RESUMO
Introdução: Analisar a produção científica brasileira em cirurgia sob a perspectiva bibliométrica, com ênfase na distribuição regional, nos padrões de colaboração científica e no impacto das publicações nos cenários nacional e internacional.
Métodos: Realizado estudo observacional retrospectivo, baseado em dados da plataforma SciVal (Elsevier), provenientes da base de dados Scopus. Foram incluídos artigos científicos completos com pelo menos uma afiliação brasileira, publicados entre 2014 e 2023. Avaliaram-se indicadores bibliométricos, incluindo volume de publicações, colaboração nacional e internacional, citações e Field-Weighted Citation Impact (FWCI), com análise estratificada por região e com indicadores normalizados pela população e pelo número de médicos.
Resultados: Foram identificados 14.160 artigos científicos na área cirúrgica, o que corresponde a 8,5% da produção médica brasileira. Observou-se crescimento progressivo ao longo da década, seguido de estabilização recente. A produção apresentou forte concentração nas regiões Sudeste e Sul, que também registraram maior impacto científico (FWCI de até 0,82) e maior inserção em redes de colaboração internacional (≈23%). Em contraste, a região Norte apresentou menor produção e menor impacto (FWCI = 0,48). A colaboração internacional esteve consistentemente associada a um desempenho bibliométrico superior. Os principais temas incluíram cirurgia da coluna, ortopedia, hérnias e obesidade, sendo esta última associada ao maior impacto (FWCI = 1,80).
Conclusão: A produção científica em cirurgia no Brasil apresenta crescimento sustentado, porém com marcadas desigualdades regionais e forte dependência de centros acadêmicos consolidados e de redes internacionais de colaboração. A ampliação da capacidade científica em regiões sub-representadas e o fortalecimento de estratégias de colaboração com protagonismo nacional emergem como prioridades para o desenvolvimento equilibrado e sustentável da pesquisa cirúrgica no país.
Palavras-chave:
Bibliometrics; Surgical Research; Scientific Production Indicators; International Collaboration; Health Disparities
ABSTRACT
Introduction: To analyse Brazilian scientific production in surgery from a bibliometric perspective, with a particular focus on regional distribution, patterns of scientific collaboration, and the impact of publications in both national and international arenas.
Methods: We conducted a retrospective, national, ecological observational study using bibliometric data from the SciVal platform (Elsevier), derived from the Scopus database. The study included full scientific articles with at least one Brazilian affiliation published between 2014 and 2023. We evaluated key bibliometric indicators, including publication volume, national and international collaboration, citation counts, and Field-Weighted Citation Impact (FWCI). Analyses were stratified by geographical region, with indicators normalised by resident population and the total number of medical doctors.
Results: We identified 14,160 scientific articles in the surgical field, accounting for about 8.5% of Brazilian medical research output. Publication volume grew steadily throughout the decade, followed by a recent stabilisation. Output was heavily concentrated in the Southeast and South regions, which also recorded the highest scientific impact (FWCI up to 0.82) and the greatest integration into international collaboration networks (23%). In contrast, the North region exhibited the lowest output and impact (FWCI = 0.48). International collaboration was consistently associated with superior bibliometric performance. The most frequent research topics included spinal surgery, orthopaedics, hernias, and obesity, with the latter associated with the highest scientific impact (FWCI = 1.80).
Conclusion: Surgical research output in Brazil has shown sustained growth, though it is marked by pronounced regional disparities and a strong dependence on established academic centres and international collaborative networks. Expanding scientific capacity in underrepresented regions and strengthening collaborative strategies with robust national leadership are key priorities for the balanced and sustainable development of surgical research in the country.
Keywords:
Bibliometrics; Surgical Research; Scientific Production Indicators; International Collaboration; Health Disparities
INTRODUÇÃO
A pesquisa científica desenvolvida nas instituições de ensino superior constitui um dos pilares do aprimoramento da prática médica e da formação profissional. O conhecimento gerado pela integração entre ensino, assistência e pesquisa orienta decisões em saúde pública, subsidia a formulação de políticas mais eficientes e contribui para o uso mais racional dos recursos assistenciais. A produção científica deve ser entendida não apenas como atividade acadêmica, mas também como instrumento para qualificar a assistência e enfrentar as desigualdades em saúde1.
