Open-access Rotinas de cuidado em famílias venezuelanas participantes do processo de interiorização

RESUMO

Objetivo:  Identificar rotinas de cuidado à saúde de famílias venezuelanas participantes do programa de interiorização da Operação Acolhida.

Método:  Pesquisa qualitativa, do tipo estudo de caso, realizada com quatro famílias venezuelanas interiorizadas na Grande Florianópolis, Santa Catarina. A coleta ocorreu entre abril e julho de 2021, utilizando a técnica de photovoice associada a entrevistas semiestruturadas. A análise foi temática e conduzida com o software Atlas.ti®.

Resultados:  As rotinas de saúde organizaram-se em torno do cuidado aos filhos e das extensas jornadas de trabalho, com a avó exercendo papel central no apoio familiar. As longas jornadas laborais limitaram o acesso à Atenção Primária à Saúde, dificultando consultas e a continuidade do cuidado. Barreiras linguísticas comprometeram a comunicação com as equipes, influenciando a adesão às orientações e o acompanhamento em saúde.

Conclusão:   As rotinas familiares atuam como determinantes do acesso à Atenção Primária entre famílias migrantes interiorizadas. Foram identificadas vulnerabilidades relacionadas às condições de trabalho, organização cotidiana e barreiras linguísticas, reforçando a necessidade de estratégias intersetoriais e culturalmente sensíveis voltadas à promoção da saúde mental e ao acolhimento dessas famílias.

Descritores:
Atenção primária à saúde; Saúde mental; Migração humana; Direitos humanos; Fotografia

ABSTRACT

Objective:   To identify healthcare routines among Venezuelan families participating in the Operation Welcome internal migration program.

Method:  Qualitative research, case study type, conducted with four Venezuelan families internalized in Greater Florianópolis, Santa Catarina. Data collection took place between April and July 2021, using the photovoice technique associated with semi-structured interviews. The analysis was thematic and conducted with Atlas.ti® software.

Results:  Health routines were organized around childcare and long working hours, with the grandmother playing a central role in family support. Long working hours limited access to primary health care, making it difficult to attend appointments and continue care. Language barriers compromised communication with the teams, influencing adherence to guidelines and health monitoring.

Conclusion:  Family routines act as determinants of access to Primary Care among migrant families living in the interior. Vulnerabilities related to working conditions, daily organization, and language barriers were identified, reinforcing the need for intersector and culturally sensitive strategies aimed at promoting mental health and supporting these families.

Descriptors:
Primary health care; Mental health; Human migration; Human rights; Photography

RESUMEN

Objetivo:  Identificar las rutinas de cuidado de la salud de las familias venezolanas participantes en el programa de interiorización de la Operación Acogida.

Método:  Investigación cualitativa, tipo estudio de caso, realizada con cuatro familias venezolanas interiorizadas en la Gran Florianópolis, Santa Catarina. La recopilación se llevó a cabo entre abril y julio de 2021, utilizando la técnica de photovoice asociada a entrevistas semiestructuradas. El análisis fue temático y se realizó con el software Atlas.ti®.

Resultados:  Las rutinas de salud se organizaron en torno al cuidado de los hijos y las largas jornadas laborales, con la abuela desempeñando un papel central en el apoyo familiar. Las largas jornadas laborales limitaron el acceso a la atención primaria de salud, dificultando las consultas y la continuidad de la atención. Las barreras lingüísticas comprometieron la comunicación con los equipos, lo que influyó en el cumplimiento de las orientaciones y el seguimiento de la salud.

Conclusión:  Las rutinas familiares actúan como determinantes del acceso a la atención primaria entre las familias migrantes interiorizadas.Se identificaron vulnerabilidades relacionadas con las condiciones de trabajo, la organización cotidiana y las barreras lingüísticas, lo que refuerza la necesidad de estrategias intersectoriales y culturalmente sensibles orientadas a la promoción de la salud mental y al acompañamiento de estas familias.

