Accessibility / Report Error

Envelhecimento e aposentadoria por policiais rodoviários

Aging and retirement in the view of highway policemen

Resumos

Esta pesquisa tem por objetivo a análise dos significados do envelhecimento e aposentadoria configurados por Policiais Rodoviários em fase de aposentadoria. Participaram deste estudo 13 policiais, com faixa etária entre 40 e 69 anos de idade. Foram aplicados questionários sociodemográficos e entrevistas semiestruturadas. Utilizou-se a análise de conteúdo temática com auxílio do sistema ALCESTE de análise de dados textuais, tendo-se como referência conceitual a configuração psico-sócio-histórica do ser humano e sociedade. Resultados: os significados do envelhecimento e aposentadoria configuraram-se entre exclusão e adoecimento, com 30,5% das UCEs (Unidades de Contextos Elementares), e liberdade e projeto de vida, com 69,43% das UCEs. Concluiu-se que os policiais rodoviários elaboram significados objetivados na necessidade de um olhar mais voltado para o momento da aposentadoria, acreditam na sua participação ativa nesse processo, criando novos projetos de vida em busca da felicidade.

envelhecimento; aposentadoria; projeto de vida; policiais rodoviários; psicologia sócio-histórica


This research has as objective the analysis of the meaning of aging and retirement configured by Highway Policemen in retirement phase. Thirteen policemen, between 40 and 69 years old, took part of this study. It was applied socio-demographic questionnaires and semi-structures interviews. It was used the thematic content analysis, with the support of the ALCESTE system of textual data analysis, taking as conceptual reference the psycho-socio-historical configuration of the human being and the society. Results: the meanings of aging and retirement configure themselves between disease and exclusion with 30,5% of the ECU's (Elementary Contextual Units) and freedom and project of life with 69,43% of the ECU's. It was concluded that the highway policemen elaborate meanings objectified in the need of a more involved look to the time the retirement, they believe in their active participation in this process, creating new projects of life in the pursuit of happiness.

aging; retirement; project of life; road policemen; socio-historical psychology


ARTIGOS

Envelhecimento e aposentadoria por policiais rodoviários

Aging and retirement in the view of highway policemen

Yana Thamires Mendes Felix; Maria de Fátima Fernandes Martins Catão

Universidade Federal da Paraíba, João Pessoa, Brasil

RESUMO

Esta pesquisa tem por objetivo a análise dos significados do envelhecimento e aposentadoria configurados por Policiais Rodoviários em fase de aposentadoria. Participaram deste estudo 13 policiais, com faixa etária entre 40 e 69 anos de idade. Foram aplicados questionários sociodemográficos e entrevistas semiestruturadas. Utilizou-se a análise de conteúdo temática com auxílio do sistema ALCESTE de análise de dados textuais, tendo-se como referência conceitual a configuração psico-sócio-histórica do ser humano e sociedade. Resultados: os significados do envelhecimento e aposentadoria configuraram-se entre exclusão e adoecimento, com 30,5% das UCEs (Unidades de Contextos Elementares), e liberdade e projeto de vida, com 69,43% das UCEs. Concluiu-se que os policiais rodoviários elaboram significados objetivados na necessidade de um olhar mais voltado para o momento da aposentadoria, acreditam na sua participação ativa nesse processo, criando novos projetos de vida em busca da felicidade.

Palavras-chave: envelhecimento; aposentadoria; projeto de vida; policiais rodoviários; psicologia sócio-histórica.

ABSTRACT

This research has as objective the analysis of the meaning of aging and retirement configured by Highway Policemen in retirement phase. Thirteen policemen, between 40 and 69 years old, took part of this study. It was applied socio-demographic questionnaires and semi-structures interviews. It was used the thematic content analysis, with the support of the ALCESTE system of textual data analysis, taking as conceptual reference the psycho-socio-historical configuration of the human being and the society. Results: the meanings of aging and retirement configure themselves between disease and exclusion with 30,5% of the ECU's (Elementary Contextual Units) and freedom and project of life with 69,43% of the ECU's. It was concluded that the highway policemen elaborate meanings objectified in the need of a more involved look to the time the retirement, they believe in their active participation in this process, creating new projects of life in the pursuit of happiness.

Keywords: aging; retirement; project of life; road policemen; socio-historical psychology.

Esta pesquisa teve por objetivo desenvolver um estudo sobre os significados do envelhecimento e aposentadoria que circulam entre Policiais Rodoviários Federais em processo de aposentadoria.

Ao longo da vida, o ser humano vivencia um contínuo movimento de transição; através da relação com os outros e consigo, aprende, desenvolve-se, é transformado, transforma o outro e a sua história de vida (Vygotsky, 1999, 2003, 2004b). É importante considerar que os anos de trabalho e de convivência social possibilitam a acumulação de experiências, que provocam possibilidades de ressignificações de vida no processo de envelhecimento e da aposentadoria.

Os estudos realizados por Vygotsky (1999, 2003, 2004b) tratam do desenvolvimento humano contínuo, configurado psico-sócio-historicamente. Os referidos estudos demonstram que, quando o ser humano chega à idade adulta, o desenvolvimento psicológico torna-se cada vez mais aprofundado, o que permite ao adulto uma maior capacidade de elaborar e lidar com sua realidade e seus problemas (Catão, 2001).

O impacto psicológico que a aposentadoria e o envelhecimento provocam nos trabalhadores tem uma gênese psico-sócio-histórica, fruto de resquícios de uma cultura que significa ao aposentado ver-se como alguém incapaz de novas realizações, não concebendo o envelhecimento como possibilidade de desenvolvimento ascendente (Catão, 2001).

A partir dos anos 80, o envelhecimento populacional tornou-se um fenômeno que atinge grande parte do mundo, tanto em países desenvolvidos quanto nos países em desenvolvimento (OMS, 1984). A expectativa de vida dos brasileiros, atualmente, é de 73 anos, representando mais de 15 milhões de pessoas acima de 60 anos. Estima-se que, em 2050, essa estimativa alcançará os 81 anos, elevando o número de idosos e de jovens, que representarão 18% da população geral (França & Soares, 2009).

O Brasil é um dos países cuja população tem envelhecido expressivamente, com alterações significativas na dinâmica social, o que implica a necessidade de se pensar a respeito da manutenção da vida ativa independente. Esse processo de envelhecimento se apresenta enquanto um verdadeiro desafio para a sociedade.

Se os significados do envelhecimento forem postos principalmente com base na noção de declínio, isso poderá apresentar consequências graves para o desenvolvimento humano das gerações atuais e futuras, bem como para o desenvolvimento social e econômico do país e das organizações de trabalho. A configuração psico-sócio-histórica do desenvolvimento humano, como expresso anteriormente, postula uma progressão contínua do desenvolvimento, desde o nascimento até a morte (Vigotsky, 1999, 2004b).

