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USOS DE FOUCAULT NOS ESTUDOS DE PSICOLOGIA NO BRASIL

LOS USOS DE FOUCAULT EN LOS ESTUDIOS DE PSICOLOGÍA EN BRASIL

THE USE OF FOUCAULT IN PSYCHOLOGY STUDIES IN BRAZIL

João Leite Ferreira Neto Jacqueline de Oliveira Moreira José Newton Garcia de Araújo Carlos Roberto Drawin Sobre os autores

Resumo

O objetivo deste estudo é analisar o uso das contribuições de Foucault em artigos publicados em periódicos de Psicologia. Na amostra de 64 artigos pesquisados, há uma prevalência de estudos teóricos sobre os empíricos. Nos teóricos o tema da subjetividade é central, enquanto os empíricos abordam políticas públicas, especialmente as da saúde e da segurança. Duas questões orientaram a análise do material bibliográfico, a saber: (a) quais são as razões do uso extenso de Foucault na Psicologia? (b) como se dá a utilização do referencial foucaultiano nos textos analisados? Privilegiaram-se aspectos quantitativos para sustentar a discussão. A abordagem política de cunho pluralista adotada por Foucault compõe as razões do interesse dos psicólogos brasileiros por sua obra. Os artigos analisados contêm muitas referências aos textos de Foucault, mas pouca revisão da literatura contemporânea, o que indica baixa interlocução com a produção científica da área.

Palavras-chave:
Michel Foucault; pesquisa científica - Psicologia; trabalho científico; periódicos científicos

Resumen

El objetivo de este estudio es analizar el uso de las contribuciones de Foucault en artículos publicados en revistas de psicología. En los 64 artículos estudiados, hay un predominio de los estudios teóricos sobre los empíricos. En los estudios teóricos, el tema de la subjetividad es central, mientras que en los estudios empíricos se abordan las políticas públicas de salud y seguridad. Dos preguntas guiaron el análisis del material bibliográfico, a saber: (a) ¿Por qué razón se utiliza de manera tan extensiva a Foucault en la Psicología? (b) ¿Cómo se utiliza el referencial foucaultiano en los textos analizados? Se dio prioridad a los aspectos cuantitativos para basar/fundamentar la discusión. El enfoque político pluralista adoptado por Foucault es la razón del interés de los psicólogos brasileños por su trabajo. Los artículos analizados contienen muchas referencias a los textos de Foucault, pero tienen poca revisión de la literatura contemporánea, lo que indica el bajo nivel de interlocución con la producción científica del área.

Palabras clave:
Michel Foucault; pesquisa científica - Psicología; trabajo científico; revistas científicas

Abstract

The aim of this study is to analyze the use of Foucault's contributions in articles published in journals of Psychology. We selected 64 articles for our bibliographical sample, in which there is a prevalence of theoretical studies over the empirical ones. In theoretical articles the theme of subjectivity is central, while the empirical ones approach public policies, such as those of health and security. Two questions guide the analysis: (a) what are the reasons for the extensive use of Foucault in Psychology? (b) how the Foucaultian framework is used? We focused on quantitative aspects to support the discussion. A pluralistic political approach initiated by Foucault composes the reasons for the interest of Brazilian psychologists in his work. The analyzed articles contain many references to Foucault's text, but are not supported by contemporary literature about his framework, which indicates a poor dialogue with the scientific production in the area.

Keywords:
Michel Foucault; scientific research - Psychology; scientific work; scientific journals

Introdução

A incidência da Filosofia sobre a Psicologia não se encerra na história da construção de nossa disciplina, pois contemporaneamente o recurso a filósofos é frequente em pesquisas publicadas pela área. Realizamos uma busca, em abril de 2014, na biblioteca eletrônica Scientific Electronic Library Online (SciELO), com o descritor “Psicologia” associado a “Filosofia” e encontramos 441 entradas. Posteriormente, realizamos combinações de descritores utilizando Psicologia com o nome de 22 filósofos de reconhecida relevância. Foucault aparece com destaque em primeiro lugar com 89 entradas, seguido por Deleuze com 32 e por Adorno com 26. Os demais filósofos alcançaram números inferiores a 14 artigos. Durante alguns meses, realizamos encontros quinzenais ou mensais, discutindo estratégias diversas de exploração analítica desse material. Decidimos explorar inicialmente o autor mais utilizado.

