RESUMO
Objetivo: Mapear a evidência científica existente sobre a esperança em adultos em idade ativa face à perda irreversível da visão, identificando conceitos, abordagens e lacunas na literatura.
Método: Foi realizada uma scoping review, de acordo com a metodologia do JBI e orientações do PRISMA-ScR, em bases de dados internacionais e literatura cinzenta, abrangendo estudos publicados entre 2000 e 2025. Os estudos identificados foram submetidos a um processo de levantamento, seleção, extração e síntese temática dos dados por dois revisores independentes, com apoio do software NVivo®.
Resultados: Dos 261 estudos identificados na pesquisa bibliográfica, seis cumpriram os critérios de inclusão. Da análise dos estudos, foi possível identificar quatro temas principais: 1 – Conceito e fontes de esperança; 2 – Esperança enquanto mecanismo de coping; 3 – Ajustamento psicossocial; 4 – Implicações para a prática clínica. A esperança surge como um fenômeno multidimensional e dinâmico, com impacto direto na adaptação, na qualidade de vida e no significado atribuído à experiência de perda visual.
Conclusão: A esperança desempenha um papel estruturante no processo de adaptação à perda de visão em pessoas em idade ativa, com implicações relevantes para o desenvolvimento de práticas de enfermagem centradas na pessoa. O aprofundamento da investigação nessa área contribuirá para consolidar o conhecimento teórico da ciência da enfermagem e para a orientação de intervenções clínicas promotoras da esperança.
DESCRITORES
Adulto; Cegueira; Enfermagem; Esperança; Habilidades de Enfrentamento
ABSTRACT
Objective To map existing scientific evidence on hope in working-age adults facing irreversible vision loss by identifying concepts, approaches, and gaps in the literature.
Method: A scoping review was conducted in accordance with the JBI methodology and the PRISMA-ScR guidelines using international databases and grey literature, covering studies published between 2000 and 2025. The identified studies underwent a process of identification, selection, data extraction, and thematic synthesis by two independent reviewers, with the support of NVivo® software.
Results: Of the 261 studies identified through the literature search, six met the inclusion criteria. Analysis of the included studies allowed the identification of four main topics: (1) Concept and sources of hope; (2) Hope as a coping mechanism; (3) Psychosocial adjustment; and (4) Implications for clinical practice. Hope emerged as a multidimensional and dynamic phenomenon, with a direct impact on adaptation, quality of life, and the meaning attributed to the experience of vision loss.
Conclusion: Hope plays a fundamental role in the adaptation process to vision loss among working-age adults, with important implications for the development of person-centered nursing practices. Further research in this field will contribute to strengthening the theoretical knowledge of nursing science and guiding clinical interventions aimed at promoting hope.
DESCRIPTORS
Adult; Blindness; Nursing; Hope; Coping Skills
RESUMEN
Objetivo: Mapear la evidencia científica existente sobre la esperanza en adultos en edad laboral ante la pérdida irreversible de la visión, identificando conceptos, enfoques y lagunas en la literatura.
Método: Se llevó a cabo una revisión de alcance (scoping review), de acuerdo con la metodología del JBI y las directrices de PRISMA-ScR, en bases de datos internacionales y literatura gris, abarcando estudios publicados entre 2000 y 2025. Los estudios identificados fueron sometidos a un proceso de recopilación, selección, extracción y síntesis temática de los datos por parte de dos revisores independientes, con el apoyo del software NVivo®.
Resultados: De los 261 estudios identificados en la búsqueda bibliográfica, seis cumplieron con los criterios de inclusión. A partir del análisis de los estudios, se pudieron identificar cuatro temas principales: 1 – Concepto y fuentes de esperanza; 2 – La esperanza como mecanismo de coping; 3 – Adaptación psicosocial; 4 – Implicaciones para la práctica clínica. La esperanza se presenta como un fenómeno multidimensional y dinámico, con un impacto directo en la adaptación, la calidad de vida y el significado que se le atribuye a la experiencia de la pérdida de la visión.