Acompanhado desse processo vem a aposentadoria, que é ainda negligenciada dentro do quadro social, considerando-se as poucas pesquisas direcionadas a essa área, assim como a falta de projetos em instituições empregatícias voltados aos trabalhadores que estão caminhando para a aposentadoria, o que representa mais um agravante para um envelhecimento doloroso e sem perspectivas de vida. São as instituições tanto privadas quanto governamentais que deixam a desejar, ao permitirem que o trabalhador deixe sua rotina diária sem o suporte e acompanhamento apropriados para essa transição tão importante do desenvolvimento humano.

Essas circunstâncias tornam-se ainda mais alarmantes quando se trata de uma carreira cercada de encargos emocionais e físicos, como a do Policial Rodoviário, que envolve muito estresse, perigo de morte, que lida com a vida e a segurança dos cidadãos diretamente. Considerando a escassez de estudos com esse grupo de trabalhadores, ainda maior do que com o tema envelhecimento ou aposentadoria, justifica-se a relevância da presente pesquisa.

As relações de trabalho, baseadas na sobrevivência, na ascensão social, no lucro e em competições para a aniquilação do outro, a qual chamam de concorrência, não parecem compatíveis com as necessidades humanas e com um cuidado tão particular com os indivíduos, como no momento da aposentadoria e as mudanças que acompanham a velhice (Catão, 2001, 2005).

Entretanto, quando se lida com profissionais que estão diariamente enfrentando perigos em favor da proteção do outro, qualquer descaso pode se tornar alarmante e trazer graves consequências, pois um indivíduo que carrega armamentos e enfrenta constantemente violência e criminalidade poderá objetivamente colocar em risco a segurança de muitas pessoas. É evidente, porém, que o cuidado ao ser humano não pode restringir-se a uma ou outra profissão.

Quando o trabalhador chega à aposentadoria, muitas vezes sente-se perdido diante da quebra da estrutura em torno da qual sempre esteve organizado. É necessário que a postura das organizações de trabalho se alterem para atender a essa demanda, quando ainda estão nas proximidades da aposentadoria, como uma forma preventiva de ação, para que, ao concluírem sua carreira profissional, percebam-se como indivíduos que continuam a se desenvolver, se renovar e que podem ser pessoas ativas durante essa nova fase da vida.

É fundamental analisar as reais necessidades desses trabalhadores, como se sentem, que imagens elaboram e que reflexões produzem acerca de si e do mundo. E como eles podem desenvolver-se a partir dessa fase de transição, que mediações individuais/sociais podem direcionar as ações do presente com foco no futuro desejado.

Nessa perspectiva, o ser humano que se afasta do meio de produção social para a posição de aposentado precisa dessas novas diretrizes como uma forma de enfrentamento e alteração dos significados que se tem da aposentadoria e envelhecimento nos tempos atuais (Souza & Minayo, 2005).

A relevância deste estudo consiste, também, na necessidade de conhecer mais sobre esse processo tão complexo de mudanças e escolhas na vida dos trabalhadores, bem como a urgência de construções teórico-práticas a respeito da referida temática na atualidade, dentro da visão de indivíduos cuja função consiste em arriscar a própria vida para manter a ordem social, como é o caso dos Policiais Rodoviários Federais, que, na atuação de seu trabalho, protegendo a segurança pública, são sujeitos de direitos, protegidos pela constituição, que lhes garante a integridade física e mental no desempenho de suas atividades (Souza & Minayo, 2005).

Envelhecimento e aposentadoria

Como relata a pesquisa realizada por Costa e Campos (2009) acerca das representações sociais do envelhecimento, pode-se observar que os idosos percebem tal processo como algo negativo e de perdas. Está presente, de forma marcante, em seus discursos, a concepção de declínio e morte, bem como um afastamento social, diante da interrupção de suas atividades laborais, reforçando assim o pensamento de que o desempenho no trabalho vai diminuindo com o avanço da idade, devido inclusive às mudanças nas habilidades como velocidade, força, agilidade, coordenação e capacidade cognitiva que tendem a diminuir com o passar do tempo.

Grupos humanos, com base nas relações que se processam entre os seres humanos e com o mundo físico e social em que vivem, estão em constante processo de transformação e de ressignificações (Catão, 2007). A capacidade de significar e configurar sentidos permite a atividade criadora fazer do ser humano um ser projetado para o futuro (Sawaia, 1999).

São os significados que vão propiciar a mediação simbólica entre o indivíduo e o mundo real, constituindo-se no "filtro" através do qual o ser humano é capaz de analisar o mundo e agir sobre ele. Se os significados do envelhecimento forem postos principalmente com base na noção de declínio, isso poderá apresentar efeitos graves para o desenvolvimento humano das gerações atuais, futuras e consequentemente para o desenvolvimento social, econômico do país e das organizações de trabalho, pois se observa em toda população mundial um nítido processo de envelhecimento demográfico.

O processo de envelhecimento e aposentadoria não ocorre ao sujeito isoladamente, pois as concepções correntes da sociedade acerca de tais movimentos da vida irão interferir diretamente na forma como os indivíduos experienciam essas fases. Outro fator importante é o modo como o indivíduo viveu sua identidade de trabalhador e estruturou sua vida diária. Entendendo esses fatores é possível ajudá-lo nessa transição. Essa é a proposta de várias pesquisas que vêm sendo desenvolvidas na área da aposentadoria e envelhecimento.

França (2008) observa o quão raro é alguém se preparar para o futuro na aposentadoria, dado que, no caso dos brasileiros, ainda é pior, devido à cultura do imediatismo. Os resultados de sua pesquisa com executivos revelaram que os preditores sociais são mais eficazes do que os individuais ao prever as atitudes dos executivos, bem como influenciavam mais atitudes positivas do que negativas frente à aposentadoria. Alguns dos preditores que mais influenciavam as atitudes positivas são a alocação de tempo em atividades diversificadas e a influência da família e dos amigos na decisão da aposentadoria.

Nesse sentido, a autora supracitada acredita que o desenvolvimento da orientação para a aposentadoria deve existir como um trabalho a longo prazo, com o planejamento para o futuro, discutindo como lidar com perdas, trabalhando a manutenção de projetos de vida, a fim de transformá-los em novos projetos, sempre na perspectiva das escolhas dos sujeitos.

Outros estudos e pesquisas nesse âmbito vêm sendo realizados pelo Prof. Dr. José Carlos Zanelli e seus alunos nos grupos de PPA - Programas de Preparação para a Aposentadoria -, desde 1993, e contam com ações e discussões que revelaram a importância da orientação como oportunidade de reflexão e de elaborações cognitivo-afetivas antecipatórias da fase de transição para a aposentadoria. Os autores destacam ainda a importância do planejamento para essa fase e as possibilidades de uma segunda carreira, estabelecendo os passos necessários para a elaboração de um programa de orientação, desde o diagnóstico até a avaliação e seu acompanhamento (Zanelli, Silva, & Soares, 2010).

