Open-access Validação da versão portuguesa do questionário Impacto da Correção Refrativa na Qualidade de Vida (ICR-QV) em uma amostra de adultos jovens

RESUMO

Objetivo:  Este estudo teve como objetivo realizar a adaptação transcultural e a avaliação psicométrica do questionário Quality of Life Impact of Refractive Correction (QIRC) para o português europeu.

Métodos:  Seguiram-se as orientações internacionais para a adaptação de instrumentos de avaliação por questionário, em duas fases: 1) Adaptação transcultural, envolvendo tradução, retrotradução e pré-teste para equivalência semântica; 2) Avaliação psicométrica da escala. A amostra foi selecionada por conveniência em instituições de ensino secundário e universitário. A confiabilidade foi avaliada pelo alfa de Cronbach (α) e pelo ômega de McDonald (ω), e a estabilidade temporal pelo Coeficiente de Correlação Intraclasse (CCI). A avaliação da estrutura dimensional do instrumento foi analisada pela Análise Fatorial Exploratória (AFE).

Resultados:  Participaram 373 estudantes com idades compreendidas entre 16 e 35 anos. A consistência interna global foi elevada (α=0,848 e ω=0,862) e a estabilidade temporal foi considerada excelente (CCI=0,951). A AFE identificou três fatores (Dificuldades e preocupações – 11 itens; Conforto e bem-estar – 7 itens; e Função e sintomas – 2 itens) que explicaram 66,82% da variância total. A consistência interna foi excelente para Dificuldades e preocupações (α=0,970); boa para Conforto e bem-estar (α=0,830); e baixa para Função e sintomas (α=0,253), fator composto por apenas dois itens.

Conclusão:  Os resultados obtidos apoiam a avaliação da estrutura dimensional do instrumento e a confiabilidade da versão portuguesa do QIRC, adaptada para o português europeu, que se apresenta como uma ferramenta adequada para avaliar o impacto da correção refrativa na qualidade de vida em populações jovens em Portugal.

Palavras-chave:
Qualidade de vida; Correção visual; Estudos de validação; Questionários; Psicometria.

ABSTRACT

Objetive:  In this study, we aimed to perform the cross-cultural adaptation and psychometric evaluation of the Quality of Life Impact of Refractive Correction (QIRC) questionnaire for European Portuguese.

Methods:  International guidelines for the adaptation of questionnaire-based assessment instruments were followed, and the study was conducted in two phases: 1) Cross-cultural adaptation, involving translation, back-translation, and pretesting for semantic equivalence; 2) Psychometric evaluation of the scale. A convenience sample was selected from secondary and higher education institutions. Reliability was assessed using Cronbach’s alpha (α) and McDonald’s omega (ω), while temporal stability was evaluated by the intraclass correlation coefficient (ICC). The evaluation of the instrument’s dimensional structure was performed using exploratory factor analysis (EFA).

Results:  The sample consisted of 373 students, aged between 16 and 35 years. Internal consistency was high (α=0.848 and ω=0.862) and temporal stability was considered excellent (ICC=0.951). We identified three factors (Difficulties and Concerns – 11 items; Comfort and Well-being – 7 items; and Function and Symptoms – 2 items), according to the EFA, which explained 66.82% of the total variance. Internal consistency was excellent for Difficulties and Concerns (α=0.970), good for Comfort and Well-being (α=0.830); and low for Function and Symptoms (α=0.253), the latter being composed of only two items.

Conclusion:  The results support the evaluation of the instrument’s dimensional structure and reliability of the Portuguese version of the QIRC, adapted for European Portuguese. It is a suitable tool for assessing the impact of refractive correction on the quality of life among young populations in Portugal.

Keywords:
Quality of life; Visual correction; Validation studies; Questionnaires; Psychometrics.

INTRODUÇÃO

A saúde visual é fundamental para a qualidade de vida, e a sua importância é tal que, quando comprometida, afeta diversas dimensões do ciclo vital, incluindo o desenvolvimento e a capacidade de aprendizagem (em crianças), as relações sociais, o bem-estar emocional, a independência, a segurança e a produtividade no trabalho1.

Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), mais de 2,2 milhões de pessoas vivem com deficiência visual2. Globalmente, os erros refrativos não corrigidos (miopia, hipermetropia e astigmatismo) estão entre os problemas visuais mais prevalentes3. Embora sejam condições clinicamente controláveis, o seu impacto vai além da redução da acuidade visual. A fadiga ocular e o esforço visual excessivo que geram são causas frequentes de queixas de cefaleias, especialmente em adolescentes e jovens adultos4.

A literatura científica evidencia não só a vasta ocorrência de déficits visuais devido a erros de refrativos mas também a falta de uma avaliação consistente dos seus efeitos em múltiplos aspetos da qualidade de vida5,6. Os erros refrativos não corrigidos têm sido associados a baixa autoestima, dificuldades acadêmicas e profissionais, exclusão social e menor bem-estar em geral1. Pessoas com menor acuidade visual têm até três vezes mais chances de relatar dificuldades na execução de atividades cotidianas7. Tais evidências sustentam a relevância da validação de escalas sensíveis à percepção do indivíduo sobre os efeitos das alterações visuais no bem-estar e na funcionalidade8.

Diversos instrumentos têm sido desenvolvidos com esse objetivo, como o Refractive Status and Vision Profile e o NEI-RQL-42, concebidos para avaliar os resultados da cirurgia refrativa, mas que apresentam limitações na diferenciação entre tipos de correção ótica9. O Quality of Life Impact of Refractive Correction (QIRC) avalia especificamente o impacto da correção refrativa na qualidade de vida, seja com óculos, lentes de contacto ou cirurgia. A sua versão original, validada em língua inglesa, demonstrou confiabilidade, consistência interna e sensibilidade para distinguir os efeitos das diferentes formas de correção10,11. O QIRC, atualmente, encontra-se já traduzido e adaptado para diversas línguas e culturas12,13,14,15,16.

Este estudo teve como objetivo a tradução, adaptação transcultural e avaliação psicométrica do QIRC para a língua portuguesa, disponibilizando uma ferramenta válida e fiável para avaliar o impacto da correção refrativa na qualidade de vida em Portugal.

MÉTODOS

Este estudo desenvolveu-se em duas fases distintas:

  1. Tradução e adaptação transcultural do instrumento; e

  2. Avaliação psicométrica da escala.

Seleção de participantes

Para a fase de tradução e adaptação linguística do questionário, foram realizados pré-testes (n=24) e entrevistas cognitivas (n=10) com adultos jovens recrutados em uma turma do primeiro ano do ensino superior. Esses participantes não foram incluídos nas etapas subsequentes do estudo.

A avaliação psicométrica foi realizada com base nas respostas à versão final do questionário, autoaplicado a 373 estudantes do ensino secundário e universitário. Os participantes foram recrutados por conveniência, ao final das aulas, após consulta prévia aos professores responsáveis. A amostra incluiu estudantes com e sem uso habitual de correção visual, abrangendo usuários de óculos e/ou de lentes de contato. Dessa amostra, um subgrupo de 70 participantes voltou a preencher o questionário cerca de um mês depois, para avaliação da confiabilidade teste-reteste.

Todos os participantes maiores foram previamente informados sobre os objetivos do estudo e aceitaram participar voluntariamente, assinando o termo de consentimento. Os alunos com menos de 18 anos apresentaram consentimento assinado pelo tutor legal. Os critérios de inclusão foram: ser estudante, ter entre 16 e 35 anos, compreender a língua portuguesa e aceitar participar de forma voluntária. Foram excluídos os participantes estrangeiros cuja língua materna não fosse o português e com menos de 5 anos de residência em Portugal, aqueles com histórico de patologia ocular e os que devolveram questionários incompletos.

