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Projetos de incentivo à leitura no metrô de São Paulo

Proyectos de incentivo a la lectura en el metro de São Paulo

Resumo

Conforme Augé (2012)AUGÉ, M. Não lugares: introdução a uma antropologia da supermodernidade. Tradução: Maria Lúcia Pereira. 9. ed. Campinas: Papirus, 2012., o metrô é essencialmente um não lugar, contudo, por meio de práticas como as de leitura, é possível que seu uso seja ressemantizado a ponto de ser transformado em um lugar. Partindo dessa perspectiva e da noção de leitura de Roger Chartier (1996)CHARTIER, R. Do livro à leitura. In: CHARTIER, Roger. (Org.). Práticas da leitura. 5. ed. São Paulo: Estação Liberdade, 1996, p. 77-105. e Michel de Certeau (1998)CERTEAU, M. A invenção do cotidiano. 3. ed. Petrópolis: Editora Vozes, 1998., o objetivo deste trabalho é observar e indagar em que medida os diversos projetos de incentivo à leitura realizados no metrô de São Paulo - SP produzem lugares e não lugares. As ações ora estudadas, sejam do setor público ou privado, foram selecionadas por propagarem a circulação do livro e a prática da leitura nesse meio de transporte. Os dados foram coletados através de pesquisa em campo, entrevistas e por meio de levantamento documental, incluindo em fontes virtuais. A partir do arcabouço teórico e da análise das informações, notamos que apenas algumas das iniciativas de fato contribuem para a criação de um lugar de permanência e aproximação da cultura.

Palavras-chave:
Prática de leitura; Livro; Metrô; de São Paulo; Não lugar

Resumen

Según Augé (2012)AUGÉ, M. Não lugares: introdução a uma antropologia da supermodernidade. Tradução: Maria Lúcia Pereira. 9. ed. Campinas: Papirus, 2012., el metro es esencialmente un no-lugar, pero a través de prácticas como la lectura, es posible que su uso se resemantice hasta el punto de transformarse en un lugar. A partir de esta perspectiva y de la noción de lectura de Roger Chartier (1996)CHARTIER, R. Do livro à leitura. In: CHARTIER, Roger. (Org.). Práticas da leitura. 5. ed. São Paulo: Estação Liberdade, 1996, p. 77-105. y Michel de Certeau (1998)CERTEAU, M. A invenção do cotidiano. 3. ed. Petrópolis: Editora Vozes, 1998., el objetivo de este trabajo es observar e investigar en qué medida los diversos proyectos de incentivo a la lectura realizados en el metro de São Paulo - SP producen lugares y no-lugares. Las acciones aquí estudiadas, ya sean del sector público o privado, fueron seleccionadas porque promueven la circulación de libros y la práctica de la lectura en este medio de transporte. Los datos se recogieron mediante investigación de campo, entrevistas y un estudio documental, incluyendo fuentes virtuales. A partir del marco teórico y del análisis de la información, constatamos que sólo algunas de las iniciativas contribuyen realmente a crear un lugar de permanencia y acercamiento a la cultura.

Palabras clave:
Práctica de lectura; Libro; Metro de São Paulo; No lugar

Abstract

According to Augé (2012)AUGÉ, M. Não lugares: introdução a uma antropologia da supermodernidade. Tradução: Maria Lúcia Pereira. 9. ed. Campinas: Papirus, 2012., the subway is essentially a non-place; however, through practices such as reading, its use can be resemanticized to the point of being transformed into a place. Based on this perspective and Roger Chartier’s (1996) and Michel de Certeau’s (1998) notion of reading, this work aims to observe and investigate the extent to which the various projects to encourage reading carried out in the São Paulo - SP metro produce places and non-places. The actions studied here, whether from the public or private sector, were selected because they promote the circulation of books and the practice of reading in this means of transportation. The data was collected through field research, interviews, and a documentary survey, including virtual sources. Based on the theoretical framework and the information analysis, we noticed that only a few of the initiatives actually contribute to creating a place where people can stay and get closer to culture.

Keywords:
Reading practice; Book; São Paulo subway; Non place

Introdução

“Porque as linhas de metrô, como as da mão, se encontram e se cruzam - não apenas no mapa onde o entrelaçamento de suas multicoloridas rotas se desenrola e se estabelece, mas na vida e mente de todos” (AUGÉ, 2002AUGÉ, M. In the metro. Minnesota: University of Minnesota Press, 2002., p. 6, tradução própria)1 1 Texto original: “For subway lines, like lifelines on the hand, meet and cross not only on the map where the interlacing of their multicolor routes unwinds and is set in place, but in everyone’s lives and minds.” (AUGÉ, 2002, p. 6). .

Como Marc Augé (2002)AUGÉ, M. In the metro. Minnesota: University of Minnesota Press, 2002. pontua no relato sobre sua relação com o metrô parisiense, tal meio de transporte atravessa e é atravessado por milhares de pessoas diariamente, mas, apesar da frequência, é comum que apenas passemos por ele, e ele por nós. Isso porque o espaço físico do metrô é programado para direcionar a vida dos sujeitos a alhures: pelas indicações dos destinos, do sentido do andar, pelas mensagens sonoras e, principalmente, pela publicidade. Os anúncios publicitários espalham-se por diversos pontos do trajeto. Antes mesmo de chegarmos na entrada, ao andarmos pela calçada próxima, certas vezes somos bombardeados por panfletos sugerindo a compra de um imóvel ou a escolha de uma faculdade. Somos convidados a consumir as informações daqueles papéis ao invés de prestarmos atenção nos degraus que levam ao subsolo.

Ao ingressarmos na estação, as paredes não apenas restringem o espaço, mas carregam diversos cartazes anunciando produtos culturais, gastronômicos, dentre outros. Em vez de interagirmos com o ambiente e os demais passageiros, somos levados a possíveis experiências bem longe dali. Já dentro dos vagões, os monitores também são repletos de anúncios publicitários. E no caminho de saída, quando até cogitávamos estar a salvo, um mapa nos aguarda para apresentar o que encontraremos nas proximidades: uma farmácia, uma igreja, um shopping center.

