Open-access Comunicação de más notícias por enfermeiros em pediatria: revisão de escopo

RESUMO

Objetivo:  Mapear características da comunicação de más notícias por enfermeiros em pediatria.

Método:  Revisão de escopo conforme recomendações do JBI e do PRISMA-ScR. As buscas ocorreram entre março e maio de 2024 em seis bases de dados, uma biblioteca virtual e sete repositórios de teses/dissertações, sem restrição temporal ou de idioma. Dois revisores independentes/cegados realizaram a seleção e um terceiro resolveu divergências. A coleta de dados utilizou instrumento adaptado do Cochrane data collection form, com síntese descritiva e análise conforme literatura científica.

Resultados:  A amostra foi composta por 31 estudos, 13 abordando a comunicação de más notícias à criança/adolescente, 10 aos seus familiares e 8 contemplando ambos os públicos. Comunicar más notícias em pediatria possui características específicas, considerando estágios de desenvolvimento da criança, contexto familiar e fatores culturais. Como facilidades, destacam-se a colaboração da equipe multiprofissional e o vínculo pelo maior tempo de contato do enfermeiro com a criança/adolescente. Entre dificuldades, sobressaiu-se a falta de preparo, conhecimento, autoconfiança, experiência e segurança. As ações do enfermeiro incluem apoiar, acolher e encorajar a família e a criança/adolescente.

Conclusão:  A comunicação de más notícias é uma prática complexa que exige adequação aos aspectos cognitivos e emocionais da criança/adolescente e da família, sendo prejudicada por limitações no preparo profissional.

Descritores:
Enfermeiros; Enfermagem Pediátrica; Revelação da Verdade; Comunicação em saúde; Saúde da Criança; Saúde do Adolescente

ABSTRACT

Objective:  To map characteristics of bad news communication by nurses in pediatrics.

Method:  Scoping review according to JBI and PRISMA-ScR recommendations. Searches were conducted between March and May 2024 in six databases, one virtual library, and seven thesis/dissertation repositories, without temporal or language restrictions. Two independent/blinded reviewers performed the selection, and a third resolved disagreements. Data collection used an instrument adapted from the Cochrane Data Collection form, with descriptive synthesis and analysis according to scientific literature.

Results:  31 studies comprised the sample, 13 addressing the communication of bad news to the child/adolescent, 10 to their families, and eight encompassing both audiences. Breaking bad news in pediatrics has specific characteristics, considering the child’s developmental stages, family context, and cultural factors. Facilitating factors include the collaboration of the multiprofessional team and the bond established through the nurse’s longer contact time with the child/adolescent. Among the difficulties, the lack of preparation, knowledge, self-confidence, experience, and security stand out. The nurse’s actions include supporting, welcoming, and encouraging the family and child/adolescent.

Conclusion:  Breaking bad news communication is a complex practice that requires adaptation to the cognitive and emotional aspects of the child/adolescent and family, and is hindered by limitations in professional preparation.

Descriptors:
Nurses; Pediatric nurses; Truth disclosure; Health communication; Child Health; Adolescent Health

RESUMEN

Objetivo:  Mapear las características de la comunicación de malas noticias por parte de enfermeras en pediatría.

Método:  Revisión exploratoria según las recomendaciones del JBI y PRISMA-ScR. Las búsquedas se realizaron entre marzo y mayo de 2024 en seis bases de datos, una biblioteca virtual y siete repositorios de tesis/disertaciones, sin restricciones temporales ni de idioma. Dos revisores independientes/ciegos realizaron la selección y un tercero resolvió las discrepancias. La recolección de datos se realizó mediante un instrumento adaptado del Cochrane Data Collection form, con síntesis descriptiva y análisis según la literatura científica.

Resultados:  La muestra se compuso de 31 estudios, 13 sobre la comunicación de malas noticias al niño/adolescente, 10 a sus familias y ocho abarcando ambos públicos. La comunicación de malas noticias en pediatría presenta características específicas, considerando las etapas de desarrollo del niño, el contexto familiar y los factores culturales. Entre los factores facilitadores se incluyen la colaboración del equipo multidisciplinario y el vínculo establecido a través del mayor tiempo de contacto de la enfermera con el niño/adolescente. Entre las dificultades, destacan la falta de preparación, conocimientos, confianza en sí mismo, experiencia y seguridad. Las acciones de la enfermera incluyen apoyar, acoger y animar a la familia y al niño/adolescente.

