RESUMO
Objetivo: verificar a atuação do Fonoaudiólogo em creches.
Métodos: relato de experiência de atuação fonoaudiológica em creches com a participação de profissionais e estudantes de Fonoaudiologia junto ao Programa Creche do estágio em Fonoaudiologia Preventiva, oferecido aos alunos do curso de Fonoaudiologia do Unicentro Metodista Izabela Hendrix. Este programa foi desenvolvido em uma creche conveniada com a Prefeitura de Belo Horizonte, a qual atendeu a 160 crianças e contou, semestralmente, com a participação de 18 estagiários. O intuito do Programa foi oferecer aos estagiários a oportunidade de vivenciar um papel profissional na promoção da saúde, levando-se em consideração principalmente aspectos relacionados com procedimentos e atitudes preventivas.
Resultados: o trabalho focalizou não só as crianças da creche, mas toda a comunidade, proporcionando-lhes maiores possibilidades de um desenvolvimento adequado. O Programa foi estruturado a partir das necessidades e solicitações da própria comunidade e, por isto, foi muito bem aceito por todos.
Conclusão: a experiência no Programa Creche mostrou a importância do Fonoaudiólogo atuar em parceria com a equipe da creche e desenvolver atividades eficazes em prol da prevenção e promoção dos aspectos comunicativos.
DESCRITORES:
Criança; Desenvolvimento Infantil; Fonoaudiologia; Prevenção Primária; Relações Interprofissionais
ABSTRACT
Purpose: to verify the speech pathologist’s performance at a Child Day Care Center.
Methods: experience report of the speech language therapist’s performance at a Child Day Care Centers with the participation of professionals and speech pathology students of Unicentro Metodista Izabela Hendrix. This program was developed at the Child Day Care Center member of Belo Horizonte city administration, which took care of 160 children, and had the semiannual participation of 18 internship members. The program’s intended to offer the participants the opportunity to take advantage of acting as a Professional to promote health, taking special consideration in all aspects related to behavior and preventive attitudes.
Results: the work focused not only on the Child Day Care Center also on the entire community giving major opportunities to a suitable development. The program was structured according to the Community’s requests and necessities and therefore was well developed by all.
Conclusion: the experience at the Child Day Care Center showed the importance of the partnership between the speech language therapist and the Child Day Care Center staff to develop effective activities for the benefit of prevention and promotion of communication aspects.
KEYWORDS:
Child; Child Development; Speech; Language and Hearing Sciences; Primary Prevention;
INTRODUÇÃO
O ambiente em uma creche deve ser especialmente criado visando oferecer à criança, em seus primeiros anos de vida, condições ideais que propiciem e estimulem seu desenvolvimento integrado e harmonioso1-2. A idade de 0 a 6 anos é decisiva para o desenvolvimento da criança, pois é um período de grandes modificações tanto nos aspectos físico, mental, social como no emocional 3.
A partir da Constituição de 1988, a creche, em tese, deixou de ter um caráter apenas assistencialista e assumiu também a função educacional. Na prática, entretanto, o que se observa é que esta mudança não se efetivou plenamente e que seu ambiente, muitas vezes, não proporciona condições adequadas para o desenvolvimento das crianças 1,4. Ainda hoje, em algumas delas, as crianças recebem atenção apenas quanto aos cuidados de higiene e alimentação, sem atividades que propiciem o desenvolvimento de suas habilidades auditivas e lingüísticas5. Neste contexto pode entrar a Fonoaudiologia, pois a creche, assim como a escola, por atender a maioria das crianças de uma comunidade, torna-se um local privilegiado de trabalho 6, onde as ações do Fonoaudiólogo, embora inicialmente tenham sido baseadas no modelo clínico de atuação, aos poucos foram direcionadas para a prevenção 6-7.
A atuação do Fonoaudiólogo em creches deve favorecer a criação de um ambiente mais saudável e propício ao desenvolvimento dos aspectos comunicativos, por meio da formação dos educadores e demais funcionários, do trabalho com as famílias, da educação em saúde e da investigação das condições de vida da comunidade envolvida 4. Desta forma, capacita-se a comunidade para a identificação de suas próprias necessidades, bem como para a busca de soluções viáveis que possam transformar sua realidade, respeitando seus valores 4,6-7. Educação para a saúde é muito mais do que informar, é criar condições para que as pessoas se conscientizem e se capacitem para reconhecer suas necessidades de saúde e expressá-las 8. Assim, com o passar do tempo, acredita-se que os educadores venham a adquirir maior conhecimento quanto ao desenvolvimento das crianças nas áreas de linguagem oral e escrita, fala, respiração, funções alimentares, audição, voz e fluência 9.
A finalidade da ação fonoaudiológica deve ultrapassar o enfoque nos distúrbios da comunicação e alimentação, nas tradicionais palestras meramente informativas e na realização de triagens, orientações e encaminhamento para terapia 7. Não são metas do trabalho a detecção de distúrbios da comunicação e a realização de triagens, mas são apenas mais uma ferramenta utilizada para se conhecer as características gerais da população abrangida pelo Programa, não devendo, portanto, serem supervalorizadas 6,10. A atuação do Fonoaudiólogo não se restringe a descrever as dificuldades manifestadas pelas crianças, mas investigar o que produziu tal manifestação 11.
