Abuso sexual e sociometria: um estudo dos vínculos afetivos em famílias incestuosas

Sexual abuse and sociometry: a study of affective bonds in incestuous families

Abuso sexual y sociometría: un estudio de los vínculos afectivos en familias incestuosas

Delane Pessoa Matias Sobre o autor

Resumos

O trabalho descrito neste artigo teve como objetivo estudar os vínculos afetivos em famílias onde ocorrem relações incestuosas. Foram estudadas duas famílias atendidas pelo Núcleo de Combate à Violência e Exploração Sexual da Secretaria de Ação Social do Estado do Ceará, sendo as vítimas do sexo feminino, uma de 07 anos e outra 14 anos, ambas abusadas pelo pai e padrasto, respectivamente. O instrumento para a coleta de dados foi o teste sociométrico, que estuda as estruturas sociais através das escolhas e rejeições que ocorrem dentro dos grupos humanos. Os resultados demonstraram a estrutura sociométrica dos grupos e o status social ocupado pelos participantes. Os dados colhidos indicaram que as vítimas apresentam a auto-estima rebaixada e déficits de percepção. O estudo conclui que o conhecimento aprofundado dos vínculos afetivos nas famílias incestuosas possibilita intervenções terapêuticas mais eficazes para o resgate dessas relações, essenciais à convivência dos indivíduos no grupo familiar.

vínculo; incesto; sociometria


The study described in this article had the purpose of studying the affective bonds in families where incestuous relations occurred. Two families attended by Núcleo de Combate à Violência e Exploração Sexual - da Secretaria de Ação Social do Estado do Ceará, a center of combat to violence and sexual abuse supported by the Secretariat of Social Action of the state were studied. The victims were females, one of them 07 years old and the other 14 years old, both sexually abused by the father and stepfather, respectively. The means for data collection was a sociometric test, which studies the social structures, through choices and rejections that occur within human groups. The results show the sociometric structure of the groups, as well as, the social status occupied by the participants. The analysis of data indicated that the victims show reduction of self-esteem and perception deficits. The study concludes that, the deep knowledge of the affective bonds within incestuous families allow more efficient therapeutics interventions, in order to recover the relations, considered essential to the coexistence of the individuals in the family group.

Bond; incest; sociometry


El trabajo descrito en este artículo tuvo como propósito estudiar los vínculos afectivos en familias donde ocurren relaciones incestuosas. Fueron estudiadas dos familias atendidas por el "Núcleo de Combate a la Violencia y Exploración Sexual de la Secretaría de Acción Social del Estado de Ceará", siendo las víctimas del sexo femenino, una de 7 años y otra de 14, ambas molestadas por el padre y por el padrastro respectivamente. El instrumento para la recogida de datos fue el test sociométrico, que estudia las estructuras sociales a través de las elecciones y rechazos que ocurren dentro de los grupos humanos. Los resultados demostraron la estructura sociométrica de los grupos y el status social ocupado por los participantes. Los datos recogidos indicaron que las víctimas presentan el autoestima rebajada y déficits de percepción. El estudio concluye que el conocimiento profundizado de los vínculos afectivos en las familias incestuosas posibilita intervenciones terapéuticas más eficaces para el rescate de esas relaciones, esenciales a la convivencia de los individuos en el grupo familiar.

vínculo; incesto; sociometría


DOSSIÊ - PSICOLOGIA E SAÚDE

Abuso sexual e sociometria: um estudo dos vínculos afetivos em famílias incestuosas

Sexual abuse and sociometry: a study of affective bonds in incestuous families

Abuso sexual y sociometría: un estudio de los vínculos afectivos en familias incestuosas

Delane Pessoa Matias

Psicóloga e terapeuta, mestranda em Psicologia Clínica pela Universidade Católica de Pernambuco

Endereço para correspondência

RESUMO

O trabalho descrito neste artigo teve como objetivo estudar os vínculos afetivos em famílias onde ocorrem relações incestuosas. Foram estudadas duas famílias atendidas pelo Núcleo de Combate à Violência e Exploração Sexual da Secretaria de Ação Social do Estado do Ceará, sendo as vítimas do sexo feminino, uma de 07 anos e outra 14 anos, ambas abusadas pelo pai e padrasto, respectivamente. O instrumento para a coleta de dados foi o teste sociométrico, que estuda as estruturas sociais através das escolhas e rejeições que ocorrem dentro dos grupos humanos. Os resultados demonstraram a estrutura sociométrica dos grupos e o status social ocupado pelos participantes. Os dados colhidos indicaram que as vítimas apresentam a auto-estima rebaixada e déficits de percepção. O estudo conclui que o conhecimento aprofundado dos vínculos afetivos nas famílias incestuosas possibilita intervenções terapêuticas mais eficazes para o resgate dessas relações, essenciais à convivência dos indivíduos no grupo familiar.

Palavras-chave: vínculo, incesto, sociometria.

ABSTRACT

The study described in this article had the purpose of studying the affective bonds in families where incestuous relations occurred. Two families attended by Núcleo de Combate à Violência e Exploração Sexual - da Secretaria de Ação Social do Estado do Ceará, a center of combat to violence and sexual abuse supported by the Secretariat of Social Action of the state were studied. The victims were females, one of them 07 years old and the other 14 years old, both sexually abused by the father and stepfather, respectively. The means for data collection was a sociometric test, which studies the social structures, through choices and rejections that occur within human groups. The results show the sociometric structure of the groups, as well as, the social status occupied by the participants. The analysis of data indicated that the victims show reduction of self-esteem and perception deficits. The study concludes that, the deep knowledge of the affective bonds within incestuous families allow more efficient therapeutics interventions, in order to recover the relations, considered essential to the coexistence of the individuals in the family group.

Key words: Bond, incest, sociometry.

