Correlação entre o resultado da reconstrução artroscópica do ligamento cruzado anterior do joelho e o retorno à atividade esportiva

Alexandre Almeida Márcio Rangel Valin Ramon Ferreira Nayvaldo Couto de Almeida Ana Paula Agostini Sobre os autores

Resumos

OBJECTIVE:

To evaluate the return to pre-injury sports activity in a group of patients who underwent anterior cruciate ligament (ACL) reconstruction, in relation to age, sex, body mass index (BMI) and associations with upper-limb fractures.

METHODS:

A group of 265 patients who underwent ACL reconstruction using an ipsilateral graft from the thigh flexor tendons, between July 2000 and November 2007, was analyzed.

RESULTS:

A total of 176 patients was evaluated after a mean period of 34.95 ± 18.8 months (median: 31 months) (interquartile range: 20-48 months). The minimum evaluation period was 12 months and the maximum was 87 months. The number of patients who returned to their sports activity prior to tearing the ACL was 121/176 (68.8%). Patients under 30 years of age more frequently returned to sports activity and this was considered significant: p = 0.016; odds ratio, OR = 0.44 (95% confidence interval, CI: 0.22-0.86). Returning to previous sports activity more frequently was not considered significant for male sex (p = 0.273), individuals with BMI < 25 (p = 0.280) or patients with an ACL injury unrelated to an initial traumatic episode with upper-limb fracturing (p = 0.353).

CONCLUSIONS:

The rate of return to the sports activity prior to ACL injury was 68.8%. It was found that patients under the age of 30 years had a significantly greater rate of return to sports activity after the surgery. In relation to sex, BMI and association with an initial traumatic episode of upper-limb fracturing, there was no statistical difference in the return to sports activity.

Anterior cruciate ligament; Knee; Motor activity


OBJETIVO:

avaliar o retorno à atividade esportiva pré-lesional num grupo de pacientes submetidos à reconstrução do ligamento cruzado anterior (LCA) com relação à idade, ao sexo, ao IMC e à associação com fratura no MI.

MÉTODOS:

foi analisado um grupo de 265 pacientes submetidos à reconstrução do LCA com enxerto ipsilateral dos tendões flexores da coxa entre julho de 2000 e novembro de 2007.

RESULTADOS:

foram avaliados 176 pacientes com uma média de 34,95 ± 18,8 meses (mediana 31) (IIQ: 20-48 meses). A avaliação mínima foi aos 12 meses e a máxima aos 87 meses. O número de pacientes que retornaram à atividade esportiva prévia à ruptura do LCA foi de 121/176 (68,8%). O retorno mais frequente à atividade esportiva entre os pacientes até 30 anos foi considerado significativo (p = 0,016) [OR = 0,44 (95% IC 0,22-0,86)]. Não foi considerado significativo o retorno mais frequente à atividade esportiva prévia para o sexo masculino (p = 0,273) para os indivíduos com IMC < 25 (p = 0,280) e para pacientes com a lesão do LCA não relacionada a um episódio inicial traumático com fratura no MI (p = 0,353).

CONCLUSÕES:

o índice de retorno à atividade esportiva prévia à lesão do LCA foi de 68,8%. Foi verificado de forma significativa que pacientes com idade até 30 anos têm um maior índice de retorno à atividade esportiva após a cirurgia. Com relação ao sexo, IMC e à associação com um episódio inicial traumático de fratura no MI não houve diferença estatística para o retorno à atividade esportiva.

Ligamento cruzado anterior; Joelho; Atividade motora


Introdução

A deficiência LCA é uma patologia comum e pode levar a alterações na qualidade de vida.11. Schueda MA, Santos OJR, Farias ABV. Parafuso de interferência absorvível versus metálico na ligamentoplastia do cruzado anterior. Rev Joelho. 2002;2(2):1. A instabilidade articular é a principal causa de incapacidade funcional do joelho e obriga indivíduos na fase ativa da vida a modificarem a atividade profissional e a participação em atividades esportivas.22. Smith FW, Rosenlund EA, Aune AK, MacLean JA, Hillis SW. Subjective functional assessments and the return to competitive sport after anterior cruciate ligament reconstruction. Br J Sports Med. 2004;38(3):279-84.

