Open-access Fatores que influenciam a escolha profissional por especialidades cirúrgicas entre estudantes mulheres de medicina: um estudo transversal nas universidades do Estado do Rio Grande do Sul, Brasil

RESUMO

Introdução:  Apesar dos conhecidos fatores que afastam médicas mulheres da especialização cirúrgica, as circunstâncias que desincentivam estudantes do sexo feminino a optarem pela cirurgia ainda durante a formação acadêmica permanecem pouco compreendidas.

Métodos:  Estudo observacional descritivo transversal de caráter exploratório e quanti-qualitativo desenvolvido no Estado do Rio Grande do Sul (RS) entre mulheres estudantes de medicina; coleta de dados por amostragem não probabilística por conveniência entre Novembro de 2022 e Março de 2023 via questionário virtual.

Resultados:  Entre 584 respostas válidas obtidas, 75,5% das alunas já cogitaram seguir carreira cirúrgica, com maior proporção da escolha ocorrida antes do ingresso na faculdade. Não houve associação estatisticamente significativa entre progressão nos ciclos de formação e interesse por cirurgia (p = 0,564). O principal fator de desistência para a carreira foi estilo de vida não condizente com as expectativas das estudantes. Ademais, incluindo justificativas elencadas, 59,6% consideraram que ser mulher é um fator limitante em cirurgia. A maioria (75,9%) indicou que seria mais propensa a seguir a carreira na presença de maior representatividade feminina entre docentes. Do total de alunas, 70,2% já foram expostas a preconceito de gênero, sendo uma parcela importante dos episódios atribuídos a professores médicos. Entre estratégias futuras para estimular a adesão feminina na área, o incentivo docente e institucional foi a mais evidente.

Conclusão:  Diante do contexto amostral e das limitações metodológicas, o estudo demonstra múltiplos determinantes da baixa participação feminina em cirurgia e reforça o papel do ambiente formativo na construção de trajetórias de sucesso das mulheres na área. O trabalho pode fomentar a discussão em âmbito nacional acerca do tema, considerando que as escolas médicas brasileiras seguem diretrizes educacionais semelhantes.

ABSTRACT

Introduction:  Although several barriers that discourage women physicians from pursuing surgical careers have been described, the factors that dissuade female medical students from choosing surgery during their training remain insufficiently understood.

Methods:  This was a descriptive, cross-sectional, exploratory study approach among female medical students in the state of Rio Grande do Sul (RS), Brazil. Data were collected through a non-probability convenience sample between November 2022 and March 2023 using an online questionnaire.

Results:  A total of 584 valid responses were analyzed. Most respondents (75.5%) had considered pursuing a surgical career at some point, with initial interest most commonly arising before medical school admission. No statistically significant association was found between stage of training progression and interest in surgery (p = 0.564). The primary reason for abandoning interest in surgery was dissatisfaction with the perceived lifestyle associated with the specialty. Overall, 59.6% of participants reported perceiving gender as a limiting factor in surgical careers. A substantial majority (75.9%) indicated they would be more likely to pursue a surgical career if there were greater female representation among faculty. Additionally, 70.2% reported experiencing gender bias during medical school, with many incidents attributed to faculty members. Faculty engagement and institutional support emerged as key strategies to promote greater female participation in surgery.

Conclusion:  Despite the limitations inherent to the sample and study design, the findings highlight multiple factors contributing to the underrepresentation of women in surgical specialties and underscore the critical role of the educational environment in shaping career trajectories. These results may contribute to broader national discussions, given the shared curricular framework among Brazilian medical schools.

INTRODUÇÃO

A primeira mulher brasileira a tornar-se médica foi Maria Augusta Generoso Estrela em 1881, com formação no exterior e tese de doutorado em Dermatologia. A partir de 1887, graduaram-se em território nacional as médicas pioneiras Rita Lobato Lopes, Ermelinda Lopes de Vasconcelos e Antonieta Cesar Dias, todas nascidas no estado do Rio Grande do Sul (RS); publicaram teses de doutorado em Pediatria e Ginecologia e Obstetrícia. Nesse prisma, observa-se que a predominância feminina em determinadas especialidades médicas reflete um padrão historicamente estabelecido1-15.

No cenário atual, apesar da ascensão feminina significativa na Medicina, tanto no Brasil quanto no RS16-20, o crescimento não se aplica à escolha pela especialização em cirurgia12,20. A única residência médica cirúrgica cujo número de homens - embora maior - seja próximo ao número de mulheres é Cirurgia Pediátrica, com 51,9% e 48,1%, respectivamente20.

