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PRÁTICAS CORPORAIS QUILOMBOLAS: UM ESTUDO DA PRODUÇÃO ACADÊMICA NA EDUCAÇÃO FÍSICA

PRÁCTICAS CORPORALES QUILOMBOLAS: UN ESTUDIO DE LA PRODUCCIÓN ACADÉMICA EN LA EDUCACIÓN FÍSICA

Resumo

O artigo analisa o sentido/significado das práticas corporais quilombolas na produção acadêmica, identificando sua distribuição por áreas de conhecimento e seu mapeamento geoespacial no Brasil. Uma pesquisa de natureza teórica e bibliográfica foi realizada em bases de dados, no período compreendido entre 1999 e 2019. Os resultados apontam que o sentido/significado das práticas corporais está associado às representações sociais sobre a cultura corporal de movimento, evidenciando que a Educação Física e a Educação se destacam entre as áreas de conhecimento e os estudos se distribuem geoespacialmente no Brasil. Os loci das pesquisas estão, predominantemente, na Região Nordeste; a Universidade de Brasília e a Universidade Federal do Ceará despontam em números de trabalhos. Conclui-se que, apesar de recente e pouco estudada, a relevância da temática estimula uma agenda de pesquisa.

Palavras-chave:
Exercício físico; Grupo com ancestrais do continente africano; Indicadores de produção científica; Educação Física

Resumen

El artículo analiza el sentido/significado de las prácticas corporales quilombolas en la producción académica, identificando su distribución por áreas de conocimiento y su mapeo geoespacial en Brasil. Se realizó una investigación de carácter teórico y bibliográfico en bases de datos, en el período comprendido entre 1999 y 2019. Los resultados muestran que el sentido/significado de las prácticas corporales está asociado con las representaciones sociales sobre la cultura corporal de movimiento, mostrando que la Educación Física y la Educación destacan entre las áreas de conocimiento y los estudios se distribuyen geoespacialmente en Brasil. Los loci de las investigaciones se encuentran, predominantemente, en la región Nordeste y la Universidad de Brasilia y la Universidad Federal de Ceará destacan en número de trabajos. Se concluye que, a pesar de reciente y poco estudiada, la relevancia del tema estimula una agenda de investigación.

Palabras clave:
Ejercicio físico; Grupo con ancestrales en el continente africano; Indicadores de producción científica; Educación Física

Abstract

The paper analyzes the sense/meaning of quilombola bodily practices in academic production, identifying their distribution by areas of knowledge and their geospatial mapping in Brazil. Theoretical and bibliographic research was carried out in databases from 1999 to 2019. The results point out that the sense/meaning of bodily practices is associated with social representations about the body culture of movement, showing that Physical Education and Education stand out among the areas of knowledge, and studies are geospatially distributed in Brazil. Research loci are predominantly in the Northeast region, whereas the University of Brasília and the Federal University of Ceará stand out in numbers of studies. The conclusion is that, while the topic is recent and studies are scarce, its relevance encourages a research agenda.

Keywords:
Exercise; African continental ancestry group; Scientific publication indicators; Physical Education

1 INTRODUÇÃO

O Relatório Nacional de Desenvolvimento Humano no Brasil, produzido pelo Programa das Nações Unidas (PNUD, 2017), apresenta um conjunto de temas que foram objeto de preocupação e de debates travados pela comunidade acadêmica da Educação Física, numa abordagem sociocultural. Um dos fios condutores do relatório era tratar das atividades físicas e esportivas, que, no escopo das relações mediadas por populações tradicionais, foram definidas como práticas corporais. As populações tradicionais foram tratadas sob três recortes: indígenas, ribeirinhas e quilombolas, sobre os quais nos deteremos aqui (ALMEIDA et al., 2017ALMEIDA, Dulce Maria Filgueira de et al. Atividades físicas e esportivas e populações tradicionais. In: Programa das Nações Unidas (PNUD). Relatório de Desenvolvimento Humano Nacional. Movimento é Vida: Atividades Físicas e Esportivas para Todas as Pessoas. Brasília, 2017. p.40-57.).

Os primeiros quilombos no Brasil surgiram como forma de resistência ao regime escravista, que se iniciou por volta de 1570 com a chegada dos primeiros africanos vindos de diversos países daquele continente (FAUSTO, 2006FAUSTO, Boris. História do Brasil. 12. ed. São Paulo: EDUSP, 2006.). Enquanto conceito, ao que parece, o termo quilombo foi utilizado pela primeira vez no Conselho Ultramarino em 1740 em resposta ao Rei de Portugal. A definição se prendia a aspectos que se reportavam à aglomeração ou localização geográfica. De acordo com Schmitt, Turatti e Carvalho (2002SCHMITT, Alessandra; TURATTI, Maria Cecília Manzoli; CARVALHO, Maria Celina Pereira de. A Atualização do conceito de quilombo: identidade e território nas definições teóricas. Ambiente & Sociedade, n. 10, p. 1-10, 2002., p. 2), trata-se de toda a sorte de “[…] habitação de negros fugidos que passem de cinco, em parte despovoada, ainda que não tenham ranchos levantados e nem se acham pilões neles”.

