Um espaço para a mudança

DOSSIÊ

Um espaço para a mudança

Diane Matte

Marcha Mundial das Mulheres

O Fórum Social Mundial propõe-se a ser um processo e um espaço onde podem se encontrar movimentos sociais e organizações que proclamam uma outra mundialização, baseada em princípios como justiça, paz, igualdade, interdependência dos povos e desenvolvimento sustentável. Desde janeiro de 2001, um encontro mundial nos permite construir nossas alianças e aprofundar reflexões coletivas sobre as estratégias a adotar para conquistarmos essa utopia. A Marcha Mundial das Mulheres é parte integrante desse processo desde seu início. Nós aí estamos engajadas, portando uma visão feminista para a construção das necessárias alternativas ao neoliberalismo, e por acreditar na importância do protagonismo feminista nesse espaço para a mudança.

A Marcha Mundial das Mulheres nasceu de um mesmo desejo de articular, para além das fronteiras, mulheres que acreditam na possibilidade de mudar as coisas e desejam operar alternativas à pobreza e à violência contra as mulheres. Acreditamos fortemente na importância do movimento autônomo de mulheres como lugar de troca, de aprendizado, de análise das realidades comuns das mulheres, de ações feministas e de construção de alternativas. Ao propor, no ano 2000, a milhares de grupos de mulheres de todo o mundo a agir em comum a partir de reivindicações mundiais, queríamos também reafirmar que o movimento feminista é um movimento social que tem sua própria agenda. Nós queríamos demonstrar a força desse movimento e sua capacidade de transformação. A experiência da Marcha nos fez consolidar essa espécie de rede mundial e destacar que o momento atual é muito rico para a relação entre o movimento feminista e o movimento por uma outra globalização, aí inscrevendo nossas prioridades e fortalecendo as possibilidades de uma verdadeira transformação social. É preciso considerar com atenção este momentum apesar dos desafios que ele traz.

O movimento de mulheres - uma força de mudança incomparável

O movimento feminista é reconhecido, com toda justiça, como o movimento que mais transformou a ordem estabelecida em nossas sociedades e continua a fazê-lo. Nós o fizemos afirmando que não há separação entre o público e o privado, rejeitando a existência de uma dicotomia entre o pessoal e o político, quebrando o silêncio em torno das diversas formas de apropriação do corpo das mulheres, rejeitando as imposições dos homens sobre nossa sexualidade, valorizando a experiência e o trabalho das mulheres, compreendendo que há crises que não nos enganam sobre o estado de saúde de uma sociedade: crise da reprodução, da segurança humana, da democracia, etc.

O movimento de mulheres é um dos movimentos sociais que mais rapidamente se 'globalizaram' desde os anos 1970. Nós tivemos de aprender a fazê-lo considerando as diferenças de classe, etnia, cultura, orientação sexual, etc. Evidentemente temos passos importantes ainda a fazer, e é por isso que continuamos sendo interpeladas pela diversidade e pluralidade não estritamente como um fator de inclusão, mas como um fator que aprofunda a riqueza de nossas experiências e de nossa análise.

Para aumentar nosso impacto e nossa capacidade de transformação da sociedade, tivemos de desenvolver uma abordagem que permita ao conjunto das mulheres se identificar com a nossa luta e ao mesmo tempo reconhecer as desigualdades entre nós e os diferentes privilégios daí decorrentes. Essa abordagem global nos coloca na linha de frente das lutas nacionais, regionais e, cada vez mais, mundiais para fazer reconhecer a indivisibilidade dos direitos econômicos, sociais, políticos e culturais das mulheres. Ela nos obriga a questionar o impacto de nosso trabalho, de nossas próprias ações, nossas práticas ou análises se elas não permitem ir ao encontro das preocupações das mulheres de diversos meios e lhes dar a palavra, se elas perpetuam ou reforçam divisões baseadas no status econômico, pertencimento a uma comunidade, orientação sexual, etc., se elas não conferem mais liberdade e direitos às mulheres de diversos países ou grupos de nossa sociedade.

Nós percorremos um longo caminho, e devemos estar orgulhosas e continuar a agir a partir de nossas próprias redes, de nossas próprias análises. O movimento feminista, como movimento social, é cada vez mais necessário para mudar a vida das mulheres. Nós somos confrontadas com isso todos os dias ao ver o impacto da globalização neoliberal ou da militarização de nossas sociedades sobre as mulheres.