Descriptores:
Atención primaria de la salud; Salud mental; Migración humana; Derechos humanos; Fotografía

INTRODUÇÃO

O Relatório Anual do ACNUR (Alto Comissário das Nações Unidas para os Refugiados), de 2023, revela um marco de 117,3 milhões de deslocados forçados globalmente. Destes, 5,4 milhões são venezuelanos, configurando a maior crise migratória da América Latina. A maioria é composta por famílias com crianças, e mulheres grávidas1.

A crise na Venezuela impôs severos impactos ao sistema de saúde, já debilitado por sua fragmentação histórica e dependência da receita petrolífera. A crise econômica e as sanções internacionais agravaram a situação, culminando no colapso do sistema. A interrupção da vigilância em saúde, a suspensão de campanhas de vacinação e a escassez de recursos e medicamentos deterioraram os indicadores de saúde. Pacientes crônicos enfrentaram a falta de acesso a serviços de saúde, e houve um aumento de doenças preveníveis e endêmicas, prejudicando ainda mais a população2.

No Brasil, segundo a Plataforma Response for Venezuelans (R4V) o número de venezuelanos, até a metade de 2024, era de 570 mil, este número engloba refugiados reconhecidos, solicitantes de refúgio e venezuelanos com autorização de residência, o que caracteriza o fluxo como misto3.

A partir da crise iniciada, após 2018, a entrada de venezuelanos no Brasil se deu pelos estados do norte do país, principalmente Roraima, nas cidades de Pacaraima e Boa Vista. Dado o fluxo massivo nas fronteiras, tal movimento altera as rotinas dos serviços de saúde, educação e assistência social, gerando uma demanda adicional. No caso do sistema de saúde, Roraima já apresentava, antes da chegada dos imigrantes, uma estrutura precária, o que agravou a sobrecarga nos serviços4.

Inicialmente, a população recém-chegada era acolhida por Organizações Não Governamentais (ONGs) como a Cáritas e a Cruz Vermelha. Contudo, a chegada massiva de imigrantes e a falta de infraestrutura geraram uma crise humanitária, levando muitas famílias a ocuparem espaços públicos com barracas ou a compartilharem casas e apartamentos com várias pessoas5-6.

Em 2018, diante do fluxo massivo de venezuelanos e da crise humanitária no estado de Roraima, o Brasil instituiu, em parceria com agências internacionais, a Operação Acolhida, estruturada nos eixos de ordenamento de fronteira, acolhimento e interiorização7. A estratégia de interiorização possibilita o deslocamento de famílias para outros municípios brasileiros, por meio de diferentes modalidades, incluindo reunificação familiar, vínculos sociais e inserção laboral assistida8.

Até janeiro de 2025, aproximadamente 145 mil pessoas foram interiorizadas, sendo 32 mil destinadas ao estado de Santa Catarina, o qual registrou o maior número de venezuelanos recebidos por meio dessa estratégia. A opção de reunião social foi escolhida por 47% dos interiorizados, seguida pela reunificação familiar, com 17,8%8.

No contexto da migração forçada, famílias muitas vezes enfrentam separações e precisam reconstruir suas vidas em novas circunstâncias, frequentemente sem amparo legal ou institucional. O acesso aos serviços de saúde nos países receptores depende de informações em idiomas diferentes, enquanto a cultura local pode ser pouco receptiva e casos de xenofobia e preconceito não são incomuns2,4-5. Avaliar a saúde de imigrantes venezuelanos no Sistema Único de Saúde (SUS) exige considerar o território, a distribuição populacional, a complexidade da atenção, aspectos transculturais e necessidades específicas em diferentes fases do ciclo de vida5,9-11.

A saúde mental dos migrantes é impactada por instabilidade laboral e insegurança econômica, e a preocupação com a educação e o futuro dos filhos aumenta a ansiedade e depressão10-12. A falta de compreensão sobre integralidade, linhas de cuidado e Redes de Atenção à Saúde (RAS) leva muitos a buscar serviços de alta complexidade com enfoque curativista, dificultando ações de promoção da saúde e integração familiar2,5,11-12.

Durante a pandemia da COVID-19, medidas de restrição, fechamento de fronteiras e permanência em abrigos afetaram a rotina familiar, aumentando violência doméstica, ansiedade, alterações no sono e na alimentação, preocupações financeiras e educacionais, e inatividade física. Tais repercussões evidenciam a vulnerabilidade social e a responsabilidade do sistema de saúde brasileiro13.

