Violência no namoro para jovens moradores de Recife

Violence in relationships according to young residents of Recife, Brazil

Resumos

Este artigo discute e analisa a violência no namoro de jovens de grupos populares e camadas médias, moradores de Recife. O argumento defendido é o de que a violência não é do namorado ou da namorada, mas sim da relação, para a qual apresenta significados. Foram realizadas vinte e duas entrevistas semiestruturadas, com jovens entre 18 e 29 anos, que consideravam namoro seus relacionamentos, divididos em jovens de grupos populares e jovens de camadas médias. Os(as) jovens entrevistados(as) compreendem a violência como sendo mais do que física, entretanto, não reconhecem como violência proibições, controle e cerceamento da liberdade do outro, bem como a troca de xingamentos e tapas, que muitas vezes são encarados como brincadeiras.

violência; namoro; juventude


The present paper discusses and analyzes violence in the relationships of young adults from poor and middle-class backgrounds in the city of Recife, Brazil. The argument made is that violence is not from the boyfriend or girlfriend, but rather from the relationship, for which meanings are presented. Twenty-two semi-structured interviews were held with young adults between 18 and 29 years old in romantic relationships and divided into lower class and middle class groups. The interviewees understood violence as more than just physical, but did not recognize prohibitions, control and the curtailment of the partner's freedom as violence. The same was true regarding the exchange of cursing or slapping, which is often seen as play.

violence; relationship; youth


Violência no namoro para jovens moradores de Recife

Violence in relationships according to young residents of Recife, Brazil

Fernanda Sardelich Nascimento; Rosineide de Lourdes Meira Cordeiro

Universidade Federal de Pernambuco, Recife, Brasil

RESUMO

Este artigo discute e analisa a violência no namoro de jovens de grupos populares e camadas médias, moradores de Recife. O argumento defendido é o de que a violência não é do namorado ou da namorada, mas sim da relação, para a qual apresenta significados. Foram realizadas vinte e duas entrevistas semiestruturadas, com jovens entre 18 e 29 anos, que consideravam namoro seus relacionamentos, divididos em jovens de grupos populares e jovens de camadas médias. Os(as) jovens entrevistados(as) compreendem a violência como sendo mais do que física, entretanto, não reconhecem como violência proibições, controle e cerceamento da liberdade do outro, bem como a troca de xingamentos e tapas, que muitas vezes são encarados como brincadeiras.

Palavras-chave: violência; namoro; juventude.

ABSTRACT

The present paper discusses and analyzes violence in the relationships of young adults from poor and middle-class backgrounds in the city of Recife, Brazil. The argument made is that violence is not from the boyfriend or girlfriend, but rather from the relationship, for which meanings are presented. Twenty-two semi-structured interviews were held with young adults between 18 and 29 years old in romantic relationships and divided into lower class and middle class groups. The interviewees understood violence as more than just physical, but did not recognize prohibitions, control and the curtailment of the partner's freedom as violence. The same was true regarding the exchange of cursing or slapping, which is often seen as play.

Keywords: violence; relationship; youth.

Introdução

Nos últimos tempos, parece que o Brasil descobriu que namoro, violência e juventude se entrecruzam na dinâmica de diferentes casais de namorados, uma vez que notícias sobre violências cometidas por ex-namorados ou namorados têm sido amplamente exploradas na mídia impressa e televisiva. Nesses espaços, profissionais de diferentes áreas disciplinares são convidados a analisar os casos e propor soluções para uma população que parece surpresa com a existência desse tipo de fenômeno.

Para citar alguns desses casos, como forma de ilustrar essa ampla exploração da mídia à violência entre namorados, destacamos, em 2008, o de Eloá, que foi morta a tiros pelo ex-namorado, após 100 horas de cativeiro (Zanchetta, 2008), e, mais recentemente, em 2009, o caso de Mariana Sanches, assassinada a tiros pelo ex-namorado em uma academia ("Motoboy mata ex-namorada a tiros dentro de academia", 2009). A esses casos somam-se outros com desfechos tão trágicos quanto os de Mariana e Eloá, o que evidencia a existência desse fenômeno e a necessidade de pesquisas voltadas para a violência no namoro.

No Brasil, o tipo de violência contra a mulher que adquiriu mais visibilidade é a violência conjugal. A partir da lutas feministas no início dos anos 1980, a violência contra a mulher é entendida como um problema social, que demanda serviços e políticas públicas. Curioso é que o marco dessas lutas foi o assassinato de Ângela Diniz, cometido pelo então namorado Doca Street, no final da década de 1970. Como forma de conscientizar a população de Cabo Frio, no Estado do Rio de Janeiro, onde ocorreu o fato, foi realizada a primeira manifestação pública contra a impunidade em casos de assassinatos de mulheres, contra o argumento de "legítima defesa da honra", que foi usado pelo advogado do agressor, em sua defesa. Nessa manifestação, foi criado um dos primeiros lemas da luta contra a violência contra a mulher: "Quem ama não mata" (Saffioti, 2004).

Embora um dos marcos da luta feminista tenha sido a violência cometida pelo namorado de Ângela Diniz, o tema não adquiriu centralidade nas lutas feministas, tampouco despertou a atenção de pesquisadores(as) no Brasil. Em levantamento realizado no Banco de Teses da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes, 2007), no período compreendido entre 1987 e 2007, constatou-se inexistência de pesquisas com esse recorte, em âmbito nacional, seja em dissertações de mestrado ou em teses de doutorado. De modo geral, a ênfase das pesquisas e das lutas desenvolvidas no Brasil tem sido violência conjugal e violência doméstica (Gregori, 1993; Saffioti, 2004).

