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A Sombra Social na Cultura do Cancelamento: Uma Análise a partir do BBB 2021

La sombra social en la cultura del cancelamiento: Un análisis de BBB 2021

Resumo

O mundo contemporâneo abriga uma complexa rede de interações sociais, que ultrapassam fronteiras físicas e se materializam nos ambientes digitais. No contexto da transformação e desafio das identidades tradicionais, surgem comportamentos anteriormente latentes e socialmente inaceitáveis. Utilizando o conceito junguiano da “Sombra”, investigamos o fenômeno da cultura do cancelamento. Na psicologia analítica, a Sombra representa a parte da psique que contém aspectos da personalidade rejeitados, inadequados ou indesejados. Este estudo explorou a relação entre a Sombra e a cultura do cancelamento, examinando tweets relacionados às polêmicas do BBB 2021. O método empregado envolveu a coleta de tweets ao longo de um período de 6 semanas, seguida de análise de conteúdo para o tratamento dos dados. Paralelamente, conduziu-se uma análise sistemática das cenas ocorridas e, posteriormente, realizou-se o cruzamento de dados. Os resultados apontam para uma alta incidência de emoções negativas, indicando potencial associação com componentes da sombra. Essas foram mais eliciadas diante de eventos de hostilidade e condutas socialmente depreciadas, os “barracos”. O cancelamento ocorreu paralelamente, indicando a associação entre os fenômenos. Esta investigação destaca a importância de aprofundar a compreensão da dinâmica das redes sociais e seus aspectos psicológicos.

Palavras-chave:
Sombra social; Cultura do cancelamento; Análise documental; Reality show; Twitter

Resumen

El mundo contemporáneo alberga una compleja red de interacciones sociales que trascienden las fronteras físicas y se materializan en entornos digitales. En el contexto de la transformación y el desafío de las identidades tradicionales, surgen comportamientos previamente latentes y socialmente inaceptables. Utilizando el concepto junguiano de la “Sombra”, investigamos el fenómeno de la cultura del cancelamiento. En psicología analítica, la Sombra representa la parte de la psique que contiene aspectos de la personalidad rechazados, inadecuados o no deseados. Este estudio exploró la relación entre la Sombra y la cultura del cancelamiento examinando tweets relacionados con las controversias del BBB 2021. El método empleado implicó la recopilación de tweets a lo largo de un período de 6 semanas, seguido de un análisis de contenido para el tratamiento de datos. Simultáneamente, se llevó a cabo un análisis sistemático de las escenas que ocurrieron y, posteriormente, se cruzaron los datos. Los resultados señalan una alta incidencia de emociones negativas, lo que indica una posible asociación con componentes de la Sombra. Estas emociones se desencadenaron más en eventos de hostilidad y comportamientos socialmente devaluados, los llamados “barracos”. La cultura del cancelamiento ocurrió en paralelo, lo que indica la asociación entre los fenómenos. Esta investigación destaca la importancia de profundizar en la comprensión de la dinámica de las redes sociales y sus aspectos psicológicos.

Palabras clave:
Sombras sociales; Cultura del cancelamiento; Análisis documental; Reality show; Twitter

Abstract

The contemporary world hosts a complex network of social interactions that transcend physical boundaries and materialize in digital environments. In the context of the transformation and challenge of traditional identities, previously latent and socially unacceptable behaviors emerge. Using the Jungian concept of the “Shadow”, we investigate the phenomenon of cancel culture. In analytical psychology, the Shadow represents the part of the psyche that contains rejected, inadequate, or unwanted aspects of one’s personality. This study explored the relationship between the Shadow and cancel culture by examining tweets related to controversies in BBB 2021. The method employed involved collecting tweets over 6 weeks, followed by content analysis for data treatment. Simultaneously, a systematic analysis of the scenes that occurred was conducted, and data were subsequently cross-referenced. The results point to a high incidence of negative emotions, indicating a potential association with Shadow components. These were more elicited in the face of hostility and socially devalued behaviors, the so-called “dramas”. Cancellation occurred in parallel, indicating the association between the phenomena. This investigation highlights the importance of deepening the understanding of the dynamics of social media and its psychological aspects.

Keywords:
Social shadow; Cancel culture; Documentary analysis; Reality show; Twitter

Introdução

O mundo contemporâneo é palco de uma multiplicidade de interações sociais, que se estendem além das fronteiras físicas e encontram sua expressão em ambientes digitais, como as redes sociais. Essa era, caracterizada por mudanças profundas na estrutura social e nas identidades individuais, é marcada por uma crise de identidade que, segundo Hall (2001)HALL, S. A Identidade Cultural na Pós-modernidade. Rio de Janeiro: DP&A, 2001., afeta os indivíduos na modernidade tardia. Essa crise desloca as estruturas e processos tradicionais, resultando na fragmentação do sujeito moderno, que agora se encontra diante de uma polissemia identitária, em que o pertencimento abrange variáveis como nacionalidade, sexualidade, classe, etnia, cultura, gênero e religião (HALL, 2001HALL, S. A Identidade Cultural na Pós-modernidade. Rio de Janeiro: DP&A, 2001.; MORAES, 2019MORAES, M. L. B. Stuart Hall: cultura, identidade e representação. Revista Educar Mais, v. 3, n. 2, p. 167-172, 2019. Disponível em: https://periodicos.ifsul.edu.br/index.php/educarmais/article/view/1482. Acesso em: 6 jun. 2022.
https://periodicos.ifsul.edu.br/index.ph...
).