A forte acolhida do pensamento de Foucault na Psicologia não é um fato isolado. O uso desse filósofo é disseminado e tem se tornado uma referência destacada nas pesquisas em ciências humanas, sociais e da saúde, no Brasil e no exterior, notadamente nos países anglo-saxões. Uma busca no seu perfil, fornecido pelo Google Acadêmico, aponta mais de 600 mil citações ao total, com tendência de crescimento, havendo uma média recente de mais de 50 mil por ano, com destaque para as citações em inglês. Utilizado em áreas diversas e na Psicologia, na qual ele cursou graduação, uma vez que era obrigatório para os alunos de Filosofia da prestigiada École Normale Supérieure realizar uma segunda graduação, à escolha do estudante, concomitante com os estudos em Filosofia (Gutting, 2013Gutting, G. (2013). Thinking the impossible: French Philosophy since 1960. Oxford: Oxford University Press.). Além disso, há muitos estudos utilizando Foucault em medicina, psiquiatria, história, geografia, educação, direito, sociologia, linguística, antropologia e ciências políticas. Encontramos sua influência mesmo em áreas inusitadas, gerando inclusive revisões de literatura sobre o tema, como na contabilidade (Riccio, Mendonça, & Sakata, 2007Riccio, E., Mendonça, O., & Sakata, M. (2007) Movimentos de teorias em campos interdisciplinares: a inserção de Michel Foucault na contabilidade. Revista de Administração Contemporânea, (Edição Especial), 11-32). Sua influência aumentou após sua morte em 1984, favorecida pela publicação póstuma de suas entrevistas e artigos reunidos em 1994, e de seus cursos no Collège de France a partir de 1997. Essas publicações póstumas exigiram novas leituras e interpretações de sua obra, com base em materiais que também portavam aspectos inéditos em relação aos livros publicados durante sua vida.

Na Psicologia Social brasileira o uso das referências a Foucault é extenso. Ele é muito utilizado em Programas de Pós-graduação em Psicologia Social, como nas Universidades Federais do Rio Grande do Sul (UFGRS), de Santa Catarina (UFSC), do Espírito Santo (UFES), na Universidade Federal Fluminense (UFF), na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), entre outros. Há significativa produção derivada desses centros de pesquisa. Destacamos a coletânea produzida pela Associação Brasileira de Psicologia Social (ABRAPSO Sul), Foucault e a Psicologia (Guareschi & Hüning, 2005Guareschi, N. & Hüning, S. (Orgs.). (2005). Foucault e a Psicologia. Porto Alegre: Abrapso Sul.), e um artigo que se propõe a realizar uma arqueologia da Psicologia Social (Prado, 2011Prado, K. (2011). Para uma arqueologia da Psicologia Social. Psicologia & Sociedade, 23(3), 464-468.). Além disso, os periódicos na SciELO que mais publicaram artigos, tendo Foucault como referência, como veremos adiante, têm identificação com a Psicologia Social.

O objetivo deste artigo é analisar o uso das contribuições de Foucault em artigos publicados em periódicos de Psicologia. Para isso, buscamos entender as razões de sua presença na Psicologia, e analisar os modos mediante os quais se dá uso de Foucault no corpus estudado, privilegiando aspectos quantitativos.

Foucault na Psicologia brasileira: razões de um interesse

Foucault veio ao Brasil em cinco ocasiões, entre 1965 e 1976 (Rocha & Guimaraens, 2015Rocha, M. & Guimaraens, F. (2015). “Un Foucault brézilien?” In A. Kiffer, F. Guimaraens, M. Rocha, & P. Andrade (Orgs.), Michel Foucault no Brasil (pp. 13-37). Rio de Janeiro: Editora PUC Rio.). A primeira destas foi anterior à sua ascensão como intelectual internacionalmente conhecido. Ele foi convidado por diversas universidades como a Universidade de São Paulo (USP), a Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-RJ), a Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), as Universidade federais do Rio de Janeiro (UFRJ), de Minas Gerais (UFMG), da Bahia (UFBA), a de Pernambuco (UFPE), para citar algumas das mais conhecidas, entre diversos espaços por onde ele esteve e realizou conferências. Essas geraram várias publicações que tematizavam principalmente a medicina social, a psiquiatria, o direito, analisados à luz das relações saber-poder (Muchail & Fonseca, 2014Muchail, S. T. & Fonseca, M. A. (2014). Leitores brasileiros. In P. Artières, J-F. Bert, R. Gros, & J. Revel (Orgs.), Michel Foucault (pp. 225-226). Rio de Janeiro: Forense-Universitária. ). Em suas vindas, o diálogo em terras brasileiras envolveu tanto filósofos quanto sanitaristas, psiquiatras, psicólogos, entre outras categorias profissionais, deixando profundas influências nas diversas áreas.

Apesar dessas viagens frequentes ao Brasil, sua obra demorou a ser traduzida. O primeiro livro traduzido foi Doença Mental e Psicologia, em 1968, seguido por Arqueologia do Saber em 1972. A partir daí o fluxo se intensificou com Nascimento da Clínica e Vigiar e Punir em 1977, a coletânea Microfísica do Poder em 1979. Os dois últimos volumes de sua História da Sexualidade foram publicados no mesmo ano, 1984, e ano seguinte, 1985, dos originais franceses. Temos hoje todos os seus livros traduzidos, a coleção completa de seus Ditos e Escritos, e a maior parte de seus cursos.

