Open-access As representações sociais sobre as práticas sustentáveis na formação de professores de educação física

Representaciones sociales sobre prácticas sostenibles en la formación de profesores de educación física

RESUMO

A pesquisa buscou identificar e analisar as representações sociais que universitários de um curso de graduação em Educação Física do Rio de Janeiro compartilham sobre as práticas sustentáveis. Para atingir o objetivo empregou-se a técnica de associação livre de palavras como instrumento de coleta de dados e a Teoria das Representações Sociais como referencial teórico. O grupo amostral foi constituído por 100 acadêmicos do curso de graduação em Educação Física. Os resultados observados indicam que as Práticas Sustentáveis estão associadas predominantemente à Saúde para os estudantes. Além disso, todas as Práticas Sustentáveis emergentes das evocações do grupo partem de uma ideia de saúde. Logo, a investigação concluiu que as representações sociais de estudantes de Educação Física sobre Práticas Sustentáveis estão associadas à saúde, pois é nesse contexto que o grupo encontra sentido e é a partir dela que os elementos Meio Ambiente e Sustentabilidade se manifestam.

Palavras-chave:
Educação; Formação de Professores; Educação Física

ABSTRACT

The research sought to identify and analyze the social representations that university students in an undergraduate program in Physical Education in Rio de Janeiro share regarding sustainable practices. To this end, the free word association technique was used as a data collection instrument, and the Social Representations Theory was used as a theoretical framework. The sample consisted of 100 undergraduate students in Physical Education. The results showed that Sustainable Practices are predominantly associated with Health among the students. Furthermore, all Sustainable Practices emerging from the students’ evocations are based on the idea of ​​health. Therefore, the investigation concluded that the social representations of Physical Education students regarding Sustainable Practices are associated with health, as this is the context in which the group finds meaning and through which the elements of Environment and Sustainability manifest themselves.

Keywords:
Education; Teacher Training; Physical Education

RESUMEN

La investigación buscó identificar y analizar las representaciones sociales que estudiantes universitarios de una carrera de graduación en Educación Física en Río de Janeiro comparten sobre prácticas sustentables. Se utilizó la técnica de asociación libre de palabras como instrumento de recolección de datos y la Teoría de las Representaciones Sociales como marco teórico. El grupo estuvo constituido por 100 estudiantes de Educación Física. Los resultados observados son que las Prácticas Sostenibles están predominantemente asociadas a la Salud de los estudiantes. Además, todas las Prácticas Sostenibles que surgen de las evocaciones del grupo parten de una idea de salud. Por lo tanto, la investigación concluyó que las representaciones sociales de los estudiantes de Educación Física sobre las Prácticas Sostenibles están asociadas a la salud, pues es en ese contexto que el grupo encuentra significado y a partir de ahí que se manifiestan los elementos de Medio Ambiente y Sostenibilidad.

Palabras clave:
Educación; Formación de Profesores; Educación Física

INTRODUÇÃO

Surgida da necessidade de uma mudança de paradigma que envolve valores sociais, filosóficos, econômicos, éticos, ideológicos e científicos, a Educação Ambiental tem como principal finalidade conduzir as pessoas a novas iniciativas, pensamentos e práticas sustentáveis, por meio do trabalho de conscientização, com vistas às decisões coletivas (Branco, Royer e Branco, 2018). Dito de outra forma, a Educação Ambiental não se circunscreve ao meio ambiente, mas se amplia para a economia, a justiça, a saúde, a cidadania e a própria sobrevivência no planeta (Kondrat e Maciel, 2013).

No entanto, se por um lado a Educação Ambiental tem sido tema central de discussões políticas em eventos nacionais e internacionais nas últimas décadas, a sua efetivação no cotidiano e no currículo escolar ainda está distante de desencadear resultados significativos (Silva, 2013; Souza, 2016).

No que concerne ao campo educacional, a partir da década de 1990, a Educação Ambiental vem-se fazendo presente nos principais documentos oficiais que norteiam a Educação Básica, com vistas a incorporá-la nos currículos escolares, tais como os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs), as Diretrizes Curriculares Nacionais (DCNs) e a Base Nacional Comum Curricular (BNCC), ou seja, é um tema para ser desenvolvido no currículo escolar.

