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Sírios em situação de refúgio no Brasil: histórias de vida e processos de inserção social

Syrians in temporary refuge situation in Brazil: life stories and processes of social insertion

Resumo.

Esta pesquisa objetivou analisar experiências de inserção social de homens sírios em situação de refúgio no Brasil. Os dados foram coletados por meio de entrevistas individuais realizadas on-line e a amostra foi composta por 10 homens sírios em situação de refúgio no Brasil há mais de quatro anos, com idades entre 25 e 43 anos. O tratamento dos dados foi realizado por meio da análise de conteúdo. Os resultados evidenciaram categorias temáticas que se referem a: (i) relações interpessoais, incluindo amizade, relacionamentos amoroso, familiar e com brasileiros, além de elementos sobre como o idioma interfere nessas relações; (ii) trabalho, no Brasil e na Síria; (iii) religião, com enfoque nos conflitos, nos grupos religiosos e nas (des)crenças dos participantes; e (iv) preconceitos e estereótipos, que resultam em discriminações. Discutem-se os processos de inserção social em função das dimensões temáticas centrais ao contexto de vida desses indivíduos em situação de refúgio.

Palavras-chave:
inserção social; situação de refúgio; sírios

Abstract.

This research aimed to analyze the experiences of social insertion of Syrian men in temporary refuge situation in Brazil. Data were collected through individual interviews conducted online and the sample consisted of 10 Syrian men in temporary refuge situation in Brazil for more than four years, aged between 25 and 43. Data processing was carried out through content analysis. The results showed thematic categories that refer to: (i) interpersonal relationships, including friendship, romantic and family relationships, and relations with Brazilians; (ii) work, in Brazil and Syria; (iii) religion, with focus on conflicts, religious groups, and participants’ (dis)beliefs; and (iv) prejudice and stereotypes, which result in discrimination. The social insertion processes were discussed according to the thematic dimensions central to the life context of these individuals in refuge situations.

Keywords:
social insertion; temporary refuge situation; Syrians

Introdução

O processo migratório pode ser definido como a movimentação de pessoas de um lugar para outro (Organização Internacional para as Migrações [OIM], 2019Organização Internacional para as Migrações (OIM). World Migration Report 2020. 2019. Disponível em: Disponível em: https://publications.iom.int/system/files/pdf/wmr_2020.pdf . Acesso em: 03.02.2023.
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). Esse evento faz parte da história da humanidade e seus impactos podem oferecer contribuições positivas, além de inúmeros desafios, para ambos os locais, tanto para o país de origem como para aquele que acolhe (Castles et al., 2014CASTLES, Stephen; HAAS, Hein de; MILER, Mark. The age of migration: International population movements in the modern world. United States: Palgrave Macmillan, 2014.). As motivações para os deslocamentos podem estar associadas a diferentes fatores (tais como trabalho, estudos, reunião familiar, conflitos naturais e desastres), podendo ser mobilizados de modo voluntário ou forçado (Triandafyllidou et al., 2023TRIANDAFYLLIDOU, Anna; GHIO, Daniela; McLEMAN, Robert. Complex Migration Flows and Multiple Drivers: What Do We Know? Toronto: Working Paper, 2023. Disponível em: Disponível em: https://www.torontomu.ca/content/dam/centre-for-immigration-and-settlement/tmcis/publications/workingpapers/2023-05-WP-Triandafyllidou-Ghio-Veronis-McLeman.pdf . Acesso em: 05.07.2023.
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).

No que diz respeito à migração na Síria, país focalizado neste trabalho, de acordo com dados do Global Trends: forced displacement in 2021, devido à condição de guerra no país, iniciada em 2011, novos deslocamentos continuam acontecendo, mantendo o refúgio sírio como o maior do mundo. Em dados atualizados do ACNUR (2022)ACNUR. Global trends: forced displacement in 2021. 2022. Disponível em: Disponível em: https://www.unhcr.org/62a9d1494/global-trends-report-2021 . Acesso em: 02.02.2023.
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, o número de sujeitos que se encontram em situação de refúgio que são de origem síria representa 27% da população refugiada mundialmente, sendo esse número composto por 6,8 milhões de sírios refugiados em 129 países. No que concerne ao número de refugiados sírios no Brasil, segundo Silva et al. (2021SILVA, Gustavo; CAVALCANTI, Leonardo; OLIVEIRA, Tadeu; MACEDO, Marília. Refúgio em Números. Observatório das Migrações Internacionais; Ministério da Justiça e Segurança Pública/ Comitê Nacional para os Refugiados. Brasília, DF: OBMigra, 2021. Disponível em: Disponível em: https://portaldeimigracao.mj.gov.br/images/dados/relatorios_conjunturais/2020/Ref%C3%BAgio_em_N%C3%BAmeros_6%C2%AA_edi%C3%A7%C3%A3o.pdf . Acesso em: 03.02.2023.
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), de 2011 a 2020, houve uma marca de 4.992 solicitações de reconhecimento de refúgio, em que 3.508 eram de homens, 1.416 de mulheres e, ainda, 65 de pessoas não identificadas; o número de solicitações aceitas foi de 3.594.

A guerra na Síria e a consequente situação de refúgio vivenciada pelos sírios nos últimos anos perdura, ocasionando modificações inevitáveis na vida desses sujeitos. Valenta et al. (2020VALENTA, Marko; JACOBSEN, Jo; ZUPARI-C-ILJI, Drago; HALILOVICH, Hariz. Syrian Refugee Migration, Transitions in Migrant Statuses and Future Scenarios of Syrian Mobility. Refugee Survey Quarter, v. 39, n. 2, p. 153-176, 2020. Disponível em: Disponível em: https://academic.oup.com/rsq/article/39/2/153/5843511 . Acesso em: 01.02.2023.
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) ressaltaram que, mesmo que a guerra chegue ao fim, o repatriamento não é imediato, devido às condições pós-conflito em que se encontrará o país, fazendo com que, em muitas situações, os refugiados estabeleçam suas vidas permanentemente no país de acolhida. Em contrapartida, apesar de o refúgio ser a opção de sobrevivência para muitos desses indivíduos, conforme relatório elaborado pelo World Bank Group (2020)WORLD BANK GROUP. The Mobility of Displaced Syrians An Economic and Social Analysis. Washington: The World Bank, 2020. Disponível em: Disponível em: https://openknowledge.worldbank.org/bitstream/handle/10986/31205/9781464814013.pdf . Acesso em: 01.02.2023.
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, reflete-se sobre as condições enfrentadas pelos sírios dentro e fora da Síria e ressalta-se que a garantia da segurança de vida, em muitos casos, vem atrelada a uma diminuição da qualidade de vida daqueles que se deslocam.