Duas pesquisas fogem a essa regra. A primeira é o estudo "A mulher brasileira nos espaços público e privado", desenvolvido pela Fundação Perseu Abramo (2001), que apontou para a presença dos namorados nas cenas de violência, com variações de 2% a 12%. A segunda é a primeira pesquisa nacional que trata diretamente do tema, intitulada "Vivência de violência nas relações afetivo-sexuais entre adolescentes"1 1 Este estudo de cunho quantitativo e qualitativo investigou cerca de quatro mil adolescentes entre 15 e 19 anos de idade de escolas públicas e privadas, tendo sido realizado em cinco diferentes regiões do país: Manaus e Porto Velho (Norte), Teresina e Recife (Nordeste), Rio de Janeiro, Belo Horizonte (Sudeste), Florianópolis, Porto Alegre (Sul), Cuiabá e Brasília (Centro-Oeste). A partir de uma parceria entre Claves, ENSP e Fiocruz. , realizada através da parceria entre Centro Latino-Americano de Estudos de Violência e Saúde Jorge Careli - Claves, Escola Nacional de Saúde Pública Sérgio Arouca - Ensp e Fundação Oswaldo Cruz - Fiocruz. Os pesquisadores destacam a ausência de estudos sobre namoro e violência no Brasil e a inexistência de serviços estruturados na área de educação e da saúde que deem apoio aos adolescentes e jovens. As análises preliminares sublinham que 80% dos cerca de quatro mil adolescentes investigados nas diferentes regiões do país já sofreram algum tipo de violência no namoro (Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca, 2009).

Se as pesquisas sobre violência entre namorados constituem exceção, o mesmo não pode ser dito dos estudos sobre juventude e violência (Abramovay, Castro, Castro Pinheiro, Sousa Lima, & Martinelli, 2002; Abramovay & Rua, 2002; Waiselfisz, 2004). Mary Castro (2002) destaca que na década de 80 do século passado, em diferentes países, há um alerta sobre a participação de jovens em situações de violência, seja como vítimas ou agressores. Segundo Waiselfisz (2004), no Brasil o número de homicídios segue vitimizando preferencialmente jovens entre 15 e 24 anos, assumindo o 5º lugar em número de homicídios na população jovem.

Os estudos de Castro (2002) e Almeida, Almeida, Santos e Porto (2008) fazem exaustiva revisão das produções sobre o tema no Brasil. Para Castro, a visibilidade de diferentes expressões de violência é decorrente das conquistas democráticas dos movimentos sociais. A autora analisa como a discussão sobre ética, política e a educação para valores está presente nos estudos sobre juventude, violência e escola. Para ela, as questões sobre ética e política devem permear o debate sobre juventude e violência, pois oferecem elementos que possibilitam a construção de novas práticas e formas de convivência. Almeida et al. (2008) sublinham a existência de duas tendências que tomam a classe como categoria explicativa para a violência: há uma discussão de viés mais sociológico que vincula pobreza, juventude e violência e outra de caráter mais psicológico, que destaca que a violência dos jovens de classe média tem como base a desestruturação familiar e o uso de drogas. As autoras assinalam ainda o debate sobre o papel da mídia na construção da violência. Para elas, "ao pautar uma matéria, a mídia está, ao mesmo tempo, apresentando e representando o acontecimento mediado por sua versão dos fatos" (p. 6). Entretanto, para as autoras, não se pode ter uma visão maquiavélica ou determinista da mídia, ela está inserida num jogo de relação de forças, competições e disputa por posição hegemônica.

Neste estudo, consideramos que a violência entre jovens casais de namorados faz parte de um contexto amplo de relações constituídas culturalmente e que a mídia é um importante fator de socialização que influencia na construção da violência e nas subjetividades dos jovens no mundo contemporâneo. Com base em Almeida et al. (2008, p.4), entendemos a violência como "um dado cultural e societário, com uma grande variação em suas formas de manifestação, em função do contexto sociocultural em que ocorre, e da diversidade e complexidade dos valores que assume, em cada um destes contextos particulares". Contudo, neste artigo iremos apenas enfocar uma das dimensões da violência aquela ocorre no âmbito das relações amorosas de jovens casais de namorados de grupos populares e camadas médias. O argumento defendido neste artigo toma como base os estudos realizados por Filomena Gregori (1993), que defende que a violência não é do namorado ou da namorada, mas sim da relação, para a qual apresenta significados.

Inspiradas na Convenção de Belém do Pará de junho de 1994 (Secretaria Geral da Organização dos Estados Americanos), a violência no namoro é entendida como qualquer ação ou ato, seja de natureza física, psicológica, verbal, moral ou mesmo de natureza simbólica, que cause morte, dano ou sofrimento ao outro. Tomando como base os estudos de Bourdieu (1999, p. 47), entendemos a violência simbólica como a naturalização da relação de dominação, que é incorporada pelo dominado, não sendo assim possível nem mesmo de ser pensada. Trata-se de uma violência exercida sobre os corpos e que resulta da "incorporação de classificações, assim naturalizadas, de que seu ser social é produto".

Este artigo está organizado em duas partes, além das considerações finais. Na primeira, situamos de forma muito breve estudos e pesquisas sobre o fenômeno da violência nas relações de namoro e apresentamos os pressupostos teóricos e a definição de violência utilizados neste trabalho. Na segunda parte, apresentamos a metodologia utilizada e direcionamos nossa análise mais especificamente para a violência nas relações de namoro, a partir das entrevistas realizadas com os(as) jovens. Para isso, destacamos três aspectos: as normas e prescrições elaboradas pelo casal e que orientam a conduta de ambos, os motivos de brigas entre os casais e, por último, a violência no namoro.

Namoro e violência: aportes teóricos

Se no Brasil os estudos sobre esse fenômeno são recentes, isso não pode ser dito de países como Estados Unidos, Canadá, Espanha, Portugal e México que, além dos estudos, realizam campanhas de prevenção à violência no namoro, as quais estão disponíveis em meios de comunicação, dentre eles, o site de compartilhamento de vídeos Youtube.

