Open-access PARTICULARIDADES DA TÉCNICA FONOTERAPÊUTICA DE SONS HIPERAGUDOS: REVISÃO DE LITERATURA

Particularities of voice techniques of high-pitched sounds: literature review

RESUMO

Objetivo:  descrever achados relacionados à utilização dos sons hiperagudos na prática clínica, à anatomofisiologia de sua produção e seus efeitos no trato vocal, e às indicações e contra-indicações da técnica para os distúrbios e o aperfeiçoamento da voz.

Métodos:  foi realizada uma revisão crítica de literatura, utilizando-se livros, teses, dissertações, monografias, como também material da Internet, onde foram pesquisados artigos publicados pelo LILACS, BIREME, PUBMED e MEDLINE.

Resultados:  foram encontrados relatos de mudanças significativas no trato vocal durante a produção do som hiperagudo, como o relaxamento do músculo tireoaritenóideo (TA), a contração do músculo cricoaritenóideo (CT), equilíbrio da emissão em registro modal, e aumento da resistência vocal, podendo ser usado, com efetividade, em casos de disfonia vestibular, disfonia hipercinética, edema de Reinke, entre outros.

Conclusão:  O conhecimento e a atualização do uso dessa técnica mostrou evidências positivas sobre sua eficácia nas intervenções realizadas pelos profissionais fonoaudiólogos e reforçam o valor e a efetividade do atendimento, permitindo um rendimento máximo e longevidade da voz.

DESCRITORES:
Fonação; Distúrbios da Voz; Fonoaudiologia

ABSTRACT

Purpose:  to carry out a revision of literature, describing found related to the use of the high-pitched sounds in the clinic practice, to the anatomophysiology of its production and its effect in the vocal tract, and the indications and problems of the technique for the disorder and the perfectioning of the voice.

Methods:  it was done a critic review of literature with books, thesis, dessertations, monographs as well as Internet material where were researched papers published by LILACS, BIREME, PUBMED and MEDLINE.

Results:  they were found reports of significant changes in the vocal tract during the production of the high-pitched sound, as the relaxation of the thyroarytenoid muscle (TA) the contraction of the cricoarytenoid muscle (CT), balance of the emission in modal register, and increase of the vocal resistance, being able to be used, with effectiveness, in cases of ventricular phonation, hyper functional dysphonia, Reinke’s edema, and others.

Conclusion:  the knowledge and the modernization of the use of this method showed positive evidences about its effects in the interventions that were done by the speech and language therapists. They reinforce the value and the efficacy of the attendance allowing a maximum revenue and longevity of the voice.

KEYWORDS:
Phonation; Voice Disorders; Speech; Language and Hearing Sciences

INTRODUÇÃO

A Fonoaudiologia é a ciência que estuda, previne e intervém nos distúrbios da comunicação humana do indivíduo, em qualquer idade.

A voz é um instrumento de comunicação utilizado pelo ser humano com o intuito de transmitir informações e revelar tanto características biológicas quanto psicológicas. Muitas vezes, a voz pode informar as condições de saúde, gênero, idade, estado emocional, e até traços da personalidade de cada indivíduo 1,2.

Os estudos científicos sobre a reabilitação vocal surgiram na década de 30, mas apenas recentemente houve um aumento dos estudos nessa área, possibilitando, assim, maior conhecimento científico sobre as abordagens de terapia vocal 1.

A atuação da Fonoaudiologia nas alterações vocais abrange o aprimoramento vocal norteando o trabalho especialmente com profissionais da voz 3-8, reabilitação vocal que centraliza o trabalho vocal com o intuito de retornar o padrão próximo à normalidade 9-14, e até mesmo as adaptações vocais nos casos de ressecções parciais ou totais da laringe 15-18. Em todos esses casos, profissionais que integram a equipe interdisciplinar (médicos, psicólogos, fonoaudiólogos) têm desenvolvido pesquisas em todo o mundo com o intuito de compreender queixas, incidência, causas, impacto na qualidade de vida e a aplicabilidade de técnicas vocais visando obter a melhor forma de comunicação a esses indivíduos.

As técnicas vocais são usadas como instrumentos terapêuticos, modificando, otimizando ou adaptando o padrão de voz, visando atingir o melhor padrão vocal para o paciente disfônico.

Embora não existam muitos estudos sobre a eficácia e a efetividade da utilização de técnicas vocais na prática fonoaudiológica, em conseqüência da dependência de inúmeras variáveis relacionadas ao paciente, ao clínico, e às técnicas em si, para a obtenção de resultados fidedignos, sabe-se que as mesmas têm um papel importante no processo de reabilitação do indivíduo 3.