Métodos e procedimentos

Estrutura do questionário Quality of Life Impact of Refractive Correction

O questionário QIRC é composto por 20 itens distribuídos por cinco domínios: função, sintomas, conveniência, preocupações econômicas e saúde/bem-estar emocional. Cada item é avaliado em uma escala de Likert de 5 pontos, variando entre “nenhuma” e “extrema” ou entre “nunca” e “sempre”, consoante o domínio. Adicionalmente, inclui a opção “Não se aplica”, resposta que é considerada como dado ausente na análise de dados10.

Tradução e adaptação transcultural

Este processo baseou-se no procedimento standard sugerido por outros autores17,18,19 e resumido na Tabela 1. Para essa etapa, foi reunido um comitê constituído por 7 especialistas de diferentes áreas de atuação: 3 profissionais de saúde ocular com mais de 10 anos de experiencia profissional (dois optometristas e um ortoptista), um médico de saúde geral e familiar, um psicólogo e dois profissionais da área comportamental (recursos humanos e sociologia). As etapas que constituíram esse processo incluíram a tradução direta, a tradução reversa e o pré-teste.

Tabela 1
Resumo do processo de tradução e adaptação do questionário Quality of Life Impact of Refractive Correction Questionnaire para a língua portuguesa.

A tradução direta do questionário foi realizada por dois tradutores bilingues independentes: um profissional de saúde ocular e outro da área comportamental. A Versão Síntese (VS) resultou da primeira reunião de consenso entre os dois tradutores e um terceiro elemento, também da área da saúde ocular. Na etapa seguinte, um terceiro tradutor, sem conhecimento prévio do instrumento, realizou a tradução inversa. Essa foi analisada em uma segunda reunião de consenso que incluiu todo o comitê (profissionais de saúde ocular, um médico e um psicólogo), originando a Versão Consensual Traduzida (VcT). Essa versão foi submetida a pré-teste por autopreenchimento do questionário, com supervisão de um profissional de saúde visual e um psicólogo. Procurou-se identificar dificuldades de compreensão e autonomia na resposta. Foi adicionada a opção “não entendo a questão” e recolhidos comentários sobre as dúvidas suscitadas, mediante entrevista cognitiva. Após essa fase o questionário QIRC foi traduzido para “Impacto da Correção Refrativa na Qualidade de Vida” (ICR-QV), apresentado no anexo A.

Avaliação psicométrica

A amostra foi obtida por conveniência, integrando estudantes do ensino secundário e do ensino superior. O recrutamento no ensino secundário foi precedido pelo pedido de autorização, tendo apenas participado os alunos que apresentaram o Consentimento assinado pelos encarregados de educação e com obtenção de Assentimento do aluno no dia da avaliação. No ensino superior, o recrutamento foi em sala de aula, após autorização do professor responsável, e a participação baseou-se no consentimento livre dos próprios estudantes. Essa amostra foi independente da utilizada na fase de pré-teste.

O processo de avaliação psicométrica da escala envolveu três etapas principais, executadas no software SPSS v.29:

  1. Avaliação da consistência interna via alfa de Cronbach e ômega de McDonald, para maior robustez em amostras heterogêneas;

  2. Análise da estabilidade temporal (teste-reteste) via Coeficiente de Correlação Intraclasse (CCI) e Bland-Altman, com intervalo entre quatro e seis semanas, em uma subamostra (n=70); e

  3. Avaliação da estrutura dimensional do instrumento.

A consistência interna foi avaliada para determinar o grau de inter-relação entre os itens, ou seja, para verificar se os diferentes itens da escala medem consistentemente o mesmo construto subjacente (impacto da correção refrativa na qualidade de vida). Essa análise foi avaliada pelo coeficiente alfa de Cronbach (α) e ômega de McDonald (ω), considerando-se aceitáveis valores de α ou ω≥0,7020.