Um estudo recente de Lima, Soares e Luna (2011) buscou compreender como Policiais Federais de Santa Catarina, aposentados, se relacionam com o seu tempo livre. Os resultados encontrados indicam que para os sujeitos investigados o trabalho foi considerado central, levando-os a construir uma identidade mais estável, além de uma forte identificação com a profissão, resultando num sentimento de ambivalência na aposentadoria. Quanto ao tempo livre, houve uma mudança significativa na forma de vivenciar essa nova fase, pois, se antes, o dia a dia era emocionante, sem rotina, hoje todos levam uma vida mais calma, muito unidos à família, desenvolvendo algumas atividades físicas. Afirmam que o tempo livre é um dos benefícios da aposentadoria.

Conforme as pesquisas anteriormente citadas, dentre outras realizadas no Brasil, ainda se desvaloriza a condição de envelhecer, em que as elaborações de significados do envelhecimento como perdas são aspectos salientes (Debert, 2000). Atualmente, são perceptíveis, mesmo que discretamente, as alterações conceituais dos significados associados ao envelhecimento, e a própria aposentadoria vem ganhando aos poucos um sentido de liberdade, de traçar novos objetivos, de alcançar novas conquistas e satisfação pessoal. As experiências acumuladas ao longo da vida passam a representar a possibilidade de construção de novas identidades, e retomada de projetos antigos, além de novas construções de relacionamentos com o mundo e com aqueles que os cercam (Derbert, 2000).

Além disso, é crescente o número de aposentados que se responsabilizam pela manutenção de suas famílias. Esses idosos trabalhadores têm em sua identidade predominante o poder e o status de provedor, estando totalmente inseridos na vida familiar e, portanto, longe da segregação. Muitas vezes, são eles que detêm o maior poder econômico no domicílio.

Dessa forma, as evidências para as três últimas décadas demonstram não estar ocorrendo no Brasil um declive dos níveis da atividade econômica dos idosos. Tal tendência de crescimento, aliada a um sistema previdenciário precário e falho, fez com que a OMS reconhecesse a importância de se planejar cuidadosamente políticas específicas para esse segmento de potenciais trabalhadores. Contudo, o sucesso no desenho dessas políticas depende do conhecimento prévio do processo de envelhecimento e de todo o universo que o atravessa (Wanjman, Oliveira, & Oliveira, 2004; World Health Organization - WHO, 2005).

Além disso, o envelhecimento é fruto das mudanças nas relações sociais, na cultura, na economia, mudanças espaciais, avanços tecnológicos, sendo um processo multifacetado e que se desenvolve de modo diferenciado em acordo com cada contexto social. No Brasil o envelhecimento relaciona-se com o processo de urbanização, que, diferente dos países mais desenvolvidos, cujo processo se deu mais lentamente, a mudança de ambientação populacional permitiu o acesso a serviços de saúde, planejamentos familiares, saneamento básico, redução nas taxas de fecundidade e mortalidade (Cunha, 2008).

Diante dessas informações, pode-se compreender a origem e o porquê desse significado bastante difundido que tem o envelhecimento e a aposentadoria, simbolizados socialmente enquanto o fim de um ciclo de vitalidade e força. Bem como a compreensão que se tem do trabalho, onde o ser ativo é aquele que produz dentro de sua atividade laboral, reforçando-se, com isso, a conotação preconceituosa e excludente de que o envelhecimento e a aposentadoria representam o fim do desenvolvimento humano. Por isso, aposentar-se é um momento de tensão e insegurança, mesmo quando vem acompanhado do alívio pelo dever cumprido, após tantos anos de realização da mesma tarefa.

Os primeiros sistemas de aposentadoria foram criados a partir do século XVIII. Até então, essa não era uma temática de interesse coletivo. Apenas quando as primeiras gerações de operários começaram a envelhecer, passou-se a buscar soluções, e é exatamente esse início que confunde, até hoje, velhice com invalidez (Silva, 2008). A aposentadoria surgiu, então, como uma instituição social que mantém os indivíduos após o encerramento de sua carreira profissional, até sua morte, tendo ainda um papel de assegurar certa independência ao aposentado e atender às demandas sociais (Mendes, Gusmão, Faro, & Leite, 2005).

A construção ou reconstrução do Projeto de Vida pode ser vista como uma ferramenta para lidar com essa nova fase da vida dos seres humanos, pois os processos de construção desse Projeto e os seus objetivos, tanto individual quanto coletivamente, configuram-se na busca pela felicidade, realizações e o afastamento do sofrimento, trazendo logicamente as impressões sócio-históricas e culturais do vivido desses indivíduos. Além disso, a imaginação e a criatividade, no processo de organização do Projeto de Vida, trazem consigo o sentimento de liberdade, de vida em movimento e potencial de ação, uma atitude saudável que permite ao indivíduo que se expresse enquanto ser humano (Catão, 2001, 2007; Sawaia, 2009).

Método

O referido estudo sobre significados da aposentadoria e envelhecimento entre policiais rodoviários em fase de aposentadoria está vinculado ao NEIDH - Núcleo de Estudos Psicossociais da Exclusão/Inclusão e Direitos Humanos. Trata-se de um subprojeto do projeto de pesquisa intitulado - SEOP- Serviço de Escuta e de orientação psicossocial: projeto de vida e trabalho, coordenado pela Professora Pesquisadora Maria de Fátima F. Martins Catão -, o qual foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa do Hospital Universitário Lauro Wanderley - Universidade Federal da Paraíba, protocolo n. 068/09.

Este estudo foi realizado na Polícia Rodoviária Federal da Paraíba, na capital João Pessoa. A Polícia Rodoviária Federal foi integrada ao Sistema Nacional de Segurança Pública. No período da pesquisa, anos 2009/2010, a Policia Rodoviária do estado da Paraíba contava com 279 policiais rodoviários na ativa.

Participantes

Foram considerados "em fase de aposentadoria" apenas os Policiais cuja aposentadoria poderia ser efetuada dentro de no máximo 5 anos até aqueles que já poderiam aposentar-se. Estabelecido tal critério, foram identificados 40 Policiais Rodoviários no estado da Paraíba. Todavia, participaram do estudo apenas os profissionais atuantes dentro da cidade de João Pessoa. Com isso, a amostra constitui-se de 13 Policiais Rodoviários Federais. Dos entrevistados, 92,3% são homens, 61,5% estão na faixa etária de 50 a 59 anos , 30,7% de 40 a 49 anos e 7,7% de 60 a 69 anos, 84,6% com educação em nível superior completo e 84,6% com faixa salarial de 6 mil a 9.500,00 reais.

Procedimentos e instrumentos

Foi feito contato com a instituição, via solicitação e proposta de pesquisa a ser realizada, direcionada ao inspetor chefe da Seção de Recursos Humanos. Os dados referentes a cargos, locais de trabalho e especificidades da população foram passados para o pesquisador. Foi designada uma funcionária para acompanhar os trabalhos na instituição e fazer o primeiro contato com os entrevistados. Foi aplicado um questionário sociodemográfico e uma entrevista semiestruturada, constando do seguinte roteiro indutor: Fale sobre a sua história de vida; Como se sente no que faz?; Quando falo envelhecimento, o que lhe vem? Quando falo em aposentadoria, o que lhe vem?; Quando falo sua aposentadoria, o que lhe vem?. As entrevistas foram aplicadas de forma individual, numa sala com garantia de privacidade, com duração variada entre trinta minutos (30 min) até uma hora e meia (1h30min). O termo de consentimento foi entregue ao entrevistado; depois de lido e assinado, a entrevista começava.