Ainda nessa perspectiva, em conformidade com Branco, Royer e Branco (2018), os PCNs apresentam a Educação Ambiental como tema transversal (Brasil, 1998) e a BNCC como um tema transversal contemporâneo (Brasil, 2019b). As Diretrizes Curriculares Nacionais da Educação Ambiental (DCNEA), na mesma direção, vêm definindo o trato da Educação Ambiental de maneira transversal e a preservação do meio ambiente enquanto responsabilidade de todos como exercício da cidadania com vistas ao bem comum (Brasil, 2012). Na mesma vertente, as Diretrizes Curriculares Nacionais para a formação de professores para a Educação Básica (Brasil, 2015; 2019a) e a BNCC defendem a necessidade de uma sociedade sustentável (Brasil, 2017; 2018a).

Particularmente no que respeita ao campo da Educação Física, ganham relevo as Diretrizes Curriculares Nacionais dos cursos de graduação em Educação Física (bacharelado e licenciatura) que, em seu sexto artigo, descrevem que as questões pertinentes à Educação Ambiental, bem como às práticas sustentáveis (Silva e Freire, 2023), deverão ser abordadas no trato dos conhecimentos no decorrer da formação inicial do graduado em Educação Física (Brasil, 2018b). Nessa mesma linha, a BNCC incluiu como conteúdo as Práticas Corporais de Aventura, atividades de aventura no rol das práticas corporais em suas diversas formas de codificação e significação social, tematizadas nas aulas de Educação Física para os alunos que se encontram nos anos finais do Ensino Fundamental (Brasil, 2017). Destaque ainda deve ser dado ao Manifesto Mundial da Educação Física que, segundo Lima et al. (2018), ratifica a responsabilidade dos profissionais de Educação Física para com as questões ambientais.

Levando-se em consideração a dimensão transversal atribuída à Educação Ambiental e à sustentabilidade, tanto na ambiência da educação formal quanto nos demais campos de atuação em que se insere o profissional de Educação Física, é possível perspectivar que a referida área do conhecimento se configura como um espaço que possibilita o desenvolvimento de diversas ações relacionadas à dimensão ambiental e à sustentabilidade. Isso porque, nomeadamente, a Educação Física se apresenta como área do conhecimento que tem o movimento como objeto de estudo que, por sua vez perpassa os diferentes contextos das realidades sociais. Nessa perspectiva, que sinaliza estratégias educativas para a minimização dos efeitos negativos provenientes daqueles estilos de vida prejudiciais ao meio ambiente e a seus recursos salutares à própria existência humana nesse planeta, o trabalho em prol de uma conscientização ou (re)encontro com os espaços naturais emerge como oportuno em todo tempo e lugar na contemporaneidade. E nessa direção, dada a suas especificidades, as práticas corporais de aventura configuram-se como uma vertente esportiva que apresenta um conjunto de características que muito propicia o trabalho com as questões ambientais e a sustentabilidade. Essas Práticas Corporais de Aventura vivenciadas nos diferentes ambientes naturais, caracterizam-se pela interação de seus praticantes nos distintos segmentos que compõem os diferentes meios naturais, como aqueles ligados ao ambiente aquático, terrestre e aéreo. Ainda que consideradas as impossibilidades e circunscrições, as diversas atividades que abarcam as práticas corporais de aventura apresentam-se como um poderoso aliado no trabalho da Educação Ambiental, num processo cujo ponto de partida se dará pela reestruturação do binômio homem-natureza (Paixão, 2017).

Sob essa ótica, é importante destacar que somente no final da década de 1990 a formação inicial em Educação Física ampliou as relações com a Educação Ambiental e as práticas sustentáveis com a inserção da disciplina denominada “Esportes de Aventura” no currículo dos cursos, ocasião em que há presença das experiências com os esportes na natureza por ocasião das aulas práticas (Costa, 2000).

