Open-access Dependência emocional: modelo explicativo da personalidade, autoestima e medo de ficar solteiro

Emotional dependence: explanatory model of personality, self-esteem and fear of being single

Dependencia emocional: modelo explicativo de la personalidad, la autoestima y el miedo a la solteira

Resumo

Este estudo objetivou identificar a relação da dependência emocional, com medo de ficar solteiro e os cinco grandes fatores de personalidade (Big Five). Contou-se com duas amostras, uma com 240 pessoas, 59,6% do sexo feminino e com idades variando entre 18 e 43. A amostra 2 foi composta por 241 pessoas, variando de 18 a 38 anos, maioria do sexo feminino (56%). Os instrumentos utilizados foram Cuestionario de dependência emocional, Inventário dos Cinco Grandes Fatores, Escala Medo de Ficar Solteiro e Questionário Sociodemográfico. Após realizar as correlações R de Pearson, foram empregadas regressões múltiplas e análise de mediação, através da extensão PROCESS. Os resultados apresentaram relações estatisticamente significativas entre o traço de personalidade neuroticismo predizendo o comportamento de dependência emocional, ainda que autoestima e o medo de ficar solteiro tenham papel mediador na relação. Esta investigação poderá ser importante para ações de prevenção frente a relacionamentos amorosos e dependência emocional.

Palavras-chave:
Dependência emocional; Personalidade; Medo de ficar solteiro; Autoestima

Abstract

This study aimed to identify the relationship between emotional dependence, fear of being single and the Big Five personality factors. There were two samples, one with 240 people, 59.6% female and with ages ranging between 18 and 43. Sample 2 was made up of 241 people, ranging from 18 to 38 years old, the majority female (56 %). The instruments used were Emotional Dependence Questionnaire, Big Five Factors Inventory, Fear of Being Single Scale and Sociodemographic Questionnaire. After performing Pearson’s R correlations, multiple regressions and mediation analysis were used, using the PROCESS extension. The results showed statistically significant relationships between the personality trait neuroticism predicting emotional dependence behavior, although self-esteem and the fear of being single play a mediating role in the relationship. This investigation could be important for prevention actions against romantic relationships and emotional dependence.

Keywords:
Emotional dependence; Big five; Fear of being single; Self esteem

Resumen

Este estudio tuvo como objetivo identificar la relación entre la dependencia emocional, el miedo a estar soltero y los cinco grandes factores de personalidad. Se realizaron dos muestras, una con 240 personas, 59,6% mujeres y con edades comprendidas entre 18 y 43 años. La muestra 2 estuvo compuesta por 241 personas, con edades comprendidas entre 18 y 38 años, la mayoría mujeres (56%). Los instrumentos utilizados fueron el Cuestionario de Dependencia Emocional, el Inventario de los Cinco Grandes Factores, la Escala de Miedo a Ser Soltero y el Cuestionario Sociodemográfico. Después de realizar correlaciones R de Pearson, se utilizaron regresiones múltiples y análisis de mediación, utilizando la extensión PROCESS. Los resultados mostraron relaciones estadísticamente significativas entre el rasgo de personalidad neuroticismo que predice la conducta de dependencia emocional, aunque la autoestima y el miedo a la soltería juegan un papel mediador en la relación. Esta investigación podría ser importante para acciones de prevención contra las relaciones románticas y la dependencia emocional.

Palabras clave:
Dependencia emocional; Gran Cinco; Miedo a estar soltero; Autoestima

Introdução

Observa-se que o ser humano está constantemente imerso em relações sociais, e isto a nível de desenvolvimento humano, especificamente psicossocial, torna-se fundamental para o processo de construção da identidade e sociabilidade (Moral-Jiménez & Gonzáles-Sáez, 2020). Entretanto, se estas relações sociais se desenvolvem excessivamente fugindo dos limites saudáveis, poderá causar vínculos considerados patológicos e desencadear vulnerabilidades aos indivíduos envolvidos (Urbiola et al., 2017).