Na medicina, as especialidades cirúrgicas ocupam posição central na produção científica, ao combinarem atividade assistencial de alta complexidade, inovação tecnológica e formação intensiva de recursos humanos. A pesquisa em cirurgia contribui para o aprimoramento de técnicas operatórias, a incorporação de novos dispositivos e a organização do cuidado perioperatório2,3. Esse perfil técnico-científico torna a produção científica cirúrgica um parâmetro particularmente sensível para avaliar a capacidade institucional de gerar conhecimento relevante, inovador e com impacto direto na prática clínica.
Entretanto, a produção científica em cirurgia apresenta expressiva heterogeneidade geográfica, sobretudo em países marcados por desigualdades regionais4. No Brasil, esse fenômeno se manifesta de forma particularmente evidente, com a concentração da atividade acadêmica em alguns estados e instituições, o que levanta questões relevantes sobre a organização da pesquisa, a formação de recursos humanos e o acesso a contextos científicos efetivamente estruturados para o desenvolvimento da investigação em cirurgia5. Apesar da relevância desse fenômeno, ainda são escassas as análises que integrem, de forma sistemática, a distribuição territorial da produção científica, os padrões de colaboração e o impacto das publicações no contexto da pesquisa cirúrgica brasileira.
Diante desse contexto, este estudo teve como objetivo analisar a produção científica brasileira na área cirúrgica, utilizando indicadores bibliométricos para descrever a distribuição territorial por unidade federativa, os padrões de colaboração nacional e internacional e o impacto científico das publicações. Além disso, avaliou-se o papel das instituições brasileiras em posições de liderança autoral em estudos realizados em colaboração internacional. A integração dessas dimensões permite uma leitura mais precisa da organização da pesquisa cirúrgica no Brasil e de suas assimetrias regionais.
MÉTODOS
Trata-se de um estudo observacional, ecológico, retrospectivo e de âmbito nacional, que analisou a produção científica brasileira em cirurgia no período de 2014 a 2023.
A coleta dos dados bibliométricos foi realizada por meio da plataforma SciVal (Elsevier), com base nos registros indexados na Scopus6.
Foram incluídos artigos científicos completos, publicados em periódicos indexados na base de dados Scopus, identificados por meio da plataforma SciVal, no período de 1º de janeiro de 2014 a 31 de dezembro de 2023. A identificação dos registros foi realizada exclusivamente por meio da categoria temática Surgery (ASJC 2746), utilizando os filtros estruturados da plataforma SciVal.
A extração dos dados foi realizada por meio dos módulos analíticos da plataforma SciVal em 10 de março de 2025, utilizando filtros predefinidos de período (2014-2023), tipo de documento (artigos científicos completos) e afiliação institucional, com inclusão de publicações que apresentassem pelo menos uma afiliação brasileira.
A plataforma SciVal não utiliza estratégias de busca baseadas em termos livres (query string), uma vez que os dados são previamente estruturados e indexados na base de dados Scopus. Dessa forma, a identificação dos registros foi realizada por meio de filtros combinados de área temática, período e afiliação institucional.
Foram excluídos automaticamente pela plataforma os documentos classificados como editoriais, cartas, notas, anais de congressos, capítulos de livros e outros tipos não caracterizados como artigos científicos completos. Adicionalmente, registros duplicados e publicações com informações incompletas de afiliação foram desconsiderados.
As variáveis bibliométricas analisadas incluíram o número total de publicações, o ano de publicação, os periódicos de veiculação, o tipo de acesso, o número e os nomes dos autores, as afiliações institucionais e os países de origem dos autores. Foram ainda avaliados a presença de colaboração internacional, o número de instituições e de países envolvidos por publicação, bem como indicadores de impacto científico, incluindo o número de citações e o Field-Weighted Citation Impact. Adicionalmente, foram consideradas características dos periódicos, como métricas de impacto e classificação temática.