Conclusión:  Comunicar malas noticias es una práctica compleja que requiere adaptación a los aspectos cognitivos y emocionales del niño/adolescente y la familia, y se ve obstaculizada por limitaciones en la preparación profesional.

Descriptores:
Enfermeros; Enfermería Pediátrica; Revelación de la Verdad; Comunicación en Salud; Salud Infantil; Salud del Adolescente

INTRODUÇÃO

A comunicação é compreendida como um processo essencial às relações sociais, envolvendo dinâmicas verbais e não verbais entre emissor e receptor1-2. No campo da saúde, constitui-se ferramenta terapêutica indispensável, promotora de integralidade, participação, reflexão, resolutividade e solidariedade no cuidado3. Sua efetividade impacta diretamente na qualidade do cuidado, configurando-se como uma das seis metas internacionais de Segurança do Paciente, ao prevenir danos evitáveis mediante a inclusão de pacientes, familiares e profissionais4.

Nesse âmbito, insere-se a comunicação de más notícias, entendida como a transmissão de informações que provocam uma mudança substancial e negativa na perspectiva de futuro dos indivíduos, ao ameaçar sua condição física, mental ou modo de vida. Trata-se de um ato comunicacional capaz de alterar expectativas e desencadear repercussões emocionais como medo, ansiedade, tristeza, sofrimento e luto, tanto nos receptores da notícia quanto nos profissionais responsáveis por transmiti-la2,5-6.

O manejo desse processo exige competências comunicacionais, emocionais e éticas específicas, como a capacidade de escuta qualificada, empatia, clareza na transmissão das informações, manejo das próprias emoções e sensibilidade para reconhecer as necessidades cognitivas, culturais e afetivas do paciente e sua família. O enfermeiro, em particular, pela permanência contínua junto ao paciente e à família, desempenha papel central na comunicação, utilizando-a como instrumento inerente ao cuidado em todas as suas dimensões2,5,7. Tal perspectiva é reafirmada pela Política Nacional de Humanização do SUS, que valoriza o diálogo e a participação dos sujeitos no processo de saúde-doença8.

No contexto pediátrico, a comunicação apresenta peculiaridades relacionadas ao desenvolvimento cognitivo, social e psicológico, que tornam crianças e adolescentes especialmente vulneráveis diante de condições graves ou de risco de morte5-6,9. Estudos apontam que as principais más notícias nesse grupo etário envolvem diagnósticos de doenças crônicas e graves, como câncer e HIV, síndromes genéticas, deficiências e alterações no desenvolvimento, bem como situações de hospitalização grave, terminalidade e morte5-7,10. Além disso, no Brasil, o Estatuto da Criança e do Adolescente assegura o direito ao conhecimento da condição de saúde, em consonância com a autonomia progressiva desse público10-11.

Apesar desse reconhecimento legal e ético, evidências mostram que o silêncio e a postergação da comunicação ainda prevalecem, sendo frequentemente motivados pelo medo de consequências adversas. No entanto, estudos revelam que a omissão tende a intensificar o sofrimento, enquanto a comunicação oportuna favorece melhor aceitação e enfrentamento2,12. Nesse cenário, enfermeiros pediátricos lidam diariamente com situações que exigem habilidades comunicacionais específicas, mas frequentemente se sentem inseguros e inabilitados, o que pode comprometer a qualidade e a segurança do cuidado7.

Diante disso, este estudo se justifica pela necessidade de compreender as características da comunicação de más notícias por enfermeiros em pediatria. Somado a isso, a produção científica sobre o tema ainda é escassa, o que representa uma lacuna importante9-10,12, o que torna a revisão de escopo o método mais adequado para mapear de forma abrangente as evidências disponíveis, identificar características dessa prática e reconhecer lacunas do conhecimento. Tal compreensão pode subsidiar a construção de protocolos assistenciais, orientar estratégias de formação profissional e apoiar o desenvolvimento de competências comunicacionais desde a graduação até a educação permanente. Assim, este estudo tem como objetivo mapear as características da comunicação de más notícias realizadas por enfermeiros em pediatria.

