Open-access Lapsos de profissionalismo: estudo de caso em um programa de residência médica em anestesiologia

RESUMO

Introdução:  O profissionalismo médico (PM) é a base do contrato social entre médicos e sociedade, mas carece de definição precisa e de um padrão uniforme de ensino e avaliação nas instituições de ensino do Brasil. O ensino do PM é tratado de maneira limitada sem uma abordagem integrada nos currículos técnico-científicos. É crucial entender como o profissionalismo é ensinado nas especialidades médicas, bem como a sua avaliação durante a formação do residente, especialmente durante a especialização em anestesiologia.

Objetivo:  Este estudo teve como objetivo analisar a percepção de residentes e preceptores de uma residência em anestesiologia sobre comportamentos e práticas antiprofissionais.

Método:  Trata-se de um estudo de caso em que se utilizou um questionário adaptado do Inventário de Poli Profissionalismo de Dundee I, aplicado a médicos de um serviço de anestesiologia. As variáveis foram apresentadas em média, desvio padrão, mediana, percentis, mínimo e máximo, frequência e taxa de prevalência, com nível de significância de 5%. As análises foram realizadas com os programas R e Microsoft Excel 2016.

Resultado:  Os preceptores mostraram maior rigidez nas sanções a lapsos de profissionalismo, destacando seu papel fiscalizador. Os residentes foram mais rígidos em questões relacionadas à vivência acadêmica. Punições mais graves foram atribuídas a práticas de cunho sexual, agressão e uso de drogas ilícitas.

Conclusão:  Minimizar lapsos e valorizar o tema PM é de suma importância para desenvolver um programa de residência médica que permita a formação de anestesiologistas totalmente competentes.

Palavras-chave:
Profissionalismo; Residência Médica; Anestesiologia; Educação Médica

ABSTRACT

Introduction:  Medical professionalism (MP) is the basis of the social contract between physicians and society, but it lacks a precise definition and a uniform standard of teaching and assessment in educational institutions in Brazil. MP teaching is addressed in a limited manner without an integrated approach in technical-scientific curricula. It is crucial to understand how professionalism is taught in medical specialties as well as its assessment during resident training, especially during specialization in anesthesiology.

Objective:   To analyze the perception of residents and preceptors of an Anesthesiology Residency about unprofessional behaviors and practices.

Methodology:   Case study using a questionnaire adapted from the Dundee Polyprofessionalism Inventory I, applied to physicians of an anesthesiology service. The variables were presented as mean, standard deviation, median, percentiles, minimum and maximum, frequency and prevalence rate, with a significance level of 5%. The analyses were performed using R and Microsoft Excel 2016.

Results:   Preceptors were more severe in their sanctions for lapses in professionalism, highlighting their supervisory role. Residents were more severe in matters related to academic experience. More severe punishments were given to sexual practices, aggression and use of illicit drugs.

Conclusion:   Minimizing lapses and valuing the theme of Medical Professionalism is of utmost importance to develop a medical residency program that allows the training of fully competent anesthesiologists.

Keywords:
Professionalism; Medical Residency; Anesthesiology; Medical Education

INTRODUÇÃO

Desde 1999, o Accreditation Council on Graduate Medical Education (ACGME) e o American Board of Medical Specialties adotam o profissionalismo como uma das seis competências centrais a serem desenvolvidas pelos médicos durante sua formação1. Apesar de sua relevância para a formação médica e de especialistas, o conceito de profissionalismo não é homogêneo, o que dificulta a padronização de estratégias tanto no currículo formal como no oculto2.

O profissionalismo médico constitui um constructo multidimensional que vem sendo cada vez mais reconhecido como importante componente da educação médica3. Os domínios mais frequentemente citados na literatura incluem altruísmo, responsabilidade, cuidado, trabalho em equipe, autocontrole, princípios éticos e excelência clínica³. Esse constructo é fundamental na atuação do médico na sociedade, representando a base do contrato social entre médicos e pacientes4.

