Open-access Assistência à mulher no ciclo gravídico-puerperal na perspectiva de profissionais de saúde à luz do pensamento da complexidade*

Objetivo: compreender o significado da assistência à mulher no ciclo gravídico-puerperal, na perspectiva de profissionais de saúde à luz do pensamento da complexidade.

Método: pesquisa qualitativa ancorada em pressupostos teóricos do pensamento da complexidade: indissociabilidade, complementariedade e interconectividade. Participaram 23 profissionais da área de saúde materno-infantil, da região sul do Brasil. Os dados foram coletados por meio de entrevista individual e analisados pela técnica de análise temática.

Resultados: as três temáticas de análise foram a indissociabilidade da assistência à gestante e puérpera na complexidade de ser mulher e mãe; a complementariedade na assistência à mulher no ciclo gravídico-puerperal; a interconectividade entre saberes e práticas profissionais.

Conclusão: o significado da assistência à mulher no ciclo gravídico-puerperal, na compreensão dos profissionais, está associado à apreensão integral da mulher – gestante, puérpera, mãe, como unidade indivisível.

Descritores
Enfermagem; Atendimento Integral à Saúde da Mulher; Gestação; Puerpério; Atenção Primária à Saúde; Pesquisa Qualitativa


Destaques:

(1) Concebe-se a gestante e puérpera na complexidade indivisível de ser mulher e mãe.

(2) Sugere-se a superação de abordagens redutoras e simplificadoras.

(3) Sinaliza-se rupturas e avanços interprofissionais.

(4) Indica-se movimentos multiprofissionais na saúde materno-infantil.

(5) Sustenta-se o pensamento da complexidade como referencial pertinente e atual.

Objective: to understand the meaning of care for women in the pregnancy-puerperium cycle from the perspective of health professionals in the light of complexity thinking.

Method: qualitative research anchored in the theoretical assumptions of complexity thinking: inseparability, complementarity and interconnectedness. Twenty-three professionals in the field of maternal and child health from the southern region of Brazil took part. The data was collected through individual interviews and analyzed using the thematic analysis technique.

Results: the three themes of analysis were the inseparability of care for pregnant women and puerperal women in the complexity of being a woman and a mother; the complementarity of care for women in the pregnancy-puerperal cycle; the interconnectedness of professional knowledge and practices.

Conclusion: the meaning of care for women in the pregnancy-puerperium cycle, as understood by professionals, is associated with an integral understanding of the woman - pregnant woman, puerperal woman, mother, as an indivisible unit.

Descriptors
Nursing; Comprehensive Health Care; Pregnancy; Postpartum Period; Primary Health Care; Qualitative Research


Highlights:

(1) Pregnant and postpartum women are conceived in the indivisible complexity of being a woman and a mother

(2) It suggests overcoming reductionist and simplifying approaches.

(3) It signals interprofessional ruptures and advances.

(4) It indicates multi-professional movements in maternal and child health.

(5) It supports complexity thinking as a relevant and current reference.

Objetivo: comprender el significado de la asistencia a la mujer en el ciclo gravídico-puerperal, desde la perspectiva de los profesionales de la salud a la luz del pensamiento de la complejidad.

Método: investigación cualitativa anclada en supuestos teóricos del pensamiento de la complejidad: indisociabilidad, complementariedad e interconectividad. Participaron 23 profesionales del área de salud materno-infantil de la región sur de Brasil. Los datos fueron recolectados mediante entrevistas individuales y analizados mediante la técnica de análisis temático.

Resultados: las tres temáticas de análisis fueron la indisociabilidad de la asistencia a la gestante y puérpera en la complejidad de ser mujer y madre; la complementariedad en la asistencia a la mujer en el ciclo gravídico-puerperal; la interconectividad entre saberes y prácticas profesionales.

Conclusión: el significado de la asistencia a la mujer en el ciclo gravídico-puerperal, según la comprensión de los profesionales, está asociado a la aprehensión integral de la mujer – gestante, puérpera, madre, como una unidad indivisible.

