Open-access Arte e literatura: envolvimento de estudantes para formação humana e desenvolvimento de habilidades médicas

RESUMO

Introdução:  As artes são capazes de estimular os alunos a usarem a própria imaginação, o que proporciona o desenvolvimento de novas perspectivas e o pensamento crítico e criativo, importantes na resolução de problemas no exercício profissional. Para além da obtenção de conhecimento técnico, as artes favorecem uma postura ética e profissional, pautada na escuta, na sensibilidade, na empatia e no compromisso. Uma boa relação médico-paciente deve-se a um profundo humanismo do profissional, resultando em uma melhor coleta da história clínica e levando-o a realizar manejos mais assertivos, eficazes e racionais.

Objetivo:  Este estudo teve como objetivo avaliar o envolvimento e o interesse artístico e literário dos estudantes de Medicina de uma instituição de ensino superior e a opinião deles sobre a importância desse envolvimento durante a graduação para a formação humana e o desenvolvimento de habilidades médicas.

Método:   Trata-se de um estudo do tipo descritivo transversal, realizado no segundo semestre de 2022, na cidade de Fortaleza, capital do Ceará, por meio de um questionário elaborado especificamente para esse fim. O trabalho segue os aspectos éticos com o CAAE nº 38707720.0.0000.5049.

Resultado:  Dentre os 200 participantes da pesquisa, 92,5% acreditam que arte e literatura são importantes na formação médica. Entretanto, apenas 38,5% demonstraram interesse em participar de grupo extracurricular que aborde o estudo das artes. Observou-se que aproximadamente 60% dos estudantes que desenvolviam alguma atividade artística a interromperam em decorrência do início do curso. Além disso, 56,5% acreditam que cursar Medicina os impossibilita de se envolver em atividades artísticas e literárias devido à falta de tempo ou de disposição em decorrência da rotina imposta pela graduação médica.

Conclusão:   Apesar de uma considerável parte dos estudantes de Medicina concordar com a importância das artes e da literatura na formação médica, muitos ainda não estão dispostos a experienciar isso durante o processo de aprendizagem, sendo essencial um maior incentivo desse envolvimento, tendo em vista a importância das artes e da literatura na formação humana do médico.

Palavras-chave:
Arte; Literatura; Ensino; Papel do Médico; Desenvolvimento Humano

ABSTRACT

Introduction:   the arts are capable of stimulating students to use their imagination, which allows them to develop new perspectives and critical and creative thinking, which are important for solving problems in professional practice. In addition to obtaining technical knowledge, the arts encourage an ethical and professional attitude based on listening, sensitivity, empathy, and commitment. A good doctor-patient relationship is based on deep humanism on the part of the professional, resulting in a better collection of the clinical history and leading to more assertive, effective, and rational management.

Objective:  to assess medical students’ artistic and literary involvement and interest at a higher education institution and their opinion on the importance of this involvement during their undergraduate studies for human formation and the development of medical skills.

Methods:   this is a cross-sectional descriptive study carried out in 2022.2 in Fortaleza-CE, using a questionnaire designed specifically for this purpose. The study complies with ethical standards under CAAE 38707720.0.0000.5049.

Results:  of the 200 participants in the survey, 92.5% believe that art and literature are important in medical training. However, only 38.5% showed an interest in taking part in an extracurricular group addressing the study of the arts. It was observed that approximately 60% of the students involved in some kind of artistic activity stopped as a result of starting the course. Moreover, 56.5% believe that studying medicine makes it impossible for them to get involved in artistic and literary activities due to the lack of time or disposition as a result of the routine imposed by the medical degree.

Conclusion:   although a considerable proportion of medical students agree with the importance of the arts and literature in medical training, many are still unwilling to experience this during the learning process, and greater encouragement of this involvement is essential, given the importance of the arts and literature in the human formation of doctors.

Keywords:
Art; Literature; Teaching; Physician’s Role; Human Development

INTRODUÇÃO

Desde sua origem, a medicina é parte importante da humanidade, como as artes, a filosofia e a história, tendo-se distanciado dessas áreas em decorrência dos avanços científicos e tecnológicos, o que, inevitavelmente, gerou um afastamento também dentro do âmbito educacional1),(2.