Jovens que estão imersos em relações sociais marcadas pela Dependência Emocional apresentam perfil cognitivo com estratégias de enfrentamento do tipo negação (Moral-Jiménez & Gonzáles-Sáez, 2020) e atribuem menor responsabilidade ao agressor quando comparado as suas próprias ações (Garrido-Macías et al., 2020). Certamente, jovens envolvidos em um relacionamento abusivo são mais dependentes e apresentam maior internalização disfuncional de mecanismos de culpa e justificação, em casos mais graves podem ocorrer episódios de violência sexual (Garrido-Macías et al., 2020). Ademais, a dependência emocional, quando manifestada dentro dos limites adequados, é considerada como um agente de promoção a saúde mental (Lemos et al., 2019).

Dependência emocional (DE), nesse sentido, pode ser compreendida como um transtorno mental adicto, característico de um padrão persistente de necessidades emocionais não satisfeitas, marcada por submissão, quer seja ocasionado por um apego patológico e/ou medo intenso de ser abandonado (Castelló, 2005; Moral Jiménez & Ruiz, 2008). Bornstein (2012) afirma que ainda que o sujeito dependente emocional possua recursos para ser autossuficiente, existe a possibilidade de este depender do outro para orientação, proteção e apoio afetivo.

Segundo o mesmo autor, a dependência em relacionamentos é constituída por quatro fatores principais: (1) Motivacional, diz respeito da necessidade que o sujeito tem em ser orientado, ajudado, apoiado e aprovado por outra pessoa; (2) Cognitivo, trata-se de uma avaliação negativa que o sujeito faz sobre si mesmo, como impotente e incapaz, e que por outro lado, possuem crenças que outras pessoas são mais competentes e confiantes do que ele mesmo; (3) Afetiva, refere-se a propensão em ficar ansioso quando exigido autonomia, especialmente, frente a situações avaliativas e (4) Fatores Comportamentais, que se refere a submissão nos relacionamentos e a tendência em buscar ajuda de outra pessoa (Bornstein, 2011).

Dentro desse universo nota-se que o neuroticismo, compreendido como um traço de personalidade inato ao ser humano, teoricamente, pode predizer comportamentos de DE, uma vez que pessoas com essa condição são frequentemente desequilibradas emocionalmente, submissas, possuem autoestima baixa, são ansiosos, possuem medo da solidão e estão propensos a experienciar labilidade emocional com mais frequência (Bornstein, 2012; Hernández, 2024). O traço neuroticismo descreve principalmente uma predisposição para afetos negativos, a exemplo, ansiedade, tristeza e raiva, além de ser fator de risco para o desenvolvimento de uma variedade de transtornos psiquiátricos (Dukalski et al., 2019).

Segundo o autor, pessoas que pontuam alto em neuroticismo podem ser caracterizadas como excitáveis ou facilmente perturbados, tendo temperamentos mais sensíveis a estímulos negativos, tornando-os mais suscetíveis ao medo e à tristeza. Além disso, o neuroticismo pode predizer tendências comportamentais (Wiggins, 2003), apresentando correlações robustas com vício ligado ao uso excessivo de álcool (Chinneck et al., 2018) e observa-se que adolescentes com níveis mais elevados de neuroticismo experimentaram níveis mais baixos de afeto positivo, níveis mais elevados de afeto negativo e maior variabilidade de afeto positivo e negativo (Wieczorek et al., 2023).

Tendo em vista o exposto, o modelo dos cinco grandes fatores da personalidade (Big Five) é amplamente utilizado para teorizar e avaliar a personalidade (Almlund et al., 2011). Assim, personalidade de acordo com a teoria do Big Five, pode ser entendida como padrões de cognições, emoções e comportamentos, que explicam como as pessoas pensam, sentem e agem no mundo, são inatos a condição humana e geralmente estável ao longo da vida em diferentes contextos (Allport, 1961; McCrae & Costa, 2003).

O Big Five é composto por 5 grandes dimensões que Andrade (2008) operacionalizou e classificou em: (1) Abertura, do inglês Opennes to Experience Intellect, (2) Conscienciocidade, ou Conscientiousness, (3) Extroversão ou extraversion, (4) Amabilidade ou Agreeableness, e por fim o traço investigado na pesquisa o (5) Neuroticismo ou Neuroticism, que pode ser também classificado como “instabilidade emocional”; ou seja, pessoas que pontuam alto nesse traço tendem a ser hipersensíveis as emoções e sentimentos, são desequilibradas emocionalmente, estão mais propensas ao efeito do estresse e irritabilidade, experimentam em maior grau a ansiedade, tristeza e autoconsciência comparado aqueles que pontuam baixo na dimensão, que são calmos, tranquilos, pouco emotivo, seguro de si e autoconfiante.

