RESUMO
Objetivo: Mapear estratégias de promoção da saúde a adolescentes com comportamento suicida.
Método: Revisão de escopo conforme diretrizes metodológicas da JBI, sem limitação de idioma e sem recorte temporal. Critérios de inclusão dos estudos: adolescentes de dez a 19 anos com comportamento suicida para explorar o conceito de promoção da saúde, em qualquer serviço de saúde, mas sem limitar esse contexto. Fontes consultadas: MEDLINE/PubMed, PubMed Central/NLM, CINAHL, Academic Search Premier, Fonte Acadêmica/EBSCO, Scopus, Embase/Elsevier, LILACS, BDENF, INDEXPSI, CUMED, BINACIS, LIPECS, MedCarib, BBO, ARGMSAL, BDNPAR, BIGG, BRISA, HomeoIndex, PAHOIRIS, SES-SPBVS, SciELO, PsycInfo/APA.
Resultados: Selecionados 22 artigos, emergiram dois enfoques estratégicos direcionados a adolescentes: desenvolvimento de habilidades para a vida – apoio entre pares, alfabetização em saúde mental, engajamento juvenil – e envolvimento de diferentes atores sociais – família, profissionais, líderes comunitários, redes de apoio intersetoriais.
Conclusão: As estratégias de promoção da saúde foram identificadas e mapeadas em dois enfoques estratégicos: primeiro foram direcionadas aos adolescentes; depois, envolveram diferentes atores sociais ampliando o alcance da promoção da saúde.
DESCRITORES
Adolescente; Estratégias de Saúde; Prevenção do Suicídio; Promoção da Saúde; Suicídio
ABSTRACT
Objective: To map strategies for promoting the health of adolescents with suicidal behavior.
Method: Scoping review in accordance with JBI methodological guidelines, without language or time limitations. Inclusion criteria for the studies: adolescents aged ten to 19 years with suicidal behavior to explore the concept of health promotion, in any health service, but without limiting this context. Sources consulted: MEDLINE/PubMed, PubMed Central/NLM, CINAHL, Academic Search Premier, Fonte Acadêmica/EBSCO, Scopus, Embase/Elsevier, LILACS, BDENF, INDEXPSI, CUMED, BINACIS, LIPECS, MedCarib, BBO, ARGMSAL, BDNPAR, BIGG, BRISA, HomeoIndex, PAHOIRIS, SES-SPBVS, SciELO, PsycInfo/APA.
Results: Of the 22 articles selected, two strategic approaches emerged targeting adolescents: development of life skills – peer support, mental health literacy, youth engagement – and involvement of different social actors – family, professionals, community leaders, intersectoral support networks.
Conclusion: Health promotion strategies were identified and mapped using two strategic approaches: first, they were directed at adolescents; then, they involved different social actors, broadening the scope of health promotion.
DESCRIPTORS
Adolescent; Health Strategies; Suicide Prevention; Health Promotion; Suicide
RESUMEN
Objetivo: Mapear estrategias para promover la salud de los adolescentes con conductas suicidas.
Método: Revisión del alcance de acuerdo con las directrices metodológicas de JBI, sin limitaciones de idioma ni restricciones de tiempo. Criterios de inclusión para los estudios: adolescentes de entre diez y 19 años con conducta suicida para explorar el concepto de promoción de la salud, en cualquier servicio de salud, pero sin limitar este contexto. Fuentes consultadas: MEDLINE/PubMed, PubMed Central/NLM, CINAHL, Academic Search Premier, Academic Source/EBSCO, Scopus, Embase/Elsevier, LILACS, BDENF, INDEXPSI, CUMED, BINACIS, LIPECS, MedCarib, BBO, ARGMSAL, BDNPAR, BIGG, BRISA, HomeoIndex, PAHOIRIS, SES-SPBVS, SciELO, PsycInfo/APA.