O presente estudo concebe as rotinas familiares como padrões dinâmicos de comportamento, respeitados por indivíduos, subsistemas e pela família como um todo dentro do ambiente doméstico, mas suscetíveis a mudanças à medida que os membros interagem com sistemas contextuais mais amplos14-16.

As rotinas diárias podem ser classificadas como primárias ou secundárias. Rotinas primárias envolvem comportamentos necessários à subsistência e às necessidades biológicas, como higiene, sono e alimentação. Rotinas secundárias refletem circunstâncias, motivações e preferências individuais, incluindo atividades físicas, lazer, práticas associadas ao trabalho ou estudo, cumprimento de horários e metas pessoais17.

Estudos sobre rotinas familiares indicam que a dinâmica familiar funciona como fonte de segurança e adaptação a mudanças, influenciando diretamente os processos de saúde e adoecimento. Eventos extraordinários, como pandemias, demonstram a sensibilidade dessas rotinas: fatores econômicos, estresse e restrições de contato social, como isolamento, podem alterar comportamentos cotidianos, impactando a saúde mental familiar16.

Diante desse contexto, o presente estudo tem como objetivo identificar as rotinas de cuidado à saúde de famílias venezuelanas participantes do programa de interiorização da Operação Acolhida, guiando-se pela seguinte pergunta de pesquisa: Quais são as rotinas de cuidado à saúde das famílias venezuelanas interiorizadas?

MÉTODO

Tipo de estudo

Este é um estudo qualitativo do tipo estudo de caso18 .

Local e período de coleta

A coleta de dados ocorreu nos municípios de Florianópolis e São José, em Santa Catarina, entre abril e novembro de 2021. A escolha dessas cidades se deu pelo número de famílias nelas interiorizadas, cujos dados foram extraídos da plataforma do governo federal sobre a Operação Acolhida8.

Participantes e critérios de seleção

Participaram quatro famílias venezuelanas interiorizadas entre 2019 e 2021, vindas de Roraima, sendo uma delas com passagem por Manaus, antes de chegar a SC. A seleção teve início por busca ativa em redes sociais voltadas a venezuelanos e contatos diretos, seguida de amostragem em bola de neve, com os critérios: ser maior de 18 anos, ter ingressado no Brasil por Roraima e ter participado do Programa de Interiorização. Cada participante recebeu um código anônimo (ex.: F1 - Família 1; MF1 - mãe da Família 1).

A partir dos genogramas, obtiveram-se características dos núcleos familiares participantes, conforme descrito a seguir:

Família 1 (F1): Composta por seis membros: a mãe, atualmente cuidadora (MF1, 35 anos, cuidadora); uma sobrinha adolescente que veio para ser cuidada pelas tias no Brasil (SF1, 17 anos, estudante); a avó materna (AF1, 52 anos, aposentada); uma tia (TF1, 28 anos, cuidadora - ensino superior completo em contabilidade); e duas crianças, um menino (F1F1, 4 anos) e uma menina (F2F1, 8 anos). A mãe e a tia desempenham papel central no sustento financeiro, quanto a avó, nos cuidados e na organização das rotinas familiares.

Família 2 (F2): Constituída por cinco membros: a mãe (MF2, 28 anos, ensino superior completo em sociologia, trabalhadora informal); o pai (PF2, 32 anos, ensino superior completo em sociologia, trabalhador informal); o filho (F1F2, 8 anos, estudante); e a avó materna (AF2 e F3, 57 anos). Os pais exercem função de provimento financeiro, e a avó, nos cuidados das crianças. A família havia perdido uma gestação no ano anterior.

Família 3 (F3): Composta por quatro membros: a mãe (MF3, 25 anos, ensino médio completo, desempregada); o pai (PF3, 26 anos, trabalhador informal); a filha (F1F3, 6 anos, estudante); e a avó materna (AF2 e F3, 57 anos). Um bebê da família faleceu durante a pesquisa devido à pneumonia. A mãe assume funções de cuidado direto e gestão das rotinas de saúde, o pai contribui com o sustento econômico e a avó auxilia nos cuidados infantis. Vale destacar que as mães das famílias F2 e F3 são irmãs e filhas da mesma avó, que compartilha os cuidados aos netos.

