Pensando Famílias na Formação em Psicologia: Experiência Grupo-Operativa com Calouros

Considerations on Families in Psychology Training: Group-Operative Experience with Beginning Students

Pensando Familias en la Formación en Psicología: Experiencia Grupo-Operativa con Novatos

Lucas Rossato Tales Vilela Santeiro Valeria Barbieri Sobre os autores

Resumo

A instituição familiar tem sido caracterizada por pluralidade de configurações e constantes transformações nos modos de reflexão a seu respeito. Na formação em Psicologia, dialogar sobre diferentes possibilidades de ser família é necessário, pois essa instituição é tida como um dos pilares da vida psicológica das pessoas e das sociedades. Este estudo tem como objetivo geral relatar uma experiência de criação coletiva de espaço e tempo para dialogar com estudantes calouros de Psicologia sobre famílias após a exibição de filmes comerciais retratando-as. Dezesseis estudantes de universidade pública do interior de Minas Gerais participaram da pesquisa. A equipe executora foi composta por três psicólogos. Nove encontros semanais foram desenvolvidos, tendo como estratégia de coleta de dados grupos operativos de ensino-aprendizagem e filmes comerciais como recursos disparadores de diálogos. Os encontros foram audiogravados e transcritos na íntegra. Os resultados foram analisados por meio de emergentes grupais e interpretados à luz do referencial teórico da psicanálise, em especial de autores latino-americanos estudiosos de famílias. Cinco eixos de diálogos foram observados: famílias formadas por casais do mesmo sexo; famílias unipessoais; famílias com filhos adotivos; famílias extensas/ampliadas; e famílias recompostas/recasadas. Os resultados evidenciaram a importância do grupo operativo de ensino-aprendizagem como recurso a ser utilizado em ambiente de formação de psicólogos, para construção dialogada e vivenciada de saberes sobre a instituição familiar, suas potencialidades e seus limites.

Palavras-Chave:
Família; Vida Familiar; Ensino Superior; Grupo Operativo

Abstract

The family institution has been characterized by a plurality of configurations and constant transformations in the ways of reflection about it. In Psychology training, a dialogue about different family possibilities becomes necessary, because this institution constitutes one of the pillars of the psychological life of people and societies. This study reports an experience of collective creation of space and time to dialogue with beginning Psychology students about families, after commercial films portraying them have been exhibited. Sixteen students enrolled in a public university in the countryside of Minas Gerais participated in the study. The research team was composed of three psychologists. Nine weekly meetings were held, with a duration of approximately 3 hours each, using as a data collection strategy teaching-learning operative groups and commercial films as triggering resources for dialogues. The meetings were audiographed and transcribed in full. The results were analyzed through group emergents and interpreted in the light of the theoretical framework of psychoanalysis, especially papers from Latin American authors who study families. Five dialogue axes were observed: families formed by same-sex couples; single-parent households; families with adopted children; extended/enlarged families; and recaptured/reassessed families. The results evidenced the importance of the teaching-learning operative group as a resource to be used in the training environment of psychologists, for a dialogical and experienced construction of knowledge about the family institution, its potential and limits.

Keywords:
Family; Familiar Life; Higher Education; Operative Group

Resumen

La institución familiar ha sido caracterizada por la pluralidad de configuraciones y por constantes transformaciones en los modos de reflexión relacionados a ella. En la formación en Psicología, dialogar sobre diferentes posibilidades de ser familia se hace necesario, pues esa institución se caracteriza como uno de los pilares de la vida psicológica de las personas y de las sociedades. Este estudio tiene como objetivo general relatar la experiencia de creación colectiva de espacio y tiempo para dialogar con estudiantes novatos de Psicología sobre familias, después de la exhibición de películas comerciales que las retrataban. Dieciséis estudiantes de una universidad pública del interior de Minas Gerais participaron en la investigación. El equipo ejecutante fue compuesto por tres psicólogos. Se llevaron a cabo nueve encuentros semanales, teniendo como estrategia de recopilación de datos grupos operativos de enseñanza-aprendizaje y películas comerciales como recursos disparadores de diálogos. Los encuentros fueron grabados en audio y después transcritos en su totalidad. Los resultados fueron analizados por medio de emergentes grupales e interpretados a la luz del referencial teórico del psicoanálisis, en especial de autores latinoamericanos que estudian las familias. Se observaron cinco ejes de diálogos: familias formadas por parejas del mismo sexo; familias unipersonales; familias con hijos adoptivos; familias amplias/ampliadas; y familias recompuestas/recasadas. Los resultados evidenciaron la importancia del grupo operativo de enseñanza-aprendizaje como el recurso a ser utilizado en la formación de psicólogos, para construcción dialogada y vivenciada del saber sobre la institución familiar, sus potencialidades y límites.

Palabras clave:
Familia; Vida Familiar; Enseñanza Superior; Grupo Operativo

Introdução

A família é um sistema complexo, diretamente ligado aos processos de transformação histórica, social e cultural (Cúnico & Arpini, 2014Cúnico, S. D., & Arpini, D. M. (2014). Família e monoparentalidade feminina sob a ótica de mulheres chefes de família. Aletheia, (43-44), 37-49.), constituído por relações interdependentes, em que uns sujeitos demandam sempre a presença de outros, desde o início de suas vidas (Lisboa & Féres-Carneiro, 2015Lisboa, A. V., & Féres-Carneiro, T. (2015). Acontecimentos significativos na história geracional e sua relação com somatizações na família. Psicologia: Teoria e Pesquisa, 31(1), 65-72. https://doi.org/10.1590/0102-37722015011182065072
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). Essa instituição assume papel central no desenvolvimento das pessoas, como uma instância mediadora entre o indivíduo e a sociedade e a referência inicial para a criança, a partir da qual regras, valores e crenças são formados (Capitão & Romaro, 2012Capitão, C. G., & Romaro, R. A. (2012). Concepção psicanalítica da família. In M. N. Baptista & M. L. M. Teodoro (Orgs.), Psicologia de família: Teoria, avaliação e intervenção (pp. 27-37). Porto Alegre, RS: Artmed .).

Além disso, famílias são a primeira influência na personalidade da criança, o pilar elementar da constituição do self. Outrossim, elas podem perpetrar e estarem permeadas por violências de diferentes naturezas, como física, psicológica, econômica, sexual, moral, social, que, no conjunto, afetam principalmente mulheres, crianças e adolescentes, impactando suas condições de saúde mental (Barros & Freitas, 2015Barros, A. S., & Freitas, M. F. Q. (2015). Violência doméstica contra crianças e adolescentes: Consequências e estratégias de prevenção com pais agressores. Pensando Famílias, 19(2), 102-114. http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1679-494X2015000200009&lng=pt&tlng=pt
http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?scr...
; Souza & Silva, 2019Souza, M. B., & Silva, M. F. S. (2019). Estratégias de enfrentamento de mulheres vítimas de violência doméstica: Uma revisão da literatura brasileira. Pensando Famílias , 23(1), 153-166. http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1679-494X2019000100012&lng=pt&tlng=pt
http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?scr...
; Vieira, Garcia, & Maciel, 2020Vieira, P. R., Garcia, L. P., & Maciel, E. L. N. (2020). Isolamento social e o aumento da violência doméstica: O que isso nos revela? Revista Brasileira de Epidemiologia, 23, e200033. https://doi.org/10.1590/1980-549720200033
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).