Augé (2002)AUGÉ, M. In the metro. Minnesota: University of Minnesota Press, 2002. comenta que os próprios nomes das estações são apenas registros sem nenhum conteúdo real, sendo simples “pontos de passagem”. De acordo com o estudioso, uma palavra-chave descreve o metrô e as relações contratuais que nele ocorrem: solidão. Tendo em vista esses aspectos, o autor trabalha a noção de não lugar em oposição à de lugar antropológico. Este último seria um espaço relacional com identidade e história próprias, onde ocorrem relações de sociabilidade. O não lugar, por sua vez, corresponderia um ponto de trânsito, com ocupação apenas provisória, sem identidade específica ou história. Com grande circulação de pessoas, coisas e imagens, os não lugares “transformam o mundo em um espetáculo com o qual mantemos relações a partir das imagens, transformando-nos em espectadores de um lugar profundamente codificado, do qual ninguém faz verdadeiramente parte” (SÁ, 2014SÁ, T. Lugares e não lugares em Marc Augé. Tempo social - Revista de Antropologia da USP, v. 26, n. 2, p. 209-229, 2014. Disponível em: https://www.scielo.br/j/ts/a/sDhTTskCGVGDyqwRTyLnWPm/?lang=pt. Acesso em: 10 mar. 2021.
https://www.scielo.br/j/ts/a/sDhTTskCGVG...
, p. 211).

A mobilidade produz não lugares por natureza: espaços não identitários, não históricos e não relacionais. As relações em um não lugar seguem a lógica de uma contratualidade solitária. “Sem dúvida, mesmo, o relativo anonimato que diz respeito a cada identidade provisória pode ser sentido como uma libertação por aqueles que, por um tempo, não têm mais que manter seu nível, ficar no seu lugar, cuidar da aparência” (AUGÉ, 2012AUGÉ, M. Não lugares: introdução a uma antropologia da supermodernidade. Tradução: Maria Lúcia Pereira. 9. ed. Campinas: Papirus, 2012., p. 93). Não há ambiente para permanência, apenas para transição, usualmente se vivenciando a aceleração do tempo e a virtualização do espaço.

A construção voltada à assepsia, funcionalidade e objetividade costuma estar presente em rodovias, redes ferroviárias, transportes aéreos e shopping centers. Todavia, “na realidade concreta do mundo de hoje, os lugares e os espaços, os lugares e os não lugares misturam-se. Interpenetram-se. [...] Lugares e não lugares se opõem (ou se atraem), como as palavras e as noções que permitem descrevê-las” (AUGÉ, 2012AUGÉ, M. Não lugares: introdução a uma antropologia da supermodernidade. Tradução: Maria Lúcia Pereira. 9. ed. Campinas: Papirus, 2012., p. 98). Portanto, não se pode restringir tais noções a certos espaços físicos, pois há dualidade entre ambas, as quais podem ocorrer simultaneamente. Apesar da prescrição objetiva do espaço, como no caso do metrô, é possível que seu uso seja ressemantizado pelas pessoas a ponto de transformá-lo em um lugar.

A prática da leitura no metrô

Michel Certeau (1998)CERTEAU, M. A invenção do cotidiano. 3. ed. Petrópolis: Editora Vozes, 1998. desenha a leitura como uma cena secreta, uma janela para outro mundo que só o leitor transpassa. Ele percebe essa prática como criação de cantos, de atmosferas, de outras vidas. Segundo afirma, o lugar do leitor não é aqui ou lá, um ou outro, mas é uma presença simultânea. Quem lê desperta textos adormecidos, os habita, mas nunca os possui.

Os leitores são viajantes; circulam nas terras alheias, nômades caçando por conta própria através dos campos que não escreveram [...] A escritura acumula, estoca, resiste ao tempo pelo estabelecimento de um lugar e multiplica sua produção pelo expansionismo da reprodução. A leitura não tem garantias contra o desgaste do tempo (CERTEAU, 1998CERTEAU, M. A invenção do cotidiano. 3. ed. Petrópolis: Editora Vozes, 1998., p. 269-270).

Nessa perspectiva a leitura tem um ar de acontecimento sem possuir a fixidez da escritura. Pelo contrário, ela é a incerteza, porque reside no lugar da memória. Já os leitores têm ação ativa: eles viajam, circulam, criam. O ledor se apropria de um texto, entra nesse mundo e descobre seu próprio sentido, escolhe desbravar aquelas terras. A prática da leitura permite, assim, encontrar refúgio nos livros.

Para Roger Chartier (1996)CHARTIER, R. Do livro à leitura. In: CHARTIER, Roger. (Org.). Práticas da leitura. 5. ed. São Paulo: Estação Liberdade, 1996, p. 77-105., a leitura é apropriação, invenção e produção de significados. É encontro de dois mundos, de duas culturas. Segundo ele, o texto só acontece quando há um leitor para produzir seu significado, haja vista que o sentido se dá não no momento da escritura do texto, mas no de leitura, uma vez que o leitor é livre para mudar e até inverter o que o livro sugere. Desse modo, a leitura é observada como experiência, uma possibilidade única, já que nunca se lê o mesmo texto da mesma maneira.

O autor explica que o hábito de ler está diretamente fincado na cultura e no tempo histórico, diferenciando-se em cada grupo social. Sendo a leitura uma prática cultural socialmente construída, o sentido só se dá em determinado tempo e espaço. Assim, a prática da leitura é um acontecimento singular entre leitor - texto - lugar. Não há livro sem ledor e não há leitura sem espaço. O avanço de cada letra, linha e frase ocorre imerso em um lugar, o qual também produz impressões sobre quem lê.

Partindo dessas reflexões teóricas, este trabalho apresenta projetos de incentivo à leitura da cidade de São Paulo, mais especificamente implementados no meio de transporte do metrô, com o intuito de averiguar em que medida essas iniciativas contribuem para a produção de lugares e não lugares. Por meio de idas a campo, entrevistas com participantes de alguns desses projetos e pesquisa documental, foi possível reunir diversas anotações e alguns registros fotográficos. Devido ao encontro de alguns projetos findos ou próximos ao fim (como foi o caso das máquinas de venda de livros), também se fez necessário o levantamento de informações por meio virtual. Neste caso, as fontes escolhidas foram os veículos de notícias da cidade de São Paulo, bem como os sites das responsáveis pelas linhas do metrô (Companhia do Metropolitano de São Paulo, ViaQuatro e ViaMobilidade) e das próprias ações.

Nota-se que a circulação do livro acontece de diferentes maneiras no metrô, que vão muito além da venda direta. Há o contágio entre passageiros; a publicidade de livros, autores e editoras; exposições e distribuição de obras; leituras orais feitas por artistas nos vagões; instalações nas paredes das estações; eventos, dentre outras práticas. Ao observar os variados projetos de incentivo à leitura no metrô de São Paulo, é possível perceber distintas perspectivas e intenções, que de forma também múltipla ocasionam - ou não - a ressemantização do espaço.