Nesse contexto, ainda que, em sua essência, o conjunto de documentos oficiais mencionados elucide a necessidade de o profissional de Educação Física, em algum momento de sua formação e atuação, se envolver em discussões que privilegiam a Educação Ambiental, em um estudo realizado por Inácio, Moraes e Silveira (2013), das 43 universidades brasileiras investigadas, de diferentes dependências administrativas, somente nove ofertavam disciplinas que relacionavam direta ou indiretamente Educação Física e Meio Ambiente e, dentre esse número ínfimo, em sua maioria, tratavam-se de disciplinas de caráter eletivo nas matrizes curriculares dos cursos. Vistas as coisas por essa perspectiva, é possível inferir que o fato de se possuir uma formação inicial em Educação Física não garante uma conduta consciente sobre as questões ambientais e práticas sustentáveis.

Nesse contexto, conhecer como determinados grupos sociais se comportam diante de objetos específicos tem sido ponto de discussão de estudos que adotam a Psicologia Social como base epistemológica. Dessa maneira, a Teoria das Representações Sociais (Moscovici, 2012) tem servido como referencial teórico e metodológico para compreender como os grupos sociais se comportam (Lemos e Fernandes, 2022; Jarpa-Arriagada e Cárcamo-Vásquez, 2023; Vinuesa, Campos e Cartea, 2023). Nesse sentido, utilizar-se dessa base pode contribuir para conhecer as representações sociais que são compartilhadas entre os estudantes de Educação Física sobre as práticas sustentáveis.

Considerando que as representações sociais correspondem a “uma forma de conhecimento socialmente elaborada e partilhada, com um objetivo prático, e que contribui para a construção de uma realidade comum a um conjunto social” (Jodelet, 2001, p. 22), compreender as representações sociais que um grupo de estudantes de Educação Física compartilha sobre práticas sustentáveis pode contribuir para conhecer qual é o conhecimento compartilhado entre o grupo, em que se ancoram e em quais práticas sociais esses conhecimentos podem se refletir (Valencia e Puente, 2018).

Estudos do campo da produção científica da Educação Física brasileira (Domingues, Kunz e Araújo, 2011; Inácio, Moraes e Silveira, 2013) apontaram que trabalhos que relacionam Educação Física, meio ambiente e práticas sustentáveis ainda são escassos. No entanto, é possível afirmar que foi com a produção de pesquisas sobre o tema (Tahara e Darido, 2016; Paixão, 2017; 2018a; 2018b), a homologação da BNCC (Brasil, 2017), que insere as práticas corporais de aventura como unidade temática da Educação Física, a publicação das Diretrizes Curriculares Nacionais dos Cursos de Graduação em Educação Física (Brasil, 2018b), que ressalta a necessidade da contextualização do meio ambiente e da sustentabilidade na formação e, ainda, a publicação da Agenda 2030 (Brasil, 2016), documento em que os compromissos com o desenvolvimento sustentável são colocados em pauta, que as discussões sobre essa relação têm sido ampliadas no campo da formação de professores de Educação Física.

Portanto, conhecer as representações sociais de futuros profissionais de Educação Física (licenciados e bacharéis) sobre práticas sustentáveis pode constituir um caminho para conhecer alguns dos possíveis indícios de como esse grupo se comporta frente à relação entre homem, esporte, atividade física e natureza, na perspectiva da sustentabilidade. Portanto, essa pesquisa pretendeu identificar e analisar as representações sociais que universitários de um curso de graduação em Educação Física da cidade do Rio de Janeiro compartilham sobre as práticas sustentáveis.

METODOLOGIA

A presente pesquisa configura-se como de natureza qualitativa e se enquadra na perspectiva estruturalista da Teoria das Representações Sociais (Abric, 2000; 2003; Batista e Andrade, 2023), a qual busca identificar como estão estruturadas as representações sociais de um determinado grupo em relação a um dado objeto.

A população investigada foi composta por estudantes de graduação em Educação Física (bacharelado e licenciatura). Ainda que sejam duas formações, as DCNs dos Cursos de Graduação em Educação Física (Brasil, 2018b) determinam que essas formações devem ter em comum conhecimentos sobre meio ambiente e sustentabilidade. Logo, participaram da pesquisa 100 estudantes de uma instituição privada da cidade do Rio de Janeiro, de diferentes períodos, de ambos os sexos, com idade entre 18 e 61 anos, que estavam matriculados no curso desde o primeiro período. Cabe ressaltar que o processo de coleta de dados aconteceu durante todo o primeiro semestre de 2023, período em que os estudantes eram abordados nos horários de entrada, saída e intervalo das aulas pelos componentes do grupo de estudos.