Desta forma, o objetivo do presente estudo foi apresentar o Programa Creche - estágio curricular do Curso de Fonoaudiologia do Unicentro Metodista Izabela Hendrix, como forma de verificar a atuação dos Fonoaudiólogos nesta área.
MÉTODOS
Descrição do Programa Creche
O Programa Creche é parte do estágio em Fonoaudiologia Preventiva oferecido aos alunos do Curso de Fonoaudiologia do Unicentro Metodista Izabela Hendrix. Iniciou-se em abril de 2001, em uma creche ligada à Igreja Metodista e conveniada com a Prefeitura de Belo Horizonte, situada na Zona Norte da cidade. Primeiramente, com o intuito de realizar o diagnóstico da instituição, foi feita uma visita à creche, seguida de uma reunião com as Coordenadoras Administrativa e Pedagógica da mesma, objetivando conhecer suas instalações e equipe técnica, coletar informações sobre seu funcionamento e os recursos materiais disponíveis, bem como analisar suas expectativas quanto ao que seria oferecido pelo estágio.
Com base nestes dados, conforme proposto por Guedes 12 e Cavalheiro 6, foi elaborado o projeto de atuação, tendo como objetivos propiciar um ambiente saudável para os alunos, educadores e funcionários, além de transformar a creche em um ambiente estimulador para o desenvolvimento global da criança, focalizando principalmente as questões relacionadas à voz, fala, linguagem, audição e alimentação. Um projeto desvinculado dos anseios da comunidade, ao qual se destina, certamente não teria sucesso 12.
A creche em questão tinha 160 crianças, 9 educadores, 3 funcionários da cozinha e 2 de apoio, dividindo-se, quanto às turmas, em uma sala de Maternal I (1 ano), uma de Maternal II (2 anos) e uma de Maternal III (3 anos) em horário integral e, em meio horário, duas turmas de 1º Período (4 anos) e três de 2º Período (5 anos).
O Programa de atuação fonoaudiológica na creche foi desenvolvido com a participação de 18 estagiários, por semestre, sendo 12 no período da manhã e 6 no período da tarde, com o acompanhamento direto de um Fonoaudiólogo, professor do curso. Para cada turma foi designada uma dupla de estagiários responsáveis.
RESULTADOS
Descrição da atuação fonoaudiológica
Com o reconhecimento da realidade da instituição e a elaboração do projeto de atuação, a primeira atividade do Programa foi a participação do Fonoaudiólogo Responsável em um dos encontros pedagógicos, evento realizado mensalmente pela Instituição, no qual foi ministrada uma palestra aos educadores e funcionários sobre a Fonoaudiologia, suas áreas de atuação e o trabalho que estava sendo proposto para a creche.
Os estagiários iniciaram seus trabalhos pela observação das crianças na sala, no parque e no refeitório e pela troca de informações com a educadora responsável, com o objetivo de traçar o perfil de cada turma. Os aspectos analisados foram: linguagem, fala, voz, audição e as funções de respiração, mastigação e deglutição, bem como a condição dentária e a presença de hábitos orais deletérios. Após a observação de todas as crianças, ocorreram encontros individuais com as educadoras de cada turma, para discussão sobre os aspectos mais relevantes que foram verificados em sua sala e, a seguir, elaboradas atividades enfocando os pontos de maior necessidade.
As estagiárias executavam as atividades com a presença e participação da educadora para que pudessem subsidiar outras atividades desenvolvidas ao longo da semana. As crianças, em que porventura se identificou algum desvio nos aspectos fonoaudiológicos citados, foram submetidas a uma triagem individual. Os casos nos quais se constataram a necessidade de uma intervenção fonoaudiológica, os pais foram chamados, orientados e o encaminhamento efetuado. Além de encaminhamentos para avaliação e/ou terapia fonoaudiológica, algumas crianças foram encaminhadas para avaliação audiológica, otorrinolaringológica e pediátrica. Ao longo do trabalho, os estagiários participaram regularmente das reuniões de pais e encontros pedagógicos, onde foram abordados temas propostos pela Fonoaudiologia e escolhidos pelos pais e educadores/funcionários, respectivamente.
Periodicamente, a Fonoaudióloga responsável pelo Programa reuniu-se com as coordenadoras da creche para avaliar o trabalho. Houve encontros com os funcionários da cozinha, responsáveis por preparar e servir as refeições das crianças, abordando as relações entre a alimentação e as funções estomatognáticas.
Desenvolveu-se junto à comunidade uma campanha relativa à saúde bucal e os hábitos orais deletérios, que contou com a colaboração de um odontopediatra, através de palestras, da confecção de cartazes e folders, da apresentação de vídeos e de dinâmicas com as crianças e seus familiares.
