O que Freud dizia sobre as mulheres?

RESENHA

O que Freud dizia sobre as mulheres?

Marcos Leandro KlipanI

I Mestre em Psicologia pela Universidade Estadual de Maringá, doutorando pela Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita, campus Assis-SP

Endereço para correspondência

Produzir uma tese acadêmica que versa sobre Psicanálise pode, a princípio, suscitar questões como, por exemplo: a academia e a Psicanálise se encontrariam exclusivamente para solucionar questões teóricas (epistemológicas) desta última; mais um retorno a Freud pode ser desnecessário; a experiência clínica estaria apartada das construções acadêmicas - etc. Nada mais longe da realidade, como nos deixa bem claro Renato Mezan (2002), que discorre muito bem sobre a produção psicanalítica no campo da pós-graduação a partir da rica experiência desse autor nesse campo. Esta constatação de Mezan fica ainda mais lúcida quando vamos ao encontro de O que Freud dizia sobre as mulheres, livro de José Artur Molina publicado em 2011 que deriva de sua tese homônima de doutorado. Afinal, então, o que Freud dizia?

O livro de Molina é um desses exemplos que transitam com extrema qualidade entre a experiência clínica, a produção acadêmica e a criação artística, pois esse autor consegue imprimir n estilo de seu texto a leveza e a profundidade típicas das obras literárias de romances, algo que ainda é inovador na dureza da objetividade dos textos acadêmicos; e faz isto sem perder a natureza de tese, que foi a pretensão desse autor ao realizar sua pesquisa. A qualidade maior está, então, na sutileza dessa escrita - assim como Freud um dia nos ensinou ao inventar esse estilo de escrita acadêmica, que lhe valeu um prêmio literário.

Sobre a qualidade da tese em si, Molina se debruça em um dos principais mal-estares da psicanálise: o feminino. Se por um lado o criador da psicanálise cria algo revolucionário, que é ouvir o desejo íntimo e obscuro (o inconsciente), inclusive aquele que deriva das mulheres, por outro, lado Freud se mantém extremamente conservador ao teorizar sobre a construção do sujeito feminino, mantendo-se muito fiel à tradição falocêntrica milenar que perpassava o mundo europeu de sua época. Isto fica muito evidente em suas construções teóricas acerca do sujeito feminino que o autor expõe em vários momentos de sua obra, com especial destaque às suas famosas conferências. O feminino, para Freud, seria um derivado enigmático de uma trilha principal, o masculino. Seu principal eixo teórico para compreensão das neuroses ou das "normalidades" reside no seu famoso complexo de Édipo, uma escolha inovadora, por procurar na literatura a compreensão da condição humana, mas ao mesmo tempo conservadora, quando pensa esse Édipo no campo das mulheres, que ficam, então, como um ser que não se completaria nessa passagem, guardando sempre em si um mal-estar anticivilizatório em seus rancores e invejas.

É tamanha a dificuldade de pensar esse universo que lhe é alteritário, que nas partes finais de sua obra Freud nos sugere procurar nos artistas e nos poetas respostas mais verdadeiras sobre a feminilidade, para tentar superar aquilo que a ciência conseguira dizer até então.

É exatamente para atender a esse conselho do velho Freud que José Artur Molina estrutura seu trabalho buscando não somente a ciência psicanalítica, mas também a arte. Seu livro se constitui de seis capítulos.

Nos dois primeiros capítulos fala sobre a história e a política de Viena fin de sciècle, berço da invenção da Psicanálise. Ali Molina nos dá a dimensão de um momento de passagem de época em que um império que ao mesmo tempo se abre para o novo - afinal, Viena era, de certa forma, uma capital cultural - e resiste radicalmente às novas formas de pensamento, construindo, algumas décadas mais tarde, um modelo totalitário como tentativa de manter ainda uma estrutura social verticalizada.