No estudo contemporâneo da instituição familiar, alterações ocorridas na dinâmica e no desempenho de suas funções têm sido acentuadas. Desse modo, temos assistido à emergência de “novas configurações familiares”, as quais são referentes a formas de relacionamento e de convívio que demandam ampliação de concepções sobre família.

Essas novas formas de concebermos famílias têm sido impulsionadas por mudanças ocorridas na sociedade ocidental, principalmente a partir do movimento feminista, da inserção das mulheres no mercado de trabalho, da liberdade sexual, das mudanças nos papéis de gênero e parentais, do número de divórcios e separações, entre outras (Costa & Dias, 2012Costa, J. M., & Dias, C. M. S. B. (2012). Famílias recasadas: Mudanças, desafios e potencialidades. Psicologia: Teoria e Prática, 14(3), 72-87. http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1516-36872012000300006
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). Dessa maneira, a família nuclear tem coexistido com ampla e complexa gama de possibilidades (Cúnico & Arpini, 2014Cúnico, S. D., & Arpini, D. M. (2014). Família e monoparentalidade feminina sob a ótica de mulheres chefes de família. Aletheia, (43-44), 37-49.; Féres-Carneiro, Machado, Mello, & Magalhães, 2017Féres-Carneiro, T., Machado, R. N., Mello, R., & Magalhães, A. S. (2017). Práticas de nomeação nas relações familiares contemporâneas. Revista da SPAGESP, 18(1), 4-19. http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1677-29702017000100002), tais como: a monoparental por opção, a pluriparental, os casais sem filhos por opção, a formada por casais do mesmo sexo, as recompostas, as adotivas e as unipessoais (Andrade, Hueb, & Alves, 2017Andrade, L. C. S., Hueb, M. F. D., & Alves, C. M. P. (2017). Era uma vez… um estudo de caso sobre histórias e estórias adotivas. Estudos de Psicologia (Campinas), 34(1), 173-183. https://doi.org/10.1590/1982-02752017000100017
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; Cardoso & Brito, 2014Cardoso, A. R., & Brito, L. M. T. (2014). Ser avó na família contemporânea: Que jeito é esse? Psico-USF, 19(3), 433-441. https://doi.org/10.1590/1413-82712014019003006
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; Cecílio, Scorsolini-Comin, & Santos, 2013Cecílio, M. S., Scorsolini-Comin, F., & Santos, M. A. (2013). Produção científica sobre adoção por casais homossexuais no contexto brasileiro. Estudos de Psicologia (Natal), 18(3), 507-516. https://doi.org/10.1590/S1413-294X2013000300011
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; Contente, Cavalcante, & Silva, 2013Contente, S. R. C., Cavalcante, L. I. C., & Silva, S. S. C. (2013). Adoção e preparação infantil na percepção dos profissionais do juizado da infância e juventude de Belém/PA. Temas em Psicologia, 21(2), 317-333. https://doi.org/10.9788/TP2013.2-02
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; Féres-Carneiro et al., 2017Féres-Carneiro, T., Machado, R. N., Mello, R., & Magalhães, A. S. (2017). Práticas de nomeação nas relações familiares contemporâneas. Revista da SPAGESP, 18(1), 4-19. http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1677-29702017000100002; Machin, 2016Machin, R. (2016). Homoparentalidade e adoção: (Re)afirmando seu lugar como família. Psicologia & Sociedade, 28(2), 350-359. https://doi.org/10.1590/1807-03102016v28n2p350
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; Rodriguez, Gomes, & Oliveira, 2017Rodriguez, B. C., Gomes, I. C., & Oliveira, D. P. (2017). Família e nomeação na contemporaneidade: Uma reflexão psicanalítica. Estudos Interdisciplinares em Psicologia, 8(1), 135-150. https://doi.org/10.5433/2236-6407.2017v8n1p135
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; Sampaio, Magalhães, & Féres-Carneiro, 2018Sampaio, D. S., Magalhães, A. S., & Féres-Carneiro, T. (2018). Pedras no caminho da adoção tardia: Desafios para o vínculo parento-filial na percepção dos pais. Temas em Psicologia , 26(1), 311-324. https://doi.org/10.9788/TP2018.1-12Pt
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).

Na Psicologia, a família tem sido estudada por pesquisadores com perspectivas epistemológicas diversificadas. Em algumas delas, o enfoque é o sociocomunitário (Covelo & Badaró-Moreira, 2015Covelo, B. S. R., & Badaró-Moreira, M. I. (2015). Laços entre família e serviços de saúde mental: A participação dos familiares no cuidado do sofrimento psíquico. Interface: Comunicação, Saúde e Educação, 19(55), 1133-1144. https://doi.org/10.1590/1807-57622014.0472
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; Dessen & Polonia, 2007Dessen, M. A., & Polonia, A. C. (2007). A família e a escola como contextos de desenvolvimento humano. Paidéia, 17(36), 21-32. https://doi.org/10.1590/S0103-863X2007000100003
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), em outras, o foco é mais atinente a condições subjetivas dos constituintes das famílias (Baptista & Teodoro, 2012Baptista, M. N., & Teodoro, M. L. M. (Orgs.). (2012). Psicologia de família: Teoria, avaliação e intervenção. Porto Alegre, RS: Artmed.; Capitão & Romaro, 2012Capitão, C. G., & Romaro, R. A. (2012). Concepção psicanalítica da família. In M. N. Baptista & M. L. M. Teodoro (Orgs.), Psicologia de família: Teoria, avaliação e intervenção (pp. 27-37). Porto Alegre, RS: Artmed .).

Considerando esses aspectos, na formação em Psicologia há necessidade de estudos, pesquisas e inserção estudantil em atividades que tenham a instituição familiar como foco, em meio a diversos outros temas igualmente relevantes (Brasil, 2011Brasil. (2011). Diretrizes curriculares nacionais para os cursos de graduação em Psicologia: Resolução nº 5, de 15 de março de 2011. Brasília, DF: Conselho Nacional de Educação. http://portal.mec.gov.br/index.php?option=com_docman&view=download&alias=7692-rces005-11-pdf&Itemid=30192
http://portal.mec.gov.br/index.php?optio...
; Galindo, Tamman, & Sousa, 2020Galindo, W, Tamman, B. F., & Sousa, T. B. S. (2020). Estratégias formativas em serviços-escola de Psicologia: Revisão bibliográfica da produção científica. Psicologia: Ciência e Profissão, 40, e188175. https://dx.doi.org/10.1590/1982-3703003188175
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). Nesse sentido, é desejável explorá-la com estudantes de cursos de Psicologia logo no início do curso.

