de ser homem. Assim, nota-se que “uma masculinidade hegemônica regional fornece, então, uma estrutura cultural que pode ser materializada nas práticas e nas interações cotidianas”9 (p. 267). Cabe analisar também que o componente histórico que marca o processo de existência dos homens quilombolas é outro fator potencializador de comportamentos que escondem as vulnerabilidades, o sofrimento ou qualquer outra questão que denote algum tipo de fragilidade. Nesse sentido, as referências do masculino são associadas à reprodução de comportamentos que foram aprendidos:
É porque a gente foi criado por uns pais, né... que foram muito rígido, aí a maioria até hoje ainda segue o coisa dos pais da gente, né… aí eu creio que a grande maioria aqui, eles não conseguem expressar esses tipos de emoções não. São mais fechados. É…eles têm um pouco, tipo, eu acho que é um preconceito, já vem da criação de cada um, né, aí ele já criou aquele preconceito de se abrir, de se conversar, e eu creio que tá faltando é… um pouco de… é… para conversar para levar para eles que não pode ser assim... que eles têm que se abrir…levar os problemas deles a….
(André Rebouças)
Ele era um cara meio bruto [se referindo ao pai], ele era ignorante, ele era, assim… uma ignorância tremenda… Não conversava com todo mundo, agora, quando ele se estressava, era mei… meio assim batedor de boca… mas no o resto era 100%!
(Benedito Meia-Légua)
Eu acho que eles deveriam prestar… assim… ser mais solidários… começar a frequentar mais, prestar mais atenção, deixar de ser jururu, ignorante que é o que tem muitos aqui… eu tenho tios aqui ignorante que se você vai perguntar “O que você tá sentindo?”; “Tô sentindo nada não” [expressando uma fala grosseira]. “Você tá com isso!?”. “Felizmente, que eu não tô assim!” [imitando a fala dos tios]. Tá, aí vai contribuir com que? Com nada!
(Luiz Gama)
Como é possível perceber, sinalizar a necessidade de ajuda é uma tarefa quase impossível para muitos homens, mesmo quando se trata de problemas objetivos e físicos que são mais evidentes. É possível inferir que este pode ser um aspecto comum da masculinidade expressada em contexto local, que ganha força a partir das necessidades interacionais e se materializa não em um homem especifico, mas em posições e práticas discursivas9. Quando o contexto de discussão se refere especificamente ao âmbito da saúde mental, a situação é ainda mais crítica, pois essa área da vida não é nem sequer pensada por esses homens. Assim, os homens tendem a reprimir qualquer desconforto de ordem emocional19. Ganga Zumba, de maneira muito espontânea, verbaliza o quanto ele desconsidera essa dimensão do adoecimento:
Essa é que não é olhada [saúde mental]! Eu acredito que não... do que a gente aqui, eu acredito…não, acho que não… o pessoal não liga não para essa parte emocional, eu mesmo num… num... num. Eu mesmo sou meio ignorante, às vezes eu pego umas certas discussões com pessoal aqui, eu sou uma das pessoas que eu sou ignorante mesmo para esse lado, eu digo direto: eu não acredito nesse negócio de depressão, essas coisas eu não ligo muito não… sinceramente, não! É como eu lhe digo: pode ter sido através da criação, ver pode não, com certeza foi, né?! Porque é uma doença que a gente sabe que existe, às vezes eu paro e digo… não, eu tô errado mesmo! É de mim mesmo… rapaz, isso é frescura, isso é conversa homem!
(Ganga Zumba)
Pode-se notar que, apesar de Ganga Zumba saber que a saúde mental traz impactos significativos, a estrutura social machista e racista tende a influenciar o processo de negação dessa dimensão de adoecimento. Para um homem negro que foi brutalmente violentado, destituído de sua cultura, colonizado, inferiorizado e desintegrado de sua humanidade pela violência colonial16, é realmente complexo falar em aspectos relacionados às vulnerabilidades em saúde mental.