RESUMEN

El trabajo descrito en este artículo tuvo como propósito estudiar los vínculos afectivos en familias donde ocurren relaciones incestuosas. Fueron estudiadas dos familias atendidas por el "Núcleo de Combate a la Violencia y Exploración Sexual de la Secretaría de Acción Social del Estado de Ceará", siendo las víctimas del sexo femenino, una de 7 años y otra de 14, ambas molestadas por el padre y por el padrastro respectivamente. El instrumento para la recogida de datos fue el test sociométrico, que estudia las estructuras sociales a través de las elecciones y rechazos que ocurren dentro de los grupos humanos. Los resultados demostraron la estructura sociométrica de los grupos y el status social ocupado por los participantes. Los datos recogidos indicaron que las víctimas presentan el autoestima rebajada y déficits de percepción. El estudio concluye que el conocimiento profundizado de los vínculos afectivos en las familias incestuosas posibilita intervenciones terapéuticas más eficaces para el rescate de esas relaciones, esenciales a la convivencia de los individuos en el grupo familiar.

Palabras-clave: vínculo, incesto, sociometría.

Poucas palavras provocam tanta reação de temor em nossa sociedade quanto "incesto". A simples menção desse termo nos leva ao imaginário de um universo pleno de segredos, de fatos sussurrados aos ouvidos de alguém, sob promessas de silêncio. Evoca ainda a sensação de significados ocultos, de algo de que se deve envergonhar e, portanto, esconder. Mas a impressão mais marcante que a palavra provoca é a de impureza, de mancha, de marca indelével, de pecado.

Essa concepção de mácula também se insere nas suas raízes etimológicas, o que pode indicar que este significado vem de épocas as mais remotas, e continua propagando essa reação que se observa sempre que nos encontramos diante da possibilidade de termos contato com essas ocorrências.

A palavra incesto deriva do latim incestum, que significa estritamente sacrilégio. O adjetivo incestus quer dizer impuro e sujo. Aprofundando-se nas raízes etimológicas do termo incestus, Cromberg (2001) explica que este é formado pelo privativo in e cestus, que seria uma deformação do termo castus, que significa casto, puro. Incesto, portanto, significaria também, não casto.

Quando se fala de incesto, as dificuldades parecem imperar, não só por ser um assunto difícil de lidar, mas, inclusive, pela forma de defini-lo. Existem diversas concepções do que seja um comportamento incestuoso, abordando pressupostos jurídicos, religiosos, genéticos ou psicológicos. Uma vez que este trabalho trata do abuso sexual incestuoso cometido contra crianças ou adolescentes, trabalharemos com a definição adotada pela Associação Brasileira para a Infância e Adolescência - ABRAPAIA (1997), que define o incesto como qualquer relação de caráter sexual entre um adulto e uma criança ou adolescente, entre um adolescente e uma criança, ou ainda entre adolescentes, quando existe um laço familiar, direto ou não, ou mesmo uma mera relação de responsabilidade.

Buscando compreender historicamente este fenômeno, vimos que o incesto se faz presente em muitas culturas, algumas delas bem antigas, como atestam os relatos mitológicos, como o caso de Zeus, que se disfarçou de serpente e manteve relações sexuais com sua irmã Réia, e bíblicos, como o de Abraão, que se casou com sua meia-irmã Sara.

A história da humanidade também está repleta de casos de incesto. Foi prática permitida aos imperadores, considerados por algumas religiões como os representantes de Deus na terra. Essa permissão era justificada pela suposta origem divina desses indivíduos, que, por terem, também supostamente, o sangue puro, não o manchariam praticando o incesto (Cohen, 1993). O autor assinala que, no Egito antigo, as uniões entre irmãos eram praticadas pelos faraós e consideradas homenagens aos deuses Ísis e Osíris. Esse costume perdurou até a dinastia dos Ptolomeus, sendo o exemplo mais conhecido o de Cleópatra, que se casou com seu irmão Ptolomeu II. Esta prática também era adotada pelos reis peruanos da época pré-colombiana, que esposavam suas irmãs em homenagem ao Sol e à Lua, com o objetivo de perpetuar a santidade da dinastia. O costume era adotado também entre os fenícios, que permitiam o casamento do pai com a filha e da mãe com o filho, hábito esse mantido durante o Império Persa.

Ao nos depararmos com esses exemplos, podemos supor que a prática das relações incestuosas foi encarada de maneira diversa em diferentes épocas, uma vez que foi aceito e glorificado em períodos anteriores à história moderna, ao passo que, em períodos mais recentes da história da humanidade, passou a ser considerado um crime monstruoso.

Não obstante, registros da história antiga também comprovam que a prática de relações incestuosas, desde épocas muito remotas, já estava sob proibição. O código de Hamurábi, o mais antigo sistema de leis que se conhece, estabelecia uma espécie de matrimônio monogâmico e de família patrilinear, e previa quatro tipos de incesto (pai-filha, sogro-nora antes e depois do matrimônio, e mãe-filho), e prevê para cada um deles penalidades diferentes. Os livros sagrados, como a Bíblia e o Alcorão, proíbem o incesto. Em algumas concepções religiosas, como a grega e a judaica, além da católica, as relações incestuosas foram condenadas e estigmatizadas como um crime repulsivo à consciência (Cohen, 1993).

Esse sentimento de repulsa, horror, aversão ao incesto aparece com muita intensidade em algumas culturas, conforme afirma Cromberg (2001):

A palavra "incesto" designa circuitos muito variáveis de uma cultura a outra, mas cada vez que ela é empregada, suscita um autêntico sentimento de horror. Parece que cada cultura secreta uma teoria do incesto e seus oponentes. O incesto mesmo ou o simples fato de dever falar dele provoca um tal desgosto a alguns, que, por vezes, como na China e Indonésia, não se pode pronunciar a palavra. Compreende-se, então, que se trata do impronunciável (p. 21).