Desta forma, o neuroticismo é um fator de vulnerabilidade estabelecido para o desenvolvimento de ansiedade, depressão e pensamento ruminativo (Chinneck et al., 2018; Nunes et al., 2023). Acredita-se que as interações sociais podem causar ansiedade para aqueles que apresentam traços de neuroticismo devido à sua sensibilidade temperamental, medo de críticas, isolamento social, timidez, facilidade de constrangimento e medo de rejeição (Saeed Abbasi, 2017; Saeed Abbasi et al., 2018).

Pessoas neuróticas correm maior risco de experimentar baixa autoestima, e apresentam escassez de recursos para colocar em práticas em situações sociais (Ready et al., 2012). Estudos indicam que indivíduos envolvidos em relacionamentos amorosos quando apresentam níveis de autoestima baixa são hipersensíveis aos riscos de rejeição e estão propensos a desenvolverem maiores sentimentos de angústia e medo, além disso, essas pessoas se ferem emocionalmente com maior facilidade do que pessoas com níveis elevados de autoestima (Campbell et al., 2005; Overall et al., 2014), do contrário, quando pessoas apresentam níveis altos de autoestima, geralmente possuem satisfação com seus relacionamentos interpessoais (Erol & Orth, 2016).

Sendo assim, autoestima é definida como um fenômeno psicológico que leva as pessoas a fazerem uma avaliação positiva ou negativa de si mesmo, indicando o quanto elas são capazes de realizar algo ou são merecedoras de alguma coisa. Estas avaliações são fundamentadas em crenças pessoais, percepções de si quanto a inteligência, habilidades, expectativas futuras, entre outros (Hutz & Zanon, 2011; Rosenberg, 1965). Em vista disso, a autoestima é considerada como um indicador indispensável na manutenção da saúde mental, ao passo que está diretamente ligada as condições afetivas, psicológicas e sociais, interferindo na qualidade de vida e bem-estar das pessoas (Schultheisz & Aprile, 2013). O exposto reflete a medida em que os indivíduos se sentem valorizados, cuidados e que são importantes para os outros, podendo servir como recurso para lidar com o estresse, contudo, pode ser suscetível a influências sociais como apoio e tensão experienciados após um fim de relacionamento (Garrido-Macías et al., 2020).

A maioria das pessoas experimentam algum grau de dificuldade em lidar com o fim de um relacionamento romântico, mas o rompimento pode ser particularmente difícil de lidar para aqueles que sentem ansiedade em possuir o status de ser solteiro (Spielman et al., 2016). O medo de ficar solteiro é considerado um fenômeno psicológico novo, sendo derivado do termo em inglês Fear Of Being Single (FOBS). Spielmann et al. (2013) conceitua esse construto psicológico como uma reação negativa caracterizada por preocupação, ansiedade e angústia de não estar, permanecer ou ficar sem o status de um relacionamento amoroso.

A angústia característica do medo de ficar solteiro pode provocar o sentimento de que qualquer relacionamento é melhor do que nenhum relacionamento, além disso, homens e mulheres que possuem o medo de ficar solteiro mais acentuado estão propensos a se envolverem em relacionamentos menos responsivos e a valorizarem mais atração física (Spielmann et al., 2020). No entanto, algumas pesquisas anteriores descobriram que as mulheres apresentaram maior medo de ficarem solteiras (Adamczyk, 2018; Adamczyk et al., 2021; Fonseca et al., 2017).

O medo de estar solteiro parece estar associado a consequências negativas em relacionamentos românticos, pois, aqueles com maior medo de serem solteiros tendem a experimentar maior DE de seu parceiro e são menos propensos a iniciar um rompimento, mesmo quando relativamente insatisfeitos (Spielmann et al., 2013). Em outras palavras, eles estão mais propícios a permanecer em relacionamentos infelizes. Nota-se que o medo de ficar solteiro pode explicar a permanência de pessoas em relações que provoquem danos psicológicos, físicos e sociais, como nos relacionamentos de DE (Lemos et al., 2019).

