RESUMO
Objetivo mapear as intervenções assistenciais prestadas pelos enfermeiros na manutenção do potencial doador falecido.
Método revisão de escopo baseada na metodologia JBI, realizada de janeiro a julho de 2025, com consulta nas seguintes fontes de dados: MEDLINE; Scopus; Web of Science; LILACS; Embase; CINAHL; SciELO; Cochrane Library; ProQuest Dissertations Theses Global; Catálogo de Teses e Dissertações; Biblioteca Digital Brasileira de Teses e Dissertações; e Google Acadêmico. Publicações em inglês, espanhol e português relacionadas ao objetivo da pesquisa, sem delimitação de tempo, foram incluídas. Estudos duplicados, sem texto completo disponível, cartas ao editor e sem informação sobre população, conceito e contexto foram excluídos.
Resultados foram incluídos 53 estudos. As evidências científicas foram sintetizadas em oito categorias: cuidados hemodinâmicos; cuidados com temperatura; suporte ventilatório; análise bioquímica; cuidados com transfusão de sangue; prevenção de infecção; suporte nutricional; e cuidados com as córneas.
Conclusão os enfermeiros exercem múltiplas intervenções para prevenir, controlar e corrigir alterações da morte encefálica, como: administração de volume e drogas vasopressoras; manutenção de ventilação protetora e correção de distúrbios eletrolíticos. Identificou-se, ainda, lacuna na participação e autonomia dos enfermeiros em cuidados como: prescrição e titulação de medicações; inserção de marcapasso transcutâneo e ajustes de parâmetros da ventilação mecânica.
Descritores:
Enfermagem; Cuidados de Enfermagem; Gerenciamento Clínico; Transplante de Órgãos; Morte Encefálica
ABSTRACT
Objective to map the care interventions provided by nurses in the maintenance of potential deceased organ donors.
Method a scoping review based on the JBI methodology was conducted from January to July 2025, consulting the following data source: MEDLINE; Scopus; Web of Science; LILACS; Embase; CINAHL; SciELO; Cochrane Library; ProQuest Dissertations Theses Global; Catalog of Theses and Dissertations; Brazilian Digital Library of Theses and Dissertations; and Google Scholar. Studies in English, Spanish, and Portuguese related to the research objective, without time limitations, were included. Duplicate studies, those without full text available, letters to the editor, and those lacking information on population, concept, and context were excluded.
Results fifty-three studies were included. The scientific evidence was synthesized into eight categories: hemodynamic care; temperature care; ventilatory support; biochemical analysis; blood transfusion care; infection prevention; nutritional support; and corneal care.
Conclusion nurses perform multiple interventions to prevent, control, and correct changes associated with brain death, such as: administering volume and vasopressor drugs; maintaining protective ventilation; and correcting electrolyte disturbances. However, gaps were also identified in nurses’ participation and autonomy in care such as: prescribing and titrating medications; inserting transcutaneous pacemakers; and adjusting mechanical ventilation parameters.
Descriptors:
Nursing; Nursing Care; Clinical Management; Organ Transplantation; Brain Death
RESUMEN
Objetivo Mapear las intervenciones de cuidados proporcionadas por las enfermeras en el mantenimiento de potenciales donantes de órganos fallecidos.
Método se realizó una revisión del alcance basada en la metodología del JBI entre enero y julio de 2025, consultando las siguientes bases de datos: MEDLINE; Scopus; Web of Science; LILACS; Embase; CINAHL; SciELO; Biblioteca Cochrane; ProQuest Dissertations Theses Global; Catálogo de Tesis y Disertaciones; Biblioteca Digital Brasileña de Tesis y Disertaciones; y Google Académico. Se incluyeron publicaciones en inglés, español y portugués relacionadas con el objetivo de la investigación, sin restricciones de tiempo. Se excluyeron los estudios duplicados, aquellos sin texto completo disponible, las cartas al editor y los que carecían de información sobre la población, el concepto y el contexto.