MÉTODO

Trata-se de uma revisão de escopo desenvolvida com base nas recomendações do Joanna Briggs Institute Reviewer’s Manual e do guia internacional PRISMA Extension for Scoping Reviews (PRISMA-ScR)(13. Por sua vez, o protocolo da presente revisão foi registrado na plataforma Open Science Framework (OSF), identificado pelo DOI: https://doi.org/10.17605/OSF.IO/QYFSV.

Conforme preconizado pelo Joanna Briggs Institute (JBI), a presente revisão foi estruturada em oito etapas, a saber: 1) definição da questão coerente com o objetivo; 2) critérios de inclusão em conformidade com o objetivo e a questão; 3) descrição da abordagem para a busca de evidência, seleção, extração e mapeamento; 4) busca de evidências; 5) seleção de evidências; 6) extração de evidências; 7) mapeamento de evidências; e 8) resumo de evidências em relação ao objetivo e à questão14.

Coleta de dados

A questão de pesquisa foi elaborada com base no mnemônico PCC (População, Conceito e Contexto), conforme recomendado pelo JBI para revisões de escopo. Esse modelo conceitual orienta a formulação da pergunta de pesquisa e a definição dos critérios de inclusão. Assim, a população (P) corresponde aos enfermeiros - indivíduos graduados em enfermagem, integrantes da equipe multiprofissional e que exercessem a profissão de enfermeiro; o conceito (C) corresponde à comunicação de más notícias - processo de comunicação de notícias que podem causar sentimentos negativos; e o contexto (C) corresponde à pediatria - assistência a indivíduos com faixa etária de 0 a 19 anos, 11 meses e 29 dias nos diferentes contextos de atenção à saúde. Portanto, foi formulada a seguinte questão de pesquisa: “Como se caracteriza a comunicação de más notícias por enfermeiros em pediatria?”.

A busca aconteceu em três etapas. A primeira se deu previamente na PubMed, Biblioteca Virtual em Saúde (BVS) e Web of Science, no intuito de investigar se já havia possíveis estudos como este. Ademais, buscou-se na OSF, a fim de identificar protocolos de revisão semelhantes ao deste estudo. Entretanto, nenhum resultado foi obtido em todos esses meios. Logo, constatou-se a necessidade e a originalidade desta pesquisa, possibilitando a continuidade do seu desenvolvimento para a segunda etapa: busca nas bases de dados e biblioteca.

Em seguida, os descritores utilizados foram pesquisados e encontrados nos Descritores em Ciências da Saúde (DeCS), a saber: Enfermeiros, Revelação da Verdade, Comunicação em Saúde, Pediatria, Saúde do Adolescente e Saúde da Criança, com seus correspondentes no vocabulário dos Medical Subject Headings (MeSH). Somado a eles, a fim de ampliar a busca, foram utilizadas as seguintes palavras-chave: Enfermeiros pediátricos, Informação e Comunicação em Saúde, Criança e Adolescente.

Assim, empregaram-se os operadores booleanos AND e OR, como descrito nas estratégias de busca apresentadas no Quadro 1. As estratégias de busca foram elaboradas pelos pesquisadores e avaliadas por uma bibliotecária com experiência em buscas sistematizadas em saúde, a qual validou a sua adequação, sendo aplicada de forma consistente em todas as fontes deste estudo.

Quadro 1-
Estratégias de busca empregadas por base de dados. Natal/RN, 2024.

A busca eletrônica dos estudos foi realizada em 26 de março de 2024 nas bases de dados, portais e bibliotecas: National Library of Medicine (PubMed/MEDLINE), Biblioteca Virtual em Saúde (BVS), Cumulative Index to Nursing & Allied Health Literature (CINAHL), SCOPUS, Web of Science, COCHRANE, Literatura Latino-Americana e do Caribe em Ciências da Saúde (LILACS). Ressalta-se que a busca nas bases de dados foi por meio do Portal de Periódicos da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES), pela identificação na Comunidade Acadêmica Federada (CAFe), utilizando o acesso pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte.