O objetivo do presente estudo é investigar os principais fatores que influenciam alunas mulheres das faculdades de Medicina a não optarem por especialidades cirúrgicas no estado do RS, Brasil. Apesar de estudos prévios terem conduzido análise semelhante com médicas18,13,21-28, o desencorajamento ainda durante a formação acadêmica permanece pouco compreendido. Buscou-se avaliar a prevalência de interesse por carreira cirúrgica ao longo da graduação e sua relação com variáveis acadêmicas, percepções de gênero e fatores ambientais. Partiu-se da hipótese de que a pretensão por cirurgia entre estudantes do sexo feminino é reduzido progressivamente ao longo da graduação.

MÉTODOS

Estudo observacional descritivo transversal de caráter exploratório e quanti-qualitativo - aprovado pelo Comitê de Ética e Pesquisa da Universidade de Santa Cruz do Sul (CAAE 60738322.0.0000.5343) - conduzido no estado do Rio Grande do Sul (RS), Brasil, exclusivamente pela plataforma virtual de questionários Google Forms (link). Realizado entre março de 2022 e setembro de 2025 com coleta de dados entre novembro de 2022 e março de 2023.

Os critérios de inclusão foram: mulheres ≥ 18 anos regularmente matriculadas no curso de Medicina em uma das 20 instituições do estado do RS (mais informações na Tabela 1.1). Os critérios de exclusão compreendiam: indivíduos do sexo masculino, indivíduos não matriculados no curso de Medicina e indivíduos não matriculados em uma das 20 instituições elegíveis.

Tabela 1.1
Proporção estimada de participação em relação ao total de aderentes à pesquisa e por Universidade elegível. Rio Grande do Sul, 2022-2023.

Para recrutamento das alunas, o instrumento foi divulgado de forma ampla e padronizada por meio das redes sociais Instagram e WhatsApp e da página virtual do projeto de extensão universitária vinculado aos pesquisadores, caracterizando amostragem em bola de neve. Portanto, não foi utilizada lista nominal de matrícula institucional para distribuição individualizada do convite.

Assim, o formulário foi respondido por adesão voluntária e sem qualquer benefício ou risco direto às estudantes, conforme Resolução CNS nº 510/2016, sem haver conhecimento do número de convites enviados, isto é, amostragem não probabilística por conveniência - utilizadas em pesquisas observacionais exploratórias, principalmente quando é necessário captar percepções em populações específicas -. Para responder à pesquisa a participante deveria, necessariamente, ler os critérios de inclusão explícitos e assinar o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE, disponível em Material Suplementar).

O instrumento foi elaborado pelos pesquisadores especificamente para este estudo, não foi submetido à validação psicométrica ou estudo-piloto - por se tratar de um estudo observacional exploratório - e foi desenvolvido com base na literatura nacional e internacional sobre mulheres na cirurgia, não sendo validado por juízes especialistas.

O questionário autoaplicável (disponível integralmente em Material Suplementar) abordava o contexto cirúrgico aplicado às vivências acadêmicas com questões objetivas; para dissertação, contava com apenas um espaço livre facultativo de considerações finais. Os desfechos incluíram: intenção de especialização médica, razões em casos de desistência pela carreira cirúrgica, percepção da mulher na cirurgia, contato com docentes/mentoras cirurgiãs do sexo feminino e possíveis experiências de preconceito na área.

Além disso, para fins de caracterização do interesse em diferentes áreas médicas, as especialidades foram agrupadas em “clínicas”, “cirúrgicas” e “clínico-cirúrgicas”- categorias referentes às abordagens no diagnóstico e tratamento. Portanto, Dermatologia, Ortopedia e Traumatologia, Otorrinolaringologia, Oftalmologia, Ginecologia e Obstetrícia foram consideradas especialidades clínico-cirúrgicas.

Ademais, reitera-se que sendo o questionário eletrônico um link de acesso aberto em uma plataforma sem possibilidade de detectar discrepâncias, não foi possível restringir completamente o seu acesso, de modo que algumas respostas poderiam ser recebidas de indivíduos não elegíveis, além de introduzir possível viés de seleção. Diante dessa problemática, salienta-se que o instrumento solicitava dados de identificação das participantes (nome e e-mail) que foram utilizados para validação das respostas, baseados nos critérios de inclusão/exclusão. No entanto, as informações coletadas foram tratadas de forma confidencial com acesso restrito aos pesquisadores, conforme explicitado no TCLE e utilizadas exclusivamente para validação, não sendo divulgadas ou incluídas nas análises.

O número de respostas elegíveis coletadas determinou o tamanho da amostra. Logo, o cálculo da taxa de resposta foi estimado pela proporcionalidade entre o número de estudantes do sexo feminino matriculadas em cursos de Medicina no RS (Censo INEP 2022 - o mais recente disponível em relação ao período da coleta dos dados das participantes)29 e o número de respostas elegíveis. Contudo, considerando a amostragem não probabilística por conveniência e disseminação aberta do questionário, não houve definição prévia do quadro amostral nem número conhecido de indivíduos convidados. Assim, adotou-se o termo “proporção estimada de participação”, conforme recomendações metodológicas para estudos observacionais com amostras autosselecionadas30-33.

