Contribuições das investigações de Annemarie Mol para a psicologia social

Contribuiciones de la investigación Annemarie Mol para la psicología social

Contributions of Annemarie Mol's investigations for social psychology

Resumos

O artigo apresenta as principais contribuições das investigações realizadas pela médica e filósofa Annemarie Mol para as pesquisas em psicologia social. No campo dos estudos da ciência, tecnologia e sociedade, as investigações realizadas pela filósofa holandesa representam uma guinada para a prática, diferenciando-se do modo como tradicionalmente a teoria ator-rede se situa neste campo. As pesquisas de Mol se caracterizam pela afirmação do caráter performativo das práticas, o que a leva a problematizar os modos de conhecer e intervir das ciências sociais. Por fim são discutidos os alcances das noções de política ontológica e lógica do cuidado para as pesquisas em psicologia social.

Psicologia social; métodos de pesquisa; ciências sociais


El artículo presenta las principales aportaciones de la investigación realizada por el médica y filósofa, Annemarie Mol para la investigación en psicología social. En el campo de los estudios de la ciencia, la tecnología y la sociedad, las investigaciones efectuadas por el filósofa holandesa representan un giro a la práctica, que difieren en la forma tradicional de la teoría del actor-red se encuentra en este campo. Las investigacións de Mol se caracterizan por la afirmación del carácter performactivo de las prácticas, lo que a lleva a cuestionar las formas de conocer e intervenir en las ciencias sociales. Finalmente se discute el alcance de las nociones de la política ontológica y de la logica del cuidado a la investigación en psicología social.

Psicología social; metodología de la investigación; ciencias sociales


The paper presents the main contributions of the research undertaken by the physician and philosopher Annemarie Mol for research in social psychology. In the field of science, technology and society studies, the investigations conducted by the Dutch philosopher represent a practical turn, making a difference in the way in which, traditionally, actor-network theory lies in this field. Mol's research is characterized by the affirmation of practices performative character, which leads her to question the ways of knowing and intervening in social sciences. Finally we discuss the scope of the notions of ontological politics and logic of care to researches in social psychology.

Social psychology; research methodology; social sciences


ARTIGOS

Contribuições das investigações de Annemarie Mol para a psicologia social1 1 Apoio e financiamento: CNPq, FAPERJ, Pro-reitoria de Extensão/UFF e Pro-reitoria de Graduação/UFF.

Contributions of Annemarie Mol's investigations for social psychology

Contribuiciones de la investigación Annemarie Mol para la psicología social

Marcia Oliveira MoraesI; Ronald João Jacques ArendtII

IDocente do Programa de Pós-Graduação em Psicologia da UFF, bolsista de produtividade CNPq/2

IIProfessor titular do Instituto de Psicologia da UERJ, docente do Programa de Pós-Graduação em Psicologia Social da UERJ

Endereço para correspondência

RESUMO

O artigo apresenta as principais contribuições das investigações realizadas pela médica e filósofa Annemarie Mol para as pesquisas em psicologia social. No campo dos estudos da ciência, tecnologia e sociedade, as investigações realizadas pela filósofa holandesa representam uma guinada para a prática, diferenciando-se do modo como tradicionalmente a teoria ator-rede se situa neste campo. As pesquisas de Mol se caracterizam pela afirmação do caráter performativo das práticas, o que a leva a problematizar os modos de conhecer e intervir das ciências sociais. Por fim são discutidos os alcances das noções de política ontológica e lógica do cuidado para as pesquisas em psicologia social.

Palavras-chave: Psicologia social; métodos de pesquisa; ciências sociais.

ABSTRACT

The paper presents the main contributions of the research undertaken by the physician and philosopher Annemarie Mol for research in social psychology. In the field of science, technology and society studies, the investigations conducted by the Dutch philosopher represent a practical turn, making a difference in the way in which, traditionally, actor-network theory lies in this field. Mol's research is characterized by the affirmation of practices performative character, which leads her to question the ways of knowing and intervening in social sciences. Finally we discuss the scope of the notions of ontological politics and logic of care to researches in social psychology.

Key words: Social psychology; research methodology; social sciences.

RESUMEN

El artículo presenta las principales aportaciones de la investigación realizada por el médica y filósofa, Annemarie Mol para la investigación en psicología social. En el campo de los estudios de la ciencia, la tecnología y la sociedad, las investigaciones efectuadas por el filósofa holandesa representan un giro a la práctica, que difieren en la forma tradicional de la teoría del actor-red se encuentra en este campo. Las investigacións de Mol se caracterizan por la afirmación del carácter performactivo de las prácticas, lo que a lleva a cuestionar las formas de conocer e intervenir en las ciencias sociales. Finalmente se discute el alcance de las nociones de la política ontológica y de la logica del cuidado a la investigación en psicología social.

Palabras-clave: Psicología social; metodología de la investigación; ciencias sociales

Este texto tem como objetivo indicar possíveis contribuições das investigações propostas pela médica e filósofa holandesa Annemarie Mol (1999, 2002, 2008, 2010) para as pesquisas em psicologia social. Os trabalhos da autora se situam no vasto campo dos estudos de ciência, tecnologia e sociedade (estudos CTS). Neste campo a noção de rede é afirmada como uma ontologia de geometria variável. Para mais informações sobre este campo de estudos ver Law e Hassard (1999), Latour (2001, 2008a, 2008b) e Law (2008).

