Open-access PERCEPÇÕES DE ESCOLARES EM RELAÇÃO ÀS PESSOAS COM DEFICIÊNCIA: UM ESTUDO COM CRIANÇAS ENTRE 7 E 11 ANOS DE IDADE1,2

SCHOOLCHILDREN’S PERCEPTIONS REGARDING PEOPLE WTH DISABILITIES: A STUDY WITH CHILDREN AGED 7 TO 11

RESUMO

O objetivo deste estudo foi investigar as percepções de escolares sobre pessoas com deficiência (PCDs). Participaram 137 crianças de sete turmas, do terceiro ao quinto ano, de uma escola pública da região metropolitana de Curitiba. Foi solicitado aos alunos de todas as turmas que escrevessem as cinco primeiras palavras que lhes vinham à mente ao pensar em PCDs e, na sequência, uma entrevista semiestruturada e coletiva foi conduzida para melhor compreender como eles percebem a deficiência. Uma análise quantitativa e descritiva das palavras escritas e uma análise temática e indutiva das entrevistas foram realizadas. Constatou-se que parte significativa das palavras escritas expressava sentimentos negativos, como tristeza e pena (48,91%). A deficiência foi amplamente associada a comprometimentos físicos (46,82%) e supostas limitações (43,06%), além de ser confundida com doenças ou transtornos (13,87%) e traços de personalidade ou comportamentos negativos (8,03%). Poucas palavras manifestaram sentimentos e atributos positivos (15,33%). Durante as entrevistas, a maioria das falas focou em marcas corporais (23,36%), expressou sentimentos negativos (23,28%) ou mencionou supostas dificuldades e limitações das PCDs (21,89%). As percepções dos alunos são marcadas por estereótipos e associações negativas, ressaltando a necessidade de práticas educacionais que combatam estigmas, estereótipos e preconceitos e promovam uma compreensão mais informada da deficiência.

PALAVRAS-CHAVE:
Criança; Percepção; Atitude; Pessoa com deficiência; Estereótipo; Preconceito.

ABSTRACT

This study aimed to investigate schoolchildren’s perceptions of people with disabilities (PWDs). A total of 137 children from seven classrooms, ranging from third to fifth grade, at a public school in the metropolitan region of Curitiba, Paraná Brazil, participated in the study. Students from all classrooms were asked to write the first five words that came to mind when thinking about PWDs, and a collective semi-structured interview was subsequently conducted to better understand how they perceive disability. A quantitative and descriptive analysis of the written words and an inductive thematic analysis of the interviews were carried out. The findings showed that a substantial proportion of the words expressed negative feelings, such as sadness and pity (48.91%). Disability was largely associated with physical impairments (46.82%) and supposed limitations (43.06%), as well as being confused with diseases or disorders (13.87%) and negative personality traits or behaviors (8.03%). Few words conveyed positive feelings or attributes (15.33%). During the interviews, most statements focused on bodily markers (23.36%), expressed negative feelings (23.28%), or mentioned supposed difficulties and limitations of PWDs (21.89%). Students’ perceptions were marked by stereotypes and negative associations, highlighting the need for educational practices that challenge stigma, stereotypes, and prejudice and promote a more informed understanding of disability.

KEYWORDS:
Child; Perception; Attitude; Person with disability; Stereotype; Prejudice.

1 INTRODUÇÃO

A Lei nº 13.146, de 6 de julho de 2015, em seu art. 2º, define a pessoa com deficiência (PCD) como aquela que possui impedimentos de longo prazo de natureza física, mental, intelectual ou sensorial, os quais, em interação com barreiras, podem obstruir sua participação plena e efetiva na sociedade, em igualdade de condições com as demais pessoas. Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística ([IBGE], 2022), cerca de 18,6 milhões de pessoas no Brasil possuem algum tipo de deficiência, representando aproximadamente 8,9% da população com 2 anos ou mais de idade. Essa estimativa abrange indivíduos com alto grau de dificuldade e/ou incapacidade total em pelo menos um dos seguintes domínios: cognição, comunicação, funcionamento de membros superiores, visão, audição, locomoção (incluindo andar e subir degraus) ou realização de autocuidados básicos. Apesar de serem uma parcela significativa da população, as PCDs frequentemente são alvo de preconceito, discriminação e marginalização social, processos que decorrem de construções estereotipadas em torno da deficiência (Hunt, 1966; Link & Phelan, 2001).