As análises quantitativas foram conduzidas da seguinte forma: categorias “não se aplica” e “não sabe/não lembra” foram consideradas para fins estatísticos e análise descritiva, porém não incluídas nas análises inferenciais por não permitirem definição clara do desfecho. Dados ausentes ou incompletos também foram excluídos das análises inferenciais.

Os softwares utilizados foram JASP, Excel e Pages (elaboração de figuras). A comparação de variáveis utilizou teste de associação de qui-quadrado de Pearson ou Fisher. Adotou-se um nível de significância de p<0,05. Intervalos de confiança de 95% (IC95%) foram calculados para as principais proporções, utilizando o método de Wilson. Análises estratificadas conforme ano da graduação e ciclo de formação (básico, clínico e internato) foram interpretadas à luz de potenciais fatores de confusão. Não foram realizadas análises de sensibilidade, considerando o caráter exploratório e descritivo do estudo.

Por fim, a avaliação qualitativa foi complementar, com o objetivo de contextualizar os achados quantitativos. Para tal, foi realizada análise de categorias temáticas das respostas abertas, conduzida por 5 pesquisadores responsáveis pela organização e interpretação dos dados de forma independente e consensual, sem estruturação formal de árvore de codificação.

RESULTADOS

Durante o período de coleta foram obtidas 600 respostas ao questionário eletrônico. Após avaliação de elegibilidade foram excluídas respostas inconsistentes com os critérios de inclusão/exclusão ou preenchimento incompleto, totalizando 584 respostas válidas nas análises inferenciais (Figura 1).

Figura 1
Fluxograma de participação na pesquisa.

Não houve perdas adicionais por dados ausentes nas variáveis analisadas, além das exclusões previamente descritas. A proporção estimada de participação foi de 8,4% (n = 584/6964; IC95% 7,7-9,0). A distribuição total das participantes por subgrupos encontra-se descrita na Tabela 1.2, com predominância de alunas cursando o ciclo clínico da graduação. (Tabela 1.1 e Tabela 1.2).

Tabela 1.2
Distribuição das alunas de Medicina participantes na pesquisa. Dados organizados pelos subgrupos Universidade, Ano da graduação e Ciclo da graduação. Rio Grande do Sul, 2022-2023.

Relacionado à intenção de especialização médica, 441 estudantes (75,5%; IC95% 71,9-78,8) relataram já ter cogitado, em algum momento, seguir a área cirúrgica. A maior proporção desse interesse ocorreu antes do ingresso na graduação (Tabela 2). No momento da participação no questionário, entre as alunas que já estavam decididas a respeito de alguma especialização - clínica, cirúrgica ou clínico-cirúrgica (n = 536) -, a proporção de interesse por cirurgia foi de 19,7% (IC95% 13,6-27,6) no internato, 22,5% (IC95% 18,3-27,3) no ciclo clínico e 17,6% (IC95% 11,0-27,0) no ciclo básico. Não houve associação estatisticamente significativa entre ciclo de formação e interesse por carreira cirúrgica (p = 0,564).

Tabela 2
Preferências de especialidade médica e trajetória cirúrgica das alunas participantes. Rio Grande do Sul, 2022-2023.

Nesse contexto, conforme apresentado na Tabela 3, motivos específicos foram associados à desistência da carreira cirúrgica, sendo organizados em 4 categorias analíticas: (1) fatores relacionados à qualidade de vida; (2) ausência de modelos femininos; (3) sexismo/machismo no ambiente cirúrgico; e (4) outros fatores. Nesse prisma, o estilo de vida em cirurgia não condizente com as expectativas das alunas - categoria 1 - foi o principal fator de desistência, assinalado por 33,4% das estudantes (n = 195; IC95% 29,7-37,3). Dentre as demais categorias, a falta de autoconfiança mostrou-se como fator mais relevante (n = 126; 21,6%; IC95% 18,4-25,0).

Tabela 3
Fatores que modificaram a pretensão das alunas de tornarem-se cirurgiãs durante a graduação. Rio Grande do Sul, 2022-2023.

Ademais, do total de alunas participantes, 59,6% (IC95% 55,5-63,5) consideraram que ser mulher é um fator limitante na cirurgia. As justificativas incluíram percepção de preconceito/assédio (51,2%), ambiente predominantemente masculino (48,3%), elevada exigência de dedicação temporal na carreira (18,8%) e fatores relacionados à condição feminina (17,5%) (Gráfico 1).

Gráfico 1
Distribuição das respostas quanto à percepção de ser mulher como fator limitante em uma carreira cirúrgica. Fonte: Elaboração própria, com base nos dados da pesquisa (2022-2023).