Resultados: De los 22 artículos seleccionados, surgieron dos enfoques estratégicos dirigidos a los adolescentes: el desarrollo de habilidades para la vida (apoyo entre pares, alfabetización en salud mental, participación juvenil) y la implicación de diferentes actores sociales (familia, profesionales, líderes comunitarios, redes de apoyo intersectoriales).
Conclusión: Se identificaron y mapearon estrategias de promoción de la salud utilizando dos enfoques estratégicos: primero, se dirigieron a los adolescentes; luego, involucraron a diferentes actores sociales, ampliando el alcance de la promoción de la salud.
DESCRIPTORES
Adolescente; Estrategias de Salud; Prevención del Suicidio; Promoción de la Salud; Suicidio
INTRODUÇÃO
As estratégias de promoção da saúde ganham destaque na Atenção Primária à Saúde (APS) pela forte convergência com seus princípios, que favorecem o acesso aos serviços e a implementação de ações integradas(1). A APS também possibilita articular intervenções voltadas tanto para questões individuais quanto coletivas, com o objetivo de melhorar as condições de vida e fortalecer a saúde comunitária(2,3). Nesse sentido, a promoção da saúde (PS) amplia a concepção da saúde e configura-se como uma estratégia promissora para enfrentar os desafios de saúde pública ao olhar sobre os determinantes da saúde e ao potencializar ações intersetoriais(4,5).
Com o propósito de aprimorar as condições de vida e de saúde em dimensões individuais e coletivas, a PS estabelece um leque de estratégias políticas com diretrizes e eixos transversais. Desse modo, as estratégias são caracterizadas pela cooperação entre diferentes setores e dentro do próprio setor de saúde, pela articulação com redes de proteção social e pelo estímulo à ampla participação e ao controle social. Seu principal foco é diminuir vulnerabilidades e riscos resultantes de determinantes multifacetados – sociais, econômicos, políticos, culturais e ambientais. Adicionalmente, prioriza a capacitação da pessoa e da comunidade para um maior controle sobre seu processo de viver. Partindo de uma compreensão abrangente do processo de saúde-doença e de seus condicionantes, a PS busca integrar e valorizar do conhecimento popular ao conhecimento técnico e científico por meio de ações que englobam mudança de comportamento, intervenções coletivas e implementação de políticas públicas integradas(3,4).
Na APS, especialmente no campo da saúde mental, a necessidade de cuidado na perspectiva da PS, orientada pelo paradigma psicossocial, faz com que as pessoas em sofrimento psíquico se tornem sujeitos ativos, inseridos em seus territórios, o que possibilita novas expressões de vida, autonomia e socialização(6).
As pessoas em sofrimento psíquico, principalmente o público infantojuvenil, demandam estratégias amplas e intersetoriais voltadas ao desenvolvimento de habilidades e de competências sociais, fortalecimento, enfrentamento e apoio social, com foco na PS(4,7), considerando sua singularidade e o território em que estão inseridas.
Entre as diversas manifestações de sofrimento psíquico, principalmente entre crianças e adolescentes, o suicídio destaca- se como uma de suas formas mais graves, dada a complexidade e o impacto social, em decorrência da imaturidade neuropsicossocial e emocional desse público. De 2011 a 2022, evidenciou-se um aumento das taxas de suicídio em todas as regiões do Brasil, com maior incidência entre jovens de dez a 24 anos, o que significou um crescimento de 6,14%(8). Na região das Américas, no período de 2000 a 2019, observou-se um aumento de 17% nos casos, enquanto, no Brasil, houve um crescimento expressivo de 43% no número de suicídios(9) nesse mesmo período.
O suicídio entre adolescentes reflete múltiplos fatores contribuintes, como transtornos mentais, conflitos familiares, violência, bullying, exclusão social, uso de substâncias como álcool e drogas, além do impacto das tecnologias por meio de mídias e de redes sociais, frequentemente associadas a efeitos negativos sobre a saúde mental(10,11). Diante desse cenário, evidencia-se a necessidade de identificar estratégias não somente restritas à prevenção de agravos, mas também que alcancem o enfoque na PS, que sejam abrangentes e articuladas com diferentes setores capazes de enfrentar a complexidade desses agravos à saúde pública(10,12).