Descriptores
Enfermería; Atención Integral de Salud; Embarazo; Periodo Posparto; Atención Primaria de Salud; Investigación Cualitativa


Destacados

(1) Se concibe a la gestante y puérpera en la complejidad indivisible de ser mujer y madre.

(2) Se sugiere la superación de enfoques reductores y simplificadores.

(3) Se señalan rupturas y avances interprofesionales.

(4) Se indican movimientos multiprofesionales en la salud materno-infantil.

(5) Se sostiene el pensamiento de la complejidad como un referente pertinente y actual.

Introdução

O ciclo gravídico-puerperal configura-se na vida de uma mulher como um percurso que impõe assistência singular e multidimensional, por excelência. Embora transitório, esse período é desencadeado por modificações continuas e definitivas na dinâmica e na organização do ser mulher/mãe tanto nas dimensões física e emocional quanto nas dimensões socioculturais, as quais transcendem a maternidade(2022-2018).

O referido período envolve uma dinâmica indivisível que requer, por parte dos profissionais de saúde, compreensão e assistência ampliada às gestantes nas dimensões física, emocional, social e espiritual. No entanto, a assistência profissional reduz-se, frequentemente, apenas à dimensão física e seus contornos com a doença, risco de complicações e intervenções pontuais associadas à identificação e à prevenção de doenças(2021-2022).

Estudos denotam que há pouca menção à importância do manejo das demandas emocionais, sociais e espirituais das gestantes e puérperas, em decorrência das abordagens dicotômicas e fragmentadas no ciclo gravídico-puerperal. Por outro lado, reconhecem que a assistência integral, continuada e complementar é capaz de minimizar tensões emocionais, físicas e melhorar o bem-estar da mãe e do filho(2023-2020). O suporte social e a atenção emocional favorecem o vínculo mãe-bebê e a espiritualidade desempenha papel essencial na redução do estresse, além de possibilitar mecanismos para o seu enfrentamento(2021).

Portanto, a assistência ampliada e multiprofissional à mulher no ciclo gravídico-puerperal pode dinamizar processos interativos, complementares e sistêmicos capazes de envolver as diferentes áreas e saberes profissionais de saúde. Requer-se, para tanto, referenciais que ampliem o pensamento e que concebam a mulher, gestante, puérpera, mãe como unidade complexa, não reduzida a fases ou dimensões dissociáveis(2020-2018).

Dentre os pressupostos teóricos do pensamento da complexidade concebe-se, neste estudo, a indissociabilidade, a complementariedade e a interconectividade. Esses pilares transcendem o pensamento cartesiano reducionista regido pela ordem, a separabilidade e a previsibilidade, abalado pelo desenvolvimento evolutivo das ciências. Ao apreender o ciclo gravídico em sua unicidade e multidimensionalidade, o pensamento da complexidade tende a superar abordagens hierárquicas entre saberes, resgatar as relações existentes entre os conhecimentos e possibilitar uma assistência ampliada e multidimensional à mulher no ciclo gravídico-puerperal(2015).

Na busca pela compreensão ampliada e multiprofissional, para além do período gravídico-puerperal do significado de ser mulher/mãe, e no desejo de contribuir com o saber próprio da Enfermagem na prospecção de um pensamento que integra, distingue e complementa, tem-se como questão pesquisa: qual o significado da assistência singular e multidimensional à mulher no ciclo gravídico-puerperal para profissionais da saúde? Objetiva-se, com base no exposto, compreender o significado da assistência à mulher no ciclo gravídico-puerperal, na perspectiva de profissionais de saúde à luz do pensamento da complexidade.