Análise dos dados

Optou-se pelo método da análise de conteúdo categorial temática (Catão 2001, Bardin, 1977, Vala, 2003), para capturar significados e inferir novos conhecimentos a partir dos relatos dos sujeitos. Segundo Bardin (1977), o discurso simbólico e polissêmico carrega um sentindo a ser desvendado, cuja análise de conteúdo através de frequências e demarcações de classes e categorias é capaz de fazer surgir. Procurou-se capturar do indivíduo os seus processos psicológicos voluntários, "enquanto configuração intersubjetiva" (Vygotsky, 2001, 2004b), a partir da identificação e análise dos significados configurados sobre o problema do envelhecimento e da aposentadoria, pelos Policiais Rodoviários em processo de aposentadoria.

Os dados foram analisados com o auxílio do software ALCESTE - Analyse de Lexèmes Concurrents dans les Énoncés Simples d'un Texte / Análise Lexical Contextual de um Conjunto de Segmentos de Texto (Reinert, 1990), com o intuito de conhecer e analisar os discursos que circulam acerca do envelhecimento e aposentadoria, entre Policiais Rodoviários Federais em fase de aposentadoria. O ALCESTE desenvolvido por Max Reiner é um software para análises de dados textuais que classifica o texto em função de ocorrências simultâneas do vocabulário. O arquivo textual devidamente formatado é inserido no programa que gera uma análise. Obtêm-se classes constituídas por Unidades de Contextos Elementares (UCEs), a importância de cada palavra dentro de cada classe dada em percentual e o grau de correlação dessas palavras com as outras classes.

Resultados e discussão

A análise realizada aponta duas classes relacionadas entre si, nas quais se configuram os significados do envelhecimento e aposentadoria que circulam entre policiais rodoviários federais em fase de aposentadoria: Exclusão e Adoecimento; Liberdade Humana e Projeto de Vida. As classes identificadas e quantificadas em termos de UCEs (unidade de contexto elementar) podem ser observadas na tabela abaixo. Observa-se que nos significados capturados de envelhecimento e aposentadoria que circulam entre policiais rodoviários em fase de aposentadoria houve o predomínio de UCEs na Classe II - Liberdade Humana e Projeto de Vida, com 69.43%, enquanto que a Classe I - Exclusão e Adoecimento emergiu com 30.57%.

Podem ser identificadas em negrito as Unidades de Contexto Elementar mais representativas para as classes. Na classe Exclusão e Adoecimento:

"temos muitos outros casos de cardiopatia, pressão alta, câncer dos mais diversos, de pele, problemas psicológicos ... a gente recebe muitos casos de pessoas recém aposentadas com problemas cardíacos seriíssimos ou com desenvolvendo câncer, dos mais diversos" (idade: 44; sexo: masculino)

"outros já usam colete pra evitar o peso na cintura, mas mesmo assim é motivo, tenho certeza, de causa de problemas dos meus colegas também." (idade: 55; sexo: masculino)

"Temos também os que morreram, suicidaram-se, porque acontece suicídio por causa dessas coisas, por falta de um acompanhamento psicológico e social do governo" (idade: 62; sexo: masculino)

"O próprio governo não se preocupa com isso, a própria instituição, nosso ministério do planejamento e recursos humanos não se preocupa com as pessoas que adquirem um conhecimento desses, e depois joga na rua normalmente" (idade: 62; sexo: masculino)

"um norte pra você procurar pra não ficar feito cachorro atrás do carro pra quando parar você saber o que fazer, tem que ter uma referência." (idade: 55; sexo: masculino)

"as pessoas que se aposentam o grande pavor das pessoas, o grande problema que elas enfrentam depois da aposentadoria é a ociosidade" (idade: 57; sexo: masculino)

Na classe Liberdade Humana e Projeto de Vida:

"Eu num penso em envelhecimento eu vou sair pra passear, num tem hora pra voltar, então, você num tem idade, você tem idade, você num tem é cabeça de velho" (idade: 50; sexo: masculino)

Não, coisa que eu não penso, é em envelhecer. Penso em saúde ... Se eu pudesse me aposentar hoje, já estava preparando a caminhonete pra pegar a estrada. Não penso em ficar parado hora nenhuma. Uma coisa que eu queria ... Uma profissão, ... pra eu poder ficar viajando. Voltar à igreja, que eu não vou, né. (idade: 45; sexo: masculino)

"Aposentadoria, eu já gostaria de estar aposentado, por conta exatamente pra poder aproveitar mais o que me resta da vida. E eu não vejo a hora pra lhe ser sincero, não é que eu não goste de trabalha, não." (idade: 57; sexo: masculino)

Olha há um certo tempo eu pensei bastante nisso e no meu interior já penso em não parar, quando fala em aposentadoria eu já, imediatamente, apago do meu vocabulário a palavra estagnação e parar, eu penso em movimentar mais ainda tudo que eu faço. (idade: 44; sexo: masculino)

"São setenta e cinco anos trabalhando, não dá pra parar de uma hora pra outra, por isso eu já vou pensando no que vou fazer, ninguém pode parar. Gosto muito de ensinar, da escola pública" (idade: 59; sexo: masculino)

"eu não gosto de ficar parado, aposentadoria pra mim vai ser só uma novidade, deixei de exercer a função de policial rodoviário federal e não vou deixar de ser policial rodoviário federal nunca" (idade: 51; sexo: masculino)

Envelhecimento e aposentadoria enquanto exclusão e adoecimento

Envelhecimento e aposentadoria configuram-se pelo sentimento de exclusão, sofrimento, padecimento, o medo de desenvolver doenças físicas e mentais, refletido pelos policiais como um reflexo do descaso ao longo da história de vida e trabalho no órgão público. Apontam a necessidade de reconhecimento pelos serviços prestados, um profundo sentimento de descaso, raiva, tristeza. Quando pensam na forma como são aposentados, sentem-se usados e jogados fora por parte da referida instituição, sem nenhuma atenção para a reestruturação que precisarão fazer em suas vidas. Buscam-se, na superação desses medos, objetivos e perspectivas para o futuro. Nessa classe os sentimentos negativos a respeito do envelhecimento e aposentadoria colocaram-se como o grande foco . O padecimento devido a transtornos físicos e mentais tanto ligados à atividade quanto ao término dela despontam nas falas, demonstrando a necessidade de um olhar mais atento para esses indivíduos e uma verdadeira preocupação com a sua saúde e bem-estar.

Eles sentem falta da uma preocupação legítima com sua integridade física e mental por parte da instituição, refletem que têm que lidar com vários problemas físicos devido às condições de trabalho, além de muito estresse e problemas emocionais. Muitos cometem suicídio, desenvolvem câncer e muitas outras doenças, lidam com o alcoolismo e desestruturação familiar. São situações alarmantes que denunciam a grande falha no acompanhamento desses trabalhadores. Configura-se aí um verdadeiro descaso para com a situação vivida por cada um deles. Tudo isso vem sendo ignorado pela instituição, mas afeta enormemente seus empregados, que passam a ter medo do futuro.