Nesse contexto de deslocamento e desafio das identidades tradicionais, emergem comportamentos que, até então, estavam latentes e não eram tolerados em âmbitos sociais. Questões como racismo, homofobia e intolerância religiosa ganham visibilidade, provocando debates e manifestações nas redes sociais em oposição a tais posturas. O que se observa é que essas manifestações, contrárias a comportamentos considerados inaceitáveis socialmente, podem resultar em uma espécie de linchamento virtual dos indivíduos responsáveis por esses atos.

Dessa dinâmica emergem questões sobre identidade, aceitação social e reação coletiva a ações consideradas reprováveis. No entanto, é válido ressaltar que, por trás dessas manifestações, se encontram complexidades psicológicas e culturais que merecem uma exploração mais aprofundada.

Nesse contexto podemos recorrer aos conceitos de “Sombra” e “Sombra Social”, propostos por Carl Jung, para entender melhor esse fenômeno. A Sombra Social pode ser compreendida como aquilo que a cultura e a sociedade rejeitam ou não aceitam, representando o lado obscuro do ideal coletivo. Assim como a Sombra pessoal contém aspectos reprimidos e não reconhecidos da personalidade individual, a Sombra Social contém elementos rejeitados pela cultura (JUNG, 1976JUNG, C. G. Os arquétipos e o inconsciente coletivo. 6. ed. Petrópolis: Editora Vozes, 1976.; 1979; 2000).

Considerando essa conjuntura, a presente pesquisa se propôs a analisar a relação entre as projeções da Sombra Social e as reações da cultura do cancelamento, buscando compreender como a cultura do cancelamento pode ser um reflexo da Sombra Social e como os mecanismos de defesa da Persona desempenham um papel na dinâmica social.

Portanto, este trabalho visa lançar luz sobre essa relação complexa entre identidade, cultura do cancelamento, Sombra e aceitação social. Para atingir esse objetivo, foram examinadas as manifestações da Sombra Social no contexto do reality show Big Brother Brasil 2021 (BBB 21) e a lógica interpretativa do cancelamento virtual, também considerando as métricas de análise de sentimentos do público no Twitter em relação a eventos ocorridos no programa, no período de 01/02/2021 a 20/02/2021.

Desta forma, esta pesquisa busca contribuir para o entendimento das dinâmicas psicológico-culturais que subjazem à cultura do cancelamento e à projeção da Sombra Social, fornecendo insights valiosos sobre o impacto desses fenômenos na sociedade contemporânea.

Fundamentação Teórica

Cultura do cancelamento

A cultura do cancelamento é um fenômeno caracterizado por um comportamento em massa nas redes sociais. É como uma onda que leva as pessoas a aplicarem sanções sociais em resposta a um caso emblemático que as desagradam. Nesse processo, elas se unem em prol de um ideal compartilhado, buscando a aplicação da justiça por meio de uma punição que está sob seu controle (HONDA e SILVA, 2020HONDA, E. M. V., SILVA, T. B. O “Tribunal da Internet” e os efeitos da cultura do cancelamento. Migalhas de Peso, 30 jul. 2020. Disponível em: https://www.migalhas.com.br/depeso/331363/o-tribunal-da-internet-e-os-efeitos-da-cultura-docancelamento. Acesso em: 20 out. 2021.
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), em oposição à dependência do poder punitivo do Estado (FOUCALT, 2010). A cultura do cancelamento, no inglês cancel culture, é a expressão que ganhou notoriedade em 2019, sendo eleita como termo do ano pelo Macquarie Dictionary, famoso dicionário australiano que analisa anualmente as expressões em alta relacionadas ao comportamento humano com ajuda de linguistas e teóricos especialistas.

Inicialmente voltado para delatar a cultura de assédio sexual existente em Hollywood, denunciando grandes nomes da área de cinema por abusos e violências sexuais, o movimento viralizou e ganhou o mundo todo. Assim, percebe-se que, no início, a cultura de cancelamento tinha forte ligação com pautas sociais, no sentido de combater estruturas opressoras de poder, à exemplo do machismo, racismo e discriminação, denunciando pautas que possivelmente não seriam ouvidas, nem atos que não seriam investigados ou devidamente punidos.

Os ‘cancelados’, frequentemente, são figuras públicas, marcas ou empresas amplamente admiradas nas redes sociais. Contudo, muitas vezes, perdem essa estima ao cometerem atos que não estão alinhados com os padrões morais dos internautas. Atualmente, o “cancelado” não se restringe às figuras públicas, podendo ser qualquer um. A resposta social ao cancelamento nas redes é rápida e com alto nível de mobilização, uma de suas características é a existência do boicote, que comumente se evidencia na perda de seguidores, clientes, parcerias, patrocínios, contratos, exclusão social; e, muitas vezes, adentrando em crimes contra a honra (calúnia, difamação e injúria), ameaças, agressões, além do potencial desencadeador de problemas psicoemocionais nas pessoas “canceladas”.