O preconceito em relação à deficiência é assimilado desde a infância e se intensifica à medida em que a criança cresce em um mundo que associa a deficiência à inferioridade. A sociedade frequentemente transmite mensagens que sugerem que “ser uma PCD é ser menos” (Campbell, 2009). A internalização de percepções negativas sobre determinados grupos gera preconceito e faz com que as pessoas evitem o contato com seus membros, dificultando a revisão de seus julgamentos e perpetuando atitudes preconceituosas (Binder et al., 2009; Crochik, 2006; Schiappa et al., 2005). Tais atitudes desencadeiam uma distância social entre as pessoas sem deficiência e as PCDs, o que favorece a construção de estereótipos em relação a estas últimas (Cambruzzi, 2011). Considerando as barreiras atitudinais comumente enfrentadas pelas PCDs, esta pesquisa teve como objetivo investigar as percepções de crianças do 3º ao 5º ano do Ensino Fundamental de uma escola no núcleo metropolitano de Curitiba - Paraná (PR) acerca dessas pessoas.

Apesar da relevância do tema, ainda há poucos estudos empíricos sobre as percepções de crianças em relação às PCDs (Colere, 2023; Colere et al., 2022; Colere & Souza, 2025; Souza et al., 2021). No cenário internacional, pesquisas indicam que as crianças tendem a apresentar atitudes negativas ou a manter distância das PCDs. Alguns estudos avaliaram percepções antes e após intervenções relacionadas ao Dia Escolar Paralímpico, uma iniciativa educativa que busca promover inclusão e conscientização sobre a deficiência por meio de esportes adaptados. McKay et al. (2019) analisaram 52 alunos de 11 e 12 anos, nos Estados Unidos, e constataram que, antes da intervenção, as crianças percebiam as PCDs como um grupo distinto, reforçando uma separação do tipo “nós contra eles” e evitando o contato por considerá-las anormais.

De forma semelhante, Panagiotou et al. (2008) analisaram 178 estudantes gregos do 5º e 6º anos de uma escola primária e identificaram um padrão de distanciamento entre estudantes sem deficiência e PCDs. Já McKay et al. (2015) estudaram 143 estudantes do 6º ano, nos Estados Unidos, e observaram que suas atitudes iniciais em relação à inclusão eram negativas, principalmente devido à falta de conhecimento sobre esportes adaptados e à percepção de que a inclusão poderia comprometer a dinâmica das aulas de educação física. Além dessas intervenções, Vieira (2015) investigou 40 crianças do 2º ano do Ensino Fundamental de uma escola estadual paulista e verificou que elas frequentemente demonstram piedade em relação às PCDs, associando-as à incapacidade de realizar diversas atividades.

No Brasil, Colere e Souza (2025) investigaram 137 escolares de 7 a 11 anos e constataram que as crianças predominantemente percebiam as PCDs em termos de suas limitações, associando-as à dependência e à incapacidade. Outros dois estudos investigaram percepções a respeito de PCDs fora do contexto escolar. Souza et al. (2021) analisaram a percepção de 18 crianças sem deficiência, enquanto Colere et al. (2022) investigaram 12 crianças com deficiência e 13 familiares. Ambos os estudos concluíram que as PCDs são frequentemente vistas como incapazes, dependentes e dignas de pena (Colere et al., 2022; Souza et al., 2021).

A maioria dos estudos sobre preconceito em relação à deficiência é conduzida em contextos experimentais e controlados (McBride, 2015). Assim sendo, neste estudo, investigamos as percepções de crianças no ambiente escolar, contribuindo para preencher essa lacuna na literatura. Um maior entendimento de como elas percebem as PCDs pode subsidiar o desenvolvimento de políticas públicas e estratégias educacionais voltadas à desconstrução de estigmas, estereótipos e preconceitos. Esses problemas tendem a se desenvolver e a se solidificar desde a infância caso não sejam enfrentados.

1.1 CONTEXTUALIZAÇÃO TEÓRICA

A literatura aponta que a deficiência tem sido compreendida, predominantemente, a partir de dois modelos: o médico e o social. No modelo médico, a deficiência é concebida como um problema individual, uma condição que precisa ser curada pelo próprio indivíduo, com o auxílio de profissionais da saúde (Oliver, 2004; Shakespeare, 2018). Em oposição, autores da primeira onda do modelo social passaram a argumentar que a deficiência não é um problema individual, mas sim o resultado de barreiras sociais que restringem a participação efetiva de PCDs na sociedade (Barnes, 1992; Nogueira & Ribeiro, 2019; Oliver, 2004).

A segunda onda do modelo social problematiza essa abordagem ao argumentar que, mesmo com a remoção de todas as barreiras sociais, muitas PCDs continuam enfrentando limitações decorrentes de seus comprometimentos, demandando, em alguns casos, cuidados e apoios específicos (Diniz, 2007; Mello & Nuernberg, 2012; Wendell, 1989). Autores dessa onda também destacam que as PCDs não constituem um grupo homogêneo, pois suas experiências são atravessadas por marcadores como gênero, sexualidade, raça e classe.