Adicionalmente, foi realizada uma análise das redes de coautoria a partir dos dados de autoria extraídos da plataforma SciVal. O grafo foi construído considerando os autores como nós e as relações de coautoria como arestas, sendo analisado e visualizado no software Gephi (versão 0.10.1). Inicialmente, foi identificada a maior componente conexa (largest connected component), com o objetivo de isolar o núcleo principal da rede de colaboração e remover componentes desconectados ou de baixa representatividade. Em seguida, foram aplicados filtros para manter apenas arestas com peso superior a cinco, correspondente a mais de cinco publicações compartilhadas entre dois autores, e nós com grau superior a cinco, correspondente a autores com mais de cinco colaborações distintas. Diferentes limiares de filtragem foram avaliados na etapa exploratória, sendo esses parâmetros selecionados por preservarem a estrutura global da rede e evidenciarem os autores e as relações de colaboração mais relevantes para a análise. A estrutura das comunidades foi identificada por meio do algoritmo de Louvain, implementado no Gephi. Na representação gráfica, o tamanho dos nós foi proporcional ao grau de cada autor (número de colaborações), enquanto a espessura das arestas foi proporcional ao peso das conexões, correspondente ao número de publicações compartilhadas entre dois autores.
Dados contextuais demográficos e assistenciais foram obtidos a partir de bases oficiais nacionais, incluindo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE)7 e o Conselho Federal de Medicina8,9.
Os dados bibliométricos foram inicialmente organizados e analisados de forma agregada, considerando-se a unidade federativa, a região geográfica e o ano de publicação. A partir dessa organização, os indicadores de produção científica foram relacionados a dados contextuais demográficos, assistenciais e acadêmicos, permitindo examinar a produção científica em cirurgia à luz da população residente, da distribuição de médicos, da oferta de programas de pós-graduação stricto sensu e de indicadores econômicos e de desenvolvimento humano.
Para possibilitar comparações entre unidades federativas e regiões com diferentes características estruturais, os resultados foram avaliados tanto em números absolutos quanto por meio de indicadores padronizados, como taxas por população e por número de médicos registrados. Essa abordagem permitiu explorar a distribuição espacial e temporal da produção científica cirúrgica no Brasil, com apoio de representações gráficas e cartográficas, incluindo mapas, séries temporais e gráficos exploratórios.
Este estudo utilizou exclusivamente dados secundários de domínio público, provenientes de bases bibliográficas e de fontes oficiais nacionais, analisados de forma agregada e sem identificação individual. Não houve acesso a dados pessoais sensíveis nem envolvimento direto de seres humanos. Dessa forma, o estudo está dispensado de apreciação pelo Comitê de Ética em Pesquisa, conforme as normas vigentes para pesquisas dessa natureza.
RESULTADOS
Entre 2014 e 2023, foram identificados 23.636.942 artigos científicos completos publicados em periódicos, em todas as áreas do conhecimento, na base de dados Scopus, em todo o mundo. A Medicina foi responsável por 6.158.248 (26,05%) destes artigos no período. A medicina brasileira contribui com 166.668 artigos, o que corresponde a 2,70% da produção mundial. Dentre as diversas grandes áreas médicas, a cirurgia produziu 14.160 artigos em periódicos, o que representou aproximadamente 8,5% da produção científica médica brasileira no período avaliado. A produção científica nacional comparativa por região do país, nos 10 anos de avaliação do trabalho, é apresentada na Figura 1. Observou-se estabilização da produção científica nacional nos anos mais recentes e predominância das regiões Sudeste e Sul em termos absolutos.
Ao avaliar as principais subáreas temáticas da cirurgia incluídas na produção nacional nesse período, destacaram-se como temas mais frequentes: estratégias de tratamento em saúde da coluna vertebral, seguidas de implantes ortodônticos e saúde óssea, e inovações cirúrgicas no tratamento das hérnias. A Tabela 1 demonstra que o conjunto de publicações que abordaram os temas Obesidade, Saúde Metabólica e Qualidade de Vida obteve o maior impacto científico, evidenciado pelo maior FWCI.
Quando analisadas as dez instituições brasileiras com o maior número absoluto de publicações no período avaliado, nota-se forte concentração de universidades da região Sudeste (Tabela 2). A maioria dessas publicações é originária de estudos multicêntricos, sendo um deles sobre a carga global de doenças, lesões e fatores de risco10.