Além disso, o ensino do profissionalismo ainda está em fase de implementação nas matrizes de competência dos programas de residência médica (PRM) do Brasil, e, para muitos deles, não existem, nas Diretrizes Curriculares Nacionais propostas, tampouco exigências de processos de avaliação do profissionalismo para a certificação ao final do treinamento do especialista2. No caso específico da anestesiologia, essa especialidade tem sua prática ainda muito restrita ao bloco cirúrgico, existindo um distanciamento na relação médico-paciente, um dos principais balizadores na construção do profissionalismo médico. Esse distanciamento entre o profissional e o paciente, no entanto, pode levar à desumanização do cuidado e à naturalização de lapsos atitudinais5.

Além disso, a produção científica sobre profissionalismo no contexto da anestesiologia é restrita6. Chen et al.6 buscaram identificar comportamentos não profissionais comumente observados entre os anestesiologistas. Outros estudos avaliaram o papel do feedback na mudança de comportamento7. No entanto, o feedback de várias fontes sobre o comportamento profissional, na pesquisa de Riveros et al.7, não teve efeito nas avaliações que os residentes em anestesiologia receberam da família, do corpo docente ou dos colegas de trabalho dos pacientes8. Para Dexter et al.9, a resposta aos feedbacks está diretamente relacionada à qualidade da supervisão, que deve pautar-se por uma prática reflexiva, reconhecimento e mitigação de vieses e ênfase nas responsabilidades profissionais.

Partindo desses pressupostos e diante da necessidade de se construir um plano de trabalho sobre profissionalismo no maior serviço de residência em anestesiologia de um estado do Nordeste do Brasil, emergiu a pergunta: “Quais os lapsos de profissionalismo naturalizados no cotidiano de anestesiologistas em formação?”.

Embora o profissionalismo seja multifatorial, a literatura específica considera a integridade acadêmica um elemento intrinsecamente relacionado a esse constructo10. Desse modo, este artigo relata um estudo de caso realizado com o objetivo analisar a percepção de residentes em anestesiologia e preceptores a respeito de comportamentos e práticas antiprofissionais a partir de um instrumento sobre integridade acadêmica.

MÉTODO

Tipo de estudo

Trata-se de um estudo quantitativo, transversal, de base descritivo-analítica em que se utilizou um questionário apresentando duas partes. A primeira com um questionário sociodemográfico e a segunda com 31 questões adaptadas do Inventário de Poliprofissionalismo de Dundee I.

Instrumento de coleta de dados

O Inventário de Poliprofissionalismo de Dundee utilizado neste estudo foi adaptado para o contexto brasileiro por Sá11 e proposto para avaliar as percepções dos estudantes de sanções adequadas a comportamentos antiprofissionais relacionados à integridade acadêmica brasileira. Aplicou-se pela primeira vez esse inventário na Dundee Medical School, na Escócia, e as questões exploradas foram baseadas nos lapsos mais frequentes identificados em estudantes pelo Conselho Geral de Medicina do Reino Unido, como: condenação criminal; uso abusivo de drogas ou álcool; comportamento agressivo, violento ou ameaçador; atitude ou comportamento inadequados e persistentes; trapaça ou plágio; desonestidade ou fraude; pedofilia; e desrespeito à comunidade acadêmica. Esses pontos permanecem como grande preocupação em todo o mundo12.

Nesse questionário, são apresentados 34 comportamentos antiprofissionais, e os estudantes apontam quais as sanções recomendáveis para cada um dos comportamentos. As sanções apresentam as seguintes variações: 1 = nenhuma, 2 = repreensão (advertência verbal), 3 = repreensão (advertência escrita), 4 = repreensão e aconselhamento obrigatório, 5 = repreensão, aconselhamento e trabalho extra, 6 = reprovação na disciplina ou estratégia específica/realização de trabalho para obter crédito, 7 = reprovação do ano específico (repetição permitida), 8 = expulsão da faculdade (readmissão após um ano possível), 9 = expulsão da faculdade (sem chance de readmissão) e 10 = notificação ao conselho regulador.