A respeito do contato com mulheres cirurgiãs no meio universitário, 73,1% (IC95% 69,4-76,5) das alunas relataram que possuem ou terão contato com docentes do sexo feminino na área, porém 51,7% referiram desconforto com a distribuição entre professores homens e professoras mulheres nas disciplinas cirúrgicas (IC95% 47,7-55,7). A maioria das estudantes (n = 443; 75,9%; IC95% 72,2-79,1) indicou que seria mais propensa a seguir carreira cirúrgica na presença de maior representatividade feminina entre docentes (Gráficos 2, 3 e 4).

Gráfico 2
Distribuição das respostas quanto à presença atual ou expectativa de mulheres cirurgiãs como docentes na universidade. Fonte: Elaboração própria, com base nos dados da pesquisa (2022-2023).

Gráfico 3
Distribuição das respostas quanto à percepção de conforto em relação à distribuição de sexo entre professores nas disciplinas cirúrgicas das universidades. Fonte: Elaboração própria, com base nos dados da pesquisa (2022-2023).

Gráfico 4
Distribuição das respostas quanto à maior propensão a seguir carreira cirúrgica diante da oportunidade de aprendizado em áreas cirúrgicas com professoras mulheres. Fonte: Elaboração própria, com base nos dados da pesquisa (2022-2023).

Em relação ao preconceito em ambiente cirúrgico, 70,2% do total de alunas foram expostas, em algum momento, a situação de sexismo na área (IC95% 66,4-73,8), sendo a maioria dos episódios atribuídos a professores médicos (n = 235; 40,2%); (Tabela 4).

Tabela 4
Grupo responsável pelas situações de preconceito vivenciadas ou presenciadas pelas estudantes dentro da Medicina. Rio Grande do Sul, 2022-2023.

As análises de associação entre as variáveis investigadas demonstraram que o desconforto com a distribuição de gênero docente esteve relacionado à maior propensão a seguir carreira cirúrgica diante de maior representatividade feminina (p < 0,00001) e que a presença de professoras cirurgiãs associou-se a maior propensão à especialização na área (p = 0,0119).

Além disso, entre estudantes que relataram ter cogitado seguir carreira cirúrgica em algum momento (n = 441), a vivência de preconceito por docentes médicos mostrou associação à presença de pelo menos um fator de desistência (p = 0,004). Ademais, vivência/observação de preconceito contra mulheres no ambiente médico esteve relacionado à percepção do gênero feminino como fator limitante à carreira (p = 0,0001).

Por fim, estratégias futuras para estimular a adesão feminina na área incluíram incentivo docente e institucional (n = 109; 18,7%), necessidade de programas de residência que favoreçam a conciliação entre maternidade e carreira (n = 21; 3,6%) e maior presença de professoras mulheres cirurgiãs (n = 11; 1,9%). Outras sugestões mencionadas foram maior acesso à informação sobre especialidades cirúrgicas (n = 5; 0,9%) e conhecimento sobre mecanismos de notificação de assédio e preconceito (n = 2; 0,3%).

DISCUSSÃO

O presente estudo demonstrou que, embora a maioria das participantes já tenha considerado, em algum momento, seguir carreira cirúrgica, o interesse ocorreu antes do ingresso na graduação e que essa decisão não se perpetuou durante a faculdade. No entanto, a hipótese inicial de que a pretensão por cirurgia está relacionada ao ciclo da graduação (básico, clínico ou internato) não se confirmou. As principais razões para esse cenário puderam ser compreendidas com a aplicação do formulário virtual e reforçam que a decisão profissional é dinâmica e influenciada por vivências acumuladas e correlacionadas durante a formação médica22. Além disso, o achado principal do presente estudo corrobora com dados da literatura, os quais mostram que o declínio do interesse por cirurgia ao longo da formação médica, apesar de não ser exclusivo do sexo feminino, ocorre de forma mais acentuada entre mulheres do que entre homens22,34.

Os resultados devem ser interpretados com cautela por conta de limitações do estudo e seus respectivos impactos/riscos de viés: (1) a amostragem não probabilística por conveniência por meio da plataforma Google Forms impede a determinação do número real de estudantes expostas ao convite ou recusas ao formulário e, consequentemente, a obtenção de uma taxa de resposta verdadeira. Tal característica introduz potencial viés de seleção, uma vez que estudantes com maior interesse pelo tema, maior disponibilidade ou maior acesso à internet podem ter sido mais propensas a participar; (2) o denominador utilizado foi coletado a partir de dados censitários secundários (INEP)29, podendo não refletir com precisão o contingente de estudantes elegíveis durante o período do estudo e diminuindo a estimativa de participação; (3) ausência de validação formal do instrumento implica na determinação de aspectos relevantes ao trabalho como a verificação oficial da identidade das participantes e a compreensão das perguntas; (4) as características demográficas da amostra (apenas estudantes do RS) restringem a validade externa e impede inferências populacionais diretas e generalizadas; (5) a ausência de um grupo masculino de comparação impede avaliar se os fatores identificados são específicos das estudantes do sexo feminino ou se também se manifesta entre homens em formação médica; (6) maior número absoluto de respondentes provenientes da UNISC, instituição de origem do estudo, pode refletir maior adesão local e introduzir potencial super-representação desse contexto institucional; e (7) a ausência de controle multivariado para fatores de confusão limita a interpretação causal das associações encontradas.