Para a constituição dos dados da pesquisa, foi aplicada a Técnica de Associação Livre de Palavras, que, segundo Carmo, Leite e Magalhães Júnior (2017), é um tipo de investigação na qual as pessoas inquiridas registram palavras em relação ao estímulo provocado por um termo indutor. Na investigação em tela, foi empregado o termo indutor: “Práticas Sustentáveis.” No teste, ao apresentar o termo indutor, solicitou-se que cada participante registre as cinco primeiras palavras que lhes viessem à mente em relação ao termo e, em seguida, as classificar de um a cinco, sendo um para a mais importante e cinco, a menos importante, respectivamente.

O tratamento dos dados coletados na pesquisa se deu com auxílio do software livre IRAMUTEC 0.7 alpha 2, que permitiu realizar a análise prototípica e de similitude (Camargo e Justo, 2013). A primeira transforma os dados em um Quadro de Quatro Casas, evidenciando as palavras mais frequentemente evocadas e a ordem em que elas apareceram no momento da pesquisa; já a segunda gera uma imagem ilustrativa que representa uma árvore de similitude das palavras.

O presente projeto de pesquisa, por envolver a participação de seres humanos, foi apresentado para apreciação ao Comitê de Ética em Pesquisa (CEP), para receber o Certificado de Apresentação para Apreciação Ética (CAAE) e foi aprovado pelo parecer 4.916.257 de 19 de agosto de 2021. Além disso, no decorrer do processo de condução da pesquisa, foram respeitadas as diretrizes regulamentadas pela Resolução n. 510/16 da Comissão Nacional de Ética em Pesquisa (CONEP), sendo todos os participantes voluntários esclarecidos sobre os procedimentos da investigação mediante o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE).

RESULTADOS

Os resultados da pesquisa acumularam um registro de 500 palavras evocadas, as quais foram tratadas pelo software IRAMUTEC, que produziu 36 grupos semânticos. A análise dos dados desvelou uma Ordem Média de Evocação de 2,79 e Frequência Média de 4,20. Os grupos semânticos que apresentaram frequência menor que três foram desprezados, para efeito de análise. O Quadro 1 ilustra os quatro quadrantes com os grupos semânticos que compõem a estrutura das representações sociais do grupo de estudantes que participou da pesquisa.

Quadro 1 -
Quadro de Quatro Casas referente ao termo indutor “Práticas Sustentáveis” na formação de professores de Educação Física.

O Quadro 1 ilustra os Quatro Quadrantes (Vèrges, 2002) que indicam os elementos centrais e periféricos nos quais se estruturam as representações sociais sobre as práticas sustentáveis. Para Ortiz, Triani e Magalhães Júnior (2023) no primeiro quadrante concentram-se os elementos prontamente evocados e de alta Frequência (F) e menor Ordem Média de Evocação (OME). De acordo com Abric (2003), na perspectiva da Teoria do Núcleo Central, os elementos que compõem o Núcleo Central permitem atribuir significado às representações sociais do grupo em análise. Desse modo, considerando as palavras do primeiro quadrante, nota-se a “saúde” como o elemento de maior centralidade para os estudantes do curso de Educação Física no que se refere às práticas sustentáveis.

Em um estudo anterior, Triani et al. (2021), ao investigar as representações sociais de um grupo de estudantes de Educação Física sobre a relação entre homem, esporte e natureza, também observaram a “saúde” como o elemento de maior centralidade e pertencente ao Núcleo Central das representações sociais dos estudantes. Nesse sentido, considerando que, de acordo com Abric (2003), os elementos do Núcleo Central permitem dar significado às representações sociais, uma possível hipótese é a de que o termo “saúde” possui força representativa para a Educação Física. De acordo com Krug et al. (2017), que também identificou “saúde” como uma das palavras de maior frequência entre estudantes de Educação Física, essa palavra é empregada no sentido indicativo de “promoção da saúde.”