Esse justiceirismo aceita a violação de direitos para coroar suas próprias vontades e opiniões, mais semelhante a uma busca por vingança e condenação, um padrão de conduta que também pode ser identificado nos julgadores. Embora existam argumentos de que a cultura do cancelamento possa ser considerada apenas exercício da liberdade de expressão e de manifestação do pensamento, quando temos um grupo (os que cancelam) se considera moralmente superior a outro (os cancelados), essa postura pode desencadear atos ilícitos. Pois, impõem sanções sociais e constrangimento público aos cancelados, inclusive impedindo qualquer crítica de outrem, o que levanta a questão de usurpar o poder punitivo do Estado.

Mecanismo de defesa da persona

Outro conceito que se contrapõe à Sombra e está relacionado com a cultura do cancelamento é a Persona. Originalmente desenvolvido por Jung (2000)JUNG, C. G. Comentários selecionados de Jung. In: HARK, Helmut. Léxico dos conceitos junguianos fundamentais. São Paulo: Loyola, 2000. durante sua prática clínica, esse conceito pode ser definido como a imagem social (imagem pública) de uma pessoa, pois representa a forma como nos apresentamos ao mundo e como os outros nos veem. Então seria tudo aquilo que o sujeito pensa que é, sendo que esta construção depende de suas experiências afetivas e cognitivas com o meio social. Segundo Jung (2000JUNG, C. G. Comentários selecionados de Jung. In: HARK, Helmut. Léxico dos conceitos junguianos fundamentais. São Paulo: Loyola, 2000., p. 95), “pode-se afirmar que a Persona não seja aquilo que alguém de fato não é, mas aquilo que ele e os outros acreditam que ele seja”. A Persona é um anteparo da relação social-indivíduo e serve de arquivo do repertório comportamental para que o indivíduo possa se relacionar com o mundo de uma determinada forma que seja aprovada pelas normas sociais.

Nesse sentido, embora a Persona seja um aspecto da personalidade observável, sua ação é inconsciente e automática. Ao se identificar com a Persona do cancelamento, torna-se desafiador reconhecer as próprias imperfeições e falhas. Dessa forma, apesar de funcionarem de maneira oposta, a Persona e a Sombra não se configuram como o bem e o mal, mas sim, como aspectos da personalidade que são aceitos e recusados, expresso e oculto.

Um dos problemas centrais quanto à existência da Persona, é identificar-se com ela (LAFFITTE, 2002LAFFITTE, E. S. A Persona e a Sombra da Organização: uma análise da defensividades organizacionais. Dissertação (Mestrado em Administração), Setor de Ciências Sociais Aplicadas, Universidade Federal do Paraná, 2002.). Seria a situação de o indivíduo realmente acreditar que ele é o que parece ser aos olhos do mundo. Isso porque, “enquanto, por um lado, o papel social ou status podem oferecer reconhecimento e segurança, por outro, o elemento humano e pessoal pode ser sufocado por trás dessa máscara anímica” (HARK, 2000, p. 93). Isto implica então em considerar convencionalidade de atitudes coletivas, estereótipos sociais e culturais.

Assim, ao falar da Persona na cultura do cancelamento, considera-se a imagem projetada para o público que busca evitar conflitos, e ao fazê-lo maximiza o processo maníaco da busca homeostática. Nesse sentido, a consciência do que se é e do que parece ser, implica na reconfiguração dessa imagem social, que contribui para um processo de mudança, que objetiva a integração dos aspectos negados, seja em nível individual ou coletivo.

Arquétipo da sombra

Segundo a psicologia analítica de Carl Jung, o arquétipo da Sombra representa “o lado sombrio” da personalidade: um submundo feroz onde está armazenada a parte mais primitiva de si mesmo. Há o egoísmo, os instintos oprimidos e o eu “não aprovado” socialmente, que rejeita sua mente consciente. Ainda de acordo com Jung, esse arquétipo foi herdado das formas anteriores de vida ao longo da evolução humana, que ele denominou de inconsciente coletivo. Este inconsciente coletivo seria um reservatório de imagens latentes ou primordiais, que cada indivíduo herda de seus ancestrais.

É importante esclarecer que Sombra - o repositório do que a consciência considera inaceitável - não é a totalidade do inconsciente, mas “representa qualidades e atributos desconhecidos ou pouco conhecidos do ego” (JUNG, 1978JUNG, C. G. O Homem e seus símbolos. 3. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1978., p. 168) e, apesar de sua negatividade, quer no aspecto pessoal, quer no coletivo, ela “é inevitável e sem ela o homem fica incompleto” (FORDHAM, 1990, p. 47). Como dimensão do ser, a Sombra pertence à esfera do inconsciente pessoal, como fruto das aquisições da vivência do indivíduo, mas também é tratada como componente do inconsciente coletivo, pela condição de fenômeno comum a toda a humanidade, por isso caracteriza-se como arquétipo.

