Open-access Sintomas depressivos, ansiedade e estresse e o uso de plantas medicinais por acadêmicos de enfermagem

RESUMO

Objetivo:  verificar a presença de sintomas de depressão, ansiedade e estresse por acadêmicos de enfermagem relacionados ao uso de plantas medicinais.

Método:  estudo transversal realizado em janeiro e novembro de 2023, de forma virtual com alunos de graduação em enfermagem de uma universidade pública de Minas Gerais, Brasil. Foi realizada análise estatística descritiva, cálculo de média e desvio padrão e Teste t independente para comparação entre os grupos.

Resultados:  participaram 73 estudantes, que relataram sintomas graves ou extremamente graves de depressão (35,6%), ansiedade (42,4%) e estresse (36,9%). A maioria (56,2%) utilizava plantas medicinais, sendo as mais frequentes: camomila, capim-cidreira, hortelã, boldo, babosa e erva-doce, principalmente para efeito calmante/relaxante, ansiedade, gripe/resfriado e estresse. Os discentes consumidores relataram melhora nos sintomas para os quais buscaram o uso e obtinham as plantas no próprio quintal, contudo utilizaram de forma empírica.

Conclusão:   o estudo evidenciou um amplo uso de plantas medicinais entre os acadêmicos de enfermagem. Os sintomas de depressão, ansiedade e estresse foram mais presentes entre os alunos que usavam plantas medicinais e entre aqueles matriculados nos períodos iniciais (1º ao 5º). A diferença entre os grupos foi estatisticamente significativa apenas para estresse, considerando o período cursado.

Descritores:
Plantas Medicinais; Estudantes de Enfermagem; Depressão; Ansiedade; Estresse Psicológico

ABSTRACT

Objective:  to verify the presence of symptoms of depression, anxiety and stress among nursing students related to the use of medicinal plants.

Method:  cross-sectional study carried out virtually in January and November 2023, with undergraduate nursing students from a public university in Minas Gerais, Brazil. Descriptive statistical analysis, calculation of mean and standard deviation, and independent T-test were used for comparison between groups.

Results:  73 students participated, reporting severe or extremely severe symptoms of depression (35.6%), anxiety (42.4%), and stress (36.9%). The majority (56.2%) used medicinal plants, the most common being: chamomile, lemon grass, mint, boldo, aloe, and fennel, mainly for calming/relaxing effects, anxiety, flu/cold, and stress. Consumer students reported improvement in the symptoms for which they sought to use the plants, planting them in their own backyard, however they used them empirically.

Conclusion:  the study showed a wide use of medicinal plants among nursing students. Symptoms of depression, anxiety, and stress were more present among students who used medicinal plants and among those enrolled in the initial periods (1st to 5th). The difference between groups was statistically significant for stress, considering the period studied.

Descriptors:
Medicinal plants; Nursing Students; Depression; Anxiety; Psychological Stress

RESUMEN

Objetivo:  verificar la presencia de síntomas de depresión, ansiedad y estrés en estudiantes de enfermería relacionados con el uso de plantas medicinales.

Método:  estudio transversal realizado em enero y noviembre de 2023, de forma virtual, con estudiantes de graduación en enfermería de una universidad pública de Minas Gerais, Brasil. Se realizaron análisis estadísticos descriptivos, cálculo de media y desviación estándar y prueba t independiente para comparación entre grupos.

Resultados:  participaron 73 estudiantes, que refirieron síntomas graves o extremadamente graves de depresión (35,6%), ansiedad (42,4%) y estrés (36,9%). La mayoría (56,2%) utiliza plantas medicinales, siendo las más comunes: manzanilla, limoncillo, menta, boldo, aloe vera e hinojo, principalmente por sus efectos calmante/relajante, ansiedad, gripe/resfriado y estrés. Los estudiantes consumidores informaron mejoría en los síntomas por los que buscaron su utilización y obtuvieron las plantas en su propio patio casero y, sin embargo, las usaron empíricamente.

Conclusión:  el estudio demostró un amplio uso de plantas medicinales entre los estudiantes de enfermería. Los síntomas de depresión, ansiedad y estrés fueron más presentes entre los alumnos que utilizaron plantas medicinales y entre los matriculados em los períodos iniciales (1º a 5º año). La diferencia entre los grupos fue estadísticamente significativa sólo para el estrés, considerando el período estudiado.