Diversos estudos (Galina et al., 2017GALINA, Vivian; SILVA, Tatiane; HAYDU, Marcelo; MARTIN, Denise. Literature review on qualitative studies regarding the mental health of refugees. Interface (Botucatu), v. 21, n. 61, 2017, p. 297-308. Disponível em: Disponível em: https://www.scielo.br/j/icse/a/bYJGXPKXXnjwvMtxcBX8MXP/?lang=en . Acesso em: 20.01.2023.
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; Guntars et al., 2023GUNTARS, Ermansons; KIENZLER, Hanna; ASIF, Zara; SCHOFIELD, Peter. Refugee mental health and the role of place in the Global North countries: A scoping review. Health & Place, v. 79, 2023, p. 1-20. Disponível em: Disponível em: https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S1353829223000011 . Acesso em: 02.02.2023.
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; Jucá et al., 2022JUCÁ, Bruna; ARGOLO, Elane; HORTELAN, Michele; GEISLER, Sandonaid. A humanização no atendimento a refugiados em região de fronteira: scoping review. Ciências da Saúde: desafios e potencialidades em pesquisa, v. 1, 2022, p. 17-26. Disponível em: Disponível em: https://downloads.editoracientifica.com.br/articles/221010397.pdf . Acesso em: 26.01.2023.
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; Mattar, Gellatly, 2022MATTAR, Sandra; GELLATLY, Resham. Refugee mental health: Culturally relevant considerations. Current Opinion in Psychology, v. 47, 2022. Disponível em: Disponível em: https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S2352250X22001506 . Acesso em: 25.01.2023.
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; Moreira, 2021MOREIRA, Mariana. Refugiados e o acesso aos serviços de saúde: uma revisão integrativa da literatura. Trabalho de conclusão de curso. Universidade Federal Fluminense, Niterói, 2021. Disponível em: Disponível em: https://app.uff.br/riuff/handle/1/23575 . Acesso em: 03.02.2023.
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), nacional e internacionalmente, também têm sido desenvolvidos com foco no público em situação de refúgio, investigando, sobretudo, acerca da saúde, tanto física quanto mental, dos refugiados e do suporte dado a eles no país de acolhida. Esta parece ser uma questão complexa e necessária ao debate sobre os desafios enfrentados pelas pessoas em situação de refúgio, tendo em vista as condições vivenciadas por esse público ao passarem pelo processo de deslocamento forçado.

O contexto da situação de refúgio acarreta desafios para aqueles que migram forçadamente. Estudos como os de Gevehr e Bortoli (2022GEVEHR, Luciano; BORTOLI, Gabriel. Migrações contemporâneas e estudos culturais: uma revisão da literatura científica. In: GEVEHR, Luciano (org.). Raça, Etnia e Gênero: questões do tempo presente. São Paulo: Editora Científica, 2022, p. 56-73.) e de Wendling et al. (2020WENDLING, Andressa; ARNOLD, Vilma; SBEGHEN, Camila; MACEDO, Jaqueline; GIONGO, Carmem. Uma revisão integrativa da literatura nacional e internacional sobre refugiados. Revista Baiana de Saúde Pública, v. 44, n. 4, p. 273-293, 2020. Disponível em: Disponível em: https://rbsp.sesab.ba.gov.br/index.php/rbsp/article/view/3153/3034 . Acesso em: 09.02.2023.
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), que realizaram revisões sistemáticas sobre a temática da migração, concluíram que existem dificuldades no processo de inserção social de refugiados e destacaram, dentre elas, questões como trabalho, idioma, diferenças culturais, religião, falta de políticas públicas e aspectos discriminatórios, como a xenofobia e o racismo. Considerando essas adversidades, pode-se entender que o êxito da inserção social desses sujeitos depende diretamente do posicionamento e dos esforços políticos do país de acolhida no qual se encontra a pessoa que se desloca. O Pacto Global para a Migração, da Organização das Nações Unidas (ONU)1 1 O documento original pode ser acessado na íntegra em: https://www.un.org/en/development/desa/population/migration/generalassembly/docs/globalcompact/A_RES_73_195.pdf. , por exemplo, é uma iniciativa que visa garantir ao público migrante o acesso a questões como justiça, saúde, informação e educação, dimensões fundamentais à vida cotidiana das pessoas. No contexto nacional, o Brasil sofreu instabilidade quanto à sua participação neste Pacto Global em função de mudanças realizadas pelo governo federal em 2019, quando o então presidente Jair Bolsonaro decidiu pela retirada do país dessa iniciativa global (Felles, 2019FELLES, João. Em comunicado a diplomatas, governo Bolsonaro confirma saída de pacto de migração da ONU. BBC, 2019. Disponível em: Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/brasil-46802258 . Acesso em: 02.02.2023.
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); e agora, em 2023, com a posse do atual presidente, Luís Inácio Lula da Silva, o país voltará ao Pacto Global (Ministério das Relações Exteriores, 2023MINISTÉRIO DAS RELAÇÕES EXTERIORES. Retorno do Brasil ao Pacto Global para Migração Segura, Ordenada e Regular. 2023. Disponível em: Disponível em: https://www.gov.br/mre/pt-br/canais_atendimento/imprensa/notas-a-imprensa/retorno-do-brasil-ao-pacto-global-para-migracao-segura-ordenada-e-regular . Acesso em: 05.02.2023.
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), decisão que pode interferir diretamente no processo de inserção social de sujeitos em situação de refúgio no Brasil.