Resultados se incluyeron cincuenta y tres estudios. La evidencia científica se sintetizó en ocho categorías: atención hemodinámica; atención de la temperatura; soporte ventilatorio; análisis bioquímico; atención de transfusiones sanguíneas; prevención de infecciones; soporte nutricional; y atención corneal.
Conclusión Las enfermeras realizan múltiples intervenciones para prevenir, controlar y corregir los cambios asociados con la muerte cerebral, tales como: administrar volumen y fármacos vasopresores; mantener la ventilación protectora; y corregir las alteraciones electrolíticas. Sin embargo, también se identificaron deficiencias en la participación y autonomía de las enfermeras en la atención, tales como: prescribir y ajustar medicamentos; insertar marcapasos transcutáneos; y ajustar los parámetros de la ventilación mecánica.
Descriptores:
Enfermería; Cuidados de Enfermería; Manejo Clínico; Trasplante De Órganos; Muerte Cerebral
INTRODUÇÃO
A disparidade existente entre a necessidade e a disponibilidade de órgãos para transplante é uma realidade mundial, sendo considerada um problema global(1). Buscando equalizar essa situação, há cada vez mais esforços para aprimorar o processo de doação e transplante(1-2).
Nesse contexto, iniciativas voltadas para otimizar a manutenção clínica do potencial doador têm alcançado êxito. Evidências apontam que equipes competentes e preparadas para prestar adequada assistência ao potencial doador falecido viabilizam mais doações, melhoram a qualidade dos enxertos e aumentam a aceitação dos órgãos(3-4).
Os enfermeiros, como membros das equipes que cuidam do potencial doador e como gestores das unidades de pacientes críticos, ocupam uma posição estratégica na adoção de medidas voltadas à assistência desse paciente(5). Por meio da prestação de cuidados efetivos, seguros e de qualidade, os enfermeiros detêm grande potencial de contribuir para a efetivação da doação de órgãos, potencializando o número de vidas salvas pelo transplante. Para isso, o enfermeiro precisa estar em constante aprimoramento de suas competências(5).
Ressalta-se que iniciativas bem-sucedidas na perspectiva de incluir o enfermeiro de forma mais ostensiva na execução de cuidados ao potencial doador já vêm acontecendo(6-8). Um exemplo disso são os centros dedicados à recuperação de órgãos criados nos Estados Unidos da América (EUA), onde há protocolos de gestão de doadores que permitem o manejo rigoroso dos cuidados intensivos por parte dos enfermeiros(6-8). Todavia, destaca-se que essa é uma realidade ímpar, não sendo identificada em outros países(6-8).
A experiência dos centros de recuperação de órgãos nos EUA, embora recente, tem apresentado resultados promissores, repercutindo no aumento da quantidade e da qualidade dos órgãos transplantados(6-8). Vale salientar que os enfermeiros que atuam na manutenção de órgãos nesses centros possuem uma base de conhecimento especializado, aliada a habilidades complexas de tomada de decisão e competências clínicas(9).
Já no Brasil, a realidade é outra: há carência de protocolos, guias de recomendações ou outro material específico destinado a apoiar o enfermeiro na manutenção do potencial doador(5). Esse fato, além de fragilizar a atuação dos enfermeiros nessa etapa do processo, vai contra a Resolução nº 710 de 2022 do Conselho Federal de Enfermagem, que prevê que a assistência de enfermagem seja respaldada por protocolos institucionais baseados em evidências científicas(10).
A pesquisadora principal deste estudo, enfermeira atuante há 15 anos em uma Central de Transplantes brasileira, ao acompanhar cotidianamente o gerenciamento do cuidado ao potencial doador junto aos hospitais, percebe na prática a necessidade de definições sobre as intervenções que devem ser realizadas pelos enfermeiros no manejo clínico do paciente em morte encefálica (ME), bem como a relevância da qualificação dos profissionais para atuarem nessa fase do processo. Tal realidade encontra correspondência na literatura(2,5,9), que reforça a importância da definição do escopo de atuação do enfermeiro, aliada à sua qualificação para atuar na área.