Na análise da lista dos periódicos com o maior número de publicações da área no período, destaca-se a predominância de publicações em periódicos nacionais (Tabela 3).
Ao avaliar a produção científica da área, segundo critérios proporcionais à população e ao número de cirurgiões gerais, as diferenças se reduzem, embora ainda haja preponderância das regiões Sul e Sudeste (Tabela 4). Para avaliar o desempenho bibliométrico das regiões, utilizamos indicadores normalizados e os dados foram apresentados na Tabela 4. Independentemente do critério adotado, nota-se na região Norte uma menor produção acadêmica, tanto em termos absolutos quanto proporcionais. Ressalta-se a inferioridade do impacto bibliométrico desta produção, evidenciado pelo baixo escore FWCI.
Na comparação da colaboração científica entre as regiões do país, identificamos que algumas regiões brasileiras, próximas territorialmente, não apresentam colaboração significativa entre si, como as regiões Norte e Centro-Oeste. Também não foi evidenciada colaboração unidirecional entre as regiões Nordeste e Norte. A região Sudeste colabora com todas as regiões do país, assim como a região Sul, embora em menor escala. As regiões Sudeste e Sul apresentaram o maior número de artigos resultantes de colaboração científica internacional, conforme indicado na Tabela 5. Como descrito anteriormente, os artigos dessas regiões apresentam maior FWCI e maior porcentagem de publicações entre as mais citadas.
Após a identificação da maior componente conexa e a aplicação dos critérios de filtragem previamente estabelecidos (arestas com peso superior a 5 e nós com grau superior a 5), a rede final de coautoria foi composta por 527 autores interligados por 11.356 conexões. A aplicação do algoritmo de Louvain identificou 20 comunidades de colaboração. Para fins de representação gráfica, destacaram-se as oito maiores comunidades, responsáveis por aproximadamente 84% dos autores da rede (Figura 2). Observou-se predominância marcante da região Sudeste nas principais comunidades de colaboração.
Rede de coautoria científica na produção cirúrgica brasileira (2014-2023). Os nós representam os autores e as arestas representam as relações de coautoria. O tamanho dos nós é proporcional ao grau de cada autor (número de colaborações), enquanto a espessura das arestas é proporcional ao peso da conexão (número de publicações compartilhadas entre dois autores). As cores representam as comunidades de colaboração identificadas pelo algoritmo de Louvain. A figura apresenta as oito maiores comunidades, que correspondem a aproximadamente 84% dos autores da rede.
A maior comunidade (vermelha) apresentou forte concentração geográfica, com 94% dos autores vinculados exclusivamente à região Sudeste. A segunda maior comunidade (azul) demonstrou maior integração regional, com 67% dos autores associados simultaneamente às regiões Sudeste e Sul, e observou-se a presença de autores que estabeleceram conexões entre pesquisadores desses grupos.
A terceira maior comunidade (verde) também apresentou predominância da região Sudeste (80%), com participação adicional de autores vinculados simultaneamente à região Sul (16%), evidenciando núcleos de colaboração parcialmente integrados. A quarta comunidade (roxa) caracterizou-se por uma forte associação entre as regiões Sudeste e Sul (82%).
Em contraste, as comunidades de menor tamanho relativo apresentaram maior diversidade geográfica. A quinta comunidade (laranja) incluiu 61% dos autores com atuação em múltiplas regiões, enquanto a sexta (rosa) e a oitava (preta) apresentaram distribuição mais ampla entre diferentes regiões do país. A sétima comunidade (marrom) apresentou perfil intermediário, combinando autores com atuação nacional e concentração parcial na região Sudeste.
De modo geral, as maiores comunidades da rede apresentaram menor diversidade geográfica, enquanto as de menor tamanho mostraram maior integração entre diferentes regiões brasileiras.