O encontro com a Sombra frequentemente acontece por meio da projeção1 1 De acordo com Jung (1976, p. 72), o termo projeção indica “um processo inconsciente automático, através do qual um conteúdo inconsciente para o sujeito é transferido para um objeto, fazendo com que este conteúdo pareça pertencer ao objeto.” . Nesse sentido, a Sombra, sendo um arquétipo da personalidade reprimido no inconsciente, ao negá-la, podemos projetar no outro aquilo que escondemos. Isso significa que, aquilo que nos irrita em alguém, também habita dentro de nós. E quando negada, essa Sombra pode se manifestar na forma de atitudes nocivas, conflitos, agressões verbais e até violência física.

Conforme mencionado, o arquétipo da Sombra não é apenas individual. Às vezes, também está presente em “grupos de pessoas”, como no caso investigado nesta pesquisa, o grupo de pessoas que praticam a cultura do cancelamento. São organizações que podem, em um determinado momento, lançar a sua Sombra à luz para justificar atos violentos contra a própria humanidade.

Jung (2000)JUNG, C. G. Comentários selecionados de Jung. In: HARK, Helmut. Léxico dos conceitos junguianos fundamentais. São Paulo: Loyola, 2000. diferenciou o arquétipo da Sombra em dois tipos. O primeiro é a Sombra pessoal, que todos nós carregamos como as nossas pequenas frustrações, medos, egoísmo e dinâmicas negativas mais comuns. No entanto, haveria também a Sombra impessoal, que conteria a essência do mal mais arquetípico, aquele que acompanha os genocídios.

Um ser humano possuído por sua Sombra está postado em sua própria luz, caindo em suas próprias armadilhas. Sempre que possível, ele prefere exercer uma impressão desfavorável sobre os outros. Em geral, não tem sorte, porque vive embaixo de si mesmo, e no máximo alcança o que não lhe convém. Onde não há soleira na qual possa tropeçar, ele a constrói, imaginando ter feito algo útil (JUNG, 2000JUNG, C. G. Comentários selecionados de Jung. In: HARK, Helmut. Léxico dos conceitos junguianos fundamentais. São Paulo: Loyola, 2000., p. 128-129).

Essa citação de Jung (2000)JUNG, C. G. Comentários selecionados de Jung. In: HARK, Helmut. Léxico dos conceitos junguianos fundamentais. São Paulo: Loyola, 2000. revela que a Sombra, ainda que inconsciente, faz com que o ser humano aja de acordo com a pressão dela, negando sua existência. Associada à cultura do cancelamento, essa ilusão dos canceladores faz com que se utilizem uma série de mecanismos de defesa para explicar as racionalizações, negações, projeções e reações que impelem as escolhas e relações com o social que nem sempre são as mais adequadas. E sob essa perspectiva, projetar seria atribuir ao outro, de maneira inconsciente, características que são do próprio indivíduo, as quais, na maioria das vezes, não compreende como suas.

Análise de sentimentos em mídias sociais

A interação social é algo presente na vida dos indivíduos, pois é um processo voltado às relações sociais que são desenvolvidas com aqueles que nos cercam. Para a sociologia, esta é inclusive uma condição necessária para formação da sociedade, já que é a partir desse meio que as pessoas se transformam em sujeitos sociais. O contato social e a criação de redes de relacionamentos são responsáveis pelo desenvolvimento da comunicação e da geração de determinados comportamentos.

Nesse sentido, as redes sociais são a criação de uma revolução digital, autorizando a expressão e disseminação das emoções e opiniões diversas, sendo assim o local onde as pessoas debatem sobre qualquer assunto, produtos e pessoas. As tecnologias digitais permitem a colaboração e a participação coletiva, levando a uma inteligência coletiva que surge de uma contribuição de muitos indivíduos. As articulações que muitas vezes surgem entre os usuários ativos gera um espaço de discussão eficaz e com grande capacidade de motivação e envolvimento de indivíduos, ligando pessoas com objetivos comuns e facilitando diversas formas de ação coletiva (JENKINS, 2009JENKINS, H. A Cultura da Convergência. São Paulo: Aleph, 2009.).

A partir da explosão das redes sociais de uso global como o Twitter2 2 Rede social fundada em 2006 por Jack Dorsey, Noah Glass, Biz Stone e Evan Williams. Em 2023 foi renomeada para ‘X’. ,3 3 O Twitter tem os Trendig Topics, que são os temas mais falados no momento na rede social, transmitindo o que está acontecendo no mundo ou em determinada região. , a análise de sentimentos começou a ter um valor social muito importante, atuando como uma ferramenta de mensuração da opinião pública por meio da mineração de dados extraídos de mídias sociais (BENEVENUTO, RIBEIRO, ARAÚJO, 2015BENEVENUTO, F.; RIBEIRO, F.; ARAÚJO, M. Métodos para análise de sentimentos em mídias sociais. Brazilian Symposium on Multimedia and the Web (Webmedia), Manaus, Brasil, 2015.). Também conhecida como mineração de opinião e análise de favorabilidade, a análise de sentimentos surge como uma forma de processamento de linguagem natural voltada a extrair, classificar e analisar informações subjetivas de grandes volumes de dados textuais das redes sociais, como opiniões e sentimentos.

A partir disto, o principal objetivo da análise de sentimentos é a classificação automática de bases de dados textuais não por tópicos, mas pelos sentimentos ou opiniões polarizadas podendo estas serem positivas, negativas ou neutras, sobre temas previamente definidos, com o auxílio da tecnologia da informação.