Para reduzir esses efeitos, estratégias foram aplicadas, além de ponderações sobre a validade externa dos resultados, correspondendo, respectivamente a: (1) utilizou-se o termo “proporção estimada de participação”, e não taxa de resposta, com o intuito de reconhecer explicitamente que os achados devem ser interpretados no contexto amostral; (2) foram utilizados os dados censitários mais recentes disponíveis e compatíveis com o período da coleta, sendo essa escolha explicitada na seção “Métodos” do artigo; (3) o questionário foi elaborado com base na literatura nacional e internacional sobre mulheres na cirurgia e aplicado de forma padronizada. Dados de identificação confidenciais - cláusula prevista no TCLE - foram recolhidos para validação de elegibilidade; as respostas foram complementadas por análise qualitativa das respostas abertas, o que permitiu maior contextualização dos achados; (4) a inclusão de participantes provenientes de diferentes escolas médicas do estado amplia a heterogeneidade da amostra, permite avaliar particularidades da região e oferece subsídios relevantes para reflexão em contextos acadêmicos semelhantes, dado que as faculdades brasileiras estão inseridas em um mesmo marco regulatório nacional; (5) tal escolha foi coerente com o objetivo central do estudo, voltado especificamente à experiência feminina na decisão pela carreira cirúrgica; (6) o número de respostas não necessariamente corresponde ao tamanho real do curso; ademais, foram incluídas estudantes de todas as escolas médicas elegíveis do estado, e a distribuição da amostra por instituição foi apresentada de forma transparente; e (7) a ausência de controle para fatores de confusão é prevista por diretrizes metodológicas no contexto de estudos transversais; além disso, análises estratificadas e achados foram interpretados de forma descritiva e exploratória, sem pretensão de inferir relações causais independentes. Por fim, reitera-se que as limitações deste estudo são reconhecidas por diretrizes, incluindo a “Strengthening the Reporting of Observational Studies in Epidemiology” (STROBE) e aplicadas em questionários eletrônicos30-33.

Por conseguinte, entre os fatores de desistência da carreira cirúrgica mais apontados neste estudo, destacaram-se questões relacionadas à qualidade de vida. Diferentemente de outros estudos, aspectos financeiros22,35 não foram referidos pelas participantes, possivelmente em razão da ausência de alternativas específicas no questionário - fator que também não emergiu nas respostas abertas. Em relação à maternidade, embora seja amplamente descrita na literatura como um elemento central na decisão por carreiras cirúrgicas22,35-46, neste estudo foi mencionada apenas uma vez nas respostas dissertativas e minimamente abordado (3,6%) no contexto de estratégias para estimular a adesão feminina na área. Esse achado pode refletir a sub-representação do tema no instrumento ou, ao contrário, representar o tema “maternidade” integrado à duas assertivas apontadas no formulário pelas alunas: dificuldade de equilíbrio entre vida pessoal e profissional e a condição feminina como limitante à carreira. Ainda assim, evidências prévias mostram que o adiamento da maternidade é mais frequente entre mulheres cirurgiãs plásticas (72,6%) do que entre homens dessa especialidade (39,2%)43, por exemplo, reforçando a importância do tema na trajetória feminina, mesmo quando não explicitamente relatado.

Ademais, a falta de autoconfiança, identificada em 21,6% das participantes, também se destacou como fator relevante de desistência, corroborando a literatura que aponta que homens tendem a expressar mais confiança do que mulheres em contextos profissionais, mesmo quando possuem desempenho equivalente ou inferior. Pesquisas também sugerem que mulheres cirurgiãs, de maneira frequente, percebem a necessidade de adotar comportamentos tradicionalmente associados ao gênero masculino para obter maior reconhecimento. Essa percepção converge com discussões de que a infraestrutura e os instrumentos do bloco cirúrgico são planejados a partir dos parâmetros anatômicos masculinos21,23,35,47-61.

O preconceito vivenciado por parte dos docentes médicos destacou-se como um dos fatores mais importantes associados à pelo menos uma razão de desistência da carreira cirúrgica pelas alunas, evidenciando o impacto direto do ambiente acadêmico na decisão profissional. Esse resultado está em consonância com a literatura27,44,62-69, que demonstra elevada prevalência de assédio e discriminação contra mulheres na cirurgia, frequentemente por superiores hierárquicos - como evidenciado na revisão de escopo de Xepoleas et al.70, na qual 72% dos casos de assédio contra residentes mulheres foram atribuídos a preceptores. Nesse contexto, a associação observada entre vivência/observação de preconceito e a percepção do gênero feminino como fator limitante à carreira cirúrgica corrobora a ideia de que experiências discriminatórias não apenas coexistem, mas atuam como determinantes na redução do interesse feminino pela área, perpetuando a desigualdade de gênero já amplamente descrita21,27,38.