Os sons facilitadores, ou sons de apoio da emissão, visam ao melhor equilíbrio funcional da produção vocal, agindo de modo direto na fonte glótica, por isso, são muito utilizados no tratamento das disfonias, visto que, na maioria dos casos, a obtenção de resultados é imediata 1,3,19,20.

Apesar de a produção dos sons facilitadores favorecer o equilíbrio funcional da produção vocal, tanto nos quadros hipercinéticos, quanto nos hipocinéticos, sua aplicação não é universal. Em função disso, a produção das técnicas deve ser monitorada de maneira cuidadosa, pois a produção inadequada das mesmas, além de comprometer a eficácia do tratamento, pode prejudicar, ainda mais, a saúde vocal. As principais técnicas de sons facilitadores são: a técnica dos sons nasais, fricativos, vibrantes, plosivos, basais, e hiperagudos 3,19.

O procedimento básico dos sons hiperagudos, tema deste estudo, consiste em realizar uma série de exercícios, no registro elevado de falsete.

O termo “registro vocal” deriva dos instrumentos musicais. Em relação à voz humana, o registro é considerado um evento laríngeo, que se refere aos diversos modos de emitir os sons da tessitura. Assim, as freqüências de um registro apresentam qualidade vocal quase idêntica, com mesma base fisiológica, perceptivo-auditiva, acústica e aerodinâmica, ou seja, sons de um mesmo registro apresentam um caráter uniforme de emissão que permite distingui-los de sons de outros registros 1,20,21. Os três principais registros são: basal; modal, que se subdivide nos subregistros de peito, misto e cabeça; e registro elevado, que se subdivide em falsete e flauta 1,2,20-23.

O registro elevado em falsete também recebe o nome de som hiperagudo, falsete, registro de falsete, registro de sótão ou registro leve.

A partir do que foi exposto, verifica-se a necessidade de compilar, e comentar os escassos achados bibliográficos da literatura científica a respeito dos sons hiperagudos, e sua aplicabilidade clínica e diagnóstica.

Desta forma, o presente trabalho visa sintetizar a anatomofisiologia do som hiperagudo, descrever suas aplicabilidades clínicas, levantar as restrições ao uso excessivo desse e verificar sua eficácia por meio de uma revisão crítica da literatura.

MÉTODOS

Realizou-se revisão de literatura, especificamente de autores que descrevem o uso do som hiperagudo na prática fonoaudiológica e médica, em livros, teses, dissertações, monografias, e material da Internet, onde foram pesquisados artigos publicados pelo LILACS, BIREME, PUBMED e MEDLINE, não se estabelecendo um intervalo de tempo limite para pesquisa. Foram destacados os estudos relevantes para o tópico em questão, e os achados da literatura foram apresentados e posteriormente discutidos em relação à atuação fonoaudiológica referentes às questões de voz.

RESULTADOS

Fisiologicamente, o som hiperagudo é produzido por meio do relaxamento dos músculos tireoaritenóideos (TA), responsáveis pela produção mais equilibrada em registro modal, e pela maior contração do músculo cricoaritenóideo (CT). A laringe apresenta posicionamento mais baixo e anteriorizado, que ocorre em conseqüência da inclinação que a cartilagem tireóidea faz sobre a cartilagem cricóidea (movimento de báscula) 1,2,3,19,21.

A emissão em falsete ou em hiperagudo ocorre pela hiperatividade do músculo CT, pelo quase total relaxamento do músculo TA e por uma discreta redução da atividade dos músculos cricoaritenóideo lateral (CAL) e ariaritenóideo (AA), ocasionando a configuração de uma fenda paralela 20.

Um estudo pesquisou a faixa de freqüência em registro modal, basal, e elevado em um grupo de 12 homens e 11 mulheres e encontraram os seguintes resultados: no registro basal, o grupo masculino apresentou freqüências de 7 a 78 Hz e no grupo feminino observou-se freqüências entre 2 e 78 Hz; no registro modal, o grupo masculino apresentou freqüências de 71 a 561 Hz, enquanto o grupo feminino apresentou freqüências de 122 a 798 Hz, e por fim, no registro elevado, as freqüências foram de 156 a 795 Hz para o grupo masculino e 210 a 1929 Hz para o grupo feminino. Os autores concluíram que o som hiperagudo pode ser considerado como o registro que apresenta as freqüências mais altas da tessitura vocal 23.