Dispositivos que instiguem processos dialógicos sobre famílias soam particularmente proveitosos para tanto, pois diferentes visões sobre ela podem ser contrapostas e debatidas. Assim, atividades curriculares e extracurriculares podem propiciar o estudo e o desenvolvimento de intervenções junto à instituição familiar, por meio do ensino, da pesquisa e da extensão (Brasil, 2011Brasil. (2011). Diretrizes curriculares nacionais para os cursos de graduação em Psicologia: Resolução nº 5, de 15 de março de 2011. Brasília, DF: Conselho Nacional de Educação. http://portal.mec.gov.br/index.php?option=com_docman&view=download&alias=7692-rces005-11-pdf&Itemid=30192
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).

No âmbito de intervenções profissionais, diferentes dispositivos teórico-técnicos podem ser utilizados por estudantes e profissionais de Psicologia. Nessa direção, a teoria e a técnica dos grupos operativos são alternativa disponível (Bleger, 1961/1971Bleger, J. (1971). Temas de psicologia: Entrevista y grupos. Buenos Aires: Nueva Visión. (Trabalho original publicado em 1961); Breitenbach & Levandowski, 2015Breitenbach, I. M. S., & Levandowski, D. C. (2015). Grupo operativo com adolescentes que vivenciam a ausência paterna temporária: Relato de experiência. Contextos Clínicos, 8(2), 153-164. https://dx.doi.org/10.4013/ctc.2015.82.04
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; Castanho, 2017Castanho, P. (2017). Sobre a questão da tarefa no grupo: Aspectos psicanalíticos e psicossociais. In T. S. Emidio, & M. Y. Okamoto (Orgs.), Perspectivas psicanalíticas atuais para o trabalho com famílias e grupos na universidade (pp. 87-101). São Paulo, SP: Cultura Acadêmica.; Lourenço & Massi, 2016Lourenço, R. C. C., & Massi, G. A. A. (2016). Grupo operativo como espaço para atividades dialógicas junto a idosos. Vínculo, 13(2), 13-23. http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1806-24902016000200003
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; Silveira & Ribeiro, 2015Silveira, C. A. B., & Ribeiro, E. F. (2015). Grupos operativos e a formação de psicólogos: Relato de experiência na graduação. In T. V. Santeiro & G. M. A. Rocha (Orgs.), Clínica de orientação psicanalítica: Compromissos, sonhos e inspirações no processo de formação (pp. 81-95). São Paulo, SP: Vetor.).

Os grupos operativos são caracterizados por serem dispositivos que enfocam o aprender a aprender, mirando alargar condições para as pessoas refletirem e construírem esquemas referenciais a partir das experiências do campo grupal. Nessa concepção, o ensino e a aprendizagem são conceitos inseparáveis, integrantes de um processo único em permanente movimento dialético, sendo que a existência de alguém que aprende implica na de alguém que ensina e vice-versa (Bleger, 1961/1971Bleger, J. (1971). Temas de psicologia: Entrevista y grupos. Buenos Aires: Nueva Visión. (Trabalho original publicado em 1961)).

Nesse entendimento, o grupo operativo é exequível para conduzir processos de reflexão, de diálogo e de aprendizagem, por meio dos quais a formação de psicólogos pode desfrutar de aprimoramentos qualitativos, porque esse dispositivo busca agregar conhecimentos vivenciais, estéticos e éticos aos científicos. Considerando a centralidade da instituição familiar no processo formativo de psicólogos e na vida das pessoas, e tendo os grupos operativos como possibilidade teórico-técnica e filosófica, este trabalho relata resultados de uma pesquisa-ação, cujo objetivo geral foi criar espaço e tempo para dialogar com estudantes calouros de Psicologia sobre famílias.

Método

O tipo de estudo é uma pesquisa-ação, de corte longitudinal, amparada em enfoque clínico-qualitativo de investigação científica (Bleger, 1961/1971Bleger, J. (1971). Temas de psicologia: Entrevista y grupos. Buenos Aires: Nueva Visión. (Trabalho original publicado em 1961)). Nesse enquadre, o encontro humano constitui um campo específico potencialmente transformador de todos os envolvidos nele, num movimento incessante e dinâmico.

Os participantes foram estudantes calouros de um curso de graduação em Psicologia (N = 16), com idades entre 17 e 21 anos, sendo quinze do sexo feminino e um do masculino, solteiros, matriculados em uma instituição federal de ensino superior (ifes), situada no interior do estado de Minas Gerais.

A equipe executora foi composta por dois psicólogos e uma psicóloga, que desempenharam os papéis de coordenador, cocoordenador e observadora, respectivamente.

Como instrumento de coleta de dados, foram utilizados grupos operativos de ensino-aprendizagem (Bleger, 1961/1971Bleger, J. (1971). Temas de psicologia: Entrevista y grupos. Buenos Aires: Nueva Visión. (Trabalho original publicado em 1961)) e filmes comerciais como recursos disparadores de diálogos (Santeiro, Santeiro, Souza, Juiz, & Rossato, 2014Santeiro, T. V., Santeiro, F. R. M., Souza, A. M. O., Juiz, A. P. M., & Rossato, L. (2014). Processo grupal mediado por filmes: Espaço e tempo para pensar a Psicologia. Revista da SPAGESP , 15(1), 95-111. http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1677-29702014000100008
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), escolhidos por meio de negociação entre equipe executora e participantes (Quadro 1). A tarefa grupal (tarefa explícita) apresentada aos universitários era: pensar e dialogar sobre diferentes configurações familiares, sobre suas constituições e sobre relações/vínculos estabelecidos entre seus membros.

Grupos operativos de ensino-aprendizagem são marcados pela construção de uma realidade conjunta em que é possível ocorrer a atuação em equipe com unidade e coerência, facilitando a construção de referenciais trabalhados, dialogados e partilhados pelos seus membros. Embora cada participante tenha sua singularidade e expresse aspectos que são frutos dela, o processo grupal busca transformar o que cada pessoa comunica em um referencial comum, horizontal, fruto da experiência coletiva (Bleger, 1961/1971Bleger, J. (1971). Temas de psicologia: Entrevista y grupos. Buenos Aires: Nueva Visión. (Trabalho original publicado em 1961)).

Quadro 1
Filmes utilizados (título em português brasileiro), diretor (ano de produção), indicação e composições familiares apresentadas, ordenados conforme sequência de exibição nos encontros.

Enfatizamos também que o grupo operativo é caracterizado por desempenhos de papéis que seus membros assumem e/ou atribuem aos demais, o que acontece de forma inconsciente e dinâmica. O papel de porta-voz é um deles. Por meio do desempenho desse papel, situações dilemáticas, estereotipadas, emergem e podem ser objeto de elaborações e de transformações no seio do grupo, em um movimento espiral dialético (Pichon-Rivière, 1983/2009Pichon-Rivière, E. (2009). O processo grupal (M. S. Gonçalves & M. A. F. Velloso, Trads., 8a ed.). São Paulo, SP: Martins Fontes. (Trabalho original publicado em 1983)).

