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Desafio na Psiquiatria: um Ensino Mais Humanístico

Resumo:

Tendo sentido a necessidade de suprir algumas deficiências culturais do curso médico da Fundação Faculdade Federal de Clínicas Médicas de Porto Alegre (FFFCMPA), os professores e monitores da disciplina de Psiquiatria e Psicologia Médica I propuseram profundas alterações cm sua forma e conteúdo.

Constituiu-se, assim, um grupo de estudos com o objetivo de construir uma visão mais humana do indivíduo e fugir das técnicas de ensino compartimentalizadas. Considerando ser a Psiquiatria um forte elo entre a Medicina, a Filosofia e a Política, incluiu-se tópicos atuais destes assuntos sob a forma de palestras e mesas redondas. O Ciclo Vital, assunto central da disciplina, será ilustrado com a utilização de filmes além das técnicas didáticas habituais.

Palavras-chave:
Psiquiatria; Currículo; Graduação

Summary:

Feeling the necessity to supply some cultural deficiencies of the FFFCMPA Medical course, the teachers and monitors of Psychiatry and Medical Psychology have propose deep alterations in it shape and content.

A study group was made with the aim to improve the students's human view and trying to scape of the compartimentalized teaching techniques. Considering the Psychiatry like a strong link among Medicine, Philosophy and Politics, new actual topics were included into the course. The life Cicle, main topic of the matter, will be show with movies.

Keywords:
Psychiatry; Currculum; Graduation

As escolas médicas convencionais têm dado ênfase, em seus primeiros anos, ao ensino dos aspectos morfológicos e funcionais dos seres humanos. Após, dedicam-se ao estudo das forças que agridem os indivíduos e dos mecanismos de defesa destes; posteriormente, estudam o ambiente onde ocorrem as inter-relações dos agentes causadores das doenças com esses mesmos indivíduos.

As escolas de Medicina, que pretendem ser inovadoras, partem do reconhecimento da necessidade que tem o médico de conhecer não só os aspectos físicos e funcionais, mas também as dimensões psicossociais do ser humano, objeto direto de sua atividade, com o qual tem compromissos de natureza profissional, moral, científica e humanística.

Nessas escolas, o estudo da pessoa e a história do desenvolvimento da vida dos seres humanos, do nascimento até a morte, são reconhecidos como dos mais importantes. Na realidade, a prática médica, realizada sobre os indivíduos, toma impossível fragmentá-los em aspectos biológicos, psicológicos e sociais.

Cada vez mais, a pesquisa científica tem mostrado que as manifestações de saúde e de doença têm relações diretas com fatores biopsicossociais, que condicionam o próprio desenvolvimento das pessoas.

O ensino médico tem falhado em seu objetivo de formar médicos generalistas capazes de atuar nos três níveis de cuidados de saúde, bem como de tratar o paciente de forma integrada e holística. Contribuem para isso muitos fatores, alguns externos, como a falta de recursos, e outros internos, como a precária visão humanística dos médicos egressos de nossas faculdades, que passam a ter uma visão cada vez mais tecnicista e instrumental dos pacientes e das doenças, com uma consciência eminentemente pragmática e utilitarista5FRANÇA, G. V. Por que história da medicina? R. Bras. Educ. Med. Rio de Janeiro, jan./dez., 1995. .

Não podemos esquecer que a Medicina é um sistema e, como tal, necessita de um pensamento largo e dirigido para diferentes áreas do conhecimento, a fim de captar o homem - objeto de nossa atenção - segundo uma visão mais ampla e realista. "O preparo do médico, por mais completo que seja em ciências naturais e em tecnologia, é absolutamente incompleto sem a formação humanística; tal preparo é míope, tacanho e perigoso. Não existe ato médico sem fundamento científico, mas sem fundamento humanístico ele também não existe"9HOSSNE, W. S. Educação médica: nem onipotência, nem impotência: flexibilidade humanística. R. Bras. Educ. Med. Rio de Janeiro , jan./abr., 1993..

De acordo com Rubens Alves1ALVES, R. A. "Conversas com quem gosta de ensinar". São Paulo: Cortez, 1983. , o meio universitário deveria ser um dos locais mais importantes no sentido de proporcionar oportunidades e orientar o indivíduo em direção ao seu desenvolvimento como pessoa. Entretanto, nota-se que a maior parte das atividades extracurriculares dos futuros médicos está na área da saúde, como estágios, participação em projetos de pesquisa, monitorias, trabalho remunerado em serviços de saúde privados, etc.13ZIMMER, L. P.; HIDALGO, M. P. Currículo oficial e paralelo na Faculdade de Medicina da UFRGS. R. Bras. Educ. Med. Rio de Janeiro , set/dez., 1993..

O currículo deve proporcionar ao estudante a possibilidade de alcançar a auto-realização e, ao mesmo tempo, contribuir para a construção de melhores comunidades, devendo, por isso, incluir mais do que conteúdos programáticos. Sendo assim, para avaliá-lo, deve-se observar, cuidadosamente, a qualidade das vivências que esse currículo proporciona. Como processo, ele deve ser permanentemente discutido13ZIMMER, L. P.; HIDALGO, M. P. Currículo oficial e paralelo na Faculdade de Medicina da UFRGS. R. Bras. Educ. Med. Rio de Janeiro , set/dez., 1993.. As mudanças são parte inerente do processo educacional verdadeiro; a estagnação é antipedagógica e anticultural.

