Open-access CATEGORIZAÇÃO SEMÂNTICA E AQUISIÇÃO LEXICAL: DESEMPENHO DE CRIANÇAS COM ALTERAÇÃO DO DESENVOLVIMENTO DA LINGUAGEM

Semantic categorization and lexical acquisition: performance of young children with language development disorders

RESUMO

Objetivo:  verificar a relação entre o total de acertos em tarefas de vocabulário expressivo e receptivo e as habilidades de categorização semântica de crianças com Alteração do Desenvolvimento da Linguagem (ADL).

Métodos:  22 crianças, de ambos os gêneros, com idades entre 3;1 e 5;10 anos realizaram as seguintes provas: Prova de Categorização de Objetos, Prova de Verificação do Vocabulário Expressivo e Prova de Verificação do Vocabulário Receptivo. Os dados obtidos receberam tratamento estatístico para comparação dos desempenhos nas três tarefas, comparação dos desempenhos entre as três faixas etárias incluídas e verificação da correlação entre as provas.

Resultados:  os sujeitos apresentaram melhor desempenho na Prova de Verificação do Vocabulário Receptivo do que nas demais provas. A heterogeneidade característica das crianças com ADL também foi observada na comparação das três provas. Houve evolução significante com a idade na Prova de Verificação do Vocabulário Expressivo e na categoria Co-hipônimo distante da Prova de Categorização de Objetos. Apenas as provas de vocabulário expressivo e receptivo apresentaram correlação entre si.

Conclusão:  o déficit lexical apresentado pelos sujeitos pode estar relacionado às falhas nas representações semânticas e na organização cognitiva dessas representações. A combinação dos desempenhos nas tarefas propostas pode trazer informações importantes para a identificação da origem das falhas lexicais.

DESCRITORES:
Transtornos do Desenvolvimento da Linguagem; Testes de Linguagem; Criança; Vocabulário

ABSTRACT

Purpose:  to verify the relationship between the number of correct answers in expressive and receptive vocabulary tasks and the semantic categorization abilities of children with Language Development Disorders (LDD).

Methods:  22 children, of both genders, with ages between 3;1 and 5;10 years carried out three tasks: Objects Categorization Test, Expressive Vocabulary Test and Receptive Vocabulary Test. Data received statistical treatment in order to compare the general performance in the tests considered and the performances of each age group, and to verify the correlation among the tests.

Results:  the subjects showed better performance in the Receptive Vocabulary Test, as compared to the other two tests. The characteristic heterogeneity observed in children with LDD was also observed in this comparison. There was significant evolution with the age in the Expressive Vocabulary Test and in the Distant Cohyponym category of the Objects Categorization Test. Only the Expressive Vocabulary Test and the Receptive Vocabulary Test showed significant correlation.

Conclusions:  the lexical deficits showed by the subjects can be related to deficits in the semantic representation and their cognitive organization. The combination of the performances on the proposed tasks can provide important information for identifying the origin of lexical deficits.

KEYWORDS:
Language Development Disorders; Language Tests; Child; Vocabulary

INTRODUÇÃO

A Alteração do Desenvolvimento da Linguagem (ADL) em crianças é identificada a partir da comparação entre seu desenvolvimento lingüístico e o de outras da mesma idade. A constatação de que existe uma diferença, de pelo menos 12 meses, entre a idade lingüística e a idade cronológica, representa que as crianças estão apresentando dificuldade neste desenvolvimento. Esta dificuldade pode indicar um simples Retardo ou um Distúrbio Específico de Linguagem (DEL) 1-3.

Nos quadros de Retardo, o déficit respeita a seqüência do desenvolvimento normal de linguagem (DNL), reduzindo-se com o tempo, ou seja, as manifestações lingüísticas não são persistentes. Geralmente, elas são conseqüência de maturidade cerebral tardia ou exposição da criança à interações ineficazes. Entretanto, nos quadros de DEL, ocorre uma assincronia no desenvolvimento dos subsistemas lingüísticos, ou seja, as alterações lingüísticas são desviantes, persistentes e com repercussão sobre a linguagem escrita 1-3.