Caridade e Machado (2006), ambas pesquisadoras portuguesas, propõem uma revisão da literatura sobre o tema da violência no namoro. As autoras apontam a carência e a marginalização dos estudos voltados para esse tipo de relação, em detrimento dos estudos que enfocam as relações conjugais. Contudo, elas destacam que, recentemente, observa-se uma abertura nos estudos voltados para o fenômeno da violência contra a mulher no panorama internacional, que engloba outros grupos específicos, dentre eles, a violência entre os jovens casais de namorados, conhecida como dating violence ou courtship violence (violência no namoro). Nos últimos 10 anos também foram realizados estudos dessa natureza na América Latina, em que o tema se denomina violencia en el noviazgo (violência no namoro).

Dentre as dificuldades apontadas nos estudos sobre a violência no namoro, destacamos a definição de violência no namoro e a escassa produção acadêmica sobre o tema (Matos, Machado, Caridade, & Silva, 2006).

Internacionalmente, observa-se a existência de duas correntes que se contrapõem nos estudos sobre violência no namoro. Há a corrente que defende a existência de simetria na violência entre namorados, que, numa perspectiva mais generalista, alude que no casal a violência pode ser exercida tanto pelo homem quanto pela mulher, igualitariamente, embora com diferentes dinâmicas, frequências, objetivos e consequências. Para os(as) autores(as) que defendem essa perspectiva, a probabilidade de haver violência aumenta à medida que existe o desejo de dominação, que é exercido independentemente de o parceiro dominante ser homem ou mulher. No tocante aos agravos, sejam eles de natureza psicológica, física, financeira ou emocional, há consenso que os danos causados são mais significativos para as mulheres do que para os homens. A principal ferramenta de pesquisa utilizada pelos pesquisadores dessa corrente é a Conflicts Tactics Scales (CTS) 2 2 A Conflict Tactics Scales – foi formulada na década de 70 por Murray Straus – é uma escala composta por uma série de questões que procura abordar diferentes dimensões da violência, seu nível de incidência e as formas mais frequentemente utilizadas pelas pessoas para resolver os conflitos. O objetivo dessa escala é identificar e medir três táticas diferentes: 1) o uso da discussão racional e argumentação; 2) a agressão verbal, incluindo-se neste ponto o uso de meios verbais e simbólicos; 3) a agressão física. Essas três diferentes táticas são associadas a determinados itens distribuídos numa escala que medem desde as formas consideradas menos severas até as mais severas (Casimiro, 2004). e o principal nome que a representa é o sociólogo norte-americano Murray Straus (Aldrighi, 2004; Kerman & Powers, 2006; Medeiros & Straus, 2006; Straus, 2004).

Dentre as maiores críticas aos estudos que defendem a simetria na relação, podem ser mencionadas: a não-contextualização da violência – se ocorreu em resposta a uma violência sofrida anteriormente, se constitui exercício de dominação ou se vem como autodefesa – e as limitações metodológicas que a CTS utilizada nesses estudos apresenta (Casimiro, 2004).

A outra corrente defende que a violência é fruto da assimetria das relações de gênero. Essa corrente, segundo Matos (2006), procura compreender os fatores que sustentam a violência nas relações sociais e advoga que, nas relações violentas, não há simetrias, elas são assimétricas. Essa perspectiva tem como referência o feminismo que afirma a influência dos processos históricos, culturais, políticos e ideológicos para a estagnação e o fortalecimento da ordem patriarcal, em nível social e familiar. Dentre as pesquisadoras brasileiras que defendem essa perspectiva, destacamos a socióloga Heleieth Saffioti (2004), que defende que as sociedades regidas por uma ordem patriarcal de gênero alimentam estruturalmente desigualdades de gênero e poder, toleram e, até certo ponto, incentivam a violência contra a mulher. A construção da identidade de gênero é compreendida como fator que reforça desigualdades e hierarquias nas relações íntimas.

Embora as opiniões sejam divergentes quanto à questão da existência ou não da simetria da violência nas relações entre namorados, há consenso no que se refere aos danos causados pela violência: a mulher sofre os maiores danos.

No entanto, além das correntes destacadas acima, existem outros estudos que se dedicam ao tema da violência no namoro, procurando compreender os fatores que invisibilizam tal violência e fazem com que os jovens mantenham relacionamentos em que ela está presente. Dentre esses pesquisadores, ressaltamos as psicólogas portuguesas Carla Machado e Sónia Caridade. Para essas autoras, o ciúme desempenha papel de demonstração de amor, mesmo de forma confusa, e de justificativa para a violência. Isso posto, a violência seria encarada de maneira divergente para os homens e para as mulheres. Enquanto, para elas, a violência aparece como forma de intimidação, para os rapazes, ela surge em resposta às "provocações" femininas (Caridade & Machado, 2006).

Méndez e Hernández (2001), ao pesquisarem a violência no namoro, salientam que, quanto maior for o tempo para que ocorra o primeiro episódio de violência, maior será a probabilidade de o vínculo manter-se, uma vez que os laços afetivos tendem a se estreitar, dificultando a tomada de decisão pelo rompimento. Essas autoras revelam que, frequentemente, os jovens enganam-se, acreditando que uma relação que se inicia de forma violenta melhorará com o tempo. Embora os motivos dos conflitos possam mudar, bem como as justificativas para a violência, ela não deixará de ocorrer, mesmo que o parceiro procure fazer tudo o que o outro quer, o que traz o risco de reforçar o desejo do outro.

O desejo de controlar, segundo Méndez e Hernández (2001), associa-se em geral ao ciúme crônico, à insegurança na relação e à dependência emocional. Contudo, as autoras ressaltam que pode haver ciúme, mesmo quando o valor dado à relação ameaçada não é de natureza afetiva, mas sim social, ou econômico, ou de algum outro tipo.

