Open-access Comparação de duas técnicas de cirurgia de adequação sexual do masculino para feminino - experiência com 59 casos consecutivos

RESUMO

Introdução:  Apesar da recente expansão e padronização das terapias para pessoas transgênero, as evidências científicas relacionadas a esses tratamentos, incluindo os cirúrgicos, ainda estão em processo de aprimoramento.

Objetivo:  Comparar as taxas de complicações entre duas técnicas cirúrgicas de redesignação sexual (CRS) de homem para mulher: inversão peniana com posicionamento da glande no fundo do canal vaginal (VG) e inversão peniana utilizando a glande para confecção do clitóris (VC).

Método:  Trata-se de uma coorte observacional retrospectiva que incluiu 59 mulheres transgênero submetidas à cirurgia de redesignação sexual utilizando as técnicas VG (grupo I, n=25) e VC (grupo II, n=34), operadas entre 2015 e 2019. Os grupos foram comparados por idade, peso, altura, índice de massa corporal, período de internação, óbito e tipos de complicações, como infecção do trato urinário, conformação do canal vaginal, revestimento do canal vaginal, fístulas, perfurações intestinais, volume vulvar à estimulação sexual, aspecto vulvar, eventos tromboembólicos e necessidade de reoperação. A análise estatística foi realizada utilizando o teste t de Student, o teste de Fischer e o teste de Pearson.

Resultados:  Os grupos não apresentaram diferença quanto à idade, peso, IMC e período de internação. Também não houve diferenças em relação a algumas complicações, como infecção/deiscência (p=0,569), fístulas (p=0,71), perfurações retais (p=0,424), excesso de volume vulvar durante a estimulação sexual (p=0,122), aspecto vulvar (p=0,630) e eventos tromboembólicos (p=0,302). Houve diferença entre os grupos em relação à conformação do canal urinário (p=0,020) e vaginal (p=0,002), revestimento neovaginal (p=0,011) e necessidade de reoperação (p=0,006), com menores taxas de complicação no grupo VC. As complicações mostraram correlação fraca ao comparar queixas urinárias com volume vulvar durante a estimulação sexual (ρ=0,462); pequenas lesões do canal vaginal com fístulas (ρ=0,482); pequenas lesões do canal vaginal versus necessidade de reintervenção cirúrgica (ρ=0,477) e excesso de volume vulvar na estimulação sexual versus necessidade de reintervenção (ρ=0,494). Todos os outros testes de Pearson mostraram correlação nula ou muito fraca entre as variáveis.

Implicações Clínicas:  A comparação das duas técnicas de cirurgia de redesignação sexual (CRS) realizadas no mesmo serviço permite afirmar que a técnica VC apresenta vantagens, com menores taxas de alguns tipos de complicações.

Pontos Fortes e Limitações:  Esta é a primeira publicação conhecida a comparar dois tipos de CRS em mulheres trans, realizadas no mesmo serviço. Porém, trata-se de revisão retrospectiva de pacientes operadas inicialmente com a técnica da glande no fundo do canal vaginal (VG) seguidas pelo grupo operado com a técnica VC, o que pode gerar viés e esta é uma limitação do nosso estudo.

Conclusão:  A técnica VC apresentou menor incidência de complicações urinárias, de conformação do canal vaginal e do revestimento vaginal e, consequentemente, menor necessidade de reintervenções cirúrgicas do que a técnica VG.

Palavras-chave:
Disforia de Gênero; Pessoas Transgênero; Genitália; Procedimentos Cirúrgicos Urogenitais; Procedimentos de Redesignação Sexual

ABSTRACT

Introduction:  Despite recent expansion and standardization of therapies for transgender people, the scientific evidence related to these treatments, including surgical ones, is still improving.

Objective:  To compare the complication rates between two male-to-female (MtF) techniques of sex reassignment surgery (SRS): penile inversion with positioning of the glans at the bottom of the vaginal canal (VG) and penile inversion using the glans to make the clitoris (VC).

Methods:  This is a retrospective observational cohort that included 59 transgender women who underwent sex reassignment surgery with VG (group I, n=25) and VC (group II, n=34) techniques, operated on between 2015 and 2019. We compared groups by age, weight, height, body mass index, length of hospital stay, death, and types of complications, such as urinary tract infection, vaginal canal conformation, vaginal canal lining, fistulas, intestinal perforations, vulvar volume on sexual stimulation, vulvar appearance, thromboembolic events, and need for reoperation. We used the Student’s t, the Fischer’s, and the Pearson’s tests for statistical analysis.