Por fim, a representatividade feminina e a presença de mentoras na área cirúrgica também emergiram como fatores centrais na escolha profissional. Esses resultados reforçam evidências23,27,71 que apontam a escassez de mulheres em posições acadêmicas e de liderança na cirurgia, tanto internacionalmente72,73 quanto no Brasil74, onde a participação feminina permanece minoritária em departamentos universitários e sociedades cirúrgicas. Esse cenário contribui para a percepção de incompatibilidade entre o estilo de vida cirúrgico e as expectativas sociais atribuídas às mulheres34,75. A ideia corrobora com outro achado do presente estudo: dentre as estratégias para estimular a adesão feminina à cirurgia, o incentivo docente e institucional foi a mais recorrente. Portanto, a presença de mulheres cirurgiãs no corpo docente não apenas representa um elemento simbólico, mas atua diretamente como fator modulador do interesse feminino pela especialidade42,76.

CONCLUSÃO

A partir da amostra analisada, os principais fatores que influenciam alunas mulheres das faculdades de Medicina (RS, Brasil) a não optarem por especialidades cirúrgicas são: falta de qualidade de vida e falta de autoconfiança, associados ao preconceito de gênero vivenciado na graduação e a carência de exemplos femininos na cirurgia. Logo, os resultados reforçam o papel do ambiente formativo na construção de trajetórias de sucesso das mulheres na área. A hipótese de que a pretensão por cirurgia entre estudantes do sexo feminino é reduzida progressivamente ao longo da graduação não pôde ser inferida por meio desse estudo.

AGRADECIMENTOS

Agradecemos a Deus, fonte de toda a sabedoria e condução; à gestão de 2022 da Association of Women Surgeons, Chapter UNISC (AWS UNISC) pela dedicação na elaboração deste trabalho; à colega e atual residente de Ginecologia e Obstetrícia, Dra. Rafaela Manetti Geisler, pela idealização do projeto; e à nossa professora cirurgiã pediátrica, Dra. Cristina Manera Dorneles, pelo apoio e incentivo que tantas estudantes de Medicina ainda carecem ao longo da formação.

Material Suplementar - Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE)

Prezada senhora,

Você está sendo convidado/a para participar como voluntário do projeto de pesquisa intitulado “Análise das circunstâncias que desincentivam discentes mulheres dos Cursos de Medicina das universidades do estado do Rio Grande do Sul a optarem por especialidades cirúrgicas, que pretende identificar os principais fatores que levam as mulheres discentes dos cursos de Medicina das universidades do Rio Grande do Sul a não optarem por especialidades cirúrgicas”, fazendo-se míster para compreender como a hegemonia de homens no ambiente cirúrgico se faz relevante na escolha de mulheres a se tornarem cirurgiãs e trazer luz a formas de como é possível modificar essas circunstâncias. A pesquisa é vinculada ao Curso de Medicina da Universidade de Santa Cruz do Sul - UNISC. O pesquisador responsável por este Projeto de Pesquisa é a Dra. Cristina Manera Dorneles, que poderá ser contatada a qualquer tempo por meio do telefone (disponibilizado no TCLE original) ou do e-mail (disponibilizado no TCLE original).

Sua participação é possível pois você atende aos critérios de inclusão previstos na pesquisa, os quais são Mulheres discentes dos Cursos de Medicina, maiores de 18 anos, que estejam cursando o período da graduação, do primeiro ao décimo segundo semestre, da Universidade de Santa Cruz do Sul e das demais faculdades de medicina presentes no Estado do Rio Grande do Sul. Sua participação consiste em responder ao formulário do Google Forms, disponibilizado via link, o qual contém 22 perguntas acerca da especialidade médica pretendida e dos possíveis motivos pelos quais você opta ou não por especialidades cirúrgicas. O nome da participante e o e-mail são perguntas obrigatórias do questionário, podendo a participante não respondê-las caso não sinta-se confortável e, então, não ser incluída como participante da pesquisa, sem nenhum prejuízo. Nesse caso, será enviado um email com a resposta de ciência do interesse do participante de pesquisa em retirar seu consentimento. O consentimento será apagado da base de dados. Além disso, é possível que alguns desconfortos aconteçam, como a exposição de opinião pessoal sobre especialidade médica escolhida e motivos pelos quais a área cirúrgica não é escolhida, além dos riscos de confidencialidade devido às limitações do ambiente virtual, como a violação de dados pessoais - nome e email do participante. Após conclusão do questionário e computação das respostas, os dados serão salvos em um único dispositivo e serão apagados da plataforma em que foram coletados (Aplicativo do Google), bem como de qualquer outra “nuvem” eletrônica, a fim de minimizar os riscos de violação de dados.