O tratamento conservador da lesão do LCA pode trazer bons resultados, mas tem capacidade limitada de devolver ao paciente a atividade esportiva praticada anteriormente à lesão.33. Noyes FR, Matthews DS, Mooar PA, Grood ES. The symptomatic anterior cruciate-deficient knee. Part II: The results of rehabilitation, activity modification, and counseling on functional disability. J Bone Joint Surg Am. 1983;65(2):163-74.

O tratamento cirúrgico da instabilidade do joelho com abordagem específica para deficiência do LCA apresentou grande evolução nas últimas décadas.44. Colombet P, Allard M, Bousquet V, de Lavigne C, Flurin PH, Lachaud C. Anterior cruciate ligament reconstruction using four-strand semitendinosus and gracilis tendon grafts and metal interference screw fixation. Arthroscopy. 2002;18(3):232-7. O retorno irrestrito ao nível de esporte pré-lesional é considerado um indicador de sucesso da reconstrução do LCA.55. Lee DY, Karim SA, Chang HC. Return to sports after anterior cruciate ligament reconstruction - a review of patients with minimum 5-year follow-up. Ann Acad Med Singapore. 2008;37(4):273-8. Observa-se uma grande variação entre a medida objetiva da estabilidade do joelho no pós-operatório do LCA e a avaliação subjetiva do paciente quanto a sua satisfação após o procedimento cirúrgico, influenciada por fatores sociais, culturais, financeiros e até psicológicos.22. Smith FW, Rosenlund EA, Aune AK, MacLean JA, Hillis SW. Subjective functional assessments and the return to competitive sport after anterior cruciate ligament reconstruction. Br J Sports Med. 2004;38(3):279-84.

3. Noyes FR, Matthews DS, Mooar PA, Grood ES. The symptomatic anterior cruciate-deficient knee. Part II: The results of rehabilitation, activity modification, and counseling on functional disability. J Bone Joint Surg Am. 1983;65(2):163-74.

4. Colombet P, Allard M, Bousquet V, de Lavigne C, Flurin PH, Lachaud C. Anterior cruciate ligament reconstruction using four-strand semitendinosus and gracilis tendon grafts and metal interference screw fixation. Arthroscopy. 2002;18(3):232-7.
- 55. Lee DY, Karim SA, Chang HC. Return to sports after anterior cruciate ligament reconstruction - a review of patients with minimum 5-year follow-up. Ann Acad Med Singapore. 2008;37(4):273-8.

O objetivo desta pesquisa é avaliar o índice de retorno à atividade esportiva pré-lesional num grupo de pacientes submetidos à reconstrução do LCA com o autoenxerto dos tendões flexores da coxa. Serão analisados os dados com relação à idade, ao sexo, ao IMC e à associação com episódio inicial traumático de fratura no membro inferior (MI).

Materiais e métodos

O estudo foi transversal e retrospectivo. Foram analisados 265 pacientes submetidos à artroscopia do joelho para fins de reconstrução isométrica do LCA com enxerto ipsilateral dos tendões flexores (TF) da coxa. Os procedimentos cirúrgicos ocorreram entre 6 de julho de 2000 e 19 de novembro de 2007. A indicação para a cirurgia de reconstrução do LCA foi queixa de instabilidade do joelho em paciente com interesse na prática desportiva ou dificuldades para o desempenho profissional. Foram incluídos neste estudo os pacientes em que foi usado o endoboton para fixação femoral e parafuso cortical e arruela metálica para fixação tibial do enxerto.

Foram excluídos do estudo pacientes submetidos a outras técnicas cirúrgicas ou procedimentos adicionais: osteotomia valgizante tibial, reconstrução póstero-lateral, reconstrução simultânea do LCP, ressecção de osteocondroma e sutura meniscal. Também foram excluídos pacientes com cirurgias de revisão do LCA, com seguimento pós-operatório inferior a 12 meses e com alterações no MI, como perda muscular por sequela de queimadura, deformidade metafisária, artrodese subtalar, neuropraxia pós-traumática do ciático e antecedente de artrite séptica.