Descriptores:
Plantas Medicinales; Estudiantes de Enfermería; Depresión; Ansiedad; Estrés Psicológico

INTRODUÇÃO

As Práticas Integrativas e Complementares em Saúde (PICS) são abordagens terapêuticas no âmbito da saúde que desempenham um papel abrangente no Sistema Único de Saúde (SUS), pois têm como objetivo a prevenção de agravos e a promoção e recuperação da saúde1-2. Nesse sentido, as PICS se distinguem por não usufruírem do modelo de atenção biomédico e, sim, por oferecer um cuidado referente à individualidade de cada pessoa levando em conta a visão holística, enfatizando a escuta acolhedora, a construção de laços terapêuticos e a conexão entre o ser humano, meio ambiente e sociedade2.

As PICS foram instituídas pelo SUS através da Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares (PNPIC) em 2006, sendo ofertadas inicialmente: acupuntura, homeopatia, plantas medicinais e fitoterapia, termalismo social/crenoterapia e medicina antroposófica. Posteriormente, outras foram incorporadas e atualmente são ofertadas 29 terapias, incluindo a fitoterapia1-2.

A fitoterapia é designada como o estudo das plantas medicinais (espécie vegetal usada para terapêutica em sua forma fresca) em suas variadas formas de aplicação na prevenção, promoção e manutenção da saúde, sendo o fitoterápico um produto apresentado na forma de remédio a partir da planta medicinal1,3. A partir da abordagem holística que ela proporciona, são asseguradas as particularidades culturais, emocionais e físicas de cada um, não se limitando, portanto, em tratar apenas as enfermidades3-4.

As plantas medicinais e a fitoterapia são amplamente almejadas como vias para tratamentos terapêuticos complementares, especificamente para casos de depressão, visto que, em comparação ao tratamento alopático, seu grande atributo é a reduzida propensão a efeitos adversos e, assim, uma maior conformidade do cliente com o regime terapêutico5.

No ambiente acadêmico existem fatores estressores, tais como mudanças nas relações familiares e sociais, de moradia, atividades e trabalhos acadêmicos excessivos, período de provas e estágios, que podem causar o desencadeamento de sofrimento mental, já que os estudantes encontram um momento de transição com mudanças no ambiente e convívio social. Estudantes da área da saúde, e especificamente de enfermagem, se esforçam na harmonização de suas relações pessoais com as demandas dos serviços de saúde e as metas acadêmicas, transformando, dessa forma, tais situações em momentos estressantes e levando a diferentes níveis de estresse e até a sintomas depressivos. Esses problemas não só impactam o desempenho acadêmico, mas também afetam a vida pessoal, causando prejuízos sociais e ocupacionais6.

Visando atenuar sintomas de ansiedade, melhorar a insônia e a disposição para as atividades, estudantes de enfermagem têm utilizado plantas medicinais com efeito calmante ou ansiolítico, tais como camomila, erva cidreira, erva doce, hortelã, alecrim, capim limão, dentre outras7.

Contudo, a fitoterapia e outras PICS não estão presentes na grade curricular obrigatória, sendo ofertadas apenas em algumas universidades como disciplinas optativas ou eventos científicos, e para que ela possa ser entendida pelos próprios acadêmicos da saúde e inserida futuramente na prática profissional da enfermagem e ser repassada aos usuários, existe uma necessidade intrincada na discussão desse assunto e o debate do mesmo na graduação, visando propiciar a assistência integral considerando os aspectos da biodiversidade brasileira3.

Diante dos desafios enfrentados por estudantes de enfermagem e das propriedades terapêuticas das plantas medicinais sobre a saúde mental, este estudo teve como objetivo verificar a presença de sintomas de depressão, ansiedade e estresse por acadêmicos de enfermagem relacionados ao uso de plantas medicinais.

MÉTODO

Estudo transversal com abordagem quantitativa, desenvolvido em uma universidade pública do Triângulo Sul de Minas Gerias, Brasil e orientado pelo Strengthening the Reporting of Observational Studies in Epidemiology (STROBE)8.