Results:  The groups did not differ in terms of age, weight, BMI, and length of hospital stay. There were also no differences regarding complications such as infection/dehiscence (p=0.569), fistulas (p=0.71), rectal perforations (p=0.424), increased vulvar volume during sexual stimulation (p=0.122), vulvar aspect (p=0.630) and thromboembolic events (p=0.302). The groups differed as to the conformation of the urinary canal (p=0.020) and vaginal canal (p=0.002), neovaginal lining (p=0.011), and need for reoperation (p=0.006), with lower complication rates in the VC group. There were weak correlations between the complication pairs urinary complaints and increased vulvar volume during sexual stimulation (ρ=0.462), small lesions of the vaginal canal and fistulas (ρ=0.482), small lesions of the vaginal canal and the need for surgical reintervention (ρ=0.477), and increased vulvar volume during sexual stimulation and the need for reintervention (ρ=0.494). All other Pearson tests showed no or very weak correlations between variables.

Clinical Implications:  The comparison of the two SRS techniques performed in the same service allows us to affirm that the VC technique has advantages, with lower rates of some types of complications.

Strengths and Limitations:  This is the first known publication comparing two types of SRS in trans women, performed in the same service. However, this is a retrospective review of patients initially operated with the glans technique at the bottom of the vaginal canal (VG) followed by the group operated with the VC technique, which may generate bias.

Conclusion:  The VC technique had a lower incidence of urinary complications, conformation of the vaginal canal, and vaginal lining and, consequently, less need for surgical reinterventions than the VG technique.

Keywords:
Gender Dysphoria; Transgender people; Genitalia; Urogenital Surgical Procedures; Sex Reassignment Procedures

INTRODUÇÃO

O tratamento do transtorno de identidade de gênero evoluiu muito desde o surgimento do termo transexualismo, descrito por Magnus Hirschfeld1. Publicações recentes demonstraram aprimoramento técnico cirúrgico e preocupação com resultados a longo prazo2-5, além do compromisso com a melhora da qualidade de vida desses pacientes6,7.

Em países desenvolvidos, a abrangência de cobertura dos planos de saúde melhorou o acesso à assistência médica para pessoas com incongruência de gênero8.

A Associação Mundial de Profissionais para a Saúde Transgênero (WPATH), organização composta por cirurgiões, profissionais de saúde primária, profissionais de saúde mental e grupos de defesa, através do programa Iniciativa de Educação de Gênero, promove cuidados baseados em evidências, educação, pesquisa, apoio a políticas públicas e respeito à saúde e igualdade dessa população, o que aumentou o conhecimento sobre o assunto9.

A vaginoplastia ocorre ao final de um processo multidisciplinar que envolve assistente social, psicólogo, psiquiatra, endocrinologista, urologista, ginecologista, proctologista, otorrinolaringologista, cirurgião plástico e fonoaudiólogo9.

A primeira tentativa cirúrgica de construir uma neovagina foi realizada por Dupuytren em 182710. Atualmente, vaginoplastia é procedimento mais frequente que neofaloplastia.

Das técnicas de vaginoplastia, aquela que reveste a neovagina com enxerto cutâneo está em declínio, pois apresenta resultados inferiores devido à difícil integração ao leito receptor e alta incidência de estenose da neovagina11,12.

As técnicas que utilizam retalhos para revestimento da neovagina apresentam resultados superiores, com melhor qualidade de cobertura, menor incidência de estenose uretral e mais fácil dilatação gradual da neovagina no período pós-operatório. Essas técnicas podem ser categorizadas como aquelas que invertem o retalho cutâneo da haste peniana13,14 e aquelas que utilizam um segmento intestinal com revestimento mucoso15,16.

A técnica de inversão peniana com posicionamento da glande na base do canal vaginal (VG) tem sido utilizada em cirurgias de redesignação sexual para mulheres transgênero. Entretanto, atualmente, a inversão do retalho cutâneo do pênis para revestir a neovagina, associada à separação da glande para formar uma estrutura semelhante ao clitóris (VC), é a técnica cirúrgica padrão internacional para a redesignação sexual de homem para mulher (MtF)17,18.

O presente estudo apresenta casos consecutivos de pacientes submetidas à cirurgia de redesignação sexual MtF, comparando duas técnicas de neovaginoplastia e suas complicações.

MÉTODOS

Este é um estudo retrospectivo comparativo de pacientes transgênero do sexo feminino operadas sequencialmente entre maio de 2015 e fevereiro de 2019. Todos os casos operados foram incluídos no estudo.

O protocolo de pesquisa foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Faculdade de Medicina do ABC sob parecer nº 4.258.142 e pelo CONEP - Comissão Nacional de Ética em Pesquisa / Plataforma Brasil sob CAAE nº 30532720.6.0000.0082.

O estudo envolveu a análise de informações dos registros dos prontuários de 59 pacientes, sendo que 25 foram submetidas à técnica VG de inversão peniana com posicionamento da glande na base da neovagina (Grupo I) e 34, à técnica de inversão peniana VC com separação da glande do retalho cutâneo da haste peniana (Grupo II).