Para Moscovici (2012), representar um objeto se faz a partir de um processo de ancoragem que implica possíveis associações do objeto ora representado a um conjunto de imagens e ideias já pré-existentes no núcleo figurativo (Lima e Campos, 2020) de quem representa. Diante disso, é possível que “saúde,” evocação comum em representações sociais de estudantes de Educação Física (Krug et al., 2017; Triani et al., 2021), esteja ancorada na legislação brasileira que coloca a Educação Física como uma profissão vinculada à área da saúde.

A Teoria das Representações Sociais (Moscovici, 2012) pontua que o conhecimento pode estar presente em dois universos paralelos, o reificado e o do senso comum. O universo reificado é aquele em que estão presentes os conhecimentos que têm base científica, isto é, aqueles que têm comprovação científica. Dessa forma, quando o estudante evoca o termo “saúde” é possível que essa prática associativa esteja ancorada da Resolução n. 218 de 1997, do Conselho Nacional de Saúde, que o coloca na área da saúde. Além disso, como as representações sociais circulam nos processos comunicativos (Moscovici, 2007), a palavra “saúde” pode ter alta frequência também pelo fato de se fazer presente ao longo do curso de graduação (Triani et al., 2019; Triani, Novaes e Telles, 2023).

Os Elementos Intermediários (Sá, 1996) da estrutura das representações sociais do grupo sobre as práticas sustentáveis em Educação Física estão ilustrados pelo segundo e o terceiro quadrante. O segundo, também conhecido como Primeira Periferia (Ortiz, Triani e Magalhães Júnior 2023), agrupa palavras que possuem alta frequência e baixa OME, sendo assim, frequentemente circulantes, mas que possuem pouca importância para alguns dos membros do grupo. No quadrante, a evocação de maior frequência foi “ar livre” e pode manifestar-se no sentido de que, para os estudantes, as práticas sustentáveis em Educação Física estão associadas às atividades realizadas ao ar livre. Essa tese pode ser reforçada por alguns elementos do Núcleo Central, como “natureza” e “meio ambiente,” o que corrobora para evidenciar indícios de que as práticas sustentáveis em Educação Física estão relacionadas às atividades em meio à natureza, ao meio ambiente e ao ar livre. Sob essa ótica, é importante destacar que as práticas corporais de aventura oportunizam vivências nos diferentes ambientes naturais, mediatizadas pela experiência em si, com um fim em si mesmo, promovendo novos valores e atitudes na interação do ser humano com a natureza, cuja forma de relacionamento deva ser entendida sob fins de parceria e não de dominação (Marinho e Bruhns, 2006). Sobretudo, essas práticas corporais conjecturam novos significados das relações dos indivíduos consigo mesmos, com os outros e com o mundo, cujas subjetividades e imaginários ganham forma e se expressam, sendo estes essencialmente produzidos em um contexto socialmente construído (Lavoura, Schwartz e Machado, 2008a).

O terceiro quadrante, denominado por Sá (1996) de Elementos Intermediários, é também conhecido como Zona de Contraste. Essa denominação está relacionada principalmente ao fato de que algumas evocações quase não se manifestam, mas são consideradas como de muita importância para alguns dos membros do grupo (Ortiz, Triani e Magalhães Júnior, 2023). Esse quadrante ilustra a “saúde mental” como a evocação de maior importância e a terceira mais frequente da Zona de Contraste. Outro resultado observado é a evocação “exercício ao ar livre” como a segunda de maior importância. Esses dois elementos presentes no terceiro quadrante podem servir para reforçar a tese de que as práticas sustentáveis em Educação Física estão associadas às atividades realizadas ao ar livre. A adoção das práticas corporais de aventura pode associar-se aos traços de personalidade, uma vez que se percebe que essa participação pode suscitar novos estilos de vida, assinalados nesse caso como um estilo aventureiro (Marinho e Bruhns, 2006). Nessa direção, é importante assinalar que estudos realizados por Le Breton (2006) demonstram que, na conexão dos corpos com a natureza, balizada pelos elementos lúdico e de fruição deliberada, abrem-se canais capazes de potencializar novos sentidos, intensificar a sensação humana de sua presença no mundo e ampliar a possibilidade de construção da identidade ou de uma nova identidade. O autor acrescenta que, nessa ambiência de corpos e natureza, o praticante tem a possibilidade de adentrar em outras esferas de sua existência ou mesmo de ver sua realidade por outro prisma (Le Breton, 2006). Cumpre destacar que, ao se considerar o valor das experiências humanas em contato com a natureza como espaço privilegiado para a construção de subjetividades, Monteiro (2004) explicita acerca das inúmeras possibilidades de o praticante renovar a relação consigo, com a cultura e com a alteridade, aí incluídos os outros sujeitos e pares. Essa compreensão se fundamenta na premissa de que as experiências com o meio natural proporcionam a reelaboração de uma cultura, aproximando-se dos processos de singularização, o que, por sua vez, pode levar a novas formas de expressão da sensibilidade, novas percepções e maneiras de autoafirmação (Monteiro, 2004; Schwartz et al., 2016).