Dessa forma, devido à expressividade e à relevância do enfermeiro no contexto da doação e transplante de órgãos, além das deficiências mencionadas, é fundamental entender como esses profissionais têm sido inseridos nas medidas adotadas na fase de manutenção. Para tanto, é importante conhecer quais atividades assistenciais vêm de fato sendo desempenhadas e o quanto de preparo e autonomia os enfermeiros detêm diante de condutas de manejo das alterações advindas da ME(5).
As informações e orientações encontradas contribuirão para nortear a atuação dos enfermeiros envolvidos na doação e no uso clínico de órgãos humanos para transplante, a fim de otimizar a qualidade e minimizar os riscos desses procedimentos, com vistas a garantir resultados adequados pós-doação e pós-transplante(2,5). Junto a isso, espera-se fomentar as iniciativas que visam ampliar o escopo de atuação dos enfermeiros no cenário nacional, avançando no sentido de transformar a prática desses profissionais por meio do preparo para prestação de cuidados mais complexos, com maior autonomia e agilidade na tomada de decisão, embasados por evidências científicas(10,11).
Ademais, é necessário colocar em evidência as ações exercidas pelos enfermeiros nos cuidados prestados ao potencial doador, ressaltando a importância e o protagonismo da profissão também nessa etapa do processo de doação e transplantes de órgãos(5).
Diante do que foi explanado, a presente pesquisa tem como objetivo mapear as intervenções que vêm sendo desenvolvidas no campo de atuação prática dos enfermeiros que prestam assistência ao potencial doador falecido. Para isso, elegeu-se como pergunta norteadora: Quais são as intervenções assistenciais realizadas por enfermeiros na manutenção do potencial doador falecido?
MÉTODO
Trata-se de revisão de escopo desenvolvida a partir das recomendações do JBI(12), que se propôs mapear a produção científica a partir das etapas apresentadas abaixo. Destaca-se que foi utilizado o checklist Preferred Reporting Items for Systematic reviews and Meta-Analyses extension for Scoping Reviews, cujo protocolo do estudo foi registrado no Open Science Framework (DOI 10.17605/OSF.IO/GJ56X).
Na identificação da questão norteadora (1ª etapa), a pergunta de pesquisa foi elaborada com base na estratégia População, Conceito e Contexto (PCC), na qual a População se refere aos enfermeiros, o Conceito remete às intervenções de enfermagem, e o Contexto remete à manutenção do potencial doador falecido. A questão formulada foi: Quais são as intervenções realizadas por enfermeiros para a manutenção do potencial doador falecido?
Na busca por estudos relevantes (2ª etapa), o levantamento dos materiais foi realizado entre janeiro e abril de 2025 nas seguintes bases de dados: Medical Literature and Retrieval System Online (MEDLINE); Scopus; Web of Science; Literatura Latino-Americana e do Caribe em Ciências da Saúde (LILACS); Embase (Elsevier); Cumulative Index to Nursing & Allied Health Literature (CINAHL); Scientific Electronic Library Online (SciELO); e Cochrane Library. Para tornar a busca mais ampla e completa, foram consultados também os seguintes sites de literatura cinzenta: ProQuest Dissertations Theses Global (PQDT Global); Catálogo de Teses e Dissertações (CAPES); Biblioteca Digital Brasileira de Teses e Dissertações (BDTD); e Google Acadêmico. Além desses, foi realizada a busca reversa por meio do levantamento de artigos nas referências de publicações da mesma temática.
Foram incluídas publicações que abordavam os cuidados de enfermagem direcionados à manutenção do potencial doador falecido para transplante, em inglês, espanhol e português, sem delimitação de tempo. Foram excluídos estudos duplicados, cartas ao editor, estudos sem texto completo disponível e aqueles sem informação sobre população, conceito e contexto de interesse deste estudo.
