Freqüências dos grupos sangüíneos e incompatibilidades ABO e RhD em puérperas e seus recém-nascidos

Frequencies of blood groups, ABO and Rh D incompatibility in post-delivery women and their liveborn

Resumos

OBJETIVO: Determinar as freqüências fenotípicas e predizer o risco de incompatibilidade e aloimunização materna RhD na população da Zona Oeste de São Paulo, Brasil. MÉTODOS: Estudo descritivo no qual avaliamos 2372 puérperas e seus recém-nascidos vivos, no período de um ano, tipificadas para os sistemas ABO e RhD por meio de teste de aglutinação em tubo. RESULTADOS: O estudo mostrou os seguintes percentuais: grupo sangüíneo O, 50,67%; A, 32,17%; B, 13,45%; AB, 3,71%; RhD(+), 90,34% e RhD(-), 9,66%. A ocorrência de incompatibilidade materno-fetal foi de 18,4% para o sistema ABO e de 7% para o RhD. CONCLUSÃO: O contingente da população Rh negativa com alto risco para aloimunização RhD foi estimado em 82%, denotando a importância da profilaxia da aloimunização RhD.

Antígenos de grupos sangüíneos; Sistema de grupo sangüíneo ABO; Sistema de grupo sangüíneo Rh-Hr; Isoimunização RH


OBJECTIVE: This study aimed to assess the frequency of different blood phenotypes and to predict the risk of Rh D alloimmunization and maternal-fetal incompatibility in a Brazilian population living in the West zone of the city of São Paulo - Brazil. METHODS: This descriptive study evaluated 2,372 post-delivery women and their liveborn during one year. Blood types were analyzed by means of tube agglutination tests. RESULTS: The blood type frequencies were: 50.67 O, 32.17 A, 13.45 B, 3.75 AB, 90.34 Rh D(+) and 9.66 Rh D(-). ABO maternal-fetal incompatibility was detected in 18.4% and Rh D incompatibility in 7%. CONCLUSION: The fraction of Rh D(-) population at high risk for Rh D alloimmunization was 82%, emphasizing the importance of Rh D alloimmunization profilaxis.

Blood groups antigens; ABO blood-group system; Rh-Hr blood group system; Rh isoimmunization


ARTIGO ORIGINAL

Freqüências dos grupos sangüíneos e incompatibilidades ABO e RhD em puérperas e seus recém-nascidos

Frequencies of blood groups, ABO and Rh D incompatibility in post-delivery women and their liveborn

Eduardo Baiochi* * Correspondência: Rua Emilio Mallet, 465 apto 134, Tatuapé, São Paulo/SP, Cep: 03320-000, Tel: (11) 6674-9305, Fax: (11) 6674-3916, baiochi@ultrarapida.com.br ; Luiz Camano; Nelson Sass; Osmar Ribeiro Colas

RESUMO

OBJETIVO: Determinar as freqüências fenotípicas e predizer o risco de incompatibilidade e aloimunização materna RhD na população da Zona Oeste de São Paulo, Brasil.

MÉTODOS: Estudo descritivo no qual avaliamos 2372 puérperas e seus recém-nascidos vivos, no período de um ano, tipificadas para os sistemas ABO e RhD por meio de teste de aglutinação em tubo.

RESULTADOS: O estudo mostrou os seguintes percentuais: grupo sangüíneo O, 50,67%; A, 32,17%; B, 13,45%; AB, 3,71%; RhD(+), 90,34% e RhD(-), 9,66%. A ocorrência de incompatibilidade materno-fetal foi de 18,4% para o sistema ABO e de 7% para o RhD.

CONCLUSÃO: O contingente da população Rh negativa com alto risco para aloimunização RhD foi estimado em 82%, denotando a importância da profilaxia da aloimunização RhD.

Unitermos: Antígenos de grupos sangüíneos. Sistema de grupo sangüíneo ABO. Sistema de grupo sangüíneo Rh-Hr. Isoimunização RH.

SUMMARY

OBJECTIVE: This study aimed to assess the frequency of different blood phenotypes and to predict the risk of Rh D alloimmunization and maternal-fetal incompatibility in a Brazilian population living in the West zone of the city of São Paulo - Brazil.

METHODS: This descriptive study evaluated 2,372 post-delivery women and their liveborn during one year. Blood types were analyzed by means of tube agglutination tests.

RESULTS: The blood type frequencies were: 50.67 O, 32.17 A, 13.45 B, 3.75 AB, 90.34 Rh D(+) and 9.66 Rh D(-). ABO maternal-fetal incompatibility was detected in 18.4% and Rh D incompatibility in 7%.

CONCLUSION: The fraction of Rh D(-) population at high risk for Rh D alloimmunization was 82%, emphasizing the importance of Rh D alloimmunization profilaxis.

Key words: Blood groups antigens. ABO blood-group system. Rh-Hr blood group system. Rh isoimmunization.