Método

Tipo de estudo

Pesquisa qualitativa ancorada em pressupostos teóricos do pensamento da complexidade, tais como: indissociabilidade, complementariedade e interconectividade. O pensamento complexo possibilita um percurso metodológico em que o pesquisador é induzido a aprender, a inventar-se e a (re)criar-se no percurso, mediante processos interpretativos e indutores de avanços em âmbito da gestão e da assistência à saúde. Como método, o pensamento da complexidade amplia a compreensão dinâmica de ser mulher (gestante, puérpera, mãe), permeada por uma organização e vivências singulares tecidas em conjunto, na qual a assistência/cuidado necessita considerar a unidade indissociável nas diferentes fases, assim como cada fase – gestação, parto, puerpério – no todo complexo(2015-2014).

Cenário, participantes e critérios de seleção

Participaram do estudo 23 profissionais que atuam em Unidades Básicas de Saúde, mais especificamente, na área saúde materno-infantil. Convidou-se, por meio de convite formal individual, todos os profissionais que atuavam na área saúde materno-infantil da região central do Rio Grande do Sul, por mais de dois anos. Incluiu-se, no entanto, profissionais com experiência comprovada na assistência à mulher no ciclo gravídico-puerperal. Foram critérios de exclusão: profissionais de saúde que atuavam apenas na gestação ou no puerpério, e profissionais afastados do serviço por algum motivo justificado.

Estimou-se, inicialmente, um total de 33 participantes com representação regional significativa na área saúde materno-infantil, mas atenderam aos critérios de inclusão e exclusão apenas 23 profissionais de saúde, quais sejam: 14 enfermeiros, seis médicos e três odontólogos. Os participantes foram acessados por e-mail, a partir do contato fornecido pela coordenadora regional de saúde. Os dados foram coletados no local de atuação de cada participante, em espaço reservado e indicado pelo profissional.

Técnica e período de coleta dos dados

Os dados foram coletados por meio de entrevistas individuais, entre março e agosto de 2022, por um profissional Enfermeiro previamente instrumentalizado para este fim. As entrevistas foram conduzidas com base nas seguintes questões: qual o significado da assistência ampliada e multiprofissional à mulher no ciclo gravídico-puerperal para você? Em sua opinião, como promover uma assistência complementar e integradora à mulher no ciclo gravídico-puerperal? Como avançar e possibilitar práticas mais interconectadas e horizontalizadas à mulher no ciclo gravídico-puerperal? Essas questões foram aprofundadas de modo a contemplar novos significados e percepções.

As entrevistas individuais foram realizadas por apenas um entrevistador, em local, dia e horário indicado pelos participantes do estudo. Primou-se, nesse percurso, pela ambiência acolhedora e livre de ruídos, de modo a assegurar a singularidade e a privacidade de cada participante. As entrevistas foram gravadas em gravador digital e tiveram uma duração de aproximadamente 40 minutos. Após organizadas, as entrevistas foram transcritas integralmente em editor de texto por dois pesquisadores. O conjunto de dados transcritos resultou em 68 páginas, as quais passaram pela aprovação dos entrevistados.

Tratamento e análise dos dados

Os dados foram analisados com base na técnica de análise temática(2020), sistematizada em seis etapas, conforme segue: a) ambientação – fase em que os pesquisadores imergiram profundamente nos dados, no sentido de familiarizar-se amplamente com os elementos textuais; b) compilação indutiva de códigos iniciais – etapa em que os pesquisadores codificaram, de forma manual e sistemática, o conjunto de dados com atenção plena e igual a cada elemento textual; c) geração de temas de significação – etapa em que os diferentes códigos foram combinados em temáticas abrangentes; d) revisão das temáticas – etapa em que os pesquisadores refinaram os temas, a fim de denotar, separadamente, as proximidades e as distinções entre os temas; e) designação dos temas – fase em que os pesquisadores identificaram a essência/centralidade de cada temática, em particular e no conjunto dos temas; f) elaboração do relatório de pesquisa – fase em que os pesquisadores refinaram, em detalhes, o conjunto de dados e, por fim, escreveram o relatório. Esse processo de análise não foi, no entanto, pontual e linear, mas demandou movimentos indutivos e recursivos, conforme proposto pelo pensamento da complexidade.