Adaptação do instrumento para o contexto da residência em anestesiologia

Para este estudo, excluíram-se três questões do instrumento adaptado por Sá11 porque não se adequavam ao cenário específico da residência em anestesiologia ou apresentavam limitações de aplicabilidade no contexto estudado. A decisão de exclusão foi baseada em critérios de relevância contextual e aplicabilidade prática, conforme detalhado a seguir:

  • Questão excluída 1: “Obter ajuda ou ajudar com trabalhos ou avaliações da disciplina, contrariando as regras do professor”: Essa questão foi excluída porque, na residência médica em anestesiologia, a colaboração entre residentes é frequentemente encorajada como parte do processo de aprendizagem, diferentemente do ambiente de graduação em que os trabalhos individuais são mais comuns. A natureza colaborativa da prática anestésica torna essa questão menos aplicável ao contexto da especialização.

  • Questão excluída 2: “Retirar referência indicada de uma prateleira na biblioteca para evitar que outros colegas tenham acesso às informações nela contidas”: Essa questão foi considerada obsoleta no contexto atual da residência, uma vez que o acesso à informação científica ocorre predominantemente por meio de plataformas digitais e bases de dados eletrônicas. A prática de retirar livros físicos para prejudicar colegas tornou-se praticamente inexistente com a digitalização do conhecimento médico.

  • Questão excluída 3: “Publicação de material inapropriado sobre colegas, professores ou pacientes nas mídias sociais”: Essa questão é extremamente relevante no contexto atual, especialmente quando se considera a crescente preocupação com o uso inadequado das mídias sociais por profissionais de saúde13),(14. Esse tópico, fundiu-se ao item 29: “Participação inadequada em mídias sociais por meio de publicações, postagens, fotos, vídeos ou textos sobre atividades de classe ou clínicas”. O item em questão é mais amplo, uma vez que incorpora não apenas postagens em si, como videoconferências, lives e outras participações em mídias sociais. A exclusão, portanto, não desconsiderou o tema, posto que o uso inadequado das mídias sociais representa um dos principais desafios contemporâneos para o profissionalismo médico15)- (17. Estudos indicam que de 60% a 90% dos estudantes de Medicina e residentes utilizam mídias sociais, e uma proporção significativa já postou conteúdo potencialmente problemático18.

Dessa maneira, no instrumento usado neste estudo, foram utilizadas 31 questões das 34 originais, conforme apresentado no Quadro 1.

Quadro 1
Inventário de Poli Profissionalismo de Dundee I: integridade acadêmica.

Cenário da pesquisa

A pesquisa foi realizada no maior serviço de anestesiologia de uma capital localizada na região Nordeste. Trata-se do maior hospital geral do Ceará, responsável por atender, em nível terciário, pacientes de todo o estado em várias especialidades médicas, tornando-se assim um excelente ambiente para aprendizado médico. Caracteriza-se por ser um hospital-escola que recebe para os estágios práticos acadêmicos de várias universidades do Estado, bem como PRM de várias especialidades.

Participantes

O PRM em anestesiologia era composto de 26 residentes: oito residentes do primeiro ano, oito do segundo e dez do terceiro.

Os preceptores eram um grupo formado por 33 médicos anestesiologistas, servidores da instituição que ingressaram por meio de concurso público com vínculo profissional e muitas vezes afetivo com a instituição por longos anos de dedicação. Muitos deles eram egressos do PRM da própria instituição com variados tempos de serviço, sendo os mais recentes servidores admitidos no último concurso público realizado no ano de 2021. É preciso ressaltar que os preceptores que atuam no Centro de Ensino e Treinamentos (CET) de anestesiologia do referido hospital, em sua maioria, não possuem formação oficial para a função de preceptoria mesmo sendo atores principais na construção profissional dos residentes19.

Não houve seleção de amostra, sendo utilizado como critério de inclusão ser residente ou preceptor do PRM em anestesiologia do serviço. Como critério de exclusão, não foram incluídos médicos anestesiologistas que trabalham sob serviço terceirizado sem vínculo trabalhista com a instituição pela alta rotatividade desses profissionais. Todos assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE) para a participação na pesquisa.

Coleta e análise de dados

Realizou-se a coleta de dados no período de julho a outubro de 2023. Os dados foram coletados de forma online por meio de um instrumento construído no Google Formulário a partir do Inventário de Poliprofissionalismo de Dundee.