Conclusión: La esperanza desempeña un papel fundamental en el proceso de adaptación a la pérdida de la visión en personas en edad activa, con implicaciones relevantes para el desarrollo de prácticas de enfermería centradas en la persona. La profundización de la investigación en esta área contribuirá a consolidar el conocimiento teórico de la ciencia de la enfermería y a orientar las intervenciones clínicas que promuevan la esperanza.
DESCRIPTORES
Adulto; Ceguera; Enfermería; Esperanza; Habilidades de Afrontamiento
INTRODUÇÃO
A perda irreversível da visão constitui um evento simultaneamente traumático e profundamente desafiante, particularmente quando ocorre em indivíduos em idade ativa, fase em que a identidade pessoal e social está fortemente ancorada na autonomia, na produtividade e no exercício de papéis familiares, profissionais e sociais. Quando vivida nesse período do ciclo vital, a perda visual configura uma transição complexa em termos de saúde, desencadeando repercussões profundas na identidade, nos projetos de vida e nos modos de relação da pessoa consigo própria, com os outros e com o mundo.
A faixa etária entre 18 e 65 anos é delimitada por corresponder ao período habitualmente associado à idade ativa, no qual a identidade adulta está fortemente relacionada à autonomia, à participação sociolaboral e ao desempenho de papéis familiares, profissionais e sociais. Nessa fase do ciclo vital, o trabalho e os papéis sociais assumem uma relevância particular na construção do self, no sentido de competência e no bem-estar psicológico(1,2). Assim, a perda irreversível da visão pode representar uma rutura significativa nos projetos de vida, na participação social e na integração profissional, tornando pertinente analisar a esperança enquanto recurso adaptativo no processo de transição vivido por essa população(1,2,3).
A visão desempenha um papel estruturante na construção do self e na interação com o contexto, pois a sua perda implica uma reorganização significativa do sentido de continuidade, das expectativas face ao futuro e das referências que sustentam a vida cotidiana. Evidência recente demonstra que a perda visual afeta de forma direta a qualidade de vida, os planos para o futuro e o bem-estar psicológico, podendo representar um elevado ónus emocional e psicossocial para a pessoa afetada, exigindo processos adaptativos complexos que vão muito além da limitação funcional(4).
A perda visual surge também associada a um forte impacto psicológico, desencadeando um conjunto de respostas emocionais e comportamentais que exigem ajustamento adaptativo contínuo, com implicações na saúde mental e no bem-estar psicológico da pessoa afetada(4).
Estudos qualitativos apontam que a perda de visão severa afeta profundamente a vivência cotidiana, a participação social e a percepção do sentido da vida, indicando que a adaptação envolve múltiplos domínios da experiência humana(5).
Revisões sobre bem-estar em adultos com deficiência visual destacam que a adaptação psicossocial depende de fatores interligados, incluindo identidade pessoal, suporte social e sentido de coerência de vida(6).
Nesse contexto, a esperança surge não apenas como um estado emocional, mas como um processo dinâmico de adaptação, permitindo à pessoa reconstruir significado, redefinir objetivos e encontrar novas formas de participação e propósito. Apesar de a sua relevância reconhecida em contextos de doença crônica e transição em saúde, a evidência relativa à esperança em pessoas em idade ativa com perda irreversível da visão permanece dispersa e pouco sistematizada(7,8).
Embora a literatura em oftalmologia tenha vindo a valorizar progressivamente as dimensões subjetivas e psicossociais da perda visual(9,10), a compreensão da esperança enquanto fenômeno associado à experiência vivida e aos processos de adaptação permanece ainda pouco sistematizada(3,8,10). Nesse sentido, torna-se pertinente aprofundar o conhecimento sobre a forma como a esperança se manifesta em pessoas em idade ativa com perda irreversível da visão, particularmente no contexto da transição, do ajustamento psicossocial e da reconstrução de significado face à nova condição de vida.
Assim, esta scoping review visa mapear a literatura existente sobre esse fenômeno, contribuindo para fundamentar práticas de cuidado mais humanizadas e centradas na pessoa.