A divulgação da pesquisa foi realizada por meio de convites enviados para o e-mail institucional dos alunos e por WhatsApp ® aos grupos do primeiro ao décimo período, sendo disponibilizado um link para acesso ao Termo de Consentimento Livre e Esclarecido que, após sua anuência, era direcionado a um formulário online, gerado pelo Google Forms ® para a coleta de dados.

Para o cálculo amostral, foi considerada a população de 284 alunos regularmente matriculados, uma margem de erro de 10% e um nível de confiança de 95%, resultando em um tamanho amostral de 72 participantes. Foi realizada amostragem não probabilística por conveniência, ou seja, aqueles estudantes que acessassem o formulário e aceitassem participar eram incluídos. Os critérios de inclusão foram: discentes do 1º ao 10º período, regularmente matriculados no curso de graduação em Enfermagem da referida instituição, de ambos os gêneros, com idade igual ou superior a 18 anos.

O primeiro recrutamento (envio do convite) ocorreu semanalmente em janeiro de 2023, obtendo-se 40 respostas, a partir das quais foram analisados dados parciais. Visando alcançar o tamanho amostral, foi replicado o convite, semanalmente em novembro de 2023, totalizando três tentativas em cada turma do primeiro ao décimo período. Para evitar viés, foi assegurado que todos os alunos matriculados recebessem os convites, individualmente por e-mail institucional e em grupos de WhatsApp ® das turmas de todos os períodos/semestres do curso.

De 284 graduandos matriculados, 75 acessaram o link do convite, que continha as informações detalhadas sobre a pesquisa e preenchimento do termo de consentimento livre e esclarecido, sendo que dois recusaram a participação ao acessar o termo. O acesso ao formulário online foi liberado aos 73 (25,7%) estudantes que aceitaram participar do estudo.

O Google Forms ® continha um questionário para coleta de dados sociodemográficos e clínicos sobre idade, gênero, cor autorrelatada, número de pessoas com as quais reside (incluindo a si próprio), estado civil, situação empregatícia, renda familiar mensal, religião, período cursado, presença de doenças e/ou comorbidades diagnosticadas e tratamentos realizados. Incluía questões sobre o uso de plantas medicinais antes da pandemia (anterior a março/2020), sendo perguntado se iniciou uso durante a pandemia (março/2020 a março/2022), quando houve retorno definitivo às atividades presenciais na universidade pesquisada (a partir de março/2022), e de quais plantas medicinais fez uso, considerando-se o uso semanal por pelo menos um mês, qual parte da planta utilizou, com qual finalidade, qual era o local de obtenção das mesmas, se apresentou melhorias ou efeitos indesejados e se as indicariam a outras pessoas.

Também foi disponibilizada a Depression, Anxiety and Stress Scale (DASS-21) validada para a população adulta brasileira, composta por 21 perguntas, sendo sete questões para cada um dos três construtos, na qual os participantes indicam o grau em que experimentaram cada um dos sintomas de depressão, ansiedade e estresse durante a última semana, em uma escala do tipo Likert de 4 pontos, sendo: 0 - Não se aplicou de maneira alguma; 1 - Aplicou-se em algum grau, ou por pouco tempo; 2 - Aplicou-se em um grau considerável, ou por boa parte do tempo; e 3 - Aplicou-se muito, ou na maioria do tempo9.

O cálculo para cada sintoma se refere à somatória de sete questões específicas multiplicadas por dois e a classificação utilizada dos sintomas de estresse foi: 0-10 = normal, 11-18 = leve, 19-26 moderado, 27-34 = severo e 35-42 = extremamente severo; de ansiedade foi: 0-6 normal, 7-9 = leve, 10-14 = moderado, 15-19 = severo e 20-42 extremamente severo; e dos sintomas de depressão foi: 0-9 = normal, 10-12 = leve, 13-20 = moderada, 21-17 = severa e 28-42 = extremamente severa10.