A anestesia feita foi o bloqueio subaracnóideo com bupivacaína pesada (15 a 20 mg/Kg) com adição de morfina na dosagem de 0,1 a 0,2 mg/Kg. O procedimento foi executado sempre pelo mesmo cirurgião, com o paciente posicionado em decúbito dorsal e o membro inferior sob garroteamento pneumático. Não foi usado dreno de aspiração. Foi feito curativo compressivo e o membro inferior foi mantido em extensão completa.66. Pförringer W, Kremer C. Subsequent treatment of surgically managed, fresh, anterior cruciate ligament ruptures-a randomized, prospective study. Sportverletz Sportschaden. 2005;19(3):134-9. A crioterapia, como método adjuvante, foi usada em todos os casos.77. Raynor MC, Pietrobon R, Guller U, Higgins LD. Cryotherapy after ACL reconstruction: a meta-analysis. J Knee Surg. 2005;18(2):123-9. O protocolo pós-operatório foi domiciliar na grande maioria dos pacientes. As visitas pós-operatórias foram feitas aos 15 dias, um mês e dois, quatro, seis, oito e 12 meses. A liberação para o gesto esportivo foi aos seis meses de pós-operatório e para os esportes de contato foi aos oito meses.88. Mello Júnior WA, Marchetto A, Prado AMA. Reabilitação funcional do joelho nas reconstruções ligamentares - Programa domiciliar. In: Pardini AG, Souza JMG, Mello Júnior WA, editors. Clínica ortopédica. Lesões ligamentares do joelho. Rio de Janeiro: Medsi; 2000. p. 695-9.

As variáveis estudadas foram: sexo, idade, IMC, associação com episódio inicial de fratura do MI e retorno à atividade esportiva prévia à lesão.

Os dados foram analisados por meio do conjunto estatístico SPSS (Statistical Package for Social Sciences) versão 12.0 (SPSS Inc. 1989-2003). Para a análise estatística, foram usados: cálculo das médias, desvio-padrão, mediana, frequência e percentual. Usaram-se o teste t de Student e o Anova de uma via para comparar as médias das variáveis simétricas. O teste não paramétrico de Mann-Whitney foi usado para análise das variáveis assimétricas e o teste do x 22. Smith FW, Rosenlund EA, Aune AK, MacLean JA, Hillis SW. Subjective functional assessments and the return to competitive sport after anterior cruciate ligament reconstruction. Br J Sports Med. 2004;38(3):279-84. (qui-quadrado) para a comparação de frequências. Foram consideradas significantes as diferenças com p < 0,05 para um intervalo de confiança de 95%.

Resultados

O estudo avaliou 265 pacientes, dos quais foram excluídos 76, o que totalizou 189. Houve uma perda amostral de 13 pacientes (6,87%), dois por óbito e 11 por falha no seguimento. No total, 176 pacientes foram avaliados, com uma média de 34,95 ± 18,8 meses de pós-operatório (mediana de 31 meses) (IIQ: 20-48 meses). A avaliação mínima foi aos 12 meses e a máxima aos 87 meses de pós-operatório. A média de idade foi de 32,6 ± 10,1 anos. O paciente mais jovem tinha 13 e o mais velho, 54. Nesta amostra, 131 (74,4%) pacientes eram masculinos e 45 (25,6%) femininos. A média de idade para o sexo masculino foi de 32,4 ± 9,6 anos e para o feminino de 33,1 ± 11,4 anos. O número de joelhos direitos operados foi de 81 (46%) e de esquerdos foi de 95 (54%).