Na seleção dos estudos (3ª etapa), após a busca, dois revisores independentes, com experiência na área de doação e transplante, exportaram os documentos identificados ao aplicativo Rayyan® (www.rayyan.ai) (versão 2024) para gerenciar as referências e remover as duplicadas. Títulos e resumos foram rastreados para avaliação conforme os critérios de inclusão, às cegas, pelos dois revisores, sendo que um terceiro revisor avaliou as divergências em busca de consenso.
Na extração de dados (4ª etapa), após a definição dos materiais a serem incluídos, eles foram lidos novamente, às cegas, e as dúvidas foram sanadas pelo terceiro avaliador. Em seguida, os dados foram extraídos por meio de uma planilha do Microsoft Excel® (versão 2021), elaborada pelos autores, a partir dos materiais que compuseram a amostra (título, autores, ano de publicação, local do estudo, objetivo, delineamento, evidência/intervenções desenvolvidas pelos enfermeiros).
Na síntese dos resultados (5ª etapa), após leitura exaustiva das informações pelos pesquisadores, os dados foram sintetizados em quadros e figuras. Na apresentação das evidências (6ª etapa), as principais evidências foram agrupadas por similaridades em oito categorias: cuidados hemodinâmicos; cuidados com temperatura; suporte ventilatório; análise bioquímica; cuidados com transfusão de sangue; prevenção de infecção; suporte nutricional; e cuidados com as córneas.
RESULTADOS
A estratégia de busca nas plataformas selecionadas resultou em 2.543 registros. Além desses, mais quatro artigos foram incluídos por busca reversa, por serem considerados potencialmente elegíveis, totalizando 2.547 publicações. Após a remoção dos registros duplicados (527), permaneceram 2.020, os quais foram triados por meio da leitura dos títulos e resumos, sendo excluídos 1.872 estudos. Resultaram, assim, 148 publicações, para serem lidas na íntegra e avaliadas quanto à elegibilidade. Dessas, 95 foram excluídas por não apresentarem o objetivo do estudo. Com isso, 53 estudos constituíram a amostra final (Figura 1).
Diagrama de fluxo da seleção dos estudos para revisão de escopo. Florianópolis, SC, Brasil, 2025
Dos 53 registros incluídos, 37 foram publicados no continente americano (27 no Brasil, quatro nos EUA, um no Chile, um em Cuba, um no Equador, um no Peru, um no México e um na Argentina); 15 na Europa (12 na Espanha, dois na Polônia e um em Portugal) e um no continente asiático (Arábia Saudita). Quanto ao ano de publicação, oito tiveram sua publicação entre 2001 e 2010, 27, entre 2011 e 2020, e 18, entre 2021 e 2025. Com relação ao método utilizado, 37 foram estudos de revisão.
Em razão da extensão dos materiais obtidos, não será possível apresentar neste artigo todos os dados na íntegra. Assim, serão apresentadas informações sintetizadas desses achados nos Quadros 2 e 3. As demais informações estão disponíveis para consulta como material complementar (DOI 10.17605/OSF.IO/GJ56X).
– Caracterização das publicações incluídas na revisão de escopo segundo autor, título, país, objetivo e desenho do estudo. Florianópolis, SC, Brasil, 2025
Quanto ao mapeamento das intervenções desenvolvidas pelos enfermeiros no manejo clínico do potencial doador, destacaram-se as ações voltadas à manutenção hemodinâmica. Além desses, os cuidados direcionados à manutenção da temperatura, ao suporte ventilatório, à análise bioquímica, ao suporte nutricional, à prevenção de infecção, aos cuidados com a transfusão de sangue e aos cuidados com as córneas, conforme apresentado no Quadro 3.