As pacientes do Grupo I foram operadas entre maio de 2015 e junho de 2017 por equipe formada por urologistas e cirurgiões plásticos. As pacientes do Grupo II foram operadas no período subsequente, compreendido entre julho de 2017 e fevereiro de 2019, pela mesma equipe.

Critérios de inclusão: pacientes transgênero do sexo feminino com idade entre 21 e 70 anos, que foram submetidas a avaliações multidisciplinares por endocrinologista, psicólogo e psiquiatra por período mínimo de dois anos previamente à cirurgia, com diagnóstico de transtorno de identidade de gênero e indicação para cirurgia de redesignação sexual.

Em ambos os grupos, as etapas cirúrgicas comuns foram: 1. dissecção de espaço em forma de túnel, ao nível da ráfia tendínea perineal, entre o sistema urinário e o reto, com profundidade minima de 11 cm; 2. encurtamento da uretra; 3. orquiectomia bilateral; 4. ressecção do corpo cavernoso; e 5. ressecção do excesso cutâneo e reposicionamento do tecido subcutâneo do escroto para formar os grandes lábios.

Enquanto no Grupo I, a pele do pênis foi retirada juntamente com a glande em um único retalho para revestir o novo canal vaginal (VG), conforme descrito por Gillies e Millard19 (Figuras 1-6); no Grupo II, essas duas estruturas foram separadas em retalhos individuais, com a pele do pênis sendo usada para revestir a neovagina e o retalho da glande, reduzido em tamanho e posicionado para formar um neoclítoris (VC), conforme descrito por Perovic et al.20 (Figuras 7-9).

Figura 1
Demarcação pré-operatória com local de dissecção perineal para criar o novo canal vaginal - seta (Grupo I).

Figura 2
Canal da neovagina dissecado (Grupo I).

Figura 3
Aspecto após separação da uretra peniana - seta, ressecção do tecido erétil e orquiectomia, deixando um retalho peniano contendo pele e glande (grupo I).

Figura 4
Inversão da pele peniana com a glande localizada dentro do tecido invertido - seta (grupo I).

Figura 5
Após a transposição por contra-abertura e encurtamento da uretra, foi realizada a maturação do novo meato uretral - seta (grupo I).

Figura 6
Aspecto final após ressecção do excesso de pele, fechamento por planos e drenagem a vácuo, mostrando a cobertura da pele do pênis no novo canal vaginal utilizando um espéculo vaginal (grupo I).

Figura 7
Técnica com separação da uretra peniana, pele do pênis e da glande. A pele será invertida e utilizada para revestir a neovagina, a uretra será encurtada e a glande será reduzida para formar uma estrutura semelhante ao clitóris (grupo II).

Figura 8
Técnica para formar o clitóris com parte da glande - seta. Período pós-operatório imediato (grupo II).

Figura 9
Período pós-opératório tardio em pacientes distintas (grupo II).

Todas as pacientes utilizaram estrogênios conjugados e ciproterona. Não foram realizadas cirurgias associadas.

As cirurgias foram realizadas sob anestesia geral associada a bloqueio peridural, com as pacientes mantidas em posição ginecológica, usando meias de compressão e aparelhos de compressão pneumática intermitente nos membros inferiores. Em ambos os grupos, heparina de baixo peso molecular foi utilizada profilaticamente para eventos tromboembólicos. Antibioticoterapia foi realizada com cefalosporina de primeira geração, durante sete dias de internação. Todas as cirurgias tiveram drenagem a vácuo em sistema fechado, introdução de molde na neovagina e cateterismo vesical durante a internação.

Todas as pacientes, em ambos os grupos, receberam alta hospitalar no oitavo dia de internação, com acompanhamento semanal até o final do primeiro mês pós-operatório, e foram realizadas consultas de acompanhamento aos dois, quatro e seis meses após a cirurgia (Figura 9).

Foram coletados os seguintes dados: idade, peso, altura e índice de massa corporal (IMC). As variáveis foram agrupadas nos seguintes itens: complicações infecciosas/cicatriciais (infecções, abscessos, necrose); complicações urinárias (sangramento uretral, infecção urinária acompanhada de disúria, incontinência, urgência urinária, retenção urinária, estenose do meato uretral); complicações de dilatação da neovagina (prolapso da glande, sangramento); complicações no revestimento da neovagina (pequenas ulcerações ou perfurações); fístulas neovaginais; perfuração retal; complicações relacionadas ao aumento do volume do bulbo uretral com a estimulação sexual; complicações relacionadas à aparência da vulva/neoclítoris (excesso de glande/remanescente do neoclitóris); ocorrência de eventos tromboembólicos (TVP/TEP); necessidade de reintervenção cirúrgica (deiscências, ressuturas); e óbito.