A estabilidade temporal foi avaliada pelo teste-reteste, utilizando-se o CCI para estimar a confiabilidade entre os dois momentos de aplicação, e o teste t de Student emparelhado, para verificar a existência de diferenças significativas nas médias. A concordância entre as medições foi analisada por meio do gráfico de Bland-Altman. Considerou-se boa estabilidade temporal para valores de CCI≥0,75, em conjunto com a ausência de diferenças estatisticamente significativas21. Para o cálculo das pontuações, as respostas foram previamente convertidas para uma escala de 0 a 100 com base na matriz de conversão fornecida pelos autores do instrumento original. Essa padronização visa garantir a comparabilidade dos escores com estudos anteriores, bem como uma métrica contínua mais apropriada à análise estatística.

Na avaliação da estrutura dimensional do instrumento, optou-se por uma abordagem exploratória, uma vez que a estrutura dimensional do QIRC não está amplamente estabelecida por estudos confirmatórios e algumas dimensões originais incluem apenas um item. Assim, a Análise Fatorial Exploratória (AFE) foi utilizada para explorar a estrutura latente da versão portuguesa. A adequação dos dados foi verificada por meio do índice Kaiser-Meyer-Olkin (KMO) e do teste de esfericidade de Bartlett. A extração dos fatores baseou-se na análise dos componentes principais, com retenção de fatores com eigenvalue>1 (critério de Kaiser), apoiada pela inspeção do scree plot. Adicionalmente, estabeleceu-se como critério de permanência do item uma carga fatorial mínima de 0,40, garantindo que cada item contribuísse significativamente para seu fator. Para facilitar a interpretação dos fatores, foi aplicada rotação ortogonal do tipo Varimax22.

O estudo obteve parecer favorável da Comissão de Ética da Universidade da Beira Interior (processo no CE-UBI-Pj-2025-006-ID7056) e foi realizado nas instalações do UBImedical, nos laboratórios de rastreio visual. Todos os procedimentos seguiram os princípios éticos da Declaração de Helsínquia.

Declaração de disponibilidade de dados:

Todo o conjunto de dados que dá suporte aos resultados deste estudo está disponível mediante solicitação ao autor correspondente. O conjunto de dados não está publicamente disponível devido à integração de bancos de dados realizados pelos autores.

RESULTADOS

Tradução e adaptação transcultural

Na primeira etapa do processo, tradução direta, registaram-se algumas dificuldades na interpretação dos itens 1 e 3 a 7 do questionário original, o que exigiu discussão em painel, para obter consenso.

No item 1, o termo “How much difficulty” foi traduzido para “Quanta dificuldade” e para “Que dificuldade”, tendo-se optado por “Que dificuldade”, por gerar uma leitura mais natural e adequada à estrutura da pergunta. O termo “Glare” gerou diferentes traduções, como “encandeamento”, “ofuscamento” e “deslumbramento”. Escolheu-se o termo “encandeamento”, por ser mais comum e compreensível no contexto da direção.

Entre os itens 3 e 7, foi recorrente a expressão “How much trouble”, inicialmente traduzida como “Quantos problemas” ou “Que dificuldade”. Após análise, decidiu-se manter a expressão “Que dificuldade”, por garantir maior fluidez e consistência terminológica ao longo da escala. No item 3, a expressão “off-the-shelf (non prescription) sunglasses” foi alvo de versões como “óculos de sol prontos a usar (sem prescrição)” ou “óculos de sol comuns (não graduados)”, tendo-se ajustado para a forma, “óculos de sol comuns (sem graduação)”, por ser mais clara e amplamente compreendida. Essas decisões foram tomadas com base no princípio da equivalência semântica e na adequação ao contexto cultural e linguístico do português europeu.

A segunda etapa do processo, tradução inversa, decorreu sem dificuldades.