Nesse escopo, é válido lembrar que a prática médica não só existe desde os primórdios, como também a palavra “medicina” é derivada do latim, que significa “a arte de curar”. Tal fato é debatido de maneira consistente no tratado Sobre a arte médica, sendo uma das 52 obras que compõem a Coleção Hipocrática, conjunto de manuscritos científicos do mundo grego datados de um período que se estende a partir do século V a.C3.

Tal obra, de autoria não completamente definida, defende que a medicina seja vista como a arte médica, sendo o médico o seu artesão. Isso é embasado no fato de que a medicina é um conhecimento ensinado e transmitido, possuindo uma forma visível definida e própria. Ela se debruça sobre o porquê das doenças, o seu processo natural e a sua terapêutica. Assim, não se pode negar que algo é arte quando pode ser pensado, falado, observado e praticado3. Ainda nesse sentido, é importante pontuar que, de acordo com Hipócrates, a arte médica engloba três pontos importantes, que seriam a enfermidade, o enfermo e o médico4.

No que diz respeito às artes como um todo, elas são capazes de estimular os alunos a usar a própria imaginação, o que proporciona o desenvolvimento de novas perspectivas e o pensamento crítico e criativo, importantes na resolução de problemas no exercício profissional1),(5.

Nesse sentido, o aprimoramento do pensamento crítico possibilitado pela arte é essencial no raciocínio médico, pois ajuda em decisões que necessitam de julgamento clínico e científico, de maneira racional, trazendo a capacidade de olhar de forma clara sob vários pontos de vista6),(7.

Atividades artísticas têm o poder de aperfeiçoar habilidades importantes no processo de aprendizagem, como observação, expressão, interação social, atenção e persistência, sendo uma significativa forma de estímulo cognitivo, além de fortalecer as práticas discentes, estimulando uma comunicação mais efetiva e uma postura mais confiante1.

Além da obtenção de conhecimento técnico, as artes favorecem uma postura ética e profissional, pautada na escuta, na sensibilidade, na empatia e no compromisso1),(8),(9. Tal fato se explica pelos estímulos presentes no envolvimento artístico, que aguçam os sentidos, como visão e audição, sendo eles essenciais na construção de uma boa relação entre médico e paciente1.

Em sua obra intitulada A roda da vida, a psiquiatra Elisabeth Kübler-Ross (in memoriam) ressalta que, apesar de a medicina apresentar limites, muitas vezes esse fato pode ser contornado por um médico que age com compaixão, sensibilidade, zelo, ternura, bondade, amor, compreensão e desejo de ajudar10.

Uma boa relação médico-paciente se deve a um profundo humanismo do profissional, resultando em uma melhor coleta da história clínica e levando-o a realizar manejos mais assertivos, eficazes e racionais. Essa aproximação com o doente o deixa mais seguro para confiar nas condutas e aderir ao tratamento adequado11. A participação das artes na educação médica ajuda no desenvolvimento dessa comunicação que precisa ser estabelecida entre médico e paciente12.

As diferentes artes podem contribuir para a formação humana do médico. Como exemplo, pode-se pensar que o envolvimento literário com romances e poesia é capaz de despertar a sabedoria ao estimular um olhar voltado para as vivências humanas12)-(15.

Nesse contexto, percebe-se a relevância do presente estudo, que se propõe a debruçar-se sobre um tema ainda pouco abordado no ensino médico brasileiro. Para tal, objetiva-se avaliar o envolvimento e o interesse artístico e literário dos estudantes de Medicina de uma instituição de ensino superior e a opinião deles sobre a importância desse envolvimento durante a graduação para a formação humana e o desenvolvimento de habilidades médicas.

MÉTODO

Desenho do estudo

Trata-se de um estudo do tipo descritivo transversal, sendo realizado, no período do segundo semestre de 2022, um levantamento de dados por meio de questionário previamente elaborado, para posterior análise estatística dos dados obtidos.

Local, população e amostra

A pesquisa contemplou estudantes de Medicina, de todos os semestres da graduação, de uma instituição de ensino superior particular de Fortaleza, a qual oferta diversos cursos de ensino superior nas mais diversas áreas, sendo reconhecida por sua qualidade diante das avaliações do Ministério da Educação.