A violência como constitutiva da relação amorosa

Para a compreensão da violência nas relações afetivas, utilizamos como base os estudos desenvolvidos por Gregori (1993). A autora aponta para a importância de identificar os padrões culturais que influenciam os homens e as mulheres, mas entende que esses padrões não devem ser considerados de forma dicotômica, como tradicionais ou modernos, mas sim como "vários núcleos de significado que se sobrepõem e se misturam" (p.138). Dessa forma, não há padrões determinantes, uma vez que eles se cruzam com outras concepções, assim, é equivocado atribuir padrões genéricos ao fenômeno da violência contra a mulher ou excluí-los também de forma genérica.

Os padrões culturais constituem "construções, imagens, referências que as pessoas dispõem de maneira particular em suas relações concretas com o mundo", porém, são referência, e não imposições (Gregori, 1993, p.200). Sendo assim, essa autora os entende como mapas que orientam as pessoas, e não como prescrições impositivas.

Gregori desenvolve a ideia de que a cena de violência, bem como a queixa posterior a ela, exerce uma função na relação. A cena, segundo a autora, teria entre suas funções: (a) a troca de contestações, com o objetivo de dar a última palavra, nessa função, o acordo não é possível, uma vez que o que está em jogo não é o fato ou a decisão, e sim dar a última palavra, fazer a réplica; e (b) preparação dos corpos para o prazer, uma vez que o domínio do erotismo é o domínio do prazer, da violação e da violência, pois são dois corpos separados e descontínuos que na concretização erótica encontram seu ponto de fusão.

A queixa, segundo Gregori (1993, p.185), é a "narrativa em que a pessoa, que é objeto de algum infortúnio, constrói discursivamente a sua posição enquanto vítima". Essa narrativa é uma construção descritiva, na qual o narrador apresenta os fatos a partir de sua perspectiva, dando ênfase em alguns pontos, com o objetivo de compor os acontecimentos e os personagens, para isentar-se de culpa e responsabilizar o outro.

A autora destaca que importante na queixa é "a gravidade; o 'contar vantagem', o desafio" (Gregori, 1993, p. 186). Na queixa, a pessoa pode assumir o lugar de quem faz sacrifícios, de quem é virtuosa, corajosa, indispensável e única para o outro. "Essa tensão só é expressa de forma ambígua e oblíqua: os revides, as reclamações, a queixa" (p.196).

A partir do referencial teórico apresentado, compreendemos que, na relação afetiva, a violência pode ter uma função que ultrapassa a de dominação. Ela pode ter a função de mantenedora do relacionamento, dentro de um jogo estabelecido entre o casal, ser utilizada por eles como forma de posicionar-se na relação, ser um canal de comunicação e diálogo entre eles, além de constituir, muitas vezes, a forma de dar a palavra final.

A mulher também pode ser coautora da violência, porque cada situação de violência tem sua singularidade, sendo entendida como uma construção conjunta. Adotar essa postura leva à necessidade de desnaturalizar os padrões culturais como determinantes da violência, ou a dicotomia vítima e algoz, bem como o entendimento de que não existem padrões da violência entre os casais de namorados que propiciam generalizações.

Consideramos que, mesmo que a violência entre namorados tenha semelhanças com a violência entre cônjuges, existem particularidades nas relações de namoro, como o fato de a relação ser mais fluida, "menos" compromissada, com menor cobrança social, ou mesmo sem cobranças, para que a relação seja mantida. Além disso, não existem, no namoro, dependência econômica, filhos ou bens compartilhados, que poderiam "justificar" a continuidade da relação, mesmo quando há violência.

É fato que a relação violenta é permeada pelo desejo de: (a) dominar o outro, (b) controlar o parceiro, (c) dar a palavra final e (d) fundir-se com o outro, tornando-se um só ser e garantindo que é o único a ocupar os pensamentos do parceiro. Esse tipo de violência é fortemente influenciado pela concepção de amor vivenciada pelo casal, que permitirá, em maior ou menor medida, o uso da violência na relação.

Namoro e violência para jovens casais de namorados

Ao enfocar a violência no namoro na análise das entrevistas com os jovens, destacamos três aspectos: (a) as normas, proibições e permissões que o casal estabelece, as quais intitulamos "manual do namoro", (b) os motivos que causam as brigas e os rompimentos entre os casais e (c) os usos da violência entre os namorados

Para efeito metodológico, consideramos "namoro" conforme a definição de Aldrighi (2004, p.109), como uma relação que envolve "encontro para uma interação social, em atividades conjuntas e com intenção implícita ou explícita para continuar o relacionamento". Para melhor delimitação da pesquisa, escolhemos jovens que autodenominavam seus relacionamentos como namoro há, no mínimo, três meses, na época da entrevista.

Não é fácil definir juventude. Rodrigues (2009) destaca que as diferentes organizações ou legislações que tratam da juventude trabalham com uma pluralidade de concepções distintas do que é ser jovem. Segundo Villela e Doreto (2006), a literatura sobre o tema da juventude aponta que a distinção entre juventude e adolescência relaciona-se aos sentidos dados a cada um dos termos. Segundo as autoras, adolescência abrange pessoas entre 10 e 20 anos, vincula-se a um sentido etário mais ligado ao âmbito individual, cronológico, com significados negativos como, por exemplo, dependência e irresponsabilidade. Ao passo que juventude abrange pessoas entre 15 e 24 anos, vincula-se a significados mais positivos como, por exemplo, independência e criatividade e relaciona-se a um sentido mais coletivo, geracional. Embora, como destacado por Rodrigues (2009), existam visões que naturalizam, universalizam e patologizam adolescência e juventude, neste trabalho não adotamos tais posições. Para nós, o termo juventude abrange uma complexa rede de significados sobre uma determinada fase da vida cujo contorno é histórico e culturalmente demarcado. As diferentes definições de juventude não são neutras elas também expressam os jogos de poder e as disputas políticas pelo significado do termo.