Em uma pesquisa com professores de Educação Física, conduzida por Osborne e Batista (2010), foi observado que, para os participantes, as atividades físicas ao ar livre constituem uma das possibilidades da Educação Física para o desenvolvimento sustentável. Além disso, em uma pesquisa realizada com estudantes de Educação Física sobre as representações sociais do meio ambiente (Triani et al., 2021), foram observadas associações entre prática esportiva e meio ambiente. Nesse sentido, considerando esses estudos anteriormente publicados e os resultados aqui analisados, notam-se alguns indícios de que os temas meio ambiente, desenvolvimento sustentável e práticas sustentáveis, para o grupo estudado, conduzem a um conjunto de representações sociais que se manifestam associadas às atividades físicas e/ou esportivas em ambientes naturais.

O último quadrante é denominado de Sistema Periférico (Sá, 1996). De acordo com Ortiz, Triani e Magalhães Júnior (2023), ele também pode ser denominado de Segunda Periferia, na qual estão dispostas as palavras tardiamente evocadas e de baixa frequência. Nele, é possível destacar as evocações “Conscientização” e “Reciclagem” com as de maior frequência e maior grau de importância dentro do sistema periférico. Essas evidências parecem demonstrar indícios da presença de um paradigma conhecido da Educação Física, que é a Educação para o meio ambiente enquanto um tema transversal da prática pedagógica (Brasil, 1998; 2019b) e da formação de professores (Brasil, 2019a), muitas vezes exemplificada pelo desenvolvimento de materiais alternativos para a prática da Educação Física, a partir da utilização de sucata (Osborne e Batista, 2010; Novaes, Triani e Telles, 2020; Scapin et al., 2020). Vale ressaltar que, no processo de conscientização ambiental, o corpo é percebido como receptor e emissor de informações, numa relação potencializada pela contemplação e aguçamento dos sentidos, potencializando determinados valores e concepções de estilos de vida. E é no ínterim deste jogo das sensações, no qual se efetiva a relação do homem com a natureza, que se abrem as possibilidades para as discussões acerca da valorização e preservação do meio ambiente, sensibilizando, tocando e despertando, nos praticantes, atitudes e condutas preservacionistas (Lavoura, Schwartz e Machado, 2008b).

Além da análise prototípica, representada no Quadro 1, os dados também foram tratados a partir de uma análise de similitude. Para Triani et al. (2021), a análise de similitude pode ser utilizada em pesquisas sobre representações sociais de forma a complementar a análise prototípica. Nesse sentido, é possível conhecer mais sobre a conexidade entre a frequência das evocações e a sua ordem média de evocação. Dessa forma, compreender os dados por meio da similitude pode ser um caminho para identificar os laços entre os elementos que constituem o sistema periférico e o núcleo central. A Figura 1 representa a análise de similitude produzida pelo software IRAMUTEC, a partir da coleta realizada com estudantes do curso de graduação em Educação Física.

Figura 1 -
Árvore máxima de similitude das evocações na formação de professores de Educação Física.