Foram realizadas buscas preliminares com o objetivo de identificar revisões publicadas ou protocolos em andamento com a mesma temática, para garantir a originalidade do estudo e evitar duplicação de esforços. Essa busca incluiu as bases MEDLINE/PubMed, Cochrane Database of Systematic Reviews, Portal Regional da Biblioteca Virtual em Saúde (BVS), PROSPERO e JBI Evidence Synthesis, de modo que se identificaram dois protocolos de revisão: um voltado para estratégias intersetoriais de cuidado a adolescentes com comportamento suicida e autolesão e outro para intervenções destinadas à prevenção e ao manejo do suicídio e da automutilação em contextos educacionais. Embora relacionados ao tema, esses estudos não contemplam o foco específico desta proposta. Assim, não foram encontradas revisões atuais ou em andamento que abordem estratégias de promoção da saúde voltadas a adolescentes com comportamento suicida, o que evidencia uma lacuna no conhecimento e reforça a relevância desta investigação. Portanto, este estudo tem como objetivo mapear estratégias de promoção da saúde direcionadas a adolescentes com comportamento suicida.
MÉTODO
Tipo de Estudo
Trata-se de uma revisão de escopo conduzida de acordo com as diretrizes metodológicas do JBI(13), visando assegurar o rigor metodológico, a clareza e a organização do processo de revisão, e relatada conforme orientações do checklist PRISMA Extension for Scoping Reviews (PRISMA-ScR)(14). O protocolo desta revisão foi registrado na plataforma Open Science Framework (OSF) sob DOI https://doi.org/10.17605/OSF.IO/J9MQB.
Questão de Pesquisa
A questão de pesquisa foi definida em conformidade com o acrônimo PCC (população/conceito/contexto), em que a população (P) são “adolescentes com comportamento suicida”; o conceito (C) alude à “promoção da saúde”; e o contexto (C) refere-se a quaisquer serviços de saúde mental em todos os níveis de atenção, mas sem limitação a estes. Estabeleceu-se a seguinte questão de pesquisa: Quais são as estratégias de promoção da saúde para adolescentes com comportamento suicida?
Critérios de Elegibilidade
População – Esta revisão considera estudos envolvendo adolescentes de dez a 19 anos(15) com comportamento suicida. A Organização Mundial da Saúde (OMS)(16) destaca o suicídio como uma questão grave de saúde pública que requer uma resposta coordenada. Com intervenções oportunas, baseadas em evidências e de baixo custo, é possível reduzir significativamente a ocorrência de suicídios. Embora muitos incidentes sejam impulsivos, o comportamento suicida está fortemente associado a desastres, conflitos, violência, abuso ou perda e sensação de isolamento. A OMS estabelece intervenções eficazes baseadas em evidências, o que inclui a identificação, a avaliação, a gestão e o acompanhamento precoce de qualquer pessoa afetada por comportamentos suicidas(16).
Conceito – Foram incluídos estudos que abordassem estratégias de promoção da saúde para adolescentes com comportamento suicida. Foi considerada a definição da Carta de Ottawa, que define a promoção da saúde como o “processo de capacitação das comunidades para melhorar sua qualidade de vida e saúde, incluindo a participação no controle desse processo”(4,17).
Contexto – Os estudos incluídos foram realizados em qualquer local que oferecesse serviços de saúde mental em qualquer nível de atendimento. Serviços em qualquer nível de assistência médica, levando em conta a faixa etária dos participantes, foram igualmente considerados, mas sem limitação a eles.
Foram considerados estudos com delineamentos experimentais e quase-experimentais (ensaios clínicos randomizados, ensaios controlados não randomizados, estudos antes e depois e séries temporais interrompidas), observacionais analíticos (coortes prospectivas e retrospectivas, caso-controle e transversais analíticos) e observacionais descritivos (séries de casos, relatos de caso e estudos transversais descritivos). Foram incluídos estudos qualitativos (fenomenologia, teoria fundamentada, etnografia, descrição qualitativa e pesquisa-ação), além de textos teóricos, artigos de opinião, dissertações e teses. Foram excluídas revisões sistemáticas, de escopo e integrativas, bem como resumos de eventos, cartas e editoriais.