Os dados foram transmutados diretamente do Formulário para uma planilha no Excel e validados por dupla conferência e para a análise utilizou-se o software Statistical Package for the Social Sciences (SPSS) for Windows, versão 23.0. Foram realizadas estatísticas descritivas, e as variáveis foram analisadas empregando medidas de frequências absolutas e relativas. A normalidade foi verificada por meio do teste de Shapiro-Wilk, com nível de significância estabelecido em 5% e a homogeneidade foi verificada através do Teste de Levene para Igualdade de Variâncias. Foram calculadas as médias e o desvio padrão dos três construtos, sendo utilizado o Teste t independente para verificar a diferença das médias de depressão, ansiedade e estresse entre os grupos de alunos que usavam e não usavam plantas medicinais, e entre grupos de alunos, que foram divididos de acordo com os períodos iniciais (1º ao 5º) e finais (6º ao 10º) do curso.

O projeto foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa (CEP) da instituição proponente, sob CAE 62432522.5.0000.5154 e parecer n. 5.824.186/2022.

RESULTADOS

Participaram deste estudo, 73 estudantes de enfermagem, a média de idade foi de 24,36 anos (DP= 6,37), mínima de 18 e máxima de 53 anos. Predominaram mulheres, autodeclaradas brancas, solteiras, que moram com até cinco pessoas, católicas e não praticantes, conforme mostra Tabela 1.

Tabela 1 -
Características sociodemográficas dos alunos de graduação em enfermagem (n=73). Uberaba, MG, Brasil, 2023

Com relação ao semestre cursado, 23 (31,6%) alunos informaram estar matriculados nas disciplinas do ciclo básico (entre o 1º ao 4º período), 33 (45,2%) estavam cursando do 5º ao 8º período e 17 (23,2%) estudantes encontravam-se no último ano (estágio supervisionado, entre o 9º e 10º período). A maioria dos discentes (63-86,3%) relatou que não trabalha concomitantemente ao curso e possui como renda mensal familiar de até três salários mínimos (31 - 42,5%).

Quanto às variáveis clínicas, 27 (37,0%) discentes possuem alguma doença física ou mental diagnosticada, sendo as mais citadas: ansiedade (16), depressão (8) e hipotireoidismo (3); 23 (31,5%) alunos realizam tratamento farmacológico e 11 (15,1%) realizam tratamento não farmacológico.

De acordo com a DASS-21, nota-se uma quantidade expressiva de alunos que relataram depressão (26-35,6%), ansiedade (31-42,4%) e estresse (27-36,9%), representado entre os níveis grave e extremamente grave, conforme mostra em Tabela 2.

Tabela 2 -
Sintomas de depressão, ansiedade e estresse dos alunos de graduação em enfermagem de acordo com os valores de referência da DASS-21 (n=73). Uberaba, MG, Brasil, 2023

Com relação ao uso de plantas medicinais, antes da pandemia 36 (49,3%) estudantes relataram que as utilizavam, durante a pandemia e após o retorno às atividades presenciais da universidade em questão, 12 (16,4%) destes iniciaram o uso de novas plantas, apenas sete (9,6%) informaram terem iniciado seu uso pela primeira vez e 30 (41,1%) referiram nunca terem usado. Dos 43 (58,9%) alunos que usaram plantas medicinais, 37 informaram que notaram melhora nos sintomas para os quais buscaram o uso, nenhum deles relatou efeito colateral ou indesejado e todos recomendam seu uso para os demais alunos.

Considerando que os alunos utilizavam mais de uma planta medicinal, na Tabela 3 é possível observar o predomínio da camomila, capim-cidreira, hortelã, boldo, babosa e erva-doce.

Tabela 3 -
Plantas medicinais utilizadas pelos estudantes de enfermagem segundo o período avaliado (n=73). Uberaba, MG, Brasil, 2023

As partes das plantas utilizadas por estes estudantes foram: folha (32-43,8%), raiz (16-21,9%), planta inteira (12-16,4%), flor (12-16,4%), fruto (12-16,4%), talo (11-15,1%), semente (7-9,6%), polpa (7-9,6%) e em forma de cápsula (9-12,3%).