O terceiro capítulo do livro é dedicado a discorrer sobre algumas mulheres-pacientes que ajudaram e intrigaram Freud quanto à condição humana, indo muito além daquilo que possa se situar apenas no campo da histeria ou de qualquer outra psicopatologia. Neste sentido, Molina busca articular e contextualizar as demandas dessas mulheres com a posição que Freud assumia ali.

O quarto capítulo versa sobre as mulheres de Arthur Schnitzler, escritor contemporâneo de Freud e lido por este, que toma a mulher como protagonista de sua obra, imprimindo aquele realismo sobre a alma humana que Freud entendia como um alter ego de suas experiências clínicas, só que na literatura.

O quinto capítulo é dedicado à obra de Gustav Klimt, que, assim como Freud, também não foi compreendido pela tradição acadêmica e ficou recluso em caminhos paralelos ao da academia hegemônica; mas, diferentemente de Schnitzler, Freud não se aproxima da obra de Klimt, do mesmo modo que ocorreu entre Freud e a obra de surrealistas como Dali e Breton, pois, neste sentido, Freud preferia os clássicos. Não obstante, Klimt também revoluciona o campo da arte e da estética a partir de um personagem protagonista semelhante ao de Freud: a mulher. Esse autor revela uma face bem diferente daquela estabelecida nesse período vitoriano: a da mulher submissa ao matrimônio e seus desígnios. Aliás, Klimt revela todas as faces possíveis: a santa, a sedutora, a prostituta, a louca, etc. com cenas que invocavam e apresentavam o nu, o sexo, o desejo. Esse novo estilo chocava a candura e os ideais vitorianos e toda a hipocrisia neles contida - um realismo que Freud conheceu ao escutar o íntimo de seus e, principalmente, de suas pacientes.

O sexto capítulo é uma síntese e articulação dessas três obras visitadas. Nesta parte da obra as mulheres de Viena desse período são compreendidas como um sintoma de uma época. Aqui devemos frisar essa palavra: sintoma - porque a grande revolução trazida pela psicanálise é ter reinventado uma clínica; de ter ido além de uma psiquiatria normativa e classificatória e ter se preocupado com aquilo que seu paciente tinha a dizer, mesmo que este não soubesse exatamente o quê. Neste sentido, sintoma em psicanálise passa a ter o status de um produto derivado de uma rede de significantes que revelam um conflito latente que impulsiona para a mudança ou se trava em uma repetição. As mulheres de Viena fin de sciècle eram, assim, o sintoma de uma época que estava por terminar. Elas padeciam em sofrimento e evidenciavam uma tensão no ar de desejos que começavam a tomar outros rumos.

Apesar de ter inventado um espaço revolucionário para se ouvir e cuidar desse sintoma - não somente de suas mulheres pacientes, mas de sua época também -, Freud é filho de seu tempo. Como nos indica Renato Mezan - que segue Jean Laplanche -, a criação é atravessada pelo inconsciente de seu criador e, com o tal, pode sofrer as mesmas resistências deste. No caso do feminino contado por Freud, vemos que os recalcamentos desse autor - e também de sua época - buscavam refrear aquilo mesmo que haviam inventado: as mil faces do desejo que o feminino tão bem podia exprimir. Neste sentido, a contribuição que José Artur Molina nos traz se reverbera muito além dos muros da academia ou da psicanálise, mas serve principalmente para pensar a vida no contemporâneo, que, inegavelmente, cada vez se baseia no desejo mais do que na tradição.

Recebido em 17/08/2012

Aceito em 21/12/2012

  • Molina, J. A. (2011) O que Freud dizia sobre as mulheres. São Paulo: Cultura Acadêmica.
  • Mezan, R. (2002) Psicanálise e pós-graduação: notas, exemplos, reflexos. IN: Mezan, R. Interfaces da Psicanálise. São Paulo: Companhia das Letras.

  • Endereço para correspondência
    Departamento de Psicologia, Universidade Estadual de Maringá - Av. Colombo, 5790
    CEP 87.020-900, Maringá-PR.
    E-mail:

Publication Dates

  • Publication in this collection
    23 June 2015
  • Date of issue
    Sept 2013
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