Quais as possíveis razões da intensa penetração da obra de Foucault nas ciências humanas em geral e na Psicologia em particular? Sua penetração em domínios diversos é consoante com a diversidade temática de suas pesquisas, de matriz filosófica, mas abarcando diversos domínios, sem se restringir à tendência de pesquisa da área, ou seja, os estudos da própria história da filosofia (Ferreira Neto, 2015Ferreira Neto, J. L. (2015). Pesquisa e metodologia em Michel Foucault. Psicologia: Teoria e Pesquisa, 31(3), 411-420. ). Revendo sua trajetória, Foucault (1980/2010b) rememora: “Fazer filosofia, então, e como hoje, significava, principalmente, fazer a história da filosofia” (p. 296). Entretanto, ao invés de debater com os autores clássicos da área, Foucault abordou temas como a psiquiatria, a medicina, as ciências humanas, as prisões, a sexualidade, as artes da existência greco-romanas, o inquérito judicial, o Estado, o neoliberalismo, as práticas de governo de si, entre outros. Seus estudos possuíam um eixo histórico, com séries bem circunscritas, na Europa. Ao mesmo tempo, Foucault dialogava com diferentes áreas de conhecimento como a História, o Direito, a Medicina, a Psicologia, a Educação, a Ciência Política, criando em sua própria obra esse diálogo interdisciplinar. Seus grandes temas de pesquisa na verdade não pertencem à Filosofia e, contemporaneamente, são cada vez mais estudados numa perspectiva interdisciplinar. Por essa razão, Deleuze classificou a filosofia de Foucault como uma “análise dos dispositivos concretos” (Deleuze, 2003, p. 316). Koopman (2013Koopman, C. (2013). Genealogy as critique: Foucault and the problems of Modernity. Bloomington: Indiana University Press., p. 155) descreve Foucault como um pesquisador crítico que uniu uma reflexão filosófica “ao rigor empírico do cientista social”. Entendemos ser esta a primeira das razões de sua forte recepção em diferentes contextos, pois esses “dispositivos” estudados são temas de pesquisa de diversas áreas de conhecimento e foram investigados com estratégias similares às das pesquisas em ciências humanas e sociais.

Uma segunda razão pode estar presente no próprio método de trabalho do autor. A ausência de uma preocupação de construir um sistema filosófico permite a seus leitores uma utilização de seus conceitos, sem necessariamente possuir uma preocupação com a totalidade de sua obra. O próprio Foucault definia a teoria como uma “caixa de ferramentas”, não um sistema, mas um instrumento, “uma pesquisa que se faz aos poucos, a partir de uma reflexão (necessariamente histórica, em algumas de suas dimensões) sobre situações dadas” (Foucault, 1977/2003, p. 251). Essa liberdade de apropriação de alguns aspectos de sua obra, como instrumento de pesquisa de situações semelhantes ou mesmo diversas, parece ser um fator que estimula seu uso em pesquisa, por parte de não filósofos.

Finalmente, podemos elencar uma terceira razão mais específica de seu uso, na área da Psicologia. Desde a implementação, em nosso país, das políticas sociais definidas pela Constituição de 1988, o chamado setor social tem se tornado grande contratador de psicólogos. Se até então a psicologia era uma profissão liberal privada, exercida principalmente em consultórios particulares em grandes centros urbanos, paulatinamente ela foi se tornando uma profissão nuclear, no trabalho em políticas sociais. Uma pesquisa coordenada por Bastos e Gondim (2010Bastos, A. V. B. & Gondim, S. M. G. (Orgs.). (2010). O trabalho do psicólogo no Brasil. Porto Alegre: Artmed.) aponta que deixamos de ser majoritariamente profissionais liberais e nos tornamos profissionais assalariados do setor público, do privado e do terceiro setor, nessa ordem. As políticas públicas de saúde, de assistência, de segurança, entre outras, têm contratado milhares de psicólogos em todas as regiões do país. Como grande parte dos temas sociais, como vimos anteriormente, foram estudados nos livros ou abordados em outros escritos de Foucault (cursos e entrevistas), o recurso a esse autor se mostrou um caminho interessante para muitos pesquisadores. Há que se realçar que os estudos de Foucault não apenas abordavam esses temas como o faziam de um ponto de vista problematizador, preocupado em desvelar processos de dominação, relações de poder e construção de práticas de liberdade, viés que, em geral, preside a discussão e a organização das políticas públicas. Portanto, a ênfase ético-política da obra foucaultiana encontrou ressonâncias entre os psicólogos envolvidos com o trabalho social nas políticas públicas.

Metodologia

Trabalhamos com artigos publicados na biblioteca eletrônica SciELO, em abril de 2014, utilizando os descritores “Psicologia” e “Foucault” associados, o que gerou um total de 89 entradas. Buscando focalizar o uso do autor na área da Psicologia, optamos por excluir os artigos publicados em periódicos fora da área Psicologia, o que resultou em um corpus final de 64 artigos. A nossa pesquisa não pretende ser exaustiva, mas se restringe a um levantamento preliminar. As duas primeiras delimitações se referem ao “Brasil” e ao “campo da Psicologia”. No caso da segunda delimitação, é preciso deixar claro que neste primeiro levantamento em que se adota uma orientação empírica as referências explícitas a Foucault (citações, bibliografia, etc.) guiaram os pesquisadores. Um uso de Foucault sem referências exigiria uma leitura atenta e a análise de conteúdo de grande massa textual, o que escaparia aos nossos objetivos, neste primeiro levantamento.