Os Estados Unidos foram o país com o maior número de colaborações internacionais em todas as regiões do Brasil. Os países da Europa Ocidental também apresentaram um perfil de colaboração proporcional ao observado no Brasil. Destaca-se ainda a participação de países africanos em colaborações com as regiões Sul e Sudeste, principalmente por meio de grandes estudos multicêntricos e consensos internacionais, como a segunda diretriz internacional sobre câncer de mama avançado, publicada em 2014 e atualizada em 201711,12. Essas publicações envolveram diversos países, refletindo redes internacionais amplas de colaboração, e não parcerias bilaterais específicas entre países africanos e as regiões brasileiras.
DISCUSSÃO
O presente estudo evidenciou um padrão de crescimento contínuo da produção científica brasileira em cirurgia entre 2014 e 2023, com tendência à relativa estabilização ao final do período, acompanhado de marcante concentração geográfica e institucional. Os resultados demonstram que a produção científica cirúrgica no Brasil não se distribui de forma homogênea, mas reflete a organização estrutural do sistema nacional de ciência e tecnologia, com predominância de poucos polos acadêmicos e assistenciais. Tais achados sugerem que a capacidade de geração de conhecimento na área cirúrgica está fortemente associada à histórica concentração de recursos, infraestrutura e programas de formação médica em determinadas regiões do país.
A análise comparativa entre as regiões brasileiras revela clara predominância do Sudeste e do Sul, tanto em números absolutos quanto relativos, enquanto a região Norte apresenta desempenho significativamente inferior, não apenas em volume de produção, mas também em impacto científico. Estudos prévios reforçam a hipótese de que a produção científica acompanha a distribuição desigual de universidades, hospitais de alta complexidade e programas de pós-graduação, configurando um processo cumulativo no qual regiões mais estruturadas concentram maior capacidade de produção e captação de recursos. Esse fenômeno, amplamente descrito na literatura internacional, pode ser compreendido como um efeito de concentração estrutural da ciência, no qual as desigualdades tendem a se perpetuar ao longo do tempo13.
Os resultados, quando normalizados por indicadores padronizados pela população e pelo número de especialistas, permitiram uma análise mais clara dessas desigualdades. Embora esses ajustes tenham reduzido parcialmente as diferenças observadas entre as regiões, as assimetrias persistiram, indicando que fatores estruturais, como a densidade de especialistas, o ambiente acadêmico e a capacidade institucional, desempenham um papel determinante na produção científica. Dessa forma, os resultados sugerem que a expansão da produção científica na área cirúrgica em algumas regiões depende não apenas do crescimento demográfico ou da ampliação do número de profissionais, mas possivelmente também das políticas regionais de investimentos consistentes na estrutura de pesquisa e formação acadêmica14.
No que se refere ao impacto científico, as regiões com maior inserção em redes colaborativas, especialmente as internacionais, apresentaram melhores valores de Field-Weighted Citation Impact (FWCI), enquanto aquelas com menor participação nessas redes, como a região Norte, exibiram impacto relativo inferior. Esses resultados sugerem que a inserção em redes colaborativas internacionais está associada a maior impacto bibliométrico, possivelmente por ampliar a visibilidade científica, a circulação do conhecimento e o alcance das publicações. Essa interpretação é consistente com evidências de que métricas de impacto, como o número de citações, são influenciadas por efeitos de rede e pela natureza coletiva da produção científica15,16.
A análise dos padrões de colaboração científica reforça essa interpretação. No âmbito nacional, verifica-se que as regiões Sudeste e Sul atuam como principais polos de articulação, estabelecendo conexões com todas as demais regiões, enquanto o Norte e o Centro-Oeste apresentam menor integração entre si. Esse padrão sugere uma rede nacional de pesquisa ainda assimétrica, com estrutura hierárquica, o que indica maior dependência de centros consolidados para a articulação científica.
A análise da rede de coautoria aprofunda essa interpretação ao evidenciar uma organização estrutural igualmente desigual, na qual as maiores comunidades de colaboração se concentram predominantemente na região Sudeste, enquanto grupos menores apresentam maior diversidade geográfica. Esse padrão sugere a coexistência de um núcleo principal altamente produtivo e de grupos mais diversos, porém menos estruturados, evidenciando autores com elevado número de colaborações que estabelecem conexões entre pesquisadores de diferentes regiões.