O número de pacientes operados que retornaram à atividade esportiva prévia à ruptura do LCA foi de 121/176 (68,8%). A média de idade dos pacientes que retornaram à atividade esportiva foi de 31,4 ± 9,6 anos, enquanto que a média de idade dos pacientes que não retornaram foi de 35,2 ± 10,6. Foi encontrada uma diferença estatística significativa entre os dois grupos. Os pacientes que retornaram à atividade esportiva têm uma média de idade mais baixa (p = 0,020). Ao se fazer a análise estatística com ponto de corte na idade de 30 anos verificou-se que o retorno à atividade esportiva entre os pacientes até 30 anos foi de 78,2%, enquanto que entre os pacientes acima de 30 anos foi de 61,2%. A diferença foi considerada significativa (p = 0,016) [OR = 0,44 (95% IC 0,22-0,86)]. Ao analisar o retorno à atividade esportiva em comparação com o sexo, verificou-se que 93 pacientes (71%) do sexo masculino e 28 (62,2%) do feminino retornaram ao esporte. A maior frequência de retorno à atividade física prévia entre os pacientes do sexo masculino não foi significativa (p = 0,273). Com relação ao grau de obesidade, 81 pacientes (46%) apresentavam o peso considerado como normal, 65 (36,9%) apresentavam sobrepeso, 27 (15,3%) foram classificados como obesidade grau 1 e três (1,7%) foram classificados como obesidade grau 2. Não houve pacientes com obesidade mórbida nesta amostra. Foi verificado o retorno à atividade esportiva em 59 pacientes (72,8%) com IMC considerado normal (IMC < 25). Ao agrupar os pacientes com IMC > 25 (sobrepeso, obesidade grau 1 e obesidade grau 2), foi verificado o retorno à atividade esportiva em 62 (65,3%). Não houve diferença estatística significativa quando comparados os dois grupos (p = 0,280).

Nesta amostra, 17 pacientes (9,7%) tinham a lesão do LCA relacionada a um episódio inicial traumático com fratura no MI: fratura do côndilo tibial, fratura do fêmur ou fratura da tíbia. A média de idade para esses pacientes foi de 36,8 ± 10 anos (mediana 39). A média de idade para o restante da amostra foi de 32,1 ± 10 anos (mediana 32). Não foi verificada diferença estatística entre os dois grupos (p = 0,070).

Foi verificado o retorno à atividade esportiva em 10 pacientes (58,8%) com a lesão do LCA relacionada a um episódio inicial traumático com fratura no MI. Ao analisar o restante da amostra, verificamos o retorno à atividade esportiva em 111 pacientes (69,8%). Não houve diferença estatística significativa com relação ao retorno à atividade desportiva quando comparados os dois grupos (p = 0,353).

Discussão

O objetivo do tratamento cirúrgico do joelho deficiente para o LCA é a estabilização para prevenir lesões subsequentes à devolução do paciente ao esporte no mesmo nível em que o praticava antes da lesão.99. Barber-Westin SD, Noyes FR. Factors used to determine return to unrestricted sports activities after anterior cruciate ligament reconstruction. Arthroscopy. 2011;27(12):1697-705. Esse dado é difícil de ser avaliado por levar em consideração o nível de atividade esportiva, o tipo de esporte praticado, a expectativa de resultado, a capacidade de engajamento no processo de reabilitação e o estresse gerado pelo tratamento, bem como pelo período de reabilitação decorrido. Deeham et al.1010. Deehan DJ, Salmon LJ, Webb VJ, Davies A, Pinczewski LA. Endoscopic reconstruction of the anterior cruciate ligament with an ipsilateral patellar tendon autograft. A prospective longitudinal five-year study. J Bone Joint Surg Br. 2000;82(7):984-91. demonstraram que pacientes sedentários podem apresentar melhores resultados do que outros engajados em atividades competitivas.

Ao indicar qualquer tratamento cirúrgico, o ortopedista deve discutir com o paciente e verificar sua expectativa de resultado. Não é diferente para a indicação da reconstrução do LCA.

Baseados na classificação dos esportes segundo a American Medical Association, podemos dividir os esportes em de contato (boxe, futebol, basquete, handebol e futebol americano) e de não contato (tênis, natação, golfe e lançamentos do atletismo).1111. American Medical Association. Committee on the Medical Aspects of Sports. In: Medical evaluation of the athlete: a guide. Chicago: American Medical Association; 1976. Nosso trabalho não avaliou os diferentes tipos de esporte praticados, apenas considerou a atividade esportiva prévia da amostra.