Posteriormente, na terceira etapa, entre 16 de abril e 15 de maio de 2024, realizou-se a busca na literatura cinzenta a partir dos repositórios nacionais e internacionais de teses e dissertações, a fim de encontrar publicações que respondessem à questão de pesquisa apresentada. Foram utilizados os seguintes repositórios: Portal de Teses e Dissertações da CAPES, The National Library of Australia (TROVE), Electronic Theses Online Service (EThOS), Repositório Científico de Acesso Aberto de Portugal (RCAAP), Theses Canada - Library and Archives Canada, Teses e Dissertações da América Latina, e Portal da Biblioteca Digital de Teses e Dissertações da Universidade de São Paulo.

Ademais, foi realizada uma busca reversa nas listas de referências dos artigos selecionados, e as publicações elegíveis foram incluídas na amostra final do estudo. Adicionalmente, procedeu-se à busca no Google Scholar, com análise dos 500 primeiros resultados, conforme recomendação metodológica para revisões de escopo, com o objetivo de ampliar a sensibilidade da busca e recuperar estudos relevantes não indexados em outras fontes. Por fim, buscaram-se materiais em sites eletrônicos de organizações de especialistas em pediatria, com o objetivo de ampliar a recuperação de materiais como normas técnicas, protocolos, manuais, guias e recomendações.

Critérios de seleção

Considerando a questão proposta, foram definidos os seguintes critérios de inclusão: 1) relacionados à população: estudos e/ou materiais de divulgação que evidenciaram o enfermeiro como membro da equipe multiprofissional ou que abordaram especificamente o exercício do enfermeiro no momento da comunicação de más notícias; 2) relacionados ao conceito: estudos e/ou materiais de divulgação que abordaram a comunicação de más notícias, incluindo seus aspectos técnicos, relacionais ou organizacionais; e 3) relacionados ao contexto: estudos e/ou materiais de divulgação desenvolvidos na pediatria, em diferentes níveis de atenção à saúde. Como critérios de exclusão, foram definidos: cartas ao editor, resumos, estudos e/ou materiais indisponíveis por acesso aberto na íntegra.

As buscas não utilizaram recorte temporal, restrição de idioma ou de tipo de delineamento do estudo. Utilizou-se a ferramenta Rayyan Intelligent Systematic Review®15 para apoio na identificação das duplicatas e no processo de seleção, não sendo utilizado software adicional antes da importação dos registros para o Rayyan Intelligent Systematic Review®. A seleção dos estudos para a amostra foi feita por dois revisores de forma independente e cega, com divergências resolvidas por um terceiro revisor.

O processo de seleção se iniciou com a leitura de títulos e resumos dos documentos. Em seguida, aqueles que, pela leitura do título e do resumo, atendiam aos critérios de inclusão e se alinhavam ao objetivo da investigação, foram analisados na íntegra. Os motivos para a exclusão das produções eliminadas foram quantificados e justificados. Após a leitura completa, os documentos selecionados para a amostra final foram categorizados conforme a abordagem metodológica e a temática, e os dados foram extraídos para a síntese das evidências.

Instrumento de coleta de dados

No tocante à coleta de dados, foi realizada mediante a utilização de um instrumento padronizado, adaptado do Cochrane data collection form, contendo as seguintes categorias: ano de publicação, país, tipo do material, desenho metodológico, objetivo(s) do estudo, contexto de atenção à saúde, estratégias utilizadas para a comunicação de más notícias por enfermeiros em pediatria, facilidades e dificuldades no processo de comunicação de más notícias por enfermeiros, atuação do enfermeiro no processo de comunicação de más notícias pelo enfermeiro em pediatria e conclusões do estudo.

