Open-access Quando se passam vinte e três anos, tem-se história para contar e resultados para analisar

When twenty-three years have passed, there is history to tell and results to analyze

Cuando han pasado veintitrés años, hay historia que contar y resultados que analizar

Telesi, E.Júnior. Práticas integrativas e complementares em saúde: memórias 2001 a 2024. Catu: Bordô-Grená, 2024.

O título da obra soa bem genérico; os leitores conhecedores das práticas integrativas e complementares em saúde, que no Brasil se convencionou chamar de PICS, podem se interessar, se identificar. A questão diz respeito às informações escondidas... Com esse título, não está explícito que as memórias são das PICS em São Paulo, capital. Talvez alguém suspeite ao observar que o organizador do livro é o Dr. Emílio Telesi, médico com formação em medicina tradicional chinesa, que esteve na coordenação dessas ações por muitos anos. Não ser óbvio e ser humilde têm coerência com o texto todo.

Outro aspecto importante desse título é o período a que as memórias estão associadas. A Política Nacional de Práticas Integrativas1 foi publicada em 06/05/2006 e, nessa data, as PICS em São Paulo já estavam implantadas há quase cinco anos. Seguramente, tal experiência influenciou a construção da política nacional.

As memórias são de um período de 23 anos. Ao perceber isso, podemos pensar que, em 1978, quando ocorreu a Conferência da Organização Mundial de Saúde em Alma-Ata2, ocasião em que se denunciou a crise na saúde pública mundial, se desejava que, nos anos 2000, essa crise tivesse sido “superada” com o lema “Saúde para todos nos anos 2000”. Seriam 22 anos para enfrentar aquela realidade. Naquela carta se encontra a chave para a existência das PICS, quando se considerou um caminho recorrer às práticas tradicionais com outras medicinas para além da medicina ocidental contemporânea, comumente chamada biomedicina. Então, com o texto que se apresenta, o leitor tem a oportunidade de conhecer um período de 23 anos de ações em PICS no município de São Paulo.

O livro é composto por 22 capítulos (o número 22-23 se repete) que não são subdivididos em partes, mas elas existem. Uma parte da contextualização e dos primeiros anos foi finalizada com o anúncio da Residência Multiprofissional em PICS. Uma segunda parte se inicia com a apresentação da Residência Multiprofissional e de todos os locais, as instituições, os meios de ação desse projeto importantíssimo; e a terceira parte, principalmente, sobre as ações de racionalidades em saúde ou recursos terapêuticos específicos. Esse modo de organização dos capítulos possibilitou a exibição de textos com diversas naturezas. São, em alguma medida, relatos históricos, porém se associam à institucionalização e aos diversos espaços de ação das proposições em diversos recursos terapêuticos.

Diante disso, é razoável afirmar que o título do livro é singelo diante da grandeza do que apresenta. O livro é um rio que mostra sua nascente até seu encontro com o mar, passando por muitas margens que foram influenciando seu curso. É um céu de esperança, uma floresta de riquezas, um mar em profundidades diversas.

Sobre a riqueza, ela pode ser dimensionada quando muitas pessoas foram envolvidas na redação dos capítulos e eles apresentam narrativas, testemunhos, fotos e figuras muito originais. Pode-se observar também a riqueza do livro diante da apresentação de fatos despretensiosos, como o relato da decisão municipal em oferecer as PICS ou a rotina da Roda de Chá que acontece no Centro de Saúde Escola Geraldo de Paula Souza.

Sendo assim, é importante afirmar que as PICS nasceram em São Paulo no ano de 2001, quando a gestão municipal estava sob a governança da prefeita Luiza Erundina e o Secretário de Saúde era o dr. Eduardo Jorge, que assina a apresentação do livro. E essa decisão parte da política municipal de saúde de São Paulo, mantida ao longo dos anos independentemente de diferenças partidárias.

Uma informação que pode passar despercebida é a presença do prof. Paulo Freire como Secretário de Educação do município naquela gestão, que teve um papel importante ao fazer a doação de uma escola da rede municipal para ser implantada a Escola Municipal de Saúde Pública.

O texto apresentado é uma resposta que tem se construído por meio de uma diversidade de ações naquela decisão do secretário Eduardo Jorge que, mesmo diante de pedidos da população para que fossem construídos hospitais e compradas ambulâncias, apostou ousadamente em investir recursos na oferta de PICS. Diante de pedidos que referendavam o modelo hospitalocêntrico e as ações sob o padrão “queixa-prescrição”, viu-se um horizonte que tinha as PICS como recursos. Esses recursos terapêuticos foram além do que está listado nas portarias do Ministério da Saúde1,3,4 e foram oferecidos para todas as faixas etárias nas múltiplas possibilidades caracterizadoras das ações em PICS.