A metodologia de dilatações foi igual para os dois grupos, com utilização de dilatadores vaginais de silicone, iniciando após sete dias da cirurgia, com frequência de três vezes ao dia durante 30 minutos cada, pelo período de seis meses.

O período de imobilização da paciente no leito, durante a internação hospitalar, foi de dois dias após a cirurgia. A mobilização do leito começou no segundo dia pós-operatório, sendo mantida com mobilidade reduzida e evitando esforços físicos por dois meses. Após esse período, houve liberação para esforços e exercícios físicos para as pacientes dos dois grupos.

O intercurso sexual na neovagina somente foi liberado após seis meses da cirurgia.

Não houve avaliação da satisfação ou funcionalidade das pacientes para o presente estudo.

A análise estatística incluiu o teste t de Student para variáveis contínuas e o teste de Fisher para variáveis categóricas. O teste de correlação de Pearson foi utilizado entre todas as variáveis categóricas (complicações). O nível de significância estatística foi de 5%. Todas as variáveis analisadas foram avaliadas e apresentaram variâncias iguais e distribuição normal. A hipótese nula não mostrou diferença entre os dois grupos.

RESULTADOS

A análise descritiva mostrou uma média etária de 40(9) anos, peso médio de 74(14) kg e IMC médio de 25,45(4) kg/m².

A análise estatística inferencial não mostrou diferença entre os dois grupos em relação à idade, peso e IMC (Tabela 1).

Tabela 1
Teste t de Student para as variáveis idade, peso e índice de massa corporal.

Nos dois grupos, um total de 28 pacientes (47,45%) apresentaram complicações, sendo que complicações maiores (eventos tromboembólicos e perfuração retal) foram observadas em 8,47% dos casos. As demais complicações incluídas foram infecções/abscessos, necrose (Figura 10), necessidade de ressutura, sangramento, retenção urinária, estenose do meato uretral, prolapso da glande/neovagina (Figura 11), excesso de pele, fístulas, excesso de volume no bulbo uretral e excesso de glande/remanescente do clitóris.

Figura 10
Deiscência de sutura no lábio vaginal (esquerda) e assimetria discreta após cicatrização por segunda intenção (direita), em paciente do grupo I.

Figura 11
Prolapso da glande - seta (grupo I).

Os eventos adversos mais frequentes foram pequena deiscência de até 1 cm (47,5%), exsudato (42,4%), granulomas (23,7%), disúria (18,6%), e dor (16,9%).

Houve um óbito relacionado à cirurgia de redesignação sexual (1,7%), com evolução pós-operatória inicial sem intercorrências. A paciente apresentava constipação e, na tentativa de evacuar, apresentou perfuração do reto na neovagina, necessitando de derivação intestinal com colostomia realizada pela equipe de cirurgia gastrointestinal do hospital. A paciente apresentou períodos de suboclusão intestinal, distensão abdominal e distúrbio eletrolítico, necessitando de vários retornos ao setor de emergência do Pronto Atendimento. Posteriormente, a paciente desenvolveu complicações súbitas em casa e foi atendida na Unidade Básica de Saúde, mas faleceu.

Houve outro óbito (1,7%) causado por um tumor laríngeo, diagnosticado tardiamente após a cirurgia, e não relacionado à cirurgia de redesignação sexual.

Os dois grupos também não apresentaram diferenças nas seguintes variáveis: infecções/deiscência; complicações neovaginais; fístulas; perfuração retal; excesso de volume do bulbo uretral à estimulação sexual; queixas relacionadas ao aspecto vulvar; e eventos tromboembólicos (Tabela 2).

Tabela 2
Teste exato de Fisher para variáveis categóricas. As variáveis que apresentam diferença estatística entre os grupos estão em negrito.

Houve diferença significativa entre os grupos em relação às complicações urinárias (p=0,020); complicações de dilatação da neovagina (p=0,002); complicações no revestimento da neovagina (p=0,011); e necessidade de reintervenção cirúrgica (p=0,006), com o grupo VC apresentando taxas mais baixas para essas quatro variáveis (Tabela 2).

Nesta amostra, as complicações urinárias foram sangramento uretral, infecção urinária com disúria, incontinência urinária, urgência urinária, retenção urinária e estenose do meato uretral, sendo mais frequentes nas pacientes operadas pela técnica VG (36,0%) em relação à técnica VC (8,8%) (p=0,020).

O teste de correlação de Pearson foi utilizado entre todas as variáveis de complicação, conforme demonstrado na Tabela 3. Não houve correlação significativa (ρ = 0 a 0,3, positiva ou negativa) entre as demais variáveis de interesse.

Tabela 3
Teste de correlação de Pearson - correlações fracas entre as variáveis listadas (ρ entre 0,3 e 0,5).