Sobre a dimensão do pertencimento social e os desafios de inserção em um novo contexto de vida, Teixeira et al. (2020) TEIXEIRA, Ana; SILVA, Eliana; BALOG, Daniela; SÁ, Bianca. Why is it so hard to belong? The difficulties of refugees in their integration processes within Brazilian society and labor market. Cadernos EBAPE.BR, v. 19, n. 2, 2021, p. 265-277. Disponível em: Disponível em: https://www.scielo.br/j/cebape/a/cgsJ9pBSDSjn7mQnqWSxpJC/?format=pdf⟨=en . Acesso em: 10.02.2023.
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desenvolveram uma pesquisa com refugiados no Brasil, de diversas nacionalidades, sobre o “porquê é tão difícil pertencer”. Dentre as diversas dificuldades identificadas, os autores destacaram aquelas percebidas no que diz respeito ao ingresso desses sujeitos no mercado de trabalho (como questões de documentação pessoal e de formação profissional para validar no Brasil), discriminação, falta de acesso a um ensino de português de qualidade e obstáculos para acessar outros grupos de pessoas, além daquelas que já são de sua convivência, para divulgar seus trabalhos. Já Pucci e Truzzi (2020PUCCI, Fabio; TRUZZI, Oswaldo. Sírios em São Paulo: trabalho, economia e identidade étnica. Revista Territórios & Fronteiras, Cuiabá, v. 13, n. 2, p. 137-165, 2020. Disponível em: Disponível em: https://periodicoscientificos.ufmt.br/territoriosefronteiras/index.php/v03n02/article/view/1034/pdf . Acesso em: 10.02.2023
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), estes pesquisaram sobre trabalho, economia e identidade e levantaram a reflexão de que, para os sírios refugiados, o trabalho está diretamente relacionado com o seu processo de identificação, pois “resgata sua autoconfiança, dignidade e desejo de contribuir para o país que os acolheu” (p. 164). Tendo um significado central na vida dos sujeitos em situação de refúgio no Brasil, o trabalho tem sido foco de estudos nessa área, como a pesquisa de Menezes (2020MENEZES, Ana. Syrian refugees in Brazil: Labor Integration in the Absence of Specific Public Policies and the Role of Civil Society Organizations. Rev. Fac. Dir., v. 48, n. 1, p. 113-133, 2020. Disponível em: Disponível em: https://seer.ufu.br/index.php/revistafadir/article/view/50515/29101 . Acesso em: 10.02.2023.
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), que investigou sobre a questão trabalhista de refugiados sírios no Brasil e identificou a ausência de políticas públicas no país para essa população; questão também evidenciada por Triandafyllidou et al. (2021)TRIANDAFYLLIDOU, Anna; ISAAKYAN, Irina; BAGLIONI, Simone. Labour Market Integration as an Interactive Process. In: ISAAKYAN, Irina; TRIANDAFYLIDOU, Anna; BAGLIONI, Simone (eds.). Immigrant and Asylum Seekers Labour Market Integration upon Arrival: NowHereLand A Biographical Perspective. IMISCOE Research Series, p. 1-28, 2021. Disponível em: Disponível em: https://doi.org/10.1007/978-3-031-14009-9 . Acesso em: 05.07.2023.
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, os quais destacaram que o aspecto agentivo dos migrantes em busca de trabalho pode resultar em uma melhor relação desses sujeitos com o novo meio em que estão inseridos.

Ainda em relação às problemáticas vivenciadas por sujeitos em situação de refúgio, Milesi e Andrade (2015MILESI, Rosita; ANDRADE, William. A sociedade civil na atenção aos imigrantes e refugiados - o agir do IMDH. In: PRADO, Erlan; COELHO, Renata (orgs.). Migrações e trabalho. Brasília: MPT, 2015, p. 175-202.) chamam a atenção para o fato de que, para assegurar os seus direitos básicos, é indispensável que as suas necessidades imediatas sejam atendidas, dentre elas, o aprendizado do idioma, e, consequentemente, da cultura, que interfere em outras dimensões da vida. Como ressaltou Vetrano (2015VETRANO, Nicola. O papel do Estado e das organizações sociais na preservação dos Direitos Humanos do trabalhador migrante. In: PRADO, Erlan; COELHO, Renata (orgs.). Migrações e trabalho. Brasília: MPT, 2015, p. 41-54. ), o não conhecimento da língua pode restringir oportunidades de inserção no mercado de trabalho, fazendo com que esses indivíduos fiquem à margem da sociedade. Além da questão do trabalho, o idioma também interfere nas suas relações sociais, que são importantes nos seus processos de inserção (Garcia, Costa 2014GARCIA, Agnaldo; COSTA, Lorena. Amizade e Migração Internacional: O Caso de Gregos no Espírito Santo. Interação em Psicologia (Online), v. 18, n. 3, p. 297-308, 2014. Disponível em: Disponível em: http://dx.doi.org/10.5380/psi.v18i3.29254 . Acesso em: 02.02.2023.
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; Guerra, 2017GUERRA, Sidney. A nova lei de migração no Brasil: avanços e melhorias no campo dos direitos humanos. Revista de Direito da Cidade, v. 9, n. 4, 2017, p. 1717-1737. Disponível em: Disponível em: https://doi.org/10.12957/rdc.2017.28937 . Acesso em: 02.02.2023.
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).

Acerca das relações interpessoais entre os brasileiros e sírios que se refugiam no Brasil, de acordo com Pucci (2019PUCCI, Fabio. Sírios em situação de refúgio em São Paulo: entre a hospitalidade e a intolerância. Ponto-e-vírgula, n. 25, p. 57-69, 2019. Disponível em: Disponível em: https://revistas.pucsp.br/index.php/pontoevirgula/article/view/51153/33744 . Acesso em: 02.02.2023.
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), a ambiguidade no tratamento dos nativos com os sírios refugiados é um ponto a ser destacado. Segundo o autor, os sírios relataram duas faces da relação com os brasileiros: a hospitalidade e a discriminação. Ribeiro e Baeninger (2022RIBEIRO, Juliana; BAENINGER, Rosana. Migrantes internacionais no Brasil e a ambivalência hospitalidade-hostilidade. In: Seminário Nacional de Sociologia da UFS, v. 4, p. 1-25, 2022. Disponível em: Disponível em: https://ri.ufs.br/bitstream/riufs/16997/2/MigrantesBrasilHospitalidadeHostilidade.pdf . Acesso em: 10.07.2023.
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) também destacam que a hospitalidade e a hostilidade com esse público ocorrem sequencialmente, uma vez que, ao ato da primeira (a hospitalidade), tem-se como resposta a segunda (a hostilidade), pois o migrante é visto como estranho e como uma ameaça. Assim, apesar de terem certo acolhimento, o preconceito com as práticas culturais e com a religião adotadas por muitos sírios resulta em posturas intolerantes para com esse grupo. Pucci (2019) PUCCI, Fabio. Sírios em situação de refúgio em São Paulo: entre a hospitalidade e a intolerância. Ponto-e-vírgula, n. 25, p. 57-69, 2019. Disponível em: Disponível em: https://revistas.pucsp.br/index.php/pontoevirgula/article/view/51153/33744 . Acesso em: 02.02.2023.
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menciona, ainda, que a religião e os hábitos religiosos foram apontados como motivação para a exclusão também no cenário laboral. Em pesquisa realizada por Pieri e Fischer (2022PIERI, Lucas; FISCHER, Marta. A perspectiva social dos brasileiros a respeito dos refugiados e sua inserção nas pautas das cidades inteligentes. Revista Inclusiones, n. Especial, v. 9, 2022, p. 115-154. Disponível em: Disponível em: https://revistainclusiones.org/index.php/inclu/article/view/3394/3418 . Acesso em: 27.06.2023.
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), os autores tratam das percepções dos brasileiros em relação aos refugiados e de sua inserção em centros urbanos, identificando nos resultados ausência de acolhimento a esse público e presença de processos de estigmatização.