Estratégia de Busca
A estratégia de busca foi realizada em três etapas, visando localizar estudos publicados e não publicados, em colaboração com uma bibliotecária especializada, certificada pelo JBI em métodos de revisão. Inicialmente, foi conduzida uma busca preliminar nos portais – MEDLINE/PubMed, Cochrane Database of Systematic Reviews, Portal Regional da Biblioteca Virtual em Saúde (BVS), PROSPERO e JBI Evidence Synthesis. Na segunda etapa, a estratégia definitiva apresentada no Quadro 1 foi adaptada para as bases de dados/portais: MEDLINE/PubMed, PubMed Central/NLM, CINAHL, Academic Search Premier, Fonte Acadêmica/EBSCO, Scopus, Embase/Elsevier, LILACS, BDENF, INDEXPSI, CUMED, BINACIS, LIPECS, MedCarib, BBO, ARGMSAL, BDNPAR, BIGG, BRISA, HomeoIndex, PAHOIRIS, SES-SPLILACS, BDENF, Index Psicologia/BVS, SciELO e PsycInfo/APA. A literatura cinzenta foi explorada pela plataforma Science.gov; e acrescentou-se a ferramenta de busca Google Scholar. Não houve restrição de idioma ou período de publicação. Por fim, na terceira etapa, foi realizada a busca manual nas referências dos estudos incluídos. A busca foi feita em 23 de janeiro de 2025.
Seleção dos Estudos
Após a busca nas bases de dados, as referências identificadas foram carregadas para o EndNote 21 (Clarivate Analytics, PA, EUA), e duplicatas foram removidas. Em seguida, essas referências foram exportadas para o software Intelligent Systematic Review (Rayyan) para o gerenciamento do processo de seleção. Os documentos foram avaliados por título e por resumo a partir dos critérios de inclusão, processo conduzido por quatro revisores independentes, feito após um teste piloto. Após avaliação, as fontes relevantes foram recuperadas e avaliadas na íntegra, e as decisões foram marcadas no Rayyan.
As divergências que surgiram entre os revisores em cada etapa do processo de seleção foram resolvidas por meio de discussão, de consenso e ainda de um quinto revisor. Os resultados da busca e do processo de inclusão dos estudos estão apresentados no diagrama de fluxo, conforme as diretrizes do PRISMA-ScR(14).
Extração e Análise dos Dados
Os dados foram extraídos dos artigos incluídos por quatro revisores independentes por meio da utilização de uma ferramenta de extração de dados (Quadro 2) desenvolvida pelos revisores, a partir do manual da JBI. Os dados incluíram detalhes específicos sobre as características dos estudos (citação, ano, país, objetivo, tipo de estudo, amostra), participantes, conceito, contexto (PCC), métodos de estudo e principais conclusões relevantes para a questão de revisão.
Caracterização dos estudos incluídos na revisão de escopo – Florianópolis, SC, Brasil, 2025.
Dados que responderam ao objetivo da revisão foram analisados e apresentados por meio de um resumo narrativo, que descrevia os resultados relacionados com a questão de pesquisa, sendo importante ressaltar que foram apresentados em forma de quadro com base nos dados categorizados para facilitar a compreensão.
Aspectos Éticos
Esta revisão de escopo obedeceu às diretrizes metodológicas e éticas aplicáveis, respeitando-se as boas práticas em pesquisa científica e os direitos autorais dos estudos incluídos. Por se tratar de uma análise de dados secundários, disponíveis publicamente e sem envolvimento de seres humanos ou informações identificáveis, não houve necessidade de submissão ao Comitê de Ética em Pesquisa, nem de obtenção de Termo de Consentimento Livre e Esclarecido.