DISCUSSÃO

O Transtorno de Identidade de Gênero (TIG) é uma condição que envolve tratamento e acompanhamento multidisciplinares. Os pacientes são frequentemente incompreendidos tanto por médicos quanto pela sociedade13.

Além do tratamento multidisciplinar envolvendo psicólogo, psiquiatra, endocrinologista e assistente social, a cirurgia de redesignação sexual (CRS) faz parte do sistema de saúde e também pode ser chamada de cirurgia de afirmação de gênero ou cirurgia de confirmação de gênero. Um dos desafios é identificar adequadamente os candidatos a essas cirurgias. No Brasil, a legislação exige acompanhamento multidisciplinar por um período mínimo de um ano para confirmar o diagnóstico, ou seja, a equipe de profissionais conclui que a adequação do caráter sexual levará à melhora da qualidade de vida, com indicação para tratamento cirúrgico.

Existem diversas técnicas descritas na literatura para cirurgia de redesignação sexual de homem para mulher (MtF). As etapas cirúrgicas comuns a essas diferentes técnicas são: 1. dissecção entre a uretra/bexiga e o reto para criar uma cavidade que será a neovagina; 2. encurtamento da uretra; 3. ressecção do tecido erétil do pênis; 4. orquiectomia; 5. uso da pele e do tecido subcutâneo do escroto para a conformação dos grandes lábios.

Por outro lado, essas técnicas diferem principalmente com os tecidos utilizados para revestir a neovagina, visando controle da contratura cicatricial e à preservação do lúmen. Pode ser pele, tanto enxerto quanto retalho, mucosa oral, intestino delgado ou segmento do sigmóide. A forma de utilização e o posicionamento da glande, tecido com grande sensibilidade erógena, também são fatores de diferenciação entre essas técnicas.

Apesar do número considerável de artigos científicos sobre as técnicas, existem poucos estudos comparando as diferentes técnicas.

No presente estudo, houve diferentes complicações nas duas técnicas, VG e VC. Esta última é considerada o padrão internacional em cirurgia de confirmação de gênero MtF17,18,21.

Houve semelhanças entre os dois grupos em relação à idade, peso, altura e IMC, mostrando grupos passíveis de comparação. A idade média no presente estudo é mais elevada que a relatada na literatura porque trata-se de seviço público e as pacientes aguardam, em média, nove anos desde a inscrição no programa até a reallização do procedimento cirúrgico.

A estenose vaginal e a perda de profundidade foram as principais complicações funcionais, embora a persistência do uso de dilatadores vaginais geralmente tenha levado a resultados satisfatórios. Uma revisão de diferentes técnicas avançadas relatou estenose final em 6-15% dos casos usando retalhos de pele22-24, em 5-55% dos casos com inversão da pele do pênis20,25-28, e 8-45% dos casos usando enxertos29-32.

Quanto à conformação da neovagina, a presente amostra de pacientes apresentou as seguintes complicações: estenose do canal, encurtamento vaginal, prolapso e/ou glande mal posicionada, excesso de pele e dilatação insuficiente do canal vaginal, ou seja, que impossibilite a penetração. A comparação entre as duas técnicas demonstrou resultados melhores e estatisticamente significativos com a técnica VC. Também houve complicações no revestimento da neovagina, como pequenas ulcerações do canal vaginal e diminutas perfurações da parede vaginal, relacionadas ao procedimento de dilatação pós-operatória, com o Grupo II apresentando menores taxas de complicação. Nas pacientes do Grupo I, houve dificuldades na realização de dilatação da neovagina, uma vez que, devido ao posicionamento da glande na base do canal, a sensibilidade do tecido causava muito desconforto durante a aplicação da pressão necessária para a expansão; isso fazia com que as pacientes deslocassem a ponta do dilatador, levando a desvios na dilatação ou dilatação insuficiente do canal vaginal. Essa sensibilidade na base do canal vaginal foi reduzida no Grupo II com o uso da glande para formar um neoclítoris, com uma redução significativa nas complicações relacionadas ao canal vaginal.

Outras complicações, como celulite, exsudação da ferida cirúrgica, abscesso, epidermólise, deiscência, necrose e granuloma, não apresentaram diferença estatisticamente significativa entre as duas técnicas, com 30,5% das pacientes apresentando alguma dessas complicações. Isso destaca algumas características desse tipo de procedimento cirúrgico, com manipulação próxima aos sistemas urinário e digestivo, em uma topografia que apresenta umidade e flora bacteriana específicas, e com uma nova conformação anatômica para as pacientes.

Quanto ao excesso de volume do bulbo uretral em resposta ao estímulo erógeno, ao aspecto vulvar, ao volume dos lábios e ao excesso de tamanho do clitóris, não houve diferença estatisticamente significativa entre os dois grupos. A literatura afirma que um aumento do volume clitoriano pode ser devido à mobilização do tecido subcutâneo para a sínfise púbica, o que causaria ptose cutânea e, consequentemente, um clitóris mais proeminente33; no entanto, essa característica não foi observada nas pacientes analisadas.