Os indivíduos migrantes, por estarem inseridos em contextos ainda desconhecidos ou com relação aos quais ainda estejam menos familiarizados, consequentemente, encontram-se em contato com novos e diferentes grupos e culturas. Neste novo cenário de relações sociais, os indivíduos podem vivenciar processos de comparação social (Festinger, 1954FESTINGER, Leon. A theory of social comparison processes. Human Relations, v. 7, n. 2, p. 117-140, 1954. Disponível em: Disponível em: https://doi.org/10.1177/001872675400700202 . Acesso em: 02.02.2023.
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; Tajfel, 1982TAJFEL, Henri. Social psychology of intergroup relations. Annual Review of Psychology, v. 33, n. 1, p. 1-39, 1982. Disponível em: Disponível em: https://doi.org/10.1146/annurev.ps.33.020182.000245 . Acesso em: 02.02.2023.
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), por meio de comparações entre endogrupos (grupos dos quais faz parte) e exogrupos (outros grupos de relação). Tais comparações podem resultar em conflitos e negociações no campo tanto das práticas sociais quanto dos significados mobilizados nestas interações, além de contribuir na construção identitárias desses sujeitos. Assim, o processo de inserção social envolve diversas questões, que incluem desafios e dificuldades em diversos âmbitos, bem como o exercício identitário frente a novos contextos de comparação social.

Diante das questões destacadas, analisar as histórias de vida de sujeitos sírios em situação de refúgio no Brasil mostra-se de grande relevância, tendo em vista que histórias de vida podem promover o empoderamento dos migrantes em geral (Abadia et al., 2018ABADIA, Lilia; CABECINHAS, Rosa; MACEDO, Isabel; CUNHA, Luís. Interwoven Migration Narratives: Identity and Social Representations in the Lusophone World. Identities Global Studies in Culture and Power, v. 25, n. 3, p. 339-357, 2018. Disponível em: Disponível em: https://doi.org/10.1080/1070289X.2016.1244062 . Acesso em: 20.04.2023.
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), e em particular daqueles que migraram de modo involuntário, como é o caso dos participantes deste estudo. Além disso, considerando que, apesar das suas contribuições tanto para o país de origem quanto para o país de acolhida (Castles et al., 2014CASTLES, Stephen; HAAS, Hein de; MILER, Mark. The age of migration: International population movements in the modern world. United States: Palgrave Macmillan, 2014.), os migrantes (que se deslocaram de forma voluntária ou involuntária) são frequentemente discriminados (Esses, 2021ESSES, Victória. Prejudice and discrimination toward immigrants. Annual Review of Psychology, v. 72, p. 503-531, 2021. Disponível em: Disponível em: https://doi.org/10.1146/annurev-psych-080520-102803 . Acesso em: 05.03.2023.
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), escutar suas narrativas se faz importante, ainda, para pensar novas formas de relações sociais, reconhecendo a urgência do acolhimento desse público, tanto no aspecto sócio-interacional quanto no setor trabalhista. Por isso, o objetivo desta pesquisa foi analisar as vivências e experiências de inserção social de homens sírios em situação de refúgio no Brasil.

Método

Este trabalho é fruto de uma pesquisa de dissertação de mestrado em Psicologia, cuja proposta consistiu em investigar as práticas sociais de masculinidades entre homens sírios em situação de refúgio no Brasil. No presente artigo são apresentados apenas os resultados referentes às suas histórias de vida e aos seus processos de inserção social.

Participantes

Participaram do estudo 10 homens sírios em situação de refúgio no Brasil, cuja idade variou entre 25 e 43 anos. Todos vivem no Brasil há, pelo menos, quatro anos. Conforme a Tabela 1, que sintetiza as informações dos entrevistados, vê-se que, no que diz respeito ao nível de escolaridade, o grupo está dividido entre homens que têm o ensino médio completo como maior nível, enquanto outros têm o superior incompleto e, ainda, outros que têm o superior completo. Em relação ao trabalho atual, a maioria dos participantes atua no ramo gastronômico e outros em sua área de formação, como os trabalhos de engenharia e de assistência técnica, ou em áreas que se inseriram ao chegar ao Brasil, como os que são modelo e guia turístico ou motorista de aplicativo. No que se refere ao estado civil, metade declara ser casado e, a outra metade, solteiro, sendo a maioria de religião muçulmana, dos quais um disse ser tanto muçulmano quanto cristão, outro ter essa religião, mas não acreditar e/ou seguir e, ainda, outro que mencionou ser cristão.

Tabela 1 -
Caracterização sociodemográfica dos participantes

Instrumento e procedimentos de coleta dos dados

O instrumento utilizado para a coleta de dados foi a entrevista individual, no formato on-line, pelas plataformas Google Meet e Zoom, devido ao contexto pandêmico em que foi realizada. As entrevistas foram feitas a partir de um roteiro semiestruturado, que permitiu um desenho de pesquisa mais flexível, a fim de responder ao objetivo de estudo (Rubin, Rubin, 1995RUBIN, Herbert; RUBIN, Irene. Qualitative Interviewing. London: Sage, 1995. ). Em linhas gerais, o roteiro era composto pelos seguintes conjuntos temáticos: histórias de vida, inserção social, representações e práticas de masculinidades e dados sociodemográficos. Conforme mencionado anteriormente, para fins deste artigo, foram considerados os conjuntos temáticos referentes às histórias de vida e à inserção social.