Estudos clássicos argumentam que a ciência contemporânea tem se tornado progressivamente mais dependente de equipes interdisciplinares e de colaboração entre instituições, o que tende a favorecer centros com maior capacidade instalada e organização estrutural12,13. Como consequência, regiões com menor densidade de recursos apresentam maior dificuldade em estabelecer redes colaborativas independentes, reforçando padrões assimétricos de integração científica17.
No cenário internacional, observa-se forte predominância de parcerias com países de alta renda, especialmente os Estados Unidos e as nações da Europa Ocidental, o que indica que essas regiões exercem grande influência sobre a produção científica brasileira. Embora seja reconhecido que a participação em colaborações internacionais está associada a um maior impacto científico, essa participação não ocorre de forma homogênea entre os países. Em muitas áreas médicas, essas colaborações desenvolvem-se no contexto de grandes estudos multicêntricos internacionais, nos quais a participação de países de renda média pode refletir a integração em redes já estabelecidas, sem necessariamente implicar liderança científica ou o estabelecimento de parcerias estruturadas e sustentáveis. Os resultados indicam oportunidades para ampliar estratégias de colaboração internacional capazes de fortalecer o protagonismo científico brasileiro, especialmente por meio de parcerias de longo prazo que favoreçam maior liderança institucional e científica. Essa interpretação é consistente com estudos que destacam a importância de colaborações internacionais estruturadas para ampliar a visibilidade, a sustentabilidade e o impacto da produção científica18.
Em relação aos temas de pesquisa, observa-se predominância de áreas como cirurgia da coluna, ortopedia, hérnias e obesidade. Esse perfil sugere haver um certo grau de alinhamento entre a produção científica brasileira e as necessidades assistenciais mais prevalentes no país. A predominância de temas relacionados à cirurgia da coluna, à ortopedia, às hérnias e à obesidade sugere um alinhamento parcial da produção científica brasileira às demandas assistenciais mais frequentes. Entretanto, permanece relevante discutir o equilíbrio entre a inserção em agendas internacionais de pesquisa e a atenção às prioridades nacionais de saúde, de modo a favorecer simultaneamente a relevância local e a visibilidade científica internacional. Essa perspectiva é consistente com estudos que destacam a importância de conciliar colaboração global com a capacidade de responder às necessidades específicas dos sistemas nacionais de saúde19.
Este estudo apresenta algumas limitações que devem ser consideradas na interpretação dos resultados. A análise baseou-se em dados provenientes da base Scopus, o que pode sub-representar parte da produção científica publicada em periódicos não indexados. Além disso, a classificação temática e os indicadores bibliométricos utilizados dependem das metodologias da base de dados, o que pode introduzir vieses inerentes ao sistema de indexação. No entanto, o uso de uma base com ampla cobertura internacional e indicadores padronizados confere robustez e comparabilidade aos achados.
Em síntese, a produção científica em cirurgia no Brasil apresenta um caráter estruturalmente concentrado, com desigualdades regionais persistentes e forte dependência de centros acadêmicos consolidados e de redes nacionais e internacionais de colaboração. Esses achados fornecem evidências úteis para o planejamento de estratégias destinadas à redução das desigualdades regionais e ao fortalecimento da capacidade nacional de pesquisa.
CONCLUSÕES
A produção científica em cirurgia no Brasil cresceu na última década, porém permanece marcada por forte concentração regional e por desigualdades persistentes no impacto científico. A participação em redes de colaboração, sobretudo internacionais, associa-se a maior visibilidade e a melhor desempenho bibliométrico, evidenciando a importância da integração em redes colaborativas para a produção científica nacional.
Os achados deste estudo fornecem evidências úteis para subsidiar estratégias destinadas à redução das desigualdades regionais, ao fortalecimento da capacidade científica nacional e à ampliação de colaborações mais equilibradas entre instituições e regiões, contribuindo para uma inserção internacional cada vez mais qualificada da pesquisa cirúrgica brasileira.
AGRADECIMENTOS
Os autores agradecem o apoio institucional das universidades e centros de pesquisa envolvidos, bem como o suporte técnico relacionado ao acesso e à análise dos dados bibliométricos utilizados neste estudo.
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