Prefácio e introdução ao dossiê “A Áustria e sua literatura no Brasil e no mundo”: Boas- vindas à literatura austríaca em solo brasileiro!

Preface and introduction to the dossier “Austria and its literature in Brazil and worldwide”: Welcome, Austrian literature, in Brazilian soil!

Rainer Guggenberger Kathrin Rosenfield Sobre os autores

Este dossiê temático - organizado por dois professores universitários brasileiros de nascimento austríaco - cujas contribuições abordam a Áustria e sua literatura3 3 Há aproximadamente dez anos, Zeyringer e Gollner (2012: 18) afirmaram que „[d]rei Jahrhunderte nach den ersten deutlichen Äußerungen eines Österreich-Begriffes als umfassendes staatspolitisches Konzept, zwei Jahrhunderte nach der Gründung des Kaiserreiches Österreich, 150 Jahre nach Scheitern der ‚großdeutschen Lösung‘, mehr als 90 Jahre nach der Gründung der 1. Republik Österreich, fast 70 Jahre nach dem blutigen Ende des Holocaust-Gesamtdeutschland und nach der Gründung der 2. Republik Österreich kann kein Zweifel mehr an dem tragbaren literaturhistorischen Konzept ‚Österreichische Literatur‘ bestehen.“ no Brasil e no mundo, reune quinze artigos de pesquisadores austríacos, alemães e brasileiros das mais várias áreas de Letras além de Filosofia e de História. A motivação pela sua organização é homenagear a recentemente fundada Coleção Austríaca da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) que - junto ao também novo Centro Austríaco em Curitiba, vinculado à Universidade Federal do Paraná (UFPR) e igualmente apoiado pela Embaixada da Áustria em Brasília - se entende como ponto de referência em assuntos de cultura, história e literatura austríacas em solo brasileiro e como porta-voz de cursos, eventos, exposições e projetos relacionados às mesmas. Sendo, portanto, mais do que um mero pretexto, tal homenagem pretende divulgar amplamente a existência de um polo de pesquisa de literatura austríaca contemporânea junto à Faculdade de Letras da UFRJ que, doravante, sirva como centro de ciência e de encontros acadêmicos, mas também comunitários, extra muros, oferecendo os seus serviços a todos aqueles brasileiros e outros sul-americanos interessados na Áustria e sua literatura; literatura que teve - como veremos mais adiante - um parto nada fácil, de modo que o próprio leitor brasileiro possa achar pontos de identificação entre a cultura literária brasileira e a também relativamente tardia literatura austríaca que ambas chegaram a uma excelência inigualada nos seus jeitos específicos de descrever mundos reais e ficcionais.

Com a chegada da doação de mais de 1500 livros dos acervos da Casa de Literatura de Viena (Literaturhaus Wien), entre 2016 e 2020, e de dezenas de livros provindo da Embaixada da Áustria, estabeleceu-se na biblioteca da Faculdade de Letras da UFRJ o maior acervo de literatura contemporânea austríaca da América Latina. Para obter informações sobre as - até 2020 - catalogadas 748 obras da Coleção, publicadas quase exclusivamente por editoras austríacas, acesse-se https://minerva.ufrj.br, buscando no campo “Coleção”: “Coleção Austríaca”. A Coleção Austríaca da UFRJ (https://www.facebook.com/colecao.austriaca.1) está aberta a pesquisas de todos os níveis, e a equipe de extensão vinculada a mesma organiza eventos (encontros, palestras, oficinas) e coletâneas para fins de divulgação das obras da coleção bem como da literatura austríaca em geral. Interessados podem entrar em contato com a coordenação do projeto “Coleção Austríaca da Faculdade de Letras da Universidade Federal do Rio de Janeiro”, rainer@letras.ufrj.br, que desde 2021 faz parte do programa de extensão da UFRJ “ALAcer - Ações com Livros em Acervos” que, por sua vez, mantém laços institucionais com a Fundação Biblioteca Nacional.

Quem trata da literatura austríaca hoje já enfrenta um primeiro grande problema: de que falamos? Da pequena República da Áustria que sobrou depois do Tratado de Versailles e Saint Germain em 1919, ou do Império áustro-hungaro com sua população multiétnica e multicultural dez vezes mais numerosa que a Áustria de hoje? Ou ainda, da Áustria dos Habsburgos que fazia parte, com os demais estados monárquicos daquilo que é hoje a Alemanha, do Sacro Império Romano-Germânico4 4 Cf. o capítulo, em Musil, 2021, 275-343, sobre o contexto histórico no qual escrevem autores “austríacos” como Kafka, Musil, Rilke e Canetti. Todos eles (entre muitos outros) são originários de cidades como a capital tcheca Praga ou de Viena, capital do Império Habsburgo, ou de regiões tão diversas como a Bulgária, a Romênia, a Itália do Norte e a Hungria. É necessário ressaltar a importância de Praga, cujos suplementos culturais foram tão ou mais importantes quanto os de Viena. Depois da Primeira Guerra, a maioria de artigos e resenhas de Musil e das vanguardas progressistas foram publicados pela Prager Presse (cf. CORINO 2003: 1896 s.). . Teria Kafka aceitado de ser chamado de austríaco? Não se ousa responder na afirmativa, considerando que ele, nascido e morando em Praga, circulava entre sua cidade natal, Viena e Berlim, compartilhando interesses e preocupações com autores de todas essas cidades. E Robert Musil, embora reivindicado como romancista austríaco, teria ressentido esse título mais como injúria. Ele mesmo, quando quis fazer homenagem a Rilke em 1927 falou desse austríaco nascido em Praga como o “maior poeta da língua alemã desde a idade média”5 5 Rede zur Rilke-Feier in Berlin am 16. Januar 1927 em Musil 1978: 1237-1242. .