De acordo com alguns autores, a maior parte das notas do registro elevado constitui o sub-registro de falsete. O registro de falsete apresenta uma fonação suficientemente distinta em relação aos registros modais utilizados na fala habitual e constitui uma categoria diferente, em que são observadas emissões débeis e leves. O sub-registro de flauta é de ocorrência muito rara, com configuração glótica não bem definida, mas acredita-se que ocorra uma transformação global da laringe, que passa a funcionar como um apito, gerando sons semelhantes a silvos de pássaros com produção praticamente passiva 1,2,20-25.

Durante a produção da voz em registro de falsete, somente uma pequena porção da borda das pregas vocais vibra, resultando em uma diminuição da excursão lateral da onda mucosa. A voz resultante apresenta característica aguda, de intensidade débil e extensão reduzida1,20-22,24-26.

Em um trabalho, foram pesquisadas as características da configuração glótica em dois registros vocais, em indivíduos normais adultos, sendo quatro do gênero masculino e quatro do gênero feminino. Os autores examinaram as mudanças da configuração glótica e aerodinâmica na passagem de registro modal para falsete, usando, simultaneamente, a gravação da nasofibroscopia e sinais aerodinâmicos. Os resultados obtidos mostraram um fechamento glótico incompleto nas imagens da maioria dos sujeitos e também confirmam existir uma relação entre o grau da fenda glótica e o escape aéreo transglótico durante a mudança de registro vocal 27.

Foram investigados o mecanismo laríngeo e o sinal acústico durante o glissando e, em particular, o comprimento glótico, área glótica máxima e amplitude vibratória, durante o glissando de um homem adulto saudável. Um sistema de alta velocidade de endoscopia, combinado com um aparelho de projeção a laser, foi usado para a obtenção de dados quantitativos de ambos domínios, tempo e espaço. A freqüência fundamental e o nível de pressão sonora obtidos na gravação foram comparados ao comprimento das pregas vocais e à área glótica obtida nas gravações de alta velocidade 25.

Os resultados foram utilizados para a interpretação dos mecanismos de fonação durante o glissando por meio dos parâmetros laríngeos e acústicos. A transição do registro de peito para falsete foi identificada pela ausência de contato entre as pregas vocais. O início do registro de falsete foi observado em 160 Hz. Embora a freqüência fundamental das pregas vocais tenha aumentado linearmente até o ponto de transição (zona de passagem), o nível de pressão sonora caiu. Esses dados representam a primeira descrição e interpretação quantitativa do glissando baseado em propriedades vocais em movimentação laríngea. Assim, embora a transição do registro peito-falsete seja um tanto suave para a movimentação laríngea e o pitch vocal, uma súbita queda da intensidade foi observada.

Outra pesquisa estudou as características da passagem entre o registro de peito e falsete, em seis mulheres e cinco homens, cantores treinados, por meio da avaliação da freqüência fundamental, amplitude da área de contato entre as pregas vocais e cociente de fechamento glótico. Os resultados preliminares mostraram um padrão diferenciado no que se refere ao gênero, pois nas vozes femininas foi encontrada uma pequena característica da zona de passagem e uma menor diversidade individual em relação às vozes masculinas 28.

É referido na literatura que, embora o registro elevado de falsete seja um modo normal de vibração, seu uso habitual é considerado como um uso incorreto. A voz em falsete pode aparecer na puberfonia, em casos compensatórios de paralisia de prega vocal, falsete paralítico, disfonia espasmódica, casos psicogênicos e falsete de conversão 1,2,26,29.

Na terapia vocal, a escolha do som a ser utilizada pelo paciente, para a produção do som hiperagudo, depende da facilidade do mesmo. O exercício pode ser empregado nas técnicas de vibração ou sons nasais, vogais, fricativas e seqüências como “minimini-mini”. O trabalho em hiperagudo pode ser complementado pelo treino do glissando. Se o paciente apresenta muita dificuldade para entrar em falsete, pode-se realizar a técnica do sopro e som agudo, que consiste em iniciar soprando o ar, em fluxo contínuo, e acrescentar uma emissão hiperaguda, contínua, mantendo-se grande fluxo de ar e os lábios no gesto de sopro 1,19,23.

No que se refere aos resultados da técnica estudada, o som hiperagudo proporciona relaxamento do músculo TA, contração do músculo CT, equilíbrio da emissão no registro modal, aumento da resistência vocal, e mobilização da borda das pregas vocais 1-3,19,21,24 .