Para Yu, Duan e Cao (2013), há três principais razões para escolher a análise de sentimento como uma abordagem de pesquisa: 1) converte grandes volumes de dados não estruturados em informações que permitem previsões sobre questões específicas; 2) constrói modelos para agregar a opinião coletiva e revela informações úteis sobre o comportamento da população para previsão de tendências futuras; 3) possibilita recolher informações sobre a opinião das pessoas a respeito de vários temas.

Desse modo, a ocorrência dos cidadãos utilizarem cada vez mais essas plataformas para expressar opiniões tornou-as uma das principais fontes de dados para a análise de sentimento, revelando progressos significativos para as técnicas de rastreamento de opiniões em conteúdos de mídias sociais, especialmente àqueles que adotam o Twitter como fonte de dados.

Metodologia

Esta é uma pesquisa documental, uma vez que é um tipo de pesquisa que utiliza fontes primárias (TUMELERO, 2019TUMELERO, N. Pesquisa documental: conceito, exemplos e passo a passo. Blog Mettzer, 01 out. 2019. Disponível em: https://blog.mettzer.com/pesquisa-documental/. Acesso em: 21 set. 2021.
https://blog.mettzer.com/pesquisa-docume...
). Quanto ao tipo de pesquisa, é de caráter exploratório, a fim de proporcionar maior familiaridade com a discussão sobre a cultura do cancelamento (VERGARA, 2005VERGARA, S. C. Metodologia cientifica: métodos de pesquisa. Rio de Janeiro: PUC-RIO, 2005. Disponível em: http://www.maxwell.vrac.puc-rio.br/9858/9858_4.PDF. Acesso em: 21 set. 2021.
http://www.maxwell.vrac.puc-rio.br/9858/...
). A abordagem qualitativa foi considerada a mais apropriada para o tipo de análise realizada.

Foi escolhido o reality show Big Brother Brasil, da edição 2021 (BBB 21), visto que causou maior comoção social devido aos assuntos abordados dentro e fora do reality. Foram analisados a autopercepção dos participantes, julgamento contra seus adversários e de que forma os telespectadores da rede social Twitter julgaram os participantes do BBB 21, de acordo com seus comportamentos diante a assuntos polêmicos. Como critério de inclusão, foram consideradas discussões retratadas no reality show sobre racismo, LGBTfobia, violência psicológica e exclusão social; e, seguindo essa perspectiva, os critérios de exclusão foram debates acerca da disputa por prêmios e dinâmicas, e conflitos referentes à formação do paredão.

Coleta de dados

Os tweets foram coletados e passaram por um processo de anotação manual de emoções, onde cada um dos tweets é vinculado a uma emoção do estudo. Para obtenção de dados através deste método, na barra de busca avançada, foi utilizada a busca por filtros propostos no sistema, como por exemplo: palavra-chave, hashtags, linguagem, usuários, menções a usuários e período de data. Nos parâmetros de palavras chaves e hashtags, os termos pesquisados foram “#karolconka” “bbb21” “#forakarolconka” “#karolconkaexpulsa”, que foram termos mais associados aos resultados que pretendemos buscar. Os dados foram coletados semanalmente, totalizando 6 semanas, definidas desde a primeira busca de dados.

Para fins do estudo, a coleta de dados foi realizada por meio de uma análise sistemática das cenas ocorridas no BBB 21. As cenas foram acompanhadas na exibição ao vivo do programa, permitindo uma análise em tempo real das interações dos participantes. A pesquisa utilizou instrumentos de levantamento de dados que se agrupam em uma estratégia de entendimento sobre a lógica interpretativa da cultura do cancelamento com objeto de investigação. Os dados primários foram tratados por meio da análise descritiva e análise de conteúdo. A análise de conteúdo possibilitou compreender como estão sendo desenvolvidas as interações sociais no meio digital e outros aspectos comportamentais relacionados com as categorias analíticas da Sombra, Persona e suas defesas. Os dados secundários foram tratados baseando-se na análise de sentimentos, corroborando as reações do público a partir de suas opiniões sobre um contexto em um dado período.

Resultados

É notório que o BBB 21 foi uma das edições que mais dividiu opiniões do público na rede social, visto que foi transmitido em um período em que a cultura do cancelamento estava em evidência no Brasil. De acordo com os dados de pesquisa do Buzzmonitor4 4 Software proprietário da E.life, é a única plataforma de Social Business Intelligence que atende a todas as necessidades do universo da Social Media. Permite acompanhar em tempo real o que é dito sobre a marca e concorrentes nos espaços digitais, ativar e responder aos consumidores e ainda avaliar a performance dos canais onde as empresas estão presentes. , as menções do BBB 21 no Twitter cresceram dez vezes quando comparadas à edição de 2020. Entre janeiro e fevereiro deste ano, 2,8 milhões de pessoas mencionaram o BBB na rede, com 41,4 milhões de publicações sobre o programa.