A velha Áustria imperial6 6 „Die ersten deutlichen Äußerungen eines Österreich-Begriffes als staatliches Gesamtkonzept, das über die einfache Tatsache der Herrschaft eines ‚Hauses‘ hinausgeht, fallen in dieselbe Zeit wie jene zur österreichischen Literatur. Zwar gab es im späten Mittelalter und in der frühen Neuzeit einige Versuche, die habsburgischen Erbländer in einer ‚Gesamtstaatlichkeit‘ zu definieren und ein entsprechendes Bewusstsein zu fördern. Allerdings ist der Begriff einer ‚Österreichischen Monarchie‘ oder ‘Monarchia Austriaca‘ erst um 1700 belegt“ (ZEYRINGER & GOLLNER 2012: 20), „um 1740 wurde begonnen, mit dem Begriff einer österreichischen Literatur zu argumentieren - vor allem gegen eine norddeutsche Bevormundung. So erschienen 1768 in Wien die Briefe über die neuere österreichische Litteratur, war 1769 im ersten Jahrgang der Bibliothek der österreichischen Litteratur (Wien) ein Plan zu einer Geschichte der österreichischen Literatur enthalten“ (id., ibid. 21). , sobretudo desde o barroco, é admirada como um país com uma notável cultura. Livros como Viena do Fim do SéculoSCHORSKE, Carl E. Fin-De-Siècle Vienna: Politics and Culture. New York: Vintage Books, 1981, 118-181. de Carl Schorske revelaram sua complexidade multicultural, as tensões étnicas e os traços específicos que a distinguem da Alemanha; e o mais recente Age of InsightKANDEL, Eric R. The Age of Insight: The Quest to understand the Unconscious in Art, Mind, and Brain - From Vienna 1900 to the Present. New York: Random House, 2012. de Eric Kandel voltou a transfigurar Viena em um universo artístico encantado - pelo menos a Viena anterior ao austrofascismo e ao nazismo. Ninguém duvida da riqueza dos museus, nem do esplendor das salas de concerto, das orquestras sinfônicas e óperas. E, hoje em dia, não falta tampouco admiração pela notável literatura austríaca que está sendo traduzida também no Brasil.

Mas poucos sabem que a vida literária não ocupava sempre o lugar que ela tem hoje na Áustria e no mundo. Muitos dos autores que admiramos hoje como clássicos da literatura austríaca se queixavam amargamente do deserto literário e debochavam com amargor do falso verniz de uma cultura da encenação, do espetáculo visual e teatral - de uma tradição do entretenimento e do consumo avessa à reflexão literária e intelectual. Quem lê Schorske ou Kandel talvez não imagine que a rica cena artística, arquitetônica e musical de Viena em torno de 1900 não contava com a mesma densa tradição literária e filosófica, que estava apenas iniciando. Muitos admiradores que pouco conhecem os contextos concretos da Áustria pré-moderna, supõem que Kafka e Musil, Schlick e Wittgenstein não podem ter saído do nada, rodeados que estavam por ilustres poetas e escritores como Rilke, Broch, Kraus, Roth, Schnitzler, Zweig … Mas a verdade é que movimentos literários como a Jovem Viena, liderada por H. Bahr e Hugo von Hofmannsthal, ou um círculo filosófico com nomes como Schlick, Neurath e Carnap foram, sim, uma novidade. Pois embora durante os séculos XVII e XVIII, Paris e Viena tenham sido os centros do poder europeu, e os palcos da política mundial, não tinha nada na Áustria que se comparasse com a cultura livresca francesa. E quando Paris afirmou-se como a capital cultural europeia do século XIX, e como metrópole da cultura livresca, o declínio do império Habsburgo austríaco na segunda metade do século XIX foi a grande chance para medidas mais liberais que permitiram compensar a tradicional carência literária austríaca.

Até o século XIX, a cultura do Império Habsburgo brilhou mais na música, na arquitetura e nas coleções iconográficas do que na criatividade literária e reflexiva7 7 „Im Vielvölkerstaat konnten nicht Sprache und Sprachkunst als bildungsbürgerliches Integrationsmittel dienen, sondern neben Schule und Bildungswesen vor allem Architektur, Musik und theatralische Inszenierungen. Deren Stellenwert vermag bis in unsere Gegenwart grundlegende Strukturen und Verhaltensweisen im Kultursystem zu erklären, etwa die Vorliebe für das Auratische oder die damit zusammenhängende heutige Bedeutsamkeit von Staatsoper und Burgtheater, von Festspielen in Salzburg und Bregenz.“ (ZEYRINGER & GOLLNER 2012: 19) : os três Imperadores barrocos - Leopold I, Joseph I e Karl VI encomendaram projetos vultosos dos arquitetos italianos Carlone, Martinelli, Canevale e Burnacini, como também de Lukas von Hildebrandt e Fischer von Erlach. Mas os imposantes palácios que construíram - inclusive o da Biblioteca Nacional - alojaram mais coleções de curiosidades preciosas, mapas e estampas, do que acervos de livros destinados à leitura e à pesquisa como nós entendemos o sentido da biblioteca hoje. Ainda na segunda metade do século XVIII, quando governa a bondosa e relativamente liberal arquiduquesa Maria Theresia, seu conselheiro imperial Freiherr von Sonnenfels precisa desempenhar esforços árduos para introduzir os iluministas franceses na Áustria e para desenvolver um leque de gêneros literários que fosse além da tradicional comédia popular (por sinal, um gênero de excelente qualidade na Áustria, como na Itália nessa época). Joseph von Sonnenfels foi o filho de Perlin Lipmann ou Liebmann Berlin (1705-1768), um judeu Berlinense esclarecido e culto - um entre os muitos convertidos que ascenderam graças à relativa tolerância da monarca; embora não concedesse audiências a um judeu, ela acolheu Berlin como conselheiro depois de sua conversão ao catolicismo. Ele recebeu o título Freiherr von Sonnenfels pelos serviços que prestou a Joseph I, o marido da arquiduquesa, que Sonnenfels introduziu no estudo dos cabalistas e alquimistas. Graças a homens letrados vindo de fora, como Berlin e, na próxima geração, seu filho, o jurista e escritor Joseph Freiherr von Sonnenfels (1732-1817), toma-se aos poucos a consciência da importância da cultura livresca. Somente no final do século XVIII alguns poucos (e sempre suspeitos) conselheiros voltam sua atenção para o cuidado com os acervos imperiais. Não que faltasse talento e interesse (como mostraria a história posterior): o que faltava era o espírito liberal e a diminuição da vigilância autocrática e da censura de cima (da polícia, da Igreja e da administração imperial) para deixar emergir uma literatura densa e diversificada. Um dia, ao vasculhar os arquivos imperiais, já consternado com sua pobreza, Sonnenfels descobriu a nota de um arquivista imperial mais antigo com a exclamação desolada: “A Áustria não produziu um só poeta passável” (SPIEL 1987SPIEL, Hilde. Vienna’s Golden Autumn: From the Watershed year 1866 to Hitler’s Anschluss 1938. New York: Weidenfels and Nicholson, 1987.: 9) - e escritores como Grillparzer, Stifter e Nestroy tiveram de se afirmar contra essa falha (desestimulo, censura), que se prolongaria até a segunda metade do século XIX.8 8 Prof. Helmut Galle, que teve a gentileza de fazer uma cuidadosa revisão dessa introdução, contribuiu com a pertinente observação de que as literaturas das regiões católicas do sul da Alemanha compartilharam todas o mesmo problema de desenvolvimento tardio da literatura que destacamos aqui como especificidade austríaca. No entanto, vale mencionar que autores como Hermann Bahr e Robert Musil consideraram que a Áustria dos Habsburgos do final do séc. XVIII não teve qualquer movimento intelectual que se comparasse com os poetas e pensadores de Weimar, Jena, Königsberg e Berlim (Goethe, Schiller, os irmãos Humboldt, Kant, Fichte, Hölderlin, Hegel, etc.), que a Alemanha unificada por Bismarck em 1871 recuperou como patrimônio cultural alemão e que os artistas e intelectuais austríacos (isto é, da Dupla Monarquia austro-húngara) invejaram.