Família 4 (F4): Composta por quatro membros: a mãe (MF4, 30 anos, formada em Técnico em Eletrônica, atualmente desempregada); o pai (PF4, 42 anos, trabalhador formal), que permaneceu no Amazonas; e 3 crianças, um filho adolescente (F1F4, 11 anos, estudante) e duas meninas (F2F4, 6 anos); (F3F4, 4 anos). A família havia chegado ao estado há 15 dias, e a mãe assume a organização das rotinas e cuidados iniciais da família.

Coleta de dados

A coleta combinou Photovoice e entrevistas semiestruturadas audiogravadas, realizadas nos domicílios, respeitando medidas de precaução para COVID-19 no período. Foram fornecidas câmeras descartáveis e, em dois casos, os participantes utilizaram celulares. As famílias foram estimuladas a produzir imagens a partir da pergunta geradora: “Quais rotinas de sua família representam o cuidado à sua saúde?”.

O Photovoice, que combina fotografias e entrevistas, permite aos participantes representarem suas experiências diárias a partir de sua própria perspectiva, enquanto o pesquisador atua como facilitador A proposta foi fundamentada por Wang e Burris, que concebe a fotografia como instrumento de participação social, reflexão crítica e empoderamento, possibilitando que os participantes expressem percepções sobre suas rotinas de cuidado, condições de vida e experiências em contextos de vulnerabilidade18.

Originado no movimento feminista, da década de 1990, e fundamentado na educação em saúde pelo método Paulo Freire, o Photovoice é particularmente útil em pesquisas com comunidades vulnerabilizadas, desastres e contextos de migração forçada19-20. A técnica permite evidenciar aspectos do lar, comunidade, integração social, apoio mútuo e vivências relacionadas à saúde física e mental21-22.

Análise dos dados

As entrevistas foram transcritas e as imagens das fotografias foram reveladas de forma a organizar o material e proceder a Análise Temática, com uso do software Atlas.ti® (v. 9.1.3). A análise seguiu as etapas propostas por Minayo: (1) Pré-análise, caracterizada pela leitura flutuante do material, organização do corpus e definição das unidades de registro e de contexto; (2) Exploração do material, etapa em que os dados foram codificados e agrupados em categorias temáticas a partir de expressões significativas; e, (3) Tratamento dos resultados e interpretação, momento em que os achados foram sistematizados e interpretados à luz do referencial teórico adotado e dos objetivos da pesquisa23. A partir dos temas foram descritas categorias de resultados que integram dados das narrativas colhidas nas entrevistas e das narrativas representadas nas imagens das fotografias.

Aspectos éticos

Dentre os aspectos éticos da pesquisa, destaca-se a entrega aos participantes de todos os documentos utilizados, como o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido e o manual de orientação para uso da máquina fotográfica, impressos e traduzidos para o espanhol, incluindo as entrevistas transcritas. O estudo foi submetido ao Comitê de Ética em Pesquisa com Seres Humanos da Universidade Federal de Santa Catarina, sendo aprovado sob o número de parecer: CAAE: 45602121.6.0000.0121.

RESULTADOS

As famílias experimentam rotinas distintas durante o fluxo migratório, caracterizadas pelo tempo e trajetória percorrida. Das quatro famílias entrevistadas, três estavam em Santa Catarina há mais de um ano (F1, F2, F3) e uma família (F4) estava há 15 dias no estado.

Contextualizando os casos, na família 1, a mãe e a tia desempenham papel central no sustento financeiro, quanto a avó, nos cuidados e na organização das rotinas familiares. Na família 2, os pais exercem função de provimento financeiro, e a avó, nos cuidados das crianças. Esta família havia perdido uma gestação no ano anterior. Na família 3, a mãe assume funções de cuidado direto e gestão das rotinas de saúde, o pai contribui com o sustento econômico e a avó auxilia nos cuidados infantis. A família 4 havia chegado ao estado há 15 dias, e a mãe assume a organização das rotinas e cuidados iniciais da família.