Nesse aspecto, pode-se entender o valor da (re)construção do projeto de vida e da potencialidade de inventar-se, criar para si novos modos de ver e viver a vida. Alguns dos entrevistados adotam uma postura ativa, planejam e atuam no agora pensando no futuro, dedicam cuidados especiais à saúde, pois veem muitos colegas adoecerem após aposentar-se. Cuidam da alimentação, do físico, da sanidade mental, para que tenham um envelhecimento tranquilo e possam aproveitar de algum modo essa aposentadoria, não necessariamente indesejada, mas temida, por configurar-se como um agravante para o adoecimento. Tudo isso pode ser identificado nas falas a seguir:

Temos muitos outros casos de cardiopatia, pressão alta, câncer dos mais diversos, problemas psicológicos, psiquiátricos, depressivos e outros tipos. Desvio de comportamento, então tem muitos outros casos, ... me preocupa com a saúde dos servidores e com essa preparação pra aposentadoria, será que a pessoa vai ta realmente preparada pra aposentadoria, depois desses trinta anos aqui, e a saúde dele como é que ta?..., o que é que a gente percebe: depois que a pessoa aposenta, que achou que passou trinta anos aqui, bem, ele não adoeceu aqui, cinco anos depois, três anos depois, a gente recebe muitos casos de pessoas recém aposentadas com problemas cardíacos seriíssimos ou desenvolvendo câncer, dos mais diversos, isso é muito comum aqui. (idade: 44; sexo: masculino)

Temos também os que morreram, suicidaram-se, porque acontece suicídio por causa dessas coisas, por falta de um acompanhamento psicológico e social do governo, depois que se suicida, que se descobre que a pessoa usava drogas, que a pessoa era alcoólatra, porque não houve essa preocupação de verificar o porquê de aquele fulano estar faltando tanto ao serviço ... A repartição não pode adentrar a vida privada da pessoa, mas pode aconselhar, pode instruir e orientar. (idade: 62; sexo: masculino)

A falta de reconhecimento especialmente no ato da saída é uma das principais causas do sentimento de rejeição e das doenças temidas e enfrentadas por esses sujeitos. A aposentadoria não é, portanto, a causa dos problemas emocionais e físicos, mas sim a forma displicente como é tratada tanto pela sociedade quanto pela instituição. Principalmente pela instituição, que parece apenas beneficiar-se dos serviços prestados sem valorizar esses trabalhadores. Tudo isso constitui-se na verdadeira causa para o mal-estar que se desencadeia na vida dos aposentados.

Esse é um ponto muito relevante dentro do discurso, pois mostra já uma superação do reconhecimento salarial e do consumismo como únicas recompensas e frutos de felicidade para os indivíduos, trazendo os afetos positivos para um primeiro plano na vida destes. A necessidade de se sentirem queridos, valorizados, úteis e notados aparece como uma necessidade básica e que quando presentes são capazes de impulsionar essas pessoas para continuar suas vidas com muito mais prazer e alegria, porém quando negligenciadas trazem todo tipo de angústia, insegurança e tristeza, como identificado nas falas a seguir:

Vou sair daqui com quarenta anos de serviço, levando uma bagagem impressionante de conhecimento e vou levar isso pra onde? O próprio governo não se preocupa com isso, a própria instituição, nosso ministério do planejamento e recursos humanos não se preocupa com as pessoas que adquirem um conhecimento desses, e depois joga na rua normalmente. (idade: 62; sexo: masculino)

É possível, também, perceber que o pensamento sobre a aposentadoria e o que farão a partir dela já circula entre eles, movimento muito importante para a transformação dessas situações de padecimento em superação. Já se preocupam com o bem-estar durante o exercício da profissão e com o depois. Além disso, pensam sobre a ausência de um projeto para por em prática durante a aposentadoria e buscam dar algum contorno a esse momento, considerando importante essa nova diretriz em suas vidas, para manterem-se vivos e úteis, capazes de transformar o mundo e a si mesmos e afugentar o pavor do isolamento, da rejeição e da morte.

Para os indivíduos a vida e a morte não são sentidos como apenas acontecimentos biológicos. Segundo Vygotsky (2004a) e Chauí (2009), são acontecimentos simbólicos, que possuem e fazem sentido. Por isso, precisam ser construídos em bases de afetos positivos, para que esse envelhecimento e aposentadoria sejam apreciados e saudáveis, sem o significado da morte marcando quase que exclusivamente essa fase do desenvolvimento. Por isso é tão importante que já exista no discurso a busca por aproveitar essa fase, cuidando para que seja mais uma e não apenas a última, que possua objetivos e atividade como todas as outras. Como pode ser visto nas falas abaixo:

As pessoas que se aposentam, o grande problema na aposentadoria é a ociosidade ... adoecem mesmo e morrem rapidinho. Não que eu tenha pavor disso ai, eu sei que o destino de todo mundo é a morte, mas num é essa a situação, a situação é: enquanto a gente tiver vida, enquanto a gente tiver aqui habitando o planeta terra, a gente faça alguma coisa de útil pra deixar pros outros, né, pra fazer positivo, pra fazer diferente do que a gente vinha fazendo, mas a palavra aposentadoria não me amedronta, muito, não. ... mas eu me sinto assim em processo de preparação para a aposentadoria, embora eu gostaria muito de quando aposentar, estar preparado pra absorver, eu não tenho certeza de que estou, hoje, preparado, eu acho que estou, mas não tenho certeza porque não senti isso na pele. (idade: 57; sexo: masculino)

Esse significado de envelhecimento e aposentadoria deixa claro a importância, para esses indivíduos, da qualidade de vida, da valorização de seus trabalhos, de quem são, do desenvolvimento da criatividade e de como a construção de um projeto de vida pode ser um momento estruturante para o ser humano. Além disso, mostram a força dos afetos positivos na construção e no desenvolvimento da vida dos indivíduos, e como podem ser geradores de consequências palpáveis na realidade individual e social.

Envelhecimento e aposentadoria como liberdade humana e projeto de vida

O envelhecimento e aposentadoria configuram-se no desejo de expansão e liberdade humana, dando ao envelhecimento uma conotação de estado de espírito, mesmo que seja uma fase acompanhada da preocupação com a saúde física e mental, porém repleta do desejo de manter a vida em movimento. Mesmo que a realização da atividade de policial seja uma fonte de prazer, há um sentimento de dever cumprido e o anseio de estar aposentado para aproveitar a vida.

A tomada de consciência do medo de mudanças, de ficar parado, sozinho, sentindo-se inativo, a necessidade de estar com o outro para tomar decisões e potencializar-se, reflete a incerteza quanto ao futuro, o que acaba por impulsioná-los para um planejamento de uma vida plena onde possam ir e vir sem limitações de tempo e espaço, onde possam sentir-se livres. Verifica-se nas falas um sentimento de positividade, os sujeitos expressando suas perspectivas de futuro enquanto possibilidade de potência de ação de vida, de liberdade e renovação, (Espinosa, 2005; Sawaia, 2009; Catão, 2007), realizando novas atividades que satisfaçam o desejo de viver na tentativa de reconfigurar, enquanto sujeitos ativos (Vygotsky, 1999, 2004b), a história de vida e o movimento humano no envelhecimento e aposentadoria.