Não é surpreendente que o foco unilateral das iniciativas culturais do Império na arquitetura, nas artes plásticas e na música se refletisse também no modo de construir, ornar e ordenar bibliotecas. Assim, o palácio construído para abrigar a Biblioteca Imperial em Viena veio a veicular todos os símbolos da tradição (antiliterária) dos Habsburgos. A presença física monumental conferia antes a exaltação do governo monárquico, seu passado bélico e a paixão de colecionador atrelado a esse modus vivendi. Seu programa iconográfico evidente nas esculturas e nos afrescos da sala principal deixa a literatura quase como um anexo. E o conteúdo dessa coleção (que não merecia bem o nome de Biblioteca) brilhou durante muito tempo com um riquíssimo acervo de mapas e globos, com rolos de papiro preciosos, com coleções gráficas, instrumentos, objetos e partituras musicais. A magnificência do palácio (concebido em 1723 por Johann Bernhard Fischer von Erlach e executado pelo filho desse grande arquiteto barroco Joseph Emanuel, até 1726) ofusca qualquer objeto aí exposto. Na sala principal, a disposição das esculturas de Lorenzo Mattielli guia o olhar para o esplendor dos afrescos de Daniel Gran que falam da história guerreira e dos períodos de paz assegurados pelos imperadores Habsburgos. Foi esse programa pictográfico que ditava na época de sua inauguração uma ordenação dos livros verdadeiramente bizarra: de um lado, os livros sobre a guerra, de outro os sobre a paz - um critério deveras único de ordem bibliográfica! A cúpula do meio tem afrescos representando a Apoteose de Karl VI cujo retrato é sustentado por Hércules e Apolo. O complicado programa alegórico faz um arranjo de figuras simbolizando as virtudes dos soberanos Habsburgos e a riqueza de suas terras. Mas em todo esse elaborado afresco não há muito espaço para o espírito literário ou filosófico. Apenas depois da ocupação da Áustria por Napoleão e o fim do Sacro Império Romano-Germânico, essa biblioteca foi dedicada à nação e aí recebeu, agora com o nome Nationalbibliothek, feições tipicamente napoleônicas: seu propósito doravante não é apenas de expor raridades preciosas dos antigos colecionadores, mas também de servir como lugar de instrução para cidadãos em busca de conhecimento - voltada portanto para a nova classe em ascensão, a burguesia culta (Bildungsbürgertum).

Ainda no século XVIII, Sonnenfels precisou de muito tempo (e de apoios principescos) para promover o interesse filosófico pelos Iluministas franceses, cuja leitura ele considerava essencial para elevar e diversificar a língua e a literatura austríacas9 9 Essa influência também levou a monarca a iniciar outras reformas liberais: a abolição da tortura, a liberdade de comércio, o afrouxamento da censura. (cf. SPIEL 1987: 9-10). . Rara exceção entre os conselheiros, Sonnenfels mostra uma verdadeira paixão pelo estudo aprofundado das especificidades da língua e da literatura austríacas. Escreve um tratado sobre a necessidade de trabalhar a língua materna (Von der Notwendigkeit seine Muttersprache zu bearbeiten) - um zelo que, num primeiro momento, o torna suspeito e não muito bem vindo. Um dos ministros para o qual Sonnenfels esperava trabalhar, parece ter declinado seus serviços com o comentário: “Inteligente e culto demais para o meu ministério” („Zu gescheit für meine Kanzlei“) - um comentário que encapsula toda a desconfiança autocrática da inteligência, da erudição e da independência intelectual que reinava na Corte. Seu esforço de salvar a divulgação do iluminismo francês e inglês das mãos da censura finalmente encontrou o apoio do ministro Kaunitz, e tudo poderia ter sido ainda mais exitoso, se não tivesse essa promoção do cosmopolitismo levado a uma bem menos gloriosa luta contra a tradição popular e burlesca - o teatro de harlequim e commedia dell’arte (Goldoni, que se prolongaria com autores e atores como Nestroy e Raimund). Há algo de quixotesco nessa luta que pretendia promover o esclarecimento literário com os mesmos métodos autocráticos com que Maria Theresia e seu filho Joseph II (1780-90) impuseram suas reformas. Mesmo assim, Maria Theresia e Joseph II10 10 A filha do sobrinho de Joseph II é Dona Leopoldina, que levou o ethos da dedicação e do servir para o Brasil, o que consta claramente no seu Vademecum, escrito como preparação ao cargo de imperatriz do Brasil. já representavam salutares exceções na longa linhagem de rígidos autocratas com interesses mais voltados para campanhas militares e para as pompas do estado, do que para empreitadas literárias e a vida contemplativa nas bibliotecas. É uma lástima que o apoio aos esforços de Sonnenfels pouco mudou na cena filosófica e literária antes, durante e depois do Biedermeier; a mentalidade fechada iria mudar apenas com a drástica mudança que diminuiu a importância geopolítica do Império.