Os riscos/desconfortos, se ocorrerem, serão minimizados por meio da suspensão da pesquisa por completo. Por outro lado, a sua participação trará benefícios, como realizar uma reflexão acerca dos reais motivos pelos quais não optam por especialidades cirúrgicas, além de colaborar com uma pesquisa que poderá trazer à luz novos olhares sobre a carreira médica e a especialidade cirúrgica. Para sua participação nessa pesquisa você não terá nenhuma despesa de qualquer natureza. Ao final da pesquisa você terá acesso aos resultados através de um email com a divulgação dos resultados. Além disso, esse Termo e as respostas da pesquisa serão encaminhados ao seu email pessoal caso o aceite para participar da pesquisa seja confirmado. Recomendamos que mantenha uma cópia para segurança.

Fui, igualmente, informado/a: (a) da garantia de receber resposta a qualquer pergunta ou esclarecimento a qualquer dúvida acerca dos procedimentos, riscos, benefícios e outros assuntos relacionados com a pesquisa; (b) da liberdade de retirar meu consentimento, a qualquer momento, e deixar de participar do estudo, sem que isto traga prejuízo; (c) da garantia de que não serei identificado na divulgação dos resultados e que as informações obtidas serão utilizadas apenas para fins científicos vinculados ao presente projeto de pesquisa; (d) do compromisso de proporcionar informação atualizada obtida durante o estudo, ainda que esta possa afetar a minha vontade em continuar participando; (e) da disponibilidade de indenização, conforme estabelece a legislação, caso existam dano diretamente causados por esta pesquisa; (f) de que minha participação nesta pesquisa não gera despesas que gerem ressarcimento; e, (g) de que se existirem gastos para minha participação nesta pesquisa, estes serão absorvidos pelo orçamento da pesquisa.

Pelo presente Termo de Consentimento Livre e Esclarecido eu declaro que autorizo a minha participação neste projeto de pesquisa, pois fui informado/a, de forma clara e detalhada, livre de qualquer forma de constrangimento e coerção, dos objetivos, da justificativa e dos procedimentos que serei submetido, dos riscos, desconfortos e benefícios, assim como das alternativas às quais poderia ser submetido, todos acima listados. Ademais, declaro que, quando for o caso, autorizo a utilização de minha imagem e voz de forma gratuita pelo pesquisador, em quaisquer meios de comunicação, para fins de publicação e divulgação da pesquisa, desde que eu não possa ser identificado através desses instrumentos (imagem e voz).

O presente documento foi assinado em duas vias de igual teor, ficando uma com o voluntário da pesquisa ou seu representante legal e outra com o pesquisador responsável. O Comitê de Ética em Pesquisa responsável pela apreciação do projeto pode ser consultado, para fins de esclarecimento sobre a metodologia e qualquer outra dúvida, denúncia ou assistência por meio do seguinte endereço: (disponibilizado no TCLE original); ou pelo telefone (disponibilizado no TCLE original); ou pelo e-mail (disponibilizado no TCLE original).

Local:

Data:

Nome e assinatura do voluntário

Nome e assinatura do responsável pela apresentação deste Termo de Consentimento Livre e