Suas principais aplicações são na intervenção das disfonias de natureza hipercinética, especialmente quando ocorre a interferência de pregas vestibulares, vibrantes ou não, à fonação, compressão laríngea ântero-posterior, e em quadros psicogênicos. A técnica ainda tem se mostrado efetiva nos casos de aumento de massa de toda a prega vocal, como no edema de Reinke, associada ao recurso da fonação inspiratória, em casos de paralisia de pregas vocais, puberfonias e aquecimento vocal1,2,19,21,24,30,31.

DISCUSSÃO

Como o som hiperagudo é o relaxamento dos músculos tireoaritenoídeos (TA) e a contração do músculo cricoaritenóideo (CT) este movimento favorece um estiramento adicional das pregas vocais, ocasionando uma fenda paralela fisiológica 1-3,19,20.

Essa fenda paralela, em toda extensão, em caráter fisiológico, pode ser observada no exame laringológico, no qual a primeira emissão solicitada pelo médico é em som hiperagudo. Essa configuração ocorre pelo mecanismo fisiológico explicado anteriormente de basculação das cartilagens, com conseqüente exposição da laringe ao exame, ou seja, uma melhor visualização das estruturas. É importante salientar que o diagnóstico é sempre realizado por meio da emissão em registro modal, que é a utilizada pelo indivíduo habitualmente em sua fala 1-3,19,21,25,32.

Esses dados concordam com um estudo apresentado, no qual foram investigadas as características da configuração glótica e as mudanças aerodinâmicas na transição do registro modal para o registro de falsete, por meio de nasofibroscopia e sinais aerodinâmicos em indivíduos do gênero masculino e feminino normais. Os resultados obtidos mostraram um fechamento glótico incompleto nas imagens da maioria dos sujeitos. Esse fechamento não é, necessariamente, uma condição patológica e pode ser considerado como uma variação normal durante a fonação em altas freqüências em ambos os gêneros em registro modal cabeça, bem como em registro de falsete. Esses resultados também confirmam a relação entre o grau da fenda glótica e o escape aéreo transglótico e deve ser considerada como um critério de julgamento para o grau de fechamento glótico 27.

Por meio da revisão de literatura realizada, foi possível também observar a existência de uma menor ativação da musculatura intrínseca da laringe durante a fonação em falsete, se comparada ao registro modal. A diferença entre os dois registros pode refletir diferenças na atividade adutora das pregas vocais. Um fator importante salientado é que a tensão de estiramento que o músculo CT exerce sobre as pregas vocais, resulta em um pitch agudo no falsete, mas não no registro modal. O aumento da tensão de estiramento, em combinação com a diminuição da contração do músculo TA, resulta no afilamento das pregas vocais, o que é característico da fonação em falsete.

Do mesmo modo, a ação do músculo CT mostra, durante a laringoestroboscopia, as pregas vocais muito delgadas, mínima superfície de contato, apenas no terço anterior, com vibrações restritas a essa região, havendo sempre presença de fenda anterior, ou seja, não se observa coaptação completa. Evidentemente, a corrente de ar transglótica, embora reduzida, está sempre presente, o que por vezes reflete-se numa emissão levemente soprosa 20, o que condiz com alguns estudos1,2,20,21,24-26,33.

A aproximação das pregas vocais com firme adução, na produção em falsete, promove, na porção cartilagínea posterior, uma adução de modo tão firme que pouca ou nenhuma vibração posterior ocorre, enquanto a porção anterior vibra rapidamente. As porções laterais do músculo TA não vibram ativamente para produzir a voz de falsete. A onda mucosa é confinada à margem medial das pregas vocais. A amplitude e altura da onda mucosa são, gradualmente, reduzidas na produção do falsete. O segmento vocal interno do músculo TA está extremamente estirado ao longo do ligamento vocal1,2,20,21,24-26.

Quanto ao aspecto dos registros vocais, o som hiperagudo representa as freqüências mais altas da tessitura vocal, sendo 156 a 795 Hz para homens e 210 a 1929 Hz para mulheres 23. Pode-se emitir sons em registro de falsete de 160 a 800 Hz 1,20. Isso ocorre devido à vibração de uma pequena porção da borda das pregas vocais, de forma tensa, proporcionando assim uma voz resultante aguda, de intensidade débil e extensão reduzida, o que vai ao encontro das afirmações de outros autores 1,20-22,24-26.