No recente livro de Marjorie Perloff, Edge of Irony. Modernism in the Shadow of the Habsburg EmpirePERLOFF, Marjorie. Edge of Irony: Modernism in the Shadow of the Habsburg Empire. Chicago: University of Chicago Press, 2016., sentimos já no título uma discreta alusão a esse aspecto hoje oculto da vida literária austríaca, que teve de sustentar-se à “sombra do Império”. Durante muito tempo, a vida literária teve pouco prestígio e acomodou-se nas frinchas e frestas que o Império reservou às inteligências livrescas e literárias cuja existência ficou ofuscada pelo gosto teatral e musical, e pelo privilégio dos espetáculos que a tradição barroca legara. Nesse horizonte, a tardia eclosão da literatura austríaca é um feito notável; ela se dá como uma vigorosa revolta contra a estagnação da criatividade intelectual e cultural que os inovadores do final do século XIX e início do XX denunciariam, atribuindo o mal-estar da literatura austríaca ao apego estéril a estilos históricos ultrapassados e ao culto dos excessos decorativos11 11 A cultura antiliterária e anti-intelectual encontrou sua expressão estética num pintor, sucesso na época, em Hans Makart (1840-1884), um verdadeiro empresário da encenação e da decoração que soube traduzir em imagens e estilos de interiores as fantasias históricas de seus clientes. O nome de Makart é hoje sinônimo da cultura da aparência e do vazio contra os quais os jovens autores tiveram de se insurgir - muitos deles procurando inspiração em ambientes menos fechados sobre o próprio vácuo. Foi imenso o impacto desse virtuoso e opulento artista sobre o estilo da arquitetura de interiores e da moda da época. Além disso desempenhava uma função pública: a organização dos megacortejos que por assim dizer materializavam no espaço os sucessos da indústria e do comércio traduzidos em imagens mitológicas de todos os tempos, dos mitos gregos às alegorias medievais, motivos renascentistas e reminiscências barrocas - uma opulência visual que envolvia e magnetizava o público que se reconhecia com prazer nesses espetáculos grandiosos e a emoção estética encobria o vazio desses sucedâneos imitativos. - Como Musil, também Broch salientou o vazio espiritual, o hedonismo e consumismo do culto austríaco das aparências enquanto concede à Alemanha pelo menos um senso prático mais ancorado na realidade. Segundo Broch (apud WUNBERG & BRAAKENBURG 2018: 86-96) e Spiel (1987), o termo “Era do Frango Empanado” descreveria melhor a versão austríaca (mais modesta e hedonista) da “Era das Fundações”. .

Na sua longa história, a Áustria desempenhou um importante papel militar na fronteira entre o Ocidente e o Oriente. Os sucessos militares contra os turcos redundaram em posturas de enaltecimento do Reino que se voltaram para o embelezamento do espaço público e o prestígio visual e arquitetônico, para o espetáculo e o teatro. E a tradição autocrática do barroco com suas políticas culturais que privilegiavam empreendimentos artísticos inacessíveis à iniciativa privada e ao debate público, tanto refletiu a falta da tradição literária e filosófica, reflexiva e crítica como também a favoreceu e reproduziu12 12 Até o século XX prevaleceu o mito saudosista da cultura barroca que distinguiria a Áustria. Quando faltaram os meios para essa cultura, o imaginário coletivo encontrou fantasias reativas para distinguir-se dos seus rivais - a Prússia e a Alemanha Guilhermina. O apego ao imaginário barroco concedeu pouco espaço aos livros, a literatura e a reflexão filosófica e suprimiu os sonhos revolucionários de uma nova ordem constitucional, voltado a privilegiar a tradição barroca da cultura musical e teatral, mantendo sob controle as reuniões privadas e a circulação de livros que pudessem promover um pensamento independente da classe média educada. . Em 1815, a Restauração da Monarquia pôs fim às guerras napoleônicas, mas também a qualquer sonho de revolução ou reforma. E tampouco a revolução de 1848 soube remover o espírito do Biedermeier, alheio aos sonhos de reforma e Constituição. O espírito pacato (bieder) e submisso, que se instalou durante tanto tempo, não foi favorável à circulação de livros numa cena intelectual e literária aberta, que se fortaleceu apenas no final da segunda metade do século XIX, quando entrou em colapso o respaldo geopolítico e econômico para o culto barroco da ostentação teatral, visual e musical. Depois das derrotas militares em Solferino e Königgrätz nos anos 1860 e a quebra da Bolsa em 1873, o reflexo dos intelectuais, poetas e escritores era buscar modelos de identificação literária e cultural na Alemanha. O sentimento de inferioridade depois dessas derrotas militares da Áustria só foi crescendo com a ascensão militar e econômica da Alemanha e seu fortalecimento político decorrente da unificação (1871)13 13 O êxito do governo autocrático de Bismarck transformou a Alemanha nas últimas décadas do século XIX, em rival econômico e militar, político e cultural das grandes potências europeias. . A presença avassaladora dessa nova potência europeia acentuou por contaminação também a fraca autoestima cultural - ao ponto de muitos intelectuais austríacos formularem o desejo de unir a Áustria germânica com o país vizinho - senão no plano geopolítico, pelo menos no plano literário e cultural.