MÉTODO
Desenho do Estudo
A pesquisa foi realizada em novembro de 2025, de acordo com o manual do JBI e as orientações do Preferred Reporting Items for Systematic reviews and Meta-Analyses extension for Scoping Reviews (PRISMA-ScR). A estratégia completa da pesquisa, incluindo as combinações de termos utilizadas em cada base de dados, está disponível para consulta no protocolo previamente registado no Open Science Framework(11), com o DOI 10.17605/OSF.IO/GCXEV, de acordo com os princípios de transparência e replicabilidade. A questão de investigação que norteou esta revisão foi: de que forma a esperança influencia o processo de transição e as estratégias de coping de pessoas em idade ativa que enfrentam a perda irreversível da visão? O desenho metodológico foi estruturado segundo o PCC (População, Conceito e Contexto)(11).
População e Critérios de Seleção
A população incluiu adultos em idade ativa/laboral, entre 18 e 65 anos, com perda irreversível da visão, independentemente da etiologia. O conceito central analisado foi a esperança enquanto fenômeno psicológico, social e espiritual associado ao processo de adaptação e transição. O contexto incluiu todos os cenários, abrangendo perspectivas clínicas, sociais e comunitárias.
Foram incluídos estudos publicados entre 2000 e 2025 em língua portuguesa, inglesa ou espanhola. Foram excluídos estudos que abordassem condições de perda visual reversível ou diagnóstico de cegueira ocorrido antes dos 18 anos ou após 65 anos.
Coleta de Dados
A pesquisa bibliográfica foi realizada nas bases de dados MEDLINE Complete, Scopus e Web of Science, bem como na literatura cinzenta através da ProQuest Dissertations & Theses Citation Index. As estratégias de pesquisa combinaram termos livres e descritores Medical Subject Headings relacionados à esperança, à perda de visão e à idade ativa, adaptadas a cada base de dados.
Os registos identificados foram importados para a plataforma Rayyan, onde os duplicados foram removidos e a triagem dos títulos e resumos foi realizada por dois revisores independentes. Os artigos potencialmente elegíveis foram posteriormente avaliados na íntegra, mantendo-se o processo de revisão em duplicado, com recurso a um terceiro revisor em caso de divergência.
Análise e Tratamento de Dados
Os dados foram analisados de forma descritiva e temática, com apoio do software NVivo® (Lumivero, versão 14), com os resultados sendo organizados em temas e subtemas.
A análise de dados seguiu uma abordagem temática de natureza predominantemente indutiva, permitindo a identificação de padrões, temas e significados emergentes da evidência incluída. O processo analítico envolveu a leitura aprofundada dos estudos, a codificação dos excertos relevantes e o posterior agrupamento em categorias temáticas e subtemáticas relacionadas à esperança, às estratégias de coping, ao ajustamento psicossocial e às implicações para a prática clínica.
O software NVivo® (Lumivero, versão 14) foi utilizado como ferramenta de apoio à organização, à gestão e à codificação dos dados qualitativos extraídos dos estudos, facilitando a sistematização dos conteúdos e a identificação de relações entre temas emergentes.
Foram extraídas variáveis relativas às características metodológicas dos estudos (autor, ano, país, método de estudo, população, contexto e objetivos), bem como dados relacionados à conceptualização da esperança, aos fatores promotores e inibidores, aos mecanismos de adaptação, ao impacto psicossocial da perda visual e às implicações para a prática de enfermagem.
Aspectos Éticos
Foram respeitados os princípios éticos da investigação científica, nomeadamente no que se refere à integridade, ao rigor metodológico, à transparência do processo de revisão e à correta referenciação das fontes utilizadas, em conformidade com as orientações internacionais para revisões de literatura.
RESULTADOS
A pesquisa bibliográfica resultou na identificação de 261 registos. Após a remoção de duplicados e a aplicação dos critérios de inclusão e exclusão, seis estudos foram incluídos nesta scoping review. O processo de identificação, triagem, elegibilidade e inclusão encontra-se ilustrado no diagrama de fluxo do PRISMA-ScR (Figura 1).