Projetos de incentivo à leitura no metrô de São Paulo

Em 2023, a rede metroviária da cidade de São Paulo é composta por seis linhas com 104,2 km de extensão e 91 estações. Há três responsáveis pela administração dessa rede, a saber: a Companhia do Metropolitano de São Paulo (doravante Metrô), a ViaQuatro e a ViaMobilidade. A primeira gere as Linhas 1-Azul (Jabaquara - Tucuruvi), 2-Verde (Vila Prudente - Vila Madalena), 3-Vermelha (Corinthians-Itaquera - Palmeiras-Barra Funda) e o monotrilho da Linha 15-Prata (Vila Prudente - Jardim Colonial). A ViaQuatro, por meio de uma Parceria Público-Privada (PPP), é responsável pela gestão da Linha 4-Amarela (Luz - Vila Sônia-Profa. Elisabeth Tenreiro). Já a ViaMobilidade opera a Linha 5-Lilás (Chácara Klabin - Capão Redondo) em regime de concessão.

Há projetos de incentivo à leitura desenvolvidos por diferentes agentes nessa rede metroviária, tanto no âmbito público quanto no privado. A partir da estratégia metodológica definida para este trabalho, foi possível registrar os vinte projetos apresentados a seguir.

Metrô: Poesia no Metrô (2009-Atual)

A Companhia do Metropolitano de São Paulo (Metrô) possui a Linha da Cultura, que é voltada a ações artístico-culturais no Metrô, com programação divulgada mensalmente em cartazes espalhados nos vagões e murais. Atrelado à Linha, o programa Arte no Metrô trabalha em várias frentes. Teve início em 1978 na estação da Sé, com a instalação de esculturas, murais e painéis artísticos, implantando, durante as décadas posteriores, obras de arte contemporânea brasileira nas estações:

A proposta do Metrô é que exista uma valorização da arquitetura com a integração das obras de arte, causando nos transeuntes novas percepções da arte. Pretende com isso, também, uma maneira de se comunicar com o usuário e, a partir desses elementos artísticos, transmitir mensagens educativas que o estimulem a apreciar obras de arte e a respeitar os espaços coletivos que utiliza em seu cotidiano (JACOB, 2006JACOB, E. L. Leituras ambientais na paisagem transformada. Comunicação & Educação, [S.l.], v. 11, n. 3, p. 379-391, 2006., p. 386).

É dessa iniciativa que surge o projeto Poesia no Metrô, inaugurado em outubro de 2009 na Linha 2-Verde. O Poesia é um dos maiores programas de leitura de poemas em língua portuguesa já realizado em espaços públicos na América Latina. A sua primeira fase correspondeu à instalação de painéis com poemas em paredes, colunas, corredores e vãos livres de oito estações da Linha 2-Verde.

Metrô: Biblioteca Neli Siqueira (1972-Atual)

Fundada em 1972, a Biblioteca Neli Siqueira começou com a função de guardar a documentação técnica do Metrô. Seu nome foi homenagem a uma antiga bibliotecária da Companhia. Segundo Oliveira (2018)OLIVEIRA, J. V. O portal da Biblioteca Metrô Neli Siqueira como espaço de mediação e referência à história da Companhia do Metropolitano de São Paulo. Dissertação (Mestrado em Ciência da Informação), Universidade de São Paulo, São Paulo, 2018., dentre diversas funções relevantes, Neli foi responsável por implementar a captação de documentos históricos na empresa e coordenou projetos como: Biblioteca nas Estações, Classificação Metroviária e Atualizações da Legislação Organizada sobre Transporte Urbano e Passageiros, Centralização de Aquisição Bibliográfica da Companhia e Serviços de Circulação.

A Biblioteca abrange seus objetivos para além da memória bibliográfica e afirma também ter a missão de promover a disseminação e a utilização da informação como suporte às atividades das áreas técnicas do Metrô. O acervo é especializado em transportes, sendo “composto de 22.433 títulos de obras bibliográficas, 415 títulos de periódicos e mais de 113.000 itens não bibliográficos, que estão organizados tanto por suporte quanto por tipo de produção” (OLIVEIRA, 2018OLIVEIRA, J. V. O portal da Biblioteca Metrô Neli Siqueira como espaço de mediação e referência à história da Companhia do Metropolitano de São Paulo. Dissertação (Mestrado em Ciência da Informação), Universidade de São Paulo, São Paulo, 2018., p. 44). Há também obras de engenharia, arquitetura, direito, administração, economia, informática e outros. O acesso não se dá por dentro de nenhuma estação de Metrô, mas sua localização é próxima à estação Marechal Deodoro, na Linha 3-Vermelha, no núcleo denso e central da cidade. Além do espaço físico, é possível fazer consultas no portal da Biblioteca.

Metrô: Achados na Leitura (2019-Atual)

Em 2019, no Dia Mundial do Livro, foi lançado o projeto Achados na Leitura, que consiste na distribuição gratuita dos livros deixados na Central de Achados e Perdidos do Metrô e que tenham estourado o prazo de 60 dias corridos, limite para retirada. A cada dois meses, uma estação é escolhida e a estante de livros permanece durante trinta dias. Com o mote “Alguém perdeu, nós achamos e todos compartilharemos”, o projeto disponibiliza mais de 200 exemplares a cada ação.

Os usuários, por outro lado, são convidados a colaborar de duas maneiras: doando seus próprios livros; e/ou compartilhando fotos dos totens ou dos livros nas redes sociais com as hashtags #metrosp e #achadosnaleitura. O projeto não aceita livros didáticos e de cunho religioso, político ou sexual.

Metrô: Clube de Leitura do Metrô (2019-Atual)

Realizado pela Biblioteca Neli Siqueira, o Clube de Leitura do Metrô tem início em 2019. Em setembro de tal ano pude participar de um de seus encontros, que recebeu três convidados: o professor Waldomiro Vergueiro (ECA-USP), o editor Guilherme Kroll (Balão Editorial) e o historiador Filipe Figueiredo. O livro escolhido era o premiado graphic novel de Art Spiegelman: Maus.

Dezoito pessoas compareceram ao encontro, que aconteceu no espaço da Biblioteca, em volta de uma mesa com lanches, café e chá. A discussão não era pautada por temas cerrados, pelo contrário, a abertura para todos falarem fazia com que os assuntos saltassem rapidamente. Um dos convidados, o professor Waldomiro, havia preparado uma apresentação em slides, mas não chegou a utilizá-la. A proposta era que os convidados começassem com falas panorâmicas sobre perspectivas do contexto e do livro, mas logo a discussão tomou rumo próprio e estilo informal. Em clima descontraído, as pessoas comiam durante a conversa e não havia necessidade de pedir o momento da fala.

Discorreu-se muito acerca do conteúdo da obra, mas também do formato, da intertextualidade e da realidade atual relacionada à produção. Comentou-se até de canibalismo. Ao final, foram dados informes sobre os próximos encontros e leituras e entregues uma pesquisa de satisfação sobre o Clube e uma lista de presença. Com a pandemia do novo coronavírus em março de 2020, as visitas à Biblioteca cessaram e o Clube foi adaptado para bate-papos digitais. Os encontros passaram a ocorrer em toda última quinta-feira do mês através da plataforma Microsoft Teams e permanecem assim até o presente.