Ressalta-se ainda que, previamente à coleta de dados definitiva, o instrumento foi submetido ao pré-teste, por meio do seu preenchimento piloto com um conjunto de estudos selecionados, no intuito de avaliar sua clareza, adequação e operacionalização. O pré-teste se mostrou satisfatório, não sendo necessárias modificações no instrumento. A extração dos dados foi realizada por dois revisores de forma independente e cega, utilizando o instrumento. Após essa etapa, as divergências foram resolvidas por um terceiro revisor, a fim de assegurar a consistência e a fidedignidade das informações.

Tratamento e análise dos dados

Os achados foram tratados e analisados de forma descritiva, em consonância com o objetivo da revisão de escopo, e à luz da literatura científica pertinente à temática. Os resultados foram organizados de acordo com as variáveis de interesse previamente definidas, não sendo empregada análise de conteúdo, e apresentados por meio de síntese narrativa e estatística descritiva simples, com frequências absolutas e relativas.

RESULTADOS

Foram identificados 2.622 registros nas bases de dados e 6 registros adicionais por outras fontes. Ao final do processo de seleção, 31 fontes de evidência foram incluídas na síntese desta revisão, sendo 26 artigos, 1 dissertação, 1 livro, 1 manual e 2 guias. O número de registros identificados, bem como as etapas de triagem, elegibilidade e inclusão, está apresentado no fluxograma adaptado do PRISMA-ScR (Figura 1).

Ressalta-se que, inicialmente, foram identificadas 616 duplicatas de apoio da ferramenta Rayyan®. Posteriormente, na etapa de elegibilidade, de forma manual, foram identificadas mais três duplicatas.

Figura 1 -
Fluxograma de busca da revisão (adaptado do PRISMA-ScR). Natal/RN, 2025.

Foram identificados estudos desenvolvidos em 11 países, com destaque para o Reino Unido (25,8%) e o Brasil (19,35%), que concentraram o maior número de publicações. Quanto ao delineamento metodológico, predominou a abordagem exploratória qualitativa (22,6%), seguida por métodos mistos (12,9%). Em relação à distribuição temporal, o ano de 2018 apresentou maior número de publicações (19,35%), seguido por 2013 (9,67%).

No que se refere aos cenários de cuidado, a maioria dos estudos foi realizada em contextos da Atenção Hospitalar (74,19%), enquanto 25,8% abordaram a atenção especializada ambulatorial. Dos 31 artigos incluídos, 28 (90,32%) evidenciaram o enfermeiro como integrante da equipe multiprofissional no processo de comunicação de más notícias em pediatria e 3 (9,67%) focaram exclusivamente na atuação do enfermeiro isoladamente. Além disso, 13 (41,93%) publicações abordaram a comunicação de más notícias dirigidas à criança/adolescente, 10 (32,25%) discorreram sobre o processo comunicativo voltado aos familiares e 8 (25,82%) contemplaram ambos os públicos. As publicações selecionadas como amostra foram organizadas de forma descritiva no Quadro 2.

Quadro 2-
Quadro sinóptico com a síntese dos estudos selecionados como amostra, Natal/RN, 2025.

As estratégias de comunicação identificadas foram agrupadas em três dimensões principais: relacionadas ao ato comunicativo (64,5%), à criança/adolescente e à família (35,48%), e às ferramentas ou recursos utilizados (32,25%), conforme o Quadro 3. No primeiro grupo, destacaram-se a condução gradual e contínua da comunicação (40%), a clareza e a franqueza das informações (35%), assim como o cuidado colaborativo em equipe inter ou multiprofissional (35%). Na dimensão voltada à criança/adolescente e à família, sobressaíram-se a adequação da comunicação aos níveis de desenvolvimento cognitivo, maturidade, conhecimentos prévios e questionamentos (72,72%), a consideração de fatores culturais, religiosos e afetivos (45,45%), e o estímulo à expressão de sentimentos pelos pais (45,45%).

Entre os recursos empregados, evidenciou-se o uso do lúdico (80%), além de grupos de apoio e recursos comunitários (60%). Por fim, entre as atribuições específicas do enfermeiro nesse processo, destacam-se o apoio, o acolhimento e o encorajamento à família e à equipe, assim como a capacitação, a educação e o aconselhamento de pais, crianças e adolescentes (85,18%).