Apesar de o número de estudos sobre o desenvolvimento lexical em crianças com Alteração do Desenvolvimento da Linguagem (ADL) ter aumentado nos últimos anos, pouco se sabe sobre o processo de aquisição lexical destas crianças 1.

As crianças com ADL apresentam um atraso no aparecimento das primeiras palavras, geralmente de cerca de 12 meses; são mais lentas para adquirir novos itens lexicais; e falham na grande expansão vocabular, que ocorre entre os 18 e 24 meses no desenvolvimento típico e demonstram dificuldades em adquirir determinados conceitos, principalmente conceitos abstratos e figurativos 1, 4.

Essa população apresenta também alterações fonológicas significativas, que torna o seu discurso muitas vezes ininteligível, além da dificuldade em combinar o significado das palavras para formar sentenças. A partir dos três anos, essas crianças demonstram alterações relacionadas aos aspectos morfológicos e sintáticos, como menor complexidade das sentenças e uso limitado de subordinação, omissão ou uso inadequado de elementos gramaticais obrigatórios, como artigos, pronomes e plural dos morfemas 1.

As crianças com ADL, em testes de nomeação, apresentam dificuldades em recuperar os itens lexicais e continuam a utilizar generalizações em vez de adquirir novos atributos que restrinjam o significado da palavra, ou seja, estas crianças nomeiam com menos freqüência as palavras-alvo, utilizando-se de mais não-designações e de processos de substituição do que aquelas em desenvolvimento normal de linguagem. Estes resultados evidenciam o déficit lexical nas crianças com ADL 5-9.

Em decorrência do atraso no desenvolvimento de linguagem, essas crianças podem ter um número menor de palavras em seu léxico, apresentar menor conhecimento semântico das palavras e/ou ter um léxico pouco organizado 10.

As dificuldades de nomeação podem ocorrer por causa de diferenças na habilidade de organização do sistema semântico e sugerem que a extensão e profundidade do armazenamento da representação semântica podem ser deficientes nas crianças com ADL 10.

O grau de conhecimento, representado no léxico semântico das crianças com ADL, faz com que as palavras se tornem mais ou menos vulneráveis às falhas de recuperação e o conhecimento semântico limitado contribui para os erros freqüentes de nomeação apresentados 11.

Um estudo 9 sobre compreensão (vocabulário receptivo) e produção lexical (vocabulário expressivo) em crianças em DNL e com DEL com idades entre 2;00 e 6;11 anos, verificou que as respostas referentes ao vocabulário receptivo foram melhores do que as referentes ao vocabulário expressivo nas duas populações estudadas. Esta autora também observou a relação entre a idade e as proporções de acertos, e verificou que, com o aumento da idade ocorreu o aumento de acertos em ambas as populações.

Os resultados de um outro estudo 7 feito com crianças em DNL e com ADL, com faixa etária entre 2;0 e 4;11 anos, mostraram que com o aumento da idade e do nível de desenvolvimento, ocorre também o aumento de designações usuais na Prova de Verificação do Vocabulário Expressivo 12 nos dois grupos estudados.

A habilidade de localizar um objeto individual em classes taxonômicas múltiplas em vários níveis hierárquicos é uma característica fundamental da organização semântica e conceitual humana 13.

As categorias hierárquicas podem ser divididas em 14.

-nível básico (equilíbrio entre semelhança e distinção);

-nível superordenado (nível mais geral -hiperônimo): aumento no número de instâncias incluídas e diminuição da especificidade dessas instâncias à medida que se sobe na hierarquia categorizadora;

-nível subordinado (nível mais específico - hipônimo): diminuição no número de instâncias incluídas e aumento da especificidade dessas instâncias à medida que se desce na hierarquia categorizadora.

As crianças têm mais dificuldade na utilização de termos de superordenação (hiperônimos) e uma facilidade maior na aquisição e utilização das categorias de nível básico, devido, entre outros fatores, ao seu grau de diferenciação de outras categorias 14.

A habilidade de reconhecer objetos, pertencentes a uma mesma categoria, é necessária tanto para explosão da nomeação quanto para o agrupamento, por exemplo, de duas categorias 15. Porém, alguns autores16 afirmam que, embora o desenvolvimento do conhecimento das categorias de objetos possa embasar o desenvolvimento da categorização e nomeação, estes desenvolvimentos dependem de outras habilidades.

