RESUMO
Objetivo: Analisar os fatores de risco psicossociais relacionados ao trabalho de pós-graduandos atuantes na área da saúde.
Método: Estudo qualitativo exploratório, com mestrandos e doutorandos trabalhadores na área da saúde, vinculados a cinco programas de pós-graduação de uma instituição de ensino superior pública brasileira. A coleta de dados ocorreu entre outubro e dezembro de 2023, utilizando questionário sociodemográfico, acadêmico e profissional, e grupos focais guiados por roteiro. Utilizou-se análise temática dedutiva para interpretação dos dados.
Resultados: Participaram 62 pós-graduandos trabalhadores. Identificaram-se os seguintes fatores de risco psicossociais no contexto do trabalho: cultura e função organizacional; decisão e controle; mudanças organizacionais; função do trabalhador na organização; desenvolvimento de carreira; interface entre trabalho e família; relacionamento interpessoal; assédio e violência. No conteúdo do trabalho, os fatores foram ambiente e equipamentos de trabalho, planejamento das tarefas, carga e ritmo, e esquema de trabalho.
Conclusão: Centros formadores e organizações de trabalho devem se atentar para os fatores de risco psicossociais aos quais estão expostos os seus pós-graduandos trabalhadores, de modo que sejam incorporadas estratégias para o seu gerenciamento.
DESCRITORES
Riscos Ocupacionais; Saúde Ocupacional; Pessoal de Saúde; Estudantes; Programas de Pós-Graduação em Saúde
ABSTRACT
Objective: To analyze psychosocial risk factors related to the work of graduate students in health.
Method: An exploratory qualitative study, with master’s and doctoral students working in the health area, linked to five graduate programs of a Brazilian public higher education institution. Data collection took place between October and December 2023, using a sociodemographic, academic and professional questionnaire, and focus groups guided by a script. Deductive thematic analysis was used to interpret the data.
Results: Sixty-two graduate students who worked participated in the study. The following psychosocial risk factors were identified in the work context: organizational culture and function; decision-making and control; organizational changes; worker role in organization; career development; interface between work and family; interpersonal relationships; harassment and violence. In work content, factors were setting and work equipment, task planning, work workload and pace, and schedule.
Conclusion: Training centers and work organizations should pay attention to the psychosocial risk factors to which their graduate students who work are exposed so that strategies for their management can be incorporated.
DESCRIPTORS
Occupational Risks; Occupational Health; Health Personnel; Students; Health Postgraduate Programs
RESUMEN
Objetivo: Analizar los factores de riesgo psicosocial relacionados con el trabajo de estudiantes de posgrado que actúan en el área de la salud.
Método: Estudio cualitativo exploratorio, con estudiantes de maestría y doctorado que actúan en el área de la salud, vinculados a cinco programas de posgrado de una institución pública de educación superior brasileña. La recolección de datos se realizó entre octubre y diciembre de 2023, mediante un cuestionario sociodemográfico, académico y profesional, y grupos focales guiados por un guión. Para interpretar los datos se utilizó el análisis temático deductivo.
Resultados: Participaron 62 estudiantes de posgrado en activo. Se identificaron los siguientes factores de riesgo psicosocial en el contexto laboral: cultura y función organizacional; decisión y control; cambios organizacionales; función del trabajador en la organización; desarrollo profesional; interfaz entre trabajo y familia; relación interpersonal; acoso y violencia. En el contenido del trabajo los factores fueron ambiente y equipo de trabajo, planificación de tareas, carga y ritmo, y esquema de trabajo.
Conclusión: Los centros de formación y las organizaciones laborales deben prestar atención a los factores de riesgo psicosocial a los que están expuestos sus trabajadores de posgrado, de manera que se puedan incorporar estrategias para su gestión.
DESCRIPTORES
Riesgos Laborales; Salud Laboral; Personal de Salud; Estudiantes; Programas de Posgrado en Salud
INTRODUÇÃO
O trabalho nas organizações de saúde se constrói por meio da articulação de processos distintos, nos quais cada profissional contribui com seus conhecimentos e instrumentos próprios de atuação. No Brasil, tem-se a atenção primária, que oferece cuidados básicos, preventivos e de gestão de condições crônicas, sendo a porta de entrada para o Sistema Único de Saúde, focada no acompanhamento contínuo. A atenção secundária envolve serviços especializados, como consultas com especialistas e alguns exames mais complexos. Já a atenção terciária é voltada para tratamentos avançados, como cirurgias de alta complexidade e cuidados intensivos. Vale ressaltar que cada nível de atenção visa garantir cuidados adequados conforme a necessidade do paciente(1).
Tais modalidades de atenção, assim como as organizações de saúde, dependem cada vez mais de equipes de pesquisa integradas para otimizar a prestação de cuidados de alta qualidade baseados em evidências que melhoram a experiência assistencial(2). Portanto, os trabalhadores da saúde devem ser capacitados para atender às necessidades cotidianas de saúde das pessoas. Tal fato se estende para a pós-graduação stricto sensu, sendo que há um crescimento desses trabalhadores se candidatando a esses programas, com vistas à qualificação e desenvolvimento de pesquisas(3).
Desse modo, tem-se a contribuição com o desenvolvimento científico em saúde, o qual pode impactar positivamente a assistência. Outrossim, os cuidados em saúde são complexos e diversificados, e cada profissão dessa área tem características únicas e necessárias para a complementação assistencial. No entanto, o trabalho, especificamente na área da saúde, a despeito de ser um contexto propício para a formação de identidade, significados psíquicos e interações sociais, também pode resultar em riscos e adoecimento(4).