Os alunos informaram o uso empírico das plantas e pelos seguintes motivos: efeito calmante/relaxante (33-45,2%), ansiedade (25-34,2%), gripe/resfriado (19-26,0%), estresse (18-24,7%), desintoxicação (15-20,5%), dores (15-20,5%), indigestão/gastrite (14- 19,2%), insônia (14-19,2%), imunidade (13-17,8%), queda de cabelo (11-15,1%), azia (10-13,7%), depressão (9-12,3%), diurético (9-12,3%), pele (7-9,6%), problemas intestinais/gases/constipação (6-8,2%), enjoo (5-6,8%), infecção (4- 5,5%), problemas respiratórios (4-5,5%), anemia (3-4,1%), problemas no fígado (3-4,1%), hematoma (3-4,1%), cálculo renal (2-2,7%), efeitos adversos de algum tratamento (1-1,4%), problemas circulatórios (1-1,4%) e outros motivos (6-8,2%).

Com relação aos locais de obtenção dessas plantas ou parte delas, os discentes relataram: cultivo próprio no quintal (30-41,1%), loja de produtos naturais (21-28,8%), mercado (18-24,7%), amigos (9-12,3%), farmácia (7-9,6%) e outros locais (2-2,7%).

A Tabela 4 apresenta as médias e desvio padrão das variáveis depressão, ansiedade e estresse para os dois grupos de estudantes, os quais foram divididos em grupo de alunos que usava plantas medicinais no momento da coleta de dados (n=43) e grupo que não usava (n=30). Observa-se que os alunos que utilizavam plantas medicinais apresentaram maiores médias para as três variáveis, contudo não houve diferença estatisticamente significativa entre os grupos.

Tabela 4 -
Avaliação da depressão, ansiedade e estresse conforme grupo de alunos que usavam e que não usavam plantas medicinais (n=73). Uberaba, MG, Brasil, 2023

A Tabela 5 mostra as médias e desvio padrão das variáveis depressão, ansiedade e estresse para dois grupos de estudantes, que foram agregados de acordo com o período cursado, sendo um grupo referente aos períodos iniciais (1º ao 5º) (n=30) e outro aos finais (6º ao 10º) (n=43). Nota-se que os alunos dos períodos iniciais estavam mais depressivos, ansiosos e estressados que os estudantes que cursavam os períodos finais, sendo a diferença estatisticamente significativa para o estresse.

Tabela 5 -
Avaliação da depressão, ansiedade e estresse conforme grupo de alunos por período cursado - iniciais (1º ao 5º) e finais (6º ao 10º) (n=73). Uberaba, MG, Brasil, 2023

DISCUSSÃO

Verifica-se o número significativo com que o gênero feminino se destaca com relação aos outros presentes neste estudo, considerando que, historicamente, o predomínio de profissionais de enfermagem sempre foi de maioria feminina7,11-13.

Os resultados encontrados colaboram com estudos desenvolvidos em instituições de ensino superior na Bahia (Brasil)11-12 e na Espanha13, que encontraram predominância de estudantes solteiros11-12, adultos jovens11-13 e sem vínculo empregatício11,13.

Com relação aos sintomas de depressão, ansiedade e estresse, mais da metade dos estudantes relataram apresentá-los em algum nível e mais de um terço nas intensidades grave a extremamente grave, mensurado pela DASS-21. O relato de diminuição na saúde mental tem ocorrido em outras universidades, como na Bahia. De 172 estudantes de enfermagem, 40,1% declarou possuir saúde mental considerada “boa” antes de ingressar na graduação e no decorrer do curso, 47,1% caracterizou sua saúde como “regular”12. Esta queda na qualidade da saúde mental também foi referida por 98,9% de acadêmicos de medicina e de enfermagem do interior paulista que declararam que o curso contribuiu para o aumento do estresse, nervosismo, preocupação excessiva, mudanças de humor, distúrbio de sono e cobrança exagerada14.

Estudantes de enfermagem espanhóis apresentaram uma prevalência de 3,8% para depressão e 24,5% para ansiedade, tendo como fatores relacionados o consumo de álcool e tabaco, baixo nível de atividade física e dieta pouco saudável13.