No que concerne às práticas corporais de povos remanescentes de quilombos, também chamados de populações quilombolas, a presença dos estudos decorre das duas últimas décadas. Isto porque, apesar do registro na Constituição Federal de 1988, em seu Art. 215, de uma agenda propositiva destinada aos povos remanescentes de quilombos, estes só vão existir, de fato, a partir de 2004, com o “Programa Brasil Quilombola” da Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (SEPPIR). A chamada “Agenda Social Quilombola” apresentava os seguintes eixos: acesso à terra; infraestrutura e qualidade de vida; inclusão produtiva e desenvolvimento local; e direitos e cidadania (ALMEIDA et al., 2017ALMEIDA, Dulce Maria Filgueira de et al. Atividades físicas e esportivas e populações tradicionais. In: Programa das Nações Unidas (PNUD). Relatório de Desenvolvimento Humano Nacional. Movimento é Vida: Atividades Físicas e Esportivas para Todas as Pessoas. Brasília, 2017. p.40-57.).

Igualmente, os estudos e pesquisas na área da Educação Física sobre populações quilombolas se localizam neste período (LIMA; BRASILEIRO, 2020LIMA, Isabela Talita Gonçalves; BRASILEIRO, Lívia Tenório. A cultura afro-brasileira e a educação física: um retrato da produção do conhecimento. Movimento (Porto Alegre), v. 26, e26022, 2020. DOI:https://doi.org/10.22456/1982-8918.93164
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). Acredita-se que o desenvolvimento dessas pesquisas desde então se deu em decorrência do aumento do número de programas de pós-graduação no Brasil, com um certo esforço de interiorização destes, visto que, em alguns estados, a exemplo de Goiás e do Paraná, entre outros, bem como no Distrito Federal, havia um número significativo de populações quilombolas localizadas em seus respectivos territórios.

Debater sobre as práticas corporais quilombolas é uma forma de chegar à dimensão social das expressões, manifestações e significados corporais, possibilitando a consolidação de um novo entendimento nessa conjuntura social. As práticas corporais quilombolas, dentro do campo de movimento e de produção cultural, são formas legítimas de manifestação da comunidade, de resistência, de valorização étnica, de luta política, e não podem ser camufladas ou sufocadas por outras políticas ou práticas hegemônicas (SOUZA; LARA, 2011SOUZA, Thaís Godoi de; LARA, Larissa Michelle. O estado da arte de comunidades quilombolas no Paraná: produção de conhecimento e práticas corporais recorrentes. Revista de Educação Física/UEM, v.22, n.4, p.555-568, dez. 2011.).

Considerando os aspectos acima destacados, o artigo tem como objetivo analisar o sentido/significado das práticas corporais quilombolas no âmbito da produção acadêmica, bem como identificar sua distribuição por áreas de conhecimento e seu mapeamento geoespacial. Esperamos contribuir para o delineamento de uma agenda de pesquisa, levando em conta as tendências dos primeiros anos da produção acadêmica em torno da temática no Brasil.

2 METODOLOGIA

A pesquisa, de natureza teórica, apresenta-se como bibliográfica, sendo realizada com base na produção acadêmica sobre práticas corporais quilombolas e seu impacto em termos de área de conhecimento, bem como de distribuição geoespacial. Consoante Flick (2009FLICK, Uwe. Introdução à pesquisa qualitativa. 3. ed. Porto Alegre: Artmed, 2009.), a pesquisa bibliográfica pode ser feita em diferentes materiais, desde a consulta a periódicos, teses, dissertações, livros e até anais de eventos científicos. Esse conjunto de trabalhos acadêmicos é considerado tradicionalmente como fontes primárias de pesquisas, apontando lacunas e tendências de um tema. Atualmente, observa-se em abordagens qualitativas a sistematização da análise de fontes bibliográficas, o que pode gerar sínteses interpretativas e criativas (RAPLEY; REES, 2018RAPLEY, Tim; REES, Gethin. Colecting documents as data. In: FLICK, Uwe. The sage handbook of qualitative data analysis. London: Sage, 2018. p. 378-391.). Desse modo, a revisão sistemática da literatura científica transpassa a simples organização e resumo dos achados de pesquisas, produzindo novas categorias e até mesmo modelos conceituais e teorias, que se tornam uma base sólida para realização de investigações futuras.

A abordagem desta pesquisa, tendo-se como recorte temporal o período compreendido entre 1999 e 2019, foi realizar consulta nas seguintes bases de dados: Web of Science1 1 É uma plataforma referencial de citações científicas projetada para apoiar pesquisas científicas e acadêmicas em todas as áreas. O Web of Science Core Collection é o principal recurso na plataforma e inclui mais de 20.000 revistas acadêmicas de alta qualidade, revisadas por pares e publicadas em todo o mundo (incluindo periódicos de Acesso Aberto), e mais de 190.000 processos de conferências. ; Scopus2 2 O maior banco de dados de resumos e citações da literatura com revisão por pares, ou seja, revistas científicas, livros, processos de congressos e publicações do setor. ; e Base de Dados de Teses e Dissertações (BDTD) do Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia (IBICT)3 3 O IBICT desenvolveu e coordena a Biblioteca Digital Brasileira de Teses e Dissertações (BDTD), que integra os sistemas de informação de teses e dissertações existentes nas instituições de ensino e pesquisa do Brasil, e estimula o registro e a publicação de teses e dissertações em meio eletrônico. A BDTD, em parceria com as instituições brasileiras de ensino e pesquisa, possibilita que a comunidade brasileira de C&T publique e difunda suas teses e dissertações produzidas no país e no exterior, dando maior visibilidade à produção científica nacional. . A busca concentrou-se em teses, dissertações e artigos científicos produzidos acerca das populações quilombolas, com vistas à análise de sentidos/significados das práticas corporais. A produção das informações foi organizada em três fases, conforme demonstrado na Figura 1.