No entanto, na contramão desses processos e sendo uma exceção entre os homens quilombolas, surgem alguns indicativos de homens mais engajados no cuidado, nesse caso, no cuidado com os outros. Chico da Matilde, piedoso sobretudo com os mais velhos que vivem muito sozinhos, demarca uma posição que pode ser provocadora de rupturas dos ideais de frieza presente entre os homens do território. Ele se coloca em sua comunidade como um exímio cuidador, um agente de saúde informal, um acompanhante terapêutico e conselheiro:
Eu conversando com o Januário [codinome]... sabe o que ele me disse? “Me diz que não ia tá conversando com véi não”. Eu digo “Rapaz, diga isso, não pelo amor de Deus, os véi hoje é que tá precisando da gente […] porque eu não vou dizer que esse velho aqui não precisa deu, precisa!”. E quando ele precisa deu, eu tenho que tirar uma mão para ele… inclusive cumpade José [codinome], que quando eu chego lá que eu tô conversando com ele eu vejo os zói dele nadar d’água… quer dizer que aí, ele fica lá sozinho, sem ter mais quem conversar… em tudo que tem eu conversando com ele, conversando e andando com ele, que eu até prometi a ele de… é amanhã que eu vou andar com ele, lá pro cima, na casa da fia…
(Chico da Matilde)
A partir da fala dele, que escancara ações de caráter individual que são realizadas em prol de sua comunidade, surgem algumas reflexões sobre possibilidades de potencialização desse cuidado coletivo e compartilhado entre os homens. Como multiplicar para outros homens do território quilombola a habilidade e disposição ao cuidado de Chico da Matilde? Que dispositivos podem ser criados na própria comunidade para enfrentamento das vulnerabilidades presentes entre os homens? Seria viável a promoção de um curso formativo sobre masculinidades quilombolas que possa sensibilizar esses homens e abrir espaços de acolhimento de suas angústias?
Comportamento não preventivo e impactos na saúde
O comportamento não preventivo entre a população masculina e seus diversos impactos são outros marcadores importantes que surgem ao se pensar a saúde do homem. Esse aspecto corrobora a problemática que atravessa o universo masculino relacionado à ausência do cuidado de si, que é influenciado pela cultura e ocasiona a dificuldade do homem em buscá-lo quando necessário20. Ganga Zumba e Luiz Gama conseguiram nomear a cultura machista com esse marcador, que de fato influencia os comportamentos de risco que dificultam a busca pelo cuidado:
Eu acredito que a… a… a…a cultura! A cultura do homem, né!? Eu acredito que seja a cultura do homem ser mais né aquele lado masculino, machão, mais, né… mais durão… eu acredito que influencia muito isso aí. A fragilidade, né, o seu lado frágil… eu acredito que seria isso às vezes… eu acredito que sim!
(Ganga Zumba)
É… os homens da comunidade são muito é folgado… eles, na maioria das vezes, têm um certo machismo em cima deles… pronto que nem esse exame de próstata mesmo, se você procurar quantos faz aí, se conta a dedo porque todos eles têm cisma com esse exame de próstata… eu não vejo… já disse a eles: “Quando completar os 40 anos, que só faltam cinco anos, pois eu quero ver se não faço!”. Eu quero ver que danado de bicho de sete cabeças é esse que tem… é machismo de toda parte… se você procurar um homem aí assim… pronto, meus irmãos mesmo, nenhum deles nunca fez! Nunca fez! Machismo! “Vou nada fazer esse exame que esse exame faz isso, faz aquilo…” não é assim não, minha gente, mas não! Na minha opinião, quando completar minha meta, estarei lá! Fazer que eu quero ver que curiosidade da bexiga é essa que eles têm medo, que coisa é essa! Não tem pra que correr, não tem que ir… tem que fazer! Então, partindo para a parte dos homens da comunidade, eles são muito é medrosos e não gosta de se cuidar, na verdade, por isso que morre cedo.