INTRODUÇÃO

Os grupos sangüíneos ABO e RhD desempenham um importante papel em Obstetrícia. Mulheres RhD negativas, ao gerarem conceptos RhD positivos (herança paterna) podem ser sensibilizadas, produzindo anticorpos anti-D, que, cruzando a barreira placentária, podem hemolizar eritrócitos fetais, causando anemia hemolítica perinatal (DHPN)1. Por outro lado, a compatibilidade entre mãe e feto para o grupo sangüíneo ABO pode favorecer a aloimunização materna2, elevando o risco de sensibilização RhD de 2% para 16%, nesta eventualidade3. O provável mecanismo envolvido nesta relativa proteção seria a rápida destruição das hemácias fetais incompatíveis pelos anticorpos maternos anti-A e/ou anti-B, o que originou a proposta de utilização de plasma contendo elevados títulos de imunoglobulina na prevenção da sensibilização materna pelo antígeno RhD.

Este conhecimento nos permite estratificar a população obstétrica RhD negativa em dois subgrupos: aquele de alto risco para aloimunização, formado por mulheres ABO compatíveis com seus recém-nados, que deveriam ser o alvo prioritário de políticas públicas visando a profilaxia da sensibilização RhD e, como alvo secundário, aquelas mulheres ABO incompatíveis com seus conceptos, uma vez que apresentam risco oito vezes menor para desenvolvimento de aloanticorpos RhD3.

MÉTODOS

Objetivamos neste estudo determinar as freqüências fenotípicas dos sistemas de grupos sangüíneos ABO e RhD, entre puérperas e nativivos do Hospital e Maternidade Cachoeirinha, na Zona Oeste de São Paulo, e avaliar a ocorrência de incompatibilidade ABO e RhD entre mãe e recém-nascido nesta população.

O estudo foi descritivo retrospectivo, tendo levantado, a partir dos registros do banco de sangue, a determinação do grupo sangüíneo ABO e RhD de 2372 puérperas e seus recém-nascidos vivos, que tiveram seu parto no Hospital e Maternidade Vila Nova Cachoeirinha, no período de um ano entre 1 de agosto de 2001 e 31 de julho de 2002.

Por ocasião do parto, como parte da rotina de atendimento, foram coletados em tubo com o anticoagulante ácido etilenodiaminotetracético (EDTA) cerca de 5 ml de sangue venoso periférico da parturiente e igual volume de sangue fetal do cordão umbilical remanescente na placenta, após a dequitação, para tipificação ABO/RhD. Todos os testes laboratoriais foram realizados no mesmo serviço, dentro de 24 horas após a coleta, pela técnica em tubo. O método de leitura utilizado foi o da hemaglutinação, conforme Manual Técnico da Associação Americana de Bancos de Sangue4.

A determinação do grupo sangüíneo ABO foi realizada pelas técnicas direta e reversa, com o emprego de soros monoclonais anti-A e anti-B, procedentes da Biotest AG® (Dreieich, Alemanha) e suspensão de hemácias, a 3%, dos grupos sangüíneos A1 e B, procedentes da Biotest S/A Comércio e Indústria® (São Paulo, Brasil). A tipagem RhD foi realizada com soro policlonal anti-D (Biotest S/A, Brasil). Nos casos em que a aglutinação teve intensidade inferior a 2+ ou não houve aglutinação, prosseguiu-se a investigação realizando o teste para o D-fraco com leitura em fase de antiglobulina (fase de Coombs).

A freqüência de cada um dos fenótipos foi determinada e expressa em porcentagem relativa ao total de indivíduos avaliados.

Este estudo teve parecer favorável da Comissão de Ética do Hospital Maternidade Vila Nova Cachoeirinha.

RESULTADOS

A Tabela 1 mostra a distribuição dos fenótipos dos sistemas ABO e RhD nas puérperas avaliadas. Nas Tabelas 2 e 3, seguem dados relativos aos recém-nascidos vivos de todas as pacientes.

Pudemos apurar nesta casuística de 2372 puérperas avaliadas com seus respectivos recém-nascidos que 436 (18,4%) apresentaram recém-nascidos ABO incompatíveis. Quando avaliadas exclusivamente as 167 (7,04%) RhD negativas que deram à luz pelo menos um concepto RhD positivo, portanto com risco para aloimunização RhD, a proporção de incompatibilidade ABO manteve-se, sendo 137 (82%) puérperas de maior risco para sensibilização, por terem recém-nascidos ABO compatíveis, e 30 (18%) de baixo risco, por terem conceptos ABO incompatíveis, conforme Tabela 4.

DISCUSSÃO

Os estudos visando a avaliação da distribuição fenotípica dos grupos sangüíneos em nossa população têm sido realizados com a subpopulação de doadores voluntários, junto a serviços de banco de sangue5,6. Trazemos neste estudo uma contribuição original, avaliando a subpopulação obstétrica de uma grande maternidade, visando basicamente os sistemas ABO e o Rh(D), importantes na DHPN.