Voltando aos estudos CTS, trata-se de um campo de estudos que proliferou a partir dos anos 80 do século XX, reunindo autores de diferentes áreas e continentes. Um fio condutor que articula os trabalhos ligados aos estudos de CTS é a concepção de que os três domínios que nomeiam tal campo de estudos, quais sejam, ciência, tecnologia e sociedade, não são domínios separados e desarticulados, mas antes, são coproduzidos e entrelaçados através de associações heterogêneas que articulam humanos e não humanos. Assim, em poucas palavras, podemos afirmar que no campo dos estudos de CTS, o social não é considerado como algo dado, definido de antemão, ele não é senão o efeito de certos arranjos ou associações que reúnem elementos bastante díspares.

Nos trabalhos de Mol (1999, 2002, 2008, 2010) delimitaremos algumas noções afins ao campo dos estudos de CTS que nos parecem relevantes para o argumento que ora apresentamos, isto é, o da pertinência de tais proposições para a psicologia social. Assim, tomando por base os principais textos de Mol, destacamos as seguintes proposições, que consideramos capitais para a argumentação que faremos: a) Mol convoca as pesquisas em ciências sociais a darem uma guinada para a prática, isto é, a autora propõe que as ciências sociais se dediquem a investigar as práticas cotidianas; nos casos em que ela se dedica a pesquisar as práticas cotidianas de viver com diabetes, com arteriosclerose na perna, com anemia, etc., sem dúvida ela não está sozinha, e se pode fazê-lo, é na esteira de outros autores (Stengers, 2006; Law 2004; Latour, 2001, 2008a); b) ela tem concepção de que a realidade não é algo dado de antemão, mas é antes efeito das práticas, ou, para dizer com outras palavras, das práticas são performativas2 2 O termo enact foi utilizado por Mol (2002) para dizer que nenhum objeto existe sem estar articulado às práticas que o produzem e o fazem existir. Em inglês enact aponta para dois sentidos distintos: como encenar, representar um papel; e como fazer existir, promulgar, fazer, no sentido, por exemplo quando dizemos que "o congresso nacional promulgou (fez existir) uma nova lei" (Ver: http://dictionary.reference.com/browse/enact). Neste artigo traduzimos a palavra enact pela expressão "fazer existir". Em algumas passagens do texto traduzimos o sentido de enact fazendo uso da palavra performar, bem como de suas variações, performatividade, performativo. , isto é, das que fazem existir realidades; c) as realidades são múltiplas, heterogêneas e articulam sem cessar atores humanos e não humanos; d) como consequência, para a autora, conhecer não é questão de representar o real, mas envolve engajar-se, manejar e interferir nas práticas, ali, no ponto em que elas formam realidades. Se, nos trabalhos da filósofa holandesa, tomamos tais proposições como centrais, é porque estas nos parecem ser contribuições importantes para repensarmos as pesquisas em psicologia social.

Torna-se necessário retomar a utilização acima do termo "atores", para esclarecer que Latour (2001) utilizou-se do termo ator, ou actante, para indicar que os estudos ator-rede não tomam como ponto de partida as entidades que já compõem o mundo, mas antes, "enfatizam a natureza complexa e controvertida do que seja, para um ator, chegar à existência. O segredo é definir um ator com base naquilo que ele faz" (p. 346), seja ele humano ou não humano. Neste artigo, usamos a palavra "ator" com este sentido.

O presente artigo está organizado de modo a inicialmente apresentar uma breve caracterização do campo dos estudos de CTS, especialmente neles aplicando a teoria ator-rede (TAR). Optamos por fazer este breve mapeamento do campo por entendermos que as pesquisas de Mol (1999, 2002, 2008, 2010), assim como as de Moser (2000), Law (2004), Mol e Law (2003) e outros, realizaram uma importante torção nas propostas da teoria ator-rede, marcando, por esta via, uma inflexão peculiar no campo dos estudos de CTS. Em seguida, são discutidas as principais teses propostas por Mol em seus trabalhos. Por fim, tecemos algumas considerações sobre as possíveis articulações entre as proposições da autora e as pesquisas no campo da psicologia social. Para tais considerações finais, consideramos relevante discutir o sentido da política ontológica proposta por Mol, bem como o alcance de suas teses acerca da lógica do cuidado, em preferência à lógica da escolha.

2- BREVE CARACTERIZAÇÃO DO CAMO DOS ESTUDOS DE CTS, EM ESPECIAL DA TAR

Num recente texto o sociólogo inglês John Law (2007) apresentou uma história sucinta da TAR e dos seus desdobramentos contemporâneos. Ele iniciou seu relato procurando defini-la. A TAR é uma família disparatada de instrumentos material-semióticos e métodos de análise que tratam tudo nos mundos natural e social como efeitos continuamente gerados por redes de relações. Ela não é propriamente uma teoria, mas um conjunto de procedimentos sensíveis à complexidade desta rede de relações que contam histórias interessantes sobre elas e sobre o que nelas interfere. Ela visa estudá-las, explorá-las, descrevê-las e acompanhar a produção ou remodelação de todo o tipo de atores – o que inclui objetos, sujeitos, seres humanos, máquinas, animais, "natureza", ideias, organizações, desigualdades, escalas ou arranjos geográficos. Neste sentido, nada tem realidade ou forma fora da articulação destas relações.