Na revisão final, foi recrutada uma turma de 30 alunos, estudantes do 1o ano do ensino superior, dos quais 24 participaram efetivamente e 6 não deram consentimento. Nos resultados dos primeiros 10 voluntários, com entrevista cognitiva (41,7% do grupo pré-teste), identificaram-se dificuldades na compreensão da questão 1, devido ao termo “encandeamento”. A entrevista cognitiva não revelou ganhos significativos com a substituição por “ofuscamento” ou “deslumbramento”, uma vez que os três termos foram considerados pouco usuais na linguagem do dia a dia. A sugestão dos participantes foi adicionar uma explicação, propondo a inclusão “como em situações de alta luminosidade” no final da questão. Adicionalmente, um participante referiu dificuldades na interpretação do item 4, por ser demasiado extenso. A entrevista cognitiva indicou que a formulação “ao pensar nos seus óculos, nas suas lentes de contacto ou nos seus olhos após a cirurgia refrativa, antes de…” poderia ser simplificada para “ao pensar na sua correção visual, antes de…”.

Após esses ajustes, a versão final, designada Impacto da Correção Refrativa na Qualidade de Vida (ICR-QV), manteve os 20 itens originais e foi compreendida integralmente pelos 14 voluntários restantes (58,3% do grupo pré-teste).

Avaliação psicométrica da escala

Caracterização da amostra

Participaram 373 estudantes, 140 (37,5%) do ensino secundário e 233 (62,5%) do ensino superior. A média de idades foi de 19,8±2,9 anos (amplitude entre 16 e 35 anos). Relativamente ao gênero, verificou-se uma distribuição equilibrada, com 201 (53,9%) do sexo feminino e 172 (46,1%) do sexo masculino. Quanto ao uso de correção visual, 187 (50,1%) utilizavam óculos ou lentes de contacto e 186 (49,9%) não utilizavam qualquer tipo de correção.

Consistência das respostas e estabilidade temporal

A análise da consistência interna dos dados foi avaliada pelo coeficiente alfa de Cronbach e ômega de McDonald. Essa análise mostrou um valor elevado de alfa (α=0,885) e de ômega (ω=0,862), atestando uma boa homogeneidade do instrumento na amostra em estudo.

A estabilidade temporal do instrumento foi avaliada com coleta de dados em dois momentos distintos, num intervalo de 4 a 6 semanas, em uma amostra mais reduzida (n=70). As pontuações totais obtidas na primeira e segunda aplicação revelaram médias de 44,96±5,9 e 44,31±6,42, respetivamente. A distribuição das respostas foi considerada normal em ambos os momentos, conforme indicado pelo teste de Shapiro-Wilk (p>0,05). A comparação das médias entre os dois momentos (teste-t emparelhado) não evidenciou diferenças estatisticamente significativas (t(69)=1,221; p=0,226), sugerindo uma boa estabilidade temporal. Para avaliar a concordância entre as duas aplicações, foi calculado o CCI, cujo valor foi de 0,848 (IC95% 0,756–0,906), o que indica um grau de concordância elevado.

O gráfico de Bland Altman (Figura 1) mostra que a média das diferenças é próxima de zero, e as variações obtidas encontram-se maioritariamente dentro do intervalo de confiança de 95%. A regressão linear da diferença das médias mostra que não existe viés de proporção (p=0,303).

Figura 1
Gráfico de Bland-Altman para estudo da concordância entre medidas.
Estrutura fatorial do instrumento

A estrutura latente da escala foi explorada por AFE (Tabela 2). A matriz de correlações foi considerada adequada à análise fatorial, com um valor excelente de KMO=0,928 e teste de Esfericidade de Bartlett significativo (p<0,001). A extração por componentes principais revelou três fatores latentes, com autovalores superiores a 1, conforme o critério de Kaiser-Guttman e a inspeção visual do scree plot (Figura 2).

Tabela 2
Cargas fatoriais após rotação, variância total explicada, denominação dos fatores extraídos e consistência interna.
Figura 2
Scree plot da Análise Fatorial Exploratória, indicando a variância explicada por cada componente.

A solução fatorial extraída explicou 66,82% da variância total do questionário. O primeiro fator, denominado “Dificuldades e preocupações”, incluiu 11 itens e explicou 42,48% da variância. O segundo fator, denominado “Conforto e bem-estar”, agrupou 7 itens relacionados ao conforto visual e ao bem-estar emocional, explicando 17,87% da variância. O terceiro fator, denominado “Função e sintomas”, incluiu 2 itens relacionados à função visual e aos sintomas visuais, explicando 6,47% da variância.