O crescimento na ocorrência de doenças mentais, entre os estudantes de enfermagem, está associado de maneira íntima a elementos do ambiente, tais como o enfrentamento de situações de elevada pressão e os desafios inerentes ao campo da saúde, que demandam habilidades emocionais para lidar com o sofrimento dos pacientes. Além do mais, concluiu-se que, à medida que progridem nos estudos e no curso, os sinais de depressão tendem a se acentuar15, divergindo dos resultados encontrados neste estudo, no qual os alunos dos últimos cinco períodos obtiveram médias menores tanto para depressão, quanto para ansiedade e estresse.

Estes e outros desafios enfrentados na própria rotina estudantil foram associados a maiores níveis de depressão, como ser do sexo feminino, sofrer pressão acadêmica e ter relacionamento fraco ou instável com os pais em estudantes de enfermagem na Arábia Saudita16. Já na Itália17 as mulheres e os estudantes com baixo nível socioeconômico percebido, foram os mais predispostos.

Fatores como diagnóstico prévio de transtornos mentais, relacionamentos românticos, desempenho acadêmico percebido, uso de tabaco, cannabis e bebidas alcoólicas evidenciaram associação com sintomas depressivos e/ou de ansiedade. O consumo elevado destas substâncias para aliviar os desafios acadêmicos e pessoais pode agravar os problemas de saúde mental17. Apontam a necessidade de as universidades e os serviços de saúde desenvolverem programas de promoção da saúde mental orientados a esta população, a fim de evitar agravamentos futuros16-17.

O impacto da ansiedade foi avaliado na vida acadêmica de 30 estudantes universitários que cursavam o último ano de enfermagem com predominância de níveis moderado (33,2%) e grave (23,4%), destacando-se que 93% informou que a rotina universitária, a cobrança dos professores, as provas, o Trabalho de Conclusão de Curso obrigatório e a preocupação com o futuro causavam insônia e desconforto, deixando-os mais tensos e preocupados, além da falta de autocuidado para com a saúde, gerando maior ansiedade18.

Uma metanálise, que incluiu 121 revisões sistemáticas, evidenciou que a maioria dos estudantes de enfermagem apresentaram níveis moderados tanto de estresse (42,1%) quanto de ansiedade (19,4%-25,1%) e que alunos do 3º e 4º anos experenciaram mais níveis de estresse graves comparados com os do 1º e 2º anos do curso (29,0% vs, 15,1%)19.

Medidas para aliviar estes sintomas também devem ser investigadas. Algumas variáveis sociodemográficas como sexo, semestre em curso, ano de ingresso, horas na universidade e prática de exercícios físicos foram efetivas no manejo do estresse entre estudantes de enfermagem na Bahia, no qual as mulheres, os que ingressaram há mais tempo e consequentemente estavam matriculados em semestre mais avançado, aqueles que praticavam alguma atividade física e os que passavam menor tempo na universidade conseguiram manejar melhor o estresse do que os demais20.

Outra alternativa para aliviar sintomas de depressão, ansiedade e estresse é o uso das plantas medicinais, assim como na presente investigação na qual os alunos informaram uso para ação calmante/relaxante, ansiedade, gripes/resfriados, estresse, entre outras. Estudo de revisão apoiou o uso de lavanda, lúpulo, maypop, erva-cidreira e valeriana para amenizar formas leves de depressão, ansiedade e estresse, contudo recomenda mais estudos para comprovar o mecanismo de ação, para que essas plantas possam ser usadas com segurança e êxito no alívio destes e de outros transtornos mentais21.

Na utilização de plantas medicinais é possível verificar que metade dos alunos entrevistados usufrui de uma boa parte destas plantas no seu dia a dia. Nesse sentido, é importante que estes estudantes tenham conhecimento dos benefícios destas plantas medicinais e fitoterápicos, já que, as PICS vêm se configurando ao longo da história como um novo modelo de assistência à saúde da comunidade22.

A camomila, o capim-limão e a melissa têm um efeito positivo no alívio da ansiedade, depressão e outros problemas neurológios. Essas plantas ajudaram a reduzir esses transtornos, provavelmente devido a que seus componentes afetam o sistema nervoso, sendo destacadas como um potencial recurso complementar e coadjuvante no tratamento de psicopatologias23.