Law (2007, 2009) procurou então mostrar como a história da TAR pode ser contada através de uma sucessão de narrativas empiricamente fundamentadas. Não caberia aqui entrar no detalhe das histórias contadas por Law (histórias de casos da engenharia, filosofia das ciências, biologia, estudos científicos, que exploram vínculos estranhos e surpreendentes entre barcos, bacilos, moluscos ou textos científicos), mas registrar, em todos os casos, a atenção dada à arquitetura dos sistemas, à materialidade heterogênea das relações, à sua precariedade no tempo e no espaço, à indiferença dos pesquisadores quanto à verdade ou não do que está sendo investigado, mas a uma decisiva ênfase naquilo que é produzido pela prática, no interesse pela circulação destas produções e pela importância dada ao estudo exemplar de casos particulares.

É possível afirmar algo sobre as regularidades estabilizadoras da rede de relações ou permanecemos sempre com a descrição de caso por caso? Enquanto a sociologia usualmente se preocupou com os porquês, a TAR, desde a sua consolidação, a partir dos anos 90 do século passado, buscou explorar como a lógica das configurações poderia levar a uma relativa estabilidade.

Não obstante, o campo dos estudos CTS, ainda que fortemente marcado pelas pesquisas empreendidas no marco da teoria ator-rede, é também definido por certa diáspora. Moser (2000) foi enfática em delimitar a importância de tal diáspora na medida em que, por meio dela, há uma inflexão peculiar nos estudos de CTS. Como dito, em muitas das pesquisas empreendidas pela teoria ator-rede, o que estava em jogo era acompanhar como os objetos chegavam a se estabilizar e a se tornar duráveis em certas redes (Latour, 2001). Tal modo de investigação, sem dúvida, foi decisivo para uma série de pesquisas que tiveram lugar nos estudos de CTS e foi crucial também para sublinhar a pertinência das conexões entre humanos e não humanos na produção de realidades; porém nos últimos anos Mol (2002, 2008, 2010), Moser (2000), Law (2004), Mol e Law (2003) abriram um campo de investigação marcado por diferenças com relação àquela proposta inicial dos estudos de CTS, empreendida sob inspiração da teoria ator-rede, uma vez que, para esses autores, não se trata mais de acompanhar como os objetos se estabilizam em redes, mas sim, de lidar com um processo mais precário, contínuo, fluido, aberto, um modo nunca acabado de fazer existirem realidades. Neste último caso, a "construção de uma rede é apenas uma das possibilidades" entre outras (Moser, 2006, p. 388).

Desse modo, algo que Law (2007, 2009) considerou "sísmico" ocorre neste campo de estudos e pesquisas: o interesse de certos pesquisadores irá se dirigir não tanto à construção das redes heterogêneas, mas à maneira como através delas as realidades foram geradas, à forma como foram colocadas em cena através das práticas. A metáfora da construção dá então lugar à da performatividade. O termo "diáspora", utilizado por Law (2009), enfatiza esta dispersão de novas ideias, que terminam por colocar novos problemas e prioridades metodológicas aos pesquisadores da TAR. Em um texto mais recente (Law, 2009) o autor retomou este argumento a partir de um viés um pouco diferente. Se os métodos e técnicas em ciência e ciência social que buscavam descrever a realidade atuavam na suposição de que, de uma maneira ou de outra, a realidade tinha uma forma definida, sendo substancial, independente e anterior aos instrumentos utilizados para inquiri-la, é possível afirmar que também esta realidade foi feita desta maneira através das práticas de pesquisa. Dito de outro modo, a própria suposição de que há uma só e única realidade, um mundo lá fora a ser conhecido e desvelado, não é senão um efeito de certas práticas de pesquisa. Supor a existência de tal realidade foi, para Law (2004), a mais crucial característica do "realismo euro-americano" que marcou e marca muitas das pesquisas em ciências sociais. A convocação de Law (2004) teve o sentido de que é necessário subverter este realismo no campo das ciências sociais, entendendo o autor que o social é antes um verbo do que um substantivo, um modo de ordenar coisas heterogêneas. Tal modo de ordenar exige esforço, trabalho contínuo e cotidiano a ser feito tanto pelas práticas de pesquisa em ciências sociais quanto pelas práticas cotidianas e ordinárias. Assim, para esse autor, a realidade não é algo dado, mas algo que é formado nas práticas cotidianas.