Figura 1
Processo metodológico - produção das informações e análise dos trabalhos.

Para a consecução da primeira fase, o acesso deu-se por meio do portal de periódicos da Capes4 4 Disponível em: www.periodicos.capes.gov.br . No espaço de busca, clicou-se em “BASE” e depois digitou-se “Web of Science” ou “Scopus” para acessar as referidas bases. Já com a BDTD5 5 Disponível em: www.bdtd.ibict.br utilizaram-se diretamente os descritores no espaço de busca. Os descritores utilizados foram "pratica* corporal*" OR "corporal practice*" OR "body* practice*" OR dança* OR dance* OR esporte* OR sport* OR lazer* OR leisure* AND quilombola* OR quilombo* , empregando-se o operador booleano “AND” para restringir a pesquisa, fazendo a intersecção dos conjuntos de trabalhos que possuem os termos combinados, as “aspas” para definir a exatidão da palavra a ser pesquisada, além de inserir o asterisco (*) no final do radical para ampliar possibilidades de resultados.

A inclusão dos artigos, dissertações e teses deu-se, inicialmente, a partir da leitura dos títulos, resumos e palavras-chave, para definir quais realmente tratavam do tema de interesse da pesquisa. Como fator de exclusão, lidou-se com o fato de o trabalho não abordar a temática “práticas corporais quilombolas”. Os achados da pesquisa somam 91 produtos, dos quais apenas 33 enfocam especificamente o assunto, conforme a Tabela 1.

Tabela 1
Número de trabalhos relacionados à temática práticas corporais quilombolas, no período entre 1999-2019, conforme a base de dados.

Na base de dados Web of Science obtivemos quatro artigos, sendo somente um relacionado à temática práticas corporais quilombolas. Já na base da Scopus apareceram dezesseis artigos. Dentre estes, quatro apresentam aderência ao tema de interesse. Ressalvamos que o único exemplar localizado na base Web of Science também foi encontrado na base da Scopus. Por este motivo mesclamos o campo “número de trabalhos relacionados à temática” das bases Web of Science e Scopus, evitando duplicidade. Tratando-se da BTDT tivemos um resultado mais significativo, pois foram localizados 71 produtos no total. No entanto, apenas 29 deles, sendo oito teses e 21 dissertações, estão inseridos dentro do tema específico.

Diante da expectativa de selecionar um número maior de fontes, a produção das informações abrangeu outras fases, por meio da análise das referências bibliográficas dos artigos, bem como dos respectivos currículos Lattes dos autores das teses e dissertações. Conforme as orientações de Luna (1997LUNA, Sergio Vasconcelos de. Planejamento de pesquisa: uma introdução. São Paulo: Educ., 1997.), as referências citadas em trabalhos científicos podem servir como fonte de dados, pois auxiliam o pesquisador a encontrar mais fontes adequadas ao seu problema. Desse modo, identificamos um total de 35 produtos gerados a partir das teses e dissertações sobre a temática, conforme apresentado na Tabela 2.

Tabela 2
Número de produtos gerados a partir de teses e dissertações sobre a temática, de acordo com o tipo.

Observamos que as teses geraram 14 produtos, enquanto outros 21 se desdobraram das dissertações. Entre artigos, capítulos de livro e livros, proporcionalmente, obtivemos em média, aproximadamente, dois produtos por tese e um por dissertação. Esta produção localizada por fora das bases de dados indica a necessidade de se disponibilizá-la em vias que repercutem os seus resultados na comunidade científica, dando maior abrangência ao tema. Salientamos que a consolidação de um campo depende da produção de artigos científicos advindos das teses e dissertações defendidas, com vistas à socialização do conhecimento e consequente impacto na sociedade (RAMOS et al., 2009RAMOS, Plínio dos Santos et al. Dissertações e teses de pós-graduação geram publicação de artigos científicos? Análise baseada em 3 programas da área de educação física. Brazilian Journal of Biomotricity, v.3, n.4, p.315-324, 2009.).

Após a produção das informações, desenvolvemos a análise de resultados, visando a uma discussão qualitativa dos trabalhos, conforme representado na Figura 1. Priorizamos os trabalhos selecionados por meio das bases de dados, pois aqueles encontrados nas fases complementares do processo metodológico se referem a produtos gerados a partir dos trabalhos encontrados na primeira etapa. O conteúdo dos produtos gerados a partir das teses e dissertações, por conseguinte, se encontra nos trabalhos originais, o que dispensa a sua consideração no processo de análise de cunho qualitativo.

Diante do resultado obtido na consulta às bases, os 33 trabalhos foram inicialmente identificados conforme o título, o tipo e o ano de produção. Em seguida, a análise empreendida observou critérios de abordagem de documentos propostos por Coffey (2014COFFEY, Amanda. Analysing documents. In: FLICK, Uwe. The sage handbook of qualitative data analysis. London: Sage, 2014. p. 367-379.), como a orientação teórico-metodológica e os resultados evidenciados nos trabalhos. Na continuidade, nos valemos da categorização do Referenciais Curriculares do Estado do Rio Grande do Sul (RIO GRANDE DO SUL, 2009), visando a uma compreensão dos sentidos/significados das práticas corporais quilombolas do âmbito da produção acadêmica.

