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A interculturalidade e seus inúmeros começos comunitários

Inteculturality and its inumerous communital beginnings

Resumos

A problemática da interculturalidade contribui para a produção de um pensamento-ação da diversidade e visa proporcionar momentos às forças e formas residuais mais embrionárias de resistência ao sistema capitalista. Pretendemos percorrer caminhos da interculturalidade como práxis e com isso fornecer pistas para que se acompanhe alguns momentos de comunidade. Buscamos com a nossa discussão dar novos elementos para se pensar a temática da educação popular em saúde, desde a problemática intercultural, ou seja, como o encontro entre culturas diferentes, culturas dos que participam do processo de educação em saúde.

interculturalidade; comunidade; práxis; educação em saúde


The problematical subject of interculturality contributes to the production of a thought-action based on diversity and aims at providing moments to the more embryonic forces and forms of resistance to the capitalist system. We propose to examine the paths of interculturality as praxis and with that offer clues so to follow some moments of community. With this discussion we seek to bring in new elements to analyze the theme of popular health education, beginning with the problematic subject of interculturality, in other words, with the encounter between different cultures, cultures that participate in the process of health education.

interculturality; community; praxis; education in health


A interculturalidade e seus inúmeros começos comunitários

Inteculturality and its inumerous communital beginnings

Lúcia Ozório

Universidade do Estado do Rio de Janeiro

RESUMO

A problemática da interculturalidade contribui para a produção de um pensamento-ação da diversidade e visa proporcionar momentos às forças e formas residuais mais embrionárias de resistência ao sistema capitalista. Pretendemos percorrer caminhos da interculturalidade como práxis e com isso fornecer pistas para que se acompanhe alguns momentos de comunidade. Buscamos com a nossa discussão dar novos elementos para se pensar a temática da educação popular em saúde, desde a problemática intercultural, ou seja, como o encontro entre culturas diferentes, culturas dos que participam do processo de educação em saúde.

Palavras-chave: interculturalidade; comunidade; práxis; educação em saúde.

ABSTRACT

The problematical subject of interculturality contributes to the production of a thought-action based on diversity and aims at providing moments to the more embryonic forces and forms of resistance to the capitalist system. We propose to examine the paths of interculturality as praxis and with that offer clues so to follow some moments of community. With this discussion we seek to bring in new elements to analyze the theme of popular health education, beginning with the problematic subject of interculturality, in other words, with the encounter between different cultures, cultures that participate in the process of health education.

Key words: interculturality; community; praxis; education in health.

Paris, 17/07/2005 - Um extrato de meu diário de pesquisa

A exposição Sonhar com a interculturalidade através dos desenhos das crianças da França e do Brasil1 1 Fragmentos deste meu diário de pesquisa também fizeram parte de uma mensagem que enviei para a Redepopsaude, uma rede de educação popular e saúde. Ao lê-lo, Neuza Mauad sugere que eu escreva um artigo sobre. Aceito seu entusiasmo com esta experiência que me toca profundamente. é um projeto que nasceu a partir da pesquisa que realizo na comunidade da Mangueira que se chama Papo de Roda: o idoso conta sua historia para que o jovem conte a sua2 2 Esta pesquisa se faz em dois momentos: no primeiro (04/2003-04/2004) à partir do convênio entre a Universidade do Estado do Rio de Janeiro, (UERJ) e a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro, (FAPERJ). No segundo momento, atual (que vai de 04/2004 até a presente data, setembro de 2005, momento em que escrevemos este artigo, continuamos com o trabalho de pesquisa, com nossos próprios recursos, com o apoio poiético da comunidade da Mangueira e com o apoio político e ideológico, mas não financeiro, do laboratório de pesquisa Experice (Centre de recherche en éducation habilité, Universidade Paris 13 - Universidade Paris 8 ; France). .

Foi justo num Papo que surgiu esta idéia de intercâmbio entre os jovens e crianças da França e do Brasil. Falávamos neste papo dos nossos sonhos, quando dormindo e quando acordados, e Patrícia, uma jovem cheia de sonhos, disse que não adiantava sonhar porque depois todos dali iam acabar lavando chão. Conversas, associações, desejos explicitados, nos levaram a querer transpor barreiras e conhecer outros territórios, outros países. Surgiu a idéia de trocar com as crianças e jovens da França. Minhas implicações com todo um movimento na França que aposta neste devir minoritário também entraram neste processo. Confesso que o não da esquerda francesa à Constituição européia (apesar de tantas contradições, principalmente não me esquecendo de que a extrema direita também votou não) me animou face aos desmandos (analisador Jefferson) que vivemos aqui no Brasil neste momento.

Esta exposição forja devires, minoritários, não importa onde. Estou energizada quando vejo as trocas entre crianças da França e do Brasil. São crianças com o seu sagrado dizer sim, como diria Nietzche (1989), que provocam encontros, trocas, uma experiência única de solidariedade, momentos de comunidade. Através dos desenhos, elas abrem uma porta para o mundo do imaginário, do sonho, de muitos possíveis, de um outro humano, dando belas experiências de vida, do compartilhar inter-culturas. Vamos fazer esta exposição no Musée en Herbe, com os professores François Léger e Bertrand Cabanon. Trata-se de um museu para crianças, na idéia de museu-movimento. Amanhã, dia 18 de junho é a avant – première, quando eu e François Léger faremos uma oficina com as crianças e a conferência Interculturalidade e Educação, com os presentes. Trouxe muitas coisas do Brasil, pequenos objetos que tenho, e muito pé de moleque, paçoca, doce de leite... guaraná-xarope para que crianças da França provem um pouquinho das nossas delícias. Neste momento, eu, estrangeira, diferença, me sinto num processo singular de interculturalidade em que a diferença não é eliminada, mas compartilhada. De 27 a 1 de julho estaremos com a exposição na Biblioteca da Universidade Paris 8, onde também participo do Colóquio Internacional de Análise Institucional e dou a conferência Histórias de vida, narrativas comunitárias da diáspora cultural e política.

São muitos os participantes desta exposição - poesia de interculturalidade. Contamos com poucos recursos para realizá-la, os meus e os de François Léger, professor francês, que nos possibilitaram a aquisição de papel, tinta, lápis .... Foi o tipo do projeto que mostra que a simplicidade tem a sua potência e que o dinheiro não precisa ser o motor do mundo.

Vindo para Paris, ainda no avião da Varig, percebi que estava lotado. E havia grupos vários de artistas brasileiros, muitos do nordeste. Havia índios do Pará. Conversei com muitos. Percebi a alegria destes. Uma grande parte fazia sua primeira viagem para o exterior e participavam do Ano França-Brasil. Estavam muito felizes de poder realizar sua arte. Encontrei até com músicos da Mangueira.