A erva-cidreira foi avaliada em uma metanálise que evidenciou melhoras significativas para ansiedade e depressão em comparação com grupo placebo (SMD: -0,98; IC de 95%: -1,63 a -0,33; p = 0,003), (SMD: -0,47; IC de 95%: -0,73 a -0,21; p = 0,0005) respectivamente, sem detectar efeitos colaterais graves, sendo indicada principalmente em situações agudas24.

O uso de plantas medicinais tem sido eficaz no controle da ansiedade e no alívio dos sintomas depressivos, enquanto sua baixa toxicidade as torna adequadas para a formulação de medicamentos fitoterápicos25. Contudo, estes estudos21,23-24 analisaram as plantas mais utilizadas para transtornos mentais como depressão, ansiedade e estresse, em populações diversas, não especificamente para estudantes de graduação em enfermagem, portanto, não considerando as especificidades desta população.

Foi possível identificar que os estudantes que fizeram uso de plantas medicinais possuem maiores médias para depressão, ansiedade e estresse do que os que não as utilizam. Talvez pelo fato de já se sentirem com tais sintomas, tenham buscado seu uso para tentar amenizar e/ou controlar tais agravos, conforme surge dos relatos em que afirmam ter utilizado por buscar ações calmante/relaxante, ansiedade, estresse, entre outros.

Dado que os resultados indicam que os estudantes utilizam plantas medicinais em seu cotidiano, é fundamental que possuam conhecimento científico sobre seu uso. Isso é essencial para que possam aplicar esse conhecimento de forma segura e eficaz e, posteriormente, transmitir essas práticas de cuidado aos futuros usuários.

Em razão disso, o futuro profissional da saúde tem o dever de ter o preparo adequado para proporcionar o cuidado referente uma visão integral, que acolha o usuário com sensibilidade à sua realidade, visando adotar abordagens como desta prática que são menos intrusivas, automatizadas, de menor custo e de mais fácil acesso à população22.

Como limitações, destaca-se a amostragem por conveniência e a baixa aderência dos estudantes, pois mesmo informando sobre os objetivos da pesquisa em mais de um momento, poucos participaram. Deve ser ressaltado, também, que os instrumentos utilizados são analisados por autorrelato, tanto para o uso das plantas medicinais quanto para os sintomas psicológicos vivenciados pelos estudantes e, portanto, devem ser avaliados com cautela, sem generalização. Além disso, há uma carência de artigos que abordem o uso de plantas medicinais entre estudantes de enfermagem e que façam investigação entre o uso delas e os benefícios para com a saúde mental destes, que enfrentam os impactos gerados pelos sintomas de depressão, ansiedade e estresse.

Os resultados revelam a necessidade de abordar o tema durante a graduação visando ampliar o conhecimento científico sobre o uso de plantas medicinais para formar profissionais capacitados que possam indicar a planta adequada para o sintoma ou problema específico e assim evitar o uso empírico tanto para uso próprio quanto em sua futura prática clínica. Ressaltam-se os benefícios que as plantas medicinais podem gerar na saúde mental de estudantes, contudo são necessárias novas pesquisas que investiguem o uso específico destas plantas e fitoterápicos com este público alvo.

CONCLUSÃO

O estudo revelou uma expressiva quantidade de alunos com sintomas de depressão, ansiedade e estresse em níveis graves ou extremamente graves. Tais sintomas foram mais presentes entre aqueles que recorreram às plantas medicinais e aqueles matriculados nos períodos iniciais; com diferença estatisticamente significativa para o estresse, destacando-se que o grupo de alunos que cursavam do 1º. ao 5º. período relaram maiores médias do que os matriculados nos períodos finais (6º. ao 10º.).

O estudo evidenciou um amplo uso de plantas medicinais entre os acadêmicos de enfermagem, sendo que foi observado um aumento desse número após a pandemia do COVID-19. As plantas mais utilizadas por eles foram camomila, capim-cidreira, hortelã, boldo, babosa e erva-doce, obtidas no próprio quintal e usadas empiricamente.

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    João Lucas Campos de Oliveira

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Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    27 Jun 2025
  • Data do Fascículo
    2025

Histórico

  • Recebido
    19 Jul 2024
  • Aceito
    31 Jan 2025
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