Metrô: Clube do Audiolivro (2021-2022)

O Clube do Audiolivro teve início em maio de 2021 e marcou uma parceria entre a Empresa Tocalivros, o Metrô e a Biblioteca de São Paulo (BSP). A atividade era composta por empréstimo do audiolivro indicado para o encontro e reuniões mensais destinada à discussão entre os leitores. Os encontros eram mediados pela equipe da Associação Paulista de Bibliotecas e Leitura (SP Leituras). As primeiras reuniões foram remotas, mas depois passaram a ser presenciais na BSP. Para ter acesso aos debates e ao empréstimo de audiolivros, é necessário ser sócio da BSP. A inscrição é gratuita, indicada para maiores de 14 anos e tem limite de vagas.

Metrô: Nas Estantes da Zona Norte (2012-2019)

Realizada anualmente desde 2012, o Nas Estantes da Zona Norte ocorre em motivo do Dia Nacional do Livro. Com o apoio do Metrô, a ação é de responsabilidade da Rede Social Zona Norte e faz a distribuição gratuita de livros nas áreas livres da rede metroviária (de acesso não pago). O projeto já passou pelas estações Tucuruvi, Parada Inglesa, Santana, Carandiru e Jardim São Paulo-Ayrton Senna. A distribuição é acompanhada por ações diversas, como contação de histórias.

ViaQuatro e ViaMobilidade: Leitura nas Vias (2016-Atual)

Em 2016, o projeto Leitura na ViaQuatro consistiu na instalação de prateleiras nos corredores das estações da Linha 4-Amarela para o compartilhamento de títulos entre os próprios passageiros. Três anos depois, em 2019, a ViaMobilidade também instalou os nichos nas estações da Linha 5-Lilás. O curso de marcenaria do Instituto Tomie Ohtake desenvolveu as estantes para receber os livros em ambas as linhas.

No início do projeto, em 2016, a Livraria Leitura ficou responsável por manter as prateleiras abastecidas e monitorar o acervo. Entre os anos de 2016 e 2017 o Leitura na ViaQuatro fez uma parceria com a Comic Con Experience (CCXP), que estendeu o benefício de meia-entrada àqueles que doassem um livro. Os quatro dias de evento chegaram a arrecadar 11 mil exemplares. Em 2018, a ação também firmou parceria com a Editora Brasileira para a doação de títulos.

Para participar do projeto, basta o passageiro escolher e levar algum título, não é necessário fazer qualquer tipo de cadastro. A doação também acontece de forma livre. Há ainda o incentivo à devolução das obras para que outras pessoas possam utilizá-las. Dessa forma, o projeto busca estimular a cidadania e a interação entre os passageiros.

ViaQuatro: Clube Digital de Leitura (2021-2021)

Assim como o Clube do Audiolivro, a empresa ViaQuatro também disponibilizou audiolivros gratuitos e começou a realizar um Clube Digital de Leitura. Em parceria com a Tocalivros, foram exibidos vídeos nos monitores dos trens e das estações contendo o código QR para acesso aos livros falados. Os títulos foram escolhidos por conta de datas comemorativas, como o Dia das Crianças, Dia do Folclore, Dia do Escritor, Dia Nacional do Orgulho LBGT etc.

Serviço Social do Comércio (SESC): BiblioSesc (2017-Atual)

Desde 2017, na Linha 3-Vermelha, a estação Guilhermina-Esperança recebe quinzenalmente a Biblioteca Volante do Sesc (BiblioSesc). O caminhão-biblioteca estaciona na praça ao lado da estação. Algumas vezes, também há atividades como narrativa oral, intervenção visual, exposição de algum ilustrador, intervenção artística, dentre outras. O empréstimo é gratuito e conta com um acervo de 3,5 mil livros, jornais e revistas.

Editora L&PM: Ticket Books (2015-2015)

O Dia Mundial do Livro de 2015 contou com uma ação da editora L&PM, assinada pela Agência Africa. Na estação Faria Lima da Linha 4-Amarela, 1.500 livros de bolso foram distribuídos gratuitamente aos passageiros. Dentre eles, 300 eram Ticket Books - livros que serviam também de bilhete único, com seis viagens já disponíveis. Para usar o bilhete, era necessário que o viajante leitor encostasse seu livro na catraca. Era possível, inclusive, recarregar o Ticket Book em site do projeto. Foi incentivado que, após a leitura, o passageiro recarregasse seu livro e com ele presenteasse outro usuário do Metrô. Por fim, chamam a atenção as capas criadas especialmente para essa coleção, com inspiração em mapas de metrôs de diversas partes do mundo.

Empresa 24x7 Cultural: Máquinas de venda de livros (2003-2019)

Em 2001, o empresário Fábio Bueno Netto concebeu a ideia de vender livros a preços acessíveis através de máquinas similares às de refrigerantes e salgadinhos. O objetivo era instalar esses equipamentos em locais de grande fluxo de pessoas, comercializando obras que já não estivessem protegidas por direitos autorais. Depois de uma negociação de dois anos com o Metrô, a primeira máquina foi instalada na estação São Joaquim, em março de 2003.

Até 2019, o Metrô contava com essas máquinas dentro de algumas estações. Por meio de nota publicada no Facebook2 2 Disponível em: https://www.facebook.com/maquinadelivros/. Acesso em: 08 ago. 2019. , a empresa informou que encerrou as operações no Metrô por decisão deste. É possível encontrar aparelhos inoperantes nas estações.

Algumas máquinas seguiam o modelo de “Pague quanto acha que vale”, com pagamento mínimo de R$ 2,00, porque o equipamento só tinha entrada de cédulas. Era possível encontrar livros de diversos gêneros: ficção, gastronomia, filosofia, negócios, humor, religião, dentre outros.

Instituto Brasil Leitor (IBL): Embarque na Leitura (2004-2012)

O Embarque na Leitura era um projeto do Instituto Brasil Leitor (IBL) patrocinado pela AES Eletropaulo e empresas do Grupo Usiminas. Consistia na instalação de bibliotecas dentro das estações do Metrô, a fim de facilitar o acesso e empréstimo gratuito de livros. A primeira biblioteca foi inaugurada na estação Paraíso, da Linha 2-Verde, em 2004.

O acervo contava com best-sellers, literatura brasileira, autoajuda, infantojuvenil, romance, filosofia, religião, ciências sociais, linguística, artes, história e livros em braile. O projeto tinha procedimento simples de cadastro e chegou a ter mais de vinte mil associados. A bibliotecária era responsável por procurar os exemplares nas estantes e efetuar os empréstimos - que duravam dez dias, com possibilidade de renovação -, enquanto os passageiros aguardavam do lado de fora. Além do empréstimo de livros, o Embarque na Leitura realizava eventos ligados à literatura, como contação de história, bate-papos e tarde de autógrafos.