Antes de prosseguir, um comentário teórico: a fase construtivista da TAR a que se refere Law (2007, 2009) pode ser associada ao trabalho de Bruno Latour, cujos interesses sempre foram mais epistemológicos do que os de Law. Latour (2008a; 2008b) se preocupou em investigar como foi gerido o conhecimento não moderno – na articulação de humanos com não humanos em redes de relações, nas alianças possíveis de estabelecer no processo de investigação, na forma em que caminha esta investigação. Considera-se que Latour (2001) define como não moderno o conhecimento que se recusa tomar como ponto de partida a separação entre natureza e sociedade, afirmando a noção de coletivo para referir-se à associação entre humanos e não humanos que compõe o mundo em que vivemos. Já a fase "performativa" pode ser associada à "virada da prática" que se reporta ao trabalho de autores como Isabelle Stengers (2006) ou John Law (2004). O trabalho de Annemarie Mol, que analisaremos na próxima seção, segue esta segunda orientação. Nele emergem novos conceitos, novas preocupações: são necessárias novas estratégias metodológicas para lidar com o passageiro, o distribuído, o múltiplo, o não causal, o caótico, o complexo (Law, 2004). O movimento é "sísmico" porque abre uma perspectiva até então inusitada na TAR: se os pesquisadores fazem, criam as realidades que investigam, se são as práticas dos atores que colocam o mundo em cena, torna-se possível interferir nesta criação e encenar outros mundos. A nova orientação é, assim, uma nova política de intervenção, uma política ontológica. Juntar estes termos – política e ontologia – significa dizer que a realidade é efeito, é "performada". Significa também dizer que o que conta como realidade envolve negociação e trabalho. Assim, o que ganha força é a possibilidade de intervenção, de interferir na composição de mundos, fazendo proliferar versões onde se contem mais e mais atores, onde nem sempre o que se estabiliza é o que interessa. É justamente nesta inflexão dos estudos de CTS que se pode situar o trabalho de Mol (1999, 2002, 2008, 2010) e de outros autores.

3- AS PESQUISAS DE ANNEMARIE MOL NO CAMPO DA SAÚDE: DA ESCOLHA AO CUIDADO

Em um de seus trabalhos mais recentes Mol (2008) dedicou-se a estudar a maneira como se desdobra o tratamento de doentes com diabete num hospital holandês. Mais precisamente, ela estava interessada em descrever como se articulavam pacientes, enfermeiros, médicos, dispositivos técnicos, substâncias químicas entre outros atores no espaço físico do hospital e, para além deste, no cotidiano dos pacientes envolvidos no tratamento. A ela interessou acompanhar o que faziam estes atores ao se articularem entre si e quais seriam as consequências destas articulações no cotidiano dos pacientes. Seu interesse não recaia tanto na descrição deste fazer, mas principalmente na maneira como a realidade era "performada" pelos atores, isto é, como estes se uniam para manipular e colocar em cena tal realidade. Mol vem há anos publicando pesquisas que se caracterizam por este mergulho nas práticas médicas. Assim, apenas para nos situarmos em relação a seu trabalho, podemos citar dois outros estudos nesta linha de investigação: um sobre a anemia (Mol, 1999) e um sobre a arteriosclerose das pernas inferiores (Mol, 2002). No primeiro texto a autora argumentou que não existe uma doença que possamos chamar de anemia, e sim, diferentes formas de "performá-la": na consulta clínica, em que o médico avalia a cor das pálpebras do paciente; nas rotinas laboratoriais, que medem os níveis de hemoglobina do sangue; no método "patofisiológico", que estabelece o nível adequado de hemoglobina suficiente para transportar corretamente o oxigênio pelo corpo e verifica se o indivíduo estará acima ou abaixo deste nível. Ocorre que cada realidade "performada" dispara um mundo de articulações diferentes: emerge uma multiplicidade de mundos que podem ou não se relacionar entre si. No trabalho sobre arteriosclerose (Mol, 2002) esta multiplicidade ganha contornos cada vez mais complicados. Tal como no estudo sobre o diabetes, ao qual nos dedicaremos a seguir, Mol (2002) se embrenhou no labirinto das práticas de um hospital, acompanhando as formas como a arteriosclerose de membros inferiores era abordada nos diferentes espaços de tratamento disponibilizados, para verificar como o paciente era recebido no consultório clínico, como a doença era concebida no setor de patologia, no laboratório, no centro cirúrgico, no setor de nutrição e como eram avaliados os tratamentos preventivos, as intervenções cirúrgicas, as análises de tecidos em vida dos pacientes ou após sua morte. Sem dúvida, cabe a nós perguntar: por que afinal acompanhar tais práticas? Logo no início do primeiro capítulo Mol (2002) considerou que, mesmo havendo grande quantidade de material empírico em seu livro, este não constitui um relato de campo, mas, como dizia ela, é um "exercício de filosofia empírica" [itálico da autora], parte de uma "narrativa filosófica":

Se práticas ganham o primeiro plano não há mais um simples objeto passivo no meio, aguardando ser visto do ponto de vista de séries, aparentemente sem fim, Ao invés disto, objetos aparecem - e desaparecem nas práticas em que são manipulados; e como o objeto de manipulação tende a diferenciar-se entre uma prática e outra, a realidade multiplica. O corpo, o paciente, a doença, o doutor, os técnicos, a tecnologia: todos estes são mais de um, mais do que singulares. Isto levanta a questão de como eles estão relacionados, pois, mesmo se os objetos diferem entre uma prática e outra, há relações entre estas práticas. Logo, longe de necessariamente cair em fragmentos, objetos múltiplos tendem a ser, de alguma forma, coerentes entre si. Ficar atento à multiplicidade da realidade abre a possibilidade de estudar esta realização notável (Mol, 2002, p. 5, tradução nossa).