Inicialmente, foi realizado, em julho de 2022, um estudo-piloto com um questionário desenvolvido especificamente para essa pesquisa, o qual será descrito adiante. Tal ferramenta foi aplicada a 20 estudantes, escolhidos por conveniência, objetivando-se estipular, estatisticamente, o tamanho amostral final. Para o cálculo amostral, considerou-se uma prevalência de 55%, conforme estudo-piloto realizado especificamente para esse fim com (n) = 20, além de nível de significância de 5% e poder do teste de 80%, chegando-se a um (n) de 79 participantes. Foram abordados 80 estudantes para cobrir possíveis perdas. Utilizou-se para o cálculo o software EpiInfo, v 7.3.2.1, CDC, Atlanta.

Critérios de inclusão e de exclusão

Como critério de inclusão, foram considerados alunos regularmente matriculados no curso de Medicina. Os critérios de exclusão abrangeram aqueles que não faziam parte do corpo discente da instituição ou que não estavam disponíveis para participar do estudo. Assim, desconsideraram-se alunos de outras instituições de ensino, que não pertenciam ao curso de Medicina, que não estavam com a matrícula ativa durante sua realização ou que não queriam participar da pesquisa.

Coleta dos dados e variáveis

Após aprovação do projeto inicial pela instituição de ensino, a pesquisa fez o levantamento do perfil de envolvimento artístico e literário dos estudantes de Medicina. Ratifica-se a aplicação do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE) antes da realização do questionário pelos alunos16.

Foi utilizada ferramenta desenvolvida para este estudo, composta de perguntas objetivas e subjetivas que englobaram informações como: identificação (iniciais do nome, semestre, idade, sexo); envolvimento em atividades artísticas e literárias no passado; envolvimento em atividades artísticas e literárias no presente; tipo de envolvimento artístico (leitura, escrita, fotografia, desenho, pintura, costura, dança, teatro, canto, instrumentos musicais, entre outros); perfil, comportamentos e interesses (influência familiar, visitas a museus e a pontos turísticos e históricos, frequentação de livrarias, participação de clubes do livro, assiduidade em cinemas, entre outros); compatibilidade entre a graduação médica e a prática de atividades artísticas; importância das artes na graduação médica.

Os alunos foram apresentados à pesquisa em sala de aula, em momento previamente agendado, e ao questionário elaborado no Google Forms®, disponibilizado on-line por link ou QR Code, via WhatsApp®.

A coleta de dados foi encerrada ao final do período letivo de 2022, em dezembro, momento a partir do qual se iniciou o estudo estatístico das informações obtidas.

Análise estatística

Os resultados quantitativos categóricos foram apresentados em forma de percentuais e contagens, e os numéricos, em forma de medidas de tendência central. Realizaram-se testes de normalidade de Kolmogorov-Smirnov para as variáveis numéricas. Os dados obtidos na coleta foram tabulados e analisados pelo software SAS 9.4 M7, SAS Inc. A pesquisa seguiu os preceitos éticos com CAAE nº 38707720.0.0000.5049.

RESULTADOS

O questionário desenvolvido foi aplicado a um total de 200 alunos. A média de idade dos participantes foi de 24,6 anos, tendo as idades uma variação de 20 a 28 anos. A participação do sexo feminino correspondeu a 76,5%, contrapondo os 23,5% do sexo masculino. Como abordado a seguir (Gráfico 1), 55% dos alunos estavam cursando do primeiro ao sexto semestre, sendo os outros 45% estudantes do sétimo ao 12º semestre.

Gráfico 1
Participantes do estudo por semestre, em porcentagem.

No que tange ao desenvolvimento de atividades artísticas e literárias no passado, apenas 21,5% dos alunos responderam que nunca tiveram envolvimento. Os outros 78,5% apresentaram distribuição ilustrada no Gráfico 2, de modo que era possível selecionar mais de uma opção. Entre aqueles que tinham envolvimento artístico, aproximadamente 60% deles demonstraram ter interrompido em decorrência do início do curso de Medicina.

Gráfico 2
Envolvimento dos participantes em atividades artísticas no passado.