Quadro 3-
Estratégias de comunicação de más notícias em pediatria e atuação do enfermeiro, Natal/RN, 2025.

Por sua vez, as facilidades para a comunicação de más notícias envolveram, sobretudo, a colaboração de equipes inter/multiprofissionais (12,9%) e o maior tempo de permanência do enfermeiro junto ao paciente e aos seus familiares (9,67%). Em contrapartida, as dificuldades mais recorrentes incluíram a falta de conhecimento, preparo, confiança, experiência e segurança (80,76%), a carência de recursos humanos e estruturais, a ausência de espaços adequados (30,76%) e a presença de estigmas, preconceitos e discriminação (100%), como apresentado no Quadro 4.

Quadro 4-
Facilidades e dificuldades da comunicação de más notícias por enfermeiros em pediatria, Natal/RN, 2025.

Tais achados evidenciam que as estratégias de comunicação e a atuação do enfermeiro se concentram predominantemente em abordagens relacionais e centradas na família, com destaque para a comunicação gradual e contínua, a adequação da linguagem ao nível de desenvolvimento e o uso de recursos lúdicos. A atuação do enfermeiro está principalmente associada ao apoio emocional, acolhimento e encorajamento junto à família e à equipe multiprofissional.

Por outro lado, as facilidades e dificuldades revelam que, embora existam condições favoráveis relacionadas, por exemplo, ao trabalho em equipe e à construção de vínculos de confiança, favorecidas pelo maior tempo de permanência do enfermeiro junto à criança/adolescente e à família, persistem barreiras estruturais, formativas e emocionais que limitam a consolidação de práticas comunicacionais sistematizadas na enfermagem pediátrica.

DISCUSSÃO

Os resultados desta revisão de escopo revelam que a comunicação de más notícias em pediatria tem sido abordada predominantemente no contexto hospitalar, com o enfermeiro atuando, na maioria das vezes, como integrante da equipe multiprofissional. As estratégias comunicacionais descritas se concentram no ato comunicativo, na adaptação da linguagem à criança, ao adolescente e à família, bem como no uso de recursos lúdicos e no apoio emocional. Entretanto, persistem dificuldades relacionadas à falta de preparo, segurança e recursos, além da presença de estigmas sociais, o que reforça a necessidade de fortalecer a formação, a sistematização das práticas e o reconhecimento do papel do enfermeiro na comunicação de más notícias em pediatria.

Nesse contexto, o Reino Unido se destacou pelo maior número de publicações sobre a temática, resultado do desenvolvimento consolidado de pesquisas, legislações e políticas públicas em Cuidados Paliativos desde a década de 1960, quando Dame Cicely Saunders introduziu o conceito, integrando dimensões psicológicas, sociais e espirituais ao cuidado e inaugurando um paradigma para a prevenção e o alívio do sofrimento humano47. Esse cenário evidencia a tradição internacional e a maturidade científica do tema naquele país, contrastando com a necessidade de maior investimento em pesquisas no contexto brasileiro.

Observou-se uma predominância de estudos qualitativos e de métodos mistos. Essa escolha metodológica pode ser explicada pela complexidade da comunicação de más notícias, fenômeno permeado por dimensões subjetivas, emocionais e culturais48. Os métodos qualitativos possibilitam explorar experiências e significados, enquanto os métodos mistos permitem uma análise mais abrangente, ao conjugar a profundidade qualitativa com a robustez explicativa de dados quantitativos49.

O ambiente hospitalar foi o cenário mais frequente, conferindo maior visibilidade à comunicação em situações clínicas complexas e prognósticos desfavoráveis. Entretanto, a restrição da produção a esse espaço aponta a necessidade de ampliação para outros pontos da Rede de Atenção à Saúde, em especial a Atenção Primária, onde o enfermeiro lida cotidianamente com notícias difíceis relacionadas a consultas de crescimento e desenvolvimento, diagnóstico de doenças infecciosas e condições crônicas, reforçando a importância de compreender o fenômeno em contextos distintos do hospitalar50-52.