Pelo visto, na civilização ocidental, nos dias atuais, vivemos diante de uma poderosa dicotomia: o incesto, apesar de ser considerado uma prática social desqualificada, temida e censurada, acontece num número bastante expressivo de famílias1 1 Na América do Norte, um milhão de crianças são vitimadas por negligência ou abuso, e mais de 1200 morrem vítimas de agressões cometidas pelos pais. Esse número, desde 1976, cresceu em mais de 300% (Daro & Svevo, 1999). Kaplan & Sadock (1997) citam dados do Committee for the prevention of Child Abuse que atestam serem relatados, a cada ano, nos Estados Unidos, cerca de 150 a 200 mil novos casos de abuso sexual infantil. Segundo a ABRAPIA (1997), a real incidência dos abusos sexuais no Brasil ainda é deconhecida. Colaboram para isso, por um lado, a inexistência de normas técnicas para orientar os profissionais no tocante ao diagnóstico, registro e notificação dos casos, assim como o "pacto do silêncio", onde todos as pessoas que testemunham a agressão se calam, impossibilitando as denúncias e, conseqüentemente, o conhecimento do número real de casos e o atendimento às vítimas. . O comportamento incestuoso parece, pois, estar no liame de dois sentimentos contraditórios: o desejo e o temor.

A teoria psicanalítica é partidária da tese de que o desejo incestuoso é tão antigo quanto o próprio homem. Sendo um desejo tão intenso, justificaria a necessidade de uma proibição igualmente intensa, uma vez que não haveria razão em se proibir algo que ninguém deseja fazer (Freud, 1913/1973).

O antropólogo Claude Levi-Strauss (1976) recorreu ao comportamento animal para tentar explicar a regra do incesto nos homens. O autor acredita na existência do desejo sexual entre familiares e afirma que, nos animais, as uniões ocorrem sem nenhuma regra, com os encontros acontecendo por acaso, predominando, portanto, a promiscuidade entre os sexos e graus de parentesco. Afirma que a proibição ao incesto é universal, mesmo recaindo em diversas culturas sobre diferentes laços de parentesco, e acredita que essa proibição se deve ao fato de que o ser humano é, ao mesmo tempo, um ser biológico, portanto, pertencente à natureza, e um ser social, portanto, produto da cultura. Essa dupla natureza lhe conferiria o caráter de ambigüidade, uma vez que como ser biológico desejaria concretizar os desejos incestuosos e como ser cultural os evitaria. A renúncia aos desejos incestuosos seria o fator que possibilitaria ao homem a passagem da ordem da natureza para a ordem da cultura. Verificou, ainda, que a interdição ao incesto deu origem a uma série de leis que regiam as uniões matrimoniais, determinando as formas de interação entre as famílias.

Importante se faz perceber a influência da proibição do incesto para a formação do sujeito. Segundo Faiman (2004), ela é fundamental para o desenvolvimento psicológico, uma vez que possibilita ao indivíduo o reconhecimento da existência de limites para a concretização dos seus desejos, para a sua conduta e para o reconhecimento de si próprio.

Segundo Cohen e Gobbetti (2003), a proibição ao incesto tem um efeito estruturante na personalidade, uma vez que a repressão dos desejos incestuosos possibilitará o reconhecimento das funções do pai e da mãe, que são fundamentais para o desenvolvimento da identidade familiar, que, por sua vez, será o princípio da estruturação da identidade social.

AS RELAÇÕES INCESTUOSAS E A DINÂMICA VINCULAR DAS FAMÍLIAS

A busca de compreensão sobre o incesto, necessariamente, traz à baila uma reflexão sobre a família, uma vez que as relações incestuosas ocorrem no espaço familiar, onde são vivenciados os vínculos essenciais à formação da personalidade. A família na nossa sociedade é vista como a instância encarregada da proteção e provisão afetiva de seus membros.

Desde Freud, família e, em especial, a relação mãe-filho, tem aparecido como referencial explicativo para o desenvolvimento emocional da criança. A descoberta de que os anos iniciais de vida são cruciais para o desenvolvimento emocional posterior focalizou a família como o locus potencialmente produtor de pessoas saudáveis, emocionalmente estáveis, felizes e equilibradas, ou como o núcleo gerador de inseguranças, desequilíbrios e toda a sorte de desvios de comportamento (Szymansky, 2000, p. 23).

No entanto, a história nos mostra que nem sempre o caráter afetivo esteve presente nos grupos familiares. As formas de organização familiar, ao longo dos tempos, têm passado por modificações profundas, até que, na modernidade, assumem a forma da família nuclear burguesa, tal como a conhecemos hoje. A crença neste modelo tornou-se de tal forma dominante que se passou a rejeitar todo e qualquer agrupamento que se desviasse da norma. Assim, grupos familiares que não obedecessem a esta configuração foram considerados desestruturados, potencialmente produtores de desajustes.

Tomando-se como base as famílias onde ocorrem as situações de agressão incestuosa e considerando-as como agrupamentos cujos membros adotam um comportamento que se considera desviante das normas, a primeira reação é de se tomar essa família como "patológica", "desestruturada", "insensível", espaço onde convivem pais "monstros", e mães "ausentes" etc.

Não obstante, há que se considerar que o cenário familiar é palco de inúmeras representações. Mesmo havendo um modelo predominante, surgem os mais variados tipos de agrupamento, os quais têm um ponto comum: a existência de um vínculo afetivo a ligar todos os seus integrantes. Diante dessa perspectiva, consideramos importante olhar a problemática do incesto do ponto de vista da tessitura dos vínculos afetivos que se estabelecem entre os membros de cada família.

Nesse ponto, achamos importante tecer considerações sobre a noção de vínculo. Moreno (1994) concebe o homem como uma unidade indivisível de seu meio ambiente, onde experimenta uma relação de interdependência, relação essa que se faz presente também entre os indivíduos. Para o referido autor, o homem só pode ser entendido a partir do ponto de vista de suas inter-relações, que tem o vínculo como célula mínima. A necessidade de estabelecer vínculos seria, pois, inerente ao ser humano:

Nenhum indivíduo permanecerá isolado do outro, nem nenhum grupo permanecerá separado de outros se viverem geograficamente próximos. Mais cedo ou mais tarde realizarão intercâmbio de emoções e de outros valores sociais, produzindo, assim, estruturas horizontais através de diferenciação coletivista e de interdependência (Moreno, 1994, p. 92).