RESULTADOS
A partir da aplicação das estratégias de busca nas bases de dados e nos portais selecionados, foi obtido um total de 3.884 para leitura dos títulos e dos resumos, dos quais 235 estudos foram selecionados para leitura na íntegra, obedecendo aos critérios de elegibilidade e da questão de pesquisa. Desses, foram selecionados 22 estudos para análise e discussão, conforme apresentado no diagrama do fluxo PRISMA-ScR, na Figura 1.
Fluxograma PRISMA-ScR do processo de seleção dos estudos incluídos – Florianópolis, SC, Brasil, 2025.
Os estudos surgiram a partir de 1993, com maior ocorrência em 2024 (n = 4; 18%), seguido do ano de 2021 (n = 3; 14%). Com relação à nacionalidade, o Canadá destaca-se (n = 6; 27%); na sequência, os Estados Unidos (n = 5; 23%). Quanto ao tipo de estudo, sete (31,5%) consistiam em estudos quase-experimentais; posteriormente, estudos de casos (n = 3; 14%) e estudos qualitativos participativos (n = 3; 14%). Em relação ao cenário, a escola tem lugar de destaque entre os estudos incluídos (n = 18, 82%). Alguns estudos tiveram mais de um cenário, como comunidades rural, urbana e indígenas, ambiente virtual e universidade, além de outros, conforme consta no Quadro 2.
Sobre a amostra/participantes, observou-se que a maioria dos estudos incluídos (n = 18; 82%) foi desenvolvida com alunos de escolas públicas. Entretanto, alguns também incluíram adolescentes provenientes de comunidades rurais e indígenas, assim como professores, líderes comunitários, adultos jovens e pais. A composição da amostra variou conforme o tipo de estudo e seus objetivos, o que contribuiu para a diversidade das estratégias de promoção da saúde.
Acerca das estratégias de promoção da saúde, emergiram dois enfoques estratégicos, conforme ilustrado na Figura 2, elaborada por meio da ferramenta Google Drawings. As ações identificadas são propostas de forma combinada e articulada, visando ampliar o alcance e potencializar os efeitos das intervenções junto a adolescentes com comportamento suicida. O primeiro enfoque é direcionado aos adolescentes, destacando-se estratégias como desenvolvimento de habilidades para a vida, apoio entre pares, fortalecimento de competências socioemocionais, alfabetização em saúde mental, estímulo ao engajamento e protagonismo juvenil, atividades extracurriculares e práticas artísticas. O segundo enfoque volta-se a diferentes atores sociais envolvidos no cuidado, que incluem campanhas educativas, treinamento para professores e profissionais de diversas áreas, formação de líderes, envolvimento de líderes comunitários e familiares, fortalecimento do apoio social e das redes de suporte, articulação intersetorial, uso de metodologias ativas/multimodais e de plataformas digitais.
Estratégias de promoção da saúde direcionadas a adolescentes com comportamento suicida – Florianópolis, SC, Brasil, 2025.
DISCUSSÃO
Os estudos incluídos nesta revisão de escopo apresentaram estratégias de promoção da saúde para adolescentes com comportamento suicida, com destaque para o cenário escolar, por se tratar de um contexto propício tanto para a implementação dessas estratégias quanto para a prevenção do suicídio(7,40). Na escola, é possível detectar alterações, como problemas de comportamento, queda no desempenho escolar e absenteísmo frequente, que podem ser sinais precoces de sofrimento psíquico em adolescentes(10).
Ao lado do ambiente escolar, o cenário comunitário – que inclui contextos urbanos, rurais e indígenas – ganhou relevo semelhante na implementação de estratégias de promoção da saúde. Nessas comunidades, principalmente quando unidas, o fortalecimento de redes sociais e a participação em atividades coletivas, como práticas religiosas e exercícios em grupo, demonstraram potencial para melhorar o bem-estar físico e emocional e para reduzir o risco de suicídio entre adolescentes(39,41).