A grandeza e a projeção literárias se devem em grande medida justamente a Hermann Bahr, o genial e incansável “organizador da literatura austríaca” (a expressão é de Peter Mendelssohn (WUNBERG & BRAAKENBURG 2018WUNBERG, Gotthart; BRAAKENBURG, Johannes J. Einleitung. In: WUNBERG, Gotthart; BRAAKENBURG, Johannes J. (ed.). Die Wiener Moderne. Literatur, Kunst und Musik zwischen 1890 und 1910. Ditzingen: Reclam, 2018, 11-79.: 42), cujos serviços logísticos “não podem ser sobreestimados”. “Não apenas trouxe ele impulsos e movimento para a literatura um tanto pesada e provinciana” de autores hoje quase inteiramente desconhecidos fora do âmbito austríaco (como Ludwig Anzengruber, Marie von Ebner- Eschenbach, Ferdinand von Saar, Bauernfeld e Grillparzer) - a mais importante contribuição desse organizador nato foi sua perícia em “estabelecer metas”. Não mais objetivos abstratos e modelos preestabelecidos, mas critérios informados por uma reflexão ampla e pertinente sobre o lugar da Áustria no tabuleiro europeu. A reflexão pioneira e inovadora inicia - paradoxalmente - com um reflexo nada original: com a tradicional rivalidade do intelectual austríaco - primo pobre dos Alemães “que tinham Sedan, Bismarck, Richard Wagner. E nós? O que tínhamos?” (apud WUNBERG & BRAAKENBURG 2018WUNBERG, Gotthart; BRAAKENBURG, Johannes J. Einleitung. In: WUNBERG, Gotthart; BRAAKENBURG, Johannes J. (ed.). Die Wiener Moderne. Literatur, Kunst und Musik zwischen 1890 und 1910. Ditzingen: Reclam, 2018, 11-79.: 43). Na verdade, até Hermann Bahr se queixava, no início de sua carreira, da pobreza na qual os artistas austríacos estavam condenados a vegetar, e para remediar essa pobreza, ele exigia nada menos do que uma “anexação” da literatura austríaca à alemã. É nesse espírito que o jovem Bahr cumpriu a tarefa de felicitar ao Chanceler Bismarck pelo 70º aniversário em nome de uma associação estudantil austríaca. Nessa viagem, visitou um Conselheiro da Corte Prussiana e expressou seu desejo de unificação. Em resposta, ouviu dele uma reprimenda que nunca esqueceu: a de não deixar empalidecer a cor e o brilho específicos da cultura austríaca em troca de uma vaga identificação com a Alemanha, nem todas aquelas peculiaridades que os alemães secretamente invejam (apud WUNBERG & BRAAKENBURG 2018WUNBERG, Gotthart; BRAAKENBURG, Johannes J. Einleitung. In: WUNBERG, Gotthart; BRAAKENBURG, Johannes J. (ed.). Die Wiener Moderne. Literatur, Kunst und Musik zwischen 1890 und 1910. Ditzingen: Reclam, 2018, 11-79.: 43 s.). Como organizador e estimulador do movimento Jovem Viena, Bahr fez mais que cumprir esse conselho; alçou a literatura austríaca a um nível ímpar graças a um conjunto de critérios comparativos que permitiram aos jovens escritores medir seus próprios esforços com os modelos não apenas alemães, mas europeus. Durante suas extensas viagens Bahr desenvolveu seu método característico da comparação: foi justapondo “os franceses e os escandinavos, os russos e os italianos, os ingleses e os belgas, para demarcar o foco” que permitiria avaliar o lugar específico da identidade austríaca. “De Barrès a Zola, de Ibsen a Strindberg, Dostoiewski a Tolstói, de D’Annunzio à Duse, de Swinburne a Walter Pater, de Maeterlinck a Huysmans” ele compilava assim perspectivas críticas e comparações (não modelos!) “unicamente como material estimulante” do qual os jovens austríacos pudessem partir (WUNBERG & BRAAKENBURG 2018WUNBERG, Gotthart; BRAAKENBURG, Johannes J. Einleitung. In: WUNBERG, Gotthart; BRAAKENBURG, Johannes J. (ed.). Die Wiener Moderne. Literatur, Kunst und Musik zwischen 1890 und 1910. Ditzingen: Reclam, 2018, 11-79., 45 s.).

Contudo, mesmo quando a consciência e a busca de uma identidade literária própria para a Áustria se criou com força, Robert Musil ainda se queixou, na primeira década do século XX, da falta generalizada de visão e de instituições capazes de criar um espaço público para a literatura: condições nas quais o poeta não dependesse mais dos canais de influência das damas da alta aristocracia, que mal distinguiam a arte da moda, do entretenimento e a ostentação social - de forma que o modista, cabeleireiro ou decorador de casas influentes tinha mais chances de ser premiado do que um escritor de peso.14 14 “Nosso estado natural é a disposição fina e saudável. Um ajudante de cabeleireiro que durante suas artificiosas ondulações confessou seus ideais às damas da alta aristocracia, por pouco não fez uma carreira como poeta alemão, não tivesse ele vestido numa festa, por engano, um casaco de pele que ainda não lhe pertencia. Ele já ia e vinha nas mais nobres casas, lia suas poesias durante os chás, e nossa famosa imprensa burguesa, sem dúvida, não teria resistido por mais tempo a esse calígrafo das cabeleiras. Pois a finesse é também o fraco dela. Não há aqui nas terras austríacas a grande antítese de ideias opondo a burguesia e a aristocracia.” (MUSIL 2021: 160). Com o lamento pela ausência de um contrapeso à cultura aristocrática, Musil toca na notória falta de uma classe média com um imaginário e iniciativas culturais próprios e distintos da cultura da corte. A reputação literária e intelectual da Áustria é uma conquista tardia, posterior à já tardia fama dos Dichter und Denker como Goethe e Schiller. Ouvimos esse tipo de queixa de quase todos os autores hoje considerados como grandes clássicos - de Rilke a Broch e Musil. Este último ficou sem apoio e sem o merecido reconhecimento institucional na Áustria; foi frustrado nas suas tentativas de promover talentos austríacos como Kafka; recebeu apenas prêmios de consolação em vida, e quase caiu no esquecimento depois do exílio e a morte, se não fosse salvo pelo árduo trabalho editorial de Adolf Frisé e pela iniciativa individual do chanceler austríaco Bruno Kreisky que instaurou, em 1973, o Archivo Musil em Klagenfurt, que promoveu a redescoberta desse importante autor.

Não é tampouco por acaso que Rilke tenha escrito seu Malte Laurids Brigge (RILKE 2009RILKE, Rainer M. Os Cadernos de Malte Laurids Brigge. Porto Alegre: L&PM, 2009.: 32 ss.) não na Biblioteca Nacional de Viena, mas na Bibliothèque Nacionale de Paris. Diferentes das bibliotecas austríacas, as parisienses eram de fácil acesso e serviam para muitos estudantes como moradias de dia! A Bibliothèque Sainte Geneviève, aberta para todo o mundo; a biblioteca nacional em Paris, um lar para todo estudante e pesquisador com suas belas abóbadas pintadas. É nas bibliotecas que a arte de escrever adquire status e nobreza própria.

Mas abramos um outro capítulo, um sobre a divulgação da literatura austríaca no Brasil atual, que seja, como esperamos, mais gratificante do que os começos difíceis dessa literatura na época dos Habsburgos. Para tais fins, os organizadores dividiram as contribuições desse dossiê em três grupos: 1) autores austríacos que tinham relações com o Brasil, 2) literatura austríaca na modernidade e na contemporaneidade, 3) “em cima e além do sofá analítico - paralipomena austríacos ecléticos”.