O retorno à prática esportiva é multifatorial e envolve aspectos cirúrgicos, reabilitação e fatores demográficos, psicológicos e sociais. A idade parece ser importante, uma vez que pacientes idosos têm menor probabilidade de retorno ao esporte. É importante diferenciar retorno ao esporte prévio e retorno ao nível esportivo prévio, pois as taxas de cada um são bem diferentes. E mesmo um retorno ao status competitivo prévio não significa que se mantenha a competência esportiva prévia.1212. Feller J, Webster KE. Return to sport following anterior cruciate ligament reconstruction. Int Orthop. 2013;37(2):285-90.

Dunn et al.1313. Dunn WR, Spindler KP. Moon Consortium. Predictors of activity level 2 years after anterior cruciate ligament reconstruction (ACLR): a Multicenter Orthopaedic Outcomes Network (Moon) ACLR cohort study. Am J Sports Med. 2010;38(10):2040-50. descreveram que o alto nível esportivo prévio é o principal preditor para o retorno ao esporte em dois anos de seguimento, ao passo que o sexo feminino, alto IMC e fumo nos primeiros seis meses estão associados a menores taxas de retorno ao esporte. Outros autores apontam o gênero como variável importante, porém as diferenças desaparecem em longo prazo.1212. Feller J, Webster KE. Return to sport following anterior cruciate ligament reconstruction. Int Orthop. 2013;37(2):285-90.

O sucesso em longo prazo das reconstruções do LCA intra-articulares isoladas é apresentado na literatura em taxas que variam entre 75% e 95% de bons e excelentes resultados, considerando as variáveis estabilidade, alívio dos sintomas e retorno ao esporte.1414. Wetzler MJ, Bartolozzi AR, Gillespie MJ. Revision anterior cruciate ligament reconstruction. Oper Tech Orthop. 1996;6:181-9.

O retorno à prática esportiva em qualquer grau pós-reconstrução do LCA varia entre 26% e 97%,1515. Shelbourne KD, Sullivan AN, Bohard K, Gray T, Urch SE. Return to basketball and soccer after anterior cruciate ligament reconstruction in competitive school-aged athletes. Sports Health. 2009;1(3):236-41. no nível de atividade pré-lesional é de 63% e no da prática competitiva, de 44%.1616. Ardern CL, Webster KE, Taylor NF, Feller JA. Return to sport following anterior cruciate ligament reconstruction surgery: a systematic review and meta-analysis of the state of play. Br J Sports Med. 2011;45(7):596-606.

Alguns autores avaliaram o retorno à atividade esportiva de acordo com a técnica cirúrgica usada. Guimarães et al. compararam as reconstruções do LCA com enxerto do tendão patelar (TP) e com o enxerto do tendão quadricipital (TQ). Verificaram 25% de retorno ao esporte, em nível inferior ao original, após cirurgia com o TP e 8,6% com o TQ.1717. Guimarães MV. Reconstrução artroscópica do ligamento cruzado anterior: estudo comparativo entre os enxertos autólogos de ligamento patelar e de tendão do quadríceps. Rev Bras Ortop. 2004;39(1):30-41. Entre os pacientes submetidos à técnica do enxerto do TP 12,5% relataram abandono do esporte por queixas de falseio ou dor e 12,5% por receio de recidiva da lesão.1717. Guimarães MV. Reconstrução artroscópica do ligamento cruzado anterior: estudo comparativo entre os enxertos autólogos de ligamento patelar e de tendão do quadríceps. Rev Bras Ortop. 2004;39(1):30-41. Aglietti et al.1818. Aglietti P, Buzzi R, Zaccherotti G, De Biase P. Patellar tendon versus doubled semitendinosus and gracilis tendons for anterior cruciate ligament reconstruction. Am J Sports Med. 1994;22(2):211-7. tiveram 50% de retorno à atividade física em nível semelhante ao pré-lesional quando usada a técnica com os TF da coxa e 66% com a técnica do TP. Usamos a técnica de reconstrução do LCA com os TF da coxa em toda a nossa amostra. A comparação entre as técnicas cirúrgicas e seus resultados relativos ao nível esportivo recuperado ganhou novas perspectivas em estudo recente.1919. Mascarenhas R, Tranovich MJ, Kropf EJ, Fu FH, Harner CD. Bone-patellar tendon-bone autograft versus hamstring autograft anterior cruciate ligament reconstruction in the young athlete: a retrospective matched analysis with 2-10 year follow-up. Knee Surg Sports Traumatol Arthrosc. 2012;20(8):1520-7. O retorno aos esportes demandantes foi de 74% para o grupo de TP e 70% para o grupo de TF. Entretanto, apenas 57% do TP e 44% do TF retornaram ao nível de atividade pré-lesional. A técnica do TF apresentou, de maneira significativa, melhoria na preservação da extensão, melhores índices subjetivos e menor evidência radiográfica de osteoartrite lateral.1919. Mascarenhas R, Tranovich MJ, Kropf EJ, Fu FH, Harner CD. Bone-patellar tendon-bone autograft versus hamstring autograft anterior cruciate ligament reconstruction in the young athlete: a retrospective matched analysis with 2-10 year follow-up. Knee Surg Sports Traumatol Arthrosc. 2012;20(8):1520-7.