A consistência interna dos fatores extraídos revelou que o Fator 1 e o Fator 2 apresentaram α>0,70, o que sugere boa confiabilidade interna. Já o Fator 3, composto por apenas dois itens, apresentou um valor de α=0,253, muito abaixo do limiar geralmente considerado aceitável. Esse resultado sugere uma possível fragilidade na coesão interna desse Fator, possivelmente relacionada com o número reduzido de itens que o compõem e/ou com a sua heterogeneidade temática.

DISCUSSÃO

A adaptação do QIRC para o português europeu preenche uma lacuna importante na avaliação oftalmológica em Portugal, oferecendo uma base robusta para a aplicação desse instrumento noutros países de língua oficial portuguesa. Embora existam especificidades lexicais regionais, a padronização dessa ferramenta em português facilita o intercâmbio de dados clínicos e científicos entre comunidades lusófonas, permitindo estudos comparativos transculturais. A prática clínica tradicional foca frequentemente medidas objetivas de acuidade visual; contudo, como sublinhado pela literatura, essas métricas não captam totalmente o impacto psicossocial e funcional dos erros refrativos23.

Para esse estudo, a faixa etária da amostra foi definida pelos critérios dos autores do instrumento original, de forma a excluir participantes com presbiopia, condição que poderia comprometer a validade das respostas10.

A adaptação do QIRC para a língua portuguesa exigiu ajustes semânticos para garantir que os itens fossem compreendidos por diferentes faixas etárias. A constituição de um comitê multidisciplinar e a realização de pré-testes asseguraram a compreensão adequada dos itens por parte dos participantes, permitindo detectar e corrigir diferenças linguísticas e culturais. Essa atenção à linguagem cotidiana, sem desrespeitar o conteúdo original, é fundamental para preservar a validade de conteúdo do instrumento, especialmente em domínios subjetivos como a qualidade de vida12,15.

A avaliação psicométrica demonstrou boa confiabilidade, e a estabilidade temporal da escala foi igualmente confirmada, com resultados consistentes entre os dois momentos de aplicação. O alto valor do CCI, a ausência de diferenças significativas nas médias, a boa concordância no gráfico de Bland-Altman e a ausência de um viés sistemático nas medições repetidas indicam elevada confiabilidade temporal21.

Os nossos resultados estão em concordância com os reportados pelo autor original, que, considerando a ferramenta com uma estrutura unidimensional, apresentou valores de coeficiente de alfa de Cronbach de ICC semelhantes aos dos nossos resultados10. Além disso, os nossos achados também vão ao encontro do reportado noutras versões linguísticas e demonstra propriedades psicométricas comparáveis às versões validadas noutras línguas e em contextos culturais — nomeadamente, o questionário inglês original, o malaico (Malásia), o chichewa (Malawi) e o espanhol (Espanha)12,15,16.

A ferramenta original postula uma estrutura unidimensional; contudo, ela é apresentada com diferentes domínios temáticos. A análise fatorial exploratória aplicada aos nossos dados revelou uma estrutura tridimensional que explicou uma proporção substancial da variância total. A estrutura fatorizável da ferramenta foi também reportada por outros autores que efetuaram adaptação dessa escala para outra cultura e língua, como é o caso da versão malaica15. Para esses autores, os cinco domínios temáticos iniciais foram agregados em apenas dois: um domínio funcional e um domínio emocional. No presente estudo, foram identificados três fatores, um relativo a dificuldades e preocupações, outro sobre o bem-estar e um terceiro que agrupa itens de função e sintomas.