Há uma relação bidirecional entre a aprendizagem da palavra e da categorização de objeto, pois a categorização provê representações mentais de significados que são mapeadas às palavras para formar itens lexicais; os rótulos lingüísticos ajudam a categorização de objetos provendo sinais adicionais de ensino; e estes dois processos de aprendizagem interagem entre si e formam o feedback de desenvolvimento 17.

Um estudo sobre a relação entre linguagem e cognição 16 (especificamente compreensão de palavras e habilidades de categorização) em crianças em DNL e com ADL verificou que há uma dissociação entre a linguagem expressiva e a habilidade de categorização. Isto significa que o vocabulário produtivo não cresce motivado simplesmente pelo desenvolvimento no entendimento conceitual das crianças de que as palavras são usadas para se referir às categorias de objetos. Mais do que isto, a habilidade de categorização parece estar fortemente ligada à idade das crianças e, talvez, ao conhecimento receptivo das palavras.

Os resultados obtidos em outro estudo 18 sobre competência lexical (prova de vocabulário expressivo12) e habilidades de categorização em crianças em DNL e com ADL com idades entre 3;00 e 5;11 anos, mostraram que as crianças dos dois grupos utilizaram-se de poucos processos de hiperônimo, indicando maior dificuldade em utilizar termos de superordenação que os de nível básico.

As autoras do estudo acima 18 acrescentam que, no grupo de crianças com ADL, houve uma variação no desempenho na prova de vocabulário quando comparado ao teste de categorização, o que indica que esta habilidade cognitiva não é o único aspecto envolvido na aquisição lexical. Este achado concorda com o observado em um estudo anterior 16.

Essas crianças apresentam, ainda, déficits no uso da linguagem, como menor intenção comunicativa e maior uso do meio comunicativo não-verbal 19. Além disso, há o maior uso de segmentos ininteligíveis no discurso que prejudicam a comunicação com o interlocutor e caracterizam uma marca discursiva nesta população 20.

Assim, o objetivo deste estudo foi comparar o desempenho de crianças com ADL nas provas de vocabulário expressivo, vocabulário receptivo e categorização de objetos - verificando a relação entre o total de designações usuais (vocabulário expressivo), total de acertos (vocabulário receptivo) e habilidades de categorização semântica, respectivamente.

MÉTODOS

Participaram deste estudo 22 crianças, sendo 15 meninos e 7 meninas, com idades entre 3;1 e 5;10 anos. Estas crianças estão em atendimento semanal no Laboratório de Investigação Fonoaudiológica em Desenvolvimento da Linguagem e suas Alterações do Curso de Fonoaudiologia da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo e apresentam diagnóstico de Alteração de Desenvolvimento da Linguagem. Um sujeito não conseguiu realizar a Prova de Categorização de Objetos 16,18 e isso foi considerado como um dado relevante sobre sua performance, e por isso ele foi mantido na análise do trabalho.

O material utilizado foi uma filmadora, fitas VHSC e fitas cassetes com 60 minutos de duração, miniaturas de objetos para a tarefa de categorização (quatro objetos de cada categoria) e protocolos específicos para a transcrição dos dados.

Para a coleta dos dados, foram utilizadas as seguintes provas:

1) Prova de Categorização de Objetos 16,18. Esta prova é composta por seis conjuntos de oito miniaturas de objetos para serem categorizados (colocados em seis sacolinhas numeradas) e um conjunto para o ensaio prático;

2) Prova de Verificação do Vocabulário Expressivo 12. Este teste é composto por 118 figuras em nove campos conceituais: vestuário, animais, alimentos, meios de transporte, móveis e utensílios, profissões, locais, formas e cores e brinquedos/instrumentos musicais;

3) Prova de Verificação do Vocabulário Receptivo 9. Composta por 110 figuras divididas em 22 pranchas, contendo cinco figuras em cada uma delas, nos mesmos campos conceituais utilizados no vocabulário expressivo.