Pensam na aposentadoria como um momento de aproveitar a vida, buscar novos prazeres. O desconhecido configura-se como uma fonte de prazer, o prazer da descoberta do novo, a felicidade de viver para si e também para o outro. O envelhecimento assume um sentido "de estado de espírito" que só afeta aqueles que se deixam afetar, não sendo um impedimento para a vida, contanto que sejam tomados os devidos cuidados ainda na juventude, com a manutenção desses durante a velhice, sendo esta uma fase cheia de vida, sabedoria e experiência de vida. Como se constata nas falas seguintes:

Eu não penso em envelhecimento ... mas o envelhecimento é uma coisa natural, que é o ciclo da vida, nascimento, crescimento, envelhecimento e morte, e o envelhecimento depende de cada pessoa, ... Porque não se deixou levar por aquela fase de eu sou velho, se você se deixa por levar, você se torna velho rápido, ... depende de você, tudo depende da pessoa, então, se você com setenta, oitenta anos, eu vou sair pra passear, não tem hora pra voltar, então, você não tem idade, você não tem é cabeça de velho, pensa que velho é quando começa a botar limitações pra você, se você tenta vencer as barreiras não existe velhice, existe a melhor idade. (idade: 50; sexo: masculino)

A reflexão e o enfrentamento de tais relações pelos policias rodoviários em fase de aposentadoria colocam-se como mediadores poderosos da reconfiguração da identidade e significados do projeto de vida, provocando nos mesmos o compromisso de transformar sua configuração de sujeito no mundo vivido em algo novo. A criatividade passa a ser uma forte ferramenta de superação, pois é na capacidade de imaginar e criar novos significados que os seres humanos podem alcançar liberdade, realização e dignidade (Catão, 2007; Sawaia, 2009; Vygotsky, 2003, 2004a).

Da história de vida e trabalho ao envelhecimento e aposentadoria

A memória traz ao presente acontecimentos passados, é um processo individual e coletivo que permite aos seres humanos reter as experiências do tempo e espaço, além de ser o que possibilita a criação de conexões entre fatos, sentimentos e ideias, e permite que se dê sentido a tudo aquilo que é experiência vivida. Em algumas culturas os mais velhos são as maiores fontes de sabedoria. A cultura ocidental só agora começa a tratar esse momento da vida com mais respeito, enquanto o consumismo e o desenvolvimento tecnológico os percebem como uma categoria importante de consumidores. Nesta pesquisa foi possível verificar uma transformação no pensamento acerca do envelhecimento e aposentadoria. Os entrevistados trazem para as suas atitudes diárias cuidados e comportamentos que refletem uma visão mais ampla e menos preconceituosa sobre essas fases da vida, que nem sempre são sinônimos um do outro e muito menos de limitação da liberdade e da vida.

Por um lado o envelhecimento e a aposentadoria configuram-se psico-sócio-historicamente como um sentimento de exclusão e adoecimento, de perda da identidade e de fim, significados historicamente construídos. No entanto, por outro lado, a necessidade do ser humano em potencializar-se, e buscar a felicidade e renovação, leva o sujeito a adaptar-se às situações e então transformá-las. Assim, um pensamento novo e positivo passa a fazer parte das falas angustiadas, enquanto esperança de vida, de movimento e realização. A princípio parecendo opositoras, ao passo que se fala em exclusão, adoecimento, necessidade de sobrevivência, a aposentadoria se torna a esperança de alcançar novos objetivos, novas experiências, de experimentar a vida sem limitações, ou seja, a possibilidade de viver uma liberdade.

Todos esses fatores constituem um mesmo discurso, que mostra um movimento de expansão humana, de possível tomada de consciência, implicações e afetos, indicando que mesmo diante do padecimento o ser humano é capaz de criar, diante do que os sentimentos negativos, de medo e angústia, que têm constituído significados repletos de afetos negativos sobre envelhecimento e aposentadoria, são confrontados e ultrapassados pela possibilidade de ser feliz, pela busca de uma saída de superação. Ainda que desejem uma atitude da instituição, não mais esperam por isso passivamente. Procuram novos projetos, pensam em beneficiar a sociedade, seus companheiros de trabalhos atuais e aqueles que ocuparão seus lugares no futuro, buscando alternativas de melhoria das condições de trabalho, de saúde e novas atividades para a chegada da aposentadoria.

Trazem aspectos de suas histórias de vida para organizar o presente e construir o futuro, acreditam na força que possuem de luta e dedicação, e por isso se percebem merecedores de reconhecimento social pelos serviços prestados e lutam por isso. A aposentadoria surge como parte desse reconhecimento, mas não como o todo: desejam ser vistos como pessoas que possuem necessidades e sentimentos, que precisam mais do que um salário ou um descanso "merecido". Desejam, sim, a quebra do preconceito e uma preocupação legítima por parte da Policia Rodoviária para auxiliar os indivíduos nesse momento, com uma ação desenvolvida ao longo da vida de trabalho para que eles possam se sentir reconhecidos, amparados, acolhidos e respeitados.

As alternativas são muitas para que o momento da aposentadoria coloque-se com impacto menos doloroso na identidade do indivíduo, na reestruturação de suas vidas e para a superação de pensamentos preconceituosos e retrógrados que ainda circulam na cultura. Foi evidenciada a busca pela superação das dificuldades enfrentadas psico-sócio-historicamente na configuração do envelhecimento e aposentadoria, percebendo a importância de um ambiente de trabalho seguro, confortável e acolhedor para um melhor desenvolvimento durante o período da atividade e posterior a ela. E quanto mais se aproximam desse momento, mais se mostram preocupados com a elaboração de novos objetivos de vida dentro e fora do trabalho.

Nesse contexto reflete-se sobre o sentido da construção do projeto de vida e a possibilidade do ser humano (re)inventar-se e inventar seu futuro, em busca de expansão e liberdade e enfrentamento das desigualdades sociais (Catão, 2001, 2007). Alguns desejam a aposentadoria, percebendo-a como um prêmio para seus sacrifícios, que são feitos desde muito jovens, antes mesmo de integrar-se à Polícia. Mesmo aqueles que sentem prazer na atividade que realizam concebem a aposentadoria como a chance de "viver", desfrutando de um lazer e de um sentimento de liberdade de que o trabalho atual os priva.

As dificuldades emocionais enfrentadas diariamente, a falta de um acompanhamento psicológico tendo em vista o alto grau de estresse, a despreocupação quanto às condições desses indivíduos, apenas agrava a situação. No entanto, os policiais rodoviários vêm ultrapassando esses sentimentos, buscando lutar contra esses aspectos negativos, ao pensar no futuro, cuidando da saúde, fazendo reflexões, buscando alternativas para solucionar os problemas num movimento contínuo de reconfiguração de si.