O interesse não deve ser focado em questões epistemológicas. Mol (2002) não desejava utilizar a filosofia para estabelecer as condições de um conhecimento verdadeiro. A pergunta não seria mais "como encontrar a verdade", mas "como os objetos são manejados na prática". Com este deslocamento "a filosofia do conhecimento adquire um interesse etnográfico [itálico da autora] em práticas do conhecimento" (Mol, 2002, p. 5, tradução nossa). Afirma a autora:

Uma nova série de questões emerge. Os objetos manipulados na prática não são os mesmos de um local para o outro: assim, como deve proceder a coordenação entre tais objetos? E como diferentes objetos que respondem pelo mesmo nome evitam choques ou confrontações explosivas? Poderia ser que, mesmo, havendo tensões entre eles, várias versões de um objeto às vezes pudessem depender uns dos outros? (Mol, 2002, p. 6, tradução nossa).

É neste sentido que a autora propõe que passemos de uma investigação epistemológica da realidade, cujo viés seria, em última instância, conhecer uma realidade dada, para uma pesquisa praxiográfica, pois nas práticas os objetos são feitos, o que indica que é apenas em ação – aqui e ali – que alguma coisa é, que alguma coisa passa a existir. O pesquisador interessado em investigar o diabetes ou a arteriosclerose, como afirma Mol (1999, 2002, 2008, 2010), jamais se afasta das práticas nas quais tais doenças são feitas. Seu trabalho consiste em analisar os modos pelos quais estas doenças vão sendo produzidas e ordenadas, em arranjos múltiplos e heterogêneos. A questão que interessa ao pesquisador passa a ser a de investigar as conexões, sempre parciais e locais, entre tais realidades e objetos: eles ora se coordenam, ora se chocam, ora um se sobrepõem um ao outro.

No texto The Logic of Care (Mol, 2008), embora a discussão sobre a coordenação entre objetos permaneça, a autora efetuou um deslocamento na análise destes possíveis choques e confrontações. No relato de sua pesquisa ela não buscava evitar, ao contrário, levar às últimas consequências o contraste entre dois objetos em estudo, entre duas formas de encaminhar o tratamento da doença do diabetes, o qual, segundo a análise da autora, fundamenta-se em duas lógicas opostas, que irão configurar dois mundos totalmente distintos: um tratamento que se funda na lógica da escolha e outro que se funda na lógica do cuidado.

É importante precisar o uso que Mol (2008) fez dos termos escolha e cuidado - isto será importante também para a apropriação que faremos dos argumentos de Mol para a psicologia. No prólogo do seu livro, a autora apresentou três exemplos que merecem ser sintetizados. No primeiro, Mol descreveu uma discussão sobre fertilização in vitro transmitida na televisão holandesa, nos anos 80. Como espectadora, Mol ficou perplexa com o rumo da discussão. O ginecologista entrevistado falou de sua paciente que se apresentava enfim como "sofredora e orgulhosa". Ela desejava ardentemente ter um filho e isto era sua escolha. No segundo exemplo, a filósofa holandesa relatou o caso debatido pelo staff de um hospital psiquiátrico no qual um paciente internado se recusava, numa certa manhã, a ir tomar o café da manhã. Deveria a equipe médica deixá-lo sem o café da manhã porque isto fora sua escolha? No terceiro exemplo, a autora contou que, grávida e com mais de 35 anos, foi submeter-se a um exame para prevenção de fetos com Síndrome de Down. Ela estava ciente de que num pequeno número de casos a reação ao exame poderia provocar um aborto. Ao receber a injeção comentou apreensiva: "Espero que tudo dê certo". A resposta que ouviu da enfermeira foi: "Ora, foi sua escolha".

Comentando estes exemplos, Mol (2008) observou que no primeiro caso nada foi dito sobre os hormônios injetados nas mulheres, sobre suas vidas ordenadas em torno da ovulação, sobre suas expectativas em relação a uma meta dificilmente atingível; que no segundo caso, seguindo a observação de um psicoterapeuta, membro da equipe, o comportamento do paciente poderia se dever ao fato de sua esposa não o ter visitado ou ao medo que sentia de jamais receber alta, pois alguém que não deseja levantar-se da cama necessita cuidados, e que, no terceiro caso, o resultado do pequeno diálogo com a enfermeira teria sido totalmente outro se ela respondesse "Vamos torcer para tudo dar certo" ou "A maioria das vezes não há problema" ou ainda: "Você está preocupada?". A enfermeira, concluiu Mol, poderia ter utilizado o momento para encorajá-la e dizer "Vá para casa, tenha uma tarde calma". Nos três casos relatados, duas lógicas diferentes são contrastadas: uma que traz o problema para o indivíduo, interiorizando sua decisão, e uma que não nega que decisões existam, mas que dirige as possíveis soluções aos problemas para uma ação coletiva, mais distribuída.