Eles reforçam a relevância de uma abordagem interseccional, que possibilite reflexões mais aprofundadas sobre as diferenças dentro desse grupo. Isso inclui, por exemplo, como a aquisição da deficiência, em interação com outros fatores sociais, afeta a participação social, o acesso a recursos e a forma como as PCDs são tratadas na sociedade. Essa perspectiva amplia o entendimento sobre as desigualdades entre as PCDs e evidencia como distintos eixos de opressão e privilégio se cruzam, moldando suas experiências e oportunidades (Bailey & Mobley, 2018; Gesser et al., 2020; Gesser et al., 2024; Lopes et al., 2020; Mello & Nuernberg, 2012).

Apesar de a compreensão da deficiência ter avançado, ela ainda está associada a aspectos negativos (Shakespeare, 2018). São muitos os estigmas, estereótipos e preconceitos relacionados à deficiência. Estigmas são marcas socialmente percebidas como negativas, que passam a definir a identidade do indivíduo, obscurecendo suas demais características. No caso das PCDs, essa marca é a própria deficiência, frequentemente percebida como uma tragédia pessoal e como algo que ninguém deseja para si (Goffman, 1963).

Os estigmas contribuem para a perpetuação de estereótipos, entendidos como generalizações simplistas e preestabelecidas sobre indivíduos ou grupos (Crochik, 1996). No caso das PCDs, o estigma é a deficiência e, em decorrência desta, elas tendem a ser estereotipadas como coitadas, doentes, dependentes, vulneráveis, incapazes e improdutivas (Barnes, 1992; Campbell, 2009). Tais estereótipos tendem a desencadear o preconceito, definido como uma antipatia baseada em generalizações inflexíveis, que pode ser velada ou manifesta em atitudes discriminatórias (Allport, 1954).

O preconceito é uma barreira atitudinal que desencadeia opressão (Hunt, 1966), rotulagem, perda de status e discriminação (Link & Phelan, 2001). Ele pode ser a causa de muitas das dificuldades enfrentadas pelas PCDs, incluindo barreiras econômicas, culturais e arquitetônicas (Weid, 2018), além de barreiras de acessibilidade (Porte et al., 2022), bem como a falta de acesso a serviços de saúde (Castro et al., 2021) e ao lazer (Pérez-Garín et al., 2018).

O estigma e o preconceito atuam como intermediários das relações humanas. Eles são mantidos por forças emocionais (Dias, 2006), geram discriminação e possuem influência em situações de poder, controle e exclusão social (Parker, 2012). A discriminação ocorre quando indivíduos são excluídos ou privados de oportunidades devido a fatores relacionados ao estigma e aos estereótipos (Nalin & Silva, 2020). A discriminação é uma das formas mais comuns de violação e abuso dos Direitos Humanos, que afeta milhares de pessoas todos os dias (Brander et al., 2016).

2 MÉTODO

Esta pesquisa foi aprovada pelo Comitê de Ética em Pesquisa (CEP) com Seres Humanos do Setor de Ciências da Saúde da Universidade Federal do Paraná (UFPR), sob Parecer número 6.750.235. Ela foi de natureza quanti-qualitativa e exploratória. Produzimos os dados em uma escola localizada em uma cidade da região metropolitana de Curitiba - PR. Participaram voluntariamente do estudo 137 estudantes do 3º ao 5º ano do Ensino Fundamental, com a devida autorização de seus pais ou responsáveis, por meio do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE). A idade dos participantes variou entre 7 e 11 anos de idade, sendo 70 alunos do sexo masculino e 67 do sexo feminino.

Participaram do estudo alunos de sete turmas, com aproximadamente 19 estudantes cada. Os professores cederam parte de suas aulas para que realizássemos a pesquisa em suas salas de aula. Os alunos que não tinham autorização para participar, ou não quiseram participar, realizaram outras atividades durante esse período. Inspiradas em estudos anteriores, nos quais também analisamos percepções a respeito de PCDs (Colere et al., 2022; Colere & Souza, 2025; Souza et al., 2021), seguimos as mesmas dinâmicas em todas as turmas.

Inicialmente, entregamos um questionário impresso para cada criança, no qual perguntamos se elas sabiam o que é uma pessoa com deficiência e solicitamos que escrevessem as cinco primeiras palavras que lhes vinham à mente ao ouvir a expressão “pessoas com deficiência”.

Imediatamente após responderem ao questionário, conduzimos uma entrevista aberta baseada nas seguintes questões norteadoras: Quais foram as palavras que vocês escreveram? Poderiam falar um pouco sobre por que escolheram essas palavras? Para essa segunda pergunta, selecionamos algumas das palavras mencionadas para aprofundar o entendimento sobre o significado atribuído a elas. A entrevista teve a finalidade de aprofundar o nosso entendimento acerca das percepções dos participantes sobre as PCDs. Em todos os grupos, houve uma mediadora (autora principal) e uma pesquisadora auxiliar, que ajudou as crianças que não sabiam escrever e colaborou na organização da turma.