Evidencia-se que pessoas com essa característica tendem a serem inseguras, ansiosos e aceitam a condição de relacionamento prejudiciais, mesmo sendo maléfica para a própria saúde. Além disso, uma pesquisa realizada por Apostolou et al. (2024), observou que os participantes voluntariamente solteiros experimentaram menos medo de ficar solteiros em comparação com outras categorias de solteiros e indivíduos em relacionamentos íntimos. Ademais, maior autoestima foi associada a menor medo de ser solteiro.

Estudos indicam que a DE é uma das variáveis psicológicas que está fortemente associada em práticas de violência entre casais, além disso, características da personalidade em algumas mulheres contribuem para o envolvimento de relacionamentos abusivos e violência doméstica, especialmente quem possui características do traço de personalidade esquizóide, borderline, dependente, e aspectos comportamentais relacionados a depressão, desesperança, estresse pós-traumático e comportamentos autodestrutivos (Arreola et al., 2015; Bornsteim, 2012; Sá & Werlag, 2013). Estas mesmas características da personalidade apresentam-se também em homens e mulheres, com níveis altos de instabilidade emocional, ou seja, indivíduos geralmente inseguros, nervosos, deprimidos e mais vulneráveis (Mcrae & Costa, 2003).

O presente estudo se justifica pela importância do construto, entendido como um padrão de necessidades emocionais não satisfeitas que uma pessoa sente em relação ao seu parceiro. Os resultados obtidos poderão tornar conhecidos possíveis variáveis que estão relacionadas ao fenômeno da DE, somando ao arcabouço científico para a prática clínica baseada em evidências, sobretudo considerando pessoas que estejam enfrentando problemas de ordem psicológica em relacionamentos amorosos, além de contribuir para a criação de estratégias de enfrentamento a serem utilizadas nos relacionamentos românticos, promovendo assim saúde e bem-estar.

Além do traço de neuroticismo prever o comportamento de pessoas com aspectos de DE, propõe-se que os construtos autoestima e medo de ficar solteiro se relacionam com DE, sendo mediadoras na relação entre o traço de personalidade neuroticismo e DE. Visto o exposto, levanta-se duas questões problemas: como ocorre a relação entre DE e personalidade, medo de ficar solteiro e autoestima? Qual o perfil dos indivíduos dependentes emocionalmente?

De posse dessas prerrogativas, o presente estudo tem como objetivo avaliar a DE e seus correlatos, no intuito de identificar o padrão de relação da DE com medo de ficar solteiro e os cinco grandes fatores de personalidade (Big Five).

Método

Participantes

O delineamento do estudo se caracteriza como ex-post-facto, com ênfase quantitativa. Para a realização, contou-se com a participação de duas amostras, ambas recrutadas por conveniência, na capital e demais cidades do interior do estado do Piauí. Portanto, não foi realizada amostragem probabilística, mas com critérios de inclusão: ter 18 anos ou mais, estar em um ou já ter passado por algum relacionamento amoroso, podendo ser de ambos os sexos biológicos e que atestasse sua participação na pesquisa; os quais que vão ao encontro dos objetivos e análises propostas, que são descritas a seguir.

A primeira (amostra 1) contou com 240 pessoas. Destes, 59,6% eram do sexo feminino, 82,80% não casados (solteiros ou namorando) e com idade média de 20,20 anos (DP = 2,34), variando entre 18 e 43. Ademais, a maioria (69,2%) possuía ensino superior incompleto, e como profissão relataram administração (4,7%), professores (3,6%) e etc.

Já os participantes da amostra 2, composta por 241 pessoas, variando de 18 a 38anos (M = 20,43; DP = 2,09), a maioria do sexo feminino (56%), não casados (solteiros ou não namorando, 95,5%) e com ensino superior incompleto (83,8%), e como profissão relataram atendentes comerciais (7,3%), enfermeiros (5,5%) e etc.