Nessa acepção, o porta-voz é aquele que significa o processo grupal que estava latente. Ele traduz algo vivido pelo coletivo como sendo próprio, porém, subliminarmente, polariza algo que acontece no grupo. Ele denuncia as fantasias, as ansiedades e as necessidades do grupo, fala por si e pelo grupo e, por meio dele, a verticalidade e a horizontalidade são conjugadas (Berstein, 1986Berstein, M. (1986). Contribuições de Pichon-Rivière à psicoterapia de grupo. In L. C. Osório (Org.), Grupoterapia hoje (pp. 108-132). Porto Alegre, RS: Artes Médicas.).

Observadas algumas das peculiaridades que envolvem o enquadre dos grupos operativos de aprendizagem propostos, apresentaremos alguns procedimentos seguidos para operacionalizá-los. Após autorização da coordenação do curso de Psicologia, a equipe executora convidou todos os calouros presencialmente, em sala de aula. Nesse momento, os objetivos da pesquisa e aspectos éticos foram apresentados, e uma lista com nomes e contatos de eventuais interessados foi coletada. Posteriormente, os pesquisadores entraram em contato com os interessados e estipularam uma data para o primeiro encontro acontecer.

O formato dos grupos era inicialmente aberto. Quaisquer calouros interessados poderiam comparecer até o terceiro encontro. A partir do quarto encontro, o grupo operou no formato fechado. Dessa maneira, os participantes que constituíram o grupo foram aqueles que aceitaram o convite feito a uma turma com 35 matriculados.

Nove encontros semanais foram realizados, com duração média de três horas cada, durante o primeiro semestre letivo de ingresso dos participantes na universidade (de fim de março a início de junho de 2016). Eles ocorreram como atividade extraclasse, não contemplada no projeto político-pedagógico do curso.

O local utilizado para desenvolvimento das atividades foi uma sala de aula da ifes munida de equipamento para projeção audiovisual, ar-condicionado e cadeiras móveis. Os diálogos foram audiogravados e transcritos na íntegra.

No início dos encontros, assistíamos ao filme. Após a exibição deste, a sala era organizada em círculo e os universitários eram convidados a falar livremente sobre aspectos que consideravam importantes, a partir da experiência de assistirem ao filme (sentimentos, pensamentos, reflexões), conforme procedimentos detalhados por Santeiro et al. (2014Santeiro, T. V., Santeiro, F. R. M., Souza, A. M. O., Juiz, A. P. M., & Rossato, L. (2014). Processo grupal mediado por filmes: Espaço e tempo para pensar a Psicologia. Revista da SPAGESP , 15(1), 95-111. http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1677-29702014000100008
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).

A pergunta feita a cada início de encontro, como disparadora dos diálogos, era alinhada à tarefa explícita. Esse momento era mediado pelos coordenadores e anotado pela observadora, de modo que o movimento de trabalho sobre a tarefa (a externa/explícita e a interna/implícita) pudesse ser contemplado. As anotações objetivavam ser complementares em relação ao teor audiogravado e, posteriormente a cada encontro, eram debatidas pela equipe executora em espaço de supervisão.

A análise dos diálogos ocorreu por meio dos principais emergentes grupais que estivessem ligados à tarefa explícita, a partir de verbalizações de porta-vozes. Os emergentes eram, assim, levantados pela equipe executora e com base em procedimentos próprios ao tipo de estudo realizado (Bleger, 1961/1971Bleger, J. (1971). Temas de psicologia: Entrevista y grupos. Buenos Aires: Nueva Visión. (Trabalho original publicado em 1961); Castanho, 2017Castanho, P. (2017). Sobre a questão da tarefa no grupo: Aspectos psicanalíticos e psicossociais. In T. S. Emidio, & M. Y. Okamoto (Orgs.), Perspectivas psicanalíticas atuais para o trabalho com famílias e grupos na universidade (pp. 87-101). São Paulo, SP: Cultura Acadêmica.; Pichon-Rivière, 1983/2009Pichon-Rivière, E. (2009). O processo grupal (M. S. Gonçalves & M. A. F. Velloso, Trads., 8a ed.). São Paulo, SP: Martins Fontes. (Trabalho original publicado em 1983)).

Os dados foram interpretados à luz do referencial teórico da psicanálise, em especial de autores latino-americanos estudiosos de famílias. Textos governamentais debatendo famílias na realidade brasileira também foram considerados.

Todos os procedimentos éticos para desenvolvimento de pesquisas com seres humanos foram seguidos. O projeto foi submetido ao Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Federal do Triângulo Mineiro e consubstanciado por meio do Parecer nº 2722442.

Resultados e discussão

Em cada um dos nove encontros foram escolhidos filmes nacionais e estrangeiros que enfocavam famílias. Os esforços para as escolhas eram dispensados no sentido de serem películas congruentes tanto com o que a literatura especializada tem descrito sobre organizações e relações familiares na contemporaneidade quanto com a própria produção grupal, na medida em que o processo grupal acontecia (Quadro 1). As temáticas dos filmes não só estavam ligadas à tarefa explícita, mas também eram resultantes do processo grupal.

A partir dos diálogos, foram levantados cinco eixos referentes a formas de organização familiar. É importante grifar que esses temas não seguiram uma linearidade e fizeram um movimento oscilatório entre o que era próprio da tarefa explícita e o que era atinente a outros emergentes grupais, gestados nos diálogos. Por exemplo: no segundo encontro, cuja tarefa explícita era pensar famílias formadas por casais do mesmo sexo, foram abordadas, também, famílias unipessoais (Quadro 2). Essa movimentação, comum no transcorrer das atividades relatadas, tem semelhanças com o descrito na literatura sobre grupos operativos, pois a teoria de unidade de trabalho deste dispositivo estabelece a existência de vetores que interferem na situação grupal, promovendo movimentos inexauríveis de construção, desconstrução e reconstrução de significados (Breitenbach & Levandowski, 2015Breitenbach, I. M. S., & Levandowski, D. C. (2015). Grupo operativo com adolescentes que vivenciam a ausência paterna temporária: Relato de experiência. Contextos Clínicos, 8(2), 153-164. https://dx.doi.org/10.4013/ctc.2015.82.04
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; Castanho, 2017Castanho, P. (2017). Sobre a questão da tarefa no grupo: Aspectos psicanalíticos e psicossociais. In T. S. Emidio, & M. Y. Okamoto (Orgs.), Perspectivas psicanalíticas atuais para o trabalho com famílias e grupos na universidade (pp. 87-101). São Paulo, SP: Cultura Acadêmica.; Lourenço & Massi, 2016Lourenço, R. C. C., & Massi, G. A. A. (2016). Grupo operativo como espaço para atividades dialógicas junto a idosos. Vínculo, 13(2), 13-23. http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1806-24902016000200003
http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?scr...
; Pichon-Rivière, 1983/2009Pichon-Rivière, E. (2009). O processo grupal (M. S. Gonçalves & M. A. F. Velloso, Trads., 8a ed.). São Paulo, SP: Martins Fontes. (Trabalho original publicado em 1983); Santeiro et al., 2014Santeiro, T. V., Santeiro, F. R. M., Souza, A. M. O., Juiz, A. P. M., & Rossato, L. (2014). Processo grupal mediado por filmes: Espaço e tempo para pensar a Psicologia. Revista da SPAGESP , 15(1), 95-111. http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1677-29702014000100008
http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?scr...
).