Registramos todos os encontros por meio de vídeos e áudios, que posteriormente foram transcritos e analisados. Realizamos uma análise quantitativa e descritiva dos dados produzidos por meio dos questionários e uma análise temática reflexiva (ATR) e indutiva do conjunto dos dados das entrevistas, considerando os principais temas observados nas falas dos participantes (Braun & Clarke, 2012, 2019). Inicialmente, lemos e relemos as transcrições para nos familiarizarmos com o conjunto de dados. Em seguida, codificamos os dados.

Depois, geramos os temas iniciais. Posteriormente, desenvolvemos e revisamos os temas. Na sequência, refinamos, definimos e nomeamos os temas. Por fim, articulamos a narrativa analítica com trechos dos dados e discutimos os resultados à luz da literatura existente. Nossa análise foi predominantemente indutiva; desse modo, embora tenhamos iniciado a pesquisa com uma base sólida nos estudos críticos da deficiência, permanecemos abertos a construir a maior parte do nosso referencial analítico com autores que melhor nos auxiliassem na interpretação e discussão dos dados. Usamos nomes fictícios para preservar a identidade dos estudantes.

3 RESULTADOS E DISCUSSÃO

Nos questionários, 34 participantes afirmaram não saber o que significa a expressão “pessoa com deficiência”, o que indica pouco contato direto ou indireto com pessoas com esse perfil. Vinte e nove crianças não escreveram nada durante a dinâmica das palavras. As 108 crianças que escreveram totalizaram 516 palavras/expressões. Assim, para as análises estatísticas, consideramos apenas as respostas dessas 108 crianças. Durante o processo de análise, agrupamos em categorias as palavras que apresentavam conotação similar. Especificamos esses casos no Quadro 1, a seguir, no qual apresentamos o número de ocorrências de cada palavra entre parênteses, na primeira coluna, e sua quantificação padronizada na segunda. Cinquenta e nove crianças não se manifestaram durante as entrevistas, mesmo quando procuramos incentivá-las a participar. Essa ausência de manifestação pode estar relacionada à timidez ou a outros fatores situacionais, como desconforto em falar em grupo. Portanto, nas análises qualitativas, consideramos as respostas de 78 participantes.

Quadro 1
Palavras padronizadas

Organizamos a apresentação e a discussão dos resultados em três tópicos principais, com base nos temas que se destacaram na escrita e na fala das crianças: (3.1) Foco nas marcas corporais das PCDs; (3.2) Foco nas supostas limitações das PCDs; (3.3) Predominância de sentimentos negativos em relação às PCDs.

3.1 FOCO NAS MARCAS CORPORAIS DAS PCDS

As crianças escreveram 192 palavras/expressões relacionadas a marcas corporais de PCDs (Quadro 2).

Quadro 2
Foco nas marcas corporais de PCDs

Durante as entrevistas, 32 crianças focaram em marcas corporais, como evidenciamos nos exemplos que seguem:

São pessoas deficientes, tem aquelas pernas de pauzinho, cegos, cadeirantes. (Gustavo, 9 anos, ênfases adicionadas)

As vezes não tem pernas, alguns não tem braço (...), tem que usar cadeira de rodas porque as pernas não podem funcionar. (Yasmin L., 8 anos, ênfases adicionadas)

A deficiência é apenas uma parte da identidade das PCDs. No entanto, elas têm sido histórica e majoritariamente percebidas a partir de seus comprometimentos (Goodley, 2013). Um número significativo de crianças (46,72%) demonstrou seguir essa tendência. Elas também demonstraram cometer o que Amaral (1998) denomina de “generalização indevida”, transformando o comprometimento de uma pessoa em sua totalidade. Ao concentrar a atenção nos comprometimentos, elas perderam de vista as habilidades, competências e potencialidades das PCDs, atribuindo-lhes uma espécie de “identidade deteriorada” (Goffman, 1963).