As crianças realizaram os testes em um dos dias em que compareceram ao serviço para atendimento fonoaudiológico. Todos os sujeitos foram gravados em áudio e/ou vídeo no momento da aplicação das provas. A coleta dos dados foi realizada pelo terapeuta responsável pelo atendimento fonoaudiológico de cada sujeito.

Os dados de vocabulário expressivo e receptivo foram coletados no prontuário de cada criança, sendo que estas provas são referentes à última avaliação antes da realização da prova de categorização (todas realizadas em 2005), refletindo o desempenho lexical dos sujeitos na época da realização dessa tarefa.

Descrição dos procedimentos para aplicação e análise dos dados

1) Vocabulário Expressivo 12

Para a realização do teste, a criança foi solicitada a nomear as figuras apresentadas na seguinte ordem: (1) vestuário; (2) animais; (3) alimentos; (4) meios de transporte; (5) móveis e utensílios; (6) profissões; (7) locais; (8) formas e cores; (9) brinquedos e instrumentos musicais.

Para cada figura apresentada, era feita uma das perguntas: “O que é isso?” (para todos os objetos e animais); “Quem é ele/ela?” (para as profissões); “Que lugar é este?” (para os locais); “Que forma é esta?” (para as formas); “Que cor é esta?” (para as cores).

A ordem de apresentação das figuras era respeitada seqüencialmente. Quando a criança não nomeava uma figura, esta era reapresentada antes de iniciar a avaliação do próximo campo semântico, na mesma seqüência de apresentação e a pergunta era repetida.

As respostas da criança foram transcritas e analisadas nos protocolos específicos, após a verificação das gravações das fitas de vídeo e áudio.

2) Vocabulário Receptivo 9

As pranchas foram apresentadas à criança, uma a uma, de acordo com as seguintes instruções: “Onde está a cor _________?” (para o campo cor); “Onde está o (a) _______?” (para os demais campos).

Foi pedido à criança que reconhecesse (apontasse) apenas duas das cinco figuras dispostas em cada prancha. É importante salientar que era exigido o reconhecimento de uma figura por vez, dentro de uma mesma prancha.

As respostas da criança foram transcritas e analisadas no protocolo específico.

3) Categorização de Objetos 16,18

Para a realização do ensaio prático, foi retirado o conteúdo da sacolinha identificada (roupas e alimentos) e solicitado à criança que arrumasse tudo, da forma como quisesse. Caso a criança não categorizasse, os objetos eram separados e era explicada à criança a razão da categoria. Por exemplo: “Olha a saia! Vamos colocar junto com a outra roupinha? Tem mais roupinha? Vamos colocar todas aqui. E essa maçã, vamos colocá-la deste lado? O que mais podemos colocar aqui? Olha, ficaram as roupinhas de um lado e as frutas do outro lado”.

Mesmo que a criança realizasse a categorização, o avaliador reforçava a resposta e identificava os grupos formados.

Para a realização do teste, foi oferecido à criança o conteúdo das demais sacolinhas, respeitando a ordem da numeração: (1) móveis x animais; (2) veículos x animais; (3) aves x cavalos; (4) carros x aviões; (5) cavalos x cachorros; (6) carros x motos. É importante ressaltar que os conjuntos (1) e (2) faziam parte das categorias superordenadas (distinção na relação de hiperonímia); os conjuntos (3) e (4), das categorias de alto contraste (relação de cohiponímia distante); e os conjuntos (5) e (6), das categorias de baixo contraste (relação de co-hiponímia próxima).

A ordem dada à criança era: “Olha isso tudo! Você pode arrumar isso pra mim? Pode fazer do jeito que você quiser”.

Foi considerada qualquer atividade da criança com os objetos, sem realizar nenhuma interferência do avaliador e foi aguardado que ela finalizasse a atividade. Caso a criança não fizesse nada com os objetos, estes eram retirados após dois minutos. As instruções eram repetidas para todas as seis sacolinhas.

Após a filmagem, as ações da criança foram transcritas e analisadas no protocolo específico.

Análise dos dados

Os dados foram analisados de acordo com os procedimentos específicos para cada prova.