Diagrama de fluxo do Preferred Reporting Items for Systematic reviews and Meta-Analyses extension for Scoping Reviews
As publicações incluídas se distribuem entre 2008 e 2022. Dos seis estudos incluídos, dois apresentaram metodologia qualitativa (33,3%), três, quantitativa (50,0%), e um consistiu em um relato/reflexão narrativa (16,7%). Quanto à origem geográfica, verificou-se a predominância de estudos desenvolvidos nos Estados Unidos da América (50,0%) e no Reino Unido (33,3%). Os estudos abordaram, sobretudo, temas como esperança, suporte social, qualidade de vida, experiência vivida e ajustamento psicossocial associados à perda visual irreversível.
Constatou-se a heterogeneidade metodológica, com abordagens quantitativas transversais, qualitativas exploratórias e relatos narrativos, centradas, sobretudo, na experiência subjetiva da perda visual, na esperança, no suporte social, na qualidade de vida e nos processos de adaptação psicossocial.
O Quadro 1 apresenta a síntese das principais características dos estudos incluídos, nomeadamente autores, ano de publicação, país de origem, método, população, objetivos e principais resultados.
A análise temática permitiu identificar quatro temas principais: (1) Conceito e fontes de esperança; (2) Esperança enquanto mecanismo de coping; (3) Ajustamento psicossocial; e (4) Implicações e lacunas para a prática.
O Quadro 2 apresenta a síntese dos resultados, organizados de acordo com os temas identificados, incluindo excertos representativos e os respetivos estudos de origem.
Síntese dos resultados, organizados de acordo com os temas identificados – Lisboa, Portugal, 2026.
De forma transversal aos estudos analisados, a esperança emerge como um recurso multidimensional, integrando componentes cognitivas, relacionais e existenciais. A análise temática evidencia que o acesso à informação, o suporte social significativo e a reconstrução do significado pessoal funcionam como fatores promotores convergentes da esperança, influenciando positivamente o ajustamento psicossocial e as estratégias de coping face à perda irreversível da visão(3,8,9,10), tal como é apresentado na Figura 2.
DISCUSSÃO
A abordagem interpretativa adotada neste estudo é orientada pela compreensão da esperança enquanto fenômeno complexo no contexto dos processos de saúde, integrando a experiência da pessoa, os processos de transição e os contextos de cuidado. Essa perspectiva permite analisar, de forma articulada, as dimensões individuais e relacionais que influenciam a esperança, contribuindo para a compreensão das respostas humanas e para o desenvolvimento de intervenções de enfermagem mais ajustadas à prática clínica. Ao evidenciar a esperança como um recurso adaptativo relacional e situado, os resultados desta scoping review reforçam a pertinência de leituras que ultrapassam uma perspectiva biomédica da perda visual, valorizando dimensões subjetivas, sociais e existenciais que influenciam o ajustamento biopsicossocial.
À luz dos estudos incluídos, a esperança emerge como um constructo complexo, predominantemente compreendido como um processo cognitivo-motivacional orientado para objetivos, mais do que como um estado emocional isolado(3,7,8,12).
A evidência analisada sustenta a esperança como a capacidade de mobilizar motivação para a prossecução de objetivos significativos e, simultaneamente, de identificar possibilidades concretas para alcançá-los, mesmo em contextos de adversidade(7,8,12).
Essa conceptualização é corroborada por resultados empíricos que demonstram associações consistentes entre níveis mais elevados de esperança e indicadores positivos de ajustamento psicológico, nomeadamente autoestima, sentido de valor pessoal e significado atribuído à experiência vivida, reforçando o papel da esperança como recurso adaptativo central(3,7,8).
No conjunto dos estudos analisados, a esperança assume uma expressão fortemente relacional e contextual, sendo influenciada por fatores que podem simultaneamente favorecê-la ou fragilizá-la(3,8,9,10,13).