Esse livro pode ser lido como um exemplo inspirador de novas experiências, pois reúne muitos ensinamentos, orientações, análises contextuais e superações. São Paulo é um município com grande representatividade pelo seu tamanho, pela sua diversidade e, portanto, relatar a história de mais de 20 anos de PICS é pertinente, porque muitos municípios estão começando, vivenciando os desafios que se encontram ali relatados.

Começaram por onde eram mais fortes; muitos profissionais já tinham formação em Medicina Tradicional Chinesa. E a Medicina Chinesa tinha um elemento favorável por dispor de práticas individuais e, sobretudo, coletivas. Muitas dessas práticas são ofertadas fora das unidades de saúde e, assim, chegaram a ser realizadas mais de 50 mil atividades grupais por ano, atingindo a participação de um milhão de pessoas. A existência representativa da comunidade oriental no município proporcionou um acolhimento à inovação decorrente da oferta desses serviços.

Observa-se pelos relatos que, para o crescimento das PICS, se buscou sempre potencializar as oportunidades. As PICS foram oferecidas em todos os níveis de atenção, em espaços da Secretaria Municipal de Saúde, de outras secretarias, espaços estaduais, federais e outros. Contou com os profissionais da rede somados a muitos voluntários.

A presença de trabalhadores que ofertavam PICS e, ao mesmo tempo, mantinham o funcionamento das ações biomédicas pode ter se constituído como uma oportunidade, porque esperar a realização de nomeações ou concursos específicos adiaria muito a implementação das ações. Paralelamente, pode-se reconhecer um modo de interligar as diversas ações, de manter diálogos, de oportunizar ao profissional a participação no modelo inovador e no convencional. No mesmo momento, sobre o perfil dos profissionais especialmente envolvidos na gestão das PICS, vê-se a diversidade como o apoio de enfermeiras e psicólogas. Destaca-se ainda que a coordenação municipal contou com a atuação de profissionais com formação médica ao longo desses anos, o que pode ser um sinal da adesão do corpo técnico à mudança de cultura que se instalaria com as PICS.

Algumas vezes foram usados os adjetivos emancipador e revolucionário no texto. Isso não é objeto de grande reflexão, mas não é nada presunçoso nomear esses 23 anos de atividades como revolucionários. Os números apresentados, assim como a diversidade de iniciativas inovadoras e as inúmeras leis ou portarias, atestam a institucionalidade das ações.

Na página 41, por exemplo, está afirmado que “o principal objetivo para implementação das PICS foi ampliar o campo de ação no que se chama doença”. Nesse mesmo sentido, a criação da Residência Multiprofissional foi uma tentativa de que as PICS não fossem capturadas pela biomedicina, que se vivesse as PICS por dentro e assim se afirmasse a identidade do cuidado distinta da visão hegemônica biomédica. Um caminho de construção de uma identidade de saúde própria.

O texto é pedagógico sem o modelo de um livro didático. Por onde começar? Onde implantar? Quem são os profissionais para oferecer cuidados e em que circunstâncias? Como refletir o objetivo maior no modelo assistencial? De algum modo todas essas perguntas são respondidas, além de muitas outras. Tais perguntas são respondidas com avanços e retrocessos que demonstram o desenvolvimento do projeto.

Entre os muitos aspectos inovadores dessa experiência, a Residência Multiprofissional esteve por mais de 10 anos sendo a única ofertada no país. A Residência Multiprofissional em PICS, em diversos capítulos, é referida como um fator mobilizador, dinamizador e inovador. Esse projeto responde a uma demanda muito especial para o futuro da implementação das PICS no município, no estado e no país, que é a formação de profissionais. Importante destacar que é um desafio que não se resolve por uma decisão autocrática, vertical, imediata. A formação em saúde que contempla as PICS é um desafio que depende de um enfrentamento longo.

Entre as iniciativas “mais” originais implementadas pela gestão do município de São Paulo estão os CECCO – Centros de Convivência e Cooperativa, que foram criados em espaços fora das unidades de saúde, como parques e praças. O trabalho vai além da assistência à saúde e contempla demandas sociais e econômicas. Nessa experiência, os profissionais de saúde são desafiados pelo encontro com a diversidade de condições de vida dos usuários, como também as diferenças nas rotinas técnicas que se veem, por exemplo, na inexistência de prontuário e diagnóstico.

Uma outra frente especial da ação das PICS na cidade de São Paulo foi o projeto de oferta de meditação. Essa prática é objeto de uma parceria com a Fundação Palas Atena e com outros grupos. Foi entendido que as práticas meditativas são diversas e deveriam ser assim acolhidas, sobretudo contemplariam a condição de saúde da maioria das pessoas. Também foi compreendido que os “efeitos” das práticas meditativas repercutem na saúde das pessoas, dos grupos e das instituições. A meditação foi uma prática incentivada com o entendimento dos seus benefícios para a qualidade da saúde do município na sua diversidade e complexidade.