Quando pedimos às crianças que escrevessem o que vem à mente quando escutam a expressão “pessoa com deficiência”, a palavra “surdo” foi escrita 24 vezes, e “mudo”, 21 vezes. No entanto, há um movimento que defende que a surdez deve ser considerada como uma diferença cultural e linguística, e não uma limitação ou deficiência (Bisol & Valentini, 2011). Um dos estudantes, que relatou ser filho de pais surdos, destaca a problemática do preconceito e da discriminação em relação à comunidade surda:

Meu pai e minha mãe são surdos. (...). É igual o racismo, algumas pessoas não aceitam porque são pretas. É uma idiotice não aceitar a pessoa do jeito que ela é (...), e daí não gostam da pessoa que é surda. (Calleb, 10 anos)

Calleb compara o preconceito sofrido pelos pais ao racismo, ilustrando seu caráter injusto e ilógico. Ele destaca a falta de conhecimento como uma das principais razões da rejeição ou discriminação das pessoas surdas. Esse preconceito aparece em olhares de deboche ou surpresa quando observam alguém comunicando-se em Língua Brasileira de Sinais (Libras). Também se manifesta no uso de termos inadequados, como “mudo”, “mudinho” ou “surdo-mudo” (Araújo, 2020).

3.2 FOCO NOS SUPOSTOS PROBLEMAS E LIMITAÇÕES CAUSADOS PELA DEFICIÊNCIA

Conforme mostra o Quadro 3, houve 82 palavras/expressões que denotam supostas dificuldades, limitações e/ou incapacidades relacionadas às PCDs.

Quadro 3
Supostas dificuldades, limitações e incapacidades das PCDs

Nas entrevistas, 30 participantes expressaram percepções relacionadas a supostas incapacidades das PCDs:

Elas não podem fazer nada sem a ajuda das pessoas, elas ficam sozinhas e não podem fazer nada. (Giovana, 9 anos, ênfases adicionadas)

Eles não conseguem nada, as vezes não tem pernas, alguns não tem braço, eu acho triste, (...) eles não conseguem andar, tem que usar cadeira de rodas porque as pernas não podem funcionar. (Yasmin L., 8 anos, ênfases adicionadas)

Os estudantes demonstraram perceber as PCDs como limitadas e/ou incapazes. Quinze as rotularam como “especiais”. O uso desse termo geralmente está associado à percepção de que elas são incapazes, conforme este exemplo:

Fico triste por eles não conseguirem fazer as coisas. Eles são especiais e não sabem fazer muito bem as coisas. (Giovana, 9 anos)

Nem todos os comprometimentos geram incapacidades, dependência ou a necessidade de cuidados especiais. As PCDs podem ter habilidades e talentos em áreas específicas e podem contribuir em diferentes esferas. Autores associados ao modelo social da deficiência destacam que muitas das limitações enfrentadas pelas PCDs não são meramente resultado de seus comprometimentos. Estas são frequentemente atribuídas a processos de estigmatização, preconceito, exclusão, opressão e falta de acessibilidade (Campbell, 2008; Gaudenzi & Ortega, 2016; Oliver, 2004; Wendell, 1989).

Durante a dinâmica das palavras, 19 crianças escreveram 31 termos relacionados a neurodivergências e/ou problemas de saúde física e/ou mentais (Quadro 4).

Quadro 4
Neurodivergências e/ou problemas de saúde física e/ou mentais

Alguns alunos demonstraram confundir a deficiência com problemas de saúde e explicitaram algumas de suas supostas consequências:

Têm vários tipos de deficiência. Algumas podem até fazer as pessoas morrerem e elas não podem viver a vida como os outros, elas têm que ficar num hospital todos os dias. (Murilo, 9 anos, ênfases adicionadas)

Eu sinto pena das pessoas porque as vezes elas querem fazer algumas coisas e elas não podem fazer por causa da doença que elas têm. (Juliana, 9 anos, ênfase adicionada)

O enfoque das crianças nos comprometimentos e nas supostas dificuldades das PCDs tem origem no modelo médico da deficiência. As PCDs podem ficar doentes, assim como qualquer outra pessoa. Contudo, a deficiência em si não é sinônimo de doença (Clemente, 2015; Memória, 2020). Embora a deficiência possa estar associada a doenças em alguns casos, ela não é uma enfermidade. Trata-se de uma condição, geralmente permanente, que precisa ser reconhecida como uma característica que representa uma das formas de existir enquanto ser humano (Fernandes & Lippo, 2013).

Onze estudantes demonstraram associar a deficiência a traços de personalidade e/ou comportamentos negativos, conforme mostra o Quadro 5.