Quadro 2
Filmes utilizados, tarefa e emergentes grupais.

Considerando a importância de entender o processo grupal como algo dinâmico, por meio do qual os diálogos - e os afetos - são atrelados entre si, a apresentação dos resultados enfatizará o conjunto geral dos nove encontros realizados, e não eles isoladamente. Desse modo, os relatos priorizam o eixo horizontal das comunicações grupais, em detrimento do vertical. Essa medida foi tomada porque os grupos operativos de ensino-aprendizagem consideram o grupo como uma unidade de análise, sendo diferente da simples soma dos integrantes (Bleger, 1961/1971Bleger, J. (1971). Temas de psicologia: Entrevista y grupos. Buenos Aires: Nueva Visión. (Trabalho original publicado em 1961)).

Entre as famílias enfocadas nos filmes escolhidos, estavam a extensa/ampliada, a formada por casais do mesmo sexo, a adotiva, a nuclear, a unipessoal e a recomposta. Essas possibilidades de organização familiar têm espelhado transformações nas formas de socialização das famílias (Cúnico & Arpini, 2014Cúnico, S. D., & Arpini, D. M. (2014). Família e monoparentalidade feminina sob a ótica de mulheres chefes de família. Aletheia, (43-44), 37-49.; Féres-Carneiro et al., 2017Féres-Carneiro, T., Machado, R. N., Mello, R., & Magalhães, A. S. (2017). Práticas de nomeação nas relações familiares contemporâneas. Revista da SPAGESP, 18(1), 4-19. http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1677-29702017000100002; Gomes & Neves, 2016Gomes, L. R. S., & Neves, A. S. (2016). A clínica de família: Interrogações sobre o traumático, a dinâmica vincular e a violência como organizadores do grupo familiar. Estilos da Clínica, 21(1), 152-169. https://doi.org/10.11606/issn.1981-1624.v21i1p152-169
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; Rodriguez et al., 2017Rodriguez, B. C., Gomes, I. C., & Oliveira, D. P. (2017). Família e nomeação na contemporaneidade: Uma reflexão psicanalítica. Estudos Interdisciplinares em Psicologia, 8(1), 135-150. https://doi.org/10.5433/2236-6407.2017v8n1p135
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). Contudo, naturalmente, não era objetivo esgotar possibilidades ao longo dos encontros.

Eixo 1 - Famílias formadas por casais do mesmo sexo

No desenvolvimento dos encontros, diálogos sobre famílias formadas por casais do mesmo sexo emergiram. Eles consideraram vivências narradas em grupo e tiveram como fundo de debate as próprias organizações familiares dos estudantes. Nesse eixo, o grupo versou sobre dificuldades de aceitação, preconceitos que estas famílias enfrentam e “como” essa configuração familiar era vista em suas próprias famílias de origem. Isso pode ser visualizado por meio dos seguintes recortes:

A gente percebe que a família, ali, não é a que a maioria tá acostumada, imagino. Pelo menos a minha família, o meu pai, homem, e mulher, mãe, e ali são duas mulheres e mostra… mas também, não mostra como se fosse muito diferente, na visão deles (Encontro 2).

Quando eu vejo filme assim, pra mim é normal. Mas, assim, eu acho que a gente não pode generalizar. Não é todo mundo que concorda, óbvio. . . eu acho que [se] a gente estiver num lugar mais aberto, público, nem sempre a gente vai achar… “Nossa, que lindo!” (Encontro 2).

Quando eu era criança, isso nunca foi… tipo, homossexual, homossexualidade, nunca foi uma pauta lá em casa. . . . Depois que eu já tinha a minha opinião formada, isso virou pauta em casa. Porque começou a aparecer na televisão (Encontro 2).

Famílias de composição homoparental têm ganhado maior visibilidade nos últimos anos, o que inclui repercussões na linguagem dos filmes escolhidos para trabalho (Quadro 1) e na Psicologia (Féres-Carneiro et al., 2017Féres-Carneiro, T., Machado, R. N., Mello, R., & Magalhães, A. S. (2017). Práticas de nomeação nas relações familiares contemporâneas. Revista da SPAGESP, 18(1), 4-19. http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1677-29702017000100002; Rodriguez et al., 2017Rodriguez, B. C., Gomes, I. C., & Oliveira, D. P. (2017). Família e nomeação na contemporaneidade: Uma reflexão psicanalítica. Estudos Interdisciplinares em Psicologia, 8(1), 135-150. https://doi.org/10.5433/2236-6407.2017v8n1p135
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). O processo de reconhecimento dessas famílias tem sido contínuo, permeado por discussões, por entraves, e marca rompimentos de padrões familiares cristalizados. Nesse caminhar, há de ser considerado que os avanços alcançados são frutos da constante luta pelo reconhecimento de igualdade de direitos dos grupos lésbicas, gays, bissexuais, travestis, transexuais e transgêneros, do movimento de transformação política, cultural e legislativa em torno da descriminalização da homossexualidade e da busca por igualdade de acesso ao casamento civil (Machin, 2016Machin, R. (2016). Homoparentalidade e adoção: (Re)afirmando seu lugar como família. Psicologia & Sociedade, 28(2), 350-359. https://doi.org/10.1590/1807-03102016v28n2p350
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).

Ainda que famílias homoparentais venham ganhando destaque como objeto de estudos científicos e ganhando maior visibilidade, sabemos da existência de casos nos quais seus atores sofrem preconceito ou não aceitação de sua condição familiar. Essa informação é corroborada por Cecílio et al. (2013Cecílio, M. S., Scorsolini-Comin, F., & Santos, M. A. (2013). Produção científica sobre adoção por casais homossexuais no contexto brasileiro. Estudos de Psicologia (Natal), 18(3), 507-516. https://doi.org/10.1590/S1413-294X2013000300011
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), quando descrevem, por exemplo, existência de dificuldades legais para o reconhecimento dessas famílias, de discriminações e de preconceitos que ecoam no modo como elas têm sido estruturadas e reconhecidas.

Nesse ponto de vista, cabe frisarmos que, mesmo sendo temática mais debatida nos dias atuais, a homoparentalidade pode não ser tão abertamente conversada no âmbito privado das famílias, como ilustrado por meio dos diálogos grupais selecionados. Desconfortos incidem quando o tema era tratado entre os participantes e seus familiares.