Houve uma perfuração retal durante a cirurgia no primeiro ano de experiência da equipe, representando uma complicação grave. O tratamento consistiu na suspensão imediata do procedimento, fechamento da perfuração, drenagem laminar e ampliação do espectro antibiótico. Houve uma resposta favorável e a paciente foi submetida à cirurgia de redesignação sexual cinco meses após o incidente. O aumento da experiência cirúrgica na série de casos foi responsável pela ausência de complicações inadvertidas posteriormente33, o que pode ser considerado um viés ligado à curva de aprendizado da equipe cirúrgica. Embora essa perfuração retal tenha ocorrido em uma paciente submetida à técnica VG, ela não afetou estatisticamente a comparação dos resultados entre as duas técnicas.

A literatura mostra que as complicações urinárias, caracterizadas por distúrbios dolorosos de obstrução urinária devido à estenose meatal, são os principais eventos adversos nas taxas gerais de complicações20 ,com reintervenção cirúrgica em até 25% dos casos34. A incontinência urinária de esforço transitória também é descrita na literatura35. No entanto, a tendência é que todas as pacientes recuperem a continência urinária após a cirurgia pélvica. Acredita-se que a dissecção do espaço neovaginal possa levar a lesões parciais das fibras do esfíncter, resultando nessa disfunção transitória.

A frequência de complicações urinárias (sangramento uretral, infecção urinária acompanhada de disúria, incontinência, urgência urinária, retenção urinária e estenose meatal) foi de 20,3% nesta amostra, com uma taxa menor no grupo de pacientes submetidas à técnica clitoriana.

A utilização de hormônios, tabagismo e obesidade, bem como o posicionamento transoperatório da paciente e tempo cirúrgico elevado estão relacionados à maior incidência de eventos tromboembólicos e complicações pulmonares pós-operatórias (CPPO)7. A ocorrência de dois casos de trombose venosa profunda e um caso de embolia pulmonar neste estudo não mostrou diferença estatística entre as duas técnicas.

A avaliação de todos os resultados nos pacientes operados, apesar de uma taxa de complicações menores de 47,45% e complicações maiores de 8,47%, mostrou uma necessidade média de reintervenção cirúrgica em 18,6% dos pacientes (Grupo I, 36,0% e Grupo II, 5,9%; p=0,006).

O modelo de estudo de delimitação sequencial dos grupos deve ser analisado, especialmente em relação à possível interferência de aspectos como aprimoramento da equipe cirúrgica (curva de aprendizado) e experiência nos resultados obtidos.

CONCLUSÕES

Em concordância com a literatura, na presente amostra de 59 pacientes, observou-se que a técnica VC apresentou menor incidência de complicações relacionadas à conformação do canal urinário e vaginal e ao revestimento vaginal e, consequentemente, menor número de reintervenções cirúrgicas, quando comparada à técnica VG.