O processo de análise dos dados ocorreu desde a condução das primeiras entrevistas, com base em padrões de significados. Realizou-se, para tanto, o registro constante de ideias, insights, rascunhos e esquemas, não com o objetivo de alcançar acurácia, mas no intuito de alcançar profundidade e significado, à luz do pensamento da complexidade.

Aspectos éticos

Considerou-se, para o cumprimento das questões éticas, as recomendações da Resolução n° 466/2012 do Conselho Nacional de Saúde. Para manter o anonimato, as falas dos participantes foram identificadas, ao longo do texto, pela letra “PS” (Profissional de Saúde), seguida de um algarismo arábico de acordo com a ordem das falas: PS1... PS23. Os participantes da pesquisa foram esclarecidos sobre as finalidades, a metodologia utilizada, o direito de livre acesso aos dados e a sua desistência a qualquer momento. O seu consentimento e aceite à pesquisa se deu por meio da assinatura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido. O projeto foi aprovado pelo comitê de ética em pesquisa sob o número: 5.183.232 e Certificado de Apresentação de Apreciação Ética (CAAE): 54380521.2.0000.5306.

Resultados

Dos 23 participantes, a média de idade foi de 38 anos e, de escolaridade, o ensino superior completo. O período de atuação dos profissionais na área saúde materno-infantil em âmbito da Atenção Primária à Saúde foi de 3 a 19 anos.

Apresenta-se, a seguir, as três temáticas à luz do pensamento da complexidade: a indissociabilidade da assistência à gestante e puérpera na complexidade de ser mulher e mãe; a complementariedade na assistência à mulher no ciclo gravídico-puerperal; a interconectividade entre saberes e práticas profissionais.

A indissociabilidade da assistência à gestante e puérpera na complexidade de ser mulher e mãe

Denotou-se, na fala dos participantes, a necessidade de investir na indissociabilidade da assistência integral à mulher, isto é, para além das fases singulares da mulher como a gestação, o parto e o puerpério. Alguns participantes mencionaram que, por vezes, o ciclo é fragmentado e conduzido em partes separáveis: Muitas vezes, eu sinto, que cada profissional percebe e cuida de uma parte e não consegue perceber que a mulher é a mesma, é única na gestação, parto, puerpério e mãe (PS 5).

O ciclo gravídico-puerperal é considerado, pelos participantes, em período indivisível e não reduzível às consultas, exames, prevenção de doenças ou grupos de gestantes, visto que o desfecho favorável e/ou não de uma das partes compromete a dinâmica da mulher em sua organização vital. Um participante enfatizou, de forma mais incisiva, que a mulher precisa ser acolhida e compreendida em seu contexto situacional e que o engajamento de todos os profissionais e setores deve conduzir à integralidade e à complementariedade da assistência: A gravidez, o parto, a vinda do bebê são momentos únicos na vida de uma mulher e família. Tudo precisa funcionar de forma integrada e continuada. A mulher não pode ser assistida em etapas, mas acolhida e compreendida em todas as dimensões. A família deve ser acolhida e integrada em todo esse processo (PS 9).

A qualidade da atenção às gestantes e puérperas necessita, na fala dos participantes deste estudo, evoluir e alcançar um novo significado, ao considerarem que a assistência segue fragmentada e organizada em fases distintas e pontuais. Nesse sentido, a qualidade foi traduzida na habilidade profissional de possibilitar espaços dialógicos e organizados em redes de cuidado: Nota-se que nós evoluímos muito na atenção à gestante e puérpera, mas ainda trabalhamos isolados e não percebemos a mulher gestante, puérpera, mãe como única e integrante de uma rede (PS 10). Às vezes tudo fica muito separado e a gente esquece que a mulher que percorre os diferentes pontos da rede é a mesma (PS 12).