A edição trouxe embates nas redes sociais sobre racismo, transfobia, homofobia, assédio e saúde mental. De acordo com um estudo desenvolvido pela Hibou5 5 Empresa de monitoramento de Mercado e Consumo, que tem como objetivo entregar a visão do consumidor em relação ao mundo de marcas, produtos e serviços. , empresa de monitoramento de consumo, foram mapeados quais sentimentos as pessoas sentem ao assistir o BBB 21. Dos 52% dos telespectadores, 86% já sentiram emoções negativas fortes em duas semanas de programa. Raiva, tristeza, preconceito, humilhação, indignação, nojo, repúdio e falta de empatia foram as emoções mais comuns sentidas pelos brasileiros.

Cultura do cancelamento e seus efeitos sociais

Os participantes Lucas Penteado e Karol Conká foram os que mais protagonizaram a divisão de opinião do público nas primeiras semanas do reality show. Através de uma discussão de Lucas com vários participantes na segunda festa do programa, na tarde do dia 1 de fevereiro de 2021, Karol pediu que Lucas se retirasse da mesa de refeições e só voltasse quando ela tivesse acabado de almoçar. A cantora xingou o ator e disse que queria jogar um copo de água na cara dele. No período da noite, durante a dinâmica do jogo da discórdia em apontar qual participante seria “cancelado” e “cancelador”, os dois se acusaram como canceladores. Durante o intervalo do programa, Karol acusou Lucas de abusador. Os comportamentos da cantora levaram a críticas nas redes sociais. Durante o período de 1 de fevereiro a 5 de fevereiro de 2021, as principais hashtags mencionadas no Twitter sobre o programa eram “#KarolConkaExpulsa” e “#ForaKarolConka”.

Através dos dados extraídos por meio da opinião pública na rede social Twitter, os principais sentimentos do público diante ao fato ocorrido foram: revolta, nojo, raiva e ansiedade. Por meio da busca avançada na plataforma, durante o período de 1 de fevereiro a 5 de fevereiro de 2021, utilizando a palavra-chave “Karol” e as hashtags “#bbb21” ou “#BBB21”, dos 71 tweets disponibilizados na timeline principal, 5 tweets tiveram opiniões neutras sobre o caso, 2 tweets tiveram opiniões a favor sobre a participante e 64 tweets tiveram opiniões contra a atitude da participante. Mediante a sua postura no reality, Karol Conká6 6 De acordo com dados disponibilizados pelo site da Globoplay, a participante atingiu o recorde de rejeição sendo eliminada com 99,17% dos votos do público, registrando 285,2 milhões de votos. foi massivamente criticada por comentários e atitudes feitos em relação a outros participantes da casa.

De acordo com o exposto, é notório que o cancelamento ocorreu dentro do reality, praticado pelos próprios participantes, assim como no meio digital, através dos discursos de ódio e linchamento virtual. Durante a análise de conteúdo e a análise de sentimentos no Twitter, foram observadas consequências psicológicas da cultura do cancelamento tanto para o cancelador, assim como para o cancelado. No público cancelador, o primeiro impacto que ocorreu foi o da decepção, pois a atitude da pessoa não condizia com o que se esperava dela; logo em seguida apareceu o sentimento de raiva pela situação, desejando punição pelo erro; e a satisfação sentida pelo cancelamento, dando ao cancelador a sensação de poder. Já o público cancelado, experimentou a sensação de angústia, exclusão e não pertencimento, além do o risco de mudança de personalidade, podendo se tornar antissocial. No viés social, pessoas anônimas estão mais suscetíveis aos impactos psicológicos da cultura do cancelamento comparado às personalidades públicas, considerando que, na maioria dos casos, são indivíduos que não têm rede de apoio psicológico, e passam a se culpar, ignorando a sua pluralidade e se reduzindo ao erro.

Com isso, percebe-se que a cultura do cancelamento reflete o momento que estamos vivendo na sociedade como um todo, visto que o movimento exprime a tentativa de aniquilamento da sua Sombra, uma vez que o agressor ao se sentir ameaçado, reage procurando destruir o outro, para não precisar mais lidar com esse incômodo. Neste contexto, quando os telespectadores observam nos outros as suas próprias tendências inconscientes, estão fazendo o que Jung (2000)JUNG, C. G. Comentários selecionados de Jung. In: HARK, Helmut. Léxico dos conceitos junguianos fundamentais. São Paulo: Loyola, 2000. chamou de “projeção”. Essas projeções da Sombra toldam a visão do próximo e, destruindo a sua objetividade, destroem também qualquer possibilidade de um relacionamento humano autêntico.

Reality show e a projeção da sombra

No dia 20 de fevereiro de 2021, as participantes Camilla de Lucas e Karol Conká protagonizaram uma discussão que se iniciou quando a cantora, após discutir com um outro participante, irritou Camilla ao falar que ela não estava ao lado dela na briga dos dois. Camilla se pronunciou, afirmando que não estava do lado de ninguém, e que Karol estaria usando o seu nome para outros participantes acharem que ela estava contra eles, confirmando que a cantora plantaria uma semente e não sustentava o que dizia. Em seguida, Karol levou o embate das duas para outro assunto, afirmando que a influenciadora queria uma disputa entre duas mulheres pretas e que a participante estaria criando uma rivalidade feminina desnecessária. Anteriormente, ela já havia acusado a influenciadora digital de não se aliar a outros negros e negras do BBB 21. Camilla não recuou e disparou para Karol não levantar militância em questão de afinidade, porque ela não seria obrigada a se dar bem com a cantora por ser uma mulher preta também. Durante o debate, Camilla, que negou fama de “barraqueira” antes de entrar no game, disse que Karol gosta de jogar uma pessoa contra a outra, e finaliza a discussão falando: “Eu sou Camilla, não sou idiota, não. Você pode ser a Karol braba lá fora, mas tem outra braba aqui dentro também. Prazer, Camilla”. Após a briga das duas, Camilla aparece relatando que não costuma ter o tipo de atitude que teve no momento da discussão fora do reality show, que se viu fora do seu “eixo” e perdeu a cabeça. Na internet, os telespectadores do reality show foram à loucura com a atitude de Camilla e levantaram a tag “O Gigante Acordou”.