Referências bibliográficas

  • 1 Benjamin H. Transsexualism and transvestism as psychosomatic and somatopsychic syndromes. Am J Psychother. 1954; 8(2): 219-30. DOI: 10.1176/appi.psychotherapy.1954.8.2.219.
    » https://doi.org/10.1176/appi.psychotherapy.1954.8.2.219
  • 2 Krege S, Bex A, Lümmen G, Rübben H. Male-to-female transsexualism: a technique, results and long-term follow-up in 66 patients. BJU Int. 2001; 88(4): 396-402. DOI: 10.1046/j.1464-410x.2001.02323.x.
    » https://doi.org/10.1046/j.1464-410x.2001.02323.x
  • 3 Soli M, Brunocilla E, Bertaccini A, Palmieri F, Barbieri B, Martorana G. Male to female gender reassignment: modified surgical technique for creating the neoclitoris and mons veneris. J Sex Med. 2008; 5(1): 210-6. DOI: 10.1111/j.1743-6109.2007.00632.x.
    » https://doi.org/10.1111/j.1743-6109.2007.00632.x
  • 4 Imbimbo C, Verze P, Palmieri A, Longo N, Fusco F, Arcaniolo D, et al. A report from a single institute's 14-year experience in treatment of male-to-female transsexuals. J Sex Med. 2009;6(10): 2736-45. DOI: 10.1111/j.1743-6109.2009.01379.x.
    » https://doi.org/10.1111/j.1743-6109.2009.01379.x
  • 5 Sutcliffe PA, Dixon S, Akehurst RL, Wilkinson A, Shippan A, White S, et al. Evaluation of surgical procedures for sex reassignment: a systematic review. J Plast Reconstr Aesthet Surg. 2009; 62(3): 294-306; discussion 306-8. DOI: 10.1016/j.bjps.2007.12.009.
    » https://doi.org/10.1016/j.bjps.2007.12.009
  • 6 Baranyi A, Piber D, Rothenhäusler HB. Male-to-female transsexualism. Sex reassignment surgery from a biopsychosocial perspective. Wien Med Wochenschr. 2009; 159(21-22): 548-57. DOI: D10.1007/s10354-009-0693-5.
    » https://doi.org/D10.1007/s10354-009-0693-5
  • 7 Klein C, Gorzalka BB. Sexual functioning in transsexuals following hormone therapy and genital surgery: a review. J Sex Med. 2009; 6(11)2922-39; discussion 2940-1. DOI: 10.1111/j.1743-6109.2009.01370.x.
    » https://doi.org/10.1111/j.1743-6109.2009.01370.x
  • 8 Padula WV, Baker K. Coverage for Gender-Affirming Care: Making Health Insurance Work for Transgender Americans. LGBT Health. 2017; 4(4): 244-7. DOI: 10.1089/lgbt.2016.0099.
    » https://doi.org/10.1089/lgbt.2016.0099
  • 9 World Professional Association for Transgender Health. Available from: https://www.wpath.org/about/mission-and-vision [Accessed 14rd November, 2019].
    » https://www.wpath.org/about/mission-and-vision
  • 10 Witacre FE, Alden RH. Changes in squamous epithelium following the surgical treatment of absence of the vagina. Ann Surg. 1951; 133(6): 814-8. DOI: 10.1097/00000658-195106000-00008.
    » https://doi.org/10.1097/00000658-195106000-00008
  • 11 Abbe R. New methods of creating a vagina in a case of congenital absence. Med Rec. 1898; 54: 836-8.
  • 12 McIndoe AH, Banister JB. An operation for the cure of congenital absence of the vagina. J Obstet Gynaecol Br Emp. 1938; 45: 490-4.
  • 13 Selvaggi G, Ceulemans P, De Cuypere G, Van Landuyt K, Blondee P, Hamdi M, et al. Gender identity disorder: general overview and surgical treatment for vaginoplasty in male-to-female transsexuals. Plast Reconstr Surg. 2005; 116(6): 135e-145e. DOI: 10.1097/01.prs.0000185999.71439.06.
    » https://doi.org/10.1097/01.prs.0000185999.71439.06
  • 14 Selvaggi G, Bellringer J. Gender reassignment surgery: an overview. Nat Rev Urol. 2011; 8(5): 274-82. DOI: 10.1038/nrurol.2011.46.
    » https://doi.org/10.1038/nrurol.2011.46
  • 15 Baldwin JC. Formation of an artificial vagina by intestinal transplantation. Am J Obstet Gynecol. 1907; 56: 636-8.
  • 16 Ravat J, Ahmed I, Pandey A, Khan TR, Singh S, Wahklu A, et al. Vaginal agenesis: experience with sigmoid colon neovaginoplasty. J Indian Assoc Pediatr Surg. 2010; 15(1): 19-22. DOI: 10.4103/0971-9261.69136.
    » https://doi.org/10.4103/0971-9261.69136
  • 17 Hage JJ. Vaginoplasty in male-to-female transsexuals by inversion of penile and scrotal skin. In: Ehrlich RM, Alter GJ. Reconstructive and plastic surgery of the external genitalia. Philadelphia: WB Saunders; 1999. pp. 294-300.
  • 18 Giraldo F, Mora MJ, Solano A, González C, Smith-Fernández V. Male perineogenital anatomy and clinical applications in genital reconstructions in male-to-female sex reassignment surgery. Plast Reconstr Surg. 2002; 109(4): 1301-10. DOI: 10.1097/00006534-200204010-00014.
    » https://doi.org/10.1097/00006534-200204010-00014
  • 19 Gillies H, Millard Jr RD. Genitalia. The principles and art of plastic surgery. London: Butterworth; 1957. pp. 369-88.