A apropriação da árvore máxima de similitude, para efeito de análise da estrutura das representações sociais, pode servir também como uma estratégia complementar de compreensão das evocações (Ortiz, Triani e Magalhães Júnior, 2023). Nesse sentido, quando foi feita a análise prototípica, no Quadro 1, a saúde não foi o único elemento do Núcleo Central a dar significado à estrutura das representações sociais do grupo. No entanto, agora, na análise de similitude, na Figura 1, nota-se a saliência e o poder de centralidade do termo “saúde” para o grupo estudado, na medida em que assume uma posição de destaque na figura. Ou seja, observando os elementos e considerando a combinação entre as duas análises realizadas, é possível perceber a importância que o termo “saúde” exerce ao dar significado e organizar as representações sociais sobre práticas sustentáveis.

De acordo com Ortiz, Triani e Magalhães Júnior (2023), na árvore máxima de similitude, existem dois principais elementos a serem observados: os vértices e as arestas. Os vértices correspondem às evocações e o tamanho do seu diâmetro varia em função da frequência com que o termo foi evocado. Já as arestas correspondem ao índice de similitude, que significa que os termos foram evocados simultaneamente; assim, quanto mais vezes dois termos forem evocados simultaneamente, mais espessa será a aresta.

Diante desses entendimentos, nota-se que o maior vértice representado na Figura 1 é o da “saúde.” Para Abric (2003), uma das funções do Núcleo Central é a de organização; sendo assim, é possível observar que toda a estrutura que compõe as possíveis representações sociais do grupo se organiza em função da saúde, como se a saúde fosse um núcleo gerador para todos os outros elementos. Cabe ressaltar que a aresta que liga “saúde” ao “ar livre” é a mais espessa da imagem, evidenciando o alto índice de similitude entre esses termos, além de um possível entendimento de que, para os estudantes, as Práticas Sustentáveis se fazem no espaço do ar livre, partindo do ponto de vista da saúde.

De acordo com Deschamps e Moliner (2009), ao se referirem à conformação de identidades grupais, afirmam que as representações sociais compartilhadas por um determinado grupo podem servir para determinar as suas identidades. Sendo assim, as representações sociais que circulam dentro de um determinado grupo podem contribuir para a identificação das suas particularidades e diferenças.

Para Abric (2003), o Núcleo Central das representações sociais é o que gera significado e organiza o conhecimento do grupo sobre o objeto. No caso da pesquisa em análise, os significados sobre Práticas Sustentáveis são associados e organizados em função da noção de “saúde.” Esse termo parece representar um papel importante na regulação identitária dos estudantes de Educação Física (Monteiro, 2017), na medida em que se trata de uma palavra-chave para compreender e interpretar a realidade social do grupo, bem como as relações que são estabelecidas entre os seus membros e suas práticas sociais (Silva Junior e Barreto, 2023).

A Saúde como Núcleo Central permite compreender a conformação de uma possível identidade psicossocial do grupo, de maneira que indivíduos e grupo, pelo exercício da comunicação, manifestem comportamentos que auxiliam na identificação de indícios de organização, estrutura e função social (Carmino et al., 2013). Essa organização é possível de ser visualizada na Figura 1 quando o caminho para o vértice “reciclagem” passa primeiro pela “conscientização,” mas sempre partindo da saúde como elemento norteador.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

A pesquisa buscou identificar e analisar as representações sociais compartilhadas entre universitários de um curso de graduação em Educação Física sobre as Práticas Sustentáveis. Nesse sentido, partindo-se de uma abordagem estruturalista da Teoria das Representações Sociais, foi possível apreender o domínio que o elemento saúde exerce na ambiência da Educação Física enquanto área de conhecimento e intervenção. Em pesquisas anteriores (Krug et al., 2017; Triani et al., 2021), ainda que a palavra de evocação seja diferente, os estudantes de Educação Física parecem sempre evocar o termo “saúde,” uma resposta que equivale a quase um princípio universal. E, nessa pesquisa esse padrão se repetiu, fazendo da saúde o elemento mais central entre os estudantes de Educação Física no que se refere às Práticas Sustentáveis.