3 A PRODUÇÃO SOBRE PRÁTICAS CORPORAIS QUILOMBOLAS

As práticas corporais podem ser entendidas como construções socioculturais de cada grupo social, ao tempo em que expressam sentidos e significados próprios e materializam a memória e a consciência coletivas do grupo, nomeadamente de populações tradicionais, como comunidades indígenas, ribeirinhas e quilombolas (ALMEIDA et al., 2017ALMEIDA, Dulce Maria Filgueira de et al. Atividades físicas e esportivas e populações tradicionais. In: Programa das Nações Unidas (PNUD). Relatório de Desenvolvimento Humano Nacional. Movimento é Vida: Atividades Físicas e Esportivas para Todas as Pessoas. Brasília, 2017. p.40-57.). São práticas que têm como referência e são transmitidas por meio de um conjunto de técnicas corporais, empregando-se a tradição oral e a eficácia simbólica, igualmente definida como imitação prestigiosa no âmbito da disciplina antropológica (MAUSS, 2017MAUSS, Marcel. Sociologia e Antropologia. São Paulo: Ubu Editora, 2017.).

Para a análise da produção selecionada, notadamente, considerando o sentido/significado das práticas corporais quilombolas, operamos com a categorização dos Referenciais Curriculares do Estado (RIO GRANDE DO SUL, 2009). Esta, por sua vez, foi adaptada de acordo com a aderência das produções selecionadas às categorias, consoante a Figura 2. Desse modo, evidenciou-se que a produção sobre práticas corporais quilombolas, no período compreendido entre 1999 e 2019, se concentra no conjunto "Representações sociais sobre a cultura corporal de movimento". No âmbito deste conjunto, por sua vez, foi privilegiada a categoria “Práticas corporais e sociedade” e especificamente a subcategoria “Práticas corporais como manifestações culturais”.

Figura 2
Categorização das práticas corporais quilombolas

Em consonância às categorias dos Referenciais Curriculares (RIO GRANDE DO SUL, 2009), do total de 33 produções analisadas, verifica-se que 27 trabalhos, o que representa 82%, estão localizados na categoria “Práticas corporais e sociedade”. Apesar desta clara concentração, não se poderia deixar de observar que outras categorias também foram abordadas, embora em número reduzido de pesquisas (Gráfico 1).

Gráfico 1
Produções das práticas corporais quilombolas (1999-2019) conforme Referenciais Curriculares do Rio Grande do Sul (2009).

A categoria “Práticas corporais e sociedade” reúne trabalhos que abordam objetos de estudo que se referem às subcategorias “Práticas corporais como manifestações culturais” e “Corpo e sociedade”. Ressalvamos que, de acordo com os Referencias Curriculares do Rio Grande do Sul (RIO GRANDE DO SUL, 2009), o trato das representações sociais da cultura corporal de movimento diz respeito às manifestações corporais mais amplas e não estão relacionadas, de modo direto, ao campo da Educação Física. No tocante à maior parte dos achados da pesquisa, ou seja, 27 trabalhos, foram identificadas 19 dissertações, sete teses e um artigo, conforme o Quadro 1.

Quadro 1
Produções na categoria práticas corporais e sociedade, em ordem cronológica crescente e de acordo com o tipo.

Ante ao que se observa, com base na descrição dos estudos acima, 25 trabalhos estão relacionados à subcategoria “Práticas corporais como manifestações culturais”. A dança, por sua vez, se apresenta como temática central desta categoria de pesquisas. Grosso modo, os referidos estudos descrevem que as comunidades quilombolas, por meio da dança, reivindicam melhorias para sua comunidade. Os vieses analíticos, portanto, remetem aos processos identitários dos grupos sociais por meio e com a dança. Santos (2011SANTOS, Marcos Paulo de Oliveira. As Representações Sociais das Práticas Corporais na Comunidade Kalunga-Go. 2011. 111 f. Dissertação (Mestrado em Educação Física) - Faculdade de Educação Física, Universidade de Brasília, Brasília, DF, 2011.), por exemplo, enfoca a perspectiva das representações sociais, por meio de práticas corporais com dança em comunidades quilombolas no estado do Goiás. Em concordância, pesquisas realizadas por Oliveira (2018OLIVEIRA, Ana Amélia Neri. Entre o Rio e o Mar: práticas corporais e cotidiano na comunidade quilombola do Cumbe. 2018. 181 f. Tese (Doutorado em Educação Física) - Faculdade de Educação Física, Universidade de Brasília-UnB, Brasília, 2018.) visam compreender os sentidos e significados das práticas corporais expressas no cotidiano de um grupo social quilombola, tendo as práticas corporais como mecanismos de resistência cultural do corpo pesqueiro-quilombola no âmbito do ritual “Cumê no Mato” e do teatro dos Calungas do Cumbe. Ainda de acordo com os achados da pesquisa, o espetáculo artístico e a riqueza das técnicas dos movimentos gestuais apresentam o êxtase da dança como comunicação do corpo expressivo. Aqui se encontram trabalhos que versam sobre a Dança de São Gonçalo (MORENO, 2014MORENO, Daniele Cristiane Gadelha. Os quilombolas do Veiga e o São Gonçalo: memória e identidade na festa e devoção a São Gonçalo no sítio Veiga. 2014. 199f. Dissertação (Mestrado em Sociologia) - Centro de Humanidades, Universidade Federal do Ceará, Fortaleza, 2014.); Zumba de Coco (LINS, 2009LINS, Cyro Holando de Almeida. O Zambê é nossa cultura: o coco de zambê e a emergência ética em Sibaúma, Tibau do Sul-RN. 2009. 108 f. Dissertação (Mestrado Antropologia Social) - Universidade Federal do Rio Grande do Norte, Natal, 2009.); Samba de Cacete (CALÚ, 2015CALÚ, Carmen Lúcia Barbosa. Corpos no samba de cacete: dança ancestral, tamboros giras e gingas na educação afrocametaense. 2015. 69 f. Dissertação (Mestrado em Educação) - Programa de Pós-Graduação em Educação, Universidade Federal do Ceará, Fortaleza, 2015.); Coco de Roda (BARRETO, 2017BARRETO, Janaina Lucene Mendonza. Coco de roda novo quilombo: da roda ao centro, imagens e símbolos de uma tradição. 2017. 103 f. Tese (Doutorado em Artes Visuais) - Programa de Pós-graduação em Artes Visuais, Universidade Federal da Bahia, Universidade Federal de Pernambuco, João Pessoa, 2017.); Jongo (MAROUN, 2013MAROUN, Kalyla. Jongo e educação: a construção de uma identidade quilombola a partir de saberes étnico-culturais do corpo. 2013. 210 f. Tese (Doutorado em Educação) - Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2013.), entre outras.