Quadro 5
Traços de personalidade e/ou comportamentos negativos

Nas entrevistas, constatamos que o contato prévio de algumas crianças com PCDs e/ou com pessoas neurodivergentes com as características mencionadas pode ter influenciado negativamente suas percepções sobre o grupo de PCDs como um todo:

Eu escrevi bravo e agressivo porque meu primo é deficiente e ele é bem agressivo e bravo. (Brenda, 10 anos)

É triste ver eles assim, porque tem gente que é deficiente e irrita os outros, mas ele não sabe por que está fazendo isso. (Emerson, 10 anos, tem um amigo com deficiência)

As outras crianças não explicaram o porquê de associarem tais termos às PCDs. Talvez a forma como a mídia retratava e, em alguns casos, ainda retrata as PCDs tenha influência nisso. Personagens com deficiência em livros infantis frequentemente foram - e, em alguns casos, ainda são - retratados como vilões. Exemplos disso incluem o malévolo Capitão Gancho, de “Peter Pan” (Dowker, 2013; Shakespeare, 2018), e o amargo personagem “O Corcunda de Notre Dame” (Silva et al., 2016). Hilgemberg (2021) cita exemplos de filmes como “Duas Caras”, “Batman” e “GoldenEye”, que, segundo a autora, reforçam a associação entre a deficiência dos personagens e características como maldade e traição. As PCDs são seres humanos como quaisquer outros: são capazes de brilhantismo e fracasso, bondade e crueldade. Embora a deficiência possa influenciar o caráter, ela não o determina (Shakespeare, 2018).

3.3 PREDOMINÂNCIA DE SENTIMENTOS NEGATIVOS ASSOCIADOS àS PCDS

Sessenta e sete participantes escreveram 145 termos relacionados a sentimentos negativos, conforme apresenta o Quadro 6.

Quadro 6
Sentimentos negativos

Nas entrevistas, 36 crianças compartilharam essa percepção e pareceram sentir tristeza e/ou pena das PCDs por acreditarem que estas são incapazes:

Eu sinto dó porque elas não queriam estar desse jeito, (...) porque elas estão sem alguma parte do corpo, elas não podem fazer algumas coisas. Por exemplo, quem não tem a parte das pernas, quem não tem as pernas não pode correr, pular. (Enzo, 10 anos, ênfases adicionadas)

É triste porque elas não podem fazer nada, elas vão ser solitárias. Quando elas forem partir daqui a vida delas não valeu a pena. (Gabriel, 9 anos, ênfases adicionadas)

A tristeza é uma emoção básica do ser humano e “está associada à perda de algo, de alguma pessoa querida, ou do que é valorizado: bens, saúde, situações pessoais e familiares, etc.” (Gonsalves, 2015). Tais sentimentos estão relacionados ao estereótipo do “coitado” ou ao “estigma do coitadinho”. As próprias crianças escreveram a palavra “coitada” quatro vezes e “coitadinha”, duas vezes. Esse estereótipo, conforme alguns autores, degrada e desumaniza as PCDs (Martins & Barsaglini, 2011), pois o foco recai unicamente na deficiência e em supostos problemas decorrentes dela (Figueiredo, 2014; Poffo et al., 2017). As crianças também expressaram que o sentimento negativo decorre da percepção de que, por serem supostamente incapazes, são também dependentes:

[É triste] porque as pessoas precisam de ajuda, não conseguem entender, não conseguem ouvir então elas precisam de ajuda para tudo. (Cesar Gabriel, 10 anos, ênfases adicionadas)

Eu tenho muito dó. As pessoas precisam cuidar delas [as PCDs] porque elas ficam doentes e não conseguem se cuidar direito. (Giovana, 8 anos, ênfases adicionadas)

[É triste porque] elas não podem fazer nada sem a ajuda das pessoas. (Giovana N., 9 anos, ênfases adicionadas)

A dependência de ajuda de terceiros é considerada negativa em sociedades que valorizam a independência (Morris, 1993). A percepção de que as PCDs são um fardo para a sociedade é um exemplo de atitude negativa comumente associada a esse grupo (Morin et al., 2013). Pesquisadoras dos estudos sobre a deficiência ressaltam que a vulnerabilidade e a dependência são aspectos integrantes da vida de todos os seres humanos. Todos precisamos ser cuidados, na infância, na velhice ou em situações de fragilidade. Portanto, a necessidade de cuidados não deve ser vista como algo negativo, mas sim como algo natural (Diniz, 2007; Fietz & Mello, 2018; Mello & Nuernberg, 2012; Morris, 1993; Wendell, 1989).

Durante as entrevistas, sete pessoas demonstraram acreditar que as PCDs são tristes, como se pode observar nos exemplos a seguir:

[Tenho pena porque] eu acho que tem um pouco mais de tristeza. Porque quem é cego, eu estava imaginando esses dias, vê tudo preto! Sem conseguir ver nada! (Lorenzo, 9 anos, ênfase adicionada)

[É triste porque] elas não conseguem andar, são cegas. Eu acho que elas se sentem muito tristes. (Enzo, 10 anos, ênfase adicionada)

A associação entre deficiência, incapacidade e dependência contribui para a percepção de que as pessoas com deficiência são infelizes (Shakespeare, 2018). Essa visão decorre do estigma, que influencia a maneira como a deficiência é interpretada, levando algumas pessoas a associá-la à tristeza e à limitação (Goffman, 1963).