Por essa via de debates, a mobilização de estruturas estereotipadas que dificultam processos de aprendizagem genuínos precisa ser retomada em seus potenciais promotores de saúde mental (Bleger, 1961/1971Bleger, J. (1971). Temas de psicologia: Entrevista y grupos. Buenos Aires: Nueva Visión. (Trabalho original publicado em 1961); Pichon-Rivière, 1989/2009Pichon-Rivière, E. (2009). O processo grupal (M. S. Gonçalves & M. A. F. Velloso, Trads., 8a ed.). São Paulo, SP: Martins Fontes. (Trabalho original publicado em 1983)). Ao fazê-lo, entretanto, devemos cuidar para não reduzir o aprender a algo que ocorre sem contrapontos e desconfortos.

Eixo 2 - Família unipessoal

Associado ao saber que o grupo parece ter (re)construído sobre famílias formadas por pessoas do mesmo sexo, os diálogos contemplaram modalidades unipessoais, momentos que foram acompanhados de discordâncias em relação a quanto elas poderiam ou não ser consideradas um tipo de família. As conversas sobre esse tema novamente pareciam questionar concepções que existiam em momentos prévios ao do trabalho grupal relatado:

Acho que, na concepção de família, sei lá. Então, pra ser a sua própria família, “Eu sou a família”, não acho que essa é uma concepção de família. Eu, sozinha, sou uma família. Eu acho que, pra mim, é outro termo, não família. Eu me amar, ser autossuficiente, mas não ser a minha própria família. Sempre precisa de alguém pra ser família (Encontro 2).

Eu não acho que seja possível, acho que tem que ser completa também. Às vezes, você não quer só uma palavra, só uma palavra não ajuda, sabe? Ah, tá tudo bem, mas precisa de um abraço, de um toque. Você sabe que é acolhedor, por isso que eu acho que não seria possível ficar nesses relacionamentos assim (Encontro 7).

Em relação às famílias unipessoais, o Censo de 2010 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) indicou que estas representavam aproximadamente 12,1% da população (Brasil, 2010Brasil. (2010). Vamos conhecer o Brasil: Famílias. Brasília, DF: IBGE. http://7a12.ibge.gov.br/vamos-conhecer-o-brasil/nosso-povo/familias-e-domicilios.html
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). Em nível internacional, 4% da população mundial residiam em lares nos quais somente uma pessoa ocupava o espaço, somando cerca de 270 milhões de pessoas (Brasil, 2012Brasil. (2012). Países emergentes impulsionam lares com um só morador. Brasília, DF: Agência Brasil. ).

Cabe sublinhar que essas famílias são resultantes de processos de alta complexidade que envolvem vetores sócio-históricos, culturais, políticos, econômicos e subjetivos. Há toda uma movimentação que perpassa a flexibilização das formas de convívio familiar, até chegarmos a elas (Negreiros & Féres-Carneiro, 2004Negreiros, T. C. G. M., & Féres-Carneiro, T. (2004). Masculino e feminino na família contemporânea. Estudos e Pesquisas em Psicologia, 4(1), 34-47. http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1808-42812004000100004
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). Nesse panorama, os casos de idosos também podem ser acentuados, porque têm peculiaridades a serem ponderadas; eles podem ter vivenciado formações familiares diversas ao longo de suas vidas, mas passam a viver sozinhos por razões como a viuvez (Teston & Marcon; 2014Teston, E., & Marcon, S. (2014). A constituição de domicílios unipessoais em condomínio específico para idosos. Revista Enfermagem UERJ, 22(5), 610-614. https://doi.org/10.12957/reuerj.2014.6565
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).

As pessoas podem, ademais, definir que formaram uma nova constituição familiar, a qual pode ser individual, com amigos ou até mesmo com animais de estimação. Essa afirmação é sustentada quando, por exemplo, consideramos a definição de família contemplada pelo IBGE, que a estabelece como conjunto de pessoas ligadas por laços de parentesco, por dependência doméstica ou por normas de convivência, residente na mesma unidade domiciliar, ou pessoa que mora só em uma unidade domiciliar (Brasil, 2018aBrasil. (2018a). Conceitos indicadores. Brasília, DF: IBGE . https://ww2.ibge.gov.br/home/estatistica/populacao/condicaodevida/indicadoresminimos/conceitos.shtm
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).

Por argumentos desse teor, por famílias unipessoais serem quantitativamente expressivas e coexistirem com outras modalidades, contemplá-las em âmbitos de formação de psicólogos é imprescindível. No caso do grupo estudado, estranhamentos ocorreram quando esse desenho de família foi apreciado, mas também houve movimentações que remetiam alguns dos próprios participantes à “descoberta” de si mesmos como uma “família possível”.

Em sentido semelhante, uma produção pode ser ilustrativa de que o estar em grupo pode ter promovido reposicionamentos de pensares sobre famílias unipessoais, momento em que o “talvez” surge nas verbalizações, o que faz contraposições aos “eu acho” e “não acho” reproduzidos de modo mais categórico nos dois recortes anteriores:

Talvez, nem uma outra pessoa [seja necessária para constituir família]. Por exemplo, posso ter um cachorro e eu considerar ele como minha família, porque, quando eu voltar pra casa, ele vai tá ali e me receber. E eu vou tá cuidando dele e ele vai tá cuidando de mim, de certa forma (Encontro 2).

Eixo 3 - Famílias com filhos adotivos

Os diálogos grupais também contemplaram famílias com filhos adotivos. Aspectos que as permeiam e que interferem no processo de adoção, além de vivências com essa forma de exercício da parentalidade, são ilustrados a seguir:

Eu lembrei que tem na minha família, mas é que eu lembrava que ela é adotada; porque, pra mim, ela é tipo família mesmo. Mas meu tio, é… ele não é meu tio de sangue, mas a gente considera também da família (Encontro 6).

Eu acho que a maior dificuldade em relação à adoção é que o pessoal vai com uma concepção de criança, que eles esperam achar a criança que eles idealizaram. Aí, cria um monte de barreira, que, como foi falado, é mais fácil de adotar quando a criança é menorzinha. Porque o pessoal, realmente, quer bebê, quer menina, quer que seja daquele jeitinho específico (Encontro 6).

A adoção constitui uma das formas de inserção de crianças e/ou adolescentes em uma família após a perda do poder familiar pelos pais biológicos. No Brasil, desde o ano de 2009, a filiação pela via adotiva tem sido regulamentada pela Lei nº 12.010, também conhecida como a “Nova Lei da Adoção”, sendo um referencial importante a ser considerado, pois estabelece as condições para efetivação da parentalidade adotiva (Brasil, 2009Brasil. (2009). Lei nº 12.010, de 3 de agosto de 2009. Nova lei nacional da adoção. http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2007-2010/2009/Lei/L12010.htm
http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_At...
).

A possibilidade de (re)construção da concepção de família proporcionada pela nova Lei tem promovido o desenvolvimento de uma cultura da adoção e mudanças na forma de concebê-la. Ela tem contribuído, ainda, para a ampliação das formas como a adoção pode ser concretizada, pois o desejo de adotar também tem sido manifestado por casais com filhos biológicos, na meia idade, de pessoas do mesmo sexo e por pessoas solteiras (Andrade et al., 2017Andrade, L. C. S., Hueb, M. F. D., & Alves, C. M. P. (2017). Era uma vez… um estudo de caso sobre histórias e estórias adotivas. Estudos de Psicologia (Campinas), 34(1), 173-183. https://doi.org/10.1590/1982-02752017000100017
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).