As publicações selecionadas, além de apresentarem as intervenções realizadas por enfermeiros na manutenção do potencial doador de órgãos, reforçam a importância do conhecimento das alterações desencadeadas no organismo pela ME(6-8, 13-62). A compreensão dessas mudanças é fundamental para que os enfermeiros identifiquem os riscos aos quais os potenciais doadores estão expostos e adotem as medidas terapêuticas adequadas(46).
Dessa forma, pela relevância revelada na abordagem das alterações fisiopatológicas em todos os estudos(6-8, 13-62), bem como os sintomas comuns em cada fase da ME, optou-se pela elaboração de uma imagem que apresenta, de forma sintetizada, os principais eventos que ocorrem no organismo com a morte cerebral (Figura 2).
– Principais alterações fisiopatológicas provocadas no organismo pela morte encefálica de acordo com os estudos incluídos na revisão de escopo. Florianópolis, SC, Brasil, 2025
DISCUSSÃO
O potencial doador de órgãos é um paciente complexo que exige atenção especial em decorrência das alterações desencadeadas pela ME(37-41). Isso porque, conforme apresentado na Figura 2, o colapso cerebral leva à desregulação autonômica, resultando na liberação maciça de catecolaminas, que causam hipertensão. Essa condição se esgota rapidamente. Após isso, a elevação da pressão intracraniana se acentua, ocorrendo a herniação e a isquemia cerebral. Tem-se, então, a perda do controle regulador neuro-hormonal central, a disfunção hipotálamo-hipófise e o aumento transitório da atividade simpática, resultando em hipóxia dos tecidos e amplificação da resposta inflamatória. Tais alterações, se não tratadas adequadamente, causarão prejuízo sistêmico aos órgãos(6-8, 13-62).
Nesse cenário, os dados indicam fortemente a relevância da atuação do enfermeiro, que, por participar ativamente da assistência direta ao paciente, detém o potencial para identificar precocemente a ocorrência dos sinais e sintomas decorrentes da ME(13-16, 22, 27). Contudo, para que seja possível instituir intervenções eficientes, é fundamental que o profissional esteja atento e tenha conhecimento para reconhecer e manejar adequadamente as alterações fisiopatológicas que surgem em cada uma das fases da ME, a fim de evitar danos orgânicos(37-41).
Dessa forma, as publicações de enfermagem sobre manutenção do paciente em ME e potencial doador de órgãos enfatizam a importância da devida compreensão sobre o diagnóstico e sua repercussão orgânica, correlacionando a fisiopatologia da doença às atividades assistenciais a serem desenvolvidas pelos enfermeiros. A exemplo disso, os estudos apontam, de forma consensual, a necessidade de cuidados relacionados à manutenção hemodinâmica (6-8, 13-62) e a correlacionam com a instabilidade que acomete o paciente durante a ME, decorrente da perda do controle central do sistema cardiovascular, do comando respiratório, dos baro e quimiorreceptores e do eixo hipotálamo-hipófise(2).
Ainda com relação ao cuidado hemodinâmico, a principal intervenção mencionada foi o acompanhamento e controle dos sinais vitais, com destaque para ações voltadas à manutenção da pressão arterial, por meio da administração de volume e drogas vasopressoras(13-61). Por ser uma das alterações fisiopatológicas mais comuns e graves da ME, decorrente da lesão do centro vasomotor e da consequente vasodilatação generalizada, a hipotensão arterial requer pronta identificação e tratamento da enfermagem(24, 48).