Finalizando, ao longo do texto várias vezes os diversos autores mencionam numericamente a adesão de profissionais médicos. Isso pode ser visto como uma informação corporativista, porém conquistar a adesão desses profissionais em um município com a força da ação biomédica como se tem em São Paulo talvez se configure um indicador positivo da implementação das PICS.

Neste projeto, observa-se que muitos profissionais foram formados em PICS e tiveram essa formação como uma segunda ou terceira frente de trabalho. Esse cenário é frequentemente criticado pelos defensores da ampliação da oferta de PICS. Para eles estaria se dando aí o aprofundamento da exploração do trabalhador ou trabalhadora, o uso de uma carga horária invisível, não remunerada. Entretanto, será que esse não seria o caminho para implementação da perspectiva integrativa quando os profissionais conhecem várias racionalidades médicas e muitos recursos terapêuticos e podem incentivar essa diversidade?

Com essas diferentes ações, podemos considerar que não se estaria mais perto de um agir em um modelo diferente da “queixa-prescrição” descontextualizada e imediatista e se conquistaria a mudança para uma relação entre profissionais de saúde e usuários (incluindo famílias e redes sociais) marcada pelo diálogo, pela autonomia, na perspectiva de um Cuidado Emancipador, como nos despertou Nelson Filice de Barros5.

Esse livro é um grande relato de experiências. Relato rico e transparente em muitos trechos. Em vários momentos o leitor desejará saber mais, conhecer mais detalhes. Nos limites de um livro com mais de trezentas páginas, permanecem informações a serem exploradas. Nesse sentido, observamos padrões de texto muito diversos. Por exemplo: i) O capítulo quatro inclui a apresentação de muitas tabelas com dados das séries históricas dos serviços oferecidos, mas carece de uma análise específica e comparativa desses dados; ii) O capítulo nove trata da oferta de PICS na Maternidade Vila Nova Cachoeirinha. O texto deste capítulo é muito pequeno, é insuficiente. Os organizadores, ao aceitar, marcam a existência das ações que, porém, constituem um desequilíbrio em relação à extensão e à profundidade de outros capítulos; iii) O capítulo 15 foi bem escrito, detalhado, entretanto apresenta problemas de formatação em quadros com colunas muito compridas que nem sempre se iniciam ou encerram na mesma página, comprometendo o entendimento; os textos contidos nessas colunas não possuem um padrão de redação coerente para informações incluídas em quadros. A estrutura das frases não configura itens/sínteses coerentes com quadros. A formatação e a apresentação de alguns conteúdos poderiam ter sido aperfeiçoadas.

Pode-se afirmar que muitos capítulos indicam outros textos ou aprofundamento que são oportunidades a serem construídas, até porque a natureza das informações será outra que não responde a um relato de experiências.

O último capítulo apresenta uma síntese de ideias presentes em vários capítulos e introduz novas. Nesse capítulo, reafirma-se a coragem de toda a experiência das PICS no município de São Paulo e se abrem frentes inovadoras, como o registro de práticas em racionalidades que estão a ser sistematizadas, desafios políticos e culturais como as práticas de saúde exercidas pelos povos originários.

Como resenha, esperamos que estas páginas provoquem curiosidade aos futuros leitores; os autores recebam o agradecimento pela partilha generosa e sobretudo o reconhecimento do empenho para composição do texto; e os leitores que forem do mundo das PICS realizem uma leitura aprofundada e perspicaz e aproveitem estas páginas.

Disponibilidade de dados

Não se aplica.

Referências

  • 1 Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Atenção Básica. Portaria nº 971, de 3 de Maio de 2006. Aprova a Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares (PNPIC) no Sistema Único de Saúde. Brasília: Ministério da Saúde; 2006.
  • 2 Brasil. Ministério da Saúde. Declaração de Alma-Ata sobre cuidados primários [Internet]. Brasília: Ministério da Saúde; 2002 [citado 25 Maio 2026] Disponível em: https://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/declaracao_alma_ata.pdf
    » https://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/declaracao_alma_ata.pdf
  • 3 Brasil. Ministério da Saúde. Portaria nº 849, de 27 de Março de 2017. Inclui a arteterapia, ayurveda, biodança, dança circular, meditação, musicoterapia, naturopatia, osteopatia, quiropraxia, reflexoterapia, reiki, shantala, terapia comunitária integrativa e yoga à Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares. Brasília: Ministério da Saúde; 2017.
  • 4 Brasil. Ministério da Saúde. Portaria n° 702, de 21 de março de 2018. Altera a Portaria de Consolidação nº 2/GM/MS, de 28 de Setembro de 2017, para incluir novas práticas na Política Nacional. Brasília: Ministério da Saúde; 2018.
  • 5 Barros NF. Cuidado emancipador. Saude Soc. 2021; 30(1):1-10.

Editado por

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    27 Jul 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    20 Ago 2025
  • Aceito
    11 Mar 2026
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