A primeira trupe reune Luis Sergio Krausz, Ursula Prutsch, Helmut Galle, Norbert Christian Wolf e Gisele Jordana Eberspächer. Luis Krausz mapeou, por meio de registros literários - de autores mais conhecidos como Roth, Schnitzler, Werfel e Zweig, mas também de Agnon, Franzos, Rezzori e Appelfeld - alguns momentos da longa e ambivalente história do processo de integração e assimilação dos judeus à cultura austro- alemã. Em seguida, Prutsch e Galle dedicam os seus trabalhos ambos a Leopold von Andrian e Otto Maria Carpeaux - que passavam parte da vida no Estado do Rio de Janeiro -, sendo que a primeira autora inclui também Paul Frischauer, enquanto que o segundo autor toma Hugo von Hofmannsthal como „Dritter im Bunde“. Ursula Prutsch foca nos aspectos sócio-políticos das vidas dos três literatos e dos seus comportamentos, papeis e trabalhos no exílio brasileiro. Num viés semelhante, mas baseando-se em fontes diferentes, Helmut Galle evidencia a importância da ideia de uma Europa Central dentro do pensamento dos austríacos intelectuais conservadores. Norbert Wolf, refletindo igualmente sobre conceitos e teorias da Europa, dedica a sua contribuição ao mesmo Hofmannsthal e também a Robert Musil e a Stefan Zweig, sendo que, para esses dois últimos, a ética e a responsabilidade tornaram-se parâmetros fundamentais nas suas avaliações do construto ideológico e real que era a Europa do período entreguerras. Eberspächer encerra o primeiro bloco com uma análise da estadia carioca de 1846 da escritora austríaca Ida Pfeiffer. A autora argumenta que o relato dessa experiência no livro Eine Frau fährt um die Welt, assim como os outros livros do gênero, alimentaram um imaginário sobre o Brasil entre seus leitores europeus, tomando a mencionada obra como uma fonte histórica dos imaginários europeus do século XIX acerca do Brasil.

A segunda seção é constituída por contribuições de Juliana Serôa da Motta Lugão, Luiz Carlos Abdala Júnior, Alexandre Villibor Flory, Uta Degner e Helmut Gollner. Lugão busca investigar como a técnica fotográfica se manifesta na escrita de Contemplação, de Franz Kafka. Em cartas, Kafka se refere ao conjunto de prosas curtas publicado em 1912 como um retrato pessoal muito mais fidedigno do que a própria técnica fotográfica seria capaz de produzir. Sendo assim, Juliana Lugão desenvolve a hipótese de que havia uma íntima relação da escrita de Franz Kafka com a nova técnica de então. Abdala Júnior propõe a aproximação do poema Engführung, do poeta Paul Celan, com o ensaio Cascas, do historiador de arte Georges Didi-Huberman, tomando como ponto de partida a ideia de percurso que atravessa ambas as obras. Luiz Carlos Abdala Júnior se baseia nas leituras que Joachim Seng fez do poema de Celan, nas quais leu Engführung como um trajeto do eu-poético pelo campo de concentração (Auschwitz) que é, ao mesmo tempo, campo da memória e linguagem. Em comparação, Didi- Huberman relata o percurso da sua visita a Auschwitz, enfocando o papel do olhar na realização do trabalho da memória como tarefa ética que exige a reflexão crítica da postura individual e coletiva diante da lacuna do testemunho e do que resta do campo de concentração. No seguinte artigo, Flory embarca no final dos anos 1950 da história austríaca, quando, como sociedade, se buscava parceria e harmonia, sem lidar com seu passado em relação ao nazismo. Contra essa situação se insurgiram autores fundamentais para a literatura austríaca, buscando formalizações estéticas que efetivem uma localização histórica crítica, que deve muito à perspectiva do materialismo histórico benjaminiano. A base da análise de Alexandre Flory são o conto Unter Mörder und Irren, de Ingeborg Bachmann, e o romance Auslöschung, de Thomas Bernhard. Na sequência, Degner detecta no romance Desejo, de Elfriede Jelinek, um amplo uso de citações da poesia de Hölderlin, às vezes pouco perceptível e às vezes um que altera grotescamente o teor original. A contribuição de Uta Degner sugere que Jelinek está tomando dois dispositivos estilísticos de Hölderlin - a forma gnômica e a “harte Fügung” (harmonia austera) - para integrá-los como nortes principais de seu próprio texto. Ao fazer isso, Jelinek parece enfatizar Hölderlin como um autor de vanguarda no sentido de Bourdieu: como um autor cujo objetivo é levar a linguagem poética a novos limites. Por fim, o artigo de Gollner trata de uma tendência da literatura austríaca mais recente, que dá espaço irrestrito e amplo ao ódio, não apenas no seu conteúdo, mas também na forma. Nesse contexto, é notável que são, principalmente, jovens mulheres que odeiam. Helmut Gollner não quer apenas justificar o ódio como um impulso literário para escrever, mas também chamar a atenção para o fato de que o ódio literário tem uma tradição na cultura austríaca. Por isso, Elfriede Jelinek, Ernst Jandl e Werner Schwab estão entre os abordados desse artigo.

O terceiro e último grupo se compõe de Ruth Bohunovsky, Kathrin Rosenfield e Lawrence Flores Pereira, Erica Schlude Wels, Rainer Guggenberger e Jean Paul Voerkel e Carla Jeucken. Embora muito menos homogêneo do que os primeiros dois blocos, o lado forte desse agrupamento textual é justamente sua heterogeneidade que demonstra a natureza extremamente multifacetada e inimitável dos autores austríacos e de seus produtos intelectuais. Bohunovsky destaca a importância da poética dramatúrgica de Johann Nepomuk Nestroy para a vanguarda austríaca. Além disso, a autora lança um olhar sobre a única tradução de uma peça de Nestroy disponível no Brasil, com o intuito de colocar em questão a visão recorrente da obra de Nestroy como “intraduzível”. Permanecendo no âmbito tradutório de textos em alemão, a contribuição de Rosenfield e Flores Pereira apresenta a tradução do Réquiem a uma Amiga de Rainer Maria Rilke com algumas reflexões ensaísticas sobre o lugar desse poema na obra do poeta. Os autores mostram o forte impacto que os encontros artísticos - e em particular a análise das telas de Paula Modersohn-Becker em 1905 - tiveram sobre a sensibilidade poética de Rilke, o que contribuiu para a nova forma estilística (Dinglyrik) que se manifesta na obra madura dele. Deixando o terreno literário propriamente dito, Schlude Wels aborda o texto Selbstdarstellung de Sigmund Freud, no qual ressalta as origens judaicas e, nessa linhagem, o êxodo que marcou sua família: percurso que desemboca em Viena e, posteriormente, em Londres, estação final. A autora evidencia que tais marcas do exílio reforçaram o vínculo com o judaísmo, índice da herança paterna. O pai, em forma da “judeidade”, como mostra Erica Wels, ainda remete às reflexões de Freud sobre religião, notadamente nas obras Totem & Tabu, O Futuro de uma ilusão e Moisés e o Monoteísmo. Focando em outro grande conhecedor da psique austríaca, o artigo de Guggenberger trata de pausas, interrupções e silêncio e as suas funções e os seus significados dramáticos que podem ser detectados nos esquetes teatrais do comediante austríaco Josef Hader. O pequeno tratado reflete, num viés interdisciplinar que dialoga com teorias musicais, sobre o (anti)fenômeno de pausas e silêncio e as suas essências, tentando definí-los, tomando as pausas na música como ponto de partida. Assim como no caso da contribuição de Rainer Guggenberger, também aquela de Paul Voerkel e Carla Jeucken tem como objeto produtos da contemporaneidade, sem que se tratasse de textos literários num sentido mais estreito. Os autores constatam que, no ensino de Alemão como Língua Estrangeira (ALE), os conteúdos de Landeskunde devem ser abordados cada vez mais sob a perspectiva de que culturas heterogêneas permeiam os diferentes países de idioma alemão. Em consonância com essa máxima, a análise profunda e estatística de Voerkel e Jeucken referente aos dados sobre os aspectos culturais da Áustria presentes no livro didático DaF Kompakt neu (2016) - material utilizado em boa parte dos cursos de graduação para formação de professores de alemão no Brasil - mostra que o material selecionado apresenta menções profícuas à Áustria e que a quantidade e complexidade dessas aumentam conforme o avanço dos níveis de línguas ensinados.

Desejamos a todos “prosit” leitura e que viva e prospere a Coleção Austríaca da UFRJ, recebendo muitas e muitas visitas de pesquisadores nacionais e sul-americanos e que ela não passe despercebida ao grande potencial de leitores extra muros para que possa servir como eixo no tão urgente processo de democratização da leitura das literaturas mundiais contemporâneas no Brasil!

Referências bibliográficas

  • CORINO, Karl. Robert Musil: Eine Biographie. Reinbek bei Hamburg: Rowohlt, 2003.
  • KANDEL, Eric R. The Age of Insight: The Quest to understand the Unconscious in Art, Mind, and Brain - From Vienna 1900 to the Present. New York: Random House, 2012.
  • MUSIL, Robert. Kleine Prosa und Schriften. Reinbek bei Hamburg: Rowohlt , 1978.
  • MUSIL, Robert. Ensaios 1900-1919. Tradução, introdução, notas e contextualização: K. Rosenfield. São Paulo: Perspectiva, 2021.
  • PERLOFF, Marjorie. Edge of Irony: Modernism in the Shadow of the Habsburg Empire. Chicago: University of Chicago Press, 2016.
  • RILKE, Rainer M. Os Cadernos de Malte Laurids Brigge. Porto Alegre: L&PM, 2009.
  • RILKE, Rainer M. Werke. Frankfurt am Main: Insel Verlag, 1996. 4 v.
  • SCHORSKE, Carl E. Fin-De-Siècle Vienna: Politics and Culture. New York: Vintage Books, 1981, 118-181.
  • SPIEL, Hilde. Vienna’s Golden Autumn: From the Watershed year 1866 to Hitler’s Anschluss 1938. New York: Weidenfels and Nicholson, 1987.
  • WUNBERG, Gotthart; BRAAKENBURG, Johannes J. Einleitung. In: WUNBERG, Gotthart; BRAAKENBURG, Johannes J. (ed.). Die Wiener Moderne. Literatur, Kunst und Musik zwischen 1890 und 1910. Ditzingen: Reclam, 2018, 11-79.
  • ZEYRINGER, Klaus; GOLLNER, Helmut. Eine Literaturgeschichte: Österreich seit 1650. Innsbruck; Wien; Bozen: Studienverlag, 2012.

  • 3
    Há aproximadamente dez anos, Zeyringer e Gollner (2012ZEYRINGER, Klaus; GOLLNER, Helmut. Eine Literaturgeschichte: Österreich seit 1650. Innsbruck; Wien; Bozen: Studienverlag, 2012.: 18) afirmaram que „[d]rei Jahrhunderte nach den ersten deutlichen Äußerungen eines Österreich-Begriffes als umfassendes staatspolitisches Konzept, zwei Jahrhunderte nach der Gründung des Kaiserreiches Österreich, 150 Jahre nach Scheitern der ‚großdeutschen Lösung‘, mehr als 90 Jahre nach der Gründung der 1. Republik Österreich, fast 70 Jahre nach dem blutigen Ende des Holocaust-Gesamtdeutschland und nach der Gründung der 2. Republik Österreich kann kein Zweifel mehr an dem tragbaren literaturhistorischen Konzept ‚Österreichische Literatur‘ bestehen.“
  • 4
    Cf. o capítulo, em Musil, 2021MUSIL, Robert. Ensaios 1900-1919. Tradução, introdução, notas e contextualização: K. Rosenfield. São Paulo: Perspectiva, 2021., 275-343, sobre o contexto histórico no qual escrevem autores “austríacos” como Kafka, Musil, Rilke e Canetti. Todos eles (entre muitos outros) são originários de cidades como a capital tcheca Praga ou de Viena, capital do Império Habsburgo, ou de regiões tão diversas como a Bulgária, a Romênia, a Itália do Norte e a Hungria. É necessário ressaltar a importância de Praga, cujos suplementos culturais foram tão ou mais importantes quanto os de Viena. Depois da Primeira Guerra, a maioria de artigos e resenhas de Musil e das vanguardas progressistas foram publicados pela Prager Presse (cf. CORINO 2003CORINO, Karl. Robert Musil: Eine Biographie. Reinbek bei Hamburg: Rowohlt, 2003.: 1896 s.).
  • 5
    Rede zur Rilke-Feier in Berlin am 16. Januar 1927 em Musil 1978MUSIL, Robert. Kleine Prosa und Schriften. Reinbek bei Hamburg: Rowohlt , 1978.: 1237-1242.
  • 6
    „Die ersten deutlichen Äußerungen eines Österreich-Begriffes als staatliches Gesamtkonzept, das über die einfache Tatsache der Herrschaft eines ‚Hauses‘ hinausgeht, fallen in dieselbe Zeit wie jene zur österreichischen Literatur. Zwar gab es im späten Mittelalter und in der frühen Neuzeit einige Versuche, die habsburgischen Erbländer in einer ‚Gesamtstaatlichkeit‘ zu definieren und ein entsprechendes Bewusstsein zu fördern. Allerdings ist der Begriff einer ‚Österreichischen Monarchie‘ oder ‘Monarchia Austriaca‘ erst um 1700 belegt“ (ZEYRINGER & GOLLNER 2012ZEYRINGER, Klaus; GOLLNER, Helmut. Eine Literaturgeschichte: Österreich seit 1650. Innsbruck; Wien; Bozen: Studienverlag, 2012.: 20), „um 1740 wurde begonnen, mit dem Begriff einer österreichischen Literatur zu argumentieren - vor allem gegen eine norddeutsche Bevormundung. So erschienen 1768 in Wien die Briefe über die neuere österreichische Litteratur, war 1769 im ersten Jahrgang der Bibliothek der österreichischen Litteratur (Wien) ein Plan zu einer Geschichte der österreichischen Literatur enthalten“ (id., ibid. 21).
  • 7
    „Im Vielvölkerstaat konnten nicht Sprache und Sprachkunst als bildungsbürgerliches Integrationsmittel dienen, sondern neben Schule und Bildungswesen vor allem Architektur, Musik und theatralische Inszenierungen. Deren Stellenwert vermag bis in unsere Gegenwart grundlegende Strukturen und Verhaltensweisen im Kultursystem zu erklären, etwa die Vorliebe für das Auratische oder die damit zusammenhängende heutige Bedeutsamkeit von Staatsoper und Burgtheater, von Festspielen in Salzburg und Bregenz.“ (ZEYRINGER & GOLLNER 2012ZEYRINGER, Klaus; GOLLNER, Helmut. Eine Literaturgeschichte: Österreich seit 1650. Innsbruck; Wien; Bozen: Studienverlag, 2012.: 19)
  • 8
    Prof. Helmut Galle, que teve a gentileza de fazer uma cuidadosa revisão dessa introdução, contribuiu com a pertinente observação de que as literaturas das regiões católicas do sul da Alemanha compartilharam todas o mesmo problema de desenvolvimento tardio da literatura que destacamos aqui como especificidade austríaca. No entanto, vale mencionar que autores como Hermann Bahr e Robert Musil consideraram que a Áustria dos Habsburgos do final do séc. XVIII não teve qualquer movimento intelectual que se comparasse com os poetas e pensadores de Weimar, Jena, Königsberg e Berlim (Goethe, Schiller, os irmãos Humboldt, Kant, Fichte, Hölderlin, Hegel, etc.), que a Alemanha unificada por Bismarck em 1871 recuperou como patrimônio cultural alemão e que os artistas e intelectuais austríacos (isto é, da Dupla Monarquia austro-húngara) invejaram.
  • 9
    Essa influência também levou a monarca a iniciar outras reformas liberais: a abolição da tortura, a liberdade de comércio, o afrouxamento da censura. (cf. SPIEL 1987SPIEL, Hilde. Vienna’s Golden Autumn: From the Watershed year 1866 to Hitler’s Anschluss 1938. New York: Weidenfels and Nicholson, 1987.: 9-10).
  • 10
    A filha do sobrinho de Joseph II é Dona Leopoldina, que levou o ethos da dedicação e do servir para o Brasil, o que consta claramente no seu Vademecum, escrito como preparação ao cargo de imperatriz do Brasil.
  • 11
    A cultura antiliterária e anti-intelectual encontrou sua expressão estética num pintor, sucesso na época, em Hans Makart (1840-1884), um verdadeiro empresário da encenação e da decoração que soube traduzir em imagens e estilos de interiores as fantasias históricas de seus clientes. O nome de Makart é hoje sinônimo da cultura da aparência e do vazio contra os quais os jovens autores tiveram de se insurgir - muitos deles procurando inspiração em ambientes menos fechados sobre o próprio vácuo. Foi imenso o impacto desse virtuoso e opulento artista sobre o estilo da arquitetura de interiores e da moda da época. Além disso desempenhava uma função pública: a organização dos megacortejos que por assim dizer materializavam no espaço os sucessos da indústria e do comércio traduzidos em imagens mitológicas de todos os tempos, dos mitos gregos às alegorias medievais, motivos renascentistas e reminiscências barrocas - uma opulência visual que envolvia e magnetizava o público que se reconhecia com prazer nesses espetáculos grandiosos e a emoção estética encobria o vazio desses sucedâneos imitativos. - Como Musil, também Broch salientou o vazio espiritual, o hedonismo e consumismo do culto austríaco das aparências enquanto concede à Alemanha pelo menos um senso prático mais ancorado na realidade. Segundo Broch (apud WUNBERG & BRAAKENBURG 2018WUNBERG, Gotthart; BRAAKENBURG, Johannes J. Einleitung. In: WUNBERG, Gotthart; BRAAKENBURG, Johannes J. (ed.). Die Wiener Moderne. Literatur, Kunst und Musik zwischen 1890 und 1910. Ditzingen: Reclam, 2018, 11-79.: 86-96) e Spiel (1987)SPIEL, Hilde. Vienna’s Golden Autumn: From the Watershed year 1866 to Hitler’s Anschluss 1938. New York: Weidenfels and Nicholson, 1987., o termo “Era do Frango Empanado” descreveria melhor a versão austríaca (mais modesta e hedonista) da “Era das Fundações”.
  • 12
    Até o século XX prevaleceu o mito saudosista da cultura barroca que distinguiria a Áustria. Quando faltaram os meios para essa cultura, o imaginário coletivo encontrou fantasias reativas para distinguir-se dos seus rivais - a Prússia e a Alemanha Guilhermina. O apego ao imaginário barroco concedeu pouco espaço aos livros, a literatura e a reflexão filosófica e suprimiu os sonhos revolucionários de uma nova ordem constitucional, voltado a privilegiar a tradição barroca da cultura musical e teatral, mantendo sob controle as reuniões privadas e a circulação de livros que pudessem promover um pensamento independente da classe média educada.
  • 13
    O êxito do governo autocrático de Bismarck transformou a Alemanha nas últimas décadas do século XIX, em rival econômico e militar, político e cultural das grandes potências europeias.
  • 14
    “Nosso estado natural é a disposição fina e saudável. Um ajudante de cabeleireiro que durante suas artificiosas ondulações confessou seus ideais às damas da alta aristocracia, por pouco não fez uma carreira como poeta alemão, não tivesse ele vestido numa festa, por engano, um casaco de pele que ainda não lhe pertencia. Ele já ia e vinha nas mais nobres casas, lia suas poesias durante os chás, e nossa famosa imprensa burguesa, sem dúvida, não teria resistido por mais tempo a esse calígrafo das cabeleiras. Pois a finesse é também o fraco dela. Não há aqui nas terras austríacas a grande antítese de ideias opondo a burguesia e a aristocracia.” (MUSIL 2021MUSIL, Robert. Ensaios 1900-1919. Tradução, introdução, notas e contextualização: K. Rosenfield. São Paulo: Perspectiva, 2021.: 160).

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    13 Ago 2021
  • Data do Fascículo
    Sep-Dec 2021

Histórico

  • Recebido
    26 Maio 2021
  • Aceito
    09 Jun 2021
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