O processo dialético de configuração de aposentadoria e envelhecimento que circula entre os policiais rodoviários se objetiva na relação contraditória do vivido entre significados de exclusão e adoecimento e os significados de expansão e liberdade humana, expressando uma positividade frente a uma negatividade, envolvendo a história de vida e trabalho, onde a esperança de uma vida plena e livre de obrigações limitadoras dá a esses indivíduos novos sentidos para viver, superar as novas dificuldades que vêm se apresentando e transformar a realidade.

Ainda segundo as falas dos policiais, há um sentimento de que a preocupação por parte da instituição, antecipada a esses fatores, proporcionaria uma atuação, uma aposentadoria e consequentemente um envelhecimento mais prazeroso e saudável. No entanto, não existem ações voltadas para essas questões e nem espaço para que os mesmos possam propor melhorias. Porém é satisfatório perceber que os indivíduos buscam alternativas de mudança e ampliação de suas possibilidades, superando os anseios que os acompanham em mais esse processo da existência humana em busca de criar novos objetivos de vida. Nesse sentido, reflete-se que é de fundamental importância que se reconceitue o momento da aposentadoria e envelhecimento, pelos quais a grande maioria dos trabalhadores passará e que possa ser visto como um momento de transição sim, mas não como o fim.

Referências

Bardin, L. (1977). Análise de conteúdo. Lisboa: Edições 70.

Catão, M. F. (2001). Projeto de vida em construção: na exclusão/inserção social. João Pessoa: Universitária - UFPB.

Catão, M. F. (2005). Exclusão/Inclusão social e Direitos Humanos: delimitação de um conceito e implicações de uma problemática. In G. Tosi (Org.), Direitos Humanos: história, teoria e prática (pp. 321-338). João Pessoa: Universitária, UFPB.

Catão, M. F. (2007). O que pedem as pessoas da vida e o que desejam nela realizar? In E. C. Krutzen & S. Brazão (Orgs.), Psicologia social, clínica e saúde mental (pp. 75-94). João Pessoa: Universitária - UFPB.

Chauí, M. (2009). Convite à filosofia (13ª ed.). São Paulo: Ática.

Costa, F. G. & Campos, P. H. F. (2009). Representação social da velhice, exclusão e práticas institucionais. Revista Eletrônica de Psicologia e Políticas Públicas, 1(1). Acesso em 16 de maio, 2012, em http://www.crp09.org.br/NetManager/documentos/v1n1a6.pdf

Cunha, E. S. (2008). Velhices: múltiplas faces de um processo socialmente construído. Dissertação de Mestrado, Serviço Social, Universidade Federal de Juiz de Fora, Minas Gerais.

Debert, G. G. (2000). O significado da velhice na sociedade brasileira. Acta Paulista de Enfermagem, 12(n. spe.), 147-158.

Espinosa, B. (2005). Ética. Demonstrada à maneira dos geômetras. São Paulo: Martin Claret.

França, L. H. F. P. & Soares, D. H. P. (2009). Preparação para a aposentadoria como parte da educação ao longo da vida. Psicologia: Ciência e Profissão, 29(4), 738-751. Acesso em 16 de maio, 2012, em http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S1414-98932009000400007&script=sci_arttext.

França, L. (2008). O desafio da aposentadoria: o exemplo de executivos do Brasil e da Nova Zelândia. Rio de Janeiro: Rocco.

Lima, M. B. F., Soares, D. H. P., & Luna, I. N. (2011, 15-17 de abril). Aposentadoria e tempo livre: Estudo com policiais federais [Resumo]. Anais do I Congresso Brasileiro de Orientação para Aposentadorias nas Organizações, Florianópolis. Acesso em 16 de maio, 2012, em http://escolhaprofissional.files.wordpress.com/2011/01/anais_i_cong_bras_de_orientacao_para_aposentadoria_nas_organizacoes.pdf

Mendes, M. R. S. S. B., Gusmão, J. L., Faro, A. C. M., & Leite, R. C. B. O. (2005). A situação social do idoso no Brasil: uma breve consideração. Acta Paulista de Enfermagem, 18(4), 422-426.

Organizacion Mundial de La Salud. (1984). Aplicaciones de la epidemiologia al estudio de los ancianos. Informe de un Grupo Científico de la OMS sobre la Epidemiología del Envejecimiento. Ginebra: Autor.

Reinert, M. (1990). Alceste: Une méthodologie d'analyse des données textuelles et une application. Bulletin de Méthodologie Sociologique, 26(1), 24-54.

Sawaia, B. (Org.). (1999). As artimanhas da exclusão: uma análise ético-psicossocial da desigualdade. Petrópolis, RJ: Vozes.

Sawaia, B. (2009). Psicologia e desigualdade social: uma reflexão sobre liberdade e transformação social. Psicologia & Sociedade, 21(3), 364-370.

Silva, L. R. F. (2008). Da velhice à terceira idade: o percurso histórico das identidades atreladas ao processo de envelhecimento. História, Ciências, Saúde - Manguinhos. Acesso em 19 de outubro, 2009, em http://ref.scielo.org/qnh2nb

Souza, E. R. & Minayo, M. C. S. (2005). Policial, risco como profissão: morbimortalidade vinculada ao trabalho. Ciência e Saúde Coletiva, 10(4), 917-928.

Vala , J. (2003). Análise de conteúdo. In A. S. Silva & J. M. Pinto (Orgs.), Metodologia em Ciências Sociais (pp. 101-128). Porto: Apontamentos.

Vygotsky, L. S. (1999). A formação social da mente. São Paulo: Martins Fontes.

Vygotsky, L. S. (2001). A construção do pensamento e da linguagem. São Paulo: Martins Fontes. (Original publicado em 1934)

Vygotsky, L. S. (2003). La imaginación y el arte en la infancia. Madrid: Akal.

Vygotsky, L. S. (2004a). Teoria de las emociones. Estúdio histórico-psicológico. Madrid: Akal. (Original publicado em 1932)

Vygotsky, L. S. (2004b). Teoria e método em psicologia. São Paulo: Martins Fontes.

Wanjman, S., Oliveira, A. M., & Oliveira, E. L. (2004). Os idosos no mercado de trabalho: tendências e conseqüências. In A. A. Camarano (Org.), Os novos idosos brasileiros: muito além dos 60? (pp. 453-479). Rio de Janeiro: IPEA. Acesso em 16 de maio, 2012, em http://www.ipea.gov.br/sites/000/2/livros/idososalem60/Arq_23_Cap_14.pdf

WHO, World Health Organization. (2005). Envelhecimento ativo: uma política de saúde. Brasília: Organização Pan-Americana da Saúde. Acesso em 16 de maio, 2012, em http://www.prosaude.org/publicacoes/diversos/envelhecimento_ativo.pdf

Zanelli, J. C., Silva, N., & Soares, D. H. P. (2010). Orientação para aposentadoria nas organizações de trabalho: construção de projetos para o pós-carreira. Porto Alegre: Artmed.