Paralelamente, as plataformas digitais e redes sociais emergem como espaços relevantes para conectar adolescentes com seus pares e oferecer suporte emocional(42). Essas ferramentas não só possibilitam a expressão de sentimentos e vivências como favorecem intervenções on-line, uma vez que promovem mudanças de atitude e incentivam a busca de ajuda(43,44).
Os serviços de atenção primária sobressaíram-se nos ambientes escolar, comunitário e digital, e surgiram como cenários estratégicos para a promoção da saúde mental de adolescentes com comportamento suicida, por ampliarem o acesso e por possibilitarem a implementação de cuidados(42). Embora ainda existam desafios, iniciativas como modelos colaborativos e soluções inovadoras vêm sendo desenvolvidas(45). No entanto estudo aponta limitações relacionadas à formação e à experiência dos profissionais da atenção primária no manejo de situações como tentativas de suicídio, o que reforça a necessidade de capacitação contínua e fortalecimento das equipes(46).
O mapeamento dos cenários de intervenção evidenciou que escolas, comunidades, ambientes digitais e a atenção primária ampliam o acesso e favorecem a implementação de estratégias de promoção da saúde. Essas estratégias demonstram diversidade e contemplam tanto ações direcionadas aos adolescentes quanto iniciativas que envolvem a participação de outros atores sociais.
Primeiramente, destaca-se o desenvolvimento de habilidades para a vida e competências socioemocionais, que fortalecem a autonomia, a tomada de decisão, o gerenciamento das emoções, a resiliência e a construção de relações interpessoais saudáveis — elementos fundamentais para a promoção da saúde mental e para a redução do risco de suicídio entre adolescentes(18-21,23,29,30,32,36,38). Para potencializar esses resultados, essas habilidades devem ser trabalhadas de forma integrada nos contextos escolar, familiar e nos serviços de saúde, com destaque para o uso dos princípios da terapia cognitivo- comportamental (TCC), reconhecida por sua eficácia no manejo de situações relacionadas ao comportamento suicida e na promoção de fatores de proteção(10,26,36,43,47,48).
Outras estratégias envolvem o fortalecimento dos grupos de apoio entre pares, aliado ao engajamento e ao protagonismo juvenil, os quais favorecem o desenvolvimento psicossocial dos adolescentes ao possibilitar o compartilhamento de experiências difíceis e semelhantes. Além disso, essas iniciativas contribuem para o aprimoramento de habilidades sociais e relacionais e promovem o empoderamento juvenil(28,34,49).
Somadas a essas, outras estratégias mostram-se relevantes, como a alfabetização em saúde mental, atividades extracurriculares e o uso da cultura e da arte, que atuam como ferramentas potentes para o fortalecimento emocional e comunitário dos adolescentes.
A alfabetização em saúde mental constitui uma base essencial para a promoção e contribui para o bem-estar geral dos adolescentes. Intervenções nessa área têm demonstrado aprimorar habilidades como autoeficácia, capacidade de buscar e de compreender informações de saúde, inclusive fortalecendo conexões sociais(7,37). Estratégias criativas, como o uso do teatro, também foram aplicadas para facilitar a alfabetização em saúde mental de forma participativa e contextualizada(22). Outro ponto significativo é que a cultura e a arte aparecem como estratégias promissoras e contribuem positivamente para o bem- estar ao favorecer a expressão de emoções, a valorização cultural e o fortalecimento do orgulho identitário, principalmente em comunidades indígenas(36). Atividades extracurriculares bem estruturadas, como esportes e música, igualmente se destacam como moderadores de humor e promotores de vínculos sociais, já que reforçam fatores protetores contra o sofrimento psíquico(24).
Os estudos têm um enfoque voltado diretamente aos adolescentes, concomitantemente evidenciando a importância de estratégias que ampliem o alcance das ações, como campanhas educativas, programas de capacitação de professores e profissionais de saúde e a formação de líderes comunitários e escolares, fundamentais para sustentar práticas promotoras de saúde de forma integrada e contínua.