Pichon Rivière (1998) define vínculo como "a maneira particular pela qual cada indivíduo se relaciona com outro ou outros, criando uma estrutura particular a cada caso e a cada momento" (p. 3). Esse estudioso ressalta o caráter social assumido pelo vínculo.

Para Bustos (1990), o vínculo pode ser definido como "o interjogo entre pessoas, que atuam através de papéis. O vínculo se estabelece 'entre' papéis" (p. 79).

Entendemos que não se considera como vínculo apenas a relação que se configura como amena, protetora e amorosa, mas toda e qualquer relação afetiva, independentemente da qualidade desse afeto. Esses vínculos podem assumir as mais variadas formas, provocando, sobre o comportamento do indivíduo, efeitos diversos. A configuração que os vínculos apresentam não é a mesma para todos os indivíduos, ainda que estejam na mesma situação vincular. Assim, os vínculos mãe-filho, pai-filho, marido-mulher, assumirão características próprias, podendo sofrer influências de fatores como o tempo, a cultura e o contexto social no qual se apresentem. Assim, fazer afirmações acerca da personalidade dos envolvidos na díade com base na dinâmica vincular que se estabelece pode ser um erro, uma vez que a característica apresentada é pertinente ao vínculo, e não intrínseca aos participantes.

Alguém que em um vínculo é frágil e dependente, em outro pode sentir-se forte e seguro, já que depende do campo estimulador-estimulado onde se encontre. Não quero dizer com isso que não exista uma predisposição, que atua como constante e que depende das primeiras relações. Estas – como veremos mais adiante – criam maior fixidez ou maior versatilidade, segundo sua natureza Mas é essencial considerar sempre a partir de que vínculo se formula uma determinada afirmação. É muito comum ver homens que se consideram impotentes, ou mulheres frígidas, que deixam de sê-lo ao trocar de par (Bustos, 1990, p. 62-63).

Vários teóricos são partidários da idéia de que as relações incestuosas têm suas raízes na forma como se estruturam os vínculos mãe-criança. Cromberg (2001) propõe a teoria do incesto baseada nos estudos realizados pelo pediatra Aldo Naouri, que descreve algumas particularidades do vínculo afetivo que se estabelece na relação diádica mãe-criança, relação esta fortemente carregada de conteúdo afetivo. A mãe, separada do bebê pelo parto, satisfaz todas as suas necessidades. Ao desejo da mãe de que ao filho nada falte chama de propensão maternal natural ao incesto, e afirma que ela é indispensável ao bebê. No entanto, esta solicitude teria por incoveniente, para o bebê, a idéia de que essa mãe é todo-poderosa, e que não pode nem deve mesmo lhe recusar nada. Se essa solicitude cresce desmesuradamente e não encontra um freio ou contraponto, poderá causar devastações bem graves. Seria, pois, necessária a interposição de uma barreira externa ao par mãe-criança, que pode ser realizada pelo pai, o qual funcionaria como o portador da lei de interdição ao incesto.

A relação entre o vínculo que se estabelece na díade mãe-criança e o surgimento de uma relação incestuosa também são defendidos por Ferreira (2005), quando afirma que as relações incestuosas se inscrevem na ordem do gozo com a mãe. Esta exerceria um papel fundamental na constituição da criança como sujeito. De acordo com a maneira como fosse estruturado esse vínculo, o mesmo poderia resvalar para as situações de abuso sexual ou de incesto, a depender de como a mãe lida com seu próprio desejo edípico.

Todas essas considerações são de extrema importância. No entanto, levando em conta a multiplicidade de formas e caracteres com que podem se configurar os vínculos afetivos e, ainda, a dinâmica presente nas mais diversas formas de agrupamento familiar, consideramos insuficiente explicar a problemática do incesto somente do ponto de vista psicológico. Assim, concordamos com Faiman (2004), quando afirma que o incesto pode representar conflitos diferentes para cada família, e, portanto, não pode ser considerado a partir de uma única dimensão:

O incesto [...] pode ser expressão de diversos conflitos ou dificuldades de natureza absolutamente distinta para cada família, com as mais diversas consequências e representações, o que descarta qualquer resposta genérica advinda de um corpo teórico previamente definido para as questões relativas a esse tema (p. 22-23).

Essas considerações adquirem importância fundamental a partir do momento em que se volta o olhar sobre o contexto onde se encontram as famílias palco dessas ocorrências, uma vez que o vínculo que se estabelecerá entre os parceiros, certamente, sofrerá influências determinantes desse contexto, o que irá se refletir sobre toda a dinâmica familiar.

Seguindo essa linha de pensamento, citamos Faiman (2004), que afirma que o incesto diz respeito ao funcionamento familiar como um todo, e Figaro (2005), que compartilha dessa mesma opinião.

Ninguém sai ileso. Na relação incestuosa há sempre alguém que a pratica e alguém que a sofre mas não podemos reduzi-la somente às pessoas diretamente implicadas. Uns podem ser mais ou menos atingidos mas todos de alguma maneira testemunham conscientes ou inconscientemente o que ocorre na família. Testemunham algo que deve ser mantido em segredo, um segredo muito bem guardado que aparentemente possui a função de continuar mantendo uma estrutura familiar que é fragilizada. Portanto, o incesto deve ser considerado como uma problemática fundamentalmente familiar e não individual (p. 1).

