Open-access Prevalência