A análise dos dados resultou em duas categorias principais, através das quais se identifica como as famílias venezuelanas interiorizadas reorganizam suas práticas de cuidado e enfrentam desafios relacionados à migração, trabalho, pandemia e adaptação ao novo ambiente, revelando a inter-relação entre aspectos estruturais das rotinas e fatores contextuais na manutenção da saúde familiar.

CATEGORIA 1 - CARACTERÍSTICAS DAS ROTINAS DE CUIDADO

Subcategoria 1.1: começar do zero

Em todas as famílias do estudo, o recomeço foi um acontecimento repetido ao longo da migração, sendo reconhecido tanto na chegada ao Brasil quanto em Santa Catarina. A F4, por exemplo, passou 2 anos em Manaus, vivenciando novos recomeços no contexto local. Diariamente, as famílias enfrentaram mudanças nas rotinas, adaptando-se às necessidades de sono, alimentação e aos aspectos sociais, ambientais e climáticos de cada destino.

A ideia de recomeço, ou mesmo de “começar do zero” quando novas rotinas são estabelecidas, representa ruptura, mas ao mesmo tempo renova a esperança. A forma como as famílias tentam fazer uma organização mínima dos novos espaços, remete ao tudo que estava organizado anteriormente, mas que elas tiveram que abandonar. A imagem captada une os dois momentos e consegue renovar a esperança (Quadro 1).

Quadro 1 -
quadro analítico com fotografia, citação e análise referente à subcategoria: começar do zero. Florianópolis, SC, Brasil, 2021.

Subcategoria 1.2: Rotinas diárias das crianças

Nesta subcategoria, abordam-se os aspectos da rotina diária das crianças, que são afetadas pela transição migratória e familiar. As falas dos entrevistados e os registros mostram que os pais tentam alinhar as rotinas diárias e buscam preservar a estabilidade nos cuidados com as crianças, apesar das mudanças constantes.

É interessante notar que a foto (TF1) destaca uma mudança importante para um dos filhos que passou a se preparar de forma mais tranquila para ir à escola. A mãe recorda que antes, o mesmo filho se recusava a estudar e agora, as mochilas estão todas prontas, muito tempo antes da saída para a escola (Quadro 2).

Quadro 2 -
quadro analítico com fotografia, citação e análise referente à subcategoria: Rotinas diárias das crianças. Florianópolis, SC, Brasil, 2021.

Subcategoria 1.3: Rotinas diárias de trabalho

Assim como as rotinas diárias tentam garantir estabilidade às crianças, a carga horária de trabalho também é crucial para as famílias. Observou-se que, além de trabalhar longas horas, alguns membros buscam ou já possuem um segundo emprego, o que impacta as horas de descanso, lazer, alimentação e sono (Quadro 3).

Quadro 3 -
quadro analítico com fotografia, citação e análise referente à subcategoria: rotinas diárias de trabalho. Florianópolis, SC, Brasil, 2021.

Na família 1 (F1), as duas irmãs adultas trabalham na mesma empresa de home care, revezando-se nas jornadas de trabalho, o que, muitas vezes, impede que se encontrem em casa. Essa dinâmica é evidenciada quando uma delas relata que há cerca de oito meses não vê a irmã em casa ao mesmo tempo, já que uma precisa chegar ao trabalho para que a outra possa sair. Apesar dos esforços para passarem mais tempo juntas, como os convites para um café após o expediente, a convivência entre elas ocorre principalmente no ambiente de trabalho. A rotina familiar é organizada de forma a atender às demandas diárias das crianças, contando com o apoio da avó, nesse período no Brasil.

Subcategoria 1.4: Rotinas de cuidado doméstico durante a pandemia COVID-19

A pesquisa ocorreu durante a pandemia de Covid-19 e os resultados revelam os impactos desse contexto na saúde e nas rotinas familiares. Todas as famílias participantes tiveram, em algum momento da migração, membros infectados pelo vírus. As principais preocupações foram com a saúde, o estresse e a adaptação às rotinas domésticas e ao cuidado infantil, afetadas pelas restrições de convívio e lazer (Quadro 4).