Com o intuito de proporcionar uma visão mais humanística aos futuros médicos e sentindo que os alunos não têm encontrado estímulo para formar um pensamento mais crítico dentro da faculdade e que, além disso, dispõem de pouco tempo para procurá-lo fora, os autores almejam criar esse ambiente favorável intracurricularmente, gerando inquietações, estimulando a dúvida em relação a si e à sociedade e formando pessoas mais autônomas. Buscando ainda uma integração maior entre a Psiquiatria e as outras disciplinas da Clínica Médica7GOLDBERG, R. J. Psychiatry and practice of medicine. Southern Medical Journal, mar., 1995. ),(14WILLIAMS, C., CURRAN, S. Generalists neglect psychiatry. BMJ, jul., 1995. e um aumento do interesse dos estudantes pela Psiquiatria11SIERLES, F. S., TAYLOR, M.A. Decline of U.S. medical student career choice of psychiatry and what do about it. Am J Psychiatry, out., 1995., temos como projeto reformular a disciplina de Psiquiatria e Psicologia Médica I da FFFCMPA, como mostraremos a seguir. Portanto, ao finalizar a disciplina, o aluno deverá ser capaz de reconhecer algumas das concepções filosóficas que pretendem:

  • compreender aspectos da natureza humana e as características básicas da pessoa, a sua trajetória de desenvolvimento através do ciclo vital, a sua formação e busca da realização como indivíduo e como ser social;

  • estudar suas interações com a família nuclear e extensiva a outros grupos sociais aos quais pertença.

Embasados em experiências pioneiras e bem-sucedidas em outras partes do mundo4DICHI, I. "O Médico no cinema: uma nova abordagem na discussão de ética e psicologia médica". Rio de Janeiro, R. Bras. Educ. Med., jan/abr., 1994.),(8GREEN, B., MILLER, P., ROUT H, C. P. Teaching ethics in psychiatry: a one-day workshop for clinical students. Journal of Medical Ethics, 1995.),(12TRONCON, L. E. A Importância das características pessoais dos estudantes de medicina na sua educação. R. Bras. Educ. Med. Rio de Janeiro , jan./dez., 1995., procuramos atender a algumas necessidades que julgamos ser mais urgentes na formação acadêmica nesta disciplina. Constituiu-se, assim, um grupo de estudos com o objetivo de construir uma visão mais humana do indivíduo e fugir das técnicas de ensino compartimentalizadas. Considerando que a Psiquiatria é um forte elo entre a Medicina e a Filosofia e a Política, incluíram­se tópicos atuais destes assuntos sob a forma de conferências e mesas-redondas. O Ciclo Vital, assunto central da disciplina, será ilustrado com a utilização de filmes, ao lado das técnicas didáticas habituais. Para escolher os temas a serem aborda­dos, o grupo sugeriu vários assuntos, tópicos e filmes, que, no decorrer dos meses, foram discutidos e selecionados por sua relevância e capacidade de gerar reflexão e despertar a atenção dos alunos.

As mesas-redondas serão ministradas com cada tópico do Ciclo Vital. Assim, aborda-se uma problemática inerente a cada fase do desenvolvimento humano. Por exemplo: quando a disciplina estiver tratando do adulto jovem, haverá uma mesa-redonda sobre as dificuldades do casamento e da família. Portanto, além dos aspectos biológicos e emocionais, serão privilegiados também debates sobre temas que dificilmente são encontrados nos currículos tradicionais.

Para as conferências, foram selecionados, pela disciplina, assuntos que se destacam por sua atualidade, relevância e potencial de motivar reflexão, como Direitos Humanos e Ecologia. Para ministrá-las, serão convidados profissionais com no­tório saber no assunto a ser discutido. Exemplos de temas a serem abordados: "o homem e os direitos humanos" e "o homem e suas crenças" (vide Tabela 1).

TABELA 1
Cronograma de atividades da disciplina de Psiquiatria I.

Já o vídeo será utilizado para motivar e fixar noções importantes e pertinentes às diversas fases do desenvolvimento humano. Após a exibição de cada filme, haverá debates com a presença dos professores e profissionais convidados.

Acreditamos com isso estar contribuindo para humanizar a formação médica em nossa faculdade. Entendemos que o processo de ensino-aprendizagem é composto pela aquisição de conhecimentos, desenvolvimento de habilidades e adoção de atitudes6GIGANTE, A. Para que serve um clínico? R. Bras. Educ. Med. Rio de Janeiro , jan./dez., 1995. . Sem reflexão, sem debates e sem um embasamento humanístico em sua formação, nossos futuros médicos continuarão a encarar os pacientes como objeto de estudo, o que pode levar ao atendimento dos dois primeiros itens, mas, seguramente, não levará à adoção de atitudes de respeito ao ser humano/paciente.

Ortega y Gasset afirmou que a incultura dos homem de ciência é uma das causas de maior fracasso na sua missão universal.

BIBLIOGRAFIA

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  • WILLIAMS, C., CURRAN, S. Generalists neglect psychiatry. BMJ, jul., 1995.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    09 Nov 2020
  • Data do Fascículo
    May-Dec 1997
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