Para selecionar os(as) jovens, utilizamos a classificação de juventude do Conselho Nacional de Juventude – Conjuve - que apresenta três faixas etárias: adolescentes-jovens (entre 15 e 17 anos), jovens-jovens (entre 18 e 24 anos) e jovens-adultos (entre 25 e 29 anos) (Conselho Nacional de Juventude, 2007). Adotamos a faixa jovens-jovens e jovens-adultos, por entender que, a partir dos 18 anos de idade, o jovem tem mais autonomia na escolha dos pares, bem como na manutenção ou não do relacionamento.

Neste artigo, consideramos trechos das entrevistas da pesquisa Namoro e violência: um estudo sobre amor, namoro e violência entre jovens de grupos populares e camadas médias (Nascimento, 2009). Na pesquisa, 22 jovens moradores da cidade de Recife, foram entrevistados no período de janeiro a abril de 2008. Os jovens entrevistados foram divididos em dois grupos de onze jovens, composto por sete mulheres e quatro homens cada, e denominados: grupos populares (GP) e camadas médias (CM). Dentre os critérios para essa divisão, estão, como principal, o de localização da residência e, junto a esse critério, a escolaridade, o número de pessoas que residiam na moradia e a renda do grupo familiar. Essas entrevistas foram gravadas com autorização dos jovens entrevistados e posteriormente transcritas para análise. Os nomes que aparecem na análise são fictícios.

Manual do namoro: normas, proibições e permissões

Na análise das entrevistas, percebemos que os casais de namorados estabelecem um conjunto de preceitos que orienta a conduta dos namorados. Poderíamos dizer que é uma espécie de "manual do namoro", que diz o que é permitido ou proibido na relação amorosa. Nele constam, por exemplo, as saídas permitidas (apenas com os amigos ou juntos e com os amigos), os horários e dias para o casal se encontrar, a forma como as brigas devem ser resolvidas, a existência ou não de relação sexual e as condutas que ambos devem ter na relação. Essas normas são vivenciadas dentro de um jogo de tensão, pressão e conflito, cuja quebra é, em muitos momentos, motivo de brigas entre o casal.

Nem sempre o "manual do namoro" é elaborado pelo casal de namorados, pois outras pessoas de fora da relação, como pais e pastores, por exemplo, estabelecem regras para o casal. Comumente, essas regras externas ao casal acontecem quando a namorada é mais jovem do que o namorado e os pais procuram protegê-la ou quando participam de alguma igreja que impõe limites no namoro.

Pesquisadora: ... quais são as regras do namoro?

Marcela (GP): Quando a gente começou a namorar, a gente foi aconselhado pelo pastor ... ele mandou a gente fazer bastante regras para o relacionamento ... Como eu era muito nova e ele também, o pastor não queria que a gente namorasse, aí ele pediu para ficar acompanhando ... começou a ditar um monte de regra

Sair de casa com ou sem parceiro para atividades de lazer e diversão também é passível de regras. Nas relações em que há confiança, existe liberdade para que o namorado ou a namorada saia só com os amigos. Porém, quando existe desconfiança, ciúme e desejo de controle do outro, essas saídas tornam-se mais restritas ao casal ou ao casal com os amigos, mas cada um nunca sai sozinho.

Pesquisadora: Existem coisas ... permitidas e proibidas na relação?

Adriana (CM): não declaradamente. ... a gente assim tem assim praticamente um código dentro da nossa cabeça, ... pensa muito igual. ... Não é que eu proíba, mas eu não gosto que ele vá pra barzinho só com amigos. Ele também não gosta que eu vá pra barzinho só com as amigas. Então a gente não vai. ... Mas a gente se conhece tanto, que a gente procura fazer de que forma... eu sei o que ele gostaria que eu fizesse, assim como ele pensa da mesma forma ... A gente sempre costuma sair junto e as pessoas que se adaptam.

Esse depoimento aponta que algumas normas não precisam nem mesmo ser explicitadas verbalmente. Há um acordo tácito e cada um sabe o limite que deve se impor e impor ao outro, para que a relação se mantenha dentro de o que é prescrito.

Dentre as normas acordadas pelo casal, existem aquelas que não podem ser flexibilizadas no namoro e cuja quebra causaria o fim do relacionamento. A traição aparece como principal motivo que levaria ao término do relacionamento, caso acontecesse, para dezessete dos(as) jovens entrevistados(as). Além da traição, a mentira não é aceita, pois leva à quebra de confiança, que é indispensável na relação,

Quando os(as) entrevistados(as) destacam a traição como algo inaceitável, referem-se tanto a sua própria traição quanto à traição do outro.

Emílio (CM): Traição seria uma coisa muito forte .... Mesmo que ... existisse assim ... uma traição oculta, ... que ninguém realmente soubesse ..., mas você ter feito, sabe... ... vai ficar na cabeça. ... Se você tem princípios, você não vai fazer

Em oposição à postura de que a traição não é aceita por ambas as partes, aparece a fala de um entrevistado que apresenta que trair é "inerente" à condição de ser homem. Ele revela que não aceitaria que a namorada o traísse, embora já a tenha traído.

Em suma, o "manual do namoro" não só tem o papel de balizar a relação, como é uma forma de controle estabelecido por meio de embates, ameaças de término da relação, declaradamente ou não, tensões, pressões, submissão e resistência. Para garantir o cumprimento das normas, os jovens também limitam seus próprios comportamentos, pois assim o outro terá de fazer o mesmo sacrifício ao qual submete o(a) parceiro(a).

Os motivos de briga

O ciúme aparece como principal motivo de briga entre os(as) jovens entrevistados(as).

O desejo de ter o(a) namorado(a) só para si evidencia-se nas falas de Cláudia (GP) e Rodrigo (CM), os quais revelam, direta e indiretamente, a dificuldade de partilhar esse outro (namorado e namorada) com outras pessoas e atividades.

Pesquisadora: E você falou que vocês brigaram, ... terminaram ... que tipo de briga vocês estavam tendo?