Inicialmente, imprimimos um tratamento classificatório ao conjunto dos textos, buscando extrair dados que nos permitissem, posteriormente, construir um panorama capaz de viabilizar uma análise sobre os usos da obra de Foucault pela área. Os artigos foram classificados nas seguintes categorias: (a) periódicos em que foram publicados; (b) prevalência de publicações por ano; (c) principais referências utilizadas; (d) delineamento dos estudos.

A classificação mais trabalhosa foi a do delineamento do estudo, que exigia uma classificação mais interpretativa que as demais. Buscamos inicialmente uma distinção entre artigos de base teórica e de base empírica. Esse passo exigiu um segundo desdobramento, buscando uma especificidade maior. Os artigos teóricos foram subdivididos em conceituais ou temáticos. Os teórico-conceituais se dedicavam principalmente ao estudo de um conceito ou grupo de conceitos dentro da obra de Foucault; e os teórico-temáticos utilizavam os instrumentos foucaultianos para discutir um tema externo à sua obra, tais como a Psicologia, a ciência, as biotecnologias, uma política pública particular, entre outros. Salientamos que os artigos que classificamos como teórico-conceituais, por serem mais internos à obra de Foucault, se aproximam mais de uma abordagem de estilo filosófico, mesmo quando escritos por psicólogos. Mesmo assim, a escolha dos conceitos a serem explorados tem relação clara com as tendências de nossa área, como veremos adiante. Como elemento de distinção entre ambos, utilizamos o critério do que era mais central do texto, algum aspecto da obra de Foucault ou o tema estudado. Ou seja, separaram-se os mais voltados para a própria obra de Foucault dos que a utilizavam para explorar um tema específico da realidade atual. Dividimos os artigos empíricos em pesquisa de campo ou análise de uma experiência; e pesquisa de texto, na forma de análise de documentos ou de obras de literatura ficcional. Chamamos de empíricos esses artigos por terem como corpus uma peça autônoma e específica, de caráter público, e que, mesmo no caso dos textos ficcionais, sofreram um tratamento analítico documental. A maior dificuldade na montagem dessa classificação foi a distinção entre os artigos teórico-conceituais e teórico-temáticos. Cada pesquisador fez uma divisão inicial e a mesma foi revista por outro. Nesse processo de decisões, os critérios foram sendo modificados e aperfeiçoados.

Nossa análise foi feita privilegiando-se aspectos quantitativos, trabalhando com frequências, presentes a partir das distinções relativas aos conteúdos dos artigos. Por essa razão não foram feitas análises individuais dos artigos, nem citações diretas dos mesmos. Ou seja, quantificamos os aspectos definidos pelas quatro classificações realizadas e, com base nisso, fizemos nossas análises. Trabalhamos com apenas um banco de dados, relativamente restrito, mesmo que qualitativamente bem avaliado pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES), (a maior parte dos periódicos possuem Qualis A na nossa área), agência do Ministério da Educação responsável pela expansão, avaliação e consolidação da pós-graduação no país. Definimos aqui “qualidade” em um sentido estrito, não absoluto. Trata-se de periódicos que atendem aos critérios exigidos, no presente, pela CAPES. O grande número de artigos encontrados nos conduziu a essa primeira abordagem de viés quantitativo. Buscamos, portanto, identificar as prevalências e analisá-las. Por isso, não realizamos análises qualitativas individualizadas dos conteúdos dos artigos, mas consideramos que esse seria um trabalho futuro importante.

Nosso estudo não possui o caráter arqueogenealógico próprio das pesquisas desenvolvidas por Foucault. Ou seja, não é um estudo foucaultiano sobre o uso de Foucault nos estudos em Psicologia no Brasil. Vários fatores concorreram para essa decisão. Nosso ponto de partida foi o uso da Filosofia em pesquisas feitas em nossa área. Trabalharmos com Foucault decorreu do fato de ele ser o autor mais utilizado, e não devido a filiações teóricas dos pesquisadores. Ademais, a maioria de nós não tem no filósofo sua referência mais central.

Ademais, apesar de não ser um estudo foucaultiano, também não é incompatível com o trabalho do filósofo. Ainda que, em certos circuitos, Foucault seja apresentado como um pesquisador que rompe radicalmente com as convenções científicas, essa imagem não condiz com algumas de suas autoapresentações. No âmbito metodológico, ele reconhecia utilizar-se de “métodos mais clássicos”, sem preocupação de, nesse aspecto, ser original, lançando mão de procedimentos clássicos de pesquisa histórica, considerando que seu trabalho poderia ser “verificado ou invalidado” (Foucault, 1980/2010b, p. 292). Em outra ocasião, Foucault diferencia os jogos de verdade que são uma construção dos que são uma descrição. A diferença é que o segundo tipo se submete a “certo número de regras”, mesmo que sejam “historicamente mutantes” (Foucault, 1984/2004, p. 283). É nessa posição, que trabalha no âmbito de convenções que são, em um determinado momento histórico, consideradas como científicas, que Foucault perfilava suas pesquisas. Talvez por isso nunca tenha se inquietado com a crítica de trabalhar com postulados positivistas, afirmando, ironicamente, considerar-se “um positivista feliz” (Foucault, 1969/1987, p. 144).