Esclarecido

Material suplementar - Questionário aplicado às estudantes de Medicina

Preenchimento mediante assinatura do TCLE

Bloco 1 - Caracterização acadêmica

1. Universidade (Escreva a sigla, somente em letras maiúsculas, exemplo “UNISC”…).

2. Ano/Período da graduação.

3. A carreira médica foi a sua primeira opção?

( ) Sim

( ) Não

( ) Não sei/Não lembro

4. Você tem pretensão por alguma especialização médica?

( ) Sim

( ) Não

( ) Não sei/ Não lembro

Bloco 2 - Pretensão cirúrgica

5. Se você respondeu “Sim” na pergunta anterior, essa especialidade médica é clínica ou cirúrgica?

( ) Clínica

( ) Clínico-cirúrgica

( ) Cirúrgica

( ) Não sei /Não lembro ( ) Não se aplica

6. Você já cogitou tornar-se uma cirurgiã?

( ) Sim

( ) Talvez

( ) Não

( ) Não sei /Não lembro

7. Se você já cogitou tornar-se uma cirurgiã, em que momento isso ocorreu?

( ) Antes de ingressar na faculdade de Medicina

( ) Durante o 1o ano

( ) Durante o 2o ano

( ) Durante o 3o ano

( ) Durante o 4o ano

( ) Durante o 5o ano

( ) Durante o 6o ano

( ) Não se aplica

( ) Não sei / Não lembro

8. Você já cursou alguma cadeira universitária da área cirúrgica?

( ) Sim

( ) Não

( ) Não sei/ Não lembro

9. A área cirúrgica sempre foi a sua primeira escolha?

( ) Sim

( ) Não

( ) Não se aplica

( ) Não sei / Não lembro

10. Se a área cirúrgica era a sua primeira escolha, isso mudou durante a graduação?

( ) Sim

( ) Não

( ) Não se aplica

( ) Não sei / Não lembro

Bloco 3 - Fatores de desistência pela especialidade cirúrgica

11. Se a sua pretensão por tornar-se cirurgiã mudou durante a graduação, alguns dos fatores

abaixo foram motivo para tal decisão? Poderão ser marcadas todas as alternativas que se

encaixem em sua resposta.

( ) Estilo de vida não condizente com minhas expectativas

( ) Carga-horária de trabalho elevada

( ) Dificuldades em conciliar vida pessoal e profissional

( ) Carga-horária da residência médica elevada

( ) Nível de exigência da formação cirúrgica

( ) Falta de incentivo para escolher especialidade cirúrgica

( ) Falta de conhecimento sobre especialidades cirúrgicas

( ) Falta de autoconfiança

( ) Descontentamento com a disciplina de cirurgia

( ) Ausência de exemplos de mulheres cirurgiãs no meio universitário

( ) Preconceito por parte de professores com formação médica

( ) Preconceito por parte de colegas de graduação

( ) Preconceito por parte de pacientes

( ) Preconceito por parte de outros profissionais de saúde

( ) Preconceito por parte de familiares

( ) Não se aplica

Bloco 4 - Vivência de preconceito

12. Você já vivenciou ou presenciou alguma situação de preconceito ou assédio contra

mulheres dentro da Medicina?

( ) Sim

( ) Não

( ) Não sei / Não lembro

13. Se você já vivenciou ou presenciou alguma situação de preconceito contra mulheres dentro da Medicina, ela ocorreu por parte de qual(is) grupo(s) abaixo? Podem ser marcadas todas as alternativas que se aplicarem à sua resposta.

( ) Professores com formação médica

( ) Colegas de graduação

( ) Pacientes

( ) Outros profissionais de saúde

( ) Familiares

Bloco 5 - Percepções sobre gênero e docência cirúrgica

14. Você acha que ser mulher é um fator limitante em uma carreira cirúrgica?

( ) Sim

( ) Não

( ) Não sei / Não lembro

15. Se você respondeu sim para a questão anterior, quais fatores abaixo podem ser

limitantes?Poderão ser marcadas todas as alternativas que se encaixem em sua resposta.

( ) O fato de ser uma cirurgiã mulher

( ) O fato de uma cirurgiã mulher estar inserida em um ambiente predominantemente

masculino

( ) O fato de uma cirurgiã mulher estar sujeita a situações de preconceitos e assédios

( ) O fato de ser uma carreira que exige grande dedicação de tempo e disponibilidade

( ) Outro

( ) Não se aplica

16. Você já teve ou sabe se terá professora(s) mulher(es) cirurgiã(s) durante a graduação na

sua Universidade?

( ) Sim

( ) Não

( ) Não sei / Não lembro

17. Você se sente confortável com a distribuição entre professores homens e mulheres nas

disciplinas cirúrgicas na graduação em sua Universidade?

( ) Sim

( ) Não

( ) Não sei / Não lembro

18. Você se sentiria mais propensa a seguir uma carreira cirúrgica se tivesse a oportunidade

de aprender com mais professoras mulheres cirurgiãs?

( ) Sim

( ) Não

( ) Não sei / Não lembro

19. Na sua opinião, o que pode ser modificado durante a graduação para que mais mulheres

optem por especialidades cirúrgicas? Poderão ser marcadas todas as alternativas que se

encaixem em sua resposta.

( ) Ter a presença de mais professoras mulheres cirurgiãs

( ) Receber mais encorajamento para seguir a carreira cirúrgica, seja por parte dos professores, seja pela presença/existência de instituições como a AWS, ligas acadêmicas,

oportunidades de estágio/monitoria, atividades práticas, etc

( ) Conhecer sobre programas de Residência Médica em especialidades cirúrgicas que

auxiliem a mulher a conciliar a maternidade com a carreira cirúrgica

( ) Conhecer melhor o processo de notificação de preconceitos e assédios sofridos

( ) Receber maior acesso a informação sobre especialidades médicas cirúrgicas

( ) Outro

20. Você tem alguma consideração final sobre o tema da pesquisa?

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  • Disponibilidade e compartilhamento de Dados
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  • Fonte de financiamento:
    nenhuma.

Editado por

  • Editor
    Daniel Cacione

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Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    27 Jul 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    20 Out 2025
  • Aceito
    05 Maio 2026
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