As variáveis foram apresentadas em média e desvio padrão (DP), mediana, percentis, mínimo e máximo, frequência e taxa de prevalência. Na análise das características dos participantes, utilizou-se o teste U de Mann-Whitney, e verificou-se a não aderência dos dados à distribuição gaussiana.

Na investigação de associação entre as variáveis categóricas, utilizaram-se o teste de qui-quadrado de Pearson e o teste exato de Fisher.

Adotou-se um nível de significância de 5%. As análises estatísticas foram realizadas utilizando o programa estatístico R e Microsoft Excel 2016. Calcularam-se e compararam-se as medianas e os DP das sanções sugeridas pelos participantes (residentes e preceptores) para cada prática antiprofissional do Inventário de Poli Profissionalismo de Dundee.

Aspectos éticos

O estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da instituição sob protocolo número 3.954.616. Todos os participantes assinaram o TCLE, garantindo-se o anonimato e a confidencialidade das informações coletadas.

RESULTADO

Participaram da pesquisa 27 indivíduos: 16 residentes e 11 preceptores. A idade dos participantes variou significativamente entre os grupos, com os preceptores apresentando uma mediana de 42 anos (intervalo interquartil de 40 a 50 anos), e os residentes, uma mediana de 27 anos (intervalo interquartil de 25 a 29 anos), o que resultou em um valor de p inferior a 0,001, indicando uma diferença estatisticamente significativa entre as idades dos dois grupos.

O restante das variáveis sociodemográficas não apresentou diferenças estatísticas entre os grupos de residentes e preceptores. Distribuíram-se os residentes em três grupos: oito do primeiro ano (R1): 50%; seis do segundo (R2): 37,5%; dois do terceiro (R3): 12,5%. O tempo de preceptoria foi reportado apenas para os preceptores, com uma mediana de 12 anos (intervalo interquartil de 11 a 14 anos).

A análise descritiva do Inventário de Poli Profissionalismo de Dundee I revelou percepções variadas entre preceptores e residentes sobre as sanções adequadas a comportamentos antiprofissionais relacionados à integridade acadêmica. Entre as 31 questões analisadas, seis apresentaram diferenças estatisticamente significativas entre os grupos, conforme apresentado na Tabela 1.

Tabela 1
Mediana das sanções atribuídas por residentes e preceptores e suas diferenças.

Os resultados demonstram que, na maioria das questões com diferenças significativas, os preceptores atribuíram sanções mais severas que os residentes. A única exceção foi a questão 3, relacionada à reivindicação de trabalho em grupo como individual, na qual os residentes foram mais rigorosos.

Para melhor análise estatística, considerando o número limitado de participantes, as sanções foram categorizadas em três níveis de gravidade:

  • Punições leves (repreensão): Sanções de 1 a 5 relacionadas a advertências e aconselhamento.

  • Punições moderadas (reprovação): Sanções de 6 a 7 relacionadas à reprovação em disciplinas ou ano letivo.

  • Punições graves (expulsão): Sanções de 8 a 10 relacionadas à expulsão e notificação ao conselho de classe.

Um aspecto importante observado foi a baixa tendência à neutralização de lapsos de profissionalismo, evidenciada pela pequena porcentagem de participantes que não atribuíram qualquer sanção (sanção = 1 - nenhuma) às questões apresentadas.

Apenas quatro questões apresentaram participantes que sugeriram nenhuma sanção: questão 10 (fazer entradas falsas em logbooks), questão 13 (falta de pontualidade), questão 16 (examinar pacientes sem consentimento do preceptor) e questão 20 (ressubmeter trabalhos anteriores). A questão 16 foi a que apresentou maior percentual de neutralização, com 56% dos residentes e 9,1% dos preceptores não sugerindo sanções, diferença estatisticamente significativa (p = 0,018).

As práticas que receberam sanções graves (≥ 50% do total de participantes) foram: agressão física (questão 11), fornecimento de drogas ilícitas (questão 14), assédio sexual (questão 19) e envolvimento com pedofilia (questão 26). Todas essas questões estão relacionadas a comportamentos de alta gravidade ética e legal.