Tratamento dos dados

Para o tratamento dos dados, utilizou-se a análise de conteúdo (Bardin, 2000BARDIN, Laurence. Análise de conteúdo. São Paulo: Editora Edições 70, 2000.), por meio da qual sistematizou-se os conteúdos das entrevistas a partir do processo de categorização, que no caso deste trabalho, consistiu na categorização temática. Portanto, seguiu-se as etapas propostas por Bardin (2000)BARDIN, Laurence. Análise de conteúdo. São Paulo: Editora Edições 70, 2000., sendo elas: (i) pré-análise; (ii) exploração do material e codificação; e (iii) tratamento dos resultados.

Resultados

Nesta seção, são abordadas vivências dos entrevistados no que diz respeito aos seus processos de inserção social no Brasil. No primeiro momento, apresenta-se, para contextualizar, uma síntese das narrativas sobre a trajetória de vida dos participantes, conforme Tabela 2; em seguida, tem-se as categorias temáticas identificadas nas entrevistas sobre suas experiências de inserção como sujeitos sírios em situação de refúgio no Brasil (ver Tabela 3).

A partir dos resultados apresentados nas Tabelas 2 e 3, é possível observar que as experiências de deslocamento forçado dos participantes se deram, principalmente, devido à guerra na Síria, embora as saídas do país tenham ocorrido em momentos diferentes. Os entrevistados mencionaram, também, a receptividade positiva dos brasileiros, mas destacaram dificuldades em relação a interações, ao trabalho e ao idioma. As oportunidades de trabalho mostraram-se mais acessíveis no âmbito gastronômico, tendo a maioria dos participantes envolvimento com esse tipo de atuação laboral.

Tabela 2 -
Síntese das narrativas sobre a trajetória de vida dos participantes

As experiências dos entrevistados foram organizadas em quatro unidades temáticas, assim intituladas: Relações Interpessoais, Trabalho, Religião, e Preconceitos e Estereótipos (ver Tabela 3). Para cada uma dessas unidades temáticas, são apresentadas as categorias que as compuseram, bem como a sua descrição e incluídos os números de identificação dos participantes que trataram dessas categorias temáticas em suas entrevistas.

Quanto às relações interpessoais, na categoria amizade, os participantes abordaram questões como diferenças, proximidade e limites para contato, confiança e solidão. O Entrevistado 10 compartilhou que “tem amigos, mas muito poucos”. De acordo com ele, as diferenças não afetam a possibilidade de fazer amizade: “nunca foi um problema fazer amizade com uma pessoa que não pensa igual a mim”. Já o Entrevistado 6 destacou a dificuldade de fazer amizades no Brasil por trabalhar na rua. Segundo ele, existe discriminação com esse grupo de pessoas: “Por isso também é uma dificuldade fazer amizade, porque ninguém aceita, na minha opinião, fazer uma amizade com alguém que trabalha na rua. Ele tem razão, eu entendo isso”.

Na categoria relacionamento amoroso, os participantes compararam esse tipo de relacionamento na Síria e no Brasil. Dentro desse recorte, foram destacados aspectos referentes a: estabilidade financeira, religiosidade, namoro na Síria e diferenças culturais. O Entrevistado 3 mencionou a importância da estabilidade financeira para um relacionamento amoroso: “Eu preciso casar, mas não vou casar como estou agora. Eu preciso ter o meu trabalho, não trabalhar para outra pessoa. Eu não estou sempre na mesma cidade, no mesmo trabalho”. O Entrevistado 9, que é cristão, destacou a influência da religião e disse que tem vergonha de estar socialmente com uma mulher que “não é dele”. E sobre os costumes culturais, o Entrevistado 7 abordou o respeito necessário acerca dos costumes culturais, pois, segundo ele, “cada país tem uma cultura diferente. Se quiser ter um relacionamento com uma pessoa estrangeira você tem que respeitar as tradições dele”.

No que diz respeito à categoria relacionamento familiar, os conteúdos encontrados foram sobre a influência da família, o contato e as diferenças culturais nesse tipo de relação comparando Brasil e Síria. De acordo com os participantes, a família influencia no contexto de casamento, como explicou o Entrevistado 2: “se essa família não me conhece bem e eu fui e entrei nessa família, eles vão me pedir casa em nome dela, ouro em nome dela, dinheiro em nome dela”. Em relação ao contato com a família, o Entrevistado 6 disse que a distância da família é uma dificuldade para ele e revelou: “chorei quando saí de casa, porque… (risos) porque acho que eu sabia que não ia ver eles de novo”. Para o Entrevistado 8, a forma como são construídos os relacionamentos familiares na Síria e no Brasil é diferente, porque “lá o relacionamento é mais importante do que aqui. Lá é bem forte essa questão do relacionamento, com a família por exemplo, estão sempre juntos. Não vi isso aqui não”.

A categoria relação com os brasileiros trouxe conteúdos que tratam da receptividade desse povo com os participantes e de sua importância para eles. O Entrevistado 5 contou que essa relação lhe dá esperança: “A minha vida mudou pra melhor, porque a guerra estava me deixando muito triste longe dos meus filhos, mas o tratamento bom das pessoas do Brasil me dá esperança na vida”. Do mesmo modo, o Entrevistado 7 compartilhou: “Quando eu cheguei ao Brasil, eu nunca me senti como refugiado. Eu fui recebido como um membro da família carioca, eu fui acolhido pelo povo brasileiro”.

Tabela 3 -
Experiências de inserção social no Brasil

O uso do idioma português também foi identificado como importante recurso para as relações sociais. Os participantes falaram de suas experiências no âmbito interacional e de como o idioma interfere nesse contexto, sendo unânime a dificuldade com a língua. O Entrevistado 6 disse: “A maior dificuldade quando eu cheguei foi a língua portuguesa. Mas na sociedade como homem não. A maior dificuldade foi a língua e o trabalho também. Não tem outra coisa”. Também o Entrevistado 3 abordou essa questão: “meus amigos vão sair na rua, mas eu tenho vergonha de sair na rua porque eu não sei falar português. O brasileiro nunca falou ‘você não sabe’, eles riem quando eles me escutam falar em português”.