Para a prova de verificação do vocabulário expressivo, foi verificado somente o número total de designações por vocábulo usual (designações corretas), somando-se os acertos dos nove campos semânticos, sendo que o número máximo de acertos era 118. Não foram consideradas, para este estudo, as substituições e as não designações.

Para a prova de verificação do vocabulário receptivo, foi verificada a quantidade total de acertos, somando-se os acertos dos nove campos conceituais, sendo que os acertos poderiam ser até de 44 figuras.

Para a prova de categorização, foi analisada a complexidade das ações das crianças, pelos seguintes critérios:

1) manipulação: A criança manipula, explora os objetos.

2) jogo simbólico: A criança brinca (realiza jogo simbólico) com o objeto.

3) seriação sem categorização: A criança apenas seria (enfileira) os objetos, sem separar em categorias.

4) seriação com uma categorização: A criança enfileira só um dos dois conjuntos de objetos.

5) seriação com duas categorizações incompletas: A criança enfileira parcialmente os dois conjuntos, sem incluir todos os objetos em ambos.

6) seriação com uma categorização completa e uma incompleta: A criança enfileira um conjunto todo, mas deixa o outro conjunto enfileirado de maneira incompleta (sem todos os objetos).

7) seriação com duas categorizações completas: A criança enfileira os dois conjuntos, incluindo todos os objetos.

8) um agrupamento completo: A criança separa somente os objetos de uma classe semântica e os agrupa.

9) dois agrupamentos incompletos: A criança separa os objetos das duas classes e os agrupa incompletamente (sem incluir todos os objetos).

10) um agrupamento completo e um incompleto: A criança separa as duas classes de objetos, agrupando completamente somente uma classe e deixando a outra agrupada de modo incompleto.

11) dois agrupamentos completos: A criança separa os objetos das duas classes e os agrupa completamente (faz dois grupos de classes semânticas iguais).

Nesta prova, cada ação da criança foi pontuada da seguinte maneira: se a ação da criança se encaixasse nos critérios 1, 2 ou 3 (0 ponto); no critério 4 (1 ponto); nos critérios 5 ou 6 (2 pontos); nos critérios 7 ou 8 (3 pontos); no critério 9 (4 pontos); no critério 10 (5 pontos); e no critério 11 (6 pontos).

Também foi verificada a pontuação total da prova (somando-se a pontuação feita em cada um dos seis conjuntos de objetos), sendo que a pontuação máxima era de 36 pontos.

Para a análise de todas as provas, os desempenhos dos sujeitos foram pontuados de acordo com a porcentagem de acertos em cada prova. Então, se a criança acertasse até 25% da prova, receberia 0 ponto; se acertasse de 26% a 50%, receberia 1 ponto; se acertasse de 51% a 75%, receberia 2 pontos; e se acertasse acima de 75%, receberia 3 pontos.

Foi realizado tratamento estatístico para comparação dos desempenhos nas três provas (Teste de Igualdade de Duas Médias - Teste-t), comparação dos desempenhos entre as três faixas etárias incluídas (Análise de Variância com um Fator - ANOVA) e verificação da correlação entre as provas (técnica da Correlação). O nível de significância adotado foi de 5%.

Todos os responsáveis assinaram Termo de Consentimento Livre e Esclarecido, conforme aprovação da Comissão de Ética para Análise de Projetos de Pesquisa da Diretoria Clínica do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, protocolo número 500/03.

RESULTADOS

Os resultados a seguir são referentes ao desempenho das crianças nas Provas de Vocabulário Expressivo, Vocabulário Receptivo e Categorização de Objetos.

Na Tabela 1, observa-se que as provas de vocabulário expressivo e receptivo apresentaram correlação positiva entre si (67%). Isso significa que, conforme o vocabulário receptivo dessas crianças cresce, ocorre aumento no vocabulário expressivo.

A idade apresentou correlação apenas com a prova de vocabulário expressivo, ou seja, à medida que as crianças se tornam mais velhas, ocorre um crescimento nessa habilidade.

A prova de categorização não apresentou correlação significante com as outras provas e nem com a idade.

Na Tabela 2, verifica-se que não houve uma correlação entre as três partes da prova de categorização, sendo este um bom resultado, porque indica que as três partes se completam.