O projeto chegou a instalar cinco bibliotecas, nas seguintes estações: Paraíso (Linha 1-Azul e Linha 2-Verde), Santa Cecília e Tatuapé (Linha 3-Vermelha), Brás (Companhia Paulista de Trens Metropolitanos - CPTM) e Sacomã (de ônibus). O fim do projeto ocorreu em 2012, por falta de financiamento.

Indústria Brasileira de Árvores (Ibá): Circule um Livro (2022-2023)

A iniciativa Circule um Livro foi idealizada pela Indústria Brasileira de Árvores (Ibá) e realizada em parceria com o Metrô. Durante os dias 9 de maio e 8 de junho de 2022, foram posicionadas estantes em seis estações da rede: Chácara Klabin, Trianon-Masp e Consolação, na Linha 2-Verde; Palmeiras-Barra Funda e Sé, na Linha 3-Vermelha; e Vila Prudente, na Linha 15-Prata. Cada estante foi preenchida com livros e folhetos explicando o projeto. O presidente da Ibá, Paulo Hartung, afirma em vídeo de divulgação que a proposta visa o incentivo à leitura e à economia circular - por sugerir que os passageiros alimentem as estantes com livros a serem trocados. No mesmo material, o diretor de operações do Metrô afirma que “é uma parceria onde o nosso passageiro não paga nada. Ele retira o livro daqui, lê em casa, devolve e retira outro livro. Ou seja, ele consegue fazer com que o livro circule”.

Grupo Projetos de Leitura: Viajando na Leitura (2006-Atual)

O Grupo Projetos de Leitura foi fundado em 1998 por Laé de Souza, escritor e produtor cultural. A partir de uma parceria com as concessionárias ViaQuatro e ViaMobilidade para eventos de incentivo à leitura, o Grupo fez a primeira edição do projeto Viajando na Leitura em 2006, no Metrô, na estação do Largo Treze da Linha 5-Lilás.

Com distribuição gratuita de livros, o objetivo do projeto é incentivar a leitura e a circulação dos livros entre ledores. Conforme explicado na primeira página dos títulos utilizados na ação, a proposta é que, após a leitura, o ledor deixe o livro em outro local público de trânsito, como ônibus, metrô, táxis e aeroportos, para que outras pessoas o encontrem. A capa das obras também possui um adesivo com o convite: “Leia-me e me esqueça por aí”. Segundo o coordenador do Grupo, os títulos disponibilizados costumam conter crônicas curtas, a fim de serem lidas de maneira rápida e pontual; e os livros infantis também prezam por breves histórias com ilustrações. Em São Paulo, o projeto já aconteceu na CPTM, no Metrô, na Viação Cometa e nos ônibus de Guarulhos.

No dia do evento, a equipe é composta por 5 pessoas e o autor Laé de Souza, que autografa os livros e conversa com os leitores. No momento da distribuição das obras, o grupo fala com o público sobre a importância de compartilhar a leitura com as crianças e reforça a necessidade de deixar o livro em outro local após a utilização. Ao serem encontrados, os livros que são intencionalmente largados em assentos causam espanto, mas são levados, principalmente pela informação sobre a dinâmica da ação na primeira página. O Metrô recepciona bem o projeto, haja vista os benefícios à população.

Em abril de 2019, foi feita uma parceria com a Leitura nas Vias. Em comemoração ao Dia Internacional do Livro Infantil, foram distribuídos 1.200 exemplares na estação São Paulo-Morumbi da Linha 4-Amarela. Cada volume contava com tarja na capa orientando para que, após a leitura, o livro fosse devolvido nas prateleiras e nichos da Leitura nas Vias. Em julho do mesmo ano, houve ação similar na estação Largo Treze da Linha 5-Lilás, por conta do Dia Nacional do Escritor. Em novembro, foi a vez da estação Santo Amaro. O evento também contou com uma roda de conversa com alunos de duas escolas públicas da região que tiveram textos publicados no livro As melhores histórias dos projetos de leitura - vol. 11. O ano de 2021 também foi marcado por ações do projeto celebrando datas comemorativas em estações das Linhas 4-Amarela, 5-Lilás e 3-Vermelha. As atividades do projeto são divulgadas em site próprio.

Movimento BookCrossing: BookCrossing Brasil (2008-2013)

O BookCrossing Brasil é uma prática de deixar livros em lugares públicos para que outras pessoas os encontrem. Na capa e contracapa do volume, são colocadas etiquetas explicando como o projeto funciona, incluindo o pedido para que o achado seja registrado no site oficial do movimento, o que possibilita rastrear a trajetória de cada livro. Após a leitura, a pessoa é convidada a esquecer o exemplar em outro lugar público. O lema do movimento é “Leia, Registre, Liberte”.

Em 2010, em parceria com o Centro de Cultura Virtual Kliceo, o BookCrossing Brasil “esqueceu” 1.500 livros nas estações Vila Madalena, Clínicas, Consolação, Trianon-Masp, Brigadeiro, Alto do Ipiranga, Ana Rosa, Paraíso, Sé, Palmeiras-Barra Funda e Portuguesa-Tietê.

Tem Mais Gente Lendo (2015-2018)

O Tem Mais Gente Lendo (TMGL) foi criado em fevereiro de 2015 e consistia em registrar leitores no transporte público e divulgar esses registros nas redes do projeto. Idealizado por Sérgio Miguez, o TMGL recebeu o apoio da Câmara Brasileira do Livro e contou com alta atividade nas redes sociais durante seus anos de maior atividade (2015-2017). Em entrevista, Sérgio relatou: “Sou usuário do metrô de São Paulo e, de uns tempos para cá, chamou a minha atenção o número surpreendente de passageiros com um livro nas mãos. Comecei a fotografar com o meu celular e, com a hashtag #temmaisgentelendo, passei a publicar as fotos nas redes sociais”. Hamilton dos Santos, outro idealizador do projeto, aderiu à hashtag e começou a publicar as fotos no Facebook.

Para os idealizadores, a iniciativa estimulava a leitura de uma maneira prática, justamente por mostrar ações e ir além do discurso incentivador. A página do TMGL apresentava um aviso sobre o direito de imagem dos leitores capturados, uma vez que o projeto reconhecia esse direito, mesmo que a atuação fosse em espaço público. Sendo assim, eram observadas as seguintes diretrizes: (a) registrar imagens em ângulos que evitassem o reconhecimento do fotografado; (b) borrar os rostos que aparecessem em primeiro plano nas imagens; (c) pedir autorização para o retratado. Além disso, caso o fotografado se reconhecesse em alguma postagem, ele poderia: pedir a retirada da foto via e-mail ou enviar sua autorização de imagem e concorrer a um livro.