Resultados

O primeiro elemento que apresentamos é a publicação dos artigos por periódicos. Encontramos os 64 artigos distribuídos em 10 diferentes periódicos. O destaque é a revista Fractal, antiga Revista do Departamento de Psicologia da UFF, com 19 citações, somadas as duas versões desse periódico. Levando-se em conta que ela tem seus números disponíveis no Portal apenas a partir de 2005, temos uma prevalência relativamente alta de dois artigos por ano. Na sequência estão os periódicos Psicologia & Sociedade, Psicologia em Estudo (Maringá) e Psicologia USP, nessa ordem, com um bom número de artigos, em uma quantidade bem acima das demais. Quatro periódicos têm apenas um artigo referido a Foucault durante o período estudado (ver Tabela 1). Sabemos que muitos pesquisadores, ao escolherem o lugar onde veiculam sua produção, costumam buscar periódicos que sejam mais identificados com o conteúdo tratado. Portanto, as revistas que mais publicam tenderão, por conseguinte, a continuar recebendo um maior número de submissões de manuscritos com essa temática.

Tabela 1:
Número de artigos por periódicos

A distribuição dos artigos entre 1999 e 2013 indicaria um aparente crescimento das publicações a partir de 2006. Contudo, como houve um aumento geral das publicações (Fundação CAPES, 2013), com algumas revistas aumentando a periodicidade ou a quantidade de artigos publicados por número, entendemos não ser possível fazer uma asserção definitiva sobre esse aspecto.

Quanto às referências foucaultianas mais citadas, impressiona a expressividade dos conteúdos dos Ditos e Escritos, em suas diferentes versões, além da brasileira, o que inclui o original francês, as versões em inglês, espanhol e português de Portugal, totalizando 81 citações (ver tabela 2). Todas as demais referências sofreram o mesmo tratamento para contagem, ou seja, no nome em português foram alocadas todas as versões citadas. Se considerarmos que o segundo lugar fica com Microfísica do Poder, com 26 citações, sendo este um livro composto na maior parte de entrevistas e artigos que, em 1994, seriam posteriormente publicados no Dits et Écrits, esse conteúdo totalizaria 107 citações. Mesmo assim, nesse caso, mantivemos essa separação na tabela 2, pois no Brasil trata-se de um livro independente e ainda em circulação.

Deleuze (2003Deleuze, G. (2003). Deux régimes de fous. Paris: Éditions de Minuit.), em uma conferência sobre “O que é um dispositivo?”, sugere que, em seus livros, Foucault abordou apenas metade de sua tarefa, ao analisar arquivos históricos; entretanto, em suas entrevistas, editadas por Defert e Ewald, ele atualizou seu diagnóstico do presente sobre seus temas históricos. Suas entrevistas se constituiriam, assim, no diagnóstico do presente, relativo a seus estudos históricos. Essa pode ser uma das razões do sucesso desse conjunto de entrevistas e artigos publicados, em seu formato derradeiro, dez anos após sua morte, no qual Foucault realiza de modo mais direto sua “história do presente”.

Em relação ao restante, ou seja, os livros e os cursos no Collège de France, deve-se ponderar as datas de publicação. Todos os livros de Foucault foram publicados durante sua vida, até 1984 e, no Brasil, o último, História da Sexualidade III, traduzido em 1985. Seus Dits et Écrits saíram em 1994 e, no Brasil, a partir de 1999 até 2014. Já seus cursos começaram a ser publicados em 1997 na França e 1999 no Brasil. E ainda estão em processo de finalização. Portanto, não surpreende que o curso mais citado seja o primeiro publicado, Em defesa da sociedade, empatado com o último livro traduzido do autor, História da Sexualidade III. Já A hermenêutica do sujeito, publicado em 2001/2004, fica em segundo lugar entre os cursos, possivelmente devido à associação temática de seu conteúdo com a Psicologia. Por outro lado, obras com a mesma afinidade temática como História da loucura e Doença mental e Psicologia tiveram relativamente um menor número de citações.

Tabela 2:
Número de citações dos textos de Foucault

A quarta classificação realizada, abordando o delineamento dos estudos publicados, nos trouxe mais elementos para análise. Em um primeiro momento, como já dissemos anteriormente, dividimos os artigos entre teóricos e empíricos. Há uma prevalência dos teóricos, 43, sobre os empíricos, 21. O grande número de artigos de delineamento teórico parece ser uma tendência de nossa área. Um levantamento de Silva et al. (2012Silva, T. L., Ramos, C., Victorazzi, A., Silva, F., Lima, C., Brunnet, A., Pizzinato, A. (2012). Análise temática e metodológica da produção científica em Psicologia no Brasil. Psicologia em Revista, 18(2), 330-346. ) trabalhou com os 09 periódicos brasileiros avaliados com o Qualis A, à época (dos quais 06 pertencem à nossa amostra), realizando uma classificação dividida em teóricos, quantitativos, qualitativos e mistos, durante o ano de 2010. Os teóricos são em maior número, 160, seguidos pelos quantitativos, 116, os qualitativos, 86 e os mistos, 20. A relação entre teóricos e qualitativos é similar à de nossa pesquisa, ou seja, tem-se quase o dobro de teóricos em relação aos empíricos.