Na outra subcategoria “Corpo e sociedade”, que integra a categoria “Práticas corporais e sociedade”, foram identificados apenas um artigo e uma dissertação. Ambos procuram entender os significados sociais atribuídos ao corpo durante as distintas fases da vida, conhecendo os padrões de beleza que marcaram época, bem como as produções de aceitação dos grupos sociais próximos e distantes de onde se vive, além de identificar e analisar o corpo no trabalho. Aqui buscamos aproximação ao corpo, nos apoiando na compreensão de Mauss (2017MAUSS, Marcel. Sociologia e Antropologia. São Paulo: Ubu Editora, 2017., p. 425), quando nos alerta que “[…] não se podia ter uma noção clara de todos esses fatos, senão fazendo intervir uma tríplice consideração, com a qual a concepção de fato social total se faz indispensável”.

Nesse desígnio, o estudo de Bezerra et al. (2015BEZERRA, Vanessa Moraes et al. Domínios de atividade física em comunidades quilombolas do sudoeste da Bahia, Brasil: estudo de base populacional. Cadernos de Saúde Pública, v.31, n.6, p.1213-1224, jun.2015.) descreve as prevalências e os fatores associados à atividade física nos domínios do lazer, trabalho e deslocamento entre quilombolas. Enquanto Pereira (2014PEREIRA, Milena Cassal. Brincando de sair pra rua! Entre arreganhos, implicâncias e cuidados no “pátio” do quilombo, na “piscina” do laguinho. 2014. 140 f. Dissertação (Mestrado em Ciências Sociais) - Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 2014.) nos apresenta as relações de dois grupos de crianças e adolescentes que estão utilizando a rua como um espaço de lazer e sociabilidade em dois locais diferentes da cidade de Porto Alegre/RS. Um grupo está longe de casa e diverte-se em um lago artificial próximo ao centro da cidade. O outro reside em um quilombo urbano e tem a rua como extensão de sua casa, um pátio. Podemos interpretar que, em ambos os trabalhos, a saber, Bezerra et al. (2015) e Pereira (2014), as experiências dos distintos grupos no mundo da rua e/ou no mundo do trabalho e suas compreensões sobre as sociabilidades se configuram como o fio condutor das análises empreendidas pelos autores acerca do significado das práticas corporais. Tais compreensões aliam-se, portanto, ao que já afirmavam Le Breton (2006) e Mauss (2017MAUSS, Marcel. Sociologia e Antropologia. São Paulo: Ubu Editora, 2017.) acerca do corpo e de suas possíveis mediações. Para ambos, o corpo e o conjunto de suas técnicas expressam significações socioculturais.

A categoria “Práticas corporais expressivas” se caracteriza pela abordagem de temáticas que se referem às subcategorias “Dança” e “Expressão corporal”. Foram identificadas quatro produções que se situam nesta categoria, sendo duas dissertações e um artigo, conforme o Quadro 2.

Quadro 2
Produções na categoria práticas corporais expressivas, em ordem cronológica crescente e de acordo com o tipo.

Segundo os dados, verifica-se pelo título dos trabalhos que, assim como nos trabalhos pertencentes à primeira categoria analisada, há um predomínio da temática dança. Os achados que contemplam as subcategorias “Dança e expressão corporal” relatam, de acordo com Maroun (2014MAROUN, Kalyla. A construção de uma identidade quilombola a partir da prática corporal/cultural do jongo. Movimento, v. 20, n.01, p.13-31, jan/mar. 2014. DOI:https://doi.org/10.22456/1982-8918.39882
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), que as vivências de práticas realizadas por meio de danças populares são, em sua maioria, ligadas a festividades religiosas, como o Jongo. Já Costa (2015COSTA, Edymara Diniz. O ensino do teatro em comunidades negras rurais: Memórias e identidades Kalunga em cena. 2015. 151 f. Dissertação (Mestrado em Artes) - Universidade de Brasília, Brasília, DF. 2015.) apresenta experiências teatrais, por meio das possibilidades expressivas do corpo ligadas intrinsecamente às memórias e às identidades do grupo social.