As práticas associadas a sanções mais leves (repreensão =/> 85%) foram: assinar folhas de presença no lugar de amigos ausentes (questão 1), deixar de seguir os procedimentos adequados de controle de infecções (questão 5), falta de pontualidade (questão 13) e examinar pacientes sem conhecimento e/ou consentimento do preceptor (questão16).

A comparação entre residentes do primeiro ano (R1) e residentes do segundo e terceiro anos (R2 + R3) revelou diferenças significativas em duas questões. Os residentes do primeiro ano demonstraram maior rigor em relação à compra de trabalhos de colegas (questão 12), com mediana de 7,0 versus 5,5 do grupo R2 + R3 (p = 0,013), e em relação a trapacear em provas (questão 22), com mediana de 6,0 versus 4,0 (p = 0,035).

A análise dos DP revelou questões com alta variabilidade de respostas, indicando falta de consenso sobre as sanções apropriadas. Entre os preceptores, as questões com maiores DP (> 3,0) foram: fotografar pacientes (questão 27) com DP de 3,43 e participação inadequada em mídias sociais (questão 29) com DP de 3,32.

Entre os residentes, os maiores DP (> 2,90) foram observados nas questões sobre falsificar assinatura de profissional de saúde (questão 2) com DP de 2,97, falsificar resultados de testes (questão 9) com DP de 2,92 e ingerir álcool durante o almoço antes de atender pacientes (questão 31) com DP de 2,90.

Por sua vez, as questões com menor variabilidade (DP < 1,1) entre os preceptores incluíram: inventar circunstâncias para atrasar provas (questão 18), ressubmeter trabalhos (questão 20) e envolvimento com pedofilia (questão 26), indicando maior consenso sobre essas práticas. Entre os residentes, houve consenso similar em questões sobre falta de pontualidade (questão 13), pedofilia (questão 26) e fotografar pacientes (questão 27).

Essas questões estão dispostas na Tabela 1, na qual constam os participantes que não atribuíram sanções (se residentes ou preceptores), a quantidade desses participantes e sua proporção em função do grupo (de residentes ou de preceptores).

DISCUSSÃO

A falta de unicidade conceitual em torno do profissionalismo médico associa-se, entre outros fatores, a variações culturais, contextuais, conceituais e geracionais4. Este estudo, ao comparar a percepção de lapsos de profissionalismo e suas consequências entre preceptores e residentes do CET de anestesiologia, contribui para a compreensão dessas variações no contexto específico da formação de especialistas.

O profissionalismo médico, reconhecido como constructo multidimensional3, manifesta-se de forma complexa na relação entre formadores e formandos. Os resultados deste estudo evidenciam que a integridade acadêmica e profissional, como um dos atributos constituintes do constructo profissionalismo médico, é percebida de maneira diferenciada por preceptores e residentes, sugerindo variações nas percepções de comportamento ético e responsabilidade profissional que merecem análise aprofundada.

Os achados deste estudo revelam um padrão consistente no qual os preceptores demonstram maior rigor nas sanções atribuídas a lapsos de profissionalismo em comparação aos residentes. Essa tendência, observada em cinco das seis questões com diferenças estatisticamente significativas, reflete uma complexa interação entre fatores geracionais, hierárquicos e experienciais que merece análise detalhada.

A diferença etária significativa entre preceptores (mediana de 42 anos) e residentes (mediana de 27 anos) representa mais que uma simples diferença cronológica; ela reflete distintas gerações profissionais com diferentes experiências formativas e contextos socioculturais20. Os preceptores, formados em uma época com códigos de conduta mais rígidos e estruturas hierárquicas mais definidas, podem ter internalizado padrões de profissionalismo mais conservadores21. Por sua vez, os residentes, representantes de uma geração mais jovem, podem ter uma percepção mais flexível de certas práticas, especialmente aquelas associadas a aspectos tecnológicos e de relacionamento interpessoal22.