Tabela 3:
Tipo de delineamento dos estudos

Em um segundo momento, subdividimos os artigos teóricos em teórico-conceituais e teórico-temáticos. O principal assunto abordado pelos artigos teórico-conceituais foi a subjetividade e suas derivações como “práticas de si” e “estética da existência”. Há também variadas discussões sobre metodologia, arqueologia e genealogia, uma frequente crítica sobre o modelo positivista de ciência, além de temas como corpo, Psicanálise, práticas jurídicas e autor/autoria. Os teórico-temáticos focalizam principalmente temas ligados à saúde e reforma psiquiátrica, à segurança e juventude, e à crítica ao positivismo científico. O tema das disciplinas Psicanálise, Psicologia, Psicologia Social e clínica está presente, bem como sujeito, poder e metodologia. A crítica ao regime de verdade positivista é um eixo comum prevalente entre os dois grupos de artigos, mas outros temas se repetem, nem sempre na mesma proporção, como, por exemplo, as discussões sobre Psicanálise e Foucault, e a abordagem do poder e da subjetividade. No campo das políticas sociais, o destaque para a saúde é consoante ao maior número de psicólogos que trabalha nesse setor no Brasil, mais de 30 mil, dentro de um universo de 216 mil psicólogos com registro (Conselho Federal de Psicologia, 2012). A segurança e juventude, como segundo tema, alinha-se com as discussões foucaultianas sobre prisão e punições, lembrando que Vigiar e Punir é a terceira referência mais utilizada, sendo esse tópico bastante presente nos Ditos e Escritos.

No grupo dos estudos empíricos de campo, mantém-se a hegemonia dos estudos no campo da saúde, seguido pela área de segurança/judiciário, além de temas sobre a formação em psicologia e sobre a escola. Nos estudos envolvendo documentos, há análises de textos sobre loucura, temas jurídicos, juventude, literatura de autoajuda e estudo de um periódico antigo.

Discussão

A literatura internacional sugere que uma das razões da extensa acolhida da obra de Foucault, no contexto anglo-saxão, está associada a certa desilusão, por parte dos intelectuais, com as análises marxistas, durante os anos 1980, limitadas por modelos dualistas e deterministas do tipo capital e trabalho, infraestrutura e superestrutura (Bröckling, Krasmann, & Lemke, 2011Lemke, T. (2011). Biopolitcs: an advanced introduction. Nova York: New York Press.; Lemke, 2013). Rose, O´Malley e Valverde (2006Rose, R., O´Malley, P., & Valverde, M. (2006). Governanmentality. Annual Review of Law and Social Science 2, 83-104. ) asseveram que as ferramentas foucaultianas traziam maior visibilidade aos estudos sobre poder, na vida cotidiana e institucional, que o marxismo. Associada a isso, a compreensão adotada por Foucault da teoria como “caixa de ferramentas”, mais comprometida com uma analítica de pesquisa do que com a construção de um modelo teórico sistemático, também favoreceu a disseminação e uso de suas ideias.

De fato, especialmente a partir de 1976, Foucault procurou construir uma filosofia política que lhe permitisse “desembaraçar-se do marxismo” (Foucault, 1978/2010a). Mesmo que nossa história política e institucional difira, em grande medida, da dos países anglo-saxões, podemos concordar que a abordagem política pluralista encetada por Foucault compõe as razões do interesse dos psicólogos brasileiros por sua obra. Encontramos a forte presença de temas ligados às relações de poder, práticas de dominação, reforma psiquiátrica, práticas de punição, críticas, de fundo político, ao modo positivista de fazer ciência, enfim, certa preocupação com lutas sociais de espectro diversificado.

A abordagem política de Foucault está em sintonia com a multiplicidade das lutas transversais, nas quais o tema da subjetividade ganha destaque. A abordagem do tema da subjetividade tem destaque nos artigos estudados, tanto nos textos teóricos quanto nos empíricos.

Mas é importante apontar que esse uso intensivo de Foucault não se dá sem problemas, e queremos identificar alguns. Em primeiro lugar, ressalta-se o excesso de estudos teóricos em relação aos empíricos. Mesmo que essa prevalência, por si só, não possa ser considerada a priori como um problema, a maneira como isso é feito pode ser, de fato, problemática, como analisaremos adiante. Ao lado disso, em muitos artigos empíricos há uma extensa discussão teórica, em detrimento da apresentação dos dados empíricos.

Ribeiro (2003Ribeiro, R. J. (2003). A universidade e a vida atual: Fellini não via filmes. Rio de Janeiro: Campus.) adverte sobre a inflação de referências teóricas, nas teses em ciências humanas e sociais, em detrimento do tema da investigação escolhido. Segundo ele, autores como Foucault e outros se tornam “chaves mestras” utilizadas para serem aplicadas aos temas escolhidos, tornando os primeiros mais centrais que os segundos. Assim, fala-se mais do autor de referência que do objeto da pesquisa. E conclui afirmando que “um pesquisador deve expor-se mais a seu objeto do que o faz” (Ribeiro, 2003, p. 127).