Com base na análise de outros elementos das pesquisas, como a leitura de resumos e dos textos propriamente ditos, pode-se afirmar que estas investigações atendem a um viés de intervenção. Isto é, elas se propõem a realizar vivências de práticas corporais específicas. A dissertação pertencente a esta subcategoria, por exemplo, exibiu em seus objetivos descrever o processo de criação de uma dança, que entrelaça o intento de falar de gente, dor, revolta e alegria guerreira em reverência à ancestralidade africano-brasileira, no qual se descreve o corpo a ritualizar gestos cotidianos de escavar, tecer, tramar, recriar memórias, histórias, conflitos e sensações (SILVA, 2018SILVA, Andréa Oliveira Araújo da. A gira de saberes no processo de criação de ESTELLA: Manifesto por uma Dança Afropoética. 2018. 141 f. Dissertação (Mestrado em Dança) - Universidade Federal da Bahia, Salvador, 2018.). Assim, a concepção de corpo se relaciona diretamente àquela sugerida por Mauss (2017MAUSS, Marcel. Sociologia e Antropologia. São Paulo: Ubu Editora, 2017., p. 432), que dispõe de “[…] técnicas que lhe dizem respeito ou que lhe ensinam”. Os artigos convergem quanto aos objetivos, apresentando em estudos realizados por Costa e Fonseca (2019COSTA, Rute Ramos da Silva; FONSECA, Alexandre Brasil. Análise das práticas pedagógicas o processo educativo do jongo no quilombo machadinha: oralidade, saber da experiência e identidade. Revista Educação e Sociedade, v. 40, e0182040, 2019. DOI: 10.1590/ES0101-73302019182040
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) vivências no processo de construção de uma identidade quilombola a partir da prática corporal/cultural do Jongo. O processo educativo da dança é abordado, tendo essa manifestação como uma prática afroancestral, característica dos quilombos pesquisados.

No tocante à categoria “Práticas corporais e saúde”, identificou-se apenas um trabalho, que se refere, por sua vez, à subcategoria “Implicações orgânicas”. De acordo com os Referenciais Curriculares do Estado (RIO GRANDE DO SUL, 2009), esta subcategoria busca diferenciar conceitos de atividades físicas e exercício físico, bem como entender e observar os cuidados relacionados à alimentação e hidratação, compreendendo a saúde e a doença como processos indissociáveis de fatores sociais, orgânicos, culturais e econômicos. De acordo com o Quadro 3, foi encontrada uma tese com este perfil.

Quadro 3
Produção na categoria práticas corporais e saúde, de acordo com o tipo.

Sob o título “Territorialidade, saúde e meio ambiente: conexões, saberes e práticas em comunidades quilombolas de Sergipe”, a tese objetiva “analisar como os saberes e práticas tradicionais de cuidado em saúde constroem territorialidades que contribuem para conservação ambiental em comunidades quilombolas” (LACERDA, 2017LACERDA, Roberto dos Santos. Territorialidade, Saúde e Meio Ambiente: Conexões, Saberes e Práticas em Comunidades Quilombolas de Sergipe. 2017. 248 f. Tese (Doutorado em Desenvolvimento e Meio Ambiente) - Universidade Federal de Sergipe, São Cristóvão, 2017., p. 9). Apresenta os saberes e práticas que articulam saúde e meio ambiente, destacando a utilização de plantas medicinais, as práticas de reza e benzedura, a conservação de sementes crioulas e as danças circulares samba de coco e dança de roda.

Quanto à categoria “Estudos teóricos”, foi encontrado no conjunto da produção analisada apenas um artigo, apresentado no Quadro 4:

Quadro 4
Produções na categoria estudos teóricos, de acordo com o tipo.

Com efeito, o trabalho acima identificado trata de apresentar “O estado da arte de comunidades quilombolas no Paraná: produção de conhecimento e práticas corporais recorrentes”. De autoria coletiva, realiza uma análise da produção do conhecimento sobre comunidades quilombolas no Paraná, especialmente para saber se as práticas corporais são recorrentes nas investigações (SOUZA; LARA, 2011SOUZA, Thaís Godoi de; LARA, Larissa Michelle. O estado da arte de comunidades quilombolas no Paraná: produção de conhecimento e práticas corporais recorrentes. Revista de Educação Física/UEM, v.22, n.4, p.555-568, dez. 2011.), conquanto o artigo não aprofunde o sentido/significado de práticas corporais quilombolas.

Interessante realçar ainda que, em seu conjunto, observa-se que os 33 trabalhos analisados contam com uma atualização temática no que concerne à maneira de abordar e compreender as populações quilombolas. Até a promulgação da Constituição Federal de 1988, as pesquisas versavam sobre direitos territoriais, jurídicos e políticos dos quilombos e quilombolas. Por outro lado, com o Artigo 68 do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias (ADCT) na Constituição Federal de 1988, o conceito de quilombo sofre ressemantizações e ganha novos contornos a fim de contemplar práticas sociais e formações coletivas existentes, que emergem após a valorização e o reposicionamento de uma matriz cultural negra. A autodeclaração quilombola se coloca como um marcador discursivo, mecanismo acionado na memória que reaviva as historicidades e territorialidades construídas por seus ancestrais. Adicionalmente, é preciso salientar que as práticas corporais quilombolas são identificadas em suas potencialidades no tocante à cultura corporal do movimento, em que os corpos quilombolas se autoidentificam e se socializam no/pelo corpo, conforme suas práticas corporais, como, por exemplo, ocorre com o jongo, coco de roda, samba de cacete e com o “Cumê no Mato” (LINS, 2009LINS, Cyro Holando de Almeida. O Zambê é nossa cultura: o coco de zambê e a emergência ética em Sibaúma, Tibau do Sul-RN. 2009. 108 f. Dissertação (Mestrado Antropologia Social) - Universidade Federal do Rio Grande do Norte, Natal, 2009.; MORENO, 2014MORENO, Daniele Cristiane Gadelha. Os quilombolas do Veiga e o São Gonçalo: memória e identidade na festa e devoção a São Gonçalo no sítio Veiga. 2014. 199f. Dissertação (Mestrado em Sociologia) - Centro de Humanidades, Universidade Federal do Ceará, Fortaleza, 2014.; CALÚ, 2015CALÚ, Carmen Lúcia Barbosa. Corpos no samba de cacete: dança ancestral, tamboros giras e gingas na educação afrocametaense. 2015. 69 f. Dissertação (Mestrado em Educação) - Programa de Pós-Graduação em Educação, Universidade Federal do Ceará, Fortaleza, 2015.; BARRETO, 2017BARRETO, Janaina Lucene Mendonza. Coco de roda novo quilombo: da roda ao centro, imagens e símbolos de uma tradição. 2017. 103 f. Tese (Doutorado em Artes Visuais) - Programa de Pós-graduação em Artes Visuais, Universidade Federal da Bahia, Universidade Federal de Pernambuco, João Pessoa, 2017.; OLIVEIRA, 2018OLIVEIRA, Ana Amélia Neri. Entre o Rio e o Mar: práticas corporais e cotidiano na comunidade quilombola do Cumbe. 2018. 181 f. Tese (Doutorado em Educação Física) - Faculdade de Educação Física, Universidade de Brasília-UnB, Brasília, 2018.).