Cláudia (GP): Eu cobro muito ... a questão da presença, ... procurar saber como é que tá, ... a gente brigava muito porque eu cobrava, ... sufocava demais. ... Ele tem a vida dele também pra viver e eu tenho a minha ... só queria que vivesse em função de mim, entende?

Embora Cláudia (GP) destaque ter mudado de atitude, no decorrer de sua fala, demonstra que a cobrança ainda está presente, uma vez que, assim que reatou o namoro, esclareceu ao namorado que não queria que ele saísse sem ela, e deixou inclusive de sair sozinha, para que ele não tivesse o direito de sair também. Ela acredita que os amigos podem levá-lo a fazer coisas erradas, "puxá-lo" para festas, por isso, deseja afastá-lo dos amigos, pois eles concorrem diretamente com ela.

Para Rodrigo (CM), seus concorrentes são o trabalho e a mãe de sua namorada. A necessidade de dividi-la com esses outros o incomoda e faz com que ele deseje que a namorada tenha maior disponibilidade para ele, e isso os leva a brigar, quando não há correspondência a esse desejo.

Pesquisadora: o que costuma ser motivo de desentendimento entre você e sua namorada?

Rodrigo (CM): Trabalho, porque ela se dedica muito ao trabalho. ... passa sexta, sábado e domingo fazendo coisa escola. ... Já disse pra ela várias vezes, <<prefiro deixar de lhe ver durante a semana, e ter você 100% no final de semana>>

Pesquisadora: Hoje você tem essa postura (de só fazer o que quer)?

Rodrigo: tenho essa postura de chegar e dizer, <<Vamos e pronto. ... Vai ser assim>>. <<Ah, mas minha mãe não sei o quê>> ... << ... Você quer ficar com ela?>>. ... <<Quer ir pra casa?>>, <<Não>>. <<Se quiser ir pra casa pode ir. Ou tá aqui, ou não fica choramingando ...>> ... ou tá comigo querendo ... Estar com uma pessoa choramingando não tem nada pior.

A crença de que o ciúme é demonstração de afeto é presente na fala de mulheres e homens de ambos os grupos. Evandro (GP) acredita que o amor é permeado de ciúme, porque, se não existir ciúme, não há amor.

Evandro (GP): Pronto, tem o ciúmes também, que às vezes é até demais. Eu sei que é gostar até demais, mas isso não é amar, não.

Pesquisadora: Amar não é ter ciúmes?

Evandro: É. Não, amar tem que ter ciúmes, mas não tanto.

Pesquisadora: Você tem ciúme quando namora, quando você gosta?

Evandro: Tenho. Tem que ter, se não tem não é amar.

Pesquisadora: Você acha que //ciúme faz parte?//

Evandro: //Ciúmes faz parte do amor, mas nem tanto//.

As jovens interpretam os ciúmes do namorado de diferentes formas. Para algumas jovens, esse cerceamento é compreendido como cuidado e expressão de amor e atenção, como se evidencia na fala de Carla (GP):

Carla (GP): Pega muito no celular ... começa a olhar ... as chamadas, e sempre procura saber onde é que eu tô, porque que eu fui com quem.

Pesquisadora: E pra você como é que é isso assim?

Carla: Eu acho bom, porque ele me dá atenção. E eu não sou acostumada assim a uma pessoa me dar tanta atenção, e eu acho lindo.

Entretanto, embora Carla considere o ciúme do namorado um cuidado, algo "lindo", há tensões nessa relação de controle e desconfiança por parte do namorado. Em outros momentos da entrevista, essas tensões ficam mais claras, quando ela diz sentir-se sufocada diante das desconfianças do namorado, tendo de encontrar formas de resistir a esse controle, saindo escondido com as amigas, por exemplo.

Outras jovens do mesmo grupo compreendem o ciúme como algo prejudicial à relação e que não deve fazer parte dela. Assim, as tentativas dos namorados de cerceá-las em seu convívio com outras pessoas são discutidas na relação, a fim de minimizar esse comportamento controlador, causado pelo ciúme.

Diante do controle exercido pelo namorado por causa do ciúme, surgem resistências por parte das namoradas, que utilizam saídas como mentir, sair escondido e dissimular comportamentos na presença do namorado, Bruna (GP), por exemplo, acredita que as proibições, os conselhos e as reclamações do namorado a levam a um aprendizado, já que ela é "muito danada". Ao mesmo tempo em que apresenta essa submissão, ela resiste ao controle dele, usando de estratégias como mentir, sair antes que ele chegue a sua casa e declarar que aceita todas as suas exigências, quando brigam, para garantir a continuidade do namoro, mesmo que depois não as cumpra.

Como falamos, homens e mulheres de ambos os grupos têm como principal motivo para as brigas o ciúme. Entretanto, existem outros motivos que provocam as brigas entre os casais e que são diferenciados de acordo com o sexo e a classe social.

Para as jovens de grupos populares, além do ciúme, também são marcantes, como motivo de briga, as proibições impostas pelos namorados, motivadas pelo ciúme. Esse controle exercido pelos namorados evidencia-se mediante as tentativas de cercear a namorada de sair para determinados lugares ou sem a presença dele, ter certos tipos de conduta (por exemplo, beber, dançar, ser extrovertida) e ter amizade com homens. Há também uma espécie de "ensinamento" da parte deles, o qual deve ser seguido pelas namoradas, uma vez que eles sabem "o que é e o que não é bom" para elas.

Para as jovens de camadas médias, os outros motivos de briga circunscrevem-se em três questões: divergência de opiniões, irresponsabilidade do outro em relação aos estudos, ao futuro e ao namoro e dificuldades na comunicação, quando ela acontece via Internet (Messenger, Skype, Orkut) e telefone. Eles discutem sobre o "real" significado de uma palavra ou frase no Messenger ou Orkut, brigam porque não gostaram do que o outro disse e interpretam qualquer demora em responder a mensagem como descaso.

