Lançando luz sobre atividade e trabalho: a contribuição da Ergologia

RESENHA

Lançando luz sobre atividade e trabalho: a contribuição da Ergologia

Paulo César Zambroni-de-SouzaI; Ana Maria Ramos Zambroni de SouzaII

IDocente Adjunto do Departamento de Psicologia da Universidade Federal da Paraíba-UFPB

IIMestranda em Saúde Pública - ENSP/FIOCRUZ. Enfermeira da Universidade Federal de Itajubá-UNIFEI

Endereço para correspondência

O livro "Trabalho e Ergologia: conversas sobre a atividade humana"1 1 Schwartz, Y. & Durrive, L. (Orgs.) (2007). Trabalho e Ergologia: conversas sobre a atividade humana. Niterói: EdUFF. (Original publicado em 2003). organizado por Yves Schwartz e Louis Durrive, traz uma série de reflexões sobre o lugar do trabalho na vida dos humanos do ponto de vista da atividade. Schwartz é filósofo, professor titular da Universidade de Provence, França, diretor do Departamento de Ergologia daquela universidade, tendo sido orientador de doutorado pleno ou sanduíche de brasileiros de diversas áreas de formação (Athayde & Brito, 2007), incluindo vários psicólogos. Durrive é doutor em Ciências da Educação, diretor pedagógico do centro de formação e inserção profissional "Atelier", na região da Alsace, França.

A obra apresenta a Ergologia não como uma nova disciplina universitária, mas como "um modo de encaminhamento inovador para abordar a atividade humana" (Schwartz & Durrive, 2007, p. 19), que "conforma o projeto de melhor conhecer e, sobretudo, melhor intervir sobre as situações de trabalho, para transformá-las" (p. 25).

Para tanto, propõe colocar em confronto as experiências de vida e de trabalho (marcando aqui a predominância do ponto de vista da atividade, aproximando a Ergologia da Ergonomia, de onde retira inspiração) com conceitos academicamente estabelecidos, estes considerados sempre provisórios e imperfeitos, mas indispensáveis para compreender e possibilitar a transformação positiva da vida e do trabalho pelas próprias pessoas. A Ergonomia tomada como propedêutica é a que lança luz sobre a diferença entre trabalho prescrito e trabalho real, e foi desenvolvida na França por Wisner e seguidores, notando-se aí a influência da psicologia russa de Vigotski e Leontiev, em especial no lugar que eles atribuem à atividade. Além desta, a Ergologia toma como principais bases para seu desenvolvimento a obra do filósofo Georges Canguilhem -e a partir deste, do antropólogo André Leroi-Gouhran-, do psicólogo e médico Ivar Oddone e do lingüista Mikhail Bakhtin.

O livro apresenta conceitos e experiências sobre a atividade de trabalho na vida das pessoas através de discussões sobre temas ligados ao trabalho a partir das seguintes entradas: as mudanças e permanências no trabalho; as técnicas e competências; a linguagem em trabalho; os usos que pessoas e empresas fazem do trabalho; a relação dos humanos com o mercado e a cidade; a formação profissional.

Entendemos que este é um livro necessário e útil à Psicologia, especialmente - mas não apenas - para os psicólogos que se inserem no campo da Psicologia Organizacional e do Trabalho (POT). Os autores defendem que olhar o trabalho considerando o que ele tem de irredutivelmente humano - a atividade de quem trabalha - permite compreender temas como motivação, competência, treinamento, formação profissional, presentes nas preocupações da POT. No entanto, entendemos também que o livro é de interesse para a Psicologia como um todo, já que mostra que o trabalho não se reduz a uma prestação remunerada de serviço em uma sociedade mercantil de direito, embora tenha também esta dimensão, mas ocupa lugares relevantes na vida e na saúde dos humanos. Como exemplo da pertinência da obra para a Psicologia, Cristine Revuz, no capítulo 8 ("O trabalho e o sujeito") defende haver operações psíquicas que se efetivam no trabalho, permitindo, nas sociedades capitalistas, sair da dependência infantil ao garantir sobrevivência autônoma pela via do dinheiro. A autora argumenta ainda que o trabalho valida socialmente as competências desenvolvidas por cada pessoa e através dele cada um "produz sociedade" (p. 236), mesmo que de maneira imperceptível em nível macro. Da mesma maneira, Schwartz sustenta (no capítulo 3, "Técnicas e competências" ou com o capítulo 7, "Trabalho e uso de si") que no trabalho há sempre debate entre, de um lado, aquilo que se pede a uma pessoa, e do outro, o que ela faz.