Nos estudos analisados, o enfermeiro aparece como integrante da equipe multiprofissional, porém sua participação nem sempre é efetivamente reconhecida27,32-33,41,44. Considerando a proximidade desse profissional com pacientes e familiares, é essencial que sua atuação seja fortalecida e valorizada, uma vez que seu envolvimento antes, durante e após a comunicação contribui para minimizar impactos emocionais negativos e ampliar a integralidade do cuidado21,24,33,35,42-43.

A literatura aponta que a comunicação deve ocorrer de forma gradual e contínua, estruturada em etapas que envolvem preparação, definição do momento e do local, transmissão da informação e acompanhamento subsequente17,35. Recomenda-se que esse processo seja conduzido com clareza, franqueza e linguagem acessível, evitando terminologias excessivamente técnicas, que podem comprometer a compreensão19,30,32-33,38,45. Nesse sentido, o protocolo Setting, Perception, Invitation, Knowledge, Emotions, and Strategy (SPIKES), amplamente difundido, constitui recurso relevante para apoiar os profissionais, por sistematizar a comunicação em seis etapas que favorecem o desenvolvimento de habilidades comunicacionais53.

A adequação da linguagem às características individuais é fundamental, exigindo do enfermeiro sensibilidade para considerar a idade, o nível de desenvolvimento cognitivo, a maturidade e os interesses das crianças e adolescentes16-20,30-31,33. Além disso, fatores culturais, religiosos e afetivos das famílias devem ser respeitados, uma vez que influenciam a forma como a informação é recebida, assimilada e vivenciada30-31,41,54.

Nesse contexto, a prática assistencial do enfermeiro pode ser respaldada pela Taxonomia da NANDA International, que contempla diagnósticos relacionados às respostas humanas frequentes nesse processo, como resiliência prejudicada, comunicação verbal prejudicada, religiosidade prejudicada e ansiedade excessiva55. Tais diagnósticos reforçam que a comunicação de más notícias ultrapassa a dimensão informativa, configurando-se como intervenção de cuidado que deve ser planejada, executada e avaliada. A integração da NANDA-I ao processo comunicacional fortalece o Processo de Enfermagem, ampliando a sistematização e a cientificidade da prática clínica em pediatria.

Entre as estratégias empregadas, destacam-se recursos lúdicos — como o brinquedo terapêutico, analogias, contação de histórias e desenhos — para crianças, e ferramentas virtuais, vídeos e cartas para adolescentes17,29,31,33,42,56. Tais recursos favorecem a expressão de sentimentos, o protagonismo dos sujeitos e a compreensão das informações. Outro facilitador é a maior permanência do enfermeiro ao lado da criança e de sua família, possibilitando a construção de vínculos e relações terapêuticas, conforme preconiza a Teoria das Relações Interpessoais de Hildegard Peplau16,41,44,57-58.

Apesar dos avanços, persistem dificuldades relacionadas à falta de preparo, experiência, confiança e segurança, que podem gerar estresse emocional nos enfermeiros e repercutir negativamente na assistência, inclusive na percepção de familiares quanto à comunicação durante a hospitalização e o processo de terminalidade19,21,25,29,37,40,43. Para superar tais lacunas, os estudos indicam a necessidade de educação permanente, por meio de treinamentos e oficinas, que capacitem enfermeiros e estudantes a comunicarem notícias difíceis com maior competência e segurança25,36,43,46.

Outra barreira identificada se refere à presença de estigmas sociais e preconceitos relacionados a doenças como câncer, HIV e sífilis, que interferem na forma como a notícia é transmitida e assimilada27,29,34,37,40,42. O enfermeiro, pela proximidade no cuidado, assume papel estratégico no esclarecimento e no enfrentamento desses estigmas, em articulação com a equipe multiprofissional, contribuindo para reduzir barreiras e ampliar a compreensão17,59.

Nessa perspectiva, o enfermeiro deve ser reconhecido como educador e defensor da criança e de sua família. Compete-lhe não apenas coordenar, mas, em algumas situações, liderar ou iniciar o processo de comunicação, assegurando a inclusão dos cuidadores e o direito da criança e do adolescente ao acesso à informação sobre sua condição de saúde16,18,22,25,30,37,40-41,46. A institucionalização de protocolos, guias e estratégias formativas pode fortalecer esse papel, qualificando a assistência e garantindo maior segurança comunicacional no contexto pediátrico.