Em 26 de setembro de 2015, o Tem Mais Gente lendo convidou quem os acompanhava virtualmente para um flashmob “Ler move o mundo”. O evento recebeu o apoio do SP Leituras, do Museu de Arte de São Paulo (MASP) e da Secretaria da Cultura. Os leitores foram convidados a ocupar o Vão Livre do MASP com seus livros a tiracolo e a realizar a leitura em voz alta de algum trecho que gostavam. Outra ação do TMGL foi a série audiovisual “O Crítico do Vagão”, na qual o jovem João Pedro Durigan realizava a resenha de um livro no decorrer de uma viagem de metrô.

Leitura no Vagão (2014-Atual)

O Leitura no Vagão é uma iniciativa cuja ação é “abandonar” livros em locais públicos diversos, como os assentos dos vagões. As obras são identificadas por etiquetas e carimbos que explicam o motivo de os itens terem sido esquecidos e convidam para que, após a leitura, o passageiro os esqueça novamente. O objetivo é minimizar o desconforto e o cansaço do dia a dia no transporte público, proporcionando uma outra experiência de viagem.

Fundada em 2014, por Fernando Tremonti, a iniciativa conta com voluntários e ações até o presente - apesar de ter ocorrido uma diminuição durante a pandemia. As primeiras ações eram exclusivamente no Metrô de São Paulo, mas depois o projeto se expandiu. São distribuídos livros em parques, ruas, praças, ônibus e trens, inclusive em outras cidades. Houve um episódio em que foi até organizado um sarau dentro de uma estação do Metrô. Algumas ações não têm motivo específico, enquanto outras seguem alguma data comemorativa, como Dia das Crianças, Dia das Mães, Dia do Livro etc.

O Leitura no Vagão conta com atividades planejadas em dias predeterminados, mas cada voluntário também tem autonomia para levar os livros do projeto e distribuí-los em seu deslocamento diário. Durante as ações, os voluntários são identificados por vestirem a camiseta do projeto. Eles comentam que a “aceitação é esplêndida” e que, enquanto buscam posicionar os livros, algumas pessoas já querem pegá-los. Tais camisetas da iniciativa já foram inclusive enviadas para diversas pessoas famosas com a apresentação do projeto e o pedido de suporte. Desse modo, é possível encontrar registros fotográficos de celebridades com essa roupa nas redes da ação.

O Leitura também já realizou pedido de apoio via financiamento coletivo e doações de seus seguidores, além da venda de produtos (camiseta, marcadores de página e canecas) e cotas de patrocínio para seu site. Adicionalmente, visando a aquisição de livros, são acionadas editoras e livrarias para explicar o projeto e pedir doações, sendo que algumas atendem. Uma das voluntárias comenta que a Livraria Saraiva já realizou diversas contribuições. Ao todo, já foram mais de 35 mil livros recebidos e espalhados pelo projeto.

Na época da criação do projeto, Fernando conseguiu conversar com a equipe do Metrô e organizar algumas ações conjuntamente, sendo que essa parceria permanece até a atualidade. Uma das ações realizadas com o apoio do Metrô, por exemplo, foi a distribuição de livros em um vagão na primeira estação da Linha 3-Vermelha. Os voluntários tinham acesso ao vagão antes dos passageiros e colocavam livros em todos os assentos. Segundo relatam, alguns passageiros tinham receio de se sentarem nas poltronas, pois pensavam que o item tinha dono, cabendo aos voluntários a apresentação do projeto. Em 2019, o idealizador da iniciativa acabou se afastando do Leitura por conta de desavenças nas redes sociais com um influenciador digital. A coordenação foi, então, passada para uma das voluntárias.

A relação do projeto com a equipe do Metrô é positiva. Os participantes do Leitura no Vagão entram em contato com a empresa por meio de mensagem e explicam o que está planejado para a ação, e a equipe do Metrô autoriza e se organiza para recebê-los no dia. Todas as solicitações e exigências do Metrô são acatados pelo projeto. Uma das voluntárias explica que o agendamento costuma ocorrer com bastante antecedência, para que haja tempo de retorno. Ela conta que a maioria das ações foram feitas na estação Palmeiras-Barra Funda, por ser próxima à residência do idealizador do Leitura. Nos Natais de 2016 e 2017, o projeto ajudou o Papai Noel do Metrô a distribuir livros.

Atualmente, uma das voluntárias mantém um grupo de troca de livros antes de eles serem etiquetados e “esquecidos” nos vagões. O grupo é composto por cerca de 80 pessoas, sendo a maioria mulheres que não têm acesso às obras por conta da inviabilidade financeira, cabendo a essa voluntária organizar os empréstimos. Ela conta que sabe quem está com cada livro e quando deve devolvê-lo. Segundo relata, essa é uma forma de ela agradecer e espalhar o quanto o projeto a ajudou: “Eu não compro livros há uns 3 anos. É maravilhoso, né?”, diz.

A mesma entrevistada comenta que nunca teve problema em relação às participantes do grupo não devolverem ou não terem cuidado com os livros. Ela também explica que as participantes costumam ficar por volta de quatro horas diariamente no transporte público. Além das demais ações do Leitura, os voluntários acreditam que estão, desta forma, contribuindo para melhorar a rotina de todos os usuários do transporte.

Vi Você Lendo (2016-Atual)

A iniciativa Vi Você Lendo é composta por uma página em rede social que reúne registros de passageiros praticando a leitura dentro do transporte público. O projeto foi idealizado por Fernando Piovezam, que, por ser um ledor ávido, acabou por notar outros leitores em seu deslocamento diário. Uma certa vez registrou outro passageiro leitor a fim de guardar aquela “indicação” de leitura. Quando percebeu, ele tinha um estoque grande de registros fotográficos desse tipo e, em agosto de 2016, decidiu criar o perfil Vi Você Lendo para divulgar as dicas de leitura que registrava no transporte público.

Fernando comenta que encontra muitos livros que nunca ouviu falar e tem curiosidade de saber sobre o que eles tratam. Após um tempo, seguidores da página começaram a enviar seus registros também. O idealizador destaca que já recebeu um flagra de dois passageiros que estavam lendo o mesmo livro em um mesmo vagão e não notaram um ao outro.

É possível observar desde livros de bolso a livros grandes nas mãos dos passageiros. Há imagens de pessoas lendo sentadas nos assentos ou nos corredores, em pé no centro do vagão, segurando a barra de ferro, apertadas entre outros usuários. “Eu gosto de mostrar justamente isso. A galera lendo no meio dessa balbúrdia, a galera ali no meio da bagunça mesmo”, afirma Fernando.