Em seu trabalho sobre os Estudos Culturais, que têm em Foucault e na filosofia francesa boa ancoragem, Mattelart e Neveu (2004Mattelart, A. & Neveu, E. (2004). Introdução aos estudos culturais (M. Marcionilo, Trad.) São Paulo: Parábola Editorial. ) analisam seu declínio nos anos 1990, motivado pela virada conservadora, tornando esses estudos menos conectados com a vida social e mais restritos ao ambiente universitário. Em consequência disso, avaliam que “grande parte da produção consiste em um trabalho de glosa dos autores e de seus conceitos, cada vez mais desconectado de um campo preciso” (2004, p. 161). Mesmo os que estudam cenários específicos apresentam poucos dados e um excesso de citações de filósofos. Há uma tendência de estetização e autonomização do texto, em detrimento da exploração do material empírico investigado. Essa tendência é denominada por Mattelart e Neveu (2004, p. 157) de “teoricismo chic et choc”, relembrando o caso Sokal-Social Text, como revelador dessa tendência, mesmo ponderando serem abusivas suas interpretações da filosofia francesa.

Evidentemente, essa não é uma hipótese que possa ser aplicada à totalidade dos artigos, mas algumas características chamam nossa atenção. Nos 20 classificados como teórico-conceituais, 05 deles têm nas referências apenas citações do próprio Foucault, ou, em 03 casos, menções apenas ao próprio autor do artigo. Ou seja, um quarto dos artigos não trabalha com literatura complementar de comentaristas, nem realiza alguma revisão bibliográfica do conceito estudado. Apesar de todos os periódicos presentes neste estudo utilizarem as normas da American Psychological Association (APA, 2010), esses trabalhos não se enquadram nos tipos de artigos definidos nesse manual. Nele, artigo de revisão é considerado como uma avaliação crítica de material já publicado, considerando o progresso da pesquisa, envolvendo algum tratamento estatístico do material, e buscando clarificar um problema específico. Já o artigo teórico deve propor “avanços teóricos baseados na literatura vigente” (APA, 2010, p. 10). Em nossa pesquisa, pudemos identificar vários artigos que se enquadram nesses tipos aqui definidos, mas também vários outros que poderiam ser classificados como ensaios, de caráter conceitual ou temático, os quais não estão contemplados nas definições da APA, mas foram publicados em base SciELO. Por um lado, isso pode sugerir, por parte de alguns periódicos, um alinhamento mais formal e menos conceitual às normas da APA, o que pode indicar a dificuldade em tomar esse modelo como um critério inteiramente adequado. Por outro, esse alinhamento parcial ainda não promoveu uma discussão alternativa ao modelo APA para publicações nos periódicos. À exceção do periódico Psicologia USP, que se refere a ensaios em suas “Instruções aos Autores”, os demais periódicos reproduzem as normas APA, ainda que nem todas as cumpram. De qualquer modo, consideramos que o debate sobre modelos de comunicação científica em periódicos no Brasil ainda está por ser feito, principalmente em relação às normas APA formalmente adotadas pela maior parte dos periódicos de Psicologia.

Nos artigos que classificamos como teórico-temáticos, encontramos maior liberdade na construção dos argumentos e das referências das pesquisas. Mais da metade deles, 13 dos 22, utilizam Foucault em contato com outros autores tais como Deleuze, Guattari, Deleuze e Guattari na obra conjunta, Hardt e Negri, Lapoujade, Lourau, Benjamin, entre outros. Ressalve-se que Deleuze possui dentre seus textos alguns nos quais comenta diretamente o trabalho de Foucault, como o já citado “O que é um dispositivo?”, e por isso pode ser tomado, nessas situações, como um comentarista. Dentre outros comentaristas mais citados, destacam-se Peter Pelbart e Paul Veyne. No mais, a associação de Foucault com um grupo específico de autores revela uma característica da recepção da obra de Foucault no Brasil, fortemente identificada com Deleuze, Guattari, pós-deleuzianos como Hardt, Negri, além de autores da Análise Institucional, em função de aspectos históricos de sua entrada nas universidades brasileiras (Rocha & Guimaraens, 2015Rocha, M. & Guimaraens, F. (2015). “Un Foucault brézilien?” In A. Kiffer, F. Guimaraens, M. Rocha, & P. Andrade (Orgs.), Michel Foucault no Brasil (pp. 13-37). Rio de Janeiro: Editora PUC Rio.). Essa conexão aparece com frequência nos artigos estudados, mas a problematização de suas proximidades e diferenças com Foucault é pouco contemplada. Entendemos que essa é uma seara na qual a discussão brasileira referida a Foucault precisaria avançar, tal como tem sido feito pela literatura internacional. Por exemplo, há um debate internacional sobre o uso do conceito foucaultiano de biopolítica retomado atualmente por autores como Agamben, Hardt e Negri, em uma abordagem quase ontológica, transcendental e a-histórica, diferindo da genealogia foucaultiana, de perspectiva imanente (Lemke, 2011Lemke, T. (2011). Biopolitcs: an advanced introduction. Nova York: New York Press., 2013). Assim, a associação teórica com outros autores, potencialmente rica, precisaria também avançar na discriminação de suas diferenças e do diálogo crítico com a literatura nacional e internacional.