Nessa perspectiva, os riscos psicossociais no trabalho referem-se a falhas na organização e na gestão do contexto ou do conteúdo laboral, capazes de provocar prejuízos psicológicos, físicos e sociais ao trabalhador(5#x2013;7). Tais riscos podem ser desencadeados pelos fatores de risco psicossociais, como sobrecarga de trabalho, ausência de clareza nas atribuições profissionais, baixa participação nas decisões, má gestão de mudanças, precariedade laboral, comunicação ineficaz, falta de apoio, assédio e interação com pessoas difíceis, como revela o referencial teórico adotado para este estudo(5,6).
A crescente atenção aos fatores de risco psicossociais, aos riscos psicossociais e suas potenciais consequências na saúde dos trabalhadores ganhou destaque devido às transformações no mundo do trabalho. As mudanças recentes nesse cenário global intensificaram os fatores de risco psicossociais existentes e introduziram novos a serem considerados. Isso incita a abertura de debates, tanto em âmbito nacional quanto em âmbito internacional, sobre a necessidade de priorizar esta problemática nas políticas, estratégias e ações relacionadas ao trabalho(8).
Articulando essa problemática com a população da pós-graduação, investigadores do Reino Unido evidenciam que muitos estudantes de doutorado experimentam decepção e estresse durante seus estudos, muitas vezes relacionados à falta de apoio e aos desafios de concluir o curso enquanto trabalham(9).
Embora os cursos de pós-graduação na área da saúde sejam imprescindíveis para a produção de conhecimento, no atendimento às demandas de saúde, além de possibilitarem a qualificação dos profissionais no âmbito do trabalho, tem-se uma lacuna científica quanto aos fatores de risco psicossociais no trabalho especificamente com a população de pós-graduandos trabalhadores da área da saúde.
Portanto, mesmo desenvolvendo dupla atribuição, trabalho e estudo, ainda não se sabem os fatores de risco psicossociais aos quais esses estudantes, muitas vezes, estão expostos no trabalho e que podem resultar em adoecimento. Nessa direção, esta pesquisa apresenta a seguinte questão norteadora: quais os fatores de risco psicossociais aos quais estão expostos os mestrandos e doutorandos que trabalham na área da saúde?
Esta temática se faz pertinente diante do impacto que os fatores e os riscos psicossociais podem assumir na vida profissional, acadêmica e pessoal desses trabalhadores da saúde. Essa lente, pelos diferentes níveis de atenção à saúde, também é um elemento de originalidade desta proposta, destacando- se pela abrangência com que se analisam os fatores de risco psicossociais enfrentados por estudantes trabalhadores, seja na atenção primária, secundária e terciária à saúde. Outrossim, o conhecimento desses fatores de risco tem potencial de contribuir para a criação de ambientes educacionais e trabalhistas mais acolhedores e flexíveis, e para a formulação de políticas de saúde ocupacionais mais profícuas, sobretudo para aqueles que estão inseridos em estudos avançados.
Diante do exposto, o objetivo deste estudo é analisar os fatores de risco psicossociais relacionados ao trabalho de pós- graduandos atuantes na área da saúde.
MÉTODO
Desenho do Estudo
Trata-se de um estudo qualitativo, exploratório, norteado pelo guia de verificação Consolidated Criteria for Reporting Qualitative Research(10).
Local
O estudo foi desenvolvido em cinco programas de pós-graduação da saúde de uma instituição de ensino superior (IES) pública brasileira, localizada no interior do estado de São Paulo, Brasil. Os programas da instituição investigada têm o intuito de formar pesquisadores e profissionais de saúde, de modo a valorizar a interdisciplinaridade, criar conhecimento e práticas que corroborem as demandas sociais, bem como possibilitar a transformação no ensino, pesquisa e cuidado em saúde.
População
A população foi composta por profissionais de saúde realizando pós-graduação stricto sensu (mestrado e doutorado).
Critérios de Seleção
Mestrandos e doutorandos matriculados nos cinco programas da IES selecionada, exercendo atividades profissionais na área da saúde, seja no setor público ou privado, matriculados nos programas há mais de seis meses; este tempo de entrada no programa se refere a um possível período de adaptação do estudante ao curso.
Coleta de Dados
A coleta de dados foi realizada de outubro a dezembro de 2023. Os dados foram obtidos por meio de um questionário, com informações sociodemográficas, acadêmicas e profissionais, e, posteriormente, um roteiro com questões norteadoras, utilizando-se a técnica de grupo focal (GF), conforme os fundamentos propostos por Gatti(11). Além da escolha presencial, optou-se por realizar a técnica de GF online em virtude da flexibilidade de dias e horários, considerando ser um público com múltiplas atribuições.
Quanto às técnicas de seleção na operacionalização da coleta de dados, utilizaram-se a forma não probabilística intencional (julgamento)(12) e também a técnica snowball ou bola de neve, utilizando redes de referência e indicações(13) com base nos critérios de inclusão deste estudo.
Os participantes foram convidados presencialmente e remotamente por meio da divulgação do estudo pela Seção de Comunicação e Multimeios da IES, direcionada ao e-mail institucional de todos os pós-graduandos. Ademais, foram convidados por rede social (Instagram®) e por aplicativo de mensagens instantâneas (WhatsApp®). As diferentes estratégias de seleção e abordagem foram utilizadas devido à dificuldade de adesão dos estudantes de pós-graduação trabalhadores da saúde com o estudo.