Com relação ao trabalho, segunda unidade temática identificada, os participantes falaram sobre diferentes vivências, tendo alguns já trabalhado na Síria em sua área de formação (antes de mudarem para o Brasil), enquanto outros trabalhavam em empregos fora da área e alguns, ainda, trabalhavam e estudavam ao mesmo tempo. O Entrevistado 5 comentou que sua situação financeira era bem diferente na Síria: “Na verdade, eu tinha muito dinheiro. Tinha um mercadinho, tinha uma banca de jornal, pra tirar xerox. Eu trabalhava como comerciante e eu também sou profissional de treinar na academia”. Já quanto ao aspecto do trabalho no Brasil, todos os participantes relataram ter tido experiências e oportunidades no ramo gastronômico, mas ressaltaram as dificuldades de acesso a outros tipos de trabalho. O Entrevistado 6 disse que “naquela época, se eu soubesse que poderia trabalhar com entrega, com certeza eu ia trabalhar, com certeza ou como uber, eu posso tirar uma carteira de motorista aqui, com certeza. Mas foi muito difícil porque ninguém deu esse conselho pra mim. Nem sírio e nem brasileiro”.

Na terceira unidade temática, relativa à religião, sobre o conflito religioso, os participantes comentaram que a religião gera diversidade na forma de se pensar o mundo e, consequentemente, pode causar conflitos, quando as diferenças se encontram. Nas palavras do Entrevistado 6: “a religião é o maior problema agora. E eu vi também agora várias pessoas religiosas também têm pensamentos diferentes”. Assim como comenta o Entrevistado 10 que “as relações boas caiu. Tudo por causa da guerra, porque a guerra foi, infelizmente, no começo foi guerra de religião”.

Os grupos religiosos citados nas entrevistas foram o islamismo e o cristianismo. O Entrevistado 9, que é cristão, ressaltou que havia dificuldades de seguir essa religião, pois “como cristão é difícil de morar em comunidades porque a maioria são muçulmanas”. Já sobre o islamismo, o Entrevistado 3 destacou seu orgulho de fazer parte desse grupo religioso: “Eu não tô triste ou nervoso porque eu sou muçulmano, eu me orgulho da minha religião, eu gosto muito de fazer oração, fazer jejum, a gente faz jejum todo ano, então não acho diferente”. Apesar dessas declarações, na categoria crenças e descrenças religiosas, dois participantes revelaram que não acreditam/não seguem nenhuma religião. Assim, o Entrevistado 10 explicou: “Tipo, de ter eu tenho. Minha religião é islã, mas eu não acredito, não. Mas vocês, eu acho que já ouvi falar que quando não acredita não tem religião, né? Então, não tenho religião”; enquanto o Entrevistado 3 declarou a sua crença no islamismo: “Quando dá a hora da oração, o homem de verdade deixa tudo que ele tá falando e vai fazer a oração. Isso no alcorão chama homem”.

Finalizando os conteúdos que versam sobre a inserção social dos entrevistados, tem-se a unidade temática referente a preconceitos e estereótipos. As categorias generalização do povo/cultura síria e discriminação com o povo/cultura síria expressam os preconceitos sofridos pelo grupo vivendo no Brasil. Em relação à primeira categoria, o Entrevistado 3 mencionou a ideia generalizada sobre os sírios como homem-bomba. Segundo ele: “Quando eu cheguei no Brasil, as pessoas brincavam comigo, elas falavam ‘homem-bomba’, por exemplo. Eles não sabem que eu não sou isso, eu sou homem que fugiu da bomba”. Do mesmo modo, o Entrevistado 4 disse que “as pessoas pensam mal dos muçulmanos, porque nunca tiveram contato com ou sabem só as coisas que aparecem na TV, que o muçulmano explode”. Esse tipo de interpretação pode promover vivências discriminatórias para com o povo/cultura síria. O Entrevistado 10 contou que a discriminação, por vezes, vem marcada pela própria adjetivação da palavra sírio: “se um sírio que fez isso, não vão falar que foi uma pessoa que fez isso, vão falar ‘sírio. E o Entrevistado 3 expressa, ainda: “Eu, às vezes, não gosto, fico com raiva, mas eu explico pra pessoa que isso não é brincadeira e que isso pode machucar as pessoas. Eu falo, nem todo mundo lá é homem-bomba de verdade”.

Discussão

Com o objetivo de analisar os processos de inserção social dos sujeitos sírios em situação de refúgio no Brasil que participaram deste estudo, partiu-se de quatro dimensões centrais, relativas às interações sociais estabelecidas no âmbito das suas relações interpessoais, às suas experiências sobre o mundo do trabalho, à força da religião e seus dilemas para as suas vidas, e ao enfrentamento das discriminações por eles sofridas, especialmente no que se refere aos estereótipos propagados sobre os sírios em geral.

Ao discorrem acerca de suas relações interpessoais, os entrevistados destacaram a temática da amizade, a qual, conforme discutem Garcia e Costa (2014GARCIA, Agnaldo; COSTA, Lorena. Amizade e Migração Internacional: O Caso de Gregos no Espírito Santo. Interação em Psicologia (Online), v. 18, n. 3, p. 297-308, 2014. Disponível em: Disponível em: http://dx.doi.org/10.5380/psi.v18i3.29254 . Acesso em: 02.02.2023.
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), se configura como um fator importante no processo de adaptação de migrantes no país de acolhida. No caso dos participantes do presente estudo, foi destacada a solidão como um desafio para a formação de redes de interação. Além disso, considerando que os entrevistados apontaram para diferenças no modo como se configura o relacionamento amoroso na Síria e no Brasil e que os relacionamentos familiares são mantidos à distância por causa do contexto de guerra, as amizades são os primeiros relacionamentos desenvolvidos no Brasil por esses indivíduos. Esta relação auxilia na sua inserção e faz com que eles não se sintam estranhos e rejeitados (Guerra, 2017GUERRA, Sidney. A nova lei de migração no Brasil: avanços e melhorias no campo dos direitos humanos. Revista de Direito da Cidade, v. 9, n. 4, 2017, p. 1717-1737. Disponível em: Disponível em: https://doi.org/10.12957/rdc.2017.28937 . Acesso em: 02.02.2023.
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). Apesar disso, de modo geral, os participantes expressaram em seus relatos a importância da relação familiar e demonstraram sentir falta dessas relações, as quais são valorizadas em suas narrativas. De forma unânime, os participantes declararam, ainda, que mantêm contato via internet com seus parentes.