Quadro 4 -
quadro analítico com fotografia, citação e análise referente à subcategoria: rotinas de cuidado doméstico durante a pandemia COVID-19. Florianópolis, SC, Brasil, 2021.

Em duas famílias, houve a escolha de não buscar serviços médicos formais. Na família 1, a avó e a mãe optaram por cuidados caseiros com o auxílio das crianças, que, apesar da pouca idade, ajudavam em tarefas simples e ofereciam companhia, proporcionando conforto emocional. Já na família 4, em Manaus/AM, durante o período em que se contaminaram com a Covid 19, todos os membros da família trataram os sintomas em casa, com remédios naturais, seguindo orientações transmitidas por gerações.

CATEGORIA 2 - ASPECTOS QUE INFLUECIAM A ORGANIZAÇÃO DAS ROTINAS DE CUIDADO À SAÚDE NAS FAMÍLIAS

Nesta categoria, destacou-se a centralidade da preocupação com a qualidade de vida oferecida aos filhos como um elemento fundamental na organização das rotinas, sendo o bem-estar infantil a principal prioridade. Além disso, a mudança de moradia revelou-se um fator determinante na configuração dessas rotinas, tanto em Roraima e no Amazonas quanto em Santa Catarina, onde os impactos foram predominantemente positivos.

Subcategoria 2.1: Condição de vida dos filhos

A migração, tanto transnacional quanto para Santa Catarina, é motivada principalmente pela preocupação dos pais com a segurança, o acesso à educação e um futuro melhor para as crianças. Nesse contexto, ocorrem mudanças intensas nas rotinas, com a migração sendo vista como uma estratégia para melhorar a qualidade de vida e a saúde psicossocial

Nos relatos abaixo, pode-se perceber o impacto nas rotinas com o abrigamento trazendo medo e muito receio em relação aos ambientes urbanos e à violência, nos primeiros meses. Em contraste a toda essa vivência, uma das famílias escolhe a foto de uma ave em meio à vegetação para expressar a liberdade que já sentem nesse momento.

Quadro 5 -
quadro analítico com fotografia, citação e análise referente à subcategoria: condição de vida dos filhos. Florianópolis, SC, Brasil, 2021.

Subcategoria 2.2: Condições gerais de moradia

Nos trechos da subcategoria: Qcondições gerais de moradia, as falas comparam as situações de vida antes da migração para Santa Catarina e nos abrigos. Na família 1, a tia viveu em um abrigo em Roraima e descreve a experiência como desconfortável; enquanto a mãe ficou temporariamente em abrigos municipais, em Florianópolis, até conseguir alugar uma casa. As dificuldades e incertezas na chegada ao novo país explicam o atraso na vinda das crianças, que geralmente não acompanham os pais no início da migração.

Quadro 6 -
quadro analítico com fotografia, citação e análise referente à subcategoria: condição de gerais de moradia. Florianópolis, SC, Brasil, 2021.

DISCUSSÃO

No que se refere à mudança de estado, os achados evidenciam que a migração para Santa Catarina foi motivada principalmente pela preocupação parental com a segurança, o acesso à educação e melhores perspectivas para os filhos, mesmo diante de limitações econômicas. Este tipo de transição inesperada, como ocorre nas migrações forçadas, alteram significativamente as funções e a estrutura das famílias. Situações como a separação inicial entre os membros, a adaptação a uma nova cultura, a convivência em residências compartilhadas, a procura por habitação e emprego - muitas vezes em funções de nível inferior - interferem nas tarefas cotidianas típicas das diferentes fases do ciclo de vida familiar (24-25.

A trajetória migratória é marcada por dois momentos distintos: pré-migratório e pós-migratório. No período pré-migratório, crianças e adolescentes enfrentam riscos como violência de gênero, exposição a eventos potencialmente traumáticos e incertezas que aumentam os sintomas de estresse e ansiedade23-24. Já no período pós-migratório, a precarização financeira impacta a saúde mental dos adultos, enquanto a coesão familiar, a interação escolar e o apoio de pares favorecem o bem-estar emocional das crianças24,26.

Assim, as rotinas familiares passam por transformações significativas, sendo a migração uma estratégia para promover condições de vida mais favoráveis e fortalecer a saúde psicossocial26.