Smith et al.22. Smith FW, Rosenlund EA, Aune AK, MacLean JA, Hillis SW. Subjective functional assessments and the return to competitive sport after anterior cruciate ligament reconstruction. Br J Sports Med. 2004;38(3):279-84. acompanharam um grupo de 62 atletas por 12 meses e encontraram 81% de retorno à atividade esportiva. Entretanto, 21% apresentaram prejuízo no desempenho. Nakayama et al.2020. Nakayama Y, Shirai Y, Narita T, Mori A, Kobayashi K. Knee functions and a return to sports activity in competitive athletes following anterior cruciate ligament reconstruction. J Nippon Med Sch. 2000;67(3):172-6. também analisaram atletas e obtiveram 92% de retorno à atividade esportiva. O maior retorno ao esporte nesses dois estudos deve-se principalmente ao fato de terem sido feitos com atletas profissionais. Eles dispõem de reabilitações mais aprimoradas e maior estímulo psicológico para retornar à atividade física. No presente trabalho avaliamos pacientes de uma amostra aleatória, incluindo alguns atletas. Encontramos um índice de retorno à atividade esportiva de 68,8%, valor semelhante aos encontrados na literatura.

A dor como limitante da atividade esportiva foi mais comum quando usada a técnica com enxerto do TP. Para O'Brien et al.,2121. O'Brien SJ, Warren RF, Pavlov H, Panariello R, Wickiewicz TL. Reconstruction of the chronically insufficient anterior cruciate ligament with the central third of the patellar ligament. J Bone Joint Surg Am. 1991;73(2):278-86. o índice de dor na região anterior do joelho após reconstrução do LCA com essa técnica foi de 30%. Valores menores foram encontrados por Corry et al.2222. Corry IS, Webb JM, Clingeleffer AJ, Pinczewski LA. Arthroscopic reconstruction of the anterior cruciate ligament. A comparison of patellar tendon autograft and four-strand hamstring tendon autograft. Am J Sports Med. 1999;27(4):444-54. e Nakayama et al.2020. Nakayama Y, Shirai Y, Narita T, Mori A, Kobayashi K. Knee functions and a return to sports activity in competitive athletes following anterior cruciate ligament reconstruction. J Nippon Med Sch. 2000;67(3):172-6. quando usada técnica com os TF para reconstrução do LCA (7% e 6%, respectivamente). Em nosso estudo, avaliamos os pacientes por meio do Escore de Lisholm, no qual um dos itens é a dor. No entanto, não consideramos a dor de forma isolada como objetivo da pesquisa.

Assim como Smith et al.,22. Smith FW, Rosenlund EA, Aune AK, MacLean JA, Hillis SW. Subjective functional assessments and the return to competitive sport after anterior cruciate ligament reconstruction. Br J Sports Med. 2004;38(3):279-84. no presente estudo o retorno à atividade física ao nível pré-lesional em homens foi de 71% e não apresentou diferença estatisticamente significativa quando comparado ao valor encontrado para as mulheres, de 62,2%.