A palavra “medo” foi mencionada três vezes, mas nenhuma das crianças que a escreveu conseguiu expressar a razão desse sentimento quando as inquirimos durante as entrevistas. Conforme aponta Campbell (2009), uma possível explicação para o medo diante das PCDs pode estar relacionada a determinadas características estéticas do corpo de pessoas com deficiências mais severas ou à percepção de falta de controle sobre o corpo, características presentes em algumas condições e que desafiam as normas hegemônicas de corporeidade. Ainda segundo a autora, outra hipótese é que esse medo pode emergir do confronto com a possibilidade de, em algum momento, também se tornar uma PCD.

Das 516 palavras/expressões escritas, somente 48 possuem conotação positiva e/ou neutra, como mostra o Quadro 7.

Quadro 7
Sentimentos positivos

Apenas sete das 21 crianças utilizaram exclusivamente termos com conotação positiva. As outras 14 também escreveram palavras como “pena”, “tristeza”, “problema”, “agressivas”, “coitadas” e “doentes”, sugerindo que, mesmo ao empregar algumas palavras positivas, suas percepções sobre a deficiência não são necessariamente positivas.

Durante as entrevistas, oito crianças demonstraram ter consciência de que as PCDs sofrem preconceito. Vide, por exemplo, as seguintes passagens

Um dia [as PCDs] estão muito bem e outro eles andam de rodas e todo mundo ri deles. (Rishi, 9 anos, ênfase adicionada)

[A PCD se sente triste porque] os outros ficam debochando da cara dela, [dizendo que] ela não é igual as outras pessoas. (Ketlyn, 11 anos, ênfase adicionada)

Os julgamentos e os deboches que as crianças comentaram são um tipo de preconceito que se caracteriza como violência psicológica contra PCDs (Mendes et al., 2020). Esse tipo de discriminação pode ser enquadrado como bullying. O bullying é um tipo recorrente de agressão que causa dor e angústia à vítima, podendo acarretar depressão, isolamento, baixa autoestima e suicídio (Leão, 2010). Cinco crianças citaram consequências da discriminação, como podemos observar nos exemplos que seguem:

Alguns são vesgos, alguns não tem partes do corpo (...), não conseguem falar direito e daí rejeitam eles. Por isso que alguns são muito necessitados, porque em alguns empregos que eles precisam, eles são rejeitados. (Emanuele, 9 anos, ênfase adicionada)

As pessoas com deficiência, igual minha prima que não consegue ver com uma parte do olho, elas se sentem humilhadas. Quando ela tira foto ela sempre tampa a parte do olho. As pessoas tiram sarro. (Ana Julia, 9 anos, ênfase adicionada)

Tem gente que fica rindo delas, elas devem se sentir muito mal e acaba prejudicando. Ela acaba se trancando dentro de casa e não quer mais sair por causa dessas pessoas. (Ana Clara, 10 anos, ênfase adicionada)

Tem algumas que são cadeirantes e não podem andar, não podem fazer coisas que outras pessoas que andam fazem. Daí algumas pessoas excluem essas pessoas e essas pessoas ficam muito tristes e podem até se matar por causa disso. (Calleb, 10 anos, ênfase adicionada)

Conforme podemos observar nos grifos nas falas das crianças acima citadas, elas demonstraram ter consciência de que atitudes discriminatórias têm consequências na vida das PCDs, citando a dificuldade de acesso ao mercado de trabalho, vergonha, isolamento social e suicídio, respectivamente. As PCDs enfrentam uma série de barreiras atitudinais, econômicas, sociais, arquitetônicas (Weid, 2018) e de acessibilidade (Porte et al., 2022). Tais barreiras geram exclusão social (Dias, 2006) e baixa autoestima (Reis et al., 2019). Elas não dificultam somente o acesso ao mercado de trabalho (Carmo et al., 2020), mas também à saúde (Castro et al., 2021) e ao lazer (Pérez-Garín et al., 2018).

As barreiras enfrentadas por PCDs também podem resultar em períodos prolongados de isolamento social (Costa, 2020; Ferreira & Oliver, 2010; Silva & Alves, 2021). Este, por sua vez, pode decorrer da dificuldade de acesso a espaços sociais (Ferreira & Oliver, 2010) ou da tentativa de evitar situações de preconceito (Colere et al., 2022). O isolamento pode gerar sentimentos de desconfiança, depressão, hostilidade, ansiedade e confusão (Goffman, 1963), afetando a saúde mental (Costa, 2020) e dificultando o contato entre pessoas com e sem deficiência, o que interfere negativamente no processo de aceitação e inclusão social de PCDs (Wendell, 1989).