Os Grupos Focais (GFs) tiveram a participação da moderadora, autora principal deste artigo, e de uma observadora, segunda autora. A pesquisadora, moderadora dos GFs, é graduada em enfermagem, tem titulação em mestrado e, na época da coleta de dados, doutoranda. A observadora dos grupos também é graduada em enfermagem, professora do magistério superior, mestra, doutora e pós-doutora. Ambas têm experiência e treinamento na técnica de GF, vinculadas à mesma IES e sem conflitos de interesse.
A data e horário dos grupos foram definidos a partir da disponibilidade dos estudantes trabalhadores que aceitaram participar. Estabeleceu-se um relacionamento com os participantes antes do desenvolvimento dos GFs, por meio da apresentação da moderadora e da observadora, bem como suas formações acadêmicas e profissionais, objetivos pessoais e as razões e interesses para desenvolver a pesquisa.
Em relação ao local de realização dos grupos presencialmente, realizou-se em sala reservada na IES proponente. Pela via remota, os grupos foram realizados pelo Google Meet®, em uma sala física reservada, para não haver interrupções na condução da moderadora. Em ambas as modalidades, não havia outras pessoas presentes além dos participantes e pesquisadoras.
As informações foram audiogravadas com gravador, e cada grupo teve duração média de 60 minutos. As perguntas norteadoras do estudo foram “Como você percebe o seu local de trabalho?” e “Quais condições são oferecidas? Existem dificuldades?”. As questões foram elaboradas com base na literatura(5#x2013;7,14) e na experiência dos pesquisadores sobre a temática. Assim, optou-se por não realizar testes prévios do roteiro, iniciando-se diretamente a fase de coleta de dados. Utilizou-se também um diário de campo para que fossem registradas as percepções das pesquisadoras no decorrer dos grupos. Essas informações foram úteis para a análise de dados e foram redigidas durante e após os GFs.
A quantidade exata de participantes, bem como o número de GFs realizados, foram definidos quando o poder da informação foi atingido, optando-se por encerrar a coleta de dados assim que o objetivo do estudo foi alcançado(15). Ressalta-se que não houve necessidade de repetição de GFs com os mesmos participantes.
Análise e Tratamento dos Dados
A partir da gravação em formato de áudio dos GFs, foram transcritos os relatos, sendo realizada a devolução das transcrições aos participantes, sendo validadas por eles, sem haver acréscimos ou redução dos dados obtidos nos grupos. Posteriormente, as informações foram interpretadas conforme a análise temática dedutiva(16), ancorada no referencial teórico da European Agency for Health at Work(5–7). Assim, o processo de análise foi realizado manualmente, sem o uso de software, seguindo as seguintes etapas: familiarização com os dados; geração de códigos iniciais; busca por temas; revisão dos temas; definição e nomeação dos temas; e produção do relatório(16).
Sobressalta-se que a fase de análise foi realizada pela pesquisadora principal, experiente e com formação e treinamento no método supracitado, realizando a pós-graduação stricto sensu (nível mestrado) concomitante ao trabalho em saúde. Este fato contribuiu para o processo de reflexividade dos achados. Ademais, toda a análise foi cuidadosamente revisada pelos demais autores deste estudo.
Aspectos Éticos
O estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da instituição proponente, sob protocolo Certificado de Apresentação para Apreciação Ética no 74404423.0.0000.5393 e parecer de aprovação no 6.424.493. Assim, foi disponibilizado para os pós-graduandos o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido em duas versões, impresso e online.
Para preservar o anonimato dos participantes, os depoimentos foram apresentados com o número arábico do GF, correspondendo à ordem em que foi realizado (e.g., GF1, GF2...), seguido do nível de formação do participante (doutorado (D), doutorado direto (DD), mestrado (M), mestrado profissional (MP)), acrescido da categoria profissional, cargo e contexto, se aplicável.
Embora todos os participantes sejam graduados na área da saúde, há diversas categorias profissionais, cargos e contextos variados. Assim, a citação final foi composta pelo número do GF, o nível de formação do participante, profissão, função e, se aplicável, contexto de atuação: (GF1-D-Enf-Assist-Hosp, GF2-DD-Psico-Clín, GF4-MP-Enf-Assist-At-Primária). Destaca-se que, como há participantes que possuem múltiplos vínculos, para estes, foi apresentada a nomenclatura entre barra “/” (e.g., GF2-D-Enf-Docente/Gestão-Cooper). Tem-se a representação da citação dos depoimentos no Quadro 1.
RESULTADOS
Um total de 364 pós-graduandos trabalhadores foram convidados via e-mail institucional pela Seção de Comunicação e Multimeios da IES proponente. Diretamente, pela primeira autora, foram convidados 135, sendo que cinco recusaram participar alegando indisponibilidade e 68 não responderam aos convites. Assim, o estudo foi desenvolvido com 62 estudantes de pós-graduação stricto sensu trabalhadores, distribuídos em 13 GFs, sendo 12 remotos e um presencial. O GF presencial correspondeu ao segundo (GF2), e os demais foram remotos. Quanto ao perfil dos participantes, a maioria do gênero feminino (n = 45) 72,6% e graduada em enfermagem (n = 53) 85,5%, seguida por psicologia (n = 5) 8,1%, odontologia (n = 2) 3,2%, fisioterapia e fonoaudiologia (n = 1) 1,6% cada. Quanto ao nível de curso, cursavam o doutorado acadêmico (n = 23) 37,1%, o mestrado acadêmico (n = 20), 32,3%, o mestrado profissional (n = 12), 19,4% e o doutorado direto (n = 7), 11,3%. Em relação ao nível de atuação dos participantes, (n = 12) 19,35% atuantes na atenção primária; (n = 24) 38,71% na secundária e (n = 26) 41,94% na terciária.