Campanhas de prevenção e de conscientização na mídia e em espaços públicos, articuladas em nível governamental, são essenciais para prevenção e promoção, com potencial para influenciar políticas e legislações nas esferas do governo(47). Direcionadas a comunidades rurais, essas ações, aliadas a políticas que ampliem o acesso a atividades estruturadas, fortalecem o engajamento juvenil na promoção da saúde(21,24). Como estratégias universais, alcançam amplos públicos e oferecem informações essenciais para incentivar a busca de ajuda(21).
A capacitação, o treinamento e a formação devem ser estrategicamente direcionados a todos os profissionais e atores sociais, dentro e fora do setor saúde, com o objetivo de aprimorar conhecimentos e competências relacionadas à saúde mental(47,50). Essas estratégias visam, sobretudo, aumentar a conscientização, a autoconfiança e a capacidade dos participantes para identificar riscos de suicídio, intervir precocemente e oferecer suporte adequado(22,35,44). Avaliações de programas de treinamento já implementados demonstram sua eficácia no fortalecimento das práticas de cuidado e na ampliação da resposta comunitária a situações de crise(31,43).
Além das campanhas, destaca-se a importância da capacitação e do envolvimento de líderes comunitários e familiares, com foco em fortalecer a confiança dos adolescentes em seus cuidadores e em reparar rupturas nos vínculos afetivos, fatores associados ao risco de ideação e a tentativas de suicídio(43,44). Estratégias que estimulam o engajamento familiar e comunitário, bem como o discurso aberto sobre o suicídio, contribuem para a criação de ambientes sociais acolhedores e favoráveis à promoção da saúde mental(7). Esses espaços, ao possibilitarem a observação precoce de sinais de sofrimento, tornam-se essenciais na prevenção.
A articulação interdisciplinar e intersetorial entre saúde, educação, assistência social e organizações comunitárias potencializa as ações de promoção da saúde e deve ser incentivada. Essa integração amplia a participação coletiva no planejamento e no desenvolvimento de estratégias, de modo que se fortalecem as redes de apoio e a efetividade das intervenções(23,47). A abordagem intersetorial, territorial e interdisciplinar contribui para o fortalecimento de fatores de proteção e, consequentemente, para a redução das taxas de suicídio entre adolescentes, especialmente quando há colaboração ativa entre os setores e a comunidade(26,39,51).
As metodologias ativas, como estudo de caso, dramatizações e aprendizagem baseada em problemas, têm demonstrado resultados promissores na capacitação de adolescentes para a discussão e a reflexão sobre o suicídio, mas ainda necessitam de maior implementação e integração aos planos de ensino das disciplinas escolares(10,22,29,37). De forma complementar, estratégias inovadoras como plataformas digitais, redes sociais e aplicativos voltados a adolescentes e familiares têm-se destacado por facilitarem o aprendizado de habilidades, ampliarem redes de apoio e oferecerem serviços on-line 24 horas, configurando-se como recursos promissores para promoção da saúde mental(25,28,33,38). No entanto, essas iniciativas enfrentam desafios, como questões de acessibilidade, conectividade, segurança dos dados, necessidade de investimento financeiro e adequações culturais para garantir efetividade em diferentes contextos(36,52).
Embora existam marcos normativos sólidos para a implementação de políticas e estratégias de promoção da saúde no Brasil, a articulação institucional, a disponibilização de recursos, a capacidade técnica e a coordenação intersetorial ainda representam desafios significativos para sua efetivação no âmbito do Sistema Único de Saúde (SUS)(53). De modo semelhante, estudo sobre promoção da saúde mental indica que a implementação de estratégias eficazes esbarra em limitações de recursos, na escassez de evidências de custo-efetividade e em barreiras contextuais que dificultam a adaptação de modelos internacionais às realidades locais(54).
As estratégias identificadas nesta revisão reforçam o papel da enfermagem na promoção da saúde mental de adolescentes com comportamento suicida. Atuando em diferentes cenários, o enfermeiro contribui para ampliar o acesso ao cuidado, para fortalecer vínculos e para articular redes de apoio. Essas ações exigem escuta sensível, formação contínua e atuação intersetorial, o que reafirma o compromisso ético e político da profissão com a vida e com o bem-estar dos sujeitos em sofrimento.