As freqüências de grupos sangüíneos obtidas neste estudo, na população da Zona Oeste da cidade de São Paulo, apontaram a ocorrência do antígeno RhD em 90,34% da casuística, o que está de acordo com outros estudos5-7, entre os quais destacamos dois, realizados com doadores voluntários dos maiores hospitais públicos da cidade, Hospital São Paulo5 e Hospital das Clínicas6, que demonstraram índices de 87,5% e 91,3% do antígeno em questão, respectivamente. Este conhecimento pode ser aplicado no planejamento do atendimento das gestantes de risco para aloimunização RhD, que corres-ponderam em nosso estudo a 7% de todas as puérperas, sem estratificação por raça, superponíveis aos percentuais relatados na população norte-americana e britânica, de 9,2% entre indivíduos brancos e 4,5% entre negros8.

Com relação à incompatibilidade ABO, que poderia reduzir o risco de sensibilização RhD na subpopulação de gestantes RhD negativas, observamos que ocorreu em 18% destas pacientes, percentual próximo àquele relatado na literatura, de 15%(8), mostrando que a grande maioria (82%) das gestantes RhD(-) geraram descendentes ABO compatíveis, o que as coloca na condição de maior risco para aloimunização, denotando a importância do emprego da imunoglobulina anti-D na profilaxia da sensibilização materna.

CONCLUSÃO

Concluímos que o contingente de gestantes RhD(-), em nossa população, foi da ordem de 10%. Observamos que 73% destas mulheres geraram descendentes RhD(+), sendo que 82% destes nascimentos apresentaram ABO compatibilidade materno-fetal, o que coloca seis em cada dez gestantes RhD negativas na condição de maior risco para sensibilização por este antígeno. Estes achados reforçam a necessidade da rigorosa aplicação das normas expedidas pelo Ministério da Saúde9 na profilaxia da aloimunização RhD, com aplicação da imunoglobulina anti-D.

Conflito de interesse: não há.

Artigo recebido: 20/11/05

Aceito para publicação: 18/02/06

Trabalho realizado na Universidade Federal de São Paulo / Escola Paulista de Medicina e Hospital Municipal e Maternidade Escola Vila Nova Cachoeirinha "Dr. Mario de Morais Altenfelder Silva"

  • 1. Levine P, Burnham L, Katzin EM, Vogel P. The role of isoimmunization in the pathogenesis of erythroblastosis fetalis. Am J Obstet Gynecol. 1941;42:925-37.
  • 2. Levine P. Serological factors as a possible cause in spontaneous abortions. J Hered. 1943;34:71-80.
  • 3. Bowman JM. Controversies in Rh prophylaxis. Who needs Rh immune globulin and when should it be given? Am J Obstet Gynecol. 1985;151:289-94.
  • 4. American Association Blood Banks. Technical manual. Vengclen-Tyler V, editor. 13th ed. Maryland: Bethesda; 1999
  • 5. Moreira G, Bordin JO, Kuroda A, Kerbauy J. Red blood cell alloimmunization in sickle cell disease: The influence of racial and antigenic pattern differences between donors and recipients in Brazil. Am J Hematol. 1996;52:197-200.
  • 6. Novaretti MCZ. Estudo dos grupos sangüíneos em doadores de sangue caucasóides e negróides na cidade de São Paulo [tese]. São Paulo. Faculdade de Medicina, Universidade de São Paulo; 1995.
  • 7. Saluro NN, Otto PA. Blood groups in a large sample from the city of São Paulo (Brazil): allele and haplotype frequencies for MMSs, Kell-Cellano, Rh and ABO systems. Rev Bras Genet. 1989;12:625-43.
  • 8. Berger GS, Keith L. Utilization of Rh prophylaxis. Clin Obstet Gynecol. 1982;25(2):267-75.
  • 9
    9. Ministério da Saúde. Manual técnico: gestação de alto risco. 3ª ed. Brasília: Secretaria de Políticas Públicas, Área Técnica da Saúde da Mulher; 2000.

  • *
    Correspondência: Rua Emilio Mallet, 465 apto 134, Tatuapé, São Paulo/SP, Cep: 03320-000, Tel: (11) 6674-9305, Fax: (11) 6674-3916,

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    30 Mar 2007
  • Data do Fascículo
    Fev 2007

Histórico

  • Aceito
    18 Fev 2006
  • Recebido
    20 Nov 2005
Associação Médica Brasileira R. São Carlos do Pinhal, 324, 01333-903 São Paulo SP - Brazil, Tel: +55 11 3178-6800, Fax: +55 11 3178-6816 - São Paulo - SP - Brazil
E-mail: ramb@amb.org.br