Neste trabalho, nossa intenção esteve centrada no estudo dos grupos familiares atingidos, com foco nos vínculos afetivos que se estabeleceram entre seus componentes. Tencionávamos, através do estudo desses vínculos, obter um panorama geral da dinâmica afetiva e psicológica dessas famílias, através da revelação de possíveis padrões de interação comuns aos diversos grupos em que ocorrem as relações incestuosas, as situações de ambivalência afetiva existentes, as dificuldades de percepção acerca de si e do outro, além dos focos de tensão, fragilidade e agressividade. Acreditávamos que o estudo da problemática do incesto, do ponto de vista dos vínculos afetivos, poderia possibilitar ainda uma compreensão particularizada da dinâmica pertinente a cada grupo, o que possibilitaria uma nova compreensão sobre o tema, uma vez que não considerávamos, de antemão, esses grupos e os indivíduos que os compõem como portadores de uma patologia, mas tínhamos a compreensão de que fazem parte de um sistema vincular, onde todos os sujeitos estão envolvidos numa trama de relações possivelmente disfuncionais.

MÉTODO

Foram estudadas duas famílias, selecionadas dentre as famílias atendidas pelo Núcleo de Combate à Violência e à Exploração Sexual da Secretaria de Ação Social do Estado do Ceará. A unidade de atendimento situa-se na cidade de Fortaleza. As famílias foram escolhidas segundo critérios previamente definidos, ou seja, aquelas com criança ou adolescente vítima de abuso sexual incestuoso com idade a partir de 07 anos, do sexo feminino, contra a qual a violência sexual tinha sido cometida pelo pai ou padrasto. As famílias foram previamente consultadas para saber se concordavam em se submeter ao estudo.

Foram mantidos dois contatos com cada uma das famílias selecionadas. No primeiro, foi realizada uma entrevista inicial, que tinha como objetivos, além do estabelecimento de um 'rapport' entre entrevistador e entrevistados, a explicitação dos objetivos da pesquisa e a obtenção do consentimento dos participantes. O segundo contato foi utilizado para a aplicação do teste sociométrico, instrumento escolhido para a coleta de dados.

O referido teste foi criado por Jacob Levi Moreno, e, como ele mesmo o define, "é um meio de medir a organização dos grupos sociais [...] é um método de pesquisa de estruturas sociais através da medida das atrações e rejeições que existem entre os membros de um grupo" (Moreno, 1999, p. 34).

Segundo Kaufman (1993), o teste sociométrico confirma a existência de alguns padrões característicos da organização dos grupos, suas expressões e configurações próprias. É um teste que pode ser utilizado em qualquer grupo e cuja aplicação é extremamente simples. Consiste em pedir ao sujeito que escolha, no grupo ao qual pertence, os indivíduos que gostaria de ter por companheiros, de acordo com um critério (motivo pelo qual se escolhe) previamente estabelecido. No caso do presente estudo, o critério foi pensado de forma que representasse uma escolha afetiva que possibilitasse uma investigação nos vínculos entre os componentes da família, mas que não necessitasse tocar diretamente na questão do abuso sexual. Assim, escolhemos como critério a pergunta: "Quem você levaria para um final de semana?" O teste foi feito na sua forma completa, ou seja, com as duas partes: teste objetivo – escolhas emitidas pelos membros do grupo, e teste perceptual – por quem, dentro do mesmo grupo, estes acreditam que seriam escolhidos. Em ambas, pede-se que o indivíduo justifique suas escolhas, e que as hierarquize segundo sua preferência. Essa hierarquia corresponde à intensidade dos vínculos existentes entre os membros do grupo. A aplicação foi realizada a todos os membros da família, de forma escrita. Todos os indivíduos do grupo se submeteram ao teste no mesmo dia, embora cada qual tenha respondido a ele de forma individual.

RESULTADOS DO TESTE SOCIOMÉTRICO DA FAMÍLIA 1

A família é composta de 08 pessoas, tendo sofrido uma reestruturação após a descoberta da situação de abuso. Assim, a família de origem era composta pela mãe (Mara2 2 Todos os nomes utilizados são fictícios. ) pai (Pedro), duas filhas (Lúcia e Nina) e dois filhos (Jorge e José) de respectivamente 17, 15, 14 e 12 anos. As duas adolescentes são filhas de um primeiro relacionamento da mãe, tendo Nina sido criada como filha por Pedro desde a idade de dois anos. Após a separação, Mara constituiu novo relacionamento com Edu, com quem vive maritalmente.

Nina começou a ser abusada pelo padrasto aos nove anos de idade, mas a situação só veio a ser descoberta quando, aos 14 anos, engravidou. Vale a pena ressaltar que o abuso só veio a ser revelado no sexto mês de gestação, visto que as modificações no corpo da adolescente não podiam mais passar despercebidas.

Com o descobrimento da ocorrência, a família se separou. A mãe constituiu novo relacionamento e passou a residir em outra casa com o novo companheiro, as duas filhas e a criança (Mila, nascida da relação incestuosa, que estava, por ocasião da realização do experimento, com dois meses de idade). Os dois garotos permaneceram na companhia do pai. A tabela que apresentamos em seguida representa o quantitativo das escolhas realizadas pelos membros do grupo.

Conforme os dados da tabela acima, os resultados do teste sociométrico de Mara (a mãe) mostram um alto índice de aceitação (faz cinco escolhas positivas e é correspondida em todas com forte grau de intensidade), o que demonstra que mantém vínculos fortes, denotando a sua importância dentro do grupo, e a classifica, em termos sociométricos, como estrela de popularidade3 3 Indivíduo que apresenta grande número de escolhas positivas. . Ocupa um status social4 4 O status social refere-se à posição ocupada por cada um dos indivíduos no grupo. elevado no grupo. É também estrela sociométrica, pois apresenta o maior número de mutualidades5 5 Chamam-se mutualidades as escolhas feitas com o mesmo sinal: positivo-positivo, negativo-negativo, indiferente-indiferente. .