O idealizador pontua que vivenciou apenas uma situação negativa até hoje. Conforme explica, todas as vezes que ele registra alguém, ele procura pedir autorização para postar a imagem da pessoa. Em uma dessas ocasiões, um rapaz respondeu positivamente e logo Fernando publicou a foto e marcou o nome do fotografado. Enquanto ainda estava dentro do vagão, o rapaz abordou Fernando e pediu que fosse retirada sua imagem, porque sua esposa teria visto e reprovado. No mesmo momento a imagem foi excluída e Fernando pediu desculpas pelo desentendimento causado.

Além da ação principal, o projeto tem o costume de compartilhar, em sua página, notícias sobre o mundo do livro e da leitura. Quando houve o movimento contrário à taxação dos livros, por exemplo, logo o Vi Você Lendo se envolveu e convocou seus seguidores a também assinarem o abaixo-assinado contra a taxação.

Leitores do Metrô (2022-Atual)

A página Leitores do Metrô surgiu dentro de outro projeto, o Arbóreo Literário, também idealizado por André Pimenta, que começou a fotografar e divulgar os leitores no metrô. Como o seu local de moradia e o de trabalho são em bairros distantes (Grajaú e Pinheiros), ele fica muito tempo no transporte público e sempre registrou outros ledores. Em 2022, quando seu namorado sugeriu que André reunisse essas fotos para algum propósito, ele acabou por criar o perfil Leitores do Metrô. André explica que o objetivo da página é estimular a leitura e mostrar que existem outros recursos, além dos celulares, para passar o tempo. Ele registra leitores de todos os gêneros, corpos, origens e aparências (além de gostos literários distintos).

O idealizador comenta que a relação com os leitores é positiva, eles têm um bom engajamento com as postagens e a maioria é elogiosa. Segundo afirma, “até o momento, cerca de 6 pessoas se encontraram nas fotos, apenas uma delas pediu a remoção da mesma, mas o fez de forma bem tranquila”. Uma das formas de interação nos comentários mais expressiva é quando as pessoas tentam adivinhar o nome do livro capturado.

A maior parte dos registros é do próprio André. No entanto, a cada dia ele vem recebendo mais contribuições de seguidores que, em suas viagens, fotografam outros leitores e enviam as imagens por mensagem direta na rede social ou e-mail. Recentemente a página recebeu os primeiros registros de fora da capital paulista, vindos de Pernambuco e Brasília.

Poetas Ambulantes (2012-Atual)

O Poetas Ambulantes é um coletivo que realiza saraus itinerantes nos transportes públicos da cidade de São Paulo. Durante as viagens, os participantes declamam versos próprios ou de autores clássicos e contemporâneos, distribuem gratuitamente poemas e livros, além de convidarem outros passageiros para o sarau, seja por meio de declamação literária, cantoria de uma música, dança ou qualquer outra forma de expressão artística. O objetivo é levar poesia às pessoas sem que elas esperem por isso, sendo o transporte público o palco principal.

O nome da iniciativa foi inspirado nos vendedores ambulantes que circulam clandestinamente nos coletivos vendendo mercadorias. Sem cobrança alguma, sem roteiro, sem microfone, os poetas se apresentam de cara limpa, espalhando arte. As ações são planejadas para dias úteis, preferencialmente em horários de maior movimento. Os poetas acreditam que é justamente nesse período que as pessoas estão mais cansadas e estressadas, e a poesia entra justamente para tornar a rotina mais leve e agradável.

O coletivo foi formado por poetas que costumavam frequentar o Sarau da Cooperifa, criado por Sérgio Vaz. A primeira saída foi em setembro de 2012, partindo do Terminal Guarapiranga rumo ao Parque Ibirapuera. A partir da segunda saída, o grupo já se estruturou como coletivo e organizou encontros com frequência mensal - sempre escolhendo um sarau como último destino. Desde sua fundação, o Poetas Ambulantes já realizou mais de 100 apresentações por todo o país.

Na página do projeto é possível encontrar vários relatos das saídas do grupo, destacando-se o referente ao dia 16 de abril de 2013, quando ocorreu a oitava saída do coletivo. O ponto de partida foi na estação Calmon Viana da Linha 12-Safira da CPTM com destino ao bairro do Heliópolis, para participação no TerSarau. O início foi às 15h e contou com seis poetas. Ao passarem na estação Chácara Klabin da Linha 2-Verde do Metrô, os poetas foram impedidos, pelos seguranças, de continuar suas intervenções. Os funcionários teriam alegado a infração do regulamento da empresa por parte do coletivo: “A segurança alegou que incomoda os passageiros. Na mesma hora uma passageira disse que na verdade ela estava incomodada com a ação deles e não com a poesia” (PEIXOTO, 2013PEIXOTO, T. 8ª saída dos Poetas Ambulantes. Poetas ambulantes, 2013. Disponível em: http://poetas-ambulantes.blogspot.com/2013/04/8-saida-dos-poetas-ambulantes.html. Acesso em: 20 nov. 2022.
http://poetas-ambulantes.blogspot.com/20...
). Os poetas destacam as constantes tentativas de contato com o Metrô sem retorno, concluindo que “infelizmente nunca chegamos sequer a conhecer quem pode dizer que sim (ou não) sobre podermos fazer poesia lá dentro. Como o metrô é nosso também, continuaremos cuidando dele do nosso jeito, com poesia” (PEIXOTO, 2013PEIXOTO, T. 8ª saída dos Poetas Ambulantes. Poetas ambulantes, 2013. Disponível em: http://poetas-ambulantes.blogspot.com/2013/04/8-saida-dos-poetas-ambulantes.html. Acesso em: 20 nov. 2022.
http://poetas-ambulantes.blogspot.com/20...
).

Considerações finais

Ao considerar a dimensão da metrópole de São Paulo, com seus mais de doze milhões de habitantes, e a importância do metrô para a população da cidade, é inegável a baixa quantidade de projetos de incentivo à leitura realizados em tal meio de transporte. A partir do momento em que o metrô é vivenciado como um destino e não como um espaço de passagem, experimenta-se a cidade de uma forma diferente. A leitura caminhante e barulhenta, própria do núcleo da metrópole, é uma experiência ambivalente entre a multidão. Apesar do potencial dessa prática para a ressemantização do espaço, a partir da análise da atuação dos vinte projetos apresentados, é possível perceber que apenas alguns deles transformam(vam) efetivamente o metrô em um lugar de permanência e aproximação à cultura.

Alguns dos projetos motivavam apenas a comunicação funcional e a transitoriedade no espaço. A noção de livro nessas circunstâncias estava mais próxima à de um mero objeto de consumo, esvaziado de seu potencial emancipador. Esse é o caso de iniciativas como o Ticket Books e Máquinas de venda de livros, as quais tinham como prioridade o intuito publicitário do consumo do livro e acabavam por concorrer com diversas outras publicidades à procura de um consumidor.