Instrumentos

Cuestionario de dependência emocional (CDE; Hoyos & Arredondo, 2006). Os participantes indicaram nos 23 itens a frequência com que afirmações descrevem a si mesmo com respeito a seus relacionamentos amorosos. Para tanto, leva-se em consideração as características psicológicas em função das concepções que a pessoa tem de si mesmo e dos outros, além de estímulos que são particularmente ameaçadores e as estratégias interpessoais. Para respondê-lo foi utilizada uma escala tipo Likert, com seis pontos, variando de 1 (completamente falso em mim) a 6 (descreve-me perfeitamente). Neste estudo foi utilizada a versão adaptada para o Brasil por Fonsêca et al., (2020), com alfas de Cronbanch igual a 0,93.

Inventário dos Cinco Grandes Fatores (ICGF): composto por 44 itens, foi elaborado por John et al. (1991) e adaptado para o Brasil (Andrade, 2008). Nesta oportunidade, utiliza-se uma versão reduzida de 20 itens, escolhidos, a partir do estudo de Schimit el al. (2007), que representam os quatro itens de cada traço de personalidade com maiores cargas fatoriais. Seus fatores apresentam alfas variando de 0,68 (Abertura e Conscienciosidade) a 0,76 (Extroversão). Os itens foram respondidos em uma escala Likert de cinco pontos, variando desde (1) “discordo totalmente” a (5) “concordo totalmente”, na qual os participantes indicaram como se percebem (Eu me vejo como alguém que...).

Escala Medo de Ficar Solteiro (Spielmann et al., 2013). Escala desenvolvida para explorar o receio das pessoas em estarem sem um(a) companheiro(a) amoroso(a). O instrumento é composto por seis itens (e.g., 03. Sinto-me ansioso quando penso sobre ficar solteiro para sempre; 06. Quanto mais envelheço, fica ainda mais difícil encontrar alguém) e respondida em uma escala de cinco pontos, variando entre 1 “Nem um pouco verdadeiro” e 5 “Totalmente verdadeiro”. Neste estudo utilizou-se a versão adaptada para o Brasil por Fonsêca et al., (2017), com alfas de Cronbanch igual a 0,87.

Questionário sociodemográfico: composto por questões acerca da idade, sexo, estado civil, entre outra que serviram para a caracterização dos participantes.

Para a amostra 02, foi acrescida a Rosenberg Self-Esteem Scale, composta por dez itens, com uma estrutura unifatorial relacionada a um conjunto de sentimentos de autoestima e autoaceitação que avalia a autoestima global. Os itens foram respondidos em uma escala tipo Likert de quatro pontos variando entre “concordo totalmente” e “discordo totalmente”. Exemplos: “Eu sinto que sou uma pessoa de valor, no mínimo, tanto quanto as outras pessoas”; “No conjunto, eu estou satisfeito comigo”). Neste estudo utilizou-se a versão validada por Hutz e Zanon (2011).

Procedimentos

O projeto foi submetido e aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa, seguindo as normas da resolução do Conselho Nacional de Saúde 466/12 e 510/16. Com isso, contou-se com a colaboração de quatro pesquisadores, previamente treinados, que coletaram presencialmente os dados ao abordarem os participantes em locais públicos de muita movimentação (e.g. cetros comerciais, praças). Adicionalmente, disponibilizou-se na internet um questionário on-line na plataforma Google Docs, com contatos nas redes sociais e e-mails de potenciais respondentes. Na ocasião, os voluntários tomaram conhecimento do objetivo geral da pesquisa, o anonimato e o direito de desistência, sem ônus. O risco restringia-se ao possível constrangimento ao ler os itens. Por meio da assinatura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido, admitiu-se o consentimento da participação e levaram, em média, 20 minutos para concluir todas as respostas de maneira individual.

Análise dos dados

Com o SPSS (versão 26) foi possível calcular as estatísticas descritivas e de dispersão (frequências, média e desvio padrão) para caracterizar os participantes, além de correlações r de Pearson para verificar a relação das variáveis com DE. Em seguida, foram empregadas regressões múltiplas e análise de mediação, por meio da extensão PROCESS, que permitiram testar um modelo com os traços de personalidade como variáveis independentes, o escore total de DE como variável dependente e medo de ficar solteiro, além de autoestima como variáveis mediadoras.