Ao relacionar a discussão entre Camilla de Lucas e Karol Conká, é notório o entendimento de que o ato da projeção da sombra ocorreu dentro do reality, experienciado pela influenciadora digital Camilla, nos momentos em que ela se contradiz, afirmando não ser uma pessoa “barraqueira” e, ao mesmo tempo, protagonizando uma discussão onde perde a cabeça e tem atitudes com tais características; é visível a experiência do arquétipo da sombra também quando a influenciadora afirma que se viu fora do eixo, ou seja, esta expressão pode ser interpretada como uma projeção da Sombra, onde ela direciona ao “outro” (neste caso, à cantora) um conteúdo que existe de sombrio na sua própria personalidade.

Os efeitos da projeção da Sombra ocorrem quando o sujeito deixa afetar-se ou perturbar-se por outras pessoas, próximas ou distantes, como uma personalidade pública, por exemplo, criticando-as por pensamentos ou palavras. Nesse momento, essas pessoas se tornam o próprio espelho desse sujeito, projetando nelas a sua Sombra. Portanto, a função da Sombra no caso exposto ocorrido no reality show, representou o lado contrário do ego e encarnou, precisamente, os traços de caráter que a participante Camilla mais detesta nos outros.

Cultura do cancelamento e a sombra social

No dia 07 de fevereiro de 2021, o participante do BBB 21, Lucas Penteado, decidiu desistir do programa após uma das festas. Na ocasião, Lucas beijou Gilberto, outro participante do programa, e surpreenderam a todos, tanto dentro quanto fora da casa. Após o momento do beijo, o ator chegou a se desentender com os demais colegas de confinamento, após muitos alegarem que o beijo seria uma estratégia de jogo e, chegaram até a duvidar da sexualidade de Lucas. Lucas explicou para os colegas que é um homem bissexual e se sente atraído por homens e mulheres. Já Gilberto, mesmo alcoolizado, foi dar para garantir que foi ele quem tomou a iniciativa e não se sentia usado. Após muita pressão sobre Lucas, a confusão terminou com ele solicitando a saída do BBB, priorizando a sua saúde mental e afirmando que esperaria por Gilberto, quando ele saísse do programa.

“Eu não vou ser aceito aqui, não vou ser aceito na comunidade, não vou ser aceito pela minha família, nem pelos meus amigos!”, diz Lucas, muito abalado, depois dos ataques que sofreu na casa por conta da sua sexualidade. Mesmo existindo muitas pessoas bissexuais no círculo social, muitas delas estão em silêncio para não ser alvo de dúvidas, chacota e cancelamento por conta da sua sexualidade, pois sabem de que forma a sociedade reage quando assumem quem são. Evidências reforçadas nos dados do Anuário Brasileiro de Segurança Pública de 2022 (FBSP, 2022FBSP - Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Anuário Brasileiro de Segurança Pública, Ano 16, São Paulo: FBSP, 2022. Disponível em: https://forumseguranca.org.br/wp-content/uploads/2022/06/anuario-2022.pdf?v=5. Acesso em: 23 fev. 2023.
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) que revelam aumento de 88,4% nos registros de violência sexual de pessoas LGBTQIA+ entre 2020 e 2021. A violência física cresceu 35%, passando de 1.271 para 1.719 casos e a notificação de assassinatos de pessoas LGBTQIA+ aumentou 7%. É necessário considerar a interseccionalidade (AKOTIRENE, 2019AKOTIRENE, C. Interseccionalidade. São Paulo: Sueli Carneiro; Pólen, 2019.) para entender o tratamento que foi dispensado a Lucas, visto que ele é um homem preto e periférico. A existência de um estereótipo7 7 Lima e Pereira (2004) relatam que os estereótipos constituem a base cognitiva do preconceito. São crenças compartilhadas acerca de atributos ou comportamentos costumeiros de certas pessoas ou grupos que alimentam as atitudes e sentimentos preconceituosos, os quais, por sua vez, justificam as práticas e comportamentos discriminatórios efetivamente exibidos contra eles. de masculinidade violenta, associado a LGBTfobia, enraizado dentro da sociedade brasileira, também nos ajuda a compreender o comportamento apresentado pelos participantes do programa, mesmo aqueles que não são heterossexuais e julgaram o episódio do beijo, projetando, dessa forma, a Sombra social em cima do ocorrido.

Muitas expectativas são criadas dentro da sociedade de como deve ser um homem negro, a sua sexualidade, e a maneira como deve agir diante de certas situações. Como Lucas ficou com outro homem, e não é o que se espera de um homem negro, ele foi extremamente questionado e julgado.