A nova Lei da Adoção, por outro lado, estipulou parâmetros e procedimentos para serem seguidos pelos pretendentes à adoção, podendo despertar no imaginário social a imagem de que tal processo seria burocrático e difícil de acontecer, como manifestado pelo grupo. No entanto, a regulamentação procura coibir formas de “adoção” como as que ocorriam no passado, em que o menor ia morar com a família, mas não era tido como filho e portador de direitos (Brasil, 2009Brasil. (2009). Lei nº 12.010, de 3 de agosto de 2009. Nova lei nacional da adoção. http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2007-2010/2009/Lei/L12010.htm
http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_At...
).

Apesar de o processo de adoção poder implicar dificuldades e burocracias, ele requer preparo psíquico do(s) adotante(s) e do espaço doméstico para receber o novo membro. Esse preparo deve ser cauteloso, principalmente quando a criança e/ou o adolescente espera por uma família há anos. Ele também é justificado pela natureza da experiência a ser vivenciada, uma vez que a adoção alude, sobretudo, a processo progressivo de adaptação do adotado ao convívio com a nova família (Contente et al., 2013Contente, S. R. C., Cavalcante, L. I. C., & Silva, S. S. C. (2013). Adoção e preparação infantil na percepção dos profissionais do juizado da infância e juventude de Belém/PA. Temas em Psicologia, 21(2), 317-333. https://doi.org/10.9788/TP2013.2-02
https://doi.org/10.9788/TP2013.2-02...
).

Nos processos formativos de psicólogos, também é importante considerar as fantasias em relação à criança a ser adotada, como trabalhado pelo grupo. Muitos casais podem buscar a adoção com um ideal de criança que vão encontrar, o que nem sempre condiz com a realidade. Por explicações como essas, o preparo para a adoção é entendido como um processo necessário para os pretendentes refletirem sobre e compreenderem mais profundamente as motivações, conscientes e inconscientes, envolvidas em suas escolhas.

As produções do grupo relacionadas ao perfil esperado de crianças, dando preferência para as mais novas, são ratificadas, de fato, em processos de adoção. A justificativa pela opção por bebês aparece relacionada com a dificuldade na educação de uma criança maior e com a busca por melhor adaptação entre os pais e filhos, sem “interferências” de vivências anteriores. Contudo, mesmo nessas situações, apesar de alguns pais optarem por tentar “apagar” a vida anterior da criança na tentativa de construir uma nova, o acesso ao passado é fundamental para o filho poder fantasiar, perguntar e elaborar, junto à família adotiva, sua história (Sampaio et al., 2018Sampaio, D. S., Magalhães, A. S., & Féres-Carneiro, T. (2018). Pedras no caminho da adoção tardia: Desafios para o vínculo parento-filial na percepção dos pais. Temas em Psicologia , 26(1), 311-324. https://doi.org/10.9788/TP2018.1-12Pt
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).

A temática da parentalidade adotiva condensa, assim, complexidade temática no campo de estudos sobre o desenvolvimento humano. Tratar dela por meio dos grupos operativos também permitiu gestar indagações sobre o quanto os participantes precisavam “adotar” pessoas com as quais tinham vínculo sanguíneo, e vice-versa, ao longo de suas vidas. Ou, ainda, o quanto “adotar” o grupo de trabalho era escolha que o coletivo fazia semanalmente (a emergência do tema se concentrou no Encontro 6).

Assim, as conversas coletivas, disparadas com auxílio da linguagem cinematográfica, eram convertidas em vivências grupais que denotavam alcance de significações mais fluidas (operativas), que incluíam processos autorreflexivos. Os recortes dos diálogos apresentados anteriormente podem ser ilustrativos disso. Em um deles, porém, a possibilidade de o processo grupal inserir pontos de desestruturação em concepções “antigas” parece ceder espaço a movimentações por meio de “dúvidas” instaladas e manifestadas por expressões como “sei lá” e “não sei”:

A única coisa que eu penso é a dificuldade em adotar, sabe? Eu imagino que as pessoas devam ter mais dificuldades em adotar, porque, sei lá, é muita exigência. Eu não sei como que funciona, mas eu imagino que deva ser difícil pra pessoa conseguir (Encontro 6).

Eixo 4 - Família extensa/ampliada

O grupo discorreu sobre família extensa/ampliada, com ilustrações de vivências familiares de seus integrantes:

Eu tenho pai e mãe, e sempre morei com eles, mas, como os dois trabalhavam, quem ficava lá em casa era a minha avó (Encontro 9).

Eu tenho mãe, mas eu não morei com a minha mãe a vida toda. Mas não é porque eu não dou certo com a minha mãe, é porque… como, ai, como eu não… meu pai não me assumiu (Encontro 9).

Pelas narrativas grupais, foi possível observar a constante manifestação de como as próprias famílias dos participantes eram constituídas de modo ampliado/extenso. Ela geralmente é formada por parentes próximos com os quais os pais, as crianças ou os adolescentes convivem e mantêm vínculos de afinidade e de afetividade (Brasil, 1990Brasil. (1990). Estatuto da criança e adolescente. Lei nº 8.069, de 13 de julho de 1990. Brasília, DF: Presidência da República . http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l8069.htm
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).

Assim como comunicado pelo grupo, famílias extensas têm sido reconhecidas pela importância que assumem no auxílio às famílias, no cuidado dos filhos. Na atualidade, elas predominam por diversas razões, entre elas o desemprego e o divórcio. Embora esses fatores não sejam os únicos determinantes, são alguns dos motivadores de retornos de filhos para a casa dos pais.

Cabe ainda dizer que os avós são figuras importantes no contexto das famílias ampliadas. As avós, por exemplo, acabam despendendo um considerável tempo no cuidado dos netos, uma vez que os pais ficam longas horas fora de casa devido ao trabalho (Cardoso & Brito, 2014Cardoso, A. R., & Brito, L. M. T. (2014). Ser avó na família contemporânea: Que jeito é esse? Psico-USF, 19(3), 433-441. https://doi.org/10.1590/1413-82712014019003006
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). E houve diversas produções que seguiram essa direção, como pode ser visualizado por meio dos seguintes recortes:

Eu morei . . . na mesma casa, meu pai, minha avó, meu irmão, e eu tenho três tias-avós, que são minhas avós, que eu considero como se fossem avós. Então, as três vão lá na minha casa todos os dias (Encontro 9).

Quando eu era menor, minha mãe casou com o meu padrasto e eu fui morar com ela, só que eu gostava mais de morar com a minha avó (Encontro 9).

Eixo 5 - Famílias recompostas/recasadas

Em relação às famílias recompostas/recasadas, o grupo também produziu diálogos sobre suas experiências, explorando-as:

[referência ao filme assistido] lembra muito da minha família, e eu acho engraçado. Porque esse negócio do pai e da madrasta, assim, bem esse estereótipo, mesmo, do pai só pegar os filhos pra passeio e achar que tá tudo bem. E desse estereótipo de madrasta também [referência à madrasta que não quer saber de convivência com os filhos do casamento anterior do marido] (Encontro 9).