Alguns participantes referiram certo desconforto e reconhecem, claramente, as fragilidades presentes na assistência integral à mulher. Percebem que a qualidade da assistência consiste em evoluir na compreensão teórica e no exercício de acolher a mulher – gestante, puérpera, mãe em sua dimensão singular e multidimensional. A esse propósito, fizeram referência aos espaços concretos de interlocução entre os profissionais dos diversos pontos da rede, a fim de ampliarem a compressão e discutirem estratégias colegiadas de intervenção: Todos deveriam ter consciência da função de cada profissional na linha saúde materno-infantil. Às vezes nos preocupamos apenas com a nossa parte e esquecemos que a gestante e a puérpera devem estar no centro da assistência (PS 15). Em relação à cesariana não temos uma linguagem única. Cada um explica do seu jeito e a partir da sua visão e compreensão. Isto precisa melhorar muito para que efetivamente a mulher ocupe a centralidade na assistência (PS 17).

Embora a maioria dos participantes tenha sinalizado avanços na atenção à mulher no período pré-natal e parto, um pequeno grupo reforçou a necessidade de qualificar a assistência puerperal, geralmente, relegada a um segundo plano. No depoimento de um participante ficou notório o avanço conquistado em relação à humanização do parto, mas em contrapartida o puerpério não avançou na mesma proporção: Aqui fazemos o melhor para que esta mulher tenha um parto tranquilo e humanizado, mas conversando com uma puérpera ela me disse que ninguém mais havia feito contato com ela depois do nascimento da criança (PS 23).

Denotou-se, na fala dos participantes, em geral, que existe um desejo de evolução tanto no que se refere à compreensão teórica ampliada quanto na assistência integral às mulheres no ciclo gravídico-puerperal. Os participantes não conseguiram, por vezes, expressar-se cientificamente, mas reconhecem que a mulher-usuária, gestante, puérpera ou não, é um ser singular e integrante de uma realidade pessoal, familiar e social ampliada.

A complementariedade na assistência à mulher no ciclo gravídico-puerperal

Diversos participantes referiram que, geralmente, cada profissional vê e executa apenas a sua parte, a sua rotina e, consequentemente, defende as suas especificidades locais sem considerar a rede de saúde: Percebo a falta de alinhamentos dos profissionais que atuam na linha de saúde materno-infantil. A mulher é a mesma e as condutas precisam convergir para uma melhor assistência (PS 4).

Um participante, em especial, denotou que a contrarreferência raramente ocorre por parte dos profissionais que atuam na área hospitalar. Sob esse enfoque, destacou a falta de comunicação e diálogo entre os diversos setores e atores da rede. Já aconteceu de uma criança nascer com problemas e ter evoluído para uma parada cardiorrespiratória e nós da Unidade de Saúde não tomarmos ciência. Falta comunicação e compressão do trabalho de cada profissional. Cada um acha que está fazendo o melhor, mas não sabemos o que acontece do outro lado. Cada um defende a sua parte (PS 13).

Percebeu-se, na fala dos participantes, a relevância do processo de trabalho complementar e continuado entre os diversos serviços da rede de saúde. Sob esse enfoque, um participante refletiu que, no âmbito do Sistema Único de Saúde (SUS), ninguém trabalha sozinho ou isolado e que o usuário deve ser acolhido como singular e integrante de uma rede, em que cada ponto é complementar ao outro. Nós precisamos entender que no SUS nada acontece de forma isolada ou separada. A mulher não pode ficar perambulando de um serviço para o outro. Todos somos responsáveis, não importa em que unidade eu trabalho. Precisamos olhar para o SUS como um grande sistema, que só funciona em cooperação com todos os profissionais da rede (PS 18).

Um participante, em especial, demonstrou que para além do conhecimento técnico, os profissionais necessitam conhecer ampla e profundamente o funcionamento da rede de saúde materno-infantil: Você precisa conhecer o funcionamento da rede materno-infantil como um todo. A nossa tendência, muitas vezes, é olhar só o que acontece no próprio local de trabalho sem perceber as consequências de cada ato profissional na vida do usuário. Nós teríamos que ter mais encontros para estudar e conhecer o que acontece nos diversos pontos da rede (PS 19).