Além das diferenças geracionais, a posição hierárquica dos preceptores como supervisores e avaliadores influencia significativamente sua percepção sobre a necessidade de sanções mais rigorosas. Essa postura pode ser compreendida através da lente da responsabilidade profissional e legal que recai sobre os preceptores23. Como responsáveis pela formação e supervisão dos residentes, os preceptores podem sentir-se compelidos a adotar uma postura mais rigorosa como forma de garantir a qualidade da formação e proteger tanto os pacientes quanto a instituição de possíveis consequências de lapsos profissionais.

A análise das diferenças observadas entre preceptores e residentes não pode ser dissociada do contexto da cultura institucional e da formação pedagógica dos preceptores. Conforme identificado neste estudo, a maioria dos preceptores não possui formação oficial para a função de preceptoria, o que pode influenciar as percepções deles sobre profissionalismo e estratégias disciplinares.

A ausência de formação pedagógica formal pode levar os preceptores a basear suas decisões disciplinares em experiências pessoais e modelos internalizados durante sua própria formação, perpetuando padrões que podem não ser os mais adequados para o contexto atual24. Estudos recentes demonstram que preceptores com formação pedagógica tendem a adotar abordagens mais reflexivas e educativas em relação aos lapsos de profissionalismo, em contraste com abordagens puramente punitivas25.

A cultura institucional do CET, caracterizada por uma estrutura hierárquica tradicional e pela predominância de preceptores formados na própria instituição, pode contribuir para a perpetuação de determinados padrões de percepção sobre profissionalismo. Essa endogenia formativa, embora possa garantir continuidade de valores institucionais, também pode limitar a exposição a diferentes perspectivas sobre profissionalismo e práticas educativas inovadoras26.

A questão do abuso de substâncias indevidas (questão 8) merece análise particular, tanto por sua relevância específica na anestesiologia quanto pela alta variabilidade de respostas observada em ambos os grupos. Os DP elevados (2,53 para preceptores e 2,63 para residentes) indicam ausência de consenso sobre as sanções apropriadas, revelando uma lacuna importante na política institucional para abordagem dessa problemática.

A anestesiologia apresenta características únicas que aumentam o risco de transtornos por uso de substâncias (TUS) entre seus profissionais27. O acesso facilitado a medicamentos controlados, o estresse inerente à especialidade e a cultura de automedicação podem contribuir para maior vulnerabilidade dos anestesiologistas a problemas relacionados ao uso de substâncias28. Dados norte-americanos demonstram que, embora os anestesiologistas representem uma pequena porcentagem do total de especialistas, constituem uma proporção significativa dos profissionais em programas de recuperação29.

A variabilidade nas respostas sobre sanções para uso de substâncias reflete um dilema ético e prático enfrentado por educadores médicos: como equilibrar a necessidade de proteção dos pacientes com a abordagem terapêutica adequada para profissionais com TUS. Alguns participantes podem favorecer uma abordagem mais punitiva, visando à proteção imediata dos pacientes e ao efeito dissuasório. Outros podem preferir uma abordagem mais terapêutica, reconhecendo o TUS como uma condição médica que requer tratamento especializado30.

A literatura internacional sugere que programas de prevenção, educação e suporte são mais eficazes que abordagens puramente punitivas31. Instituições norte-americanas que implementaram testes aleatórios de drogas, combinados com programas de educação e suporte, relataram resultados positivos na redução do problema32),(33. No contexto brasileiro, estudos indicam que a maioria dos profissionais reconhece os riscos do TUS para a segurança do paciente e a vida profissional, mas há necessidade de políticas institucionais claras e programas de suporte adequados11),(23.

Os resultados deste estudo, quando comparados com a literatura internacional, revelam padrões interessantes de convergência e divergência. Em estudo realizado na Arábia Saudita, 17 lapsos apresentaram percentuais de 2% a 38% de docentes que não caracterizavam certas questões como lapsos passíveis de sanção34. Em contraste, o presente estudo mostrou preceptores mais rigorosos, com apenas um lapso apresentando 18% dos preceptores não sugerindo sanções (excluindo-se a questão 16 por suas particularidades contextuais).

Essa diferença pode refletir variações culturais e contextuais entre os sistemas de saúde e educação médica do Brasil e da Arábia Saudita. Fatores como estrutura legal, tradições educacionais e expectativas sociais sobre o comportamento médico podem influenciar significativamente as percepções sobre profissionalismo35.