Eu acho que deu muito para associar com a família da gente por causa dessas coisas, né? É… o meu pai, é… eles são separados, e meu pai me pegava de vez em quando pra passear no domingo, e junto com a minha madrasta, que é um horror de pessoa, e deu pra associar muito (Encontro 9).

No Brasil, o recasamento é cada vez mais presente e tem aumentado nos últimos anos, de 13,4% em 2002 para 21,8% do total das uniões formalizadas em 2012 (Brasil, 2018bBrasil. (2018b). Comunicação Social. Brasília, DF: IBGE . https://www.ibge.gov.br/
https://www.ibge.gov.br/...
). Esse fenômeno tem gerado mudanças nas configurações familiares e nas relações nelas estabelecidas (Negreiros & Féres-Carneiro, 2004Negreiros, T. C. G. M., & Féres-Carneiro, T. (2004). Masculino e feminino na família contemporânea. Estudos e Pesquisas em Psicologia, 4(1), 34-47. http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1808-42812004000100004
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).

Como expresso em grupo, as relações da família anterior são perpassadas pelas relações da nova família e isso interfere nos vínculos dos pais com os filhos. Para famílias compostas por pais recasados, há a necessidade de conciliar ampla gama de relações potencialmente conflituosas com os filhos de uniões distintas, a nova relação conjugal e a permanência do contato com a(o) ex-parceira(o) em função dos filhos em comum (Costa & Dias, 2012Costa, J. M., & Dias, C. M. S. B. (2012). Famílias recasadas: Mudanças, desafios e potencialidades. Psicologia: Teoria e Prática, 14(3), 72-87. http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1516-36872012000300006
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).

Constatamos a complexidade e as implicações decorrentes dessas configurações familiares na dinâmica relacional estabelecida em grupo. Devido a fatores dessa natureza, e também aos sócio-históricos, problematizar as implicações desses arranjos familiares no desenvolvimento humano e no processo de formação de novos psicólogos pode ser um exercício enriquecedor a todos os envolvidos.

O tipo de relato contemplado na análise desse eixo ilumina o ambiente grupal como espaço onde o sentir, o pensar e o agir puderam receber incrementos. Mesmo sofrimentos vividos nas relações familiares puderam ser nomeados e compartilhados (a madrasta era um “horror de pessoa”). E nisso parecia residir uma das fontes de prazer do estar-com no grupo: poder dialogar sobre o que fosse preciso, porque o continente grupal era vivido como confiável. Isso, por sua vez, nos remete a Castanho (2017Castanho, P. (2017). Sobre a questão da tarefa no grupo: Aspectos psicanalíticos e psicossociais. In T. S. Emidio, & M. Y. Okamoto (Orgs.), Perspectivas psicanalíticas atuais para o trabalho com famílias e grupos na universidade (pp. 87-101). São Paulo, SP: Cultura Acadêmica.) quando diz: “o prazer de pensar em grupo sobre o grupo pode ser visto como algo necessário ao andamento do grupo operativo” (p. 98). Essa dimensão prazerosa (não idealizada) engendrada pelo processo grupal também pode ser vinculada à constituição de transferência positiva com a tarefa explícita.

Considerações finais

As experiências relatadas, produzidas com mediação de filmes comerciais que envolviam encenações de “famílias”, contemplaram possíveis (re)construções de aprendizados sobre relacionamentos e composições familiares ocorridas em processo grupal com inspiração pichoniana. O cotidiano pessoal e familiar dos participantes foi parte integrada a elas, embora o tipo vertical de leitura desses teores não tenha sido priorizado neste momento.

Visualizamos que o processo vivido permitiu que o grupo integrasse aspectos sobre famílias ao seu cotidiano universitário e, em paralelo, construísse vínculos. Dois indicadores ilustram esse tipo de constatação. Um deles tratava de situações verbalizadas pelo grupo, nas quais o coletivo mencionava a si mesmo como um tipo de “família”. Outro indicador foi notado no último encontro, momento em que o projeto de criação de uma liga acadêmica universitária de Psicologia e Audiovisual teve origem, o que foi consolidado a posteriori.

Como é próprio dos grupos operativos - e também dos que têm a linguagem do Cinema como recurso mediador de diálogos, os emergentes considerados nas análises pareciam denotar o engajamento grupal diante da tarefa proposta (transferência com a tarefa). Entretanto movimentos de fuga diante do trabalho sobre a tarefa explícita eram presença inerente (processo de resistência), os quais também procuraram ser explicitados pela equipe executora como forma de facilitação de aprendizados menos ancorados em mecanismos de defesa (mais aderentes à tarefa implícita e menos alienados).

Por essa via de pensamento, é importante considerar que o novo e o velho coexistiram no cotidiano dos trabalhos de “pensar família”. Isso agregou complexidades e dificuldades ao processo de escuta que a equipe executora procurou desenvolver. Quando o grupo parecia caminhar no sentido de buscar “definições” para a instituição familiar, perguntas eram prezadas como intervenções, mais do que eventuais respostas.

Há que se considerar que o processo do grupo também teve alcances que extrapolaram os esforços para trabalharmos sobre a tarefa explícita (e, por conseguinte, para alcançarmos objetivos de pesquisa). Como o projeto era inserido em momento de chegada dos Participantes à universidade, acolhimentos e cuidados foram demandados.

Ao longo do tempo de convívio com os estudantes, pudemos constatar (equipe executora), de modo complementar, que as alterações em visões grupais que concebiam a centralidade da família nuclear rumo a configurações mais plurais também eram nossas. Viver o processo grupal relatado permitiu revisitarmos nossas próprias condições de aprendizes como membros daquele grupo, mas também de nossas respectivas famílias.

Entre as limitações encontradas neste estudo estão a escassez de literatura científica com interface sobre os grupos operativos, o uso de filmes (ou mesmo de outros recursos artísticos), e a formação em Psicologia. Se isso, de um turno, pode limitar o campo de diálogo com a comunidade acadêmica estudiosa de grupos e de processos de formação de psicólogos, de outro, pode agregar contribuição singular.

Neste momento, o empreendimento foi focado em “famílias”, porque isso estava alinhado ao escopo de interesses dos Autores e às suas linhas de pesquisa. Todavia caminhos semelhantes podem contemplar outros aspectos igualmente relevantes ao processo de formação de psicólogos, conforme diversidade de interesses e de perfis de projetos político-pedagógicos. Esperamos, assim, que este relato possa instigar outros pesquisadores e formadores a explorarem esse modelo de atividade, como ferramenta interventiva e de formação de estudantes de Psicologia e, quiçá, de áreas correlatas.

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Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    27 Nov 2020
  • Data do Fascículo
    2020

Histórico

  • Recebido
    20 Jul 2018
  • Aceito
    07 Jul 2020
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