Com relação ao hábito da leitura, 72% dos alunos demonstraram praticá-lo, dos quais 26,5% leem mais de cinco livros ao ano e 45,5% menos de cinco livros ao ano, em contraponto aos 28% que não costumam ler. A seguir, mostram-se os gêneros e as temáticas literárias mais escolhidos pelos participantes (Gráfico 3), de modo que era possível selecionar mais de uma opção.

Gráfico 3
Preferências literárias dos participantes.

Entre todos os participantes, 86% responderam “sim” para a pergunta “Você se considera uma pessoa que gosta de artes?”, e 48,5% demonstraram ter tido influência de algum familiar no interesse artístico. Sobre o contato com os diversos tipos de arte, 86,5% marcaram que frequentam museus ou pontos turísticos históricos em viagens; 76,5% afirmaram frequentar livrarias; 23,5% demonstraram ter participado de clube de leitura em algum momento da vida; 37,5% alegaram frequentar o cinema mensalmente; 90,5% afirmaram gostar de ouvir música; e 42% marcaram que escutam música ao estudarem. O Gráfico 4 apresenta as atividades artísticas praticadas pelos alunos durante o período de desenvolvimento do presente estudo, de modo que era possível selecionar mais de uma opção.

Gráfico 4
Envolvimento dos participantes em atividades artísticas no período de desenvolvimento da pesquisa.

Os estudantes foram questionados quanto à importância das artes e da literatura na formação médica, de maneira que 92,5% deles responderam acreditar que elas são relevantes nesse contexto. Dentre os participantes, 38,5% demonstraram interesse em participar de grupo extracurricular que aborde o estudo das artes. Observou-se que 56,5% acreditam que cursar Medicina os impossibilita de se envolver em atividades artísticas e literárias devido à falta de tempo ou de disposição em decorrência da rotina imposta pela graduação médica.

Foi solicitado que os alunos respondessem, de maneira subjetiva, o porquê de pensarem de tal maneira acerca da importância das artes e da literatura no contexto da formação médica. A seguir, destacam-se algumas respostas, ocultando a identidade dos participantes por meio de pseudônimos que representam grandes escritores brasileiros. Ratifica-se que os participantes escreveram de maneira individual e pessoal, sem influência teórica do presente estudo.

Devido às habilidades que as artes desenvolvem: percepção do outro, sensibilidade, olhar detalhista, habilidades manuais, ampliação da visão de mundo e, especialmente, porque as artes favorecem a saúde mental (Rachel de Queiroz).

Para que a gente possa ver a medicina não apenas de forma pragmática e objetiva, mas como algo que nos coloque como parte do meio em que vivemos, da natureza, e algo que nos ajude a descobrir nossos propósitos de vida (Carlos Drummond de Andrade).

Sempre acreditei que a arte e a imaginação devem fazer parte da formação acadêmica para que possamos compreender e entender o outro como um todo, levando em consideração hábitos, culturas, estilo de vida. A arte faz parte da construção do ser humano, da ciência, desse modo, é importante para a formação médica (Clarice Lispector).

As artes e a literatura fazem parte da riqueza cultural de qualquer pessoa, e, acrescidas à medicina, podem trazer melhor desenvolvimento de raciocínio e descrição das histórias clínicas (José de Alencar).

Uma formação médica de qualidade precisa ir além do conteúdo clínico, ou seja, também carece de aspectos humanos, socializadores, culturais, para melhor lidar com o ser humano, de forma mais sensível. A arte desperta sentimentos, emoções, valores que são essenciais para uma pessoa, tanto no aspecto pessoal quanto profissional (Cecília Meireles).

Segundo Schopenhauer, a arte, ao destituir o sujeito de seus desejos insatisfeitos, torna-o feliz. A título de ilustração, ele dizia que a música fala as emoções pelos sons; ela é magnânima. Por isso, acredito que as artes são alimento para a alma, são transcendentes. Sem elas, destituímo-nos do que nos faz humanos: a subjetividade. Assim, necessitamos ser humanos para cuidarmos dos outros e, sem as artes, isso é muito difícil (Machado de Assis).