Em relação aos artigos empíricos com um delineamento de pesquisa de campo, mais da metade deles, 07, utiliza-se das entrevistas semiestruturadas como procedimento, seja de modo exclusivo em 05 ocasiões, seja de modo conjugado com questionários, em 02 estudos. A observação comparece em 03 artigos e dois apresentam relatos analíticos e experiências. Na maior parte dos artigos, o método combina uma visada teórico-metodológica foucaultiana com o procedimento específico ou conjugado. A prevalência da entrevista semiestruturada em relação aos demais procedimentos de coleta de dados segue uma tendência da pesquisa em ciências humanas (Manzini, 2012Manzini, E. J. (2012). Uso das entrevistas em dissertações e teses produzidas em um Programa de Pós-graduação em Educação. Revista Percurso, 4(2), 149-171.).

Em relação aos artigos envolvendo pesquisas de textos, quase a metade, 04, trabalhou com livros, seja de autoajuda, de memórias, romances ou poesias. Dois trabalharam com documentos públicos, seguidos de um estudo de site eletrônico, de um processo judicial, e de uma revista da década de 1930. A prevalência de 09 do total de 23 artigos empíricos é consoante com as pesquisas de Foucault, que sempre teve textos e documentos como corpus empírico central de suas pesquisas (Ferreira Neto, 2015Ferreira Neto, J. L. (2015). Pesquisa e metodologia em Michel Foucault. Psicologia: Teoria e Pesquisa, 31(3), 411-420. ).

Considerações finais

Apesar de ser extensa a produção baseada em Foucault desenvolvida no campo da Psicologia no Brasil, essa literatura ainda não é muito estudada em seu conjunto, como tem sido feito por outras áreas como a Educação (Aquino, 2013Aquino, J. G. (2013). A difusão do pensamento de Michel Foucault na educação brasileira: um itinerário bibliográfico. Revista Brasileira de Educação, 18(53), 301-492.) e a Administração (Costa & Vergara, 2012Costa, A. S. & Vergara, S. C. (2012). Estruturalista, pós-estruturalista ou pós-moderno? Apropriações do pensamento de Michel Foucault por pesquisadores da área de Administração no Brasil. Gestão & Sociedade, 6(13), 69-89.). Entendemos que este artigo traz uma contribuição nesse sentido, sinalizando um início de outros estudos sobre o uso de Foucault e outros filósofos, em pesquisas realizadas por psicólogos.

Temos ciência de que a biblioteca eletrônica SciELO abarca um número restrito de periódicos de Psicologia, mas que atendem aos requisitos de avaliação da área. Supomos com isso que o uso de Foucault nos artigos analisados represente uma média significativa na perspectiva dos critérios acadêmicos hegemônicos atuais.

Reconhecendo-se a importância de Foucault na Psicologia no Brasil, faz-se necessário entendermos os usos que têm sido feitos de suas contribuições. Seu apelo teórico é um elemento central, o que gera, muitas vezes, uma apropriação excessivamente reprodutiva, colada em citações de seus textos, e, portanto, pouco inventiva (Ferreira Neto, 2015Ferreira Neto, J. L. (2015). Pesquisa e metodologia em Michel Foucault. Psicologia: Teoria e Pesquisa, 31(3), 411-420. ). Por outro lado, o fato de a Psicologia no Brasil ter se voltado, como profissão e como área de pesquisa, para o campo das políticas públicas, fortaleceu o apelo de sua obra, portadora de uma inflexão política e pluralista incisivamente colocada (Faubion, 2014Faubion, J. (Ed.). (2014). Foucault now: current perspectives in Foucault Studies. Cambrige: Polity Press.).

Os artigos aqui analisados contêm muitas referências aos textos de Foucault, mas pouca revisão da literatura contemporânea, seja do conceito estudado, seja do tema abordado. Isso indica baixa interlocução com a produção científica da área. Ao mesmo tempo, devemos perguntar o quanto esses estudos teóricos, que são quantitativamente significativos, trazem contribuições qualitativamente relevantes, para realizar avanços sobre as questões estudadas.

No universo anglo-saxão encontramos uma variação desse impasse. Por um lado, há boa revisão crítica de literatura, mas por outro se mantém certo “isolamento teórico” dentro dos Foucault Studies (Lemke, 2013Lemke, T. (2013). Foucault, politics and failure. In J. Nilsson & S. Wallenstein (Orgs.), Foucault, biopolitics and governmentality (pp. 35-52). Södertörn, SWE: Södertörn University College., p. 52). Foucault, mesmo sendo filósofo, nunca restringiu suas pesquisas à área da Filosofia, tendo dialogado com diversos outros campos de conhecimento e temas sociais contemporâneos. Em seu movimento de desterritorialização, podemos encontrar subsídios para avançar em pesquisas que dialoguem com nossos temas e problemas, sem reduzir a obra foucaultiana a um gueto teórico-metodológico.

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Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    2017

Histórico

  • Recebido
    25 Abr 2016
  • Revisado
    15 Jul 2016
  • Aceito
    31 Jul 2016
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