Sobretudo, conforme mencionado anteriormente, o desenvolvimento das pesquisas à luz dessa nova concepção sofreu um impulso nos últimos anos devido ao crescimento do número de programas de pós-graduação no Brasil. Por esta razão, além de analisar o sentido/significado das práticas corporais quilombolas no âmbito da produção acadêmica, buscou-se identificar sua distribuição por área de conhecimento, a partir dos programas de pós-graduação e instituições vinculadas.

Quanto à identificação das áreas de conhecimento que abarcam os trabalhos selecionados, optamos por analisar o conjunto de teses e dissertações formado por 29 itens, ou seja, a maior parte do corpo bibliográfico produzido por meio da busca nas bases de dados. Isso possibilitou o mapeamento das áreas, considerando suas conexões aos programas de pós-graduação. A Tabela 3 nos apresenta um panorama de 16 programas de pós-graduação por onde se distribui o conjunto de teses e dissertações selecionadas.

Tabela 3
Quantidade de dissertações e teses por programas de pós-graduação e suas respectivas áreas, no período de 1999 a 2019.

Os resultados evidenciam que há uma distribuição do tema por diversas áreas, dada a multiplicidade de possibilidades e a necessidade de aprofundamento de estudos relacionados ao grupo social quilombolas. Os programas de pós-graduação das áreas de Educação Física e Educação se destacam como aqueles que mais desenvolveram pesquisas relacionadas às práticas corporais quilombolas. A Educação Física totaliza seis produções, sendo quatro dissertações e duas teses. Os programas de Educação, por sua vez, totalizam cinco produções, divididas em duas dissertações e três teses. Esse dado é relevante por possibilitar a comprovação de que estudos sobre corpo no Brasil são predominantemente produzidos pela área de Educação Física, como já anteriormente enunciado por Silva et al. (2016SILVA, Thais Queiroz; ALMEIDA, Dulce; WIGGERS, Ingrid; ANDREWS, David; SILVA, Letícia Rodrigues T. Is there a sociology of the body in Brazil? Movimento, v.22, n.4, p.1249-1264, out./dez. 2016. DOI:https://doi.org/10.22456/1982-8918.61981
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) e, nesse sentido, os estudos também apontam que as Ciências Sociais e a Educação Física se enovelam na produção do conhecimento a respeito do corpo, produzindo sentidos e significados localizados socialmente e manifestados na e pela corporeidade.

Procurando avançar no mapeamento, identificaram-se as instituições vinculadas. Conforme discriminado na Tabela 4, 20 instituições apoiaram a realização de pesquisas sobre práticas corporais quilombolas.

Tabela 4
Quantidade de dissertações e teses por instituição, no período de 1999-2019.

Os dados da Tabela 4 revelam que a Universidade de Brasília (UnB) lidera, em termos de produção sobre práticas corporais quilombolas, com cinco estudos, sendo quatro dissertações de mestrado e uma tese de doutorado, ao longo dos 20 anos considerados. Em seguida se evidencia a Universidade Federal do Ceará (UFC), com três pesquisas, sendo duas dissertações de mestrado e uma tese de doutorado. Também devemos fazer o registro que foi identificado um número maior de dissertações do que teses, posto que temos 21 dissertações e oito teses. O mapeamento geoespacial destas instituições no território brasileiro foi representado na Figura 3, onde se pode constatar a ausência de instituições situadas na Região Norte.

Figura 3
Mapa das instituições vinculadas à produção sobre a temática, no período de 1999 a 2019.

A fim de completar o mapeamento geoespacial dos trabalhos selecionados, buscamos identificar o lócus das pesquisas de campo. Para isso, voltamos a considerar os 33 produtos selecionados por meio das bases de dados, pois tanto teses e dissertações como artigos nos oferecem essa informação. Observamos que os estudos contemplam comunidades quilombolas de todas as regiões brasileiras, com maior incidência no Nordeste (Figura 4)

Figura 4
Localidades onde foram desenvolvidas pesquisas na temática práticas corporais quilombolas, no período de 1999 a 2019.