Em contrapartida, ainda que os resultados das entrevistas realizadas apresentem conteúdos que confirmam uma boa receptividade dos brasileiros com os entrevistados, os participantes mencionaram, também, situações de discriminação por eles vividas, desde que chegaram ao Brasil. Essa situação confirma o que discute Pucci (2019PUCCI, Fabio. Sírios em situação de refúgio em São Paulo: entre a hospitalidade e a intolerância. Ponto-e-vírgula, n. 25, p. 57-69, 2019. Disponível em: Disponível em: https://revistas.pucsp.br/index.php/pontoevirgula/article/view/51153/33744 . Acesso em: 02.02.2023.
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) sobre a ambiguidade do tratamento dos brasileiros em relação a esse grupo. Concepções preconceituosas e estereotipadas sobre o povo e/ou a cultura síria que circulam nas mídias, por exemplo, com ideias negativas pré-concebidas acerca da religião islâmica, podem fomentar situações discriminatórias, resultando em islamofobia (Heleno,Reinhardt, 2019HELENO, Barbara; REINHARD, Rafaella. Migração e mídia: identidade, racismo e intolerância na migração de sírios e haitianos para o Brasil. Revista do Instituto de Ciências Humanas, v. 15, n. 22, p. 67-79, 2019. Disponível em: Disponível em: http://periodicos.pucminas.br/index.php/revistaich/article/view/18966/14816 . Acesso em: 07.07.2023.
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), como a associação do segmento sírio islã à ideia de “homem bomba”, relatada nos resultados do presente estudo.

O idioma mostrou-se um elemento central nas vivências dos entrevistados, pois interfere nas suas relações interpessoais e, consequentemente, em outros aspectos como o trabalho. O idioma é uma necessidade imediata desses indivíduos, posto que precisam ter conhecimento da língua para se comunicar e viver no país de acolhida. Como argumentam Milesi e Andrade (2015MILESI, Rosita; ANDRADE, William. A sociedade civil na atenção aos imigrantes e refugiados - o agir do IMDH. In: PRADO, Erlan; COELHO, Renata (orgs.). Migrações e trabalho. Brasília: MPT, 2015, p. 175-202.), o conhecimento do português garante que os direitos desses sujeitos sejam assegurados. Para acessar os direitos relacionados à saúde mental e física, por exemplo, que são uma necessidade, como mostram diversos estudos (Galina et al., 2017GALINA, Vivian; SILVA, Tatiane; HAYDU, Marcelo; MARTIN, Denise. Literature review on qualitative studies regarding the mental health of refugees. Interface (Botucatu), v. 21, n. 61, 2017, p. 297-308. Disponível em: Disponível em: https://www.scielo.br/j/icse/a/bYJGXPKXXnjwvMtxcBX8MXP/?lang=en . Acesso em: 20.01.2023.
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; Guntars et al., 2023GUNTARS, Ermansons; KIENZLER, Hanna; ASIF, Zara; SCHOFIELD, Peter. Refugee mental health and the role of place in the Global North countries: A scoping review. Health & Place, v. 79, 2023, p. 1-20. Disponível em: Disponível em: https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S1353829223000011 . Acesso em: 02.02.2023.
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; Jucá et al., 2022JUCÁ, Bruna; ARGOLO, Elane; HORTELAN, Michele; GEISLER, Sandonaid. A humanização no atendimento a refugiados em região de fronteira: scoping review. Ciências da Saúde: desafios e potencialidades em pesquisa, v. 1, 2022, p. 17-26. Disponível em: Disponível em: https://downloads.editoracientifica.com.br/articles/221010397.pdf . Acesso em: 26.01.2023.
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; Mattar, Gellatly, 2022MATTAR, Sandra; GELLATLY, Resham. Refugee mental health: Culturally relevant considerations. Current Opinion in Psychology, v. 47, 2022. Disponível em: Disponível em: https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S2352250X22001506 . Acesso em: 25.01.2023.
https://www.sciencedirect.com/science/ar...
; Moreira, 2021MOREIRA, Mariana. Refugiados e o acesso aos serviços de saúde: uma revisão integrativa da literatura. Trabalho de conclusão de curso. Universidade Federal Fluminense, Niterói, 2021. Disponível em: Disponível em: https://app.uff.br/riuff/handle/1/23575 . Acesso em: 03.02.2023.
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), é preciso ter conhecimento do idioma.

Do mesmo modo, o trabalho é uma questão fundamental nas experiências dos participantes. Todavia, mostrou-se um fator complexo e de grande dificuldade para eles enquanto indivíduos em situação de refúgio. Os resultados apresentaram, assim como destacado na pesquisa de Teixeira et al. (2020)TEIXEIRA, Ana; SILVA, Eliana; BALOG, Daniela; SÁ, Bianca. Why is it so hard to belong? The difficulties of refugees in their integration processes within Brazilian society and labor market. Cadernos EBAPE.BR, v. 19, n. 2, 2021, p. 265-277. Disponível em: Disponível em: https://www.scielo.br/j/cebape/a/cgsJ9pBSDSjn7mQnqWSxpJC/?format=pdf⟨=en . Acesso em: 10.02.2023.
https://www.scielo.br/j/cebape/a/cgsJ9pB...
, conteúdos que revelam problemas no âmbito laboral atrelados à dificuldade de acesso ao idioma, à discriminação, à dificuldade para trabalhar na área de formação e/ou de validá-la e ao acesso restrito de conhecimento apenas da própria comunidade da qual fazem parte, como o acesso a oportunidades limitado ao ramo gastronômico pela maioria dos participantes. Os resultados também revelaram a frustração de alguns entrevistados devido à falta de perspectiva e êxito no alcance de empregos, o que pode influenciar nos seus processos de inserção social, pois, como explicam Pucci e Truzzi (2020PUCCI, Fabio; TRUZZI, Oswaldo. Sírios em São Paulo: trabalho, economia e identidade étnica. Revista Territórios & Fronteiras, Cuiabá, v. 13, n. 2, p. 137-165, 2020. Disponível em: Disponível em: https://periodicoscientificos.ufmt.br/territoriosefronteiras/index.php/v03n02/article/view/1034/pdf . Acesso em: 10.02.2023
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), estar inserido no mercado de trabalho auxilia nos sentimentos de autoconfiança e dignidade; do contrário, pode ter resultados negativos, como a desesperança, presente em algumas das falas dos participantes, além de problemas de saúde. Desse modo, o contexto trabalhista experienciado por esses sujeitos que precisaram sair de modo forçado de seus países para se instalarem em outro, como é o caso dos entrevistados neste estudo, mostra-se desafiador. Como descreveu o relatório do World Bank Group (2020)WORLD BANK GROUP. The Mobility of Displaced Syrians An Economic and Social Analysis. Washington: The World Bank, 2020. Disponível em: Disponível em: https://openknowledge.worldbank.org/bitstream/handle/10986/31205/9781464814013.pdf . Acesso em: 01.02.2023.
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, o deslocamento, que ocorre devido à busca por segurança e preservação da vida desses indivíduos, pode ocasionar também diminuição da sua qualidade de vida, ao envolver transições relativas a diferentes âmbitos de suas vidas, como o trabalho.