Em relação aos homens dos grupos populares e das camadas médias, identificamos algumas diferenças. Os jovens de grupos populares apontam que as brigas acontecem por conta do ciúme que a namorada tem deles. Não há referência ao próprio ciúme, embora ao longo da entrevista eles falem de momentos em que o ciúme estava presente, como no caso de Fábio (GP), que não queria que a namorada dançasse quadrilha.

Pesquisadora: //Me dá um exemplo de uma coisa que// ela autoriza e pra você não é autorizado.

Fábio (GP): Assim, ela querendo dançar quadrilha, que ela gosta muito de dançar, né? Mas eu não gosto, ... Tem muita gente, muito macho ... não quero não que ela dance ... nem a mãe dela ...

Pesquisadora: fora ... traição o quê que costuma ser motivo de desentendimento?

Fábio: Brincadeira dela de ficar dando tapa, essas coisas, ..., dizendo que tô com outra ... Aí começa aquela discussão, depois tá arengando.

Já os jovens das camadas médias acrescentam a tais motivos a rigidez da namorada em relação a compromissos marcados, e o ciúme, quando aparece, é o da namorada, em relação às amizades com o sexo oposto. Essa rigidez diz respeito à inflexibilidade da namorada quanto a mudanças de horários ou de programas preestabelecidos.

O controle como motivo de briga está mais presente entre os(as) jovens de grupos populares, e aparece apenas na fala de uma jovem de camada média. O controle é descrito pelos(as) jovens como: cercear o outro da presença dos amigos, examinar o celular do parceiro para ver as chamadas, olhar o Orkut para ver quem lhe envia recados, cobrar satisfações sobre onde estava e com quem, não permitir amizade com pessoas do sexo oposto, não querer que a pessoa saia sem sua presença, impedir que ela vá a determinados lugares ou faça certas atividades, controlar as roupas que a pessoa deve ou não usar e ditar os comportamentos adequados para o(a) parceiro(a). Outro motivo de briga, para esses(as) jovens, seria a interferência familiar, o que não apareceu entre os(as) jovens de camadas médias.

Da violência no namoro

A compreensão dos(as) jovens a respeito dos motivos de briga, das normas estabelecidas no namoro e daquilo que é inaceitável fornece subsídios para melhor entendimento do fenômeno da violência na relação de namoro e, em muitos momentos, ajuda a entender o porquê de os jovens não reconhecerem a violência existente em seus relacionamentos.

Dentre os jovens entrevistados, apenas dois consideram que a violência circunscreve-se unicamente ao âmbito físico. Possivelmente, essa definição de violência como sendo apenas física seja o motivo pelo qual tanto Emílio (CM) quanto Fábio (GP) não reconhecem como violência os xingamentos, as ameaças de terminar o namoro, o ato de impedir a namorada de fazer algo de que ela gosta ou mesmo os tapas "de leve" dados pela namorada, num momento de raiva.

Os outros entrevistados acreditam que na violência inclui-se também a verbal, a moral e a psicológica. Alguns dos(as) jovens destacam que a violência ultrapassa essa tipologia apresentada pela literatura e afirmam que seria violência qualquer ato que invada o limite do outro. Nesse caso, a violência seria, na concepção desses jovens, qualquer transgressão ao espaço do outro, entendendo-se esse espaço não só em seu aspecto físico, corpóreo, mas como aquele inerente a sua subjetividade, seus desejos e ideais.

Augusto (GP): Violência no relacionamento? ... Passar de um certo limite não cabível ... querer ultrapassar o limite do outro sem permissão de ambas as partes. ... acredito que seja também uma falta de respeito um com o outro

Célia (GP): É você magoar alguém de alguma forma. Você faz ela se sentir mal ... Eu não entendo assim só ... física.

Há, nas falas dos(as) jovens, a ideia de que, em muitos momentos, as palavras utilizadas têm o poder de ferir mais do que qualquer outro tipo de violência física. Nesse sentido, a palavra aparece, nas falas, como ação, como palavras com a ação de ferir.

Porém, mesmo compreendendo a violência para além do aspecto físico, uma jovem de camada média considera que, em seu namoro – que no momento da entrevista tinha terminado havia dois dias – existia violência. Além dessa jovem, um jovem e uma jovem de camadas médias reconhecem ter vivido a violência em namoros anteriores, mas destacam que só conseguiram percebê-la após o término da relação. Aparentemente, é difícil reconhecer a violência na atual relação.

Múltiplas questões facilitam – ou não – o reconhecimento da violência na relação. Dentre essas questões, destacamos: (a) restringir a violência apenas ao âmbito físico, nesse caso, xingamentos, cerceamento do outro, ameaças de término, por exemplo, não constituiriam violência; (b) compreender a violência como demonstração de amor e cuidado – por exemplo, controlar aquilo que o outro faz e não permitir que ele tenha convívio com outras pessoas; (c) criar uma realidade, a qual Costa (1998) denomina realidade amorosa, que é a realidade vivida pelos apaixonados e que propicia que um encontre no outro aquilo que deseja, independentemente do mundo a sua volta. Para o autor, os apaixonados não desconhecem a realidade, mas criam outra, a realidade amorosa, que para eles é tão real quanto qualquer outra.

Maria (CM), ao falar de seu namoro anterior que, segundo ela, era violento, aponta para essa não-percepção da violência durante a relação, justificada pelo sentimento existente.

Maria (CM): uma pessoa não muito legal que eu me apaixonei e, quando você está nesse estado, você não percebe, só depois ... me proibia que eu saísse com meus amigos, me afastava das coisas que eu queria fazer, me colocava contra as pessoas da minha família

Rodrigo (CM) considera que seu desejo de agradar aos outros foi o principal motivo para que a violência acontecesse nas relações anteriores, pois se obrigava a fazer aquilo que não queria, levava adiante a relação, mesmo insatisfeito com ela, e para evitar a frustração de ver seu namoro fracassar tentava, dentre outras coisas, "comprar" a felicidade.