Fatores de Risco Psicossociais no Trabalho em Saúde
Construiu-se a metacategoria “Fatores de risco psicossociais no trabalho em saúde”, devido à amplitude de dados, a qual foi subdividida em duas categorias principais, “Contexto do trabalho” e “Conteúdo do trabalho”, cada uma com suas próprias subcategorias. No âmbito do “Contexto do trabalho”, as subcategorias incluíram os seguintes fatores de risco: cultura e função organizacional; decisão e controle; mudanças organizacionais; função do trabalhador na organização; desenvolvimento de carreira; interface entre trabalho e família; relacionamento interpessoal; e assédio e violência. No âmbito do “Conteúdo do trabalho”, as subcategorias incluíram os seguintes fatores de risco: ambiente e equipamentos de trabalho; planejamento das tarefas; carga e ritmo de trabalho; e esquema de trabalho. Essa forma de organização foi realizada a partir da análise temática dedutiva, e está representada esquematicamente na Figura 1.
Representação esquemática dos fatores de risco psicossociais relacionados ao contexto e ao conteúdo do trabalho, organizados em categorias e subcategorias empíricas.
Categoria 1: Contexto do Trabalho
O contexto do trabalho se refere ao ambiente físico e social no qual as tarefas são realizadas, que neste estudo corresponde à saúde, seja na atenção primária, secundária ou terciária.
Subcategoria 1: Cultura e Função Organizacional
Para alguns pós-graduandos trabalhadores da saúde, o ambiente de trabalho possui uma cultura organizacional onde o acesso aos gestores é complexo, o que culmina em uma sensação de solidão profissional. Tem-se também a liderança autoritária e a carência de incentivos e bonificações, sobretudo diante da titulação:
Em relação à chefia que é complicado também, não é uma coisa fácil. Não são fáceis o acesso; pra você ter acesso a eles, é meio complicado. Então, você meio que anda sozinho (GF5-D-Enf-Assist-Hosp).
Existem algumas chefias que são muito antigas. Então, eles têm um jeito de liderar (...) que é arcaico. (...) e a gente acaba sofrendo por querer mudar, porque eu tentava fazer alguma coisa e eu era “podado” [cerceado] (GF6-D-Enf-Assist-Hosp).
Por parte da instituição que eu trabalho, zero [incentivo], inclusive eu não tenho nenhuma gratificação financeira pela pós-graduação. Eu acho que, talvez, se eu falar para alguém, talvez eu ganhe um parabéns, e olhe lá (GF10-M-Enf-Assist-At-Primária).
Subcategoria 2: Decisão e Controle
A decisão e controle se refere à participação limitada na tomada de decisão e ausência de controle sobre as tarefas. Assim, tem-se dificuldades quanto à flexibilidade, resultando em falta de apoio e controle pessoal no trabalho:
Eu sinto uma dificuldade por conta de liberação mesmo, ainda mais na questão do doutorado sanduíche, sabe? E eu vejo que é mais com a classe de enfermeiros, porque a classe médica consegue liberação para ir para o exterior (GF4-D-Enf-Assist-Hosp).
Eu tinha que cursar as aulas, fazer a disciplina, sempre em horário de trabalho. Então, isso foi uma dificuldade extrema para mim (...) o que eu sinto é a falta de apoio (...) quando esse profissional está cursando a pós-graduação, não tem nenhum tipo de apoio (...) dos superiores, da nossa gestão (GF12-M-Enf-Assist-At-Primária).
Várias vezes, já levei ideias, maneiras da gente resolver os problemas, e eles falam: “Ai, a gente entende que é uma fragilidade, uma necessidade, mas para o administrativo e diretoria do hospital, agora, no momento, não é possível” (GF8-M-Enf-Assist-Hosp).
Subcategoria 3: Mudanças Organizacionais
As mudanças ocorridas no contexto organizacional também se mostram fatores de risco psicossocial importantes:
E acontecem muitas mudanças a todo momento. Semana passada, já é diferente dessa semana. Então, tudo muda muito rápido. Então, isso também acaba demandando uma questão emocional muito grande (GF6-M-Enf-Gestão-Cooper).
A gente vem tendo bastante dificuldades em relação às mudanças, porque é tudo novo. Os documentos são todos modificados, para atender às necessidades atuais; na perspectiva da empresa, para atender às políticas hospitalares. Então, a gente fica bastante sobrecarregada (GF11-D-Enf-Gestão-Hosp).
O hospital como um todo está passando por mudanças nesse momento, mas a gente teve uma mudança de chefia do nosso setor também (...) gera insegurança (GF1-MP-Enf-Assist-Hosp).
Subcategoria 4: Função do Trabalhador na Organização
Tem-se a ambiguidade de funções e responsabilidades no trabalho, especialmente as incumbências e pressões ao lidar com a vida de outras pessoas:
A pressão por si só que eu tenho que dar conta, eu tenho que ser boa, porque é a vida de outras pessoas, né? Sempre o pai de alguém, marido de alguém que está ali nas minhas mãos e eu tenho que dar conta (GF8-M-Enf-Assist-Hosp).
Tem situações que acontecem que eu nem sei como resolver. Vou ter que pesquisar, procurar, para ver como que eu vou dar um apoio para esse usuário (GF12-D-Enf-Gestão-At-Primária).
Você não ser remunerado por aquilo que você está desenvolvendo, os cargos que você está ocupando ali dentro. E ter noção disso (...) dessa desvalorização também financeira (GF6-DD-Enf-Gestão-Cooper).