  • 20 Perovic SV, Stanojevic DS, Djordjevic ML. Vaginoplasty in male transsexuals using penile skin and a urethral flap. BJU Int. 2000; 86(7): 843-50. DOI: 10.1046/j.1464-410x.2000.00934.x.
    » https://doi.org/10.1046/j.1464-410x.2000.00934.x
  • 21 Karim RB, Hage JJ, Mulder JW. Neovaginoplasty in male transsexuals: review of surgical techniques and recommendations regarding eligibility. Ann Plast Surg. 1996; 37(6): 669-75. PMID: 8988784.
  • 22 Small MP. Penile and scrotal inversion vaginoplasty for male to female transsexuals. Urology. 1987; 29(6): 593-7. DOI: D10.1016/0090-4295(87)90098-7.
    » https://doi.org/D10.1016/0090-4295(87)90098-7
  • 23 Eldh J. Construction of a neovagina with preservation of the glans penis as a clitoris in male transsexuals. Plast Reconstr Surg. 1993; 91(5): 895-900; discussion 901-3. PMID: 8460193.
  • 24 van Noort DE, Nicolai JP. Comparison of two methods of vagina construction in transsexuals. Plast Reconstr Surg. 1993; 91(7): 1308-15. DOI: 10.1097/00006534-199306000-00018.
    » https://doi.org/10.1097/00006534-199306000-00018
  • 25 Rubin SO. Sex-reassignment surgery male-to-female. Review, own results and report of a new technique using the glans penis as a pseudoclitoris. Scand J Urol Nephrol Suppl. 1993; 154: 1-28. PMID: 8140401.
  • 26 Jarolim L. Surgical conversion of genitalia in transexual patients. BJU Int. 2000; 85(7): 851-6. DOI: 10.1046/j.1464-410x.2000.00624.x.
    » https://doi.org/10.1046/j.1464-410x.2000.00624.x
  • 27 Turner UG 3rd, Edlich RF, Edgerton MT. Male transsexualism: a review of genital surgical reconstruction. Am J Obstet Gynecol. 1978; 132(2):119-33. DOI: 10.1016/0002-9378(78)90913-4.
    » https://doi.org/10.1016/0002-9378(78)90913-4
  • 28 Karim RB, Hage JJ, Bouman FG, de Ruyter R, van Kesteren PJ. Refinements of pre, intra and postoperative care to prevent complications of vaginoplasty in male transsexuals. Ann Plast Surg. 1995; 35(3):279-84. DOI: 10.1097/00000637-199509000-00010.
    » https://doi.org/10.1097/00000637-199509000-00010
  • 29 Laub DR, Fisk N. A rehabilitation program for gender dysphoria syndrome by surgical sex change. Plast Reconstr Surg. 1974; 53(4):388-403. DOI: 10.1097/00006534-197404000-00003.
    » https://doi.org/10.1097/00006534-197404000-00003
  • 30 Foerster DW, Reynolds CL. Construction of natural appearing female genitalia in the male transsexual. Plast Reconstr Surg. 1979; 64(3):306-12. DOI: 10.1097/00006534-197909000-00003.
    » https://doi.org/10.1097/00006534-197909000-00003
  • 31 Glenn JF. One-stage operation for male transsexuals. J Urol. 1980; 123(3):396-8. DOI: 10.1016/s0022-5347(17)55952-2.
    » https://doi.org/10.1016/s0022-5347(17)55952-2
  • 32 Siemssen PA, Matzen SH. Neovaginal construction in vaginal aplasia and sex-reassignment surgery. Scand J Plast Reconstr Surg Hand Surg. 1997; 31(1):47-50. DOI: 10.3109/02844319709010504.
    » https://doi.org/10.3109/02844319709010504
  • 33 Neto RR, Hintz F, Krege S, Rübben H, Vom Dorp F. Gender reassignment surgery - a 13-year review of surgical outcomes. Int Braz J Urol. 2012; 38(1):97-107. DOI: 10.1590/s1677-55382012000100014.
    » https://doi.org/10.1590/s1677-55382012000100014
  • 34 Lawrence AA. Factors associated with satisfaction or regret following male-to-female sex reassignment surgery. Arch Sex Behav. 2003; 32(4): 299-315. DOI: 10.1023/a:1024086814364.
    » https://doi.org/10.1023/a:1024086814364
  • 35 Schechter LS, D'Arpa S, Cohen MN, Kocjancic E, Claes KEY, Monstrey S. Gender confirmation surgery: guiding principles. J Sex Med. 2017; 14(6): 852-6. DOI: 10.1016/j.jsxm.2017.04.001.
    » https://doi.org/10.1016/j.jsxm.2017.04.001
  • Disponibilidade e compartilhamento de dados
    Os dados que suportam os achados deste estudo estão disponíveis com o autor correspondente mediante solicitação.
  • Fonte de financiamento:
    nenhuma.

Editado por

  • Editor
    Daniel Cacione

Disponibilidade de dados

Os dados que suportam os achados deste estudo estão disponíveis com o autor correspondente mediante solicitação.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    07 Set 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    11 Nov 2025
  • Aceito
    23 Abr 2026
location_on
Colégio Brasileiro de Cirurgiões Rua Visconde de Silva, 52 - 3º andar, 22271- 090 Rio de Janeiro - RJ, Tel.: +55 21 2138-0659, Fax: (55 21) 2286-2595 - Rio de Janeiro - RJ - Brazil
E-mail: revista@cbc.org.br
rss_feed Acompanhe os números deste periódico no seu leitor de RSS
Ir para o topo Reportar erro