Resultados

A partir do objetivo de identificar o padrão de relação da DE, com medo de ficar solteiro e os fatores de personalidade, foi realizado correlações r de Pearson na amostra 01. Sendo possível observar na Tabela 1, descrita a seguir, que a DE apresentou correlações negativas e estatisticamente significativas (p < 0,05) com os fatores amabilidade (r = -0,18) e conscienciocidade (r = -0,13), e positiva com neuroticismo (r = 0,37) e medo de ficar solteiro (r = 0,48).

Tabela 1
Correlatos entre dependência emocional, traços de personalidade e medo de ficar solteiro

Em seguida, objetivando avançar acerca de variáveis preditivas da DE, para tanto, realizou-se uma regressão linear múltipla, com esses traços de personalidade e medo de ficar solteiro como variáveis independentes. Na Tabela 2 é possível observar um modelo estatisticamente significativo com a DE no passo 1, somente com os traços de personalidade [R² ajustado = 0,14; F (3;236) = 12,70; p < 0,001; neuroticismo (β = 0,35, p < 0,001); amabilidade (β = -0,03, p >0 0,05); conscienciosidade (β = -0,05, p >0 0,05)]; no passo 2, com o acréscimo de medo de ficar solteiro a porcentagem explicada salta para 31% e o modelo permanece estatisticamente significativo [R² ajustado = 0,31; F (4;235) = 25,91; p < 0,001; neuroticismo (β = 0,23, p < 0,001); amabilidade (β = -0,11, p >0 0,05); conscienciosidade (β = 0,01, p >0 0,05); medo de ficar solteiro (β = 0,43, p < 0,001].

Tabela 2
Análise de regressão hierárquica dos preditores da dependência emocional

A partir disso, pode-se, com a amostra 02, testar o modelo de mediação com acréscimo da variável autoestima. Após o desenho e a testagem do modelo por meio de modelagem por equações estruturais representado na Figura 1, com o método de Bootstrap com 5000 re-amostragens, é possível observar que todos os efeitos indiretos foram estatisticamente significativos (p < 0,05). Neuroticismo, mediado por autoestima, explicou DE, Neuroticismo mediado por medo de ficar solteiro explicou DE e Neuroticismo mediado por autoestima e medo de ficar solteiro explicou a DE. Os resultados também sinalizaram que a mediação múltipla é parcial, uma vez que o efeito direto de neuroticismo com DE permanece estatisticamente significativo, com a mediação de autoestima e medo de ficar solteiro.

Figura 1
Modelo explicativo da dependência emocional

Discussão

O presente estudo concentrou-se em compreender o fenômeno DE e avaliar em que medida traços de personalidade, medo de ficar solteiro e autoestima influenciam neste comportamento. Isto ocorreu a partir da testagem da hipótese de um modelo de mediação proposto teórico e empiricamente na presente pesquisa, tendo como variável antecedente, o neuroticismo, a variável consequente, DE e as variáveis mediadoras, autoestima e medo de ficar solteiro.

Visto as consequências prejudiciais da DE em relacionamentos amorosos (Echeburúa et al., 2022), tornar-se evidente a importância em compreender quais variáveis psicológicas estão associadas de forma positiva e ou negativa a esse fenômeno, com o objetivo de identificar fatores protetivos e ou de risco que minimizem danos provocados pela DE em relacionamentos amorosos.

Os resultados encontrados corroboraram os objetivos traçados na pesquisa, uma vez que observou-se relações estatisticamente significativas entre o traço de personalidade neuroticismo predizendo o comportamento de DE, ainda que autoestima e o medo de ficar solteiro desempenhem papel mediador na relação, ou seja, por mais que pessoas com características de autoestima alta e baixa pontuação em medo de ficar solteiro, o neuroticismo exerce forte influência para o desenvolvimento de indivíduos emocionalmente dependentes.

Os resultados encontrados nesta pesquisa aproximam-se aos achados de outras na literatura, por exemplo, pessoas que são dependentes emocionalmente apresentam medo de serem abandonados ou de sentirem-se sozinhos (Sirvent & Moral, 2018; Apostolou et al., 2024), apoiando o efeito negativo de medo de ficar solteiro sobre DE. De tal modo, Urbiolo et al. (2017) demonstrou em seu estudo que autoestima se relacionou negativamente com DE, sendo este também preditor de ansiedade e depressão.