Outros projetos, como Achados na Leitura, Leitura nas Vias, Circule um Livro, Viajando na Leitura, BookCrossing Brasil e Leitura no Vagão, de distribuição de livros e de trocas mediadas por objetos, têm(tinham) algumas limitações. Foi possível perceber como eles transformam(vam) o metrô em um espaço de aproximação à cultura, haja vista que o encontro de um livro e o início de uma leitura em um vagão pode provocar o contágio de outros passageiros. Contudo, a surpresa em encontrar um livro e a decisão por carregá-lo consigo não são automáticas, sendo necessário um investimento subjetivo. Desse modo, a forma dessa distribuição e troca (mediada por objetos, como estantes, prateleiras ou nichos) acaba por limitar as chances de interações entre passageiros leitores. Caso a troca de livros seja incentivada em um local e horário específicos, é possível prever as eventuais indicações de títulos e conversas sobre o que foi lido. Nesse caso, destaca-se a importância de alguns desses projetos para a criação de relações de sociabilidade, como pontuado mais abaixo.

Em sentido similar de mediação se observou a distribuição de audiolivros nos projetos Clube do Audiolivro e Clube Digital de Leitura, que acabam(vam) sugerindo o consumo individual do audiolivro por meio de uma captura via telefone celular ou acesso a um site. A ausência física do livro e a presença do áudio transformam a prática da leitura, uma vez que se deixa o âmbito tátil-visual para acessar o meio auditivo. A primeira iniciativa, contudo, está vinculada a um grupo presencial de leitura, enquanto a segunda trazia um convite para a participação do leitor em um grupo.

Os projetos voltados à experiência de imersão na leitura e à percepção do livro enquanto objeto cultural e histórico foram aqueles identificados como direcionados à criação de um lugar e de relações de sociabilidade. Esse é o caso das iniciativas citadas a seguir.

Os projetos Biblioteca Neli Siqueira, Embarque na Leitura e BiblioSesc criam(vam) um espaço onde o passageiro tem(tinha) acesso a uma diversidade de livros, podendo, inclusive, pegá-los emprestado para ler durante a viagem e em outros lugares. Os projetos Clube de Leitura do Metrô, Nas Estantes da Zona Norte e os já mencionados Leitura no Vagão, Viajando na Leitura, Clube Digital de Leitura e Clube do Audiolivro produzem(iam) relações de sociabilidade por meio de encontros entre passageiros leitores, com a discussão sobre as leituras e leituras orais. É grande a potencialidade de propagação da literatura nesses espaços de troca e vivência. Também foi possível encontrar projetos de incentivo à leitura através de flagras de passageiros leitores durante suas viagens, como o Tem Mais Gente Lendo, Vi Você Lendo e Leitores do Metrô, que realizam(vam) o registro de imagens e divulgação nos meios digitais.

O Poesia no Metrô produz um lugar identitário e histórico marcado pelos poetas da língua portuguesa. Ao parar para ler um poema em meio ao trânsito corrido de passageiros, o sujeito vai de encontro ao uso objetivo e funcional do metrô para ressemantizar aquele espaço com um sentido de lugar. A sensação de ler entre uma multidão apressada marca a experiência sensível do passageiro leitor. Por fim, é de se destacar a singularidade do Poetas ambulantes, que alcança o contágio sensível a partir de um sarau itinerante para surpreender os demais passageiros através da leitura oral e performance literária.

Em oposição à noção de não lugar (AUGÉ, 2012AUGÉ, M. Não lugares: introdução a uma antropologia da supermodernidade. Tradução: Maria Lúcia Pereira. 9. ed. Campinas: Papirus, 2012.), o metrô pode ser transformado em um lugar de identidade, um lugar onde as pessoas podem construir relações sociais e experiências culturais enriquecedoras. É o que pode ser observado na parcela dos projetos que sugere a identificação do metrô como um lugar através do qual desejamos passar para nos relacionarmos com os livros, pegá-los emprestado e vivenciá-los. Essa perspectiva destaca a importância de se criar espaços públicos que possam fornecer significado e conexão sócia.

  • 1
    Texto original: “For subway lines, like lifelines on the hand, meet and cross not only on the map where the interlacing of their multicolor routes unwinds and is set in place, but in everyone’s lives and minds.” (AUGÉ, 2002AUGÉ, M. In the metro. Minnesota: University of Minnesota Press, 2002., p. 6).
  • 2
    Disponível em: https://www.facebook.com/maquinadelivros/. Acesso em: 08 ago. 2019.

Disponibilidade de dados

A autora declara que os dados que suportam a pesquisa estão contidos no artigo e/ou material suplementar.

Referências

  • AUGÉ, M. In the metro Minnesota: University of Minnesota Press, 2002.
  • AUGÉ, M. Não lugares: introdução a uma antropologia da supermodernidade. Tradução: Maria Lúcia Pereira. 9. ed. Campinas: Papirus, 2012.
  • CERTEAU, M. A invenção do cotidiano 3. ed. Petrópolis: Editora Vozes, 1998.
  • CHARTIER, R. Do livro à leitura. In: CHARTIER, Roger. (Org.). Práticas da leitura 5. ed. São Paulo: Estação Liberdade, 1996, p. 77-105.
  • JACOB, E. L. Leituras ambientais na paisagem transformada. Comunicação & Educação, [S.l.], v. 11, n. 3, p. 379-391, 2006.
  • OLIVEIRA, J. V. O portal da Biblioteca Metrô Neli Siqueira como espaço de mediação e referência à história da Companhia do Metropolitano de São Paulo Dissertação (Mestrado em Ciência da Informação), Universidade de São Paulo, São Paulo, 2018.
  • PEIXOTO, T. 8ª saída dos Poetas Ambulantes. Poetas ambulantes, 2013. Disponível em: http://poetas-ambulantes.blogspot.com/2013/04/8-saida-dos-poetas-ambulantes.html Acesso em: 20 nov. 2022.
    » http://poetas-ambulantes.blogspot.com/2013/04/8-saida-dos-poetas-ambulantes.html
  • SÁ, T. Lugares e não lugares em Marc Augé. Tempo social - Revista de Antropologia da USP, v. 26, n. 2, p. 209-229, 2014. Disponível em: https://www.scielo.br/j/ts/a/sDhTTskCGVGDyqwRTyLnWPm/?lang=pt Acesso em: 10 mar. 2021.
    » https://www.scielo.br/j/ts/a/sDhTTskCGVGDyqwRTyLnWPm/?lang=pt

Editado por

Editora responsável: Maria Ataide Malcher
Assistente editorial: Aluzimara Nogueira Diniz, Julia Quemel Matta, Suelen Miyuki A. Guedes e Weverton Raiol

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    11 Dez 2023
  • Data do Fascículo
    2023

Histórico

  • Recebido
    20 Ago 2021
  • Aceito
    25 Out 2023
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