Contudo, para o fortalecimento e a ampliação dessas práticas, é necessário reconhecer as lacunas ainda existentes na produção científica sobre o tema. Embora esta revisão de escopo tenha mapeado diversas estratégias de promoção da saúde para adolescentes com comportamento suicida, é importante reconhecer as limitações. Destaca-se como limitação relevante a não recuperação de parte dos estudos identificados, sobretudo os mais antigos. Ao todo, 38 documentos, majoritariamente das décadas de 1980 e 1990, não puderam ser acessados devido à indisponibilidade do texto completo nas bases de dados e nos repositórios institucionais. Apesar da realização de buscas complementares, não foi possível obtê-los, o que pode ter reduzido a amplitude histórica do mapeamento.
Ademais, a predominância de estudos conduzidos em países de alta renda limita a aplicação direta das estratégias ao contexto brasileiro, marcado por especificidades epidemiológicas, socioculturais e estruturais. Tal cenário impõe desafios para o desenvolvimento de políticas e de práticas de promoção da saúde voltadas aos adolescentes com comportamento suicida e reforça a necessidade de pesquisas nacionais e regionais que considerem desigualdades socioeconômicas, determinantes sociais da saúde e a organização dos sistemas públicos, como o SUS. Investigações futuras podem contribuir para a adaptação, a validação e a contextualização de estratégias internacionais de sorte que se tornem mais sensíveis às realidades locais e culturalmente adequadas.
CONCLUSÃO
Os estudos analisados nesta revisão apresentam dois enfoques estratégicos que se combinam e se articulam para a prevenção e para a promoção da saúde. O primeiro, relacionado diretamente ao adolescente, visa ao fortalecimento de recursos internos e relacionais por meio do desenvolvimento de habilidades para a vida, apoio entre pares, competências socioemocionais, alfabetização em saúde mental, estímulo ao engajamento e ao protagonismo juvenil, além de atividades extracurriculares e de práticas artísticas. Essas estratégias contribuem para o empoderamento dos adolescentes e para o fortalecimento de sua resiliência diante do sofrimento psíquico. O segundo enfoque é direcionado a diferentes atores sociais que compõem o contexto ampliado de cuidado, como professores, profissionais da saúde e educação, líderes comunitários e família, que potencializam a criação de ambientes de cuidado e a mobilização comunitária, de forma que se amplie o alcance e a eficácia das ações de promoção da saúde, por meio de campanhas educativas, de treinamento para professores e profissionais de diversas áreas, de formação de líderes, de apoio social e das redes de suporte, de articulação intersetorial, de uso de metodologias ativas/ multimodais e de plataformas digitais.
Acrescenta-se que, embora o ambiente escolar tenha sido amplamente explorado como espaço de intervenção, destaca-se a necessidade de ampliar as estratégias de promoção da saúde para outros contextos, como os serviços especializados em saúde mental, aos quais muitos adolescentes chegam em situação crítica de sofrimento psíquico e com risco de iminente suicídio.
Destaca-se, ainda, a necessidade de estratégias que ultrapassem a capacitação de profissionais de saúde por meio da incorporação ativa das famílias no processo de cuidado. Apesar do reconhecimento de seu papel essencial, observa-se uma carência de ações sistemáticas que as incluam como protagonistas na promoção da saúde de adolescentes com comportamento suicida. Essa lacuna evidencia a urgência de desenvolver abordagens integradas, intersetoriais e culturalmente sensíveis, capazes de impulsionar respostas às demandas complexas desse público e de contribuir para a redução das situações de suicídio entre adolescentes.
DISPONIBILIDADE DE DADOS
Os dados que sustentam os resultados deste estudo estão disponíveis de forma aberta no Open Science Framework (OSF), em: https://doi.org/10.17605/OSF.IO/J9MQB.
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