Subcategoria 5: Desenvolvimento de Carreira
O desenvolvimento de carreira, como fator de risco psicossocial no trabalho desses profissionais que buscam se qualificar por meio da pós-graduação stricto sensu, está relacionado à ausência de progressão e clareza na trajetória profissional, bem como à visão limitada do valor atribuído ao trabalho.
E eles não valorizam o título, então acho que é um pouco frustrante. A gente que investe na nossa carreira, eles não valorizam, apesar de aproveitarem muito do nosso talento, de escrever, de ter metodologia (...) eu me sinto desvalorizado (GF4-D-Enf-Gestão-Secret-Saúde).
Às vezes, você só consegue mais trabalho por ser mais qualificado (GF2-D-Enf-Assist-Hosp).
Onde eu trabalho, não tem plano de carreira (...) falta muito isso, principalmente a questão de incentivar quem está disposto a estudar a levar para frente o trabalho e o incentivo financeiro (GF4-D-Enf-Assist-Hosp).
Subcategoria 6: Relacionamento Interpessoal
O relacionamento interpessoal pode ser desafiador em alguns contextos, seja com a equipe, gestores e usuários:
Eu sinto que falta comunicação adequada (...) entre a equipe multiprofissional. Pode trazer muito desconforto na rotina de trabalho mesmo, acaba prejudicando o paciente e às vezes gera estresse para a equipe (GF2-M-Fisio-Assist-Hosp).
E até mesmo a chefia, imatura, não tem experiência, não sabe lidar com os funcionários, sem empatia (GF13-D-Cirur-Dent-At-Primária).
O lidar com o público é desgastante. Quando eu falo público, eu incluo pessoas, né? Tanto colegas de trabalho quanto usuários em geral (GF12-D-Enf-Gestão-At-Primária).
Subcategoria 7: Interface Entre Trabalho e Família
A interface entre trabalho e família é delineada por uma jornada multifacetada, requerendo a necessidade de equilibrar trabalho, estudos, vida familiar/pessoal e também as responsabilidades domésticas:
É uma jornada tripla, contando a vida doméstica, rotina de higiene, limpeza... traz um nível de estresse muito elevado e, em alguns momentos, uma certa exaustão (GF13-DD-Psico-Clín).
Eu não me sinto muito satisfeita com o tempo que eu consigo me dedicar à família, namorado, amigos; me distanciei muito das minhas relações da amizade que eu tinha antes pelo simples fato de que, às vezes, trabalhando seis dias seguidos, com aula cinco dias deles, não tenho energia social para ver ninguém (GF11-M-Enf-Assist-UPA).
Às vezes, me bate muito essa insuficiência que eu gostaria de estar em mais reuniões familiares (...) parece que eu não estou 100% presente. (GF2-M-Fono-Clín).
Subcategoria 8: Assédio e Violência
O assédio e violência se mostraram fatores de risco presentes no ambiente de trabalho em saúde, além da discriminação, do racismo e da intolerância religiosa:
Eu trabalho em uma Unidade de Pronto Atendimento, e é uma unidade cercada por muito ‘barraco’ [escândalo] e falta de educação (...) o que torna mais difícil a gente fazer a nossa atividade (GF11-M-Enf-Assist-UPA).
Temos violência moral. Às vezes, o usuário está descontente com um atendimento e ele acaba ofendendo o trabalhador. (...) eu sinto que a gente fica muito sozinho no sentido de respaldo. As pessoas xingam, ofendem, e pronto, e a gente tem que estar acostumado a isso, infelizmente. (GF12-D-Enf-Gestão-At-Primária).
No hospital, eu vi o que é a assédio moral mesmo (...) principalmente da gerência de enfermagem. (...) da pessoa chegar e usar termos de baixo calão, xingar mesmo, de burro, que não sabe. E quando a gente vai falar ou denunciar, a gente tem medo de ser punido. Então, a gente ficava quieto, sofrendo e não queria falar para não ter o perigo de ser demitido, por exemplo (GF6-D-Enf-Assist-Hosp).
Eu trabalho diretamente com gestores, diretores, então lido com questões sensíveis do hospital. Eu já cheguei ao ponto de diretores me pedirem pra alterar dados no sistema, alterar dados de pacientes internados, porque aquilo ia interferir na receita de verbas. Coisas bem pesadas (GF3-MP-Enf-Gestão-Hosp/Docente).
Eu sofri intolerância religiosa e racismo. Foi um momento muito desafiador também e me abalou durante o mês todo, até pelo processo de apuração mesmo, de ter que ficar revivenciando (GF6-DD-Enf-Gestão-Cooper).
Categoria 2: Conteúdo do Trabalho
O conteúdo do trabalho aborda a natureza intrínseca das atividades laborais, abrangendo os seguintes fatores de risco psicossociais: ambiente e equipamentos de trabalho; planejamento das tarefas; carga e ritmo de trabalho; e esquema de trabalho. Esses fatores serão apresentados a seguir.
Subcategoria 1: Ambiente e Equipamentos de Trabalho
No que se refere ao ambiente e equipamentos de trabalho, tem-se desafios relacionados à confiabilidade, praticidade e/ou recursos para a execução do trabalho. Alguns pós-graduandos trabalhadores enfrentam a falta de recursos materiais básicos, sistemas de informação e infraestrutura limitados na área da saúde:
A gente está passando por um momento de grande dificuldade em relação a recursos materiais, falta de material básico. A gente estava sem esparadrapo e sem micropore [fita microporosa] (...) sem soro fisiológico de 100 ml, de 250 ml, de 500 ml (GF1-MP-Enf-Assist-Hosp).