O fator 1 (dificuldades e preocupações) agrupou os itens 3 a 13, que no questionário original pertencem a dois domínios distintos: dificuldades sentidas com a correção visual e preocupações10,11. Esse agrupamento em um único fator sugere que, para a população portuguesa jovem, os desafios logísticos da correção visual e as preocupações estéticas/funcionais estão intrinsecamente ligados, formando um construto único. A alta consistência interna desse fator, por um lado, aponta para uma boa coesão interna das respostas e para que todos os itens medem o mesmo construto com muita precisão, e, por outro lado, também pode indicar alguma redundância entre itens20. Esse aspeto foi também notado por outros autores noutras validações15, e mesmo podendo indicar alguma redundância, preserva a sensibilidade do instrumento para detectar o impacto da correção no cotidiano. O fator 2 (bem-estar) manteve a coerência com o domínio temático original de bem-estar social e emocional10, apresentando uma boa consistência interna. Essa coerência é, também, consistente com os achados da versão malaica15.

Já o fator 3, que engloba apenas dois itens, conceitualmente distintos (função visual e sintomas visuais)10, contou com o agrupamento por critérios estatísticos, e não necessariamente por coerência temática. A literatura aponta que fatores com apenas dois itens tendem a apresentar confiabilidade limitada e são particularmente sensíveis à baixa correlação entre si24. A fraca correlação entre esses itens compromete a coesão interna do fator e levanta dúvidas quanto à sua utilidade como dimensão independente. Essa dificuldade foi acentuada pela especificidade do conteúdo do Item 1 (visão ao dirigir). A elevada taxa de respostas omissas nesse item reflete a realidade demográfica da amostra (estudantes que ainda não dirigem), o que comprometeu a coesão desse domínio. Esse fenômeno sublinha que, embora o ICR-QV seja uma ferramenta robusta, a sua aplicação em populações muito jovens deve considerar que certos domínios da qualidade de vida dependem da experiência de vida e da autonomia do respondente.

Apesar da fragilidade estatística do terceiro fator, optou-se pela manutenção da totalidade dos itens nessa fase de adaptação do questionário. Essa decisão fundamenta-se na preservação do valor teórico do construto original e na necessidade de garantir a comparabilidade com estudos internacionais que utilizam o mesmo referencial. Assim, considera-se que a versão portuguesa do QIRC, para avaliação do impacto do erro refrativo na qualidade de vida (ICR-QV), pode ser utilizada com segurança para avaliar o impacto da correção refrativa na qualidade de vida de jovens adultos, sobretudo nas dimensões de dificuldades/preocupações e bem-estar emocional.

Este estudo apresenta limitações. Primeiro, utilizou-se uma amostra por conveniência, composta exclusivamente por estudantes, o que limita a generalização dos resultados para outras faixas etárias e contextos sociodemográficos. A validade externa do instrumento deverá ser avaliada em estudos futuros com amostras mais heterogêneas. Segundo, este trabalho centrou-se na adaptação transcultural e na avaliação psicométrica inicial, não tendo explorado a sensibilidade do instrumento para distinguir grupos específicos, como míopes e hipermetropes. Terceiro, foi realizada apenas AFE, sem Análise Fatorial Exploratória (AFC) ou índices globais de ajuste do modelo. Assim, estudos futuros deverão confirmar a estrutura dimensional identificada em amostras independentes e avaliar a estabilidade da solução fatorial em diferentes populações.

A versão portuguesa do ICR-QV apresentou resultados satisfatórios na avaliação psicométrica inicial, com boa consistência interna global e elevada estabilidade temporal. A análise fatorial exploratória identificou uma estrutura dimensional distinta da originalmente proposta, tanto no número quanto na composição dos fatores, pelo que estes achados devem ser interpretados com cautela. Assim, recomenda-se que estudos futuros avaliem a estrutura dimensional do instrumento por meio de AFC, em amostras independentes e mais heterogêneas. Ainda assim, os resultados obtidos indicam que o ICR-QV pode constituir uma ferramenta útil para avaliar o impacto da correção refrativa na qualidade de vida em populações jovens de língua portuguesa.

  • FONTE DE FINANCIAMENTO:
    nenhuma.

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Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    28 Ago 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    04 Dez 2025
  • Revisado
    24 Maio 2026
  • Aceito
    27 Maio 2026
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