Os índices télicos e de relação direta6 6 O índice télico avalia globalmente a comunicação e possibilita o conhecimento sobre o grau de adequação do indivíduo consigo mesmo e com o grupo ao qual pertence; o índice de relação direta permite conhecer o grau de adequação das condutas (Bustos, 1979). alcançados por ela foram os mais altos do grupo. Ela apresenta, ainda, o mais alto índice de emissão e um bom índice de percepção7 7 O índice de percepção mede a capacidade de perceber de um indivíduo, e o índice de emissão refere-se à capacidade na emissão de mensagens. . Em termos caracterológicos sociométricos, pode ser considerada boa emissora e boa receptora, que, segundo Bustos (1979), é o indivíduo que emite adequadamente e percebe corretamente, o que lhe confere uma boa capacidade de comunicação, podendo ele, com maior facilidade, conseguir ter suas necessidades satisfeitas.

Nina escolhe positivamente todos os membros do grupo, à exceção de Pedro, para quem emite rejeição, e Edu, a quem emite indiferença, e é escolhida positivamente por todos os membros do grupo, inclusive por quem ela rejeita e lhe é indiferente. Em termos de aceitação grupal, só perde na intensidade das escolhas recebidas para a mãe. É também considerada estrela de popularidade, pelo alto número de escolhas positivas que recebe.

Seu teste perceptual, não obstante revela que não se percebe como um membro bem-aceito dentro do grupo. Percebe as escolhas positivas apenas da filha (que ainda é um bebê e, portanto, não pode, objetivamente, emitir escolhas) e da mãe. Acreditamos que esta dificuldade de percepção se deve a uma baixa auto-estima e, talvez, a intensos sentimentos de culpa e de inadequação, comuns em vítimas de abuso sexual (Amazarray & Koller, 1998; Gauderer & Morgado, 1992; Narvaz, 2005). Pode ser considerada como boa emissora e má receptora, com um aumento dos sinais negativos e neutros em detrimento dos positivos. Em pessoas que demonstram essa configuração, o comportamento pode resvalar para o recolhimento e a timidez, uma vez que percebem um grupo indiferente.

Pedro só recebe escolhas positivas de José e Jorge. Ocupa o lugar de membro rejeitado do grupo, pelo alto número de escolhas negativas que recebe. O teste perceptual, no entanto, revela que tem uma boa percepção. Decodifica corretamente a rejeição de Mara e Edu. Erra apenas ao interpretar a rejeição de Lúcia e Nina como aceitação, o que provavelmente se deve aos longos anos em que conseguiu manter esta última sob a situação de abuso.

Jorge apresenta um bom índice de percepção e baixo índice de emissão. Isso pode ser constatado pelo fato de emitir quatro escolhas positivas que são percebidas pelos demais membros do grupo como indiferentes. Pode ser classificado como mau emissor e bom receptor, pois converte os sinais positivos em neutros. Segundo Bustos (1979), pessoas que apresentam essa configuração têm dificuldade em demonstrar sua aceitação e tendem a emitir corretamente apenas as rejeições. Como o grupo não consegue percebê-las corretamente, pode isolá-las. Esta dificuldade pode causar-lhes um empobrecimento do átomo social8 8 O átomo social é definido por Moreno (1992) como a menor unidade funcional dentro do grupo social. Sua gênese se dá através de padrões de atração, repulsão e indiferença e seu núcleo é o próprio indivíduo. .

José goza de grande aceitação dentro do grupo, uma vez que é escolhido positivamente por todos os membros. Figura também como estrela sociométrica e de popularidade. Pelos resultados alcançados, percebe-se que transita bem entre os dois grupos familiares, funcionando como elemento de ligação entre os dois subgrupos, na rede sociométrica familiar.

Edu recebe uma única escolha positiva, que vem da companheira Mara. Este é o único vínculo que o segura no grupo. As escolhas positivas que emite podem ser consideradas uma tentativa de manter-se no grupo, ao qual se encontra fragilmente vinculado. O teste perceptual revela que só percebe corretamente a aceitação de Mara e a rejeição de Pedro, que são óbvias.

Pode ser considerado mau emissor e mau receptor. Conforme assinala Bustos (1979), o comprometimento de ambos os sentidos da comunicação pode corresponder a uma desordem grave, o que pode implicar num grau de isolamento sociométrico muito sério. Essa afirmação é corroborada pela posição que os resultados do teste indicam, no que se refere à posição que este indivíduo ocupa no grupo. Uma vez que mantém uma única mutualidade positiva, pode ser classificado como membro isolado.

Através dos resultados das vinculações apresentadas no teste, lançamos o seguinte questionamento: se Mara (a mãe) mantém um vínculo tão forte com Nina (a vítima), definindo-a como "sua companheira de todas as horas" (justificativa dada à escolha, no teste), e se levar-se em conta que tem um bom índice de percepção, como a situação de abuso pode ter perdurado por um tempo tão demasiadamente longo, só vindo a ser descoberta devido à gravidez da vítima, já no sexto mês? Através dos relatos clínicos feitos aos técnicos do programa onde a família é atendida, Mara revelou que sua relação com Edu já existia antes do final do casamento, uma vez que seu marido não demonstrava mais interesse sexual por ela. Lançamos, então, a hipótese de que Mara se beneficiou da situação, que serviu como álibi para a manutenção de sua relação extraconjugal com Edu, e, após os fatos revelados, usou-os como justificativa para a separação imediata de Pedro e a adoção de Edu como companheiro oficial. Importante se faz ressaltar que o teste revela que incide sobre Edu a primeira escolha positiva de Mara, o que revela ser este o seu vínculo mais forte dentro do grupo, sobre o qual está localizado seu maior compromisso afetivo.

Pedro, por sua vez, utilizando-se de sua boa percepção, identificava Nina como uma vítima em potencial, pelo fato de esta emitir aceitação a todos os integrantes do grupo. Juntando-se ao fato da relação de confiança que existia anteriormente, de pai para filha, iniciou a abordagem abusiva, que, no começo, não era entendida pela vítima. Quando esta passou a desconfiar de que aquela relação não era "uma coisa normal entre pai e filha" e começou a rejeitar os avanços do padrasto, este passou a manipulá-la, assumindo o papel de vítima "ninguém me quer, nem sua mãe, se você não me quiser, vou me matar", ou então a ameaçá-la, e amedrontá-la utilizando-se de seu poder: "vou contar para sua mãe", "todos vão ficar contra você" (relatos feitos à entrevistadora, por ocasião da segunda entrevista realizada com a adolescente).