Diante do exposto, evidenciam-se lacunas de conhecimento relevantes, como a escassez de investigações que focalizem o enfermeiro como protagonista do processo, uma vez que a maioria dos estudos o descreve predominantemente como um dos integrantes da equipe multiprofissional. Destaca-se também a concentração da produção científica no cenário hospitalar, com limitada exploração de outros níveis da Rede de Atenção à Saúde. Evidencia-se ainda a fragilidade na sistematização das intervenções de enfermagem, pois a articulação das práticas comunicacionais com referenciais teóricos próprios da enfermagem e com o seu processo de trabalho permanece pouco explorada. Ademais, nota-se a carência de avaliação de protocolos, estratégias educativas e intervenções formativas específicas para enfermeiros.

Como limitações desta revisão, reconhece-se que a estratégia de busca, embora ampla, não contemplou todas as bases de dados potencialmente relevantes, o que pode ter limitado a recuperação de alguns estudos. Ainda assim, esse potencial viés foi atenuado pela realização de buscas em múltiplas bases relevantes para as áreas da enfermagem e da saúde, pela inclusão da literatura cinzenta em repositórios nacionais e internacionais e pela busca reversa nas referências dos estudos selecionados. Ademais, escolhas metodológicas inerentes ao processo de revisão, como a definição dos descritores, idiomas e estratégias de busca, podem ter influenciado a abrangência dos achados. Por fim, ressalta-se que, por se tratar de uma revisão de escopo, não houve avaliação da qualidade metodológica dos estudos.

Os achados desta revisão apresentam importantes implicações para a prática assistencial, a formação profissional e a pesquisa em enfermagem. Eles podem subsidiar a elaboração de protocolos institucionais para a comunicação de más notícias em pediatria, fortalecendo a atuação do enfermeiro de forma sistematizada e segura, bem como contribuir para o desenvolvimento de estratégias educativas na graduação e na educação permanente, com foco no aprimoramento das competências comunicacionais.

Recomenda-se, portanto, o desenvolvimento de pesquisas que relacionem a comunicação de más notícias aos diagnósticos e intervenções de enfermagem, de modo a aprofundar a análise à luz do Processo de Enfermagem e ampliar a aplicabilidade na prática clínica de enfermeiros.

CONCLUSÃO

Conclui-se que a comunicação de más notícias por enfermeiros em pediatria configura-se como uma prática complexa, pouco sistematizada e marcada pelo distanciamento entre o reconhecimento do papel do enfermeiro e sua efetiva centralidade no processo comunicacional. Embora frequentemente inserido nas equipes multiprofissionais, ele tem sua atuação descrita predominantemente como complementar ao processo.

Os achados evidenciam desafios recorrentes, como desconhecimento, despreparo, insegurança, falta de confiança e de experiência profissional. Em contrapartida, destacam-se fatores facilitadores relacionados à maior permanência do enfermeiro junto à criança/adolescente e à família, favorecendo a construção de vínculos terapêuticos e a continuidade do cuidado. As estratégias identificadas revelam a adoção de abordagens graduais, sensíveis e centradas na criança, adolescente e família, incluindo o uso de recursos lúdicos e ferramentas virtuais, bem como ações de apoio, acolhimento, aconselhamento, esclarecimento de dúvidas e coordenação da comunicação.

Contudo, tais práticas se mostram pouco fundamentadas em referenciais teóricos da enfermagem e pouco articuladas ao Processo de Enfermagem, o que compromete sua padronização, avaliação e incorporação. Diante disso, reforça-se a necessidade de fortalecer as competências comunicacionais do enfermeiro por meio de estratégias formativas estruturadas, da institucionalização de protocolos e da ampliação da produção de evidências, de modo a qualificar a prática de comunicação de más notícias no cuidado pediátrico.

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Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    27 Jul 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    19 Set 2025
  • Aceito
    11 Fev 2026
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