Na Tabela 3, nota-se diferença significante entre as provas de vocabulário expressivo e receptivo (pvalor = 0,00%), sendo que, em média, os sujeitos apresentaram melhor desempenho na prova de vocabulário receptivo.

Houve também diferença significante entre vocabulário receptivo e categorização (p-valor = 0,10%), com melhor desempenho das crianças na primeira prova.

Não houve diferença estatística significante entre as provas de vocabulário expressivo e categorização.

Na Tabela 4, observa-se que não houve diferença significante entre Hiperônimo e Co-hipônimo distante (CHD), e Hiperônimo e Co-hipônimo próximo (CHP), porém, os p-valores encontrados na comparação dessas partes da prova (7,70% e 8,60%, respectivamente) mostraram-se dentro da zona de risco (entre 5% e 10%). Desta forma, observa-se uma tendência à diferença entre essas partes, sendo que os sujeitos, em média, apresentaram melhor desempenho em Hiperônimo do que em CHD e CHP. O desempenho do grupo em CHD e CHP foi semelhante (p-valor = 89,20%).

Na Figura 1, é possível observar que no vocabulário expressivo (p-valor = 2,2%) e na categoria CHD da prova de categorização (p-valor = 4,0%) os sujeitos apresentaram evolução significante com a idade. Para as provas de vocabulário receptivo (p-valor = 27,4%), categorias Hiperônimo (p-valor = 24,5%) e CHP (pvalor = 98,1%) e categorização total (p-valores = 32,0%) não foram observadas diferenças significantes.

Tabela 1
Correlação entre as três provas e a idade
Tabela 2
Correlação entre as partes da Categorização
Tabela 3
Comparação da média geral entre as provas
Tabela 4
Comparação da média geral entre a Categorização

Figura 1
Comparação do desempenho entre as idades

DISCUSSÃO

Concordando com as afirmações apontadas em estudo anterior9, verificamos que as crianças com ADL apresentaram desempenho melhor na prova de vocabulário receptivo do que na de expressivo. Além disso, observamos também que com o crescimento do vocabulário receptivo ocorre aumento no expressivo.

Autores de um outro estudo16 verificaram que a habilidade de categorização parece estar fortemente ligada à idade das crianças e, talvez, ao conhecimento receptivo das palavras. Isto não foi observado na atual pesquisa, pois a prova de categorização não teve correlação com a idade, nem com os vocabulários receptivo e expressivo.

Alguns autores18 mostraram que houve uma variação de desempenho na prova de vocabulário quando comparado ao teste de categorização, o que indica que esta habilidade cognitiva não é o único aspecto envolvido na aquisição lexical.

Esse resultado concorda com os deste estudo, pois os sujeitos tiveram desempenho diferente em cada uma das provas, o que evidencia a heterogeneidade desse grupo, sendo esta uma característica da ADL1.

Na prova de categorização, o melhor desempenho na relação de hiperonímia sugere que os sujeitos categorizaram de forma mais global, baseando-se nas grandes diferenças entre os grupos de objetos, ou seja, essas crianças não apresentaram facilidade para categorizar quando os elementos dos grupos tinham mais traços em comum. Este resultado discorda do que foi observado por um estudo anterior18 e sugere que a representação lexical desses sujeitos é limitada, conforme constatado em outro estudo11, e organizada com base em características semânticas mais concretas e gerais.

CONCLUSÃO

Os sujeitos apresentaram melhor desempenho na prova de vocabulário receptivo do que nas provas de vocabulário expressivo e de categorização de objetos, indicando que o déficit lexical apresentado pode estar relacionado às falhas nas representações semânticas e na organização cognitiva dessas representações. A heterogeneidade característica das crianças com ADL também foi observada na comparação das três provas, sugerindo que a combinação dos desempenhos nas tarefas propostas pode trazer informações importantes para a identificação da origem das falhas lexicais em cada criança.

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Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    17 Ago 2026
  • Data do Fascículo
    Apr-Jun 2006

Histórico

  • Recebido
    27 Mar 2006
  • Aceito
    19 Maio 2006
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