A partir da sugestão dos educadores e funcionários, que se queixavam com freqüência de problemas vocais, criou-se um Grupo de Voz com encontros semanais. Nestes encontros, por meio de recursos como a exploração de gravuras, leitura de textos, discussão de temas, depoimentos, vivências e exibição de vídeos, foram abordados assuntos como: anatomia e fisiologia da laringe, higiene vocal e exercícios de relaxamento e respiração.
O Programa Creche foi muito bem aceito pela equipe da creche e pelas famílias e foi se estruturando a partir das necessidades e solicitações da própria comunidade. Infelizmente, em agosto de 2003, o trabalho teve que ser interrompido devido ao fechamento temporário da creche, sem perspectiva de reabertura. Com isto, iniciou-se no mês seguinte, o Programa em outra creche também mantida pela Igreja Metodista e conveniada com a Prefeitura.
DISCUSSÃO
O intuito de se implantar este Programa foi oferecer aos alunos, um estágio com a oportunidade de conhecer e vivenciar, ainda na graduação, o papel profissional em promoção da saúde e prevenção 12-13. Por isto, o trabalho focalizou não só as crianças da creche, mas toda a comunidade, proporcionando a eles maiores possibilidades de um desenvolvimento cognitivo, lingüístico e social adequados. Este “é um trabalho que o Fonoaudiólogo tem toda a possibilidade de fazer bem, desde que tenha coragem e determinação para suscitar, no outro, todo o seu potencial para a comunicação” 13.
CONCLUSÃO
A experiência no Programa Creche mostrou a importância do Fonoaudiólogo atuar em parceria com a equipe da creche e desenvolver atividades eficazes em prol da prevenção e promoção dos aspectos comunicativos.
Interprofessional Relations
REFERÊNCIAS
- 1 Hubig DOC, Cavalcante KR, Agonilha DC, CuryPI. A interação entre profissionais e crianças de creche: uma questão de promoção da saúde. Anais do X Congresso Brasileiro de Fonoaudiologia e II Encontro Mineiro de Fonoaudiologia; 2002 Set 26-28; Belo Horizonte, Minas Gerais; 2002.
- 2 Veríssimo MDLOR, Fonseca RMGS. Funções dacreche segundo suas trabalhadoras: situando o cuidado da criança no contexto educativo. Rev Esc Enferm USP. 2003; 37(2):25-34.
- 3 Batista CVM. Instituição creche: um estudo comprofissionais da área. Semina. 1996; 17(3):50-62.
- 4 Bitar ML, Simões M. Promoção de saúde em creches. Fono Atual. 1999; 3(9):10-3.
- 5 Vanzella TP, Whitaker ME, Berretin-Felix G, Lopes AC, Alvarenga KF. A fonoaudiologia preventiva e a formação de cuidadores de uma creche municipal. Anais do X Congresso Brasileiro de Fonoaudiologia e II Encontro Mineiro de Fonoaudiologia; 2002 Set 26-28; Belo Horizonte, Minas Gerais; 2002.
- 6 Cavalheiro MTP. Trajetória e possibilidades de atuação do fonoaudiólogo na escola. In: Lagrotta MGM, organizador. A fonoaudiologia nas instituições. São Paulo: Lovise; 1997. p. 81-8.
- 7 Penteado RZ. Escolas promotoras de saúde: implicações para a ação fonoaudiológica. Fonoaudiol Brasil. 2002; 2:28-35.
- 8 Marin CR, Chun RYS, Silva RC, Fedosse E, LeonelliBS. Promoção da saúde em fonoaudiologia: ações coletivas em equipamentos de saúde e educação. Rev Soc Bras Fonoaudiol. 2003; 8(1): 35-41.
- 9 Simões M, Bitar ML. Estudo comparativo entre asqueixas levantadas por educadores de creche e os achados fonoaudiológicos numa proposta de promoção da saúde. Anais do X Congresso Brasileiro de Fonoaudiologia e II Encontro Mineiro de Fonoaudiologia; 2002 Set 26-28; Belo Horizonte, Minas Gerais; 2002.
- 10 Guedes ZCF. Uma experiência de atuação acadêmica em fonoaudiologia na escola. Acta AWHO. 1984; 3:6-14.
- 11 Zorzi J, Daher M. Uma lição a ser seguida: atuar como promotor de saúde deve ser a mola-mestra do fonoaudiólogo dentro da escola, mas é preciso ser parceiro para obter bons resultados de trabalho. J CFFa. 2003; 7:3-6.
- 12 Guedes ZCF. Fonoaudiologia: uma opção pelaprevenção In: Ferreira LP. O fonoaudiólogo e a escola. São Paulo: Summus; 1991. p. 81-9.
- 13 Di Ninno CQMS. Estágio em creche: dar oportunidade aos alunos de fonoaudiologia de vivenciar a atuação numa abordagem preventiva. Anais do X Congresso Brasileiro de Fonoaudiologia e II Encontro Mineiro de Fonoaudiologia; 2002 Set 26-28; Belo Horizonte, Minas Gerais; 2002.