Mol (2008) associou o ideal da escolha individual no âmbito médico a um modo de ser típico da sociedade ocidental desde o Iluminismo. Enquanto Deus, a tradição e o coletivo dão sentido e coerência à vida dos "outros", "nós ocidentais, por contraste, somos supostos de estar livres de tais laços restritivos" (Mol, 2008, p. 4, tradução nossa). O que conta, para este modo simplificado de ver as coisas "é que 'nós' somos individualizados e autônomos" (Mol, 2008, p. 4, tradução nossa). A menção de Mol ao Ocidente lembra a análise de Law (2004) quando o autor mencionou que o senso comum dos ocidentais adota, sem grandes questionamentos, o "realismo ou a metafísica euro-americana". Como dito, esta abordagem assume que a realidade em que vivemos é independente e anterior a nossas ações e percepções, que ela é constituída por relações claras, definidas e povoada por objetos singulares que permanecem os mesmos, seja qual for o lugar de sua percepção. Law (2004) advertiu que tais assunções são, elas também, produzidas em certas práticas "perfomativas", podendo assumir valor de realidade; no entanto, o que o autor salienta é que esta não é a única realidade que existe, não é o único modo de "performar" e fazer existir (enact) a realidade. Ao avançar no desenvolvimento deste argumento, Law ( 2004) nos convidou a sermos contraintuitivos: como Mol (2008), ele considerou que um mergulho nas práticas faz existirem múltiplas realidades a serem investigadas por metodologias não convencionais. Neste sentido de buscar um caminho contraintuitivo Mol (2008) perguntou: "Somos 'nós', no 'Ocidente' efetivamente indivíduos autônomos?" (p. 4, tradução nossa); e sua resposta veio precisa: "Não, 'nós' não somos. (...) 'Nós', no 'Ocidente' podemos não ter tantas 'escolhas' quanto pensamos." (p. 4, tradução nossa). Contra esta versão simplificada do Ocidente, Mol sustentou que ele nunca foi homogêneo. "Ao lado do ideal da 'escolha', há outros circulando: por exemplo, solidariedade, justiça, respeito mútuo e cuidado." (Mol, 2008, p. 5, tradução nossa).

Tendo precisado o sentido dado por Mol (2008) aos termos escolha e cuidado, resta avaliar o sentido dado ao termo lógica. Mol alertou que a escolha do termo para falar de práticas poderia sugerir uma coerência definida de antemão, a qual implicasse em formular regras racionais de pensamento que possibilitassem gerar conclusões justificadas deduzidas de premissas iniciais. Não se trata disto, insiste ela: coisas inesperadas ocorrem e qualquer prática "envolve um bocado de criatividade" (Mol, 2008, p. 9, tradução nossa). Mol busca algo que ela chama de estilo. Este seria

um convite à exploração do que é apropriado ou lógico a ser feito em algum lugar ou situação e o que não o é. Este busca uma coerência local, frágil e ainda assim pertinente. Tal coerência não é necessariamente óbvia para as pessoas envolvidas. Não necessita nem mesmo estar disponível para elas. Pode estar implícita: incorporada em práticas, prédios, hábitos e máquinas (Mol, 2008, p. 10, tradução nossa).

Quando uma filósofa deixa seus estudos e mergulha na prática, ela se "deixa surpreender" por esta prática. Não se trata de colecionar exemplos adequados, mas de aprender novas lições:

Bons estudos de caso inspiram a teoria, moldam ideias e alteram conceitos. Eles não levam a conclusões que sejam universalmente válidas, mas eles também não reivindicam isto. Ao contrário, as lições aprendidas são bastante específicas. Se mergulhamos suficientemente num caso, poderemos obter o sentido do que seria aceitável, desejável ou solicitado num cenário particular. Isto não significa que seja possível predizer o que ocorre em outro lugar ou em novas situações. Lidar com o diferente sempre requer trabalho, e a lógica não funciona. Eles não são atores, mas padrões. Logo, a lógica do cuidado aqui articulada apenas se ajusta ao caso estudado. Não se aplica em qualquer lugar. Isto não é dizer que sua relevância seja local. Um caso de estudo é de maior interesse quando se torna parte de uma trajetória. Ele oferece pontos de contraste, comparação ou referência para outros locais e situações. Ele não nos diz o que esperar – ou fazer – em qualquer outro lugar, mas sugere questões pertinentes. Estudos de caso aumentam nossa sensibilidade. É a especificidade de um caso meticulosamente estudado que nos permite desenredar o que permanece o mesmo e o que muda de uma situação à outra (Mol, 2008, p. 11, tradução nossa).

Esta opção metodológica por não buscar conclusões universalmente válidas nos seus estudos de caso se exprime numa frase perturbadora: "Quero evitar normalidades não marcadas" (Mol, 2008, p. 13, tradução nossa):

Presumir que você ou eu sejamos saudáveis iria contra o cerne do que estou buscando dizer. Na lógica da escolha, "doença" é uma estranha exceção, não tem nada a ver "conosco", enquanto a lógica do cuidado parte da corporeidade e fragilidade da vida (Mol, 2008, p. 13, tradução nossa).