Na categoria de suporte ventilatório, uma das principais intervenções citadas pelos estudos foi o controle dos parâmetros do ventilador mecânico. O manejo inadequado da ventilação artificial acarreta consequências deletérias aos pulmões, como barotrauma e volutrauma, prejudicando a função respiratória que já se encontra alterada pela fisiopatologia da ME. Dessa maneira, os enfermeiros devem estabelecer cuidados visando manter uma estratégia de ventilação protetora, com recomendação de manutenção do volume corrente entre 6 e 8 mL/kg de peso corporal ideal e positive end-expiratory pressure de 8 a 10 cmH2O (8, 13-14, 16-17, 20, 22, 24-26, 28-29, 31, 34-36, 38, 40, 43, 46, 49, 53, 55, 59). Além disso, a fim de não acrescentar dano ao tecido pulmonar, também foram elencadas intervenções de enfermagem voltadas à aspiração de secreções traqueobrônquicas, ao monitoramento do posicionamento do tubo orotraqueal e da pressão do cuff, e ao posicionamento da cabeceira do leito em um ângulo de 30°(13-14, 19-22, 24-31, 33-34, 36-43, 45-46, 48-54,56-58, 60).
Além dos insultos orgânicos já mencionados acima, a ME afeta também o sistema endócrino-metabólico, alterando o aporte energético aos tecidos e o controle hidroeletrolítico. As publicações associaram essas alterações à necessidade de análise bioquímica e identificaram o monitoramento de exames e níveis de eletrólitos no sangue como uma das intervenções de enfermagem essenciais. Recomenda-se manter os níveis séricos de sódio abaixo de 155 mg/dL, de potássio entre 3,5 e 5,5 mEq/L e de magnésio acima de 1,6 mEq/L. A hipernatremia costuma ser frequente na ME, podendo ser causada ou agravada por alterações no débito urinário, principalmente por poliúria associada ao diabetes insipidus. Para a correção da elevação de sódio, recorre-se à administração de água livre intravenosa na forma de solução glicosada a 5% ou com solução salina a 0,45%(16, 25, 28, 35-36, 38, 40,46, 58).
A literatura(13-61) revelou também diferentes atividades dos enfermeiros voltadas à prevenção, ao controle e ao tratamento de distúrbios relacionados à manutenção adequada da temperatura, aos cuidados com a transfusão de sangue, à prevenção de infecções, ao suporte nutricional e aos cuidados com as córneas. Entre as ações mencionadas nessas categorias, estão infusão de líquidos aquecidos, monitoramento da coagulação sanguínea, manutenção das rotinas de higiene e execução de técnica asséptica em todos os procedimentos. Revisões anteriores, que foram selecionadas por este estudo(13, 24, 40, 45-46, 48, 55), validam esses achados e reforçam a importância do manejo rigoroso da deterioração multiorgânica desencadeada pela ME.
Em relação a algumas intervenções descritas nas publicações selecionadas, não foi possível identificar se sua execução era integralmente realizada pelo enfermeiro ou se o enfermeiro somente participava da intervenção assessorando outros profissionais, a exemplo da prescrição de medicações, titulação de drogas vasoativas, inserção de marcapasso transcutâneo e ajustes de parâmetros da ventilação mecânica(13, 23, 28, 45, 48). Tal situação evidencia uma lacuna a ser explorada, abrindo a possibilidade de discussão futura sobre o grau de autonomia que o enfermeiro detém na tomada de decisão diante da assistência prestada ao potencial doador.
Esse contexto é corroborado por uma experiência recente, que avaliou a implementação de checklist para manutenção do potencial doador de órgãos na redução da perda por parada cardíaca em Unidades de Terapia Intensiva brasileiras, onde o enfermeiro é descrito como um membro atuante na equipe. Porém, sua atribuição foi descrita somente restrita ao preenchimento do checklist e ao acionamento do médico diante do não cumprimento das metas, com pouca ou nenhuma participação na definição das condutas a serem instituídas(64).
Contrapondo-se ao cenário mencionado, artigos sobre a experiência de enfermeiros nos EUA(6-8,62) revelam uma realidade diferenciada, onde desenvolve-se uma práxis ampliada, que envolve habilidades complexas de tomada de decisão. Ainda nos EUA, estudos realizados em centros de cuidados direcionados ao potencial doador revelaram que os enfermeiros, enquanto coordenadores dos cuidados, além de poderem oferecer assistência hemodinâmica, têm poder e autonomia para deliberar sobre os cuidados prestados. Esses profissionais são os responsáveis pela realização de intervenções como broncoscopias, ultrassonografias pulmonares, inserções de cateteres arteriais/centrais e biópsias hepáticas(6-8, 62).