A maioria dos estudos sobre práticas corporais quilombolas, portanto, foi realizada acerca de comunidades localizadas na Região Nordeste do Brasil, sendo três em Pernambuco, duas no Ceará, duas no Rio Grande do Norte, duas em Sergipe e apenas uma no estado da Paraíba, totalizando doze trabalhos.

De acordo com antecipação do Censo de 2021 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), há 3.171 comunidades quilombolas na Região Nordeste do país, que representa pouco mais da metade do total do território brasileiro, que é de 5.972. Na Região Sudeste, encontram-se 1.359 comunidades. As demais, por sua vez, estão distribuídas entre as regiões Norte (873), Sul (319) e Centro-Oeste (250) (IBGE, 2020). Portanto, o fato de se identificar nos estudos desenvolvidos acerca das práticas corporais quilombolas um maior número de trabalhos que tomam como lócus da investigação comunidades do Nordeste faz sentido, quando cotejamos com dados do IBGE (2020). Não obstante, do ponto de vista proporcional, não é possível inferir qualquer proporcionalidade entre o número de estudos desenvolvidos e o total de comunidades quilombolas presentes no Nordeste brasileiro.

Em adição, quando comparamos o mapa da Figura 3 com o da Figura 4, verificamos que a produção científica sobre práticas corporais quilombolas está distribuída territorialmente, quando se considera numericamente as populações quilombolas, cuja localização preponderante é na Região Nordeste, bem como o lócus das pesquisas de campo, que é igualmente a Região Nordeste. Podemos registrar, por fim, que os estudos realizados acerca das comunidades quilombolas atendem a um critério de distribuição geoespacial, pois identificamos, em toda as regiões, investigações sobre essas comunidades e suas práticas corporais. Todavia, o fato de a maioria da produção em formato de teses e dissertações estar concentrada em instituições localizadas no eixo Centro-Oeste, Sul e Sudeste indica a necessidade de deslocamento dos(as) pesquisadores(as) para desenvolver estudos fora de seu estado e/ou região, como é o caso da Região Norte. Isso denota a necessidade da continuação do processo de interiorização dos programas de pós-graduação, já iniciado nos últimos anos.

4 CONSIDERAÇÕES FINAIS

Diante dos objetivos, evidenciou-se que a produção sobre práticas corporais quilombolas, no período compreendido entre 1999 e 2019, concentra-se no conjunto “Representações sociais sobre a cultura corporal de movimento”. No âmbito deste conjunto, por sua vez, foi privilegiada a categoria “Práticas corporais e sociedade” e especificamente a subcategoria “Práticas corporais como manifestações culturais”. Os estudos dedicados a dança e festividades tradicionais, enfocando processos identitários das comunidades, são predominantes.

Verificou-se que a maior parte da produção está circunscrita ao campo da Educação Física, seguida pela Educação. Existe uma produção concentrada em algumas universidades brasileiras, como a Universidade de Brasília (UnB) e a Universidade Federal do Ceará (UFC). Depreende-se que tal assertiva encontra sentido quando se percebe a localização destas instituições no território brasileiro, pois próximo a estas instituições predominam comunidades quilombolas.

A maior parte da produção encontrada está no formato de dissertação. Sobre este aspecto, realça-se que a quantidade de programas de pós-graduação em Educação Física em nível de doutorado é relativamente recente no país. Por outro lado, a maior quantidade de artigos científicos gerados está relacionada a teses, o que nos leva a inferir que talvez a possibilidade de publicação de artigo científico resultante de tese seja concreta. Face aos resultados apresentados, inferimos que há escassez de produções voltadas à temática das práticas corporais quilombolas, dado que reforça pesquisas anteriores realizadas por Almeida et al. (2017ALMEIDA, Dulce Maria Filgueira de et al. Atividades físicas e esportivas e populações tradicionais. In: Programa das Nações Unidas (PNUD). Relatório de Desenvolvimento Humano Nacional. Movimento é Vida: Atividades Físicas e Esportivas para Todas as Pessoas. Brasília, 2017. p.40-57.). Mas trata-se de um tema emergente, cujo crescimento gradativo, principalmente ao longo dos últimos dez anos, foi evidenciado.

Estudos sobre as práticas corporais em comunidades quilombolas configuram-se como um campo inesgotável de pesquisa. Investigações realizadas sobre essa temática podem contribuir para o acervo de práticas corporais dessas populações, considerando a tradição e a construção da identidade nacional. Portanto, estudá-las seria uma forma de chegar à dimensão social das expressões, das manifestações e dos significados corporais, possibilitando a consolidação de um novo entendimento das dinâmicas e relações sociais no cenário das comunidades quilombolas. Notadamente, vale o registro de que não há história e memória construída se não houver estudos e pesquisas sobre ela realizados. A construção da identidade nacional, tanto de brancos, de indígenas, quanto de pardos, pretos ou negros se dá por meio do reconhecimento de nossas raízes. Somente por este âmbito que o sentido/significado de nacionalidade se constituirá.

REFERÊNCIAS

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RESPONSABILIDADE EDITORIAL

Alex Branco Fraga *, Elisandro Schultz Wittizorecki *, Ivone Job *, Mauro Myskiw *, Raquel da Silveira *
* Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Escola de Educação Física, Fisioterapia e Dança, Porto Alegre, RS, Brasil.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    26 Nov 2021
  • Data do Fascículo
    2021

Histórico

  • Recebido
    19 Fev 2021
  • Aceito
    13 Ago 2021
  • Publicado
    20 Set 2021
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