Desse modo, qualquer prática cotidiana de viver a vida - no caso em tela, a vida com diabetes -, é marcada por seringas, insulina, consultas médicas, alimentação, amores, filhos, histórias, desejos. Viver a vida é um exercício local e ordenado em certas práticas que exigem esforço, práticas que, como sublinhou Mol (2008, 2010), são crônicas, isto é, devem ser tecidas dia após dia. É justamente por isso que a doença não é uma exceção, mas algo que é parte do viver, que se associa ao corpo que nós fazemos dia a dia. Assim é que Mol (2008) provocou o leitor a ler o seu livro de modo situado, encarnado no corpo frágil e precário que somos todos nós. Ela se dirigiu ao leitor (a nós) de forma incisiva:

Vou utilizar todos os meus recursos retóricos para seduzir você – qualquer que seja o teu diagnóstico, para que você se aproprie da posição do paciente no decorrer de sua leitura. O "você" não especificado neste livro tende a ser alguém com diabetes. Tenha ou não você esta doença, eu amavelmente o convido a imaginar-se envolvido nas situações descritas: como um paciente (Mol, 2008, p. 13, tradução nossa).

4- A PSICOLOGIA SOCIAL ENTRE A ESCOLHA E O CUIDADO : CONSIDERAÇÕES FINAIS

É neste sentido que a imersão nas práticas de cuidado no tratamento do diabetes poderia interessar a psicólogos. Por quê? É que Mol quer "explorar as maneiras de dar forma à boa vida" (Mol, 2008, p. 47, tradução nossa), e explorar como uma boa vida pode ser vivida - observa ela - tal como o diabetes, é algo crônico. Na conclusão do seu livro, Mol observou ser improvável que apenas a vida com diabetes escape ao que acontece no "Ocidente". Algo semelhante poderia ser feito em outros lugares e situações, numa variedade de coletivos em transformação, como ela afirmava (Mol, 2008, p. 102). Então ela deu uma sequência de exemplos de atividades que poderiam ser consideradas "crônicas", no sentido de que nelas não se pode impor um comportamento "normal", não marcado:

O que mais poderia exceder à lógica da escolha? Lutar. Construir. Filmar. Educar crianças. Fazer programas de televisão. Engajar-se em pesquisa científica. Amar. Cozinhar. Limpar. Escrever. Tudo tem seu próprio estilo - ou melhor, variados estilos. Numerosas lógicas aguardam para serem exploradas (Mol, 2008, p. 106, tradução nossa).

A psicologia incluiria inúmeros modos de se comportar, inúmeras lógicas a serem exploradas a partir do ponto de vista que excederia à lógica da escolha (por exemplo, sofrer; ser feliz, ser alegre, ser triste; afetar; aprender; perceber; compreender; brincar). Entendemos que a psicologia social poderia ser pensada tendo-se como parâmetro uma lógica do cuidado.

Não temos dúvida de que as proposições de Mol (1999, 2002, 2008, 2010) retomaram algumas ideias que perpassam o campo da psicologia há bastante tempo. O modo como a autora problematiza a questão da normalidade retoma a noção de normatividade proposta por Canguilhem (1976), para quem "vida é experiência, quer dizer, improvisação, utilização de ocorrências; é tentativa em todo seu sentido - daí o fato ao mesmo tempo massivo e com frequência mal conhecido, de que a vida tolera monstruosidades. Não há máquina monstro." (Canguilhem, 1976, p. 138, tradução nossa).

Daí decorre, para Canguilhem (1976), o caráter irredutível da vida diante de qualquer mecanicismo ou reducionismo. A vida é variação, capacidade de ser diferente diante das exigências do meio. Por isso, para Canguilhem, é perturbadora qualquer concepção de vida que a afaste dessa dimensão de experimentação, de tateio, de reinvenção das suas próprias normas. Não nos parece impróprio afirmar que é justamente dessa concepção de vida que Mol (2008) se serviu para discutir o diabetes, ou antes, o viver com diabetes. No entanto, ainda que seja possível estabelecer este elo entre as pesquisas de Mol (2002, 2008, 2010) e aquelas de Canguilhem, elo que de resto a própria Mol (1998) reconheceu, é preciso destacar que a proposta da autora está implicada de modo inequívoco com a praxiografia, com a guinada para a prática que explicitamos acima; e é neste ponto que vemos a radicalidade e a novidade de suas pesquisas.