Recebido em: 04/02/2011

Revisão em: 04/05/2012

Aceite em: 07/07/2012

Yana Thamires Mendes Felix é graduada em Psicologia pela UFPB e estudante do programa de mestrado em Psicologia Social da Universidade Federal da Paraíba. Endereço: Rua José Serrano Navarro, 174. Bairro: Castelo Branco III, João Pessoa/PB, Brasil. CEP 58050-580. Email: yanathamires@ig.com.br Maria de Fátima Fernandes Martins Catão é Pós-Doutora em Psicologia Social, Professora Associado do Departamento de Psicologia da Universidade Federal da Paraíba. Endereço: Rua Coronel Miguel Satyro, 150, apto. 402. Ed. Acapulco. Cabo Branco, João Pessoa/PB, Brasil. CEP 58045-902. Email: fathimacatao@uol.com.br

  • Bardin, L. (1977). Análise de conteúdo Lisboa: Edições 70.
  • Catão, M. F. (2001). Projeto de vida em construção: na exclusão/inserção social João Pessoa: Universitária - UFPB.
  • Catão, M. F. (2005). Exclusão/Inclusão social e Direitos Humanos: delimitação de um conceito e implicações de uma problemática. In G. Tosi (Org.), Direitos Humanos: história, teoria e prática (pp. 321-338). João Pessoa: Universitária, UFPB.
  • Catão, M. F. (2007). O que pedem as pessoas da vida e o que desejam nela realizar? In E. C. Krutzen & S. Brazão (Orgs.), Psicologia social, clínica e saúde mental (pp. 75-94). João Pessoa: Universitária - UFPB.
  • Chauí, M. (2009). Convite à filosofia (13ª ed.). São Paulo: Ática.
  • Costa, F. G. & Campos, P. H. F. (2009). Representação social da velhice, exclusão e práticas institucionais. Revista Eletrônica de Psicologia e Políticas Públicas, 1(1). Acesso em 16 de maio, 2012, em http://www.crp09.org.br/NetManager/documentos/v1n1a6.pdf
  • Cunha, E. S. (2008). Velhices: múltiplas faces de um processo socialmente construído Dissertação de Mestrado, Serviço Social, Universidade Federal de Juiz de Fora, Minas Gerais.
  • Debert, G. G. (2000). O significado da velhice na sociedade brasileira. Acta Paulista de Enfermagem, 12(n. spe.), 147-158.
  • Espinosa, B. (2005). Ética. Demonstrada à maneira dos geômetras São Paulo: Martin Claret.
  • França, L. H. F. P. & Soares, D. H. P. (2009). Preparação para a aposentadoria como parte da educação ao longo da vida. Psicologia: Ciência e Profissão, 29(4), 738-751. Acesso em 16 de maio, 2012, em http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S1414-98932009000400007&script=sci_arttext
  • França, L. (2008). O desafio da aposentadoria: o exemplo de executivos do Brasil e da Nova Zelândia Rio de Janeiro: Rocco.
  • Lima, M. B. F., Soares, D. H. P., & Luna, I. N. (2011, 15-17 de abril). Aposentadoria e tempo livre: Estudo com policiais federais [Resumo]. Anais do I Congresso Brasileiro de Orientação para Aposentadorias nas Organizações, Florianópolis. Acesso em 16 de maio, 2012, em http://escolhaprofissional.files.wordpress.com/2011/01/anais_i_cong_bras_de_orientacao_para_aposentadoria_nas_organizacoes.pdf
  • Mendes, M. R. S. S. B., Gusmão, J. L., Faro, A. C. M., & Leite, R. C. B. O. (2005). A situação social do idoso no Brasil: uma breve consideração. Acta Paulista de Enfermagem, 18(4), 422-426.
  • Organizacion Mundial de La Salud. (1984). Aplicaciones de la epidemiologia al estudio de los ancianos. Informe de un Grupo Científico de la OMS sobre la Epidemiología del Envejecimiento. Ginebra: Autor.
  • Reinert, M. (1990). Alceste: Une méthodologie d'analyse des données textuelles et une application. Bulletin de Méthodologie Sociologique, 26(1), 24-54.
  • Sawaia, B. (2009). Psicologia e desigualdade social: uma reflexão sobre liberdade e transformação social. Psicologia & Sociedade, 21(3), 364-370.
  • Silva, L. R. F. (2008). Da velhice à terceira idade: o percurso histórico das identidades atreladas ao processo de envelhecimento. História, Ciências, Saúde - Manguinhos.  Acesso em 19 de outubro, 2009, em http://ref.scielo.org/qnh2nb
  • Souza, E. R. & Minayo, M. C. S. (2005). Policial, risco como profissão: morbimortalidade vinculada ao trabalho. Ciência e Saúde Coletiva, 10(4), 917-928.
  • Vala , J.  (2003). Análise de conteúdo. In A. S. Silva & J. M. Pinto (Orgs.), Metodologia em Ciências Sociais (pp. 101-128). Porto: Apontamentos.
  • Vygotsky, L. S. (1999). A formação social da mente. São Paulo: Martins Fontes.
  • Vygotsky, L. S. (2001). A construção do pensamento e da linguagem São Paulo: Martins Fontes. (Original publicado em 1934)
  • Vygotsky, L. S. (2003). La imaginación y el arte en la infancia. Madrid: Akal.
  • Vygotsky, L. S. (2004a). Teoria de las emociones. Estúdio histórico-psicológico. Madrid: Akal. (Original publicado em 1932)
  • Vygotsky, L. S. (2004b). Teoria e método em psicologia São Paulo: Martins Fontes.
  • Wanjman, S., Oliveira, A. M., & Oliveira, E. L. (2004). Os idosos no mercado de trabalho: tendências e conseqüências. In A. A. Camarano (Org.), Os novos idosos brasileiros: muito além dos 60? (pp. 453-479). Rio de Janeiro: IPEA. Acesso em 16 de maio, 2012, em http://www.ipea.gov.br/sites/000/2/livros/idososalem60/Arq_23_Cap_14.pdf
  • WHO, World Health Organization. (2005). Envelhecimento ativo: uma política de saúde Brasília: Organização Pan-Americana da Saúde. Acesso em 16 de maio, 2012, em http://www.prosaude.org/publicacoes/diversos/envelhecimento_ativo.pdf
  • Zanelli, J. C., Silva, N., & Soares, D. H. P. (2010). Orientação para aposentadoria nas organizações de trabalho: construção de projetos para o pós-carreira Porto Alegre: Artmed.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    20 Ago 2013
  • Data do Fascículo
    2013

Histórico

  • Recebido
    04 Fev 2011
  • Aceito
    07 Jul 2012
  • Revisado
    04 Maio 2012
Associação Brasileira de Psicologia Social Programa de Pós-graduação em Psicologia, Universidade Federal de Pernambuco, Centro de Filosofia e Ciências Humanas (CFCH), Av. da Arquitetura S/N - 7º Andar - Cidade Universitária, Recife - PE - CEP: 50740-550 - Belo Horizonte - MG - Brazil
E-mail: revistapsisoc@gmail.com