Percebeu-se, na maioria dos depoimentos, a necessidade de desencadear um novo pensar e agir na assistência à mulher no ciclo gravídico-puerperal. Embora reconheçam iniciativas e avanços na área, nem todos os profissionais estão devidamente apropriados e sintonizados com os princípios e diretrizes que regem a atenção integral à saúde da mulher.

A interconectividade entre saberes e práticas profissionais

Diversos participantes fizeram referência à premência de promover e ampliar os espaços de interlocução para o compartilhamento de saberes e práticas entre os profissionais dos diferentes pontos da rede de saúde materno-infantil. Na fala de uma profissional, mais especificamente, ficou notória a pouca interlocução entre os profissionais, setores e serviços, ao mencionar: Eu vejo que ocorrem coisas tão lindas nos serviços, mas a gente não divulga e não fica sabendo. As conquistas de um serviço podem impulsionar outras iniciativas, mas as vezes a gente não fica sabendo. Outro dia uma usuária me contou tudo o que a unidade promove para que as pessoas se sentissem acolhidas (PS 6).

Denotou-se, em outras falas, que as novas evidências científicas da área nem sempre são consideradas e aplicadas na prática profissional. Nessa direção, alguns participantes fizeram referência aos profissionais que orientam a sua prática em modelos tradicionais, isto é, sem critérios e evidências científicas. Tem profissionais que seguem defendendo as suas práticas tradicionais, que hoje não fazem o mínimo sentido. Muitas delas são até contraindicadas. Eu vejo isto como grande desafio. As coisas mudam e nossa cabeça também precisa evoluir (PS 14).

Outros participantes, ainda, fizeram referência à formação profissional prospectiva. Reconhecem que nem sempre os profissionais de saúde são formados na lógica da cooperação e interconectividade entre saberes e práticas sustentadas nas melhores evidências científicas. Denotaram, sob esse enfoque, que a superação de processos fragmentados e dicotômicos perpassa necessariamente pela formação profissional pautada em referenciais que ampliam perspectivas multiprofissionais. A formação profissional precisa evoluir em muitos pontos. A teoria nem sempre tem significado na prática, assim como a prática sem a teoria não tem sentido. Como as coisas devem evoluir? Eu entendo que precisa ter mais diálogo e interlocução entre as universidades e os serviços (PS 20).

A necessária interlocução foi demonstrada, igualmente, na atuação multiprofissional e interprofissional. Para a maioria dos participantes, a qualidade da assistência à mulher no ciclo gravídico-puerperal requer percepção ampliada e atuação multiprofissional, a partir da indução de espaços compartilhados de construção do conhecimento e à tomada de decisões colegiadas. Nós precisamos aprender uns com os outros. Uma assistência de qualidade não se dá pelo trabalho de uma única área profissional ou serviço. Cada profissional tem a sua percepção e juntos teremos um maior alcance (PS 21).

A educação permanente em saúde constitui-se, na visão dos participantes, em um importante dispositivo agregador e dinamizador de posturas profissionais mais dialógicas, colaborativas e complementares entre os profissionais que integram a rede de saúde materno-infantil. Além de habilidade e competência técnica, é fundamental que os profissionais de saúde sejam capazes de transcender o seu saber e o seu espaço de prática profissional.

Discussão

O pensamento da complexidade induz à tessitura, em conjunto, do emaranhado de fios que integralizam, complementam e dinamizam a assistência à gestante e puérpera na complexidade indivisível de ser mulher e mãe. As diversas fases e vivências da mulher articulam-se para produzir o todo que retroage sobre as diferentes dimensões(2015-2014). Logo, o pensamento da complexidade é um desafio ao conhecimento e um impulso à evolução prospectiva na área da saúde materno-infantil.