A globalização neoliberal e o movimento de mulheres

As mulheres são as primeiras a perder com essa globalização baseada na uniformização do pensamento, no lucro e nos direitos dos mais poderosos. A participação das feministas no processo de construção de um outro mundo é uma necessidade, pois as estatísticas nos demonstram a cada dia e de maneira cada vez mais dramática o rosto real dessa globalização: crescimento do número de mulheres apropriadas pelo tráfico sexual, mais e mais mulheres excluídas do mercado de emprego ou aprisionadas em condições de trabalho próximas à escravidão ou degradantes; mais de 200 milhões de pobres no mundo dos quais 70% são mulheres; uma guerra ao terrorismo que envolve países como Afeganistão e Iraque em um estado de devastação e miséria sem nome, onde as mulheres vêem seus direitos ultrajados no cotidiano (estupros, tráfico sexual, agressões físicas) a despeito das mudanças de regime. É a lei do mais forte, e frente a isso a Marcha Mundial das Mulheres quer oferecer a esperança de um feminismo que ultrapasse fronteiras, um feminismo em movimento que proponha análises globais e denúncia intolerável, que se radicalize em um contexto que seja exigido. Nossas alianças, tanto em nível nacional como mundial, são um desafio importante, pois a mundialização das lutas e das ações para acabar com a pobreza e a violência contra as mulheres pressupõe criar novas redes, ampliar novas áreas de influências, diversificar nossas alianças.

Uma mundialização das lutas

O movimento antiglobalização ou por uma outra globalização, como mais e mais pessoas preferem chamar, tomou um grande vulto a partir 1999, com o crescimento do fundamentalismo econômico. Esse fundamentalismo preconiza um modelo econômico único, baseado na acumulação dos lucros, na veneração do mercado financeiro em detrimento dos direitos fundamentais e no estabelecimento de 'zonas francas' onde se pode comercializar o que e como se quer. Ele encontra mais e mais obstáculos em seu caminho e em escala planetária. Começando por Seattle, durante o encontro da Organização Mundial do Comércio, continuando nos encontros do Banco Mundial e do Fundo Monetário Internacional, e nas reuniões do G-8 em Gênova, Calgary, ou ainda durante o encontro da OMC, em Cancún, no México, um movimento se contrapõe a essa lógica que semeia empobrecimento, desesperança e violência, construindo solidariedades entre diversos grupos de nossa sociedade, seja no Sul ou no Norte. Durante o último ano, vimos esse movimento de movimentos se mobilizar para afirmar fortemente o desacordo das populações com a militarização das relações entre os países e para dizer não à hegemonia do governo norte-americano sobre nosso planeta.

Esse movimento construiu um espaço para refletir sobre as alternativas necessárias a essa globalização: o Fórum Social Mundial, que acontece em um país do Sul a cada ano ao mesmo tempo que ocorre o Fórum Econômico de Davos. O movimento de mulheres deve estar no coração desse movimento para demonstrar que um outro mundo, sem o feminismo, é impossível. A luta contra o capitalismo e o imperialismo faz parte integrante do processo do Fórum Social Mundial, mas há uma resistência, apesar de um discurso de diversidade e pluralidade, a interpretar o patriarcado (e o racismo) como sistema político e social que sustenta essa globalização neoliberal. Certos 'pensadores' desse movimento por outra globalização têm traços de um marxismo puro e duro, que pode até coabitar com a luta das mulheres, mas se recusa a lhe dar um lugar à mesa de honra.

Felizmente, esses processos nos permitem também desenvolver alianças com grupos ou pessoas que buscam soluções transversais e desejam explorar abordagens e modos de funcionamento mais próximos de nós. Não podemos negligenciar esse novo espaço de troca, reflexões e ações para fortalecer nosso movimento.

O feminismo em mudança

Na cena mundial, as feministas foram ativas e o são ainda em todas as grandes conferências chamadas pelas Nações Unidas (depois de terem sido as instigadoras da primeira conferência sobre as mulheres, em 1975) e no questionamento de todas as outras instituições internacionais que têm impacto negativo na vida das mulheres. Esse trabalho é essencial para fazer reconhecer que sem justiça para as mulheres não se pode pretender criar um mundo justo e um Estado de direito.