Você tem que ir trabalhando com o que tem (GF13-MP-Enf-Assist-Hosp).
O computador é uma velocidade de processamento muito ruim. A internet cai, a luz às vezes cai, entendeu? O banheiro mais próximo é bem distante. Não tem pia, por exemplo, para lavar a mão, entendeu? É um órgão adaptado dentro de uma estrutura maior (GF12-MP-Enf-Gestão-Hosp).
Subcategoria 2: Planejamento das Tarefas
O planejamento de tarefas corresponde à carência de oportunidades para aquisição de novos conhecimentos. Há frustração devido à falta de orientação e capacitação por parte da coordenação e administração em determinados contextos de trabalho. Mas tem-se também a desvalorização por parte do trabalhador, onde reside uma relutância em participar de palestras e treinamentos para adquirir conhecimento:
As coisas aparecem e nós temos que fazer sem nenhuma capacitação, sem nenhum treinamento para isso. É bem desgastante (GF10-M-Enf-Assist-Hosp).
Geralmente, a gente recebe muita população vulnerável, situação de rua, uma demanda psiquiátrica muito grande. Então, são muitos profissionais que não têm “tato” [capacitação] com essa população vulnerável (GF11-MP-Enf-Assist-UPA).
A gente observa que até para capacitar esses funcionários é difícil, porque eles nunca estão disponíveis para capacitação (GF11-D-Enf-Gestão-Hosp).
Subcategoria 3: Carga e Ritmo de Trabalho
Vale ressaltar que a carga e ritmo de trabalho também são enfatizados na assistência em saúde, incluindo no trabalho autônomo:
Mesmo pra área de gestão, é uma área que é muito cobrada. Você tem que estar muito presente; diferente, por exemplo, de um coordenador médico. O coordenador médico, ele tem o cargo, mas ele não fica “full time” [o tempo todo] no setor. Hoje, um coordenador de enfermagem, ele precisa estar (GF10-M-Enf-Gestão-Hosp).
O que dificulta, às vezes, é a questão do excesso de trabalho, que é praticamente inerente da profissão dos enfermeiros, assumindo muitas responsabilidades (GF12-M-Enf-Assist-Hosp).
Então, tem muito trabalho que eu levo para casa de montar terapia, de fazer o relatório, de montar os protocolos (...) não tem uma pessoa que cuida da minha agenda (...) a emissão de notas. Então, toda essa parte burocrática eu também faço (GF2-M-Fono-Clín).
Subcategoria 4: Esquema de Trabalho
O esquema de trabalho abarca horários imprevisíveis, extensas jornadas laborais e turnos noturnos. A falta de horários fixos e a necessidade de cobrir diferentes turnos podem impactar adversamente a rotina e o tempo disponível para atividades fora do trabalho, como no caso dos estudos de pós-graduação. Isso aduz à complexidade e instabilidade na gestão do tempo desses profissionais:
Os finais de semana, eventualmente a gente é acionado, como é gestão (GF1-D-Enf-Gestão-Secret-Saúde/Docente).
Eu não tenho horário fixo, eu sou meio que uma folguista, então eu trabalho de manhã, tarde, noite, quando precisa, e aí isso às vezes dá uma prejudicada nas atividades da pós (GF2-D-Enf-Assist-Hosp).
Eu trabalho noturno. Então, às vezes, vão ter horários que eu vou dormir o dia inteiro... um sono de extremo cansaço também, um sono que não descansa (GF11-M-Enf-Assist-UPA).
Eu trabalho à noite, e, durante o dia, a gente está muito cansado (GF13-MP-Enf-Assist-Hosp).
DISCUSSÃO
De acordo com a análise dos fatores de risco psicossociais relacionados ao trabalho de pós-graduandos atuantes na área da saúde, nesta pesquisa, percebeu-se que os estudantes de pós-graduação trabalhadores enfrentam fatores de risco psicossociais significativos no âmbito do trabalho em saúde, os quais, consequentemente, influenciam suas reações emocionais, com impacto não só no trabalho, mas se estendendo para outras áreas da vida, inclusive a acadêmica.
Assim, faz-se relevante abordar que os fatores de risco psicossociais podem estar relacionados ao contexto de trabalho, no âmbito da cultura e função organizacional, bem como suas práticas de gestão. O comportamento nocivo de um líder está associado ao sofrimento psicológico dos funcionários, o que resulta em efeitos negativos, os quais abrangem desde a perda de autoestima, reclusão, inquietação, evitação até a preocupação e resistência em fornecer feedback e contribuições no trabalho(17). Uma pesquisa qualitativa, realizada na Noruega com enfermeiros mestres, revelou que as experiências dos participantes são ambivalentes, pois esses profissionais são ameaças ao mesmo tempo em que também são recursos na organização de trabalho(18).
Observou-se que muitos profissionais de saúde, sobretudo no campo assistencial, enfrentam falta de autonomia no trabalho. Nessa perspectiva, quando existe um ambiente laboral propício onde os colaboradores desfrutam de autonomia adequada, sentem-se capacitados e motivados para alcançar suas potencialidades(5), o que contrasta com os resultados deste estudo, uma vez que alguns trabalhadores se sentem desmotivados.
No que concerne aos recursos, este estudo evidenciou limitações, inclusive de apoio emocional para os trabalhadores. As Práticas Integrativas e Complementares em Saúde(1), a implementação de iniciativas centradas na autogestão, o empoderamento dos colaboradores e o acesso a serviços de saúde mental, como sessões de mindfulness ou meditação, no ambiente de trabalho, podem contribuir para a diminuição dos níveis de estresse psicológico, ansiedade e esgotamento entre os profissionais(19), sendo, portanto, relevantes para esta população.