Ao invés de conceber e promover uma assistência em fases – gestação, parto, puerpério, mãe, a mulher precisa ser apreendida em sua realidade existencial indivisível, a qual comporta um conhecimento ampliado, singular, complementar e interconectado aos fatos, vivências e percursos que ampliam perspectivas e fortalecem vínculos(2023-2020). A assistência ampliada e integral à mulher no ciclo gravídico-puerperal necessita, sob esse olhar multifatorial e prospectivo, contemplar abordagens e práticas complementares e multiprofissionais, com vistas ao alcance da dimensão física, psíquica, social e espiritual.

Evidências científicas corroboram esse pensar ampliado e evolutivo ao demonstrarem a necessidade de centrar a assistência na mulher – unidade complexa, independente da fase ou período em que se encontra. Ao abarcar a complexidade do cuidado/assistência, os profissionais reconhecem o direito da mulher em relação às decisões autônomas e possibilitam percursos complementares e indissociáveis no ciclo gravídico-puerperal(2024-2022).

Avançar em direção aos pressupostos teóricos do pensamento da complexidade é premente para que, face aos desafios relacionados ao modelo hegemônico de intervenção na área da saúde materno-infantil, se favoreça uma visão complexa de mundo, de ser humano, de cuidado em saúde na perspectiva interprofissional. A superação de abordagens prevalentes na assistência à mulher no ciclo gravídico-puerperal requer, portanto, percepção ampliada e multiprofissional, a partir de espaços compartilhados de construção do conhecimento(2024).

Ao reconhecer que a “mulher não pode ser assistida em etapas” concebe-se que o todo vai muito além da simples soma das partes/períodos do ciclo gravídico-puerperal. Assim, na medida em que as partes se integram e complementam para formar o todo, produz-se novas ideias, comportamentos e evoluções teórico-práticas. Dá-se espaço ao compartilhamento de saberes, à interconectividade de diálogos e à indissociabilidade de abordagens e práticas profissionais(2023).

Os avanços técnico-científicos dependem, cada vez mais, do conhecimento articulado e compartilhado entre profissionais das diversas áreas do conhecimento. Requer-se fomentar, nesse sentido, referenciais que transcendam posturas profissionais tradicionais e inflexíveis ainda presentes nos cenários de saúde, conforme evidenciado neste estudo “elesseguem defendendo as suas práticas tradicionais, que hoje não fazem o mínimo sentido”. Para além de novas políticas e ações estratégicas voltadas às gestantes e puérperas, são necessárias, crescentemente, novas condutas e atitudes individuais e coletivas, embasadas em abordagens compartilhadas e apoiadas nas melhores evidências científicas(2023-2023).

Como, no entanto, descortinar novas possibilidades teóricas e promover investimentos profissionais que contemplem a assistência à mulher em sua unicidade e multidimensionalidade? O fomento de saberes e práticas mais evoluídos e complexos na área da saúde implica, necessariamente, em evoluir no pensamento sistêmico e reconhecer abordagens interprofissionais e multidimensionais capazes de transcender a fragmentação e a linearidade do ser e promover a assistência à mulher no ciclo gravídico-puerperal(2022-2020).

Conceber a qualidade da assistência no ciclo gravídico-puerperal na complexidade indivisível de ser mulher e mãe remonta, na lógica do pensamento da complexidade, uma tradição histórico-hegemônica, na qual prevaleceram relações verticalizadas, prescritivas e previsíveis, nas quais se desconsidera, frequentemente, a autonomia e a decisão da mulher(2022). Sob esse viés hegemônico tradicional, a mulher era geralmente privada de seus direitos e raramente estimulada ao protagonismo e à tomada de decisões autônomas(2023). Esse pensar e agir tradicional-redutor não pactua com os pressupostos teóricos da indissociabilidade, complementariedade e interconectividade à luz do pensamento da complexidade.