Certamente, falar de prática no viés que vimos discutindo ao longo deste texto também pode nos levar a outros autores cujas ideias marcaram a psicologia justamente neste domínio. Madelrieux (2008) fez uma interessante apresentação das teses do psicólogo e filósofo americano William James e deixou claro que o projeto de James foi precisamente elaborar uma filosofia empírica que recusasse com rigor qualquer tipo de transcendentalismo. Desde Platão, Descartes e Kant instâncias transcendentais impõem critérios prévios à nossa compreensão (das ideias platônicas aos a priori kantianos, passando pela razão cartesiana). O empirismo de James era radical no sentido de recusar qualquer argumento que viesse fora do âmbito da experiência e das práticas dos indivíduos; assim, para ele, seria totalmente fora de propósito uma validade obtida independentemente de nosso ponto de vista. É neste sentido que as propostas de Annemarie Mol se ajustam com precisão a esta atitude empirista, e é neste sentido que se deve interpretar sua postura incisiva em recusar qualquer "normalidade não marcada". Esta recusa nos diz duas coisas concomitantemente: que a normalidade estatística não pode ser considerada em termos gerais e universais (não marcada) e que cada indivíduo inserido em uma situação particular nunca é "normal" no sentido acima, mas é antes marcado por esta situação. Mesmo quando Mol (2008) avaliou dados estatísticos, ela o fez com a maior precaução. Os valores-alvo (target-values) de níveis de insulina a serem respeitados pelos diabéticos seriam apenas referências provisórias a serem constantemente reavaliadas e encarnadas nas condições possíveis de serem vividas por cada vida, dadas as injunções e associações que a constituem. Tais valores jamais são tomados como dados externos a serem aceitos incondicionalmente ou impostos "de fora" a uma vida que se constitui cotidianamente, cronicamente, através das mais díspares e heterogêneas associações. Uma vida - a autora não se cansa de afirmá-lo -, que exige esforço para manter-se coesa.

Numa disciplina moderna como a psicologia, nascida a partir de referenciais de normalização, as posições de Mol (1999, 2002, 2008, 2010) colocaram fogo no palheiro. As teses da médica e filósofa holandesa nos levam a reexplorar a possibilidade de pensar as intervenções em psicologia a partir de alguns pontos: a) a recusa a qualquer concepção de normalidade não marcada; b) a afirmação da lógica do cuidado em detrimento da lógica da escolha, entendendo-se - como dito acima - que a lógica do cuidado implica uma ação local e mais distribuída, que agencia mais e mais atores. A lógica do cuidado implica considerar o viver como algo crônico, que se faz dia a dia através das conexões locais, situadas, encarnadas, capazes de produzir estes coletivos, estes amálgamas de coisas tão estranhas e díspares quanto o amor de um pai cujas pernas são tomadas pela arteriosclerose, e que, mesmo assim, sobe cinco andares de um prédio para visitar as filhas e os netos, ao passo que, de posse apenas dos exames laboratoriais realizados nestas pernas adoecidas, um médico diria: "Este homem não caminha mais do que 500 metros". Que arteriosclerose se produz neste arranjo, aí, no seio destas práticas onde se reúnem escadas, amor, exames clínicos, filhos, netos, estatística, dores? Que intervenções realizar aí, neste caso, nesta situação, neste coletivo? Se pensarmos por este viés, dizemos que o social que se associa à expressão "psicologia social" não é algo dado de antemão, tampouco se caracteriza como aquilo sobre o quê a psicologia se debruça, o seu objeto. O social é verbo, é ação situada - ação que se produz nas práticas cotidianas, aí incluídas, sem dúvida, o fazer da psicologia. Tais considerações nos levam inevitavelmente ao próximo item: c) a compreensão de que os métodos de pesquisa são performativos, produzem realidades. O que nos faz entender que a discussão de método de pesquisa não é tanto uma questão epistemológica, mas acima de tudo, política. O que está em jogo é interrogar-nos: em que mundo queremos viver? Quem e o quê conta no mundo que engendramos com nossas investigações?; d) se a realidade é produzida, a convocação é a de intervir; ou seja, se o mundo é produzido, é possível fazê-lo através de outras associações, com outros atores? Nos pontos de tomada de decisão, nos lugares onde o psicólogo é convocado a agir, o quê e quem conta na decisão a ser tomada? O desafio que se abre é o de situar a nossa prática de psicólogos, profissionais e pesquisadores, no seio da política ontológica.

Recebido em 07/05/2012

Aceito em 13/08/2012

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  • Endereço para correspondência
    Universidade Federal Fluminense, Instituto de Ciências Humanas e Filosofia, Departamento de Psicologia
    Campus do Gragoatá, bloco O, 2º andar
    Niterói/RJ, Brasil. CEP: 24210-350
    E-mail:
  • 1
    Apoio e financiamento: CNPq, FAPERJ, Pro-reitoria de Extensão/UFF e Pro-reitoria de Graduação/UFF.
  • 2
    O termo enact foi utilizado por Mol (2002) para dizer que nenhum objeto existe sem estar articulado às práticas que o produzem e o fazem existir. Em inglês enact aponta para dois sentidos distintos: como encenar, representar um papel; e como fazer existir, promulgar, fazer, no sentido, por exemplo quando dizemos que "o congresso nacional promulgou (fez existir) uma nova lei" (Ver:
    http://dictionary.reference.com/browse/enact). Neste artigo traduzimos a palavra enact pela expressão "fazer existir". Em algumas passagens do texto traduzimos o sentido de enact fazendo uso da palavra performar, bem como de suas variações, performatividade, performativo.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    29 Nov 2013
  • Data do Fascículo
    Jun 2013

Histórico

  • Recebido
    07 Maio 2012
  • Aceito
    13 Ago 2012
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