É importante reconhecer que a ampliação do escopo da enfermagem, apontada por alguns artigos, estava associada a atividades desempenhadas por enfermeiros de cuidados intensivos. Após dois anos de treinamento supervisionado, esses profissionais atingiram resultados sustentados, sendo, portanto, reduzida a supervisão médica(6-8,62). Esses profissionais demonstraram ser capazes de fornecer cuidados exclusivos ao doador, o que contribuiu para um aumento no número de órgãos recuperados para transplante(6-8).
Da mesma forma que revelam carências, as publicações também apresentam apontamentos importantes, como a relevância da formação dos enfermeiros como uma estratégia eficaz para o sucesso e a qualidade do cuidado prestado ao potencial doador. A relação entre o preparo dos profissionais e os resultados alcançados é reconhecida pelos estudos(6-8,13-62). Um dos artigos identificou que os profissionais de enfermagem têm sua atuação limitada no manejo clínico do potencial doador devido a fatores como insegurança, inexperiência, desconhecimento da fisiopatologia da ME e seu impacto sobre o organismo, despreparo técnico e emocional, além da ausência de protocolos ou diretrizes específicas para a participação dos enfermeiros na manutenção do potencial doador(56).
Quanto às limitações da pesquisa, apontam-se a seleção de publicações em somente três idiomas e a não realização da busca de documentos e diretrizes sobre a atuação do enfermeiro na manutenção do potencial doador de órgãos em sites de organizações relacionados à doação e transplante.
CONCLUSÃO
Essa revisão revelou uma extensa gama de ações realizadas pelos enfermeiros com o intuito de prevenir, controlar e corrigir as alterações que acontecem no potencial doador falecido. O controle dos sinais vitais foi a intervenção mais mencionada, mais especificamente as ações voltadas à manutenção da pressão arterial por meio da administração de volume e drogas vasopressoras. Destaca-se a importância da atuação do enfermeiro na identificação e manejo precoce da hipotensão sendo esse um dos achados mais comuns e graves da morte encefálica.
As publicações analisadas apontam também a relevância da atuação dos enfermeiros em outros cuidados como: manutenção de parâmetros ventilatórios que assegurem um manejo protetor dos pulmões; monitoramento de eletrólitos, com especial atenção aos níveis séricos de sódio e potássio; administração de soluções aquecidas e uso de mantas térmicas para manutenção da temperatura; monitoramento da coagulação sanguínea e cuidados relacionados a transfusão; prevenção de infecção; suporte nutricional e cuidados com as córneas.
No entanto, apesar do número expressivo de atividades relatadas, identificou-se uma lacuna relacionada à participação e autonomia do enfermeiro diante de alguns cuidados, como: prescrição de medicações; titulação de drogas vasoativas; inserção de marcapasso transcutâneo e ajustes de parâmetros da ventilação mecânica. Esse achado ressalta a importância de futuras pesquisas e iniciativas que explorem a autonomia e o poder de tomada de decisão dos enfermeiros no contexto da assistência ao potencial doador falecido.
As intervenções encontradas nessa revisão subsidiarão os enfermeiros que assistem os potenciais doadores de órgãos, por meio de evidências científicas, a prestarem cuidados seguros e qualificados, com vistas a garantir melhores resultados pós-doação e pós-transplante.
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Fonte: Produção dos autores adaptada do Preferred Reporting Items for Systematic reviews and Meta-Analyses extension for Scoping Reviews.
Legenda: HIC - hipertensão intracraniana; PA - pressão arterial; PIC - pressão intracraniana.Fonte: Autores, 2025.