No entanto, devemos julgar esse trabalho à luz de nossos objetivos de transformação social e, nesse caso, não podemos nos contentar mais em participar e elaborar grandes convenções, pactos e protocolos iniciados pelas Nações Unidas e militar em favor de sua aplicação. As alianças e os contatos entre feministas de diversos países devem ocorrer o mais diretamente possível e a partir de nossa própria agenda. Com o aumento dos integrismos de toda ordem e do pensamento neoliberal que nos empurra para estar cada uma por si, devemos estar no centro da construção de uma arquitetura mundial baseada nas idéias promulgadas pelos documentos de direitos humanos. No início do terceiro milênio, é preciso interpelar as Nações Unidas e criticar seus resultados pífios e, sobretudo, a perda de sua influência sobre as realidades vividas pelas populações do mundo. Devemos interpelar nossos governantes que se deixam levar por esse pensamento neoliberal. Nós devemos juntar nossa voz a de milhares de outros que afirmam que um outro mundo é possível.

Devemos também interpelar os movimentos sociais que não souberam integrar a análise feminista e continuam a promover uma só solução para um mundo cada vez mais complexo. Com a Marcha Mundial das Mulheres quisemos construir uma agenda feminista que se junta a um conjunto de grupos no planeta que desejam levar o trabalho um pouco mais longe. Escolhendo colocar lado a lado a luta contra a pobreza e a violência contra as mulheres, identificando claramente nosso desejo de trabalhar a superação do patriarcado e do capitalismo, lançamos o desafio ao movimento de mulheres de radicalizar ainda mais nossa abordagem e nossas ações, demonstrando como a nossa luta está intrinsecamente ligada à luta por um outro mundo e que, inversamente, não podemos mudar a vida das mulheres sem considerar as diversas realidades entre elas. Convidando os grupos de mulheres de diversos países a se mobilizar junto com milhares de outros grupos, propusemos um novo processo, muito nosso, para dizer não à terceiromundização do planeta tendo as mulheres à frente.

Sem negar a importância do trabalho realizado para fazer reconhecer os direitos das mulheres como direitos humanos no interior do sistema das Nações Unidas, sem rejeitar a importância da luta para ampliar nossos direitos e defendê-los, acreditamos que essa estratégia demonstrou seus limites em um contexto em que os direitos coletivos estão ameaçados por todos os lados. Ao constatar recuos importantes nos países que já haviam operacionalizado um sistema de defesa dos direitos humanos e um sistema de garantias de um mínimo de bem-estar a cada cidadã e cidadão, somos obrigadas a rever nossas estratégias. Mudar a vida das mulheres, de todas as mulheres, neste início de milênio pressupõe mais do que reivindicar novas leis ou a inclusão de novos direitos nas Constituições dos países. Essa é uma das razões pelas quais a Marcha Mundial das Mulheres levou mais adiante a idéia de um feminismo internacional ou transnacional propondo unir nossas forças e falar com uma voz comum e ao mesmo tempo diversa. Por nossa ação, e nos apoiando em anos de lutas de feministas do Sul e do Norte, e em diversos movimentos sociais, conseguimos colocar o movimento feminista no coração do movimento que rejeita a globalização neoliberal. Ao fazer isso, permitimos também que o feminismo mais radical seja reconhecido.

O Fórum Social Mundial - um processo, um espaço a ocupar

O Fórum Social Mundial e a Rede de Movimentos Sociais, que se criou em seu interior, nos oferecem a oportunidade de assumir uma liderança baseada em nossas experiências e no reconhecimento de nossa força como movimento. Nós tivemos a possibilidade de aprofundar ainda mais nossas reflexões para demonstrar os nexos existentes entre as condições de vida das mulheres e a melhoria das condições de vida do conjunto. Nós pudemos compartir nossos conhecimentos e tornar público nosso trabalho de análise. Ainda é preciso fazer ser mais ouvida a voz das mulheres, particularmente as mais marginalizadas entre nós. Devemos fazê-lo a partir de uma base sólida e com uma forte convicção de que o movimento de mulheres, em toda a sua diversidade, é a pedra angular sobre a qual se construirá esse outro mundo. É preciso, evidentemente, assegurar que tenhamos aliadas e aliados nos diversos movimentos sociais para contra-restar as resistências ao reconhecimento do protagonismo do movimento de mulheres.

Uma outra tarefa é essencial. Trata-se de questionar, entre feministas, nossas estratégias em nível mundial e partilhar este novo espaço. O Fórum Social Mundial pode também ser um espaço para nós, para reforçar nossa ação local, nacional, regional ou mundial, mas para fazê-lo devemos permitir dar continuidade a um diálogo iniciado há vários anos, para além das fronteiras e que necessita ser intensificado para chegar a construir verdadeiras alternativas ao contexto atual.

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Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    30 Mar 2004
  • Data do Fascículo
    Dez 2003
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