Para a autonomia enquanto ser humano, as vivências artísticas são fundamentais por nos convocarem a exercitar o posicionamento crítico e manter a capacidade sensível aguçada. Pela arte, podemos alcançar a fina flor da nossa humanidade, sermos mais tolerantes e agradáveis de conviver. Como médicos, podemos nos aproximar da ética pela ótica do posicionamento crítico frente à realidade e não nos deixarmos conter e pautar, sem reflexão, pela moral, ou pela maioria (Cora Coralina).

DISCUSSÃO

A participação dos alunos do internato foi nitidamente menor, representando apenas 8,5%, o que pode ser reflexo da dificuldade em acessar esse público, que não está mais convivendo dentro do ambiente acadêmico da faculdade devido aos estágios, mas também pode significar um menor interesse desses alunos em participar da pesquisa.

Observou-se que o sexo feminino representou 76,5% do total de participantes do estudo, o que, não necessariamente, significa que o sexo masculino tem menor interesse por atividades artísticas, mas demonstra maior colaboração do sexo feminino na participação da pesquisa. Dentro desse contexto, cabe citar ainda que, de acordo com o Conselho Federal de Medicina, na demografia médica do Brasil de 2020, as mulheres já representam maioria nos cursos de graduação em Medicina, o que também pode ter impacto na maior participação delas na pesquisa17.

A média de idade dos participantes foi de 24,6 anos, sendo interessante pontuar que, ainda de acordo com o censo demográfico supracitado, a medicina se mostra como uma profissão cada vez mais jovem, de modo que, em 2019, 36,3% dos concludentes dos cursos médicos do Brasil tinham até 24 anos de idade17.

Em uma das perguntas do questionário, foi possível observar que a maior parte dos entrevistados (48,0%) interrompeu atividades artísticas desenvolvidas antes do ingresso na Medicina, tendo como justificativa o início do curso. Com isso, percebe-se a necessidade de quebrar o paradigma de que a medicina é incompatível com outras atividades de cunho artístico.

Existe uma relação direta entre o ingresso no curso de Medicina e o comprometimento da saúde mental. Isso ocorre devido a fatores associados ao estresse, os quais podem influenciar negativamente no bem-estar físico e mental dos alunos, como a pressão acadêmica por excelência e a extensa carga horária, além do maior acesso a substâncias psicotrópicas. Nesse sentido, foi relatada uma prevalência de 50% de algum transtorno mental nessa população, sendo o transtorno depressivo o mais frequente. Pontua-se a necessidade de incentivo às atividades físicas e artísticas, tendo como objetivo uma maior qualidade de vida18.

No que concerne à literatura, observou-se que uma parte significativa dos alunos (72%) tem o hábito de ler obras que não são da área médica. Sabe-se que a leitura não serve apenas como entretenimento e uso acadêmico, mas para a construção de uma capacidade intelectual e crítica, trazendo, assim, uma visão ampla do mundo19. Fazendo o elo entre esse pressuposto e a medicina, a formação do pensamento crítico ajuda no desenvolvimento de um raciocínio clínico e na tomada de decisões para cada paciente, porque permite enxergar a mesma situação sob diversas perspectivas7.

O médico que se depara, constantemente, com dilemas que envolvem a vida e a morte, separados, muitas vezes, por uma linha tênue, encontra, na literatura, uma importante fonte de aprendizado, que estimula a sensibilidade, a curiosidade e o olhar para o que é essencial, além de proporcionar saúde mental20. Ainda sob essa ótica, a literatura é ponte para o desenvolvimento da empatia, pois não só possibilita a imersão em diversas experiências humanas, como também desperta a paciência, a tolerância e a habilidade de lidar com limitações e situações imprevisíveis21.

Neste estudo, 86% dos participantes demonstraram gostar de artes. Entretanto, são poucos os que costumam praticá-la no dia a dia, necessitando de um maior estímulo, seja da instituição de ensino, seja da família, a fim de que a arte esteja presente na rotina, nas suas mais diversas formas.

A participação em espetáculos artísticos, por exemplo, pode auxiliar os estudantes na forma de explorar os próprios sentimentos e desenvolver novas formas de pensar. Além disso, auxilia na construção da sua autoconfiança, importante para o desenvolvimento pessoal e uma base essencial na interação com os pacientes12,22. O envolvimento dos estudantes de Medicina com as obras de arte possibilita o desenvolvimento de estratégias de pensamento visual, que ajudam na melhora da capacidade de raciocínio clínico, tornando o aprendizado agradável e significativo23.