O acesso a informações claras, compreensíveis e atempadas sobre o diagnóstico, a progressão da condição e os recursos disponíveis emergem de forma consistente como um fator facilitador da esperança, pois permite antecipar mudanças, gerir expectativas e reduzir a incerteza associada ao futuro(3,8,9,13).
De igual modo, a presença de redes de suporte social significativas, incluindo pares, profissionais e contextos formativos ou de reabilitação, associa-se a níveis mais elevados de esperança, funcionando como facilitadora dos mecanismos de coping e do ajustamento psicossocial(3,8,10,13).
Em contraste, contextos marcados por desinformação, ausência de acompanhamento, estigmatização ou atitudes sociais negativas surgem associados à fragilização da esperança, acentuando sentimentos de incerteza, isolamento e perda de controlo(3,10,13).
No contexto específico da perda irreversível da visão em idade ativa, a esperança emerge como um fenômeno central no processo de adaptação, configurando-se como um recurso adaptativo relacional e processual(7,8,9,10,12).
Nesse enquadramento, a esperança está relacionada à autoestima e ao sentido de valor pessoal, à percepção de capacidade para reorganizar objetivos e rotinas, à construção de significado diante da perda visual (incluindo a reconstrução identitária e a reconfiguração de papéis socialmente valorizados) e do suporte social percebido(7,8,10,12).
Assim, a esperança não se manifesta como a negação da irreversibilidade da condição, mas como a capacidade de reorganizar projetos de vida, encontrar soluções possíveis e atribuir continuidade e sentido à experiência, mesmo perante limitações funcionais progressivas, refletindo a natureza multidimensional, dinâmica e situada do ajustamento psicossocial nesse contexto(3,8,9,10).
A análise da qualidade de vida em contextos de perda visual irreversível sugere que os processos de adaptação vão além da dimensão anatômica ou funcional, emergindo principalmente da forma como as pessoas reinterpretam sua experiência vivida, reconstroem sua identidade e redefinem o que significa viver bem diante da progressão da condição. Nessa perspectiva, a esperança manifesta-se de modo implícito como prospecto de continuidade, de propósito e de valor atribuído à vida, mesmo face a limitações funcionais progressivas e irreversíveis(3,9).
Os estudos analisados evidenciam que a informação fornecida aos doentes desempenha um papel estruturante na construção e manutenção da esperança, não se limitando a uma função instrumental, mas assumindo-se como um elemento central na promoção do senso de controle, previsibilidade e capacidade de antecipação do futuro. O acesso a informações claras, compreensíveis e ajustadas à pessoa, particularmente no que se refere ao prognóstico, à progressão da perda visual e aos recursos terapêuticos, de reabilitação e sociais disponíveis, emerge consistentemente como um fator que facilita o ajustamento psicológico. Isso contribui para a redução da incerteza, do medo e de sentimentos de desesperança, além de sustentar processos mais adaptativos de coping e reorganização da vida cotidiana(3,7,8,9,10).
Apesar da relevância do fenômeno, a literatura revela lacunas significativas, nomeadamente no desenvolvimento e na avaliação de intervenções estruturadas promotoras de esperança, particularmente no âmbito da enfermagem. Nesse sentido, o cuidado em enfermagem integrado na comunicação terapêutica permite trabalhar a esperança através da educação para a saúde e o acompanhamento continuado, transformando a informação em conhecimento significativo, promovendo a participação ativa da pessoa e sustentando processos de adaptação mais autónomos, dignos e psicossocialmente ajustados diante da perda irreversível da visão em idade ativa.
Limitações do Estudo
Apesar do rigor metodológico adotado, esta scoping review apresenta algumas limitações que importa reconhecer. O número reduzido de referências incluídas nesta revisão é reflexo da especificidade do fenômeno investigado e da escassez de investigação publicada que aborda de forma direta e sistemática a esperança no contexto da perda irreversível da visão em idade ativa, motivo pelo qual se optou por alargar o período temporal aos últimos 25 anos. Além da escassez, os estudos disponíveis foram desenvolvidos em contextos heterogêneos quanto à idade, à etiologia da deficiência visual e ao enquadramento sociocultural.