Nos estudos de Nakayama et al.2020. Nakayama Y, Shirai Y, Narita T, Mori A, Kobayashi K. Knee functions and a return to sports activity in competitive athletes following anterior cruciate ligament reconstruction. J Nippon Med Sch. 2000;67(3):172-6. e Smith et al.,22. Smith FW, Rosenlund EA, Aune AK, MacLean JA, Hillis SW. Subjective functional assessments and the return to competitive sport after anterior cruciate ligament reconstruction. Br J Sports Med. 2004;38(3):279-84. a média de idade dos pacientes foi inferior a 30 anos e eles mostraram excelentes resultados no retorno à atividade física em nível profissional. Smith et al.22. Smith FW, Rosenlund EA, Aune AK, MacLean JA, Hillis SW. Subjective functional assessments and the return to competitive sport after anterior cruciate ligament reconstruction. Br J Sports Med. 2004;38(3):279-84. observaram ainda que a idade superior a 35 anos, a lesão crônica do LCA e patologias pré-existentes no joelho são fatores limitantes de bons resultados pós-operatórios. Arden et al.2323. Ardern CL, Taylor NF, Feller JA, Webster KE. Return-to-sport outcomes at 2 to 7 years after anterior cruciate ligament reconstruction surgery. Am J Sports Med. 2012;40(1):41-8. mostraram que pacientes mais velhos têm taxa de retorno esportivo menor. Em nosso estudo, a idade até 30 anos se mostrou um fator de proteção para o retorno ao esporte após a cirurgia de reconstrução do LCA com enxertos dos TF da coxa.

Shelbourne et al.1515. Shelbourne KD, Sullivan AN, Bohard K, Gray T, Urch SE. Return to basketball and soccer after anterior cruciate ligament reconstruction in competitive school-aged athletes. Sports Health. 2009;1(3):236-41. demonstraram em seu trabalho que jovens com idade média de 15 anos, jogadores de futebol e basquete, apresentaram uma taxa de retorno ao status esportivo prévio de 87% (basquete), 93% (mulheres-futebol) e 80% (homens-futebol). Desse grupo, 20% mantiveram seu nível competitivo durante o período universitário. Não houve diferença estatística entre os sexos e entre os esportes praticados referentes à recidiva da lesão ou ao acometimento contralateral. O retorno precoce (três-quatro meses) não mostrou aumento na taxa de lesões subsequentes do LCA em relação ao retorno tardio (> seis meses).

Não encontramos trabalhos que avaliaram a relação entre o retorno à atividade esportiva após a reconstrução do LCA e um episódio inicial traumático de fratura no MI.

Há relação significativa entre o peso e a força do quadríceps femoral.2424. Schmitt LC, Paterno MV, Hewett TE. The impact of quadriceps femoris strength asymmetry on functional performance at return to sport following anterior cruciate ligament reconstruction. J Orthop Sports Phys Ther. 2012;42(9):750-9.. Schmitt et al.2424. Schmitt LC, Paterno MV, Hewett TE. The impact of quadriceps femoris strength asymmetry on functional performance at return to sport following anterior cruciate ligament reconstruction. J Orthop Sports Phys Ther. 2012;42(9):750-9. avaliaram a influência da força quadricipital e o retorno à atividade esportiva. Os indivíduos que apresentaram uma diminuição de força de mais de 15% em relação ao membro contralateral foram afetados negativamente em relação à função e ao desempenho. Já o outro grupo (força > 85%) apresentou resultados similares ao grupo-controle (pacientes sem lesão no LCA). Os pacientes com menor força quadricipital apresentaram maior peso (p < 0,025) em relação ao grupo-controle e ao grupo com perda de força de até 15%.