Assim, consideramos a existência de um pacto grupal, em que ambos, Mara e Pedro, os dois integrantes do grupo com maior índice télico, e, portanto, maior capacidade global de comunicação, beneficiaram-se da situação de abuso sofrida por Nina, que, por sua vez, obteve, a um custo exageradamente alto, a manutenção do vínculo positivo com a mãe, o único que percebe no grupo, e que, portanto, lhe é vital. Consideramos, ainda, que os demais integrantes do grupo também se encontravam envolvidos no pacto, uma vez que, à exceção de Edu, apresentam um bom índice de percepção, e nenhuma denúncia foi feita, preservando o pacto do silêncio, que perdurou por cinco anos. Acreditamos que a manutenção deste silêncio pelos demais membros do grupo pode dever-se a fantasias de desintegração do grupo familiar, o que, de certa forma, acabou acontecendo, uma vez que a família dividiu-se, em conseqüência da descoberta da situação.

RESULTADOS DO TESTE SOCIOMÉTRICO DA FAMÍLIA 2

A família 2 é composta por Júlia (a mãe), Lia, a filha de sete anos (vítima), Beto (o filho mais novo, também vítima de maus-tratos por parte do pai), Luís, o novo companheiro da mãe, e Lena, um bebê de cinco meses, fruto da relação de Júlia com Luís. O pai biológico e agressor, Tito, após a descoberta do abuso e conseqüente separação, não fez mais contato nenhum com a ex-mulher e os filhos, e não conseguimos localizá-lo para que se submetesse ao teste.

Logo após a descoberta do abuso praticado pelo pai, que foi, nas primeiras tentativas, denunciado pela criança à sua mãe, esta tomou a decisão de afastar-se do agressor, inicialmente fugindo com os filhos para uma cidade do interior do Estado, onde não pudesse ser descoberta, com medo de novas agressões, visto ser o marido um homem de comportamento violento, que agredia fisicamente a ela e ao filho mais novo, por acreditar que este não era filho dele. A mãe afirma que em nenhum momento desconfiou da denúncia da criança, que passou a apresentar terror noturno, comportamento agressivo com ela e com o pai, com quem era muito apegada, a não querer ficar sozinha em casa, na companhia do pai, e a se sair mal na escola. Dias após a fuga, resolveu prestar queixa contra o agressor.

O teste foi aplicado aos membros do grupo, exceto o pai biológico, o qual não conseguimos localizar, e Lena, que é um bebê. Esta não pode emitir escolhas, mas pode ser escolhida por todos os membros do grupo.

Conforme indicam os dados da tabela acima, o teste revelou que todos os membros do grupo se escolhem de maneira positiva, com uma particularidade: as escolhas de Júlia recaem, em primeiro lugar, sobre os filhos. Tal fato demonstra que seus vínculos mais fortes são com os filhos, não com o companheiro, apesar de manter um vínculo recíproco de aceitação com este.

No teste perceptual, todos se escolhem mutuamente de forma positiva e se vêem rejeitados por Tito, à exceção de Lia, que percebe uma rejeição e uma indiferença por parte dos irmãos e acha que será escolhida positivamente por Tito. Ao ser indagada sobre por que acha que Tito a escolheria, limita-se a dizer: "Não posso dizer o motivo", uma possível alusão a que seria escolhida apenas para ser abusada novamente.

Os dados colhidos no teste desta família mostram um grupo coeso, com fortes vínculos mútuos de aceitação, cuja estrutura é um círculo, que, do ponto de vista sociométrico, é a estrutura mais complexa, onde cada um dos participantes tem, pelo menos, duas alternativas, ou seja, não corre o risco de cair no isolamento sociométrico (Bustos, 1990).

Esta é considerada a "configuração típica de uma boa coesão grupal", pois a maior possibilidade de trocas e mobilidade nos vínculos prescinde da necessidade de controle direto entre os membros do grupo. O indivíduo que integra esta configuração encontra-se numa "posição sociométrica ótima" (Kaufman, 1993, p. 63).

Todos os integrantes figuram como estrelas sociométricas e de popularidade, gozando, pois, do mesmo status social dentro do grupo.

Já Tito aparece claramente como membro rejeitado, uma vez que recebe escolhas negativas de todos os membros do grupo.

Curiosamente, as únicas duas incongruências reveladas no teste perceptual vêm de Lia, a vítima do abuso. Aqui, a exemplo da outra família, a vítima demonstra dificuldade de percepção, que pode estar sendo ocasionada por sentimentos de culpa e inadequação devido à agressão sofrida. No entanto, consideramos que, devido ao fato de o tempo em que perdurou o abuso ter sido mínimo, e graças à grande confiança mútua existente entre Lia e a mãe, essa criança tem maiores chances de superar os efeitos maléficos da agressão sofrida.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Através da realização desse estudo, podemos observar que os vínculos afetivos se configuram de forma diferente, mesmo em papéis cujo desempenho é universal (mãe, pai, filho, irmão, irmã); constatamos, assim, a afirmativa de Bustos (1990) de que, dependendo do contexto onde acontecem, os vínculos afetivos podem formar estruturas pariculares a cada caso e a cada momento.

Nas duas situações apresentadas, o vínculo afetivo da filha com a mãe foi determinante na situação de abuso. No primeiro caso, mesmo havendo conivência da mãe, que parece ter-se beneficiado com o abuso sofrido pela filha, mantinha com esta uma forte relação afetiva. No segundo caso, a relação de confiança estabelecida serviu de lastro para a revelação precoce do incesto. Nas duas situações, o vínculo era carregado de afetividade, embora a forma de expressão desses afetos e suas conseqüências fossem diferentes.