A predominância de abordagens qualitativas e exploratórias, frequentemente assentes em amostras reduzidas, limita a transferibilidade dos resultados. Adicionalmente, a diversidade conceptual na definição de esperança, ora descrita como recurso cognitivo-motivacional, ora como experiência existencial ou espiritual, dificulta a comparação entre estudos e a consolidação de um enquadramento teórico unificado.
Verifica-se, ainda, uma escassa exploração da dimensão temporal da esperança, sendo raros os estudos que analisam a sua evolução ao longo do processo de adaptação à perda visual. Por fim, a ausência de estudos de intervenção limita a extrapolação dos achados para a prática clínica baseada na evidência.
Sugestões de Melhoria e Investigação Futura
Os resultados desta scoping review reforçam a pertinência e relevância do desenvolvimento de investigação aprofundada sobre o processo de transição vivido por pessoas adultas em idade ativa face à perda de visão. A articulação entre esperança, significado atribuído à experiência, estratégias de coping, reconstrução identitária e suporte relacional, identificada na literatura analisada, aponta para a necessidade de se compreender esse fenômeno de maneira processual e contextualizada, integrando as dimensões biológica, psicológica, social e espiritual da experiência vivida. Esses achados sustentam a opção por uma abordagem qualitativa de natureza interpretativa, como uma Teoria Fundamentada nos Dados Construtivista, enquanto uma metodologia capaz de captar a complexidade do processo de transição e de dar voz às pessoas na construção dos significados associados à perda visual.
Estudos futuros deverão também privilegiar desenhos longitudinais, que permitam compreender a evolução da esperança desde o diagnóstico até fases mais avançadas de adaptação e reconstrução identitária, aprofundando a investigação sobre a esperança como processo dinâmico no contexto da perda irreversível da visão.
Recomenda-se também a validação de instrumentos sensíveis à experiência subjetiva da esperança em pessoas com deficiência visual como outra lacuna relevante.
No domínio da prática clínica, são necessários estudos de intervenção que avaliem estratégias estruturadas de promoção da esperança, por meio de programas educacionais, acompanhamento de enfermagem focado na transição e facilitação do acesso à informação e a redes de apoio, visando proporcionar cuidados mais humanizados e centrados no paciente(3,7,8,9,10,11,12).
CONCLUSÃO
Esta scoping review evidencia, de forma consistente, a esperança como um recurso adaptativo central no processo de transição vivido por pessoas em idade ativa face à perda irreversível da visão. Os resultados demonstram que a esperança se configura como um fenômeno dinâmico, relacional e contextual, estreitamente articulado com a autoestima, o significado pessoal, o suporte social e o acesso a informações claras e relevantes, desempenhando um papel determinante no ajustamento psicossocial, na reorganização dos projetos de vida e na reconstrução identitária.
Apesar desses contributos, a análise da literatura revela uma produção científica ainda limitada e fragmentada, caracterizada pela predominância de abordagens exploratórias, pela escassez de estudos longitudinais e pela inexistência de intervenções estruturadas orientadas para a promoção da esperança, particularmente no âmbito da enfermagem, o que reforça a necessidade de aprofundar a investigação e de desenvolver modelos conceptuais integradores que sustentem práticas clínicas baseadas na evidência.
Nesse contexto, a enfermagem emerge como ciência na mediação da esperança, através de práticas centradas na pessoa que valorizem a comunicação terapêutica, a educação para a saúde, o acompanhamento ao longo da transição e a facilitação do acesso a recursos e redes de apoio, contribuindo para cuidados mais humanizados, integrados e sensíveis à experiência vivida, com impacto na dignidade, no bem-estar e na qualidade de vida dessas pessoas.
DISPONIBILIDADE DE DADOS
Os dados estão disponíveis em: https://osf.io/gcxev.
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Citações de dados
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