(Luiz Gama)
Logo, é possível constatar que os processos de socialização de gênero reforçam a ideia de que os homens não podem expressar suas dores e vulnerabilidades, exprimindo sempre uma imagem do homem viril, do corpo forte, invulnerável21. Aqui, é possível visualizar como “o gênero é sempre relacional, e os padrões de masculinidade são socialmente definidos em oposição a algum modelo (quer real ou imaginário) da feminilidade”9 (p. 265). Nesse sentido, André Rebouças evidencia o quanto a prática do cuidado é assimilada como sendo algo naturalmente da ordem do feminino5, apontando a existência de uma radical diferença em como as mulheres cuidam da saúde em comparação aos homens. Em seu relato, ele assinala:
A gente só procura um médico quando tá sentindo alguma coisa… porque, pra dizer assim, a gente cuida da saúde, procurar um médico antes de tá sentindo alguma coisa é muito difícil, é raro um homem aqui fazer isso. Muito difícil! Aqui quase… se não é 95…98% dos homens aqui faz isso, só faz quando já tá com algum probrema. Já as mulheres eu acho que procuram mais… sempre tão no médico, as mulheres é mais diferente, né… agora já os homens não, os homens são mais fechado. Negócio de médico! Meu pai até hoje pra ir doente ele não quer ir no médico [risos].
(André Rebouças)
Nessa perspectiva, nota-se que a dimensão da prevenção em saúde é um grande dilema entre a população masculina, uma vez que os homens tendem a buscar os serviços de saúde e as práticas de cuidado quando a situação já está mais agravada18. As falas expressas neste estudo denotaram como a socialização masculina cis-heteronormativa é norteada por expressões de comportamentos problemáticos, tais como o aviltamento de práticas de cuidado de si e dos outros e o sentimento de invulnerabilidade que ocasiona a não adoção de medidas preventivas em saúde15. Sobre essa questão, o tabu em torno do exame de prevenção ao câncer de próstata ganhou destaque na fala dos participantes:
Nós temos muitos conhecidos aqui que alguns até chegaram a falecer, a morrer por conta disso de não querer fazer o exame por conta de ser, né, achar chato… é… feio ..num... num... na palavra correta da gente, com vergonha de tá ali de se expor pra o médico, pra o profissional, né!? Ou seja, a ignorância, né! [Risos]
(Ganga Zumba)
É porque é difícil demais, é muito complicado você colocar na cabeça de alguém que tem que fazer… muito complicado, inclusive acho que há um mês, dois meses atrás… foi em novembro, parece… fizeram uma reunião com os médicos para fazer exame lá no posto, lá no estiva, até passou Marinho [codinome] que organizou aí para levar o pessoal para lá… trouxe um monte de médico para fazer um monte de exame… eu acho que não teve um terço dos homens, não foram, não participaram, que só era com os homens… novembro amarelo, parece… azul, né? Aí eu sei que não foi nem um terço dos homens, não compareceram… aí é difícil, cara, é complicado para colocar na mente dos homens essas coisas… já a mulher não, a mulher sempre quando tem é o exame… é… de prevenção? Prevenção, é! É assim, ó [sinalizando muito], todos lugar elas vão, todas vão! Já o homem não, homem não quer saber não, acho que nunca vai adoecer…
(André Rebouças)
É porque eles dizem que tem um toque, psicológico, no que eles faz pra lá no cabra… aí eles têm vergonha disso aí, mas tem vários cabra aqui que diz que não vai fazer mode essa dedada que eles dão pra lá… aí eu não sei se é verdade ou se é mentira, né!? Aí tem caba aqui mesmo que diz que não faz não… mas eu vou fazer que meu pai faleceu da próstata e eu preciso!