Um estudo sugere que a transição do registro de peito e falsete foi identificada pela ausência de contato entre as pregas vocais. O início do registro de falsete foi observado em 160 Hz 25, concordando com as afirmações de outras pesquisas 1,20. Embora a freqüência fundamental das pregas vocais tenha aumentado linearmente até o ponto de transição (zona de passagem), o nível de pressão sonora caiu. Assim, embora a transição do registro peito-falsete ser um tanto suave para a movimentação laríngea e o pitch vocal, uma súbita queda da intensidade foi observada. Resultados similares foram observados, porém, foram encontradas diversidades quanto às características da passagem de registro, entre os sujeitos e entre os gêneros 28. Isso poderia ser atribuído a fatores relacionados às habilidades individuais e características anatômicas e fisiológicas como o tamanho da laringe e volume da musculatura intrínseca.

A produção cômoda dos sons hiperagudos é, usualmente, produzida por um alongamento das pregas vocais, diminuindo sua massa. Portanto, não pode ser obtida durante a fonação vestibular, sendo utilizada com efetividade na eliminação da fonação ventricular. O mesmo princípio pode ser aplicado nos casos de compressão laríngea ântero-posterior, e em quadros psicogênicos, nos quais o uso de freqüência aguda pode ser suficiente para restaurar a função fonatória normal1,2,20,21,24.

A técnica do som hiperagudo é utilizada na intervenção das disfonias de natureza hipercinética, especialmente quando ocorre a interferência de pregas vestibulares, vibrantes ou não, à fonação 1,2,20,21,25. Esses achados são comprovados nos casos clínicos, apresentados por alguns autores, que obtiveram resultados satisfatórios nesses tipos de disfonia. Eles utilizaram a técnica com o objetivo de afastar as bandas ventriculares durante a fonação, equilibrar a emissão em registro modal, buscar o relaxamento do músculo TA, e a contração do músculo CT 34-36. Já outros autores não obtiveram melhoras satisfatórias 37. O que se pode pensar, é que, apesar de os sons hiperagudos terem indicações claras na literatura, em alguns poucos casos eles podem não ser efetivos nos processos de reabilitação, visto que estão inter-relacionados com a própria prática clínica e as respostas individuais do paciente1,3,19,21.

A produção do som hiperagudo pode ser associada ao recurso de fonação inspiratória. Essa técnica vem obtendo resultados satisfatórios em casos de edema de Reinke acentuados, nos quais observa-se freqüência fundamental abaixo da faixa da normalidade feminina e pitch grave, visto que tais pacientes têm dificuldades na emissão hiperaguda pela resistência da massa do edema. Assim, a fonação inspiratória funciona como um facilitador e o som hiperagudo beneficia tais pacientes pelo estiramento adicional das pregas vocais, proporcionando o equilíbrio da emissão em registro modal, o relaxamento do músculo TA, e a contração do músculo CT 1,3,30.

O som hiperagudo tem indicações na literatura como técnica de aquecimento vocal fisiológico. A técnica beneficia os profissionais da voz, porque permite às pregas vocais maior flexibilidade de alongamento e encurtamento durante as variações de freqüência; deixa a mucosa mais solta, propiciando maior habilidade ondulatória; e em conseqüência, reúne melhores condições gerais de produção vocal 1,3,19,29.

Quanto à terapia da disfonia espasmódica de adução, verificou-se que vários autores propõem a utilização da elevação da freqüência fundamental, freqüência fundamental aguda, emissões débeis, e voz leve, para a diminuição dos espasmos à vocalização2,24,37,39-42. Essa prática é utilizada, provavelmente, pelo fato de que a inervação da musculatura adutora da laringe (nervo laríngeo recorrente), aquela que sofre os espasmos, é diferente da inervação do músculo tensor para agudos (nervo laríngeo superior). Assim o falsete, em geral, está livre dos espasmos, até mesmo em alguns casos mais severos de disfonia espasmódica de adução. Nesta última, observou-se emissões em falsete com um traçado acústico mais regular e estável do que as emissões em outros registros 43.

Porém, os autores anteriormente citados acreditam que, nesses casos, além do som hiperagudo, faz-se necessária a adoção de outras estratégias, como o uso da toxina botulínica para amenizar os espasmos, visando a melhor comunicação e qualidade de vida do indivíduo.

Alguns autores indicam o som hiperagudo para casos de paralisias de prega vocal, melhorando a coaptação glótica e, conseqüentemente, a recuperação vocal e funcional da laringe 1,3,19,21,26,31. Isto provavelmente ocorreu devido ao fato de que, na agudização, há estiramento da prega vocal paralisada, pela preservação do nervo laríngeo superior que mantém a ação do músculo CT. Assim, o uso da técnica proporciona a mobilização do músculo CT e da borda da mucosa das pregas vocais, aumentando a área vocal dinâmica, adaptando a voz em pitch mais agudo e adequado para a fala espontânea 1,19.