Em comparação com um estudo escocês, em que 46% dos estudantes de Medicina não pontuaram sanção para lapsos de profissionalismo12, os residentes do presente estudo demonstraram maior rigor, com apenas três questões (9,67%) apresentando percentuais de neutralização que variaram de 6,3% a 19%. Essa diferença pode ser atribuída ao contexto da residência médica, em que os participantes já são médicos formados com maior consciência sobre responsabilidades profissionais, em contraste com estudantes de graduação que ainda estão em processo de formação da identidade profissional.

O estudo de Sá11, realizado no contexto brasileiro com estudantes de Medicina, oferece uma comparação particularmente relevante. Quando comparado com aquele estudo, os preceptores deste estudo foram estatisticamente mais rígidos em cinco questões, enquanto os residentes foram mais rígidos em apenas uma questão relacionada à pesquisa e educação. Essa diferença pode refletir a maior proximidade dos residentes com atividades acadêmicas e de pesquisa, áreas em que a integridade é particularmente valorizada no ambiente da residência médica.

A análise das diferenças entre residentes do primeiro ano (R1) e residentes mais experientes (R2 + R3) revela um padrão preocupante de diminuição do rigor nas sanções ao longo do tempo de formação. Os R1 demonstraram maior severidade em questões relacionadas à compra de trabalhos e trapaça em provas, sugerindo que a exposição prolongada ao ambiente de residência pode levar à normalização de certos lapsos.

Esse fenômeno, conhecido na literatura como “erosão moral” ou “deriva ética”, representa um dos principais desafios na educação médica36. A exposição contínua a práticas questionáveis, combinada com pressões do ambiente de trabalho e fadiga, pode levar à gradual aceitação de comportamentos que inicialmente seriam considerados inaceitáveis37.

A diferença observada entre R1 e residentes mais experientes sugere a necessidade de intervenções educativas contínuas ao longo do programa de residência, não apenas no início da formação. Programas de profissionalismo devem ser longitudinais e incluir momentos de reflexão e reforço dos valores profissionais em diferentes estágios da formação38.

A questão 16, sobre examinar pacientes sem conhecimento ou consentimento do preceptor, merece análise específica, considerando as particularidades da prática anestésica. A alta taxa de neutralização dessa questão entre residentes (56%) pode refletir confusão sobre a interpretação da questão no contexto específico do CET estudado.

Na anestesiologia, a avaliação pré-anestésica é tradicionalmente realizada pelo residente de forma relativamente independente, com supervisão indireta do preceptor. Essa prática, embora educativamente valiosa, pode gerar ambiguidade sobre os limites da autonomia do residente e a necessidade de supervisão direta39.

A diferença significativa entre preceptores e residentes nessa questão (p = 0,018) sugere necessidade de clarificação das políticas institucionais sobre supervisão e autonomia dos residentes. Diretrizes claras sobre quando a supervisão direta é necessária podem reduzir essa ambiguidade e melhorar a qualidade da formação40.

A alta variabilidade observada em algumas questões, evidenciada pelos elevados DP, indica falta de consenso sobre sanções apropriadas para determinados lapsos. Essa variabilidade é particularmente problemática do ponto de vista educacional, pois pode levar a inconsistências na aplicação de medidas disciplinares e à confusão entre os residentes sobre expectativas comportamentais.

As questões com maior variabilidade entre preceptores (fotografar pacientes e participação inadequada em mídias sociais) refletem desafios contemporâneos do profissionalismo médico que podem não ter sido adequadamente abordados na formação dos preceptores41. A era digital trouxe novos dilemas éticos que requerem discussão e consenso institucional sobre políticas apropriadas42.

Entre os residentes, a variabilidade em questões sobre falsificação de documentos e uso de álcool durante o trabalho pode refletir diferentes níveis de exposição a situações reais ou diferentes interpretações sobre a gravidade desses comportamentos. Essa variabilidade sugere necessidade de discussões mais aprofundadas sobre ética profissional durante a formação43.