A humanização da medicina é uma condição de sucesso para o profissional de saúde, perpassando a obrigação educacional. Sobre isso, o contato do médico com as artes reforça a sua identidade vocacional, sendo para o médico em formação um auxílio na elaboração dessa identidade. Por meio delas, é mais fácil lidar com as limitações inerentes à condição humana, acolher a dor e a morte, sem perder o entusiasmo pela profissão24.

No que concerne à importância das artes e da literatura para a formação médica, apesar de 92,5% dos alunos mostrarem acreditar na relevância dessa relação, apenas 38,5% do total de participantes apresentou interesse em participar de grupo extracurricular voltado para atividades artísticas. Percebe-se que existe um hiato entre a quantidade de alunos que nota a importância das artes e da literatura no desenvolvimento estudantil do médico e a quantidade de alunos disposta a vivenciar isso durante sua formação.

Sabe-se que a arte, de uma maneira geral, engloba o uso de preceitos e técnicas para uma execução ideal, sendo meio para atingir um resultado final. Sob essa ótica, unida ao conhecimento técnico-científico do médico, ela se torna forma de expressão e acolhimento, não sendo possível separar a medicina do cuidar, da ciência e da própria arte4.

Assim, levantam-se dois questionamentos:

  • Seria responsabilidade da instituição de ensino promover esse envolvimento artístico?

  • O que poderia ser feito para despertar nesse público maior interesse por artes e literatura?

Em uma revisão sistemática da literatura sobre uso das artes na educação médica, após a análise de 28 artigos que abordavam artes visuais, literatura, teatro e cinema, observou-se que, de fato, os alunos se mostraram satisfeitos com o uso de estratégias baseadas em atividades artísticas. No entanto, tal pesquisa aponta que a maioria dos estudos são qualitativos e curtos, não sendo possível dimensionar o impacto quantitativo e longitudinal da incorporação das artes no currículo médico25.

Sobre a arte médica, obra anteriormente citada, coloca que cabe à medicina afastar o sofrimento do enfermo ao curar as doenças com potencial de cura, diminuir tal sofrimento em doenças não passíveis de cura e não tratar os doentes completamente acometidos por doenças incuráveis, sendo importante ter consciência da impotência técnica da medicina nesses casos3. Nesse sentido, vale pontuar que a prática da medicina com humanidade é ponte imprescindível para a amenização do sofrimento, sendo função do médico diagnosticar, cuidar, conhecer e amar4.

A literatura demonstra, de diversas maneiras diferentes, a importância das artes para a formação humana do médico, mas ainda é escassa essa abordagem na prática. Assim, é necessário o empenho institucional para que seja possível implementar o que hoje ainda está no campo da teoria.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Apesar de considerável parte dos estudantes de Medicina contemplados no estudo concordar com a importância das artes e da literatura na formação médica, muitos ainda não estão dispostos a experienciar isso durante o processo de aprendizagem. Ademais, nota-se que mais da metade dos participantes considera o tempo corrido e a rotina do curso de Medicina impeditivos para vivências artísticas.

Assim, observa-se a importância de estimular atividades artísticas durante a graduação médica, tendo em vista os benefícios que elas proporcionam. Nesse sentido, as instituições de ensino podem aprimorar a formação humana de seus alunos por meio do incentivo à participação em atividades extracurriculares voltadas para essa esfera.

Em suma, não basta apenas experiência técnica ao lidar com um paciente e sua enfermidade; faz-se necessário que o profissional médico tenha um olhar voltado ao sofrimento e à vulnerabilidade inerente ao ser humano, com sensibilidade, paciência, empatia e habilidade.

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  • 2
    Avaliado pelo processo de double blind review.
  • FINANCIAMENTO
    Declaramos não haver financiamento.

Editado por

  • Editora-chefe: Rosiane Viana Zuza Diniz. Editora associada: Cristiane Barelli.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    24 Fev 2025
  • Data do Fascículo
    2025

Histórico

  • Recebido
    29 Mar 2024
  • Aceito
    13 Out 2024
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