Os resultados desta pesquisa mostram que as rotinas familiares funcionam como estruturas dinâmicas de organização e adaptação em contextos de migração forçada. Houve recomeços constantes, especialmente com relação à reorganização das atividades das crianças, aos tempos de trabalho fora de casa e aos cuidados domésticos durante a pandemia, configurando-se em padrões de comportamento que auxiliam na coesão familiar e proporcionam segurança emocional, mesmo diante de rupturas sociais e distanciamento familiar.

A análise das rotinas primárias, como sono e alimentação, e das rotinas secundárias, como trabalho, lazer e atividades escolares, mostrou-se útil para compreender como as famílias priorizam o bem-estar das crianças e mantêm certo equilíbrio intrafamiliar. Por exemplo, a centralidade das avós no cuidado direto e no apoio à família, bem como a manutenção de atividades estruturadas como preparação para a escola e refeições compartilhadas, demonstram mecanismos de resiliência e promoção da saúde mental, em consonância com o referencial teórico adotado.

Além disso, fatores externos e contextuais, como precariedade laboral, mudanças frequentes de residência e barreiras linguísticas, atuam como determinantes na reorganização das rotinas e no acesso aos serviços de saúde, reforçando a sensibilidade das famílias a influências externas27-28.

Durante a pandemia de COVID-19, o isolamento social e as restrições escolares exigiram que as famílias adaptassem suas rotinas para reduzir o estresse infantil e manter o cuidado doméstico. Tanto nas rotinas primárias, como horários de alimentação e sono, quanto nas rotinas secundárias, incluindo realização de tarefas escolares, acompanhamento à escola e momentos de lazer estruturado, assumiram papel central na proteção à saúde e na estabilidade emocional das crianças. Esses ajustes refletem a função das rotinas familiares como padrões dinâmicos de comportamento, atuando como mecanismos de resiliência frente a rupturas sociais e mudanças abruptas no contexto cultural. A reorganização dessas atividades evidencia como as famílias conseguem manter segurança, previsibilidade e coesão familiar, mesmo em situações de alta vulnerabilidade e incerteza12.

Por fim, o papel das avós se mostrou central em contextos de migração forçada, assumindo responsabilidades pelos cuidados infantis e pelo suporte social, enquanto os pais garantem o sustento. Essa dinâmica fortalece a coesão familiar, mas pode gerar sobrecarga e limitar o autocuidado das mulheres idosas, sobretudo diante de barreiras culturais e linguísticas. Visitas domiciliares e atenção culturalmente sensível tornam-se, assim, estratégias essenciais para apoiar essas famílias29.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

O estudo revelou que as rotinas das famílias migrantes venezuelanas são centradas nas crianças e no trabalho dos provedores, enquanto as avós, embora essenciais para o cuidado doméstico, enfrentam vulnerabilidades e carecem de tempo para autocuidado. Apesar da melhora na qualidade de vida em relação aos primeiros destinos, persistem condições laborais precárias, salários baixos e limitações para lazer e cuidados de saúde. Esses achados reforçam a necessidade de políticas públicas voltadas à saúde mental, acolhimento e visibilidade das vulnerabilidades dessas famílias, bem como a capacitação de gestores do Sistema Único de Assistência Social para melhor organização dos abrigamentos temporários.

As equipes da Atenção Primária à Saúde devem considerar aspectos das rotinas familiares, como carga de trabalho e disponibilidade de tempo, ao planejar o cuidado, promovendo suporte físico e emocional, fortalecimento dos vínculos familiares e integração social. A articulação com outras políticas públicas, incluindo cursos de capacitação profissional, é fundamental para a melhoria da qualidade de vida e do bem-estar no contexto pós-migração. Ademais, a participação de mulheres, idosos, crianças e jovens na concepção, implementação e monitoramento de programas e políticas públicas é essencial para compreender os fatores que impactam a adaptação, a saúde e os cuidados familiares em situações humanitárias.

Agradecimentos

Os autores agradecem à Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) e ao Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) pelo apoio financeiro que possibilitou a realização deste estudo.

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Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    28 Ago 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    26 Out 2025
  • Aceito
    24 Fev 2026
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