Este episódio ilustra a Sombra social, a cultura do cancelamento se configura um exemplo de ampliação da força da Sombra expresso, essencialmente, em atitudes cruéis e condenatórias. Quando determinados grupos optam por viver de acordo com práticas rejeitadas socialmente, se tornam alvo de projeções, dessa forma a Sombra assume formatos conhecidos, como homofobia e bifobia, por exemplo. Nesse sentido, a Sombra social se expressa quando há a identificação das pessoas com uma determinada ideologia que demonstre os temores da sociedade. Quando então certo grupo carrega o “gancho” para a projeção, ou seja, as características rejeitadas pelo coletivo, está aberta a possibilidade de expressão dos seus instintos sombrios.

Considerações finais

O presente estudo contribuiu para repensar as formas que as relações e comunicações humanas estão se desenvolvendo. No entanto, a construção do estudo apresentou alguns limites que não foram possíveis mensurar, como coletar dados e informações sobre os internautas de uma forma mais direta para compreender qualitativamente sobre a manifestação de suas Sombras arquetípicas. Da mesma forma, não foi possível avaliar todos os tweets relacionados aos filtros utilizados durante a coleta de dados, visto que foi realizada de forma manual e sofreu algumas limitações por parte da plataforma da rede social.

Nesse sentido, esta investigação almejou a análise da cultura do cancelamento, considerando a projeção da Sombra e sua reverberação nas interações sociais. De acordo com os resultados obtidos, percebe-se que existem fatores que se mascaram sob um discurso ideológico e, por vezes, irracionais da cultura do cancelamento. Dessa forma, recaem medos e inseguranças que os indivíduos não estão preparados para lidar, pois o Outro, visto como um não-eu, pode ser considerado uma ameaça, devido às fortes contradições internas desse Eu.

É notório que as redes sociais se tornaram um caminho para as novas formas de comunicação. A cultura do cancelamento, atualmente, é considerada um comportamento social condenatório. As novas condenações em forma de linchamento virtual poderão causar algumas mudanças sociais na apreciação da moral coletiva, visto que o movimento julga todas as ações humanas de um modo muito mais pessoal e relativo. Nesse contexto, as consequências sociais provenientes da cultura do cancelamento se mostram preocupantes.

Em resumo, este estudo destaca a importância de explorar a dinâmica das redes sociais e seus aspectos psíquicos. Ele evidencia como as interações digitais podem refletir questões psicológicas mais profundas e ressalta a necessidade de uma análise crítica das práticas de cancelamento, que, mesmo bem-intencionadas, podem ter consequências sociais significativas.

  • 1
    De acordo com Jung (1976JUNG, C. G. Os arquétipos e o inconsciente coletivo. 6. ed. Petrópolis: Editora Vozes, 1976., p. 72), o termo projeção indica “um processo inconsciente automático, através do qual um conteúdo inconsciente para o sujeito é transferido para um objeto, fazendo com que este conteúdo pareça pertencer ao objeto.”
  • 2
    Rede social fundada em 2006 por Jack Dorsey, Noah Glass, Biz Stone e Evan Williams. Em 2023 foi renomeada para ‘X’.
  • 3
    O Twitter tem os Trendig Topics, que são os temas mais falados no momento na rede social, transmitindo o que está acontecendo no mundo ou em determinada região.
  • 4
    Software proprietário da E.life, é a única plataforma de Social Business Intelligence que atende a todas as necessidades do universo da Social Media. Permite acompanhar em tempo real o que é dito sobre a marca e concorrentes nos espaços digitais, ativar e responder aos consumidores e ainda avaliar a performance dos canais onde as empresas estão presentes.
  • 5
    Empresa de monitoramento de Mercado e Consumo, que tem como objetivo entregar a visão do consumidor em relação ao mundo de marcas, produtos e serviços.
  • 6
    De acordo com dados disponibilizados pelo site da Globoplay, a participante atingiu o recorde de rejeição sendo eliminada com 99,17% dos votos do público, registrando 285,2 milhões de votos.
  • 7
    Lima e Pereira (2004)LIMA, M. E. O.; PEREIRA, M. E. Estereótipos, preconceitos e discriminação: perspectivas teóricas e metodológicas. Salvador: EDUFBA, 2004. relatam que os estereótipos constituem a base cognitiva do preconceito. São crenças compartilhadas acerca de atributos ou comportamentos costumeiros de certas pessoas ou grupos que alimentam as atitudes e sentimentos preconceituosos, os quais, por sua vez, justificam as práticas e comportamentos discriminatórios efetivamente exibidos contra eles.

Disponibilidade de dados

Os autores declaram que os dados que suportam a pesquisa são sensíveis e não podem ser compartilhados publicamente.

  • Editora responsável: Maria Ataide Malcher
  • Assistente editorial: Aluzimara Nogueira Diniz, Julia Quemel Matta, Suelen Miyuki A. Guedes e Weverton Raiol

Referências

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Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    11 Dez 2023
  • Data do Fascículo
    2023

Histórico

  • Recebido
    26 Fev 2023
  • Aceito
    29 Out 2023
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