Contudo, não se sabe se todos os pacientes com paralisia de prega vocal têm essa capacidade de melhora da voz utilizando-se do falsete. Essas afirmações podem ser reforçadas com o caso de uma paciente com paralisia de prega vocal direita, em posição paramediana, que apresentava registro elevado predominantemente, grande incoordenação pneumofonoarticulatória e fadiga vocal intensa, apresentado por uma das pesquisas 44. A terapia fonoaudiológica baseou-se em exercícios propostos na literatura para instalar o registro modal. Assim, a voz da paciente apresentou uma qualidade roucosoprosa, com intensidade diminuída, mas aceita pela paciente e pela sociedade.

É sugerido o uso do som hiperagudo com o intuito de elevar a freqüência fundamental em casos de voz de transexuais. A técnica mostrou-se efetiva na apresentação de um caso dos autores supracitados, no qual se pode observar diminuição da loudness e elevação da freqüência fundamental, tornando a voz mais feminina. Juntamente com a técnica, foram trabalhados os padrões de modulação e entonação para um melhor equilíbrio corpo-mente e integração social 45.

No entanto, pesquisadores afirmam que, nesses casos, somente a elevação da freqüência fundamental não garante a percepção da voz como feminina, com isso faz-se necessário trabalhar os aspectos supra-segmentais na fala encadeada, o vocabulário, e as manifestações fonatórias não-verbais, como os gestos19,45-48.

No que se refere à disfagia, o uso do som hiperagudo associado a escalas, promove uma movimentação vertical da laringe e, essa movimentação, principalmente a elevação, é fisiologicamente semelhante ao processo de deglutição. Ainda, a fonação aguda promove a tração do conjunto hióideo-laríngeo, fechamento do esfíncter velofaríngeo, e aproximação das pregas vocais 49. Essas afirmações puderam ser comprovadas na dinâmica da deglutição de três indivíduos portadores de disfagia orofaríngea neurogênica, por acidente vascular encefálico isquêmico que foram submetidos a um programa terapêutico com exercícios vocais, dentre eles, exercícios com sons agudos (sustentação dos sons /i/ e /z/, emissão do som /i/ intermitente, e bocejo suspiro associados à emissão do som /i/ agudo), e passaram de alimentação via sonda para via oral, com segurança 50.

CONCLUSÃO

Com base na literatura consultada, pôde-se concluir que o som hiperagudo promove relaxamento do músculo tiroaritenóideo, contração do músculo cricotireóideo, equilíbrio da emissão em registro modal, aumento da resistência vocal, diminuição de edema, mobilização da borda da mucosa das pregas vocais, restauração da função fonatória, afastamento de bandas vestibulares à fonação, adaptação da voz em pitch mais agudo e trofismo muscular.

Além disso, verificou-se que a produção dos sons hiperagudos pode ser usada, com efetividade, em casos de disfonia vestibular, puberfonia, disfonia hipercinética, edema de Reinke, paralisia de prega vocal, disfonia espasmódica adutora, como coadjuvante na eficiência dos esfíncteres envolvidos na deglutição, em quadros psicogênicos, na adequação da voz de transexuais, e no aquecimento vocal.

A literatura também mostrou que essa técnica deve ser utilizada com cautela, pois, em alguns indivíduos pode causar ainda mais desequilíbrios e tensões, embora em outros casos favoreça o equilíbrio funcional da produção vocal.

O conhecimento e a atualização do uso dessa técnica mostra evidências positivas sobre a eficácia das intervenções realizadas pelos profissionais fonoaudiólogos e reforçam o valor e a efetividade do atendimento, permitindo um rendimento máximo e longevidade da voz.

Existem poucos estudos que descrevem o comportamento laríngeo durante o som hiperagudo, e muitos destes não fazem uma pesquisa isolada, mas sim, com uso concomitante de outras técnicas. Para que essa técnica fonoterapêutica seja utilizada de forma mais precisa e objetiva, acredita-se que ainda devem ser realizados estudos que visem comprovar sua eficácia na prática clínica fonoaudiológica.

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Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    17 Ago 2025
  • Data do Fascículo
    Jul-Sep 2006

Histórico

  • Recebido
    17 Ago 2006
  • Aceito
    13 Set 2006
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