Fenômenos complexos emergem do comportamento dinâmico das unidades interativas e associativas referidas como auto-organizadas, que ocorrem em sistemas que são dissipativos e não lineares(2023). Sob esse pensar, o conhecimento do todo depende das partes, assim como o conhecimento das partes depende do todo, conforme demonstrado pelos participantes. Esse processo reflete a capacidade profissional de interligar diferentes áreas e serviços que compõem a rede de saúde materno-infantil e, consequentemente, dialogar com os diversos saberes profissionais.

O ser humano – mulher – é, por excelência, uma unidade complexa, isto é, produtora e produto de uma complexidade dinâmica, evolutiva e multidimensional(2021). Assim, embora se negue a indissociabilidade, a complementaridade e a interconectividade no ciclo gravídico-puerperal, a assistência integral à mulher – gestante, puérpera, mãe – implica necessariamente na ruptura de modelos hegemônicos e na reforma do pensamento por parte dos profissionais de saúde. Não basta que se tenha uma rede organizada e articulada em saúde materno-infantil se, paralelamente, o pensamento e a atuação dos profissionais de saúde seguirem verticalizados, fragmentados e pautados em saberes disciplinares e unidimensionais.

Evoluir no pensamento significa, na perspectiva evolutiva e prospectiva, apreender a mulher em sua unicidade e complementariedade; transcender as barreiras disciplinares da área da saúde e alcançar um pensamento integrador, colaborativo e indissociável(2015-2014). Esse percurso evolutivo implica em reconhecer que a qualidade da assistência à mulher está associada à capacidade de evoluir na reflexibilidade que comporta ações contraditórias e aparentemente antagônicas para gerar fenômenos complexos e sistêmicos.

As contribuições deste estudo para o avanço do conhecimento científico na área da saúde materno-infantil estão associadas à superação de um pensamento redutor que concebe a mulher (gestante, puérpera, mãe) em partes fragmentadas e dissociáveis. A assistência integral e de qualidade à mulher em seu ciclo gravídico-puerperal implica necessariamente em rupturas e avanços, as quais podem ser protagonizadas pelos Enfermeiros imbuídos de um pensamento ampliado, integrador e prospectivo. É fundamental que o enfermeiro se empodere do seu saber singular e contribua, prospectivamente, para uma atuação evolutiva no contexto da saúde materno-infantil.

Considera-se, como limitação deste estudo, a não totalidade dos participantes representativos na área e previamente previstos e incluídos no estudo. Outra limitação está associada ao pouco tempo dos participantes para a realização das entrevistas com significado e profundidade.

Conclusão

O significado da assistência à mulher no ciclo gravídico-puerperal, na compreensão dos profissionais, está associado à apreensão integral da mulher – gestante, puérpera, mãe – como unidade indivisível. Para além do ciclo gravídico-puerperal, a mulher precisa ser apreendida em suas vivências e experiências singulares e indivisíveis.

A apreensão ampliada e contextualizada de assistência/cuidado, como unidade complexa – singular e multidimensional – é imprescindível para a indução da autonomia, da criatividade, da interatividade, enfim das relações próximas, dialógicas e humanizadas no contexto da saúde materno-infantil.

A presente pesquisa ressalta a importância e recomenda novos estudos acerca da necessária evolução de pensamento na assistência às gestantes e puérperas, a fim de promover abordagens integrativas e colaborativas entre os profissionais e destes com os usuários de saúde.

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  • Como citar este artigo
    Backes DS, Morais TR, Rosa CB, Haeffner LSB, Galvão DMPG, Pereira ADA. Care for women in the pregnancy-puerperium cycle from the perspective of health professionals in the light of complexity thinking. Rev. Latino-Am. Enfermagem. 2025;33:e4458 [cited ano mês dia]. Available from: URL . https://doi.org/10.1590/1518-8345.7313.4458
  • *
    Apoio financeiro do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), processo nº 402157/2021-4, Brasil.

Editado por

  • Editora Associada:
    Maria Lúcia Zanetti

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    03 Fev 2025
  • Data do Fascículo
    2025

Histórico

  • Recebido
    05 Fev 2024
  • Aceito
    12 Set 2024
Creative Common - by 4.0
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