O momento ideal para o retorno à prática esportiva ainda é desafiador. Postulou-se que tal momento poderia ser alcançado quando o membro afetado alcançasse 90% da capacidade do membro contralateral para desempenhar as mesmas atividades.2525. Return to sport: when should an athlete return to sport after an ACL surgery? J Orthop Sports Phys Ther. 2011;41(6):388. Em recente revisão sistemática, Barber-Wesrin e Noyes99. Barber-Westin SD, Noyes FR. Factors used to determine return to unrestricted sports activities after anterior cruciate ligament reconstruction. Arthroscopy. 2011;27(12):1697-705. buscaram identificar fatores que definissem o momento de retorno ao esporte após a reconstrução do LCA. Foram identificados apenas 35 trabalhos que usaram variáveis mensuráveis. Desses, apenas dois basearam-se na associação de quatro-cinco critérios objetivos para avaliar se a liberação para a atividade física foi apropriada. Portanto, apesar de a força muscular, o controle neuromotor e a estabilidade serem critérios importantes na liberação da prática esportiva, a literatura ainda necessita de publicações mais homogêneas para fornecer esses dados.99. Barber-Westin SD, Noyes FR. Factors used to determine return to unrestricted sports activities after anterior cruciate ligament reconstruction. Arthroscopy. 2011;27(12):1697-705.

10. Deehan DJ, Salmon LJ, Webb VJ, Davies A, Pinczewski LA. Endoscopic reconstruction of the anterior cruciate ligament with an ipsilateral patellar tendon autograft. A prospective longitudinal five-year study. J Bone Joint Surg Br. 2000;82(7):984-91.

11. American Medical Association. Committee on the Medical Aspects of Sports. In: Medical evaluation of the athlete: a guide. Chicago: American Medical Association; 1976.

12. Feller J, Webster KE. Return to sport following anterior cruciate ligament reconstruction. Int Orthop. 2013;37(2):285-90.

13. Dunn WR, Spindler KP. Moon Consortium. Predictors of activity level 2 years after anterior cruciate ligament reconstruction (ACLR): a Multicenter Orthopaedic Outcomes Network (Moon) ACLR cohort study. Am J Sports Med. 2010;38(10):2040-50.

14. Wetzler MJ, Bartolozzi AR, Gillespie MJ. Revision anterior cruciate ligament reconstruction. Oper Tech Orthop. 1996;6:181-9.

15. Shelbourne KD, Sullivan AN, Bohard K, Gray T, Urch SE. Return to basketball and soccer after anterior cruciate ligament reconstruction in competitive school-aged athletes. Sports Health. 2009;1(3):236-41.
- 1616. Ardern CL, Webster KE, Taylor NF, Feller JA. Return to sport following anterior cruciate ligament reconstruction surgery: a systematic review and meta-analysis of the state of play. Br J Sports Med. 2011;45(7):596-606. A associação entre ausência de derrame articular e episódios de instabilidade, índice IKDC > 93, apresentou valor preditivo positivo para estimar o retorno ao status esportivo prévio.2626. Lentz TA, Zeppieri Jr G, Tillman SM, Indelicato PA, Moser MW, George SZ, Chmielewski TL. Return to preinjury sports participation following anterior cruciate ligament reconstruction: contributions of demographic, knee impairment, and self-report measures. J Orthop Sports Phys Ther. 2012;42(11):893-901.

Consideramos uma limitação do nosso estudo a heterogeneidade do grupo estudado quanto à prática esportiva, muito embora essa seja a realidade do ortopedista brasileiro. O paciente atleta é citado por Smith et al. por ter um perfil psicológico e motivação para o retorno ao esporte que podem contribuir diretamente para os resultados encontrados.22. Smith FW, Rosenlund EA, Aune AK, MacLean JA, Hillis SW. Subjective functional assessments and the return to competitive sport after anterior cruciate ligament reconstruction. Br J Sports Med. 2004;38(3):279-84.

Conclusão

O índice de retorno à atividade esportiva prévia à lesão do LCA nos pacientes submetidos à reconstrução com o autoenxerto dos TF da coxa foi de 68,8%.

Foi verificado de forma significativa que pacientes com idade até 30 anos têm um maior índice de retorno à atividade esportiva após a cirurgia.

Com relação ao sexo, ao IMC e à associação com um episódio inicial traumático de fratura no MI, não houve diferença estatística para o retorno à atividade esportiva.

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Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    May-June 2014

Histórico

  • Recebido
    17 Jul 2012
  • Aceito
    14 Jun 2013
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