Uma das entrevistadas - Ana Julia - comentou, anteriormente, que sua prima possui uma deficiência visual e tenta esconder o seu comprometimento, pois tem vergonha de sua aparência. Os padrões corporais socialmente valorizados fazem com que muitas PCDs tentem encobrir a sua deficiência (Campbell, 2009). Muitas delas se sentem envergonhadas, pois incorporam estereótipos sociais e passam a acreditar que são, de fato, “defeituosas” (Campbell, 2009). O ocultamento da deficiência, quando possível, ajuda-as a evitar situações preconceituosas que podem ser dolorosas e constrangedoras (Wagner et al., 2010).

Três crianças, ao mesmo tempo em que criticaram o preconceito e a discriminação existentes contra as PCDs, revelaram perceber a deficiência como um “problema”:

Ninguém é mais do que ninguém só por causa que tem deficiência. (...). Não precisa ficar julgando o problema dos outros. (João Pedro, 10 anos, ênfase adicionada)

[As PCDs] são muito “zoadas”, mas para mim não tem problema. Ela é um ser humano, não tem perna, mas é gente! Só muda que tem uma deficiência, um problema ou alguma coisa assim. (Evelyn, 8 anos, ênfase adicionada)

Não sou muito chegado em ver essas pessoas que tem problema, eu fico com dó. (Enzo, 9 anos, ênfase adicionada)

A deficiência não deve ser encarada como um problema. Ela faz parte da variabilidade das diferentes formas de existir, tal como raça, gênero, etnicidade ou sexualidade; é, assim, uma forma legítima de estar no mundo (Titchkosky & Michalko, 2009). Precisamos resistir à normativa de que a deficiência precisa ser consertada e conceber outras formas de percebê-la e de nos relacionarmos com ela (Titchkosky & Michalko, 2009).

4 CONCLUSÕES

Na primeira dinâmica, as crianças produziram um total de 516 palavras/expressões, das quais a maioria se referia a comprometimentos físicos (46,82%) e supostas limitações das PCDs (43,06%). Elas demonstraram confundir deficiência com doenças e transtornos (13,87%), além de associarem a deficiência a traços de personalidade ou comportamentos negativos (8,03%). Apenas 15,33% dos termos escritos manifestaram sentimentos e atributos positivos. Durante as entrevistas, as falas concentraram-se principalmente em marcas corporais da deficiência (23,36%), sentimentos negativos (23,28%) e supostas dificuldades e limitações das PCDs (21,89%). A maioria dos participantes demonstrou perceber as PCDs como incapazes de ter uma vida plena e manifestou sentimentos de pena e tristeza ao pensar nelas. Em ambas as dinâmicas, o foco predominante foi no comprometimento, um aspecto que faz parte da identidade da PCD, mas que, no discurso das crianças, esteve associado à limitação e à diferença, desconsiderando outros atributos dessas pessoas.

Esta pesquisa evidenciou que as percepções das crianças participantes foram majoritariamente negativas, permeadas por estereótipos e associações da deficiência a aspectos negativos. Os dados sugerem uma tendência à internalização precoce de preconceitos, estigmas e sentimentos negativos em relação às PCDs. Esse cenário reforça a necessidade de intervenções educativas que problematizem percepções negativas e enfrentem a desinformação sobre a deficiência. Dessa forma, torna-se fundamental a implementação de estratégias pedagógicas que favoreçam uma compreensão crítica e ampliada da deficiência, reconhecendo-a como uma expressão da diversidade humana e considerando as múltiplas dimensões das experiências vividas por PCDs, para além das limitações corporais ou funcionais que com frequência lhes são atribuídas.

Embora os resultados deste estudo não possam ser generalizados, eles sugerem que estereótipos e preconceitos sobre as PCDs são incorporados desde cedo. Assim, torna-se essencial o desenvolvimento de práticas pedagógicas que combatam estigmas, estereótipos e preconceitos e promovam uma compreensão mais informada e realista da deficiência. Sugerimos a realização de novos estudos que considerem como diferentes marcadores sociais, tais como gênero, raça e nível socioeconômico, influenciam a forma como as PCDs são percebidas. Outros estudos também são necessários em diferentes ambientes para melhor compreendermos como estudantes, em diferentes contextos e níveis educacionais, percebem a deficiência.

  • 2
    Subvenção: Esta pesquisa foi realizada com o apoio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior - Brasil (CAPES) - Código de Financiamento 001.

Disponibilidade de dados

Todo o conjunto de dados que deu suporte aos resultados deste estudo foi publicado no próprio artigo.

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  • Editores responsáveis
    Aline Maira da Silva (Editora-chefe)
    Gilmar de Carvalho Cruz (Editor associado)

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    12 Jun 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    27 Mar 2025
  • Revisado
    19 Dez 2025
  • Aceito
    30 Dez 2025
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