Ele considera que, na relação atual, não há violência, porém, em sua fala, evidenciam-se situações nas quais ele demonstra o desejo de ter sua namorada apenas para ele e dificuldade de dividi-la com o trabalho ou com a mãe dela. Há situações que indicam controle, nas quais ele procura subterfúgios para estar constantemente presente nos pensamentos da namorada, como, por exemplo, dar uma roseirinha que ela tem de regar, pois, se não o fizer, será a comprovação de que não pensa nele, porque, se pensasse, a regaria.

Considerações finais

Segundo os autores abordados neste trabalho, a violência na relação exerce diferentes funções. Em alguns casos, a violência é a maneira de comunicação do casal e é realizada como forma de dar a palavra final. Para outros casais, a violência é forma de busca da integração total com esse outro com quem se relacionam. Além disso, ela pode ser utilizada também como forma de controle, dominação e opressão. A tentativa de fusão proveniente do desejo de controlar o outro cria uma rede que prende ambos, pois aquele que deseja controlar acaba sendo controlado por seu próprio desejo.

Os(as) entrevistados(as) da pesquisa mostram uma compreensão abrangente da violência – com exceção de dois jovens que a compreendem apenas como física –, posto que a circunscrevem no âmbito físico, psicológico, sexual, ideológico, moral e verbal. Eles consideram como violência qualquer tipo de transgressão do limite do outro, de seus desejos e ideais, por exemplo, contudo, embora apresentem essa concepção abrangente, aparentemente, é como se a violência no namoro estivesse em outro plano, totalmente distanciado da relação deles. Assim, não reconhecem como violência proibições em relação a: sair de casa para atividades de lazer e diversão; ter amizade com pessoas do sexo oposto; usar certas roupas. Eles também não reconhecem como tal as ligações feitas só para saber onde os(as) namorados(as) estão, olhar no celular para verificar as últimas mensagens e chamadas realizadas e recebidas e a troca de xingamentos e tapas (que é encarada como brincadeira).

Dentre os motivos para a invisibilidade desse fenômeno na relação, apontamos alguns presentes nas falas dos jovens. Para aqueles(as) que compreendem o amor segundo o ideal romântico, a violência fica aparentemente invisibilizada, pois, se o amor é sacrifício, superação de qualquer obstáculo e a única forma de atingir a plenitude, tudo deve ser suportado para atingir essa felicidade. Assim, os controles exercidos pelo namorado ou pela namorada, as desconfianças e o ciúme são decodificados como formas de cuidado e amor, e os insultos, tapas, empurrões e desrespeitos são entendidos como algo que deve ser suportado, porque o amor requer sacrifícios. Outro ponto que parece invisibilizar a violência é a compreensão de que ela é restrita ao âmbito físico. Os jovens que a restringem ao âmbito físico desconsideram os outros tipos de violência.

Por fim, consideramos que é importante construir espaços criativos de conversa e troca entre os jovens sobre violência e namoro. Concordamos com Castro (2002, p. 7) que são necessários "esforços conjugados para saber reconhecer indícios de engendramento da violência". É fundamental o investimento em prevenção e na criação de instrumentos que permitam aos jovens reconhecer, enfrentar e opor-se às diferentes formas de violência.

Notas

Recebido em: 24/09/2009

Revisão em: 11/02/2010

Aceite final em: 10/04/2010

Fernanda Sardelich Nascimento é Psicóloga. Professora Substituta do Departamento de Psicologia da Universidade Federal de Pernambuco. Mestre em Psicologia pela Universidade Federal de Pernambuco. Endereço: Av. Prof. Moraes Rego, 1235 – Centro de Ciências Sociais Aplicadas. Departamento de Serviço Social, sala C20 Cidade Universitária. Recife/PE, Brasil. CEP 50670-901. Email: fsardelich@yahoo.com.br

Rosineide de Lourdes Meira Cordeiro é Doutora em Psicologia Social pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, professora do Departamento de Serviço Social e do Programa de Pós Graduação em Serviço Social e em Psicologia da Universidade Federal de Pernambuco. Endereço: Av. Prof. Moraes Rego, 1235. Centro de Ciências Sociais Aplicadas. Departamento de Serviço Social, sala C20. Cidade Universitária, Recife/PE, Brasil. CEP 50670-901. E-mail: rocordeiro@uol.com.br

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  • 1
    Este estudo de cunho quantitativo e qualitativo investigou cerca de quatro mil adolescentes entre 15 e 19 anos de idade de escolas públicas e privadas, tendo sido realizado em cinco diferentes regiões do país: Manaus e Porto Velho (Norte), Teresina e Recife (Nordeste), Rio de Janeiro, Belo Horizonte (Sudeste), Florianópolis, Porto Alegre (Sul), Cuiabá e Brasília (Centro-Oeste). A partir de uma parceria entre Claves, ENSP e Fiocruz.
  • 2
    A Conflict Tactics Scales – foi formulada na década de 70 por Murray Straus – é uma escala composta por uma série de questões que procura abordar diferentes dimensões da violência, seu nível de incidência e as formas mais frequentemente utilizadas pelas pessoas para resolver os conflitos. O objetivo dessa escala é identificar e medir três táticas diferentes: 1) o uso da discussão racional e argumentação; 2) a agressão verbal, incluindo-se neste ponto o uso de meios verbais e simbólicos; 3) a agressão física. Essas três diferentes táticas são associadas a determinados itens distribuídos numa escala que medem desde as formas consideradas menos severas até as mais severas (Casimiro, 2004).

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    06 Jun 2012
  • Data do Fascículo
    Dez 2011

Histórico

  • Recebido
    24 Set 2009
  • Revisado
    11 Fev 2010
  • Aceito
    10 Abr 2010
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