Outrossim, através da pesquisa de Hernández (2024), pode-se observar correlação estatisticamente significativa entre as dimensões da personalidade e a DE. Encontrou-se correlação inversa entre extroversão e DE, enquanto as dimensões neuroticismo e psicoticismo estiveram diretamente relacionadas com a DE em uma amostra composta por estudantes universitários de Lima, no Peru.

Estudos indicam ainda que pessoas dependentes emocionalmente tendem a praticarem comportamentos auto lesivos (Bornsteim, 2012) e a se envolverem em relacionamentos abusivos, especificamente, em namoros, observou-se também que ansiedade frente a separação, pode ser um indicador de DE (Arreola et al., 2015). O que testifica, oportunamente, os achados desta pesquisa, de modo que o medo de ficar solteiro, que tem como característica a ansiedade, correlacionou-se positivamente com DE, revelando que pessoas ao obterem escores alto no fenômeno medo de ficar solteiro, também pontuaram alto em DE.

Além disso, estudos demonstraram, semelhantemente a este, que na amostra pesquisada ao serem notadas pontuações altas em neuroticismo, observou-se também pontuações alta em DE, ou seja, constatou-se relação significativa e positiva entre os construtos aludidos (Anicama, 2016; Gamero & Salinas, 2014). Ressalta-se também que indivíduos com DE nutrem vínculos afetivos de caráter inseguro com seus pares (Patrícia & Ángel, 2015).

Ademais, o efeito da correlação foi negativo entre neuroticismo e autoestima, isto é, quanto menor a presença de neuroticismo, maior a presença de autoestima, menor a tendência de adquirir DE. Achados equivalentes podem ser encontrados nas pesquisas de Campaniço (2022) e Bartlett et al. (2019). Ainda, nesta direção, compreende-se que baixa autoestima e o neuroticismo são considerados preditores de transtornos de personalidade, transtornos depressivos e predisposição para pensamento ruminativos (Judge et al., 2002; Nunes et al., 2023). No mais, observa-se consonância com a pesquisa de Ito et al. (2007) que identificou que pessoas instáveis emocionalmente apresentam avaliação negativa de si.

Desse modo, considerando as relações encontradas no primeiro caminho da mediação, entre neuroticismo e autoestima, tem-se que indivíduos que apresentam pontuações altas frente ao neuroticismo possuem maior probabilidade em apresentar uma percepção negativa acerca do mundo e de si próprio (Simkin et al., 2012; Wieczorek et al., 2023). Portanto, a vivência de instabilidade emocional, a exemplo, os estados de humor negativo, podem explicar a experimentação de sensações características de baixa autoestima, como ficar mal consigo mesmo (Simkin et al., 2012).

Na Espanha, Moral et al., (2017) verificaram a existência de uma relação negativa entre DE e autoestima e uma relação positiva entre DE e violência no namoro. Em consonância, através do presente escrito foi possível identificar relações semelhantes entre autoestima e DE. Em outros achados foram observados que pessoas ao apresentarem maiores níveis de autoestima demonstraram baixa propensão a DE. Portanto, a autoestima elevada pode ser percebida como um fator protetivo a DE (Marín-Ocmin, 2019).

Um outro dado importante, inclusive norteia para a necessidade de pesquisas no futuro, é que indivíduos emocionalmente dependentes tendem a desenvolver baixa autoestima por estar envolvido em relacionamento com sujeitos narcisistas (Moral et al., 2017). Além disso, a DE colabora com a preservação de relacionamentos violentos e abusivos, contribuindo de maneira negativa para se estabelecer o término de uma relação (Moral et al., 2017). Pensando assim em possibilidades futuras de estudos, outros modelos de explicação acerca da DE devem ser propostos e testados, considerando por exemplo outros traços da personalidade, como os traços sombrios da personalidade - narcisismo, maquiavelismo e psicopatia.