Em outro momento, a noção de subjetividade, tão presente quanto questionada na Psicologia em diversas vertentes (em extremos que vão dos behavioristas aos esquizoanalistas), comparece na proposição de Schwartz (Capítulo 7, "Trabalho e uso de si"), substituída pela de corpo-si, notabilizando que há ali alguém que se apresenta por inteiro, irredutível à dualidade cartesiana, como mostram as LER/DORT presentes em trabalhos ditos prioritariamente intelectuais.

Defendemos igualmente que o livro é atrativo para leitores de "Psicologia em Estudo" de outros campos de formação que não a Psicologia. É uma obra que importa àqueles interessados na formação educacional e profissional de jovens e adultos, por apresentar, entre outros, conceitos e experiências que não consideram as pessoas como deficitárias, ao contrário, sempre reconhecem seus recursos e potencialidades (como Daniel Faïta apresenta no capítulo 6, "A linguagem como atividade", Cristine Revuz no capítulo 8, ou Louis Durrive no 11, "O formador ergólogo ou 'ergoformador'"), o que permite o desenvolvimento das pessoas sem excluí-las, como também já fora apontado entre nós por Paulo Freire.

Aos que se movem no campo da Administração, seja esta pública ou de empresas, os debates presentes no capítulo 9, com Schwartz, Durrive e Marcelle Duc, ("O homem, o mercado e a cidade"), e no 10, com Roland Le Bris, Renato di Ruzza e o próprio Schwartz ("Trabalho, emprego, cidadania"), trazem desenvolvimentos muito esclarecedores frente à lógica que se tornou hegemônica no contemporâneo de submissão de pessoas e empresas às regras do capital especulativo internacional.

Os leitores que se interessam pelos campos da saúde pública e da saúde do trabalhador se surpreenderão com as abordagens inovadoras e em consonância com outras igualmente avançadas, como as de Wisner e Oddone, como se apresentam no capítulo 2 ("O trabalho e o ponto de vista da atividade"), com Jacques Duraffourg, ou no capítulo 6, com Daniel Faïta. Temas como saúde, doença, LER/DORT, segurança no trabalho, etc., se colocam em debate sob diversos olhares e saberes, lançando luz sobre as questões de saúde que surgem no mundo do trabalho.

Os autores apresentam vários temas relevantes para profissionais das mais diversas áreas, sempre exemplificando-os com situações reais e cotidianas de experiências no trabalho, artifício que aproxima o leitor do paradigma ergológico e de seus conceitos.

Resultado de um trabalho coletivo, o livro está expresso em uma obra composta por treze autores, que em sua edição brasileira, capitaneada por Milton Athayde (UERJ) e Jussara Brito (FIOCRUZ), contou com vinte e oito tradutores.

O convite à leitura está feito!

  • Athayde, M. & Brito, J. (2007). Um livro-ferramenta e seu uso na perspectiva Ergológica tecida entre nós: apresentação à edição brasileira. Em Y. Schwartz & L. Durrive (Orgs.), Trabalho e ergologia: conversas sobre a atividade humana (pp. 5-9). Niterói: EdUFF.
  • Schwartz, Y. & Durrive, L. (Orgs.) (2007). Trabalho e ergologia: conversas sobre a atividade humana Niterói: EdUFF. (Original publicado em 2003).

  • Endereço para correspondência:
    Paulo César Zambroni-de-Souza
    Departamento de Psicologia, UFPB
    Campus Cidade Universitária, Conjunto Castelo Branco
    CEP 58059-900, João Pessoa-PB
    E-mail:
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    Schwartz, Y. & Durrive, L. (Orgs.) (2007).
    Trabalho e Ergologia: conversas sobre a atividade humana. Niterói: EdUFF. (Original publicado em 2003).

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    22 Dez 2008
  • Data do Fascículo
    Set 2008
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