No entanto, a falta de disponibilidade desses recursos, assim como a sobrecarga de trabalho, ou outros fatores de risco presentes no contexto e conteúdo do trabalho podem gerar prejuízos à saúde do trabalhador. Além disso, as formas de enfrentar a dinâmica e a estrutura do trabalho na saúde são desafiadoras e podem resultar em adoecimento significativo dos profissionais. Esse contexto se agrava pela complexidade de atuar na assistência em saúde, somada às exigências de gerenciar as demandas acadêmicas, as quais também apresentam dificuldades e exigências(9). Tais condições, como estão estruturadas, configuram-se como fontes potenciais de adoecimento.
Embora a saúde mental e a qualidade de vida no trabalho, especialmente entre os trabalhadores da saúde, sejam afetadas majoritariamente pelas estruturas organizacionais e ocupacionais, que são gerenciadas tanto pelas organizações quanto pelos próprios funcionários, há atenção limitada às relações de trabalho capitalistas que perpetuam as condições insalubres do ambiente profissional contemporâneo. Nesse contexto, é responsabilidade das iniciativas de gestão e dos centros formadores abordar a saúde mental no trabalho, incluindo questões como exploração, alienação e resistência dentro do sistema capitalista(20), incluindo os fatores de risco psicossociais.
No que concerne à decisão e controle, esta pesquisa esclareceu que a falta de flexibilidade e apoio para atividades acadêmicas e aprimoramento profissional pode limitar a autonomia dos trabalhadores em gerenciar seu tempo e desenvolver suas habilidades. Nesse sentido, gerenciar os horários de trabalho, especialmente no âmbito hospitalar, é desafiador, devido ao conflito entre as necessidades dos empregadores e os desejos dos trabalhadores por estabilidade e previsibilidade. Fatores como controle percebido, apoio do supervisor, mudanças de turno e horas extras afetam a exaustão emocional e as intenções de rotatividade(21).
Um estudo realizado na China alude que maior apoio organizacional pode aprimorar inclusive o envolvimento na pesquisa e fortalecer a motivação intrínseca e extrínseca dos pesquisadores. Desse modo, universidades e hospitais têm o potencial de oferecer educação sobre a importância da pesquisa em saúde, o que corrobora a motivação intrínseca e extrínseca para a investigação. Para enfermeiros em programas de mestrado, os hospitais podem ajustar políticas conforme suas necessidades, concedendo apoio organizacional para facilitar o processo de aprendizagem da pesquisa(22). No entanto, na prática, há barreiras quanto ao suporte organizacional que podem impactar inclusive o envolvimento dos pós-graduandos trabalhadores com os estudos e, consequentemente, seu engajamento.
No que tange às mudanças organizacionais, verificou-se que, quando ocorrem, podem afetar os trabalhadores psicossocialmente. Desse modo, as mudanças mal gerenciadas ou mal comunicadas dentro de uma organização podem causar estresse devido à incerteza e dúvida que geram nas pessoas(5).
Em relação às funções organizacionais, ambiguidades de funções e responsabilidades foram relatadas e são importantes fatores de risco psicossociais no contexto de trabalho. Portanto, é preciso garantir que os trabalhadores tenham compreensão clara de seus papéis e das responsabilidades dos outros envolvidos no trabalho(5).
No que tange ao desenvolvimento de carreira, observou-se nesta investigação a falta de reconhecimento, valorização da carreira, especialmente do título acadêmico. Um estudo desenvolvido online com estudantes de radiologia e profissionais da equipe clínica e acadêmica em escala global, obtendo 176 respostas, verificou que a qualificação de doutoramento não é necessária para a progressão na carreira para 126 (72%) inquiridos(23). Esses achados se assemelham ao que evidencia este estudo, uma vez que, para alguns participantes, a titulação não é considerada para progressão na carreira, o que gera o sentimento de desmotivação e falta de reconhecimento por parte da organização de trabalho(9).
No que tange à interface entre trabalho e família, nas últimas décadas, os países ocidentais passaram por mudanças demográficas, culturais e sociais relevantes que afetaram a interface entre trabalho e família. Essas transformações destacaram os desafios para equilibrar simultaneamente as responsabilidades profissionais, familiares e domésticas(24). Assim, busca-se a conciliação entre trabalho e vida pessoal para conceber uma integração mais harmoniosa entre as esferas profissional e pessoal, porém é uma barreira importante e, nessa direção, um fator de risco psicossocial.
Este estudo mostrou que o relacionamento interpessoal corresponde a outro fator de risco psicossocial derivado de relacionamentos diversos, seja com colegas de trabalho ou gestores. No contexto das organizações de saúde, as relações interpessoais são imprescindíveis. Pesquisadores alemães propõem que medidas estruturais, como reuniões regulares de equipe e formações adequadas, são úteis para aprimorar a comunicação interprofissional de maneira específica(25). Nessa linha de pensamento, além do autocontrole e equilíbrio emocional dos envolvidos, faz-se relevante haver líderes capazes de intervir e negociar conflitos em prol da resolutividade e harmonia no trabalho.