Tendo em vista os dados da presente investigação, as representações sociais de acadêmicos do curso de Educação Física sobre práticas sustentáveis estão fortemente associadas à saúde, sendo a partir dela que os elementos “meio ambiente” e “sustentabilidade” se manifestam. Nesta perspectiva que sinaliza estratégias educativas para a minimização dos efeitos negativos provenientes da autopercepção e atuação do homem sobre o meio ambiente, conceber uma Educação Ambiental e práticas sustentáveis faz-se imperativo; emerge como oportuno incluir nessas discussões a disciplina Educação Física como possibilidade do trabalho com esses temas na Educação Básica.

Considerando os documentos oficiais como a BNCC que institui as Práticas Corporais de Aventura como conteúdo da Educação Física escolar, tem-se potencializado, juntamente com os demais componentes curriculares que se inserem nos diferentes níveis da Educação Básica, a fundamentação do trabalho com a temática Educação Ambiental e práticas sustentáveis, favorecendo dessa forma, práticas educacionais interdisciplinares. Nessa direção, a estreita vinculação entre saúde e práticas sustentáveis nas representações sociais de acadêmicos do curso de Educação Física pode fornecer possíveis indícios sobre como têm-se dado as práticas sociais no/sobre o meio ambiente e, a partir disso, propor direcionamentos pedagógicos para uma Educação Ambiental crítica pela via da Educação Física.

Num tom propositivo, enquanto direcionamento pedagógico para uma Educação Ambiental crítica pela via da Educação Física, sugere-se que seja problematizada, nas aulas, a ideia de corpo separado da natureza. Além disso, sugere-se que modelos hegemônicos de “corpo saudável” que promovem exploração ambiental com impacto ecológico, degradação ambiental e uso de equipamentos descartáveis sejam questionados. Sugere-se ainda o envolvimento de estudantes, por meio do esporte e das práticas corporais de aventura, em ambientes naturais, considerando que a literatura (Brasil, 2017; Triani et al., 2021; Triani et al., 2023) tem mostrado que, quanto mais empáticos ambientais são os praticantes, menores são os impactos de degradação ambiental.

Ainda numa perspectiva propositiva, faz-se necessário que ações formativas sejam produzidas na formação inicial e continuada de estudantes de Educação Física, a fim de que se reflita sobre a importância da discussão acerca das práticas e atividades de Educação Ambiental no contexto escolar. Essas ações podem estar ancoradas nas diretrizes curriculares dos cursos de Educação Física, que preveem a tematização do meio ambiente e da sustentabilidade enquanto conhecimentos necessários à formação de professores de Educação Física.

Sem incorrer no risco de se deixar levar pela falsa pretensão e/ou ingenuidade de se acreditar que tão somente a escola irá favorecer a formação da conscientização das futuras gerações para as questões ambientais, é imperativo afirmar que a responsabilidade inclui igualmente os governos das diferentes esferas, o setor industrial e o modo de produção e consumo, muitas vezes degradantes ao meio ambiente, adotados até então. Inexoravelmente, a educação ainda se faz um dos mais importantes caminhos para trabalhar as questões ambientais e práticas sustentáveis; no entanto, isso não tem ocorrido na ambiência da Educação Básica de forma suficiente. Essa situação, leva a se questionar se as iniciativas propostas por meio de documentos legais, como os PCNs, as DCNs e, ao que tudo indica, a BNCC, têm sido ineficazes para orientar uma Educação Ambiental que seja capaz de formar pessoas com senso crítico acerca das questões ambientais no que concerne ao conceber, agir, e lutar em prol do meio ambiente no contexto nacional.

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Como citar este artigo:

TRIANI, Felipe da Silva; PAIXÃO, Jairo Antônio da; MAGALHÃES JÚNIOR, Carlos Alberto de Oliveira. As representações sociais sobre as práticas sustentáveis na formação de professores de educação física. Revista Brasileira de Educação, v. 31, e310118, 2026. https://doi.org/10.1590/S1413-24782026310118

Financiamento:

Marcos Cesar Danhoni Neves/PROAP/CAPES - Auxílio/Processo n 2058/2022 / 88881.770078/2022-01.

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Editor/a responsável:

Conflitos de interesse:

Os/as autores/as declaram que não possuem nenhum interesse comercial ou associativo que represente conflito de interesses em relação ao manuscrito.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    26 Out 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    18 Mar 2024
  • Revisado
    15 Out 2025
  • Aceito
    25 Fev 2026
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