(Benedito Meia-Légua)
A intrínseca dimensão do machismo presenciado e sentido pelos participantes deste estudo sinaliza a relevância de se pôr em prática os objetivos assinalados na PNAISH5, pois, enquanto isso não for efetivado, os efeitos no âmbito da saúde preventiva do homem permanecerão inexistentes. Nesse sentido, o marcador de gênero que a política destaca precisa ser compreendido pelos profissionais de saúde, pois isso pode suscitar mudanças de perspectivas e reduzir agravos à saúde da população masculina. Logo, faz-se urgente que os serviços possam ir ao encontro a esses homens, compartilhando informações e convocando uma mudança de perspectiva sobre a relação que os homens mantêm consigo mesmos.
Para isso acontecer, é preciso agir para além de uma demanda explícita, sinalizada, visto que os homens não buscam ajuda profissional de maneira espontânea. Portanto, práticas de promoção e prevenção em saúde podem suscitar efeitos benéficos com esse público, sobretudo porque cuidar dos homens quilombolas é cuidar de diversas problemáticas existentes no corpo social, uma vez que os impactos provocados pelo comportamento não preventivo e de invulnerabilidade geram consequências que não se restringem a eles somente, mas também atravessam e geram adoecimentos nos âmbitos familiar e coletivo.
Considerações finais
A partir das diversas problemáticas que surgiram no decorrer do estudo, foi possível evidenciar que as masculinidades quilombolas se apresentaram como sendo, em sua grande maioria, marcadas por características comuns à masculinidade hegemônica. A vivência das angústias de maneira solitária foi uma das condutas mais relatadas entre os homens entrevistados, atrelada à dificuldade de abertura para dialogar sobre suas próprias questões. Esses atributos foram considerados por todos os participantes como sendo uns dos aspectos que caracterizam esses homens e que por diversas vezes levam, inclusive, ao agravamento de diversas doenças. As marcas do território existencial, além do geográfico, também são atributos que demarcam singularidades no modo de (re)produção do masculino.
A expressão de comportamentos não preventivos também foi algo identificado como prevalente nessa população, sendo percebido por exemplo o tabu que ainda permeia o imaginário desses homens relacionado ao exame de prevenção ao câncer de próstata. De tal modo, quando a discussão se volta especificamente ao âmbito da saúde mental, a situação é ainda mais crítica, pois essa área da vida não é nem sequer pensada por esses homens. Logo, é de grande relevância a produção de reflexões sobre os diversos impactos que esse modo de ser traz para a saúde mental desses homens; e de pesquisas que apontem caminhos interventivos do ponto de vista da promoção da saúde.
Nesse sentido, destaca-se que a intrínseca dimensão do machismo presenciado e sentido pelos participantes deste estudo sinaliza a relevância de se pôr em prática os objetivos assinalados na PNAISH. Essa política, por vezes esquecida no sistema de saúde, pode se constituir como força de enfrentamento das diversas problemáticas em torno da saúde do homem no âmbito das políticas públicas de saúde. A dimensão de gênero assinalada pela política pode inspirar ações transversais que contemplem as masculinidades e seu entorno.
Agradecimentos
Agradecemos as importantes contribuições dos comunitários, da associação de moradores da referida comunidade e de todos os homens que aceitaram participar e contribuir com a pesquisa. Um agradecimento em especial a Chico da Matilde, que foi um homem quilombola que contribuiu com a pesquisa, era uma grande referência de luta na comunidade e se encantou durante o ano de 2024. Que a força de Chico da Matilde continue sempre viva!
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Silva FR, Gomes WS. Masculinidades quilombolas: características e produção de adoecimento em um quilombo do agreste pernambucano, PE, Brasil. Interface (Botucatu). 2025; 29 (Supl. 1): e240331 https://doi.org/10.1590/interface.240331
Referências
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Editado por
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Editor
Tiago Rocha Pinto
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Editor associado
Benedito Medrado