Mônego e Teodoro (2011) identificaram que características comuns ao neuroticismo impactam negativamente na satisfação conjugal, assim, concluíram que indivíduos com pontuações alta no traço neuroticismo apresentaram prejuízos em seus relacionamentos interpessoais, em especial, os relacionamentos amorosos. Por outro lado, indivíduos menos neuróticos manifestaram pouco medo de ficarem solteiros (DePaulo, 2015).

Outrossim, o estudo demonstrou que medo de ficar solteiro se relaciona positivamente com DE. O medo de ficar solteiro é uma característica comum também em Transtorno de Personalidade Dependente (TPD) e Transtorno de Personalidade Borderline (TPB), os quais apresentam um padrão de comportamento caracterizado pelo medo do abandono e exigência exagerada de proteção e atenção. No primeiro, os sujeitos demonstram um padrão de relacionamentos sucessivos, marcados pela instabilidade e intensidade (Zanin & Valerio, 2004).

Por outro lado, indivíduos com TPD são emocionalmente dependentes e podem manifestar um enorme vazio dentro de si, colaborando para o amor dependente, de tal maneira que ocorre nestes sujeitos a tentativa de fugir da solidão e não perder o parceiro(a), o que é característico do medo de ficar solteiro (Rodrigues & Chalhub, 2009). Nota-se que essas demandas estão comumente relacionadas a outros transtornos, como depressão, transtornos alimentares, ansiedade e somatizações (Bution & Wechsler. 2016). Ademais, comportamentos autodestrutivos também são presentes em indivíduos emocionalmente dependentes e que reconhecem a iminência do findar da relação à qual estão inseridos.

Diante do exposto, pode-se inferir que pessoas com traços acentuados de neuroticismo em sua personalidade, estão mais suscetíveis a DE em seus relacionamentos amorosos, ainda mais se estas possuem uma avaliação negativa de si e são temerosas quanto a estarem solteiras(os). E estar em um relacionamento amoroso característico de DE pode acarretar consequências drásticas para a vida, a exemplo, a ansiedade social, comportamentos de raiva e dificuldade para se expressar de modo claro e objetivo (Momeñe et al., 2022).

Por conseguinte, é possível inferir que relacionamentos dessa natureza podem ser um fator de risco para casos de violência, em especial, a violência doméstica (Bution & Wechsler, 2016). Observa-se, pois, tamanha a urgência e a relevância em aprofundar as investigações acerca da DE, nesta direção, pesquisas devem ser desenvolvidas buscando verificar padrões de relacionamento com outras variáveis, como a violência conjugal e ciúme patológico. Em suma, acredita-se que quanto maior o entendimento e maior a precisão acerca do tema, melhor a contribuição no que tange a soluções para casos de DE.

Nesse estudo, reconhece-se a limitação das amostras, as quais são especificas de cidades e estados de apenas uma das cinco regiões brasileiras e de característica não probabilística (por conveniência), com delineamento não experimental da pesquisa, não sendo possível uma generalização dos resultados (Breakwell et al., 2010). Contudo, destaca-se que isso não foi objetivo para essa pesquisa e que não compromete os resultados. Ainda, quanto as amostras, foram compostas por coletas diferentes: presencial e virtual, porém, reconhece-se que essa estratégia apresenta resultados similares em pesquisas científicas em ambas as modalidades (Brock et al., 2012).

Por fim, considera-se que o estudo forneceu contribuições para fomentar o campo científico acerca da DE e seus correlatos, agregando a outras contribuições relevantes a nível nacional e internacional. Ademais, esta investigação poderá ser um importante recurso no desenvolvimento de ações de prevenção, estratégias de enfrentamento e elaboração de políticas de promoção a qualidade de vida e saúde no que tange a relacionamentos amorosos e DE.

DECLARAÇÃO DE DISPONIBILIDADE DE DADOS

Os dados de pesquisa não estão disponíveis.

Referências

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  • Informações suprimidas no texto:
    Número de aprovação no Comitê de Ética e Pesquisa da Universidade Federal da Paraíba, Brasil (Parecer: 4.088.930; CAAE: 32110920.2.0000.5214).

Editado por

  • Editor:
    Karina da Silva Oliveira

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    07 Nov 2025
  • Data do Fascículo
    2025

Histórico

  • Recebido
    17 Jun 2024
  • Revisado
    15 Abr 2025
  • Aceito
    02 Jun 2025
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