Os resultados deste estudo têm implicações importantes para o desenvolvimento de estratégias de ensino de profissionalismo na residência médica em anestesiologia. A identificação de diferenças sistemáticas entre preceptores e residentes sugere a necessidade de abordagens que promovam diálogo e alinhamento de expectativas.

Métodos de ensino que favorecem a identificação de lapsos profissionais e possibilitam reflexão por parte dos residentes tendem a gerar mudanças comportamentais mais efetivas. A implementação de ferramentas validadas para ensino e avaliação do profissionalismo médico na residência de anestesiologia é imperativa para garantir a formação adequada dos futuros especialistas.

A modelagem por preceptores emerge como estratégia fundamental, mas requer que os próprios preceptores tenham clareza sobre expectativas e padrões profissionais19),(23. Programas de desenvolvimento docente focados em profissionalismo podem ser necessários para garantir que os preceptores estejam adequadamente preparados para essa função educativa23.

O feedback imediato quando situações surgem, associado a outros métodos educativos, representa uma das estratégias mais efetivas para ensino de profissionalismo2. No entanto, é importante reconhecer que modelos negativos podem ter impacto mais duradouro que modelos positivos, reforçando a importância de um ambiente de aprendizagem que promova consistentemente comportamentos profissionais adequados37.

Limitações do estudo

Este estudo apresenta algumas limitações que devem ser consideradas na interpretação dos resultados e em futuras investigações sobre o tema. O tamanho amostral relativamente pequeno (27 participantes) constitui uma limitação importante. Estudos futuros com amostras maiores e multicêntricos poderiam fortalecer a validade externa dos achados.

O estudo foi realizado em uma única instituição, o que pode limitar a generalização dos resultados para outros programas de residência em anestesiologia com diferentes culturas institucionais, estruturas organizacionais ou contextos socioeconômicos. A cultura institucional específica do CET estudado, caracterizada pela predominância de preceptores formados na própria instituição, pode ter influenciado os resultados de forma particular.

A natureza transversal do estudo impede o estabelecimento de relações causais entre as variáveis estudadas. Um desenho longitudinal permitiria melhor compreensão da evolução das percepções sobre profissionalismo ao longo da formação e identificação de fatores que influenciam mudanças nessas percepções.

A coleta de dados foi realizada em um período específico (de julho a outubro de 2023), não capturando possíveis variações sazonais ou relacionadas a eventos específicos que poderiam influenciar as percepções sobre profissionalismo. Além disso, o contexto pós-pandemia de covid-19 pode ter influenciado as percepções sobre alguns aspectos do profissionalismo médico.

CONCLUSÃO

Este estudo evidenciou uma dissonância significativa entre as percepções de preceptores e residentes em anestesiologia sobre a gravidade e as sanções para lapsos de profissionalismo. Os preceptores, em geral, demonstraram maior rigor, um reflexo de complexas interações entre fatores geracionais, hierárquicos e de experiência profissional. Um achado relevante foi a sugestão de uma “erosão moral” durante a formação, com residentes mais experientes mostrando-se menos rigorosos que os do primeiro ano em questões de integridade acadêmica. A alta variabilidade nas sanções para temas como o uso de substâncias e a conduta em mídias sociais aponta para a ausência de um consenso e a necessidade urgente de políticas institucionais claras.

Ao diagnosticar as percepções em um programa de residência, este trabalho reforça que o profissionalismo é um constructo dinâmico e destaca a importância de intervenções educacionais contínuas e do desenvolvimento docente para alinhar expectativas e fortalecer a formação de especialistas em anestesiologia competentes e eticamente responsáveis. O estudo contribui para o corpo de conhecimento sobre profissionalismo médico no contexto brasileiro e oferece subsídios para o desenvolvimento de estratégias educativas mais efetivas.

AGRADECIMENTOS

Agradeço à minha orientadora e colega Aline Brilhante.

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  • 3
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Editado por

  • Editora-chefe:
    Rosiane Viana Zuza Diniz.
  • Editora associada:
    Maria Helena Senger.

Disponibilidade de dados

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Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    27 Jul 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    26 Mar 2025
  • Aceito
    22 Abr 2026
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