Dado o cenário de guerra ainda vigente na Síria, como explicam Valenta et al. (2020VALENTA, Marko; JACOBSEN, Jo; ZUPARI-C-ILJI, Drago; HALILOVICH, Hariz. Syrian Refugee Migration, Transitions in Migrant Statuses and Future Scenarios of Syrian Mobility. Refugee Survey Quarter, v. 39, n. 2, p. 153-176, 2020. Disponível em: Disponível em: https://academic.oup.com/rsq/article/39/2/153/5843511 . Acesso em: 01.02.2023.
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), o repatriamento é uma condição complexa, o que faz com que muitos sírios permaneçam no país de acolhida. Desse modo, torna-se essencial que os processos de adaptação e inserção desses sujeitos aconteçam de forma efetiva, dando-lhes acesso aos direitos e acolhendo-os de modo que não se sintam marginalizados e que possam (re)construir estratégias para superar as dificuldades encontradas nesses processos, como em questões relativas ao trabalho, ao idioma, às diferenças culturais, às políticas públicas e à discriminação, conforme observado nos resultados desta pesquisa, corroborando resultados de estudos anteriores, como os de Gevehr e Bortoli (2022GEVEHR, Luciano; BORTOLI, Gabriel. Migrações contemporâneas e estudos culturais: uma revisão da literatura científica. In: GEVEHR, Luciano (org.). Raça, Etnia e Gênero: questões do tempo presente. São Paulo: Editora Científica, 2022, p. 56-73.) e de Wendling et al. (2020WENDLING, Andressa; ARNOLD, Vilma; SBEGHEN, Camila; MACEDO, Jaqueline; GIONGO, Carmem. Uma revisão integrativa da literatura nacional e internacional sobre refugiados. Revista Baiana de Saúde Pública, v. 44, n. 4, p. 273-293, 2020. Disponível em: Disponível em: https://rbsp.sesab.ba.gov.br/index.php/rbsp/article/view/3153/3034 . Acesso em: 09.02.2023.
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).

Considerações finais

Este estudo buscou analisar as vivências e experiências de inserção social de 10 homens sírios em situação de refúgio no Brasil. Primeiramente, foi feito o resgate de informações sobre os contextos e histórias de vida dos participantes e, em seguida, analisou-se as vivências dos entrevistados com foco nas questões relacionadas às suas inserções sociais no Brasil.

Ao observar os resultados referentes às histórias de vida dos participantes, nota-se que existem pontos semelhantes em suas vivências. Dentre eles, a razão pela qual os entrevistados precisaram se refugiar no Brasil, ou seja, o contexto de guerra na Síria, que, em alguns casos, já impossibilitava a manutenção da vida no território local. Outros aspectos em comum em suas narrativas foram as dificuldades que envolvem o contexto laboral, a comunicação em outro idioma e a (re)construção da vida em outra cultura. Assim, as temáticas relativas ao trabalho, à religião, às relações interpessoais e às discriminações sofridas foram centrais nas narrativas analisadas.

No que concerne às limitações deste estudo, pode-se destacar os seguintes pontos: a impossibilidade de acessar de forma mais ampla outras vivências de mesmo contexto que os participantes; o não conhecimento, por parte das pesquisadoras, da língua nativa dos participantes, sendo usado, na entrevista, o português, o que impossibilitou, em alguns momentos, que elas conseguissem se expressar e compreender com maior profundidade os significados trazidos pelos participantes; e os percalços para conseguir acessar e obter o aceite dos participantes para a pesquisa, visto que as temáticas abordadas nas entrevistas poderiam ser mais sensíveis e/ou causar desconforto para alguns indivíduos.

A guerra na Síria ainda não chegou ao fim, o que significa que seu povo ainda está deixando seu país devido às condições precárias em que muitos se encontram. Em consequência disso, os processos migratórios de sujeitos sírios são recorrentes no mundo. Desse modo, pensar em suas experiências e vivências no meio social do país de acolhida, como o Brasil, mostra-se fundamental, tendo em vista que algumas diferenças culturais (tais como o idioma, os costumes e os hábitos cotidianos) podem dificultar os processos de inserção desses indivíduos, conforme pontuam Pucci (2019PUCCI, Fabio. Sírios em situação de refúgio em São Paulo: entre a hospitalidade e a intolerância. Ponto-e-vírgula, n. 25, p. 57-69, 2019. Disponível em: Disponível em: https://revistas.pucsp.br/index.php/pontoevirgula/article/view/51153/33744 . Acesso em: 02.02.2023.
https://revistas.pucsp.br/index.php/pont...
), Ribeiro e Baeninger (2022RIBEIRO, Juliana; BAENINGER, Rosana. Migrantes internacionais no Brasil e a ambivalência hospitalidade-hostilidade. In: Seminário Nacional de Sociologia da UFS, v. 4, p. 1-25, 2022. Disponível em: Disponível em: https://ri.ufs.br/bitstream/riufs/16997/2/MigrantesBrasilHospitalidadeHostilidade.pdf . Acesso em: 10.07.2023.
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) e Vetrano (2015VETRANO, Nicola. O papel do Estado e das organizações sociais na preservação dos Direitos Humanos do trabalhador migrante. In: PRADO, Erlan; COELHO, Renata (orgs.). Migrações e trabalho. Brasília: MPT, 2015, p. 41-54. ). Apesar de se mostrar um tema em evidência, novas pesquisas nesse contexto envolvendo a colaboração de diferentes áreas de conhecimento podem gerar importantes reflexões e resultados que sejam instrumentalizadores ao desenvolvimento de estratégias para o efetivo acolhimento e promoção de qualidade de vida para pessoas em situação de refúgio.

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  • 1
    O documento original pode ser acessado na íntegra em: https://www.un.org/en/development/desa/population/migration/generalassembly/docs/globalcompact/A_RES_73_195.pdf.

Editores do dossiê

Roberto Marinucci, Barbara Marciano Marques

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    04 Set 2023
  • Data do Fascículo
    May-Aug 2023

Histórico

  • Recebido
    14 Fev 2023
  • Aceito
    09 Jun 2023
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