Introdução

Um fragmento do meu diário de pesquisa me leva a logo entrar nas minhas implicações-disposições 3 3 Utilizo um entendimento de implicação segundo contribuições da análise institucional. A análise das nossas implicações no mundo tem uma proposta ética, se acolher para acolher o outro e uma problemática política, a compreensão do poder de um sobre o outro. A implicação segundo a análise institucional considera a importância das coisas serem analisadas em situação, no vivido (R. Lourau, 1997). Refiro-me também às minhas disposições enquanto sujeito do inconsciente, que se sabe estrangeiro de si mesmo, que tem algo que pulsa e encontra modos de liberar o sofrimento e a alegria, a repetição e a criação que me habitam (Freud:1900; 1929). Apresento ao leitor minha caixa de ferramentas que se intensifica na biblioteca do antropólogo, da psicanálise, da análise institucional, da literatura, da filosofia e do saber popular cujo quotidiano me é uma fonte de inspiração indispensável (Ozório, 2004:59). Busco com esta compreender o múltiplo presente neste quotidiano. Procuro intervir nos especialismos (psicanalista, socianalista, psicóloga, trabalhadora de saúde, professora) que atravessam minha prática e que querem uma ação de...formação sobre mim. Prefiro me intensificar com as multiplicidades que me habitam, abrindo-me também para outras interferências do campo social. enquanto pesquidadora. O diário é um registro implicado, que dá uma compreensão da temporalidade dos nossos atos e serve para que se tenha acesso a ecos no campo da pesquisa (Ozório, 2003). Meu diário, como prática de pesquisa, registra os caminhos da interculturalidade como práxis de comunidade, recusando certos aportes teóricos e práticos, os apriorísticos ou os que se querem planificadores do desenvolvimento. Os ecos? São os do quotidiano da pesquisa. O diário dá-lhes certa visibilidade, ressonâncias. Com isto contribui para resgatar a importância do quotidiano na prática social (Lefebvre,1962), fornecendo também elementos para se acompanhar diferentes momentos de comunidade.

Quando falo de implicação-disposição, refiro-me a um modo de ser que tenta fazer frente à confiscação da nossa práxis nos impondo a repetição, a domesticação barata, a exploração e dilapidação reguladas, normatizadas e mantidas pelas políticas e polícias da globalização liberal (Sader, 2003). Como R. Lourau (1988), não me esqueço de Hiroshima e Nagasaki, analisador de um pensamento científico que reforça a violência e as desigualdades sociais. A fome e a miséria do povo brasileiro estão aí. Muitas ações do governo Lula subservientes aos ditames do capital internacional, dispositivo da globalização liberal, mostram que a luta por um país menos desigual, menos violento é tarefa complexa e não pode prescindir da potência das forças e formas residuais do sistema capitalista que buscam novos modos de ser e estar no mundo. Não se pode banalizar a capacidade que tem este sistema de fagocitar as forças e formas mais embrionárias de resistência a ele, presentes no tecido social e em nós.

A problemática da interculturalidade contribui para a produção de um pensamento-ação da diversidade, que visa proporcionar momentos (Lefebvre,1962 ) às forças e formas criadoras, populares, comunitárias, residuais, colocando-as em centros, provisórios certamente, mas que são considerados obras que participam de um processo de encantamento do mundo (Ozório, 2004e, p.14). Os momentos são tentativas de realização total de uma possibilidade (Lefebvre,1989). Esta problemática nos leva a pensar na importância da construção de uma cidadania em que os atores sociais devêm atores da política. A idéia é de intervir numa cidadania discriminatória que produz alienação na medida em que reproduz um global que perpetua o idêntico e favorece a circulação do capital. Como diz Santos (2001), o sonho de uma cidadania universal, com um mundo mais unido, se torna cada vez mais distante.

A cultura disseminada pela globalização liberal serve de dispositivo a uma ideologia, desde uma definição marxista de ideologia, que inverte a apresentação do real, que dissimula suas contradições (Lefebvre, 1977), que nega suas diferenças. E quando se fala de multiculturalismo, não se pode deixar de propor análises-críticas e intervenções naquele estimulado pela globalização liberal que torna cada vez mais difícil um diálogo entre culturas, "... única ação que poderia superar a atual incapacidade dos agentes políticos da mudança social" (Bauman, 2003, p.97).

Buscamos com a nossa discussão dar novos elementos para se pensar a temática da educação popular em saúde, aportando a interculturalidade como uma práxis de comunidade. A educação popular em saúde lida no seu quotidiano, com o encontro entre culturas diferentes, culturas dos que participam do processo. O cuidado com este encontro não é tarefa fácil visto os riscos reguladores sempre presentes neste (Ozório, 2004d ; Stotz & cols., 2005; Vasconcelos, 1998).

Queremos priorizar a criação de novos espaços-tempos para as práticas sociais nos quais as experiências precisam ser debatidas e soluções específicas aos grupos envolvidos nesta processualidade, e seus momentos, devem ser levados em conta.

Papo de Roda: O lugar e o mundo

Neste artigo, uma fonte de inspiração privilegiada é a pesquisa na Mangueira (2004a) cujo nome como dissemos acima éPapo de Roda. O Idoso conta sua história para o jovem para que este conte a sua. Este nome é dado à nossa pesquisa por Celso, morador do local, com uma história de vida cheia de lutas e resistências pela comunidade. Celso propõe que as experiências de vida dos moradores da Mangueira sejam contadas.

A gente vai contar as histórias das rezadeiras, das criadoras de porco, das verdureiras, da gente daqui. A Mangueira está precisando disso. Pessoal pensa que Mangueira é escola de samba ou marginalidade. Tem no meio disso aí toda a comunidade, que ninguém conhece. (Ozório, 2004a, p.24)

Mangueira é uma comunidade cuja história começou, segundo histórias locais, em 1862, cujos primeiros habitantes foram africanos que chegaram ao Brasil tratados como escravos por Portugal, que se quis descobridor do nosso país. O Papo de Roda faz uma analogia com a roda de samba, antiga cultura no morro da Mangueira, onde os músicos locais se reúnem para tocar um sambinha, não importa em qual momento. Aliás, como contou-nos D. Maria de Lurdes, num Papo de Roda, desde os tempos ancestrais, seus habitantes tocavam o jongo, os tambores, de origem africana, em diversos momentos do quotidiano (Ozório, 2000a). Na Mangueira há um sentido comunitário na sua música, que atravessa o tempo: a resistência a diversas formas e forças de dominação que seus moradores enfrentam até hoje. Mangueira é um dos berços do samba do Rio de Janeiro, e através da sua história mostra como toda uma tradição caminha nos interstícios de práticas culturais, lembrando José Murilo de Carvalho (1987) quando diz que o mundo ''sobre-terrâneo'' da cultura das elites foi engolido pelo mundo ''subterrâneo'' da cultura popular.