Constatamos que a ocorrência do incesto teve uma repercursão impactante na vida de cada um dos integrantes do grupo familiar, mesmo na dos não diretamente envolvidos na tríade pai-mãe-filha. Tal ocorrência teve como conseqüências, além das dificuldades de ordem econômica, advindas da separação do casal, o rompimento de vínculos, as desconfianças, os temores, as inseguranças, e obrigou as famílias a emprenderem um grande esforço no sentido de recuperar a organização do grupo. Para isso, acreditamos que precisaram lançar mão de todo o potencial espontâneo e criativo de que dispunham, no sentido de permanecerem unidos e preservarem seus vínculos.

Em ambos os grupos, os agressores foram apontados como membros rejeitados. As vítimas apresentaram elevado status sociométrico dentro do grupo, mas, em decorrência das dificuldades de percepção e da auto-estima rebaixada, não conseguem perceber a posição de destaque que ocupam no grupo familiar.

Acreditamos que as informações obtidas acerca das interações afetivas dos indivíduos nos grupos podem servir de subsídio para intervenções terapêuticas que visem a uma reestruturação nos vínculos. Elas possibilitariam a reconstrução destes vínculos numa base mais saudável, uma vez que essas relações afetivas são fundamentais para a constituição emocional e para o convívio harmonioso dos indivíduos dentro do grupo familiar; além disso seriam úteis para o entendimento das questões relativas à prática incestuosa, contribuindo, como afirma Banchs (1995), para revelá-la, desmistificá-la, e assim combatê-la.

  • Endereço para correspondência:
    Delane Pessoa Matias. Rua Canindé, 797, ap.101, Mucuripe, CEP 60175-330, Fortaleza-CE.
    E-mail:
  • Recebido em 28/11/2005

    Aceito em 17/05/2006

  • 1
    Na América do Norte, um milhão de crianças são vitimadas por negligência ou abuso, e mais de 1200 morrem vítimas de agressões cometidas pelos pais. Esse número, desde 1976, cresceu em mais de 300% (Daro & Svevo, 1999). Kaplan & Sadock (1997) citam dados do Committee for the prevention of Child Abuse que atestam serem relatados, a cada ano, nos Estados Unidos, cerca de 150 a 200 mil novos casos de abuso sexual infantil. Segundo a ABRAPIA (1997), a real incidência dos abusos sexuais no Brasil ainda é deconhecida. Colaboram para isso, por um lado, a inexistência de normas técnicas para orientar os profissionais no tocante ao diagnóstico, registro e notificação dos casos, assim como o "pacto do silêncio", onde todos as pessoas que testemunham a agressão se calam, impossibilitando as denúncias e, conseqüentemente, o conhecimento do número real de casos e o atendimento às vítimas.
  • 2
    Todos os nomes utilizados são fictícios.
  • 3
    Indivíduo que apresenta grande número de escolhas positivas.
  • 4
    O status social refere-se à posição ocupada por cada um dos indivíduos no grupo.
  • 5
    Chamam-se mutualidades as escolhas feitas com o mesmo sinal: positivo-positivo, negativo-negativo, indiferente-indiferente.
  • 6
    O índice télico avalia globalmente a comunicação e possibilita o conhecimento sobre o grau de adequação do indivíduo consigo mesmo e com o grupo ao qual pertence; o índice de relação direta permite conhecer o grau de adequação das condutas (Bustos, 1979).
  • 7
    O índice de percepção mede a capacidade de perceber de um indivíduo, e o índice de emissão refere-se à capacidade na emissão de mensagens.
  • 8
    O átomo social é definido por Moreno (1992) como a menor unidade funcional dentro do grupo social. Sua gênese se dá através de padrões de atração, repulsão e indiferença e seu núcleo é o próprio indivíduo.
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    Endereço para correspondência: Delane Pessoa Matias. Rua Canindé, 797, ap.101, Mucuripe, CEP 60175-330, Fortaleza-CE. E-mail: delanematias@terra.com.br 1 Na América do Norte, um milhão de crianças são vitimadas por negligência ou abuso, e mais de 1200 morrem vítimas de agressões cometidas pelos pais. Esse número, desde 1976, cresceu em mais de 300% (Daro & Svevo, 1999). Kaplan & Sadock (1997) citam dados do Committee for the prevention of Child Abuse que atestam serem relatados, a cada ano, nos Estados Unidos, cerca de 150 a 200 mil novos casos de abuso sexual infantil. Segundo a ABRAPIA (1997), a real incidência dos abusos sexuais no Brasil ainda é deconhecida. Colaboram para isso, por um lado, a inexistência de normas técnicas para orientar os profissionais no tocante ao diagnóstico, registro e notificação dos casos, assim como o "pacto do silêncio", onde todos as pessoas que testemunham a agressão se calam, impossibilitando as denúncias e, conseqüentemente, o conhecimento do número real de casos e o atendimento às vítimas. 2 Todos os nomes utilizados são fictícios. 3 Indivíduo que apresenta grande número de escolhas positivas. 4 O status social refere-se à posição ocupada por cada um dos indivíduos no grupo. 5 Chamam-se mutualidades as escolhas feitas com o mesmo sinal: positivo-positivo, negativo-negativo, indiferente-indiferente. 6 O índice télico avalia globalmente a comunicação e possibilita o conhecimento sobre o grau de adequação do indivíduo consigo mesmo e com o grupo ao qual pertence; o índice de relação direta permite conhecer o grau de adequação das condutas (Bustos, 1979). 7 O índice de percepção mede a capacidade de perceber de um indivíduo, e o índice de emissão refere-se à capacidade na emissão de mensagens. 8 O átomo social é definido por Moreno (1992) como a menor unidade funcional dentro do grupo social. Sua gênese se dá através de padrões de atração, repulsão e indiferença e seu núcleo é o próprio indivíduo.

    Datas de Publicação

    • Publicação nesta coleção
      01 Dez 2006
    • Data do Fascículo
      Ago 2006

    Histórico

    • Aceito
      17 Maio 2006
    • Recebido
      28 Nov 2005
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