A presença de assédio moral e violência no trabalho foi outro fator de risco psicossocial identificado nesta pesquisa, sendo o primeiro oriundo principalmente de distinção de tratamento e atribuições, bem como termos ofensivos, xingamentos e coação para a realização e práticas antiéticas, gerando dano e sofrimento moral, além de racismo e intolerância. Nessa linha de pensamento, as profissões da área da saúde abarcam um contato diário intenso com pessoas, com destaque para os pacientes, colegas de trabalho e gestores. Essas interações também têm potencial de expor esses trabalhadores a situações de assédio moral/bullying e violência, fatores de risco com consequências graves para os envolvidos(26).
Em relação ao conteúdo do trabalho, um dos fatores de risco psicossocial destacados foram os ambientes e equipamentos de trabalho, que neste estudo corresponderam especialmente à falta de insumos, infraestrutura deficitária e sistemas de informação ultrapassados. Dessa forma, a manutenção de condições de trabalho adequadas é fundamental para preservar o bem-estar e bom desempenho dos trabalhadores, com destaque para os enfermeiros(27).
No que concerne ao planejamento de tarefas, percebeu-se neste estudo falta de orientação e capacitação como iniciativas da gestão do local de trabalho. No entanto, sob outra perspectiva, percebeu-se desvalorização de capacitações e treinamentos por parte de alguns trabalhadores, de acordo com alguns gestores participantes desta pesquisa. Tal fato pode ser decorrente da relutância ou indisponibilidade dos trabalhadores em participar de palestras e treinamentos que seriam profícuos para a prática profissional(28).
No tocante à carga e ritmo de trabalho elevados, alguns trabalhadores podem lidar com tarefas muito exigentes, onde muitos desafios e pressões são colocados sobre eles. No entanto, essas demandas podem causar estresse se a pessoa sentir que não consegue lidar com elas ou se não tiver controle suficiente sobre elas. Alguns trabalhadores terão dificuldade em admitir ter problemas devido a muitas demandas, talvez considerando isso como um sinal de fraqueza ou inadequação(5). Além disso, na saúde, ressalta-se a sobrecarga de trabalho da enfermagem, a qual interfere diretamente na qualidade do cuidado e na qualidade psicossocial desses trabalhadores.
Este estudo identificou que os trabalhadores enfrentam horários variáveis, cobertura de diferentes turnos e períodos de sobreaviso, resultando em jornadas de trabalho imprevisíveis e prolongadas, incluindo o trabalho noturno. Empresas frequentemente adotam práticas com salários baixos e jornadas longas para maximizar a produtividade, o que pode afetar adversamente a saúde dos trabalhadores(29). Tal fato, além de interferir na saúde mental, também pode prejudicar a saúde física, sendo evidenciada na literatura a associação negativa entre trabalho noturno e saúde cardiovascular(30).
É relevante, portanto, reconhecer a natureza em constante transformação do trabalho no século XXI e empreender esforços para desenvolver intervenções eficazes que ajudem a superar esses problemas(29), com destaque para os riscos psicossociais e os fatores que os envolvem. Faz-se necessário desenvolver propostas de intervenção e/ou políticas públicas que promovam ambientes de trabalho saudáveis, sobretudo na saúde e articulados com as IES, sobretudo quando os trabalhadores têm jornada de trabalho simultânea com os estudos de pós-graduação.
Como limitações deste estudo, deve-se considerar que foi realizado com trabalhadores da saúde também estudantes de pós-graduação stricto sensu de uma IES pública brasileira. Além disso, houve predomínio de enfermeiros, escassez de outras categorias profissionais e coleta de dados nos formatos presencial e remoto. No entanto, como pontos fortes, deve-se considerar a presença de participantes atuantes em instituições de contextos diversos (atenção primária, secundária e terciária em saúde), o que confere a credibilidade da abrangência dos fatores de risco psicossociais existentes no trabalho em saúde.
Em relação aos avanços deste estudo para as áreas da saúde e enfermagem, os gestores têm a responsabilidade legal de garantir a avaliação e o controle adequados dos riscos. Ademais, a participação dos trabalhadores nesse processo é pertinente, de modo a assegurar a identificação e gestão mais eficaz dos problemas, além de ser uma temática necessária para intervenções educativas e incorporação na matriz curricular de IES em saúde.
Sugerem-se, para estudos futuros, novas investigações, sobretudo com a abordagem qualitativa com este público estudante trabalhador, com a inclusão de profissionais de diversas categorias da área da saúde, de modo a ampliar a compreensão dos fatores de risco psicossociais no trabalho. Além disso, recomenda-se a realização de estudos longitudinais que possibilitem a análise da evolução desses fatores ao longo do tempo, bem como pesquisas que explorem estratégias de enfrentamento e intervenções para a promoção da saúde mental dos trabalhadores.
CONCLUSÃO
A análise dos fatores de risco psicossociais relacionados ao trabalho de pós-graduandos atuantes na área da saúde reflete as particularidades de cada contexto e conteúdo do trabalho, organizações e níveis de atenção, com destaque para os fatores apresentados no trabalho dos enfermeiros, os quais também têm potencial de influenciar significativamente o engajamento acadêmico. Logo, é necessário que tais fatores, além de geridos no ambiente de trabalho, sejam incorporados e aprofundados nos programas educacionais das instituições formadoras. Isso implica integrar esses temas à matriz curricular dos cursos de graduação e de pós-graduação, com vistas a desenvolver/aprimorar competências, conscientizar e preparar os futuros profissionais para lidar com os desafios e perigos psicossociais que podem surgir em suas carreiras, seja na atenção primária, secundária ou terciária à saúde.
DISPONIBILIDADE DE DADOS
Dados disponíveis. Todo o conjunto de dados que dá suporte aos resultados deste estudo foi publicado no próprio artigo.
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