O Papo de Roda mostra a importância da cultura como viagem. E como em toda viagem, mostra os encontros que faz. Como a roda de samba, os que dele participam, compartilham em muitos momentos, uma espécie de exercício lúdico do com-viver. As histórias orais de vida das pessoas idosas são contadas, são compartilhadas, com os jovens e outros presentes no Papo. Pode-se dizer que estes relatos desenham em presença, num coletivo, uma memória possível do sujeito, mas também do grupo, em que há um em comum que atravessa as condições para que a transmissão aconteça. A marca de uma cultura, a do lugar, a da Mangueira, diversa é bem remarcada por outra sabedoria de Celso: "... a gente vive tão junto que às vezes fica difícil delimitar uma área", se referindo às diferentes comunidades que existem na Mangueira4 4 Comunidade da Mangueira se referia ao morro da Mangueira (Chalé e Buraco Quente), ao Morro dos Telégrafos, ao Parque Candelária, à Olaria, ao Faria, ao Eucalipto e à Vila Esperança. Esta pesquisa se desenvolve mais especificamente na comunidade do Morro do Telégrafo, lugar onde muitos dos primeiros habitantes da Mangueira foram morar. Trabalhavam muitos no palácio imperial na Quinta da Boa Vista (Ozório, 2004a). . Celso ensina que o lugar, a Mangueira, tem um jeito singular de lidar com a diversidade. Podemos falar de uma interculturalidade comunitária.

No Papo de Roda vive-se o tempo do lugar, próprio, bem mais próximo da lentidão que da velocidade destes tempos capitalistas do qual fala Virilio (1995), reproduzida pela ideologia da globalização neoliberal. Trata-se de uma cultura que tenta, no sentido de experimentar uma força, construir um tempo sempre possível, de mãos dadas com a práxis. Nada nasce do jeito que se faz. Este tempo lento tenta forjar um outro tempo, o da invenção de outras sensibilidades, outras inteligências e ternuras. E proporciona experiências únicas de comunidade.

Ao lidar de modo singular com o tempo-processualidade, os participantes do Papo de Roda abrem-se para as transversalidades em interferência no processo, umas que se atualizam, outras que se potencializam e que escapam ou são tratadas de outro modo pelo tempo veloz. A cultura que ali se atualiza é uma cultura que dá importância à comunidade, à eternidade, à durabilidade e à conseqüência das ações humanas (Bauman, 2003).

Santos (1998) considera estas zonas onde vivem os pobres como espaços do "aproximativo", espaços da "lentidão" e não da vertigem de que nos fala Paul Virilio (1995), elogiada pela ideologia globalizante. Santos marca a força dos "lentos" com seu mundo de fabulações que se contrapõe ao imaginário perverso, pré-fabricado, produzido pela velocidade globalizada. Trabalhando com a categoria de prático-inerte de Sartre (1985), o autor nos dá pistas para compreender a "lentidão" do lugar. Cada lugar é atravessado pelo seu prático-inerte, local, formado por uma tecnoesfera e por uma psicoesfera. A primeira por sua materialidade pertence mais ao reino da necessidade e a segunda, sendo considerada mais da ordem empírica, mas não material, pode ter relação com movimentos em busca de liberdade.

O prático-inerte é o resultado de configurações que mostram a presença do passado, através de totalizações que criam estas configurações resistentes na vida social. A migração contribui até hoje para a diversidade do lugar, com sua variedade de sujeitos e interpretações do "real", com suas diversas culturas e tem seu prático-inerte que aponta para afirmações de comunidade.

O Papo de Roda é um espaço-tempo instaurado pelo lugar que mostra que o passado é num outro lugar (Santos, 1998). Para os pobres, migrantes da Mangueira, o lugar de chegada, espaço "inorgânico", é um aliado da práxis. As totalizações do passado, resistentes, são atualizadas pelo ritmo da vida do lugar. E elas encontram no Papo de Roda uma possibilidade da criação de espaços – tempos diversos, inclusive os de comunidade. A "lentidão" local, como algo que resiste, na práxis quotidiana, intervém no tempo veloz que quer postergar a vida dos pobres, que quer deixá-los numa zona favorável à circulação do capital.

O lugar como "espaço do aproximativo" não pode ser pensado sem o mundo (Santos, 1998). No lugar o mundo se movimenta. Pode-se dizer que nele o mundo se inventa. Longe de propor concepções localistas, o autor pensa relações global – lugar, em que a diversidade precisa ser considerada. O lugar traz uma historicidade transversalizada pelo global, produzindo uma temporalização-territorialização da política.

As relações entre global e lugar podem ser compreendidas desde uma perspectiva dialética (Ozório, 2004e). A análise dialética propõe um modo de confrontação com o real (práxis) considerando a sociedade como uma virtualidade contraditória permanente. E a análise dialética com sua lógica contribui para que se compreenda as contradições deste processo, desvelando-as (Lefebvre, 1947, p.XXXIX). As relações local-global se transversalizam, são contraditórias, apresentam tensões e favorecem a criação renovada da política e de novos direitos.

O lugar, produção histórica, nos possibilita a idéia de um tempo histórico fabricado pelo homem. Neste tempo, o global assume uma forma empírica, concreta (Santos,1998). Podemos falar de uma localização do global no lugar, espaço-tempo de devires que impõe um exame renovado sobre o que hoje se denomina global. Por outro lado, o lugar como espaço-tempo da indispensável solidariedade e cooperação, o é também das contradições. Ele é confrontado pelas forças da escala global que buscam transformá-lo, fagocitando suas singularidades. Nesta tensão dialética local-global, o lugar imprime a sua diversidade no processo globalizante, o seu ritmo, favorecendo a criação de novos espaços-tempos de liberdade (Lefebvre, 1992): "Quando nos interessamos pelo lugar nos consideramos num projeto político global onde a diversidade tem seu lugar e o lugar exprime sua diversidade" (Ozório, 2004e, p.36).

Papo de Roda: A interculturalidade como modo de fazer comunidade

Nancy (2001) afirma que comunidade serve a múltiplos sentidos e que a apropriação deste sentido só pode acontecer na comunidade e como comunidade. O pensamento de Agah (2001) estabelece alianças com os de Nancy, quando pensa comunidade como "... práxis, o processo que está sempre em vias de se compreender, de constituir seu conceito mas que procura, se esforça ao mesmo tempo para ultrapassar todo conceito dado ou fixado já nele mesmo, de seu real e de sua realidade.(...)"(Agah, 2001, p.1). Hobsbawm (1997) chama a atenção para a inflação semântica do termo comunidade do ponto de vista sociológico. Celso, morador da Mangueira diz que "... para viver em comunidade é preciso gostar...".(Ozório, 2004a, p.25). Os autores nos dão pistas para se ter acesso a uma compreensão de comunidade na sua complexidade histórica e responder às demandas contemporâneas de comunidade.

O Papo de Rodaé engendrado pela cultura do lugar e marca a singularidade de um entendimento de pesquisa, a pesquisa-ação, que dá importância à imanência e à contingência das práticas no campo social e afirma (no sentido de afirmar uma potência) todos os participantes como sujeitos que agem e produzem conhecimento sobre a realidade. Tentamos interferir na tensão sempre presente nas relações entre teoria e prática, nas ciências sociais, que segundo certas posições visam garantir uma ruptura entre o pesquisador e os outros atores do campo de pesquisa que são colocados em muitas situações, na posição de objeto (Althabe, 2002; Ozório, 2004e).

No Papo de Roda vamos colhendo elementos para a compreensão da comunidade enquanto práxis e da interculturalidade como manifestações da comunidade. A comunidade como processo é práxis, são manifestações de um em comum que atualiza um convívio singular de culturas diversas, um encontro entre-culturas, com diferentes modos de ser, sentir, ver, viver no mundo.

Trabalhamos com um entendimento de cultura como viagem, que se contrapõe então a uma compreensão substancialista, identitária, etnocêntrica de cultura e ao entendimento da "multiculturalidade" muito bem acolhida pelos conquistadores e construída pelos colonizadores e seus continuístas. É preciso dizer que a ação "multicultural", ocidental, proposta pelos colonizadores brancos, quer que todos disciplinarmente sejam europeizados ou "americanizados". Interessante este termo "americanizado", cunhado pelo senso comum, que denuncia o poder dos Estados Unidos que se quer Império subsumindo assim a diversidade das Américas (Negri, 2003).

Bauman (2003) afirma que este "multiculturalismo", hegemônico, traz implícita a tolerância liberal e entende comunidade como reconhecimento de identidades seja por herança ou mesmo por escolha. Este entendimento da comunidade como substância e interioridade, como efeito de tendências homogeneizantes vai de par com uma compreensão conservadora do "multiculturalismo" que transforma as desigualdades não absorvidas pela aceitação pública em "diferenças culturais". Dá-se por exemplo, visibilidade a diferenças étnicas e religiosas, reforçadas pela tirania da informação protagonizada pela mídia globalizada, bastante interessada pelas suas disputas. Evita-se o enfoque na privação material e conseqüente manutenção dos privilégios e da divisão social que separa a sociedade. Assim os ricos pensam que nada têm a temer. A absolutização das diferenças responde à manutenção das desigualdades sociais.

Muitas teorizações e práticas constitutivas das ciências sociais se interessam pelas tensões entre as diferenças. Se por um lado notamos em algumas um certo fundamentalismo universalista que se recusa a aceitar a diversidade de formas e modos de existência no tecido social (Noudelmann, 2003), a política dita "multiculturalista" apresenta um outro descaso pela diferença, atribuindo-lhe uma natureza essencialista (Bauman, 2003) que quer uma reconciliação com a desigualdade.

A proposta intercultural se ocupa das vicissitudes da diversidade, melhor dito, das vicissitudes do em comum enquanto práxis. Pode-se falar de alianças feitas ou buscadas entre heterogêneos, através de uma comunicação possível entre-diferentes, que recusa proposições identitárias, a imitação e a homogeneização. Com isso coloca-se em questão a mítica da boa comunidade, vê-se signos de emergência da comunidade como práxis, levando-se em conta as contradições, tensões, conflitos nas fronteiras enunciativas entre-culturas. Aliás, é de se ressaltar as interferências neste encontro entre-culturas que acolhe a diferença sem hierarquias, e a coloca na história (Ozório, 2004a). Nas vicissitudes dialéticas da diversidade há aberturas para manifestações de comunidade que intervêm num globalitarismo multinacional que quer a exclusão e a dominação mas que pode e é enfrentado no quotidiano pelo lugar com sua diferença (Ozório, 2004e; Santos, 2001).

A interculturalidade é dispositivo de resistência, em comum. O Papo de Roda é modo de enfrentamento, é resistência. É interessante marcar este modo de resistir. Ele é quotidiano e resgata a potência política do quotidiano (Lefebvre, 1962; Ozório, 2004a). A interculturalidade nele é vivida como compartilhamento de histórias de vida, experimentações de vida quotidianas cuja diversidade mostra sua potência. Ao invés de ali se hipertrofiar as diferenças, estas são colocadas à disposição de um mundo generoso, intercultural. Ao se comunisá-las, modos de compartilhar entre diversos num mundo diverso, afirma-se a práxis de uma hermenêutica que toma o sentido de com-preender em comum (Delory-Momberger, 2000; Levi, 1996; Ozório, 2004b).

No Papo de Roda, pessoas idosas da comunidade da Mangueira são convidadas a contar suas vidas para os jovens e comumente partilham suas histórias-experimentações de vida. Contar histórias de vida é uma arte, diz Benjamim (1985). E compartilhá-las favorece heterobiografias e momentos únicos de interculturalidade. Podemos falar de uma arte intercultural. A narração das histórias de vida apresentam marcas da diversidade da cultura local, que é nelas reabilitada. No Papo de Roda, em presença, as pessoas re-fazem em comum suas histórias e a história-cultura do lugar, comunisando (práxis) um modo de transmissão no qual tensões entre as diferenças abrem a possibilidade de um hibridismo cultural no qual culturas, gerações se transversalizam.

No Papo de Roda se conta as histórias da gente da Mangueira, como propôs Celso, e ali se vive um momento único de histórias-experimentações de vida que são com-preendidas, re-trabalhadas em comum (Ozório, 2004a).

Os jovens experimentam a vida com as pessoas idosas e partilham em comum potências existenciais. Os jovens e as pessoas idosas, atores locais, querem fazer devires e encontram na comunidade um modo de sustentação da busca do que seus sonhos mostram. Um certo exercício de memória ali se exercita, uma memória que é antes de tudo social e que mostra a importância do passado atualizado no presente, para a resistência e as mutações: "Eu sou como o vento, eu não volto, eu vou sempre em frente" (Comandante, citado em Ozório, 2004a, p.24).

O Comandante, de 88 anos, responde no Papo de Roda à Vítor, de 12, quando este, sugando o dedo polegar, lhe perguntava se não sentia falta dos pais de cuja casa saiu com 9 anos de idade por conta de uma disputa com seu pai. A pergunta de Vítor o fez associar com muitos momentos de sua história e da história da Mangueira, que ajudaram os jovens a compreender os interstícios culturais que produziram invenções criativas na sua vida. Nas suas narrações, o Comandante pode fazê-los compreender o que é um nome-acontecimento. Este nome lhe foi dado pela cultura do lugar, que bem soube compreender a existência deste homem, seu caminhar, como o vento, suas potências de afetar e ser afetado, que o colocaram em muitas posições irredutíveis.

As pessoas idosas do Papo de Roda fazem um livro com suas histórias que iluminam o presente e indagam muitos impasses da sociedade dos nossos tempos.

Grupo Renascer: Os jovens desenham suas histórias sonhando com a interculturalidade

Trabalhar entre-culturas responde a demandas políticas contemporâneas de comunidade e busca a construção de posições teórico-políticas ainda inovadoras que possam focalizar os momentos ou os processos em que as diferenças interculturais se articulem (Bhabha, 2003). Interessamo-nos por um modo de articulação complexa da diferença, desde a perspectiva dos assim chamados irredutíveis ao sistema capitalista, ou melhor, das forças e formas residuais como potência constituída no mundo que se juntam e apresentam saídas poiéticas no mundo das potências capitalísticas especializadas (Lefebvre, 2000).

O Papo de Roda marca modos particulares de expressão destas formas e forças residuais, as da Mangueira, que conhecem a dureza de muitos caminhos estreitos mas apresentam saídas absolutamente inventivas às mais diferentes formas e forças de dominação. Como analisador da potência destes "espaços do aproximativo" de que fala Milton Santos (1998) tem a singularidade de um ato dialógico que reforça um em comum identificável à práxis comum e aberta da existência.

O Papo de Roda dá pistas para que aportemos este compreender em comum em propostas de educação em saúde na medida em que afirma a importância da experiência compartilhada como matriz da educação e da saúde democráticas. Aliás, educação em saúde é uma proposição na saúde que pode reforçar alianças entre heterogêneos. Nela a educação e a saúde podem estabelecer alianças que apostem numa natureza comunitária da razão, razão generosa a serviço do mundo.

Neste sentido a educação em saúde compreende a saúde e a educação em termos de atores sociais. Assim, institui-se como práxis, como atividade política do cidadão que participa então nos debates e nas deliberações da saúde, em comunidade (Freire: 2001; Konder, 1992; Ozório, 2004e, 2004b). Educação popular em saúde já é uma singularidade da educação em saúde. Marca a presença de um saber, o assim chamado popular, na saúde que sabemos, tem muitas histórias que o consideram como menor. Este saber, como singularidade, marca uma diferença no campo das ciências sociais. Estas ainda não se deram conta de que é um saber, ou melhor, uma construção-desconstrução de saberes – práticas que com seu quê de irredutibilidade, não se importa em se erigir enquanto saber, enquanto modelo, mas busca tempos de alianças com a vida. O saber popular é um saber intercultural. Daí, sua característica de luta, de resistência, assim como de apropriação e expropriação (Hall, 2003). O saber popular busca aliar a construção de um conhecimento mais rico com uma transformação sócio-política mais profunda.

No exercício hermenêutico de com-preender junto, os jovens do Papo de Rodaexplicitaram uma demanda de espaço próprio. Esta demanda desde uma perspectiva da educação popular em saúde pode ser entendida como um outro modo de praticar o em comum. Os jovens quiseram instaurar um outro espaço-tempo para viver a comunidade marcando um dissenso no em comum. No entanto, longe da hipertrofia das diferenças ou de subsumi-las numa homogeneidade, este dissenso mostrou um modo peculiar de lidar com estas, no processo. O dissenso afirmou uma vontade de comunidade: a da ampliação da capacidade de agir. Aliás, toda a demanda traz não só a potencialização mas também a atualização de muitos devires.

Este espaço demandado pelos jovens foi por eles nomeado de Grupo Renascer, uma deriva visível do Papo de Roda. Esta nomeação, analisadora de tantas demandas de renascimentos do lugar, feita pelos jovens, confirma que todo processo cultural inclui um processo identificatório complexo, no qual mutações e perigos da fixidez mostram suas transversalidades sócio-históricas (Ozório, 2004a). Aliás, é preciso dizer que os jovens da Mangueira forjam seu espaço-tempo próprio, em comunidade, mas continuam em comum com as pessoas idosas no Papo de Roda.Com isso mostram a riqueza e as vias possíveis de um diálogo cada vez mais difícil entre culturas de gerações diferentes, confirmando o que Bauman (2003) diz sobre a importância do diálogo entre culturas para superar a atual incapacidade dos agentes políticos instituídos da mudança social. Na construção de um espaço-tempo possível, comunitário, de mãos dadas com a práxis, estes jovens mostram que nada nasce do jeito que se faz.

Os sonhos, os da vigília e aqueles quando dormimos, estão muito presentes no Grupo Renascer e mostram que servem para caminhar. Neste grupo a presença cultural imprime nos sonhos dos jovens buscas libertárias mas também identificações, capturas da dominação e exploração da sociedade capitalista (Freud, 1900,1929, Lourau,1978). Patrícia, uma jovem cheia de sonhos, expõe estas apturas quando diz em certo momento que "...não adianta sonhar porque depois todos ali iam acabar lavando chão..." (Ozório, 2004a). Se o conformismo de seu discurso denota a violência da ideologia capitalista em nós, é o Estado em nós (Freud, 1929; Lourau, 1978), a não-conformidade no grupo mostrou sua força aliando-se à interculturalidade como tentativas de re-nascimentos. Pode-se falar num despertar de desejos de construir novas formas e modos para o pensamento e para a vida (Souza, 2005).

No Grupo Renascer transitamos por caminhos que nos levam a problemática contemporânea dos direitos e das oportunidades. Patrícia fala das oportunidades, quer dizer, dos privilégios, como soluções encontradas pelo globalitarismo liberal para manter seus esquemas de dominação e sua alavanca maior, o mercado. Quando Celso diz que o mundo precisa "... conhecer as histórias da comunidade da Mangueira ..." (Ozório, 2004, p.24) e propõe que pessoas idosas e jovens disso se encarreguem, ele afirma a vontade de mostrar ao mundo que é possível encontros não autoritários entre culturas. Na sua demanda havia uma compreensão da articulação complexa das diferenças desde a perspectiva dos irredutíveis ao sistema capitalista, inclusive o reconhecimento da potência destes como diferença (Deleuze, 1980).

Assim como o Papo de Roda, o Grupo Renascermarca um tempo social, político, diferente, ligado a uma espacialidade vivida, deixando claro que o lugar precisa se pensar no mundo. Ambos buscam construir narrativas da diáspora cultural e política dos irredutíveis ao capitalismo (Bhabha, 2003).

A fala de Patrícia faz re-nascer um desejo de não – conformidade no grupo, desejo de conhecer e se fazer conhecer. Surge o desejo de escrever para jovens de outros países. E as cartas são o primeiro dispositivo de encontro. Interessante este movimento: os jovens da Mangueira movimentam o local no mundo. Eu, como pesquisadora implicada no processo, apresento-lhes a possibilidade de correspondência com os jovens da França, país onde temos aliados dos irredutíveis que forjam suas oportunidades.

Os jovens ao expressarem seus desejos buscam o reconhecimento de outro lugar, de outra coisa, e caminham nos interstícios da cultura apostando no que de invenção aí existe (Bhabha, 2003). Como irredutíveis mostram a intensidade de suas forças que querem se propagar, querem contagiar e ocupar outros espaços-tempos da vida social. No início trata-se da realização de um desejo de troca de cartas com os jovens da França. François Léger5 5 Professor da Educação Nacional, Paris. , professor na França, alia-se ao desejo dos jovens da Mangueira. Como ele disse : " estes jovens subversivamente se misturam nos interstícios da cultura e intervêm no papel da política, para articulá-la com o desejo"6 6 Conferência Rêver de l'interculturalité avec les dessins des enfants de France et du Brésil. Musée en Herbe. Paris, 18 de junho de 2005. . Seus alunos, das escolas públicas da França, são os primeiros interlocutores dos jovens da Mangueira. Na troca de cartas, jovens e crianças do Brasil e da França escrevem suas histórias-experimentações de vida, quotidianas. Nesta escritura vislumbra-se uma certa ética-estética da existência com contornos singulares da cultura da Mangueira e da cultura na França. É interessante ressaltar que as crianças da França mostram que pertencem a muitas culturas de muitos países.

O Grupo Renascer, deriva do em comum no Papo de Roda, aposta na comunicação intercultural possível, nas suas n possibilidades, e arruma modos de intervir no Império. No presente. Comunitariamente. No desejo de trocas entre-culturas constata-se a propagação e o contágio de um movimento irredutível. O professor Bertrand Cabanon7 7 Professor da Educação Nacional, em Paris. , da França, em contato com o professor François Léger, passa a fazer com muitos dos seus alunos parte do processo. As professoras Stella Pellegrini e Sonia Pellegrini8 8 Stella Pellegrini, professora da Escola Municipal México. Sonia Pellegrini, da Escola Estadual Inácio Azevedo do Amaral. , em contato com a pesquisadora também participam com seus alunos, crianças da escola municipal México, a maioria moradora da comunidade do Morro Santa Marta, no Rio de Janeiro, assim como jovens que querem ser professores(as) do ensino fundamental, da escola estadual Inácio Azevedo do Amaral, também no Rio de Janeiro. Alice, Vinicius e Eduardo9 9 Compartilhamento de um espaço terapêutico com a pesquisadora. , Amanda e Bruna10 10 Netas da pesquisadora , como crianças do Hospital Municipal Nossa Senhora do Loreto se juntam na construção do em comum buscado pelos jovens da Mangueira.

A participação das crianças do Hospital Loreto tem uma singularidade: é um analisador do processo de cultura como viagem, feita por criança. Os idosos do Papo de Roda e os jovens do Grupo Renascer querem contar suas vidas, fazer trocas interculturais com o mundo. Os primeiros querem registrá-las num livro. O desejo dos jovens marca uma deriva do Grupo Renascer, a exposição Sonhar com a interculturalidade através dos desenhos das crianças da França e do Brasil11 11 Além dos citados no Texto, esta exposição teve o apoio da Secretaria Municipal de Educação do Rio de Janeiro; do Experice (Centre de recherche en éducation habilité, Universidades Paris 13 e Paris 8), França; das escolas públicas do Departamento da Educação Nacional de Limeil-Brévannes e de Valenton, Val-de Marne, França; do Rased (Réseau d'aide spécialisé pour les enfants en difficultés), Créteil, França; do Liceu Molière. A associação Jeux Thèmes, na França, da qual o professor François Léger é presidente e a pesquisadora assumiram a despesa material com as práticas realizadas. Os poucos recursos empregados comprovam que a práxis não precisa do dinheiro como mola mestra do mundo. Além do Musée en Herbe e da Biblioteca da Universidade Paris 8 na França, esta exposição se instalou na mediateca JL Lagardère do Colégio Pedro II no Rio de Janeiro. E irá para outros lugares. . Neste desejo compreendemos a importância das produções culturais das crianças e jovens, obras através das quais temos acesso a muitas verdades de um tempo. Muitas obras, no seu valor documental, como memória social, ajudam a fazer a história. As crianças e jovens também fazem a história. Esta exposição se implica com esta práxis.

E a participação das crianças do Hospital Municipal Nossa Senhora do Loreto mostra a importância das produções da criança como fonte documental para a pesquisa sobre interculturalidade. É interessante enfatizar que suas produções datam do período 1979-1986, ou seja, momento muito anterior à realização desta exposição. Neste momento, elas participavam neste hospital de lutas pela sua democratização (Ozório, 2004b)12 12 Neste momento a pesquisadora era coordenadora do Setor de Saúde Mental deste hospital. Este trabalho, exemplo de práxis deste setor que buscava intervir na ordem hospitalocêntrica é registrado na exposição '' As crianças sabem das coisas. Costumo dizer que as vozes destas crianças ganharam mundo (Ozório,2004-b). Colaboraram nesta exposição, dentre outros, as psicólogas Márcia Franco e Tereza Cristina K. Amim. . Nos desenhos feitos na época, toda uma problemática psico-social e político-institucional era exposta. As crianças desenhavam seu quotidiano no hospital, mostravam seu sofrimento, muitas vezes o relacionaram com a ''internação'', ou melhor, com o sistema de saúde em vigor. A cultura do hospitalocentrismo se tornou visível pelas crianças que apresentaram um potencial significativo de questionamento desta ordem e vias possíveis para sua transformação. Neste momento, as crianças foram consideradas atores importantes de um processo desde a perspectiva da educação popular em saúde que considera seus saberes-práticas como fundamentais para a construção de uma saúde mais participativa e democrática.

Achamos que como valor documental, as obras das crianças do Loreto deveriam fazer parte desta exposição sobre interculturalidade. Como exercício de memória cultural apresentam quês de irredutibilidade aos sistemas constituídos, como propostas de transformação no mundo.

Os jovens do Grupo Renascer com a exposição, continuaram à sua maneira, a contar histórias de vida, e o fizeram afirmando as i-limitações da cultura como viagem. Além das cartas, os desenhos das crianças da França e do Brasil vão-se assumindo como forma de expressão intercultural13 13 Aliás esta deriva da pesquisa Papo de Roda .... vai-se intensificando e abrindo a possibilidade de outra pesquisa: Sonhar com a interculturalidade através dos desenhos das crianças no mundo sobre a qual nos ocuparemos em próximas publicações e na qual serão consideradas as obras das crianças de todo o Brasil. .

A interculturalidade e seus inúmeros começos comunitários

As crianças e jovens do mundo vão mostrando que comunidade é ainda pensável e realizável. E tecem uma cartografia intercultural de muitas chances. Neste Sonhar com a interculturalidade ... com-preendemos que estes sonhos podem se realizar ... através dos desenhos das crianças da França e do Brasil. O nome da exposição se refere à crianças,o que marca uma preocupação nossa não com um cronologikus mas com um tempo aiônico, mais da invenção ao qual a criança remete. Neste, nossa condição humana estabelece relações imanentes, contingentes com a cultura, com o cosmos e finita, cria também suas infinitudes. Referimo-nos a um devir criança, a um constante vir a ser, a um novo começo que se faz com caminhos e movimentos variados (Deleuze, 1980; Ozório, 2004c). Neste sentido, apesar da diversidade das idades dos atores da pesquisa, no que se refere à quantidade de anos vividos, preferimos considerar a intensidade destes, dando primazia à vida que pulsa em todas as idades, que quer devir ... criança, como vontade de afirmar e ser afirmado (Nietzche, 1989).

Um devir criança se explicita nos caminhos percorridos até aqui, desde o Papo de Roda até a exposição Sonhar com a interculturalidade ... Neste caminhar, a irredutibilidade como potência instituinte explicita um sentido da existência que não acusa a vida, que mostra que esta não precisa ser justificada, muito pelo contrário, ela é afirmada, mesmo em se tratando do sofrimento. O intercultural como práxis aberta da existência encontra a comunidade em narrativas libertárias, em experiências de vida afirmadas e apreciadas, força não separada, vontades não desdobradas.

No título da exposição, referimo-nos a desenhos das crianças que cartografam equações oníricas da interculturalidade. Os desenhos, como os sonhos, têm uma capacidade de super-restituição da realidade, convidando-nos a viajar. Eles buscam se emancipar do visível, se aproximar do gesto, assumindo sua capacidade de desligar e de fluir. Nas cartas, primeiro dispositivo utilizado em comum há a palavra e a linguagem com sua diversidade como práxis, atual, "...intervindo na língua como abstração concreta ..." (Lefebvre, 2000: 229). Mas nelas há desenhos, ou melhor, nelas vislumbramos certos efeitos que levam a pensar algo como um "esboçar na escrita" ou um "desenhar alguma coisa no espírito" que Delacroix (Michaud, 2005, p.106) consideraria impossível. Estes esboços, levam a dizer "... como o desenho o texto..."(Michaud, 2005:106-108) pois, mais pelas intensidades que provocam, abrem ao intercultural uma via real, liberando o julgamento do conceito, favorecendo a exploração de invisíveis e indizíveis.

Dos esboços nas cartas todo um movimento vai adquirindo proporções e os desenhos vão assumindo uma independência da representação, aparecendo cada vez mais como um espaço de transformação em potencial. Neste sentido, as cronologias se desfazem, as desmedidas, estes irredutíveis, lembram as tensões que presentes no desenho, o aproximam dos sonhos.

As crianças, de-vindo, desenham a vida quotidiana, uma fonte de inspiração, mas também as coisas dos lugares onde moram, as do seu país, dando assim movimentos e durações diversas às equações oníricas interculturais. É poiético localizar o sonho no quotidiano, na cultura, e lidar com ele enquanto práxis. Como os sonhos estas obras de criança trabalham, e como dizia Freud (1990) os sonhos se contentam em transformar. Estas obras desbordam sobre elas mesmas, refletem um universo intercultural e brilham na sua direção.

Deixamos aqui registrado alguns momentos de interculturalidade vividos, ousando duplamente: funcionar como sujeito da enunciação de alguns enunciados interculturais, e segundo, fazendo isto sem trazer para este texto, os desenhos das crianças, por limitações de espaço. De qualquer modo assumo nas enunciações, minhas implicações e limitações com o trabalho, tentando também reproduzir alguns comentários da criança em relação às suas obras que despertam tantos esboços interculturais, comunitários, em mim. Desejo que também no leitor.

Esta é a casa dos pobres. É injusto e triste porque eles não têm quase nada. (...) A maior parte do mundo é assim. (Alice, 8 anos, França)

É a praia na Turquia. (Num canto do desenho, muito colorido, há um quadrado azul com um monte de corações) (Enes, 8 anos, Vive na França, veio da Turquia)

Sou árabe (desenha um boneco acompanhado de muitos outros, mais ao lado.) (Yannis, 8 anos, Vive na França, veio da Argélia)

Eu fui ao Senegal e vi o pôr do sol na praia com meu pai. (Desenha um pôr do sol, uma praia, e duas figuras humanas: uma maior e outra menor, que nomeia de pai e filho) (Emanuel, 7 anos (Vive na França, veio do Senegal)

Minha casa em Kosovo. (Casa rosa forte, compacta, com portas e janelas minúsculas e pouco nítidas, tomando quase toda a folha. Bem abaixo, muitas figurinhas, em posição de movimento, correndo, com os braços meio que para cima, para a direita) (Minozao, 8 anos, Vive na França, veio de Kosovo)

Numa ilha deserta

Tomo banho de mar

Como côco

Meu barco afundou

Abrigo-me numa tenda

Quando chove

Quando faz um bom tempo, durmo fora

E quando é o fim

Eu choro.

(Escreve um pequeno verso, no alto da folha à esquerda, e desenha no resto da folha, a ilha, habitada por uma pequenina figura humana, e o mar. Transcrevo sua poesia) (Cindy, 8 anos, França)

Escolinha Sonho. (Desenho colorido de uma escola, com nuvens que choram) (Juliana, 9 anos, Brasil)

Escola México. (Na hora do recreio, com três meninas pulando corda) (Taissa, 9 anos, Brasil)

Lula. É, as coisas não estão boas. (Lula discursando para uma multidão. Sobre sua cabeça, muitas nuvens negras) (Bruna, 9 anos, Brasil, março de 2005)

(Escreve abaixo dos desenhos respectivos): Bandeira do Brasil; meu mundo; minha escola; morro da união CDA. (Com um coração enorme) (Silvana, 16 anos (Brasil)

Eu moro aqui. (Desenha um morro cheio de quadradinhos. Lá em cima do morro, num dos quadradinhos, coloca uma seta e escreve) (Jorge, 10 anos, (Brasil)

Recomeço meus estudos na escola normal. Tenho um filho de 19 anos. Estou casada a 25 anos. (...) Gostaria de dizer às mulheres que é preciso lutar por seus ideais, que é preciso investir nos seus filhos e em si mesmas. Nós precisamos nos unir. Precisamos de paz no mundo, que una todos os povos (...). (Carta às mulheres da França) (Edna, 46 anos, Brasil)

PAZ (Escreve essa palavra, misturando muitas cores na folha de papel) (Amanda, 10 anos, Brasil)

Quer um sacolé? (Faz a praia, uma mulher deitada e um ambulante que lhe faz essa pergunta) (João, 9 anos)

Desenha a Torre Eiffel com as bandeiras do Brasil e da França. A Torre e uma praia colorida tendo ao fundo o Pão de Açúcar estão estabelecendo interessante relação de simultaneidade. (Hellen Katherina, 16 anos, Brasil)

Aceite final: 01/01/2006

Lúcia Ozório. Doutora em Ciências da Educação, Universidade Paris 8; psicóloga; socianalista; professora-pesquisadora Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ)-Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (Faperj); pesquisadora associada ao Experice (Centre de recherche en éducation habilité, Paris 13 – Paris 8); participante da rede de educação popular e saúde- RJ.

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  • 1
    Fragmentos deste meu diário de pesquisa também fizeram parte de uma mensagem que enviei para a Redepopsaude, uma rede de educação popular e saúde. Ao lê-lo, Neuza Mauad sugere que eu escreva um artigo sobre. Aceito seu entusiasmo com esta experiência que me toca profundamente.
  • 2
    Esta pesquisa se faz em dois momentos: no primeiro (04/2003-04/2004) à partir do convênio entre a Universidade do Estado do Rio de Janeiro, (UERJ) e a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro, (FAPERJ). No segundo momento, atual (que vai de 04/2004 até a presente data, setembro de 2005, momento em que escrevemos este artigo, continuamos com o trabalho de pesquisa, com nossos próprios recursos, com o apoio poiético da comunidade da Mangueira e com o apoio político e ideológico, mas não financeiro, do laboratório de pesquisa Experice (Centre de recherche en éducation habilité, Universidade Paris 13 - Universidade Paris 8 ; France).
  • 3
    Utilizo um entendimento de implicação segundo contribuições da análise institucional. A análise das nossas implicações no mundo tem uma proposta ética, se acolher para acolher o outro e uma problemática política, a compreensão do poder de um sobre o outro. A implicação segundo a análise institucional considera a importância das coisas serem analisadas em situação, no vivido (R. Lourau, 1997). Refiro-me também às minhas disposições enquanto sujeito do inconsciente, que se sabe estrangeiro de si mesmo, que tem algo que pulsa e encontra modos de liberar o sofrimento e a alegria, a repetição e a criação que me habitam (Freud:1900; 1929). Apresento ao leitor minha caixa de ferramentas que se intensifica na biblioteca do antropólogo, da psicanálise, da análise institucional, da literatura, da filosofia e do saber popular cujo quotidiano me é uma fonte de inspiração indispensável (Ozório, 2004:59). Busco com esta compreender o múltiplo presente neste quotidiano. Procuro intervir nos especialismos (psicanalista, socianalista, psicóloga, trabalhadora de saúde, professora) que atravessam minha prática e que querem uma ação de...formação sobre mim. Prefiro me intensificar com as multiplicidades que me habitam, abrindo-me também para outras interferências do campo social.
  • 4
    Comunidade da Mangueira se referia ao morro da Mangueira (Chalé e Buraco Quente), ao Morro dos Telégrafos, ao Parque Candelária, à Olaria, ao Faria, ao Eucalipto e à Vila Esperança. Esta pesquisa se desenvolve mais especificamente na
    comunidade do Morro do Telégrafo, lugar onde muitos dos primeiros habitantes da Mangueira foram morar. Trabalhavam muitos no palácio imperial na Quinta da Boa Vista (Ozório, 2004a).
  • 5
    Professor da Educação Nacional, Paris.
  • 6
    Conferência Rêver de l'interculturalité avec les dessins des enfants de France et du Brésil. Musée en Herbe. Paris, 18 de junho de 2005.
  • 7
    Professor da Educação Nacional, em Paris.
  • 8
    Stella Pellegrini, professora da Escola Municipal México. Sonia Pellegrini, da Escola Estadual Inácio Azevedo do Amaral.
  • 9
    Compartilhamento de um espaço terapêutico com a pesquisadora.
  • 10
    Netas da pesquisadora
  • 11
    Além dos citados no Texto, esta exposição teve o apoio da Secretaria Municipal de Educação do Rio de Janeiro; do Experice (Centre de recherche en éducation habilité, Universidades Paris 13 e Paris 8), França; das escolas públicas do Departamento da Educação Nacional de Limeil-Brévannes e de Valenton, Val-de Marne, França; do Rased (Réseau d'aide spécialisé pour les enfants en difficultés), Créteil, França; do Liceu Molière. A associação Jeux Thèmes, na França, da qual o professor François Léger é presidente e a pesquisadora assumiram a despesa material com as práticas realizadas. Os poucos recursos empregados comprovam que a práxis não precisa do dinheiro como mola mestra do mundo. Além do Musée en Herbe e da Biblioteca da Universidade Paris 8 na França, esta exposição se instalou na mediateca JL Lagardère do Colégio Pedro II no Rio de Janeiro. E irá para outros lugares.
  • 12
    Neste momento a pesquisadora era coordenadora do Setor de Saúde Mental deste hospital. Este trabalho, exemplo de práxis deste setor que buscava intervir na ordem hospitalocêntrica é registrado na exposição ''
    As crianças sabem das coisas. Costumo dizer que as vozes destas crianças ganharam mundo (Ozório,2004-b). Colaboraram nesta exposição, dentre outros, as psicólogas Márcia Franco e Tereza Cristina K. Amim.
  • 13
    Aliás esta deriva da pesquisa
    Papo de Roda .... vai-se intensificando e abrindo a possibilidade de outra pesquisa:
    Sonhar com a interculturalidade através dos desenhos das crianças no mundo sobre a qual nos ocuparemos em próximas publicações e na qual serão consideradas as obras das crianças de todo o Brasil.
  • Datas de Publicação

    • Publicação nesta coleção
      10 Mar 2006
    • Data do Fascículo
      Dez 2005

    Histórico

    • Recebido
      01 Jan 2006
    Associação Brasileira de Psicologia Social Programa de Pós-graduação em Psicologia, Universidade Federal de Pernambuco, Centro de Filosofia e Ciências Humanas (CFCH), Av. da Arquitetura S/N - 7º Andar - Cidade Universitária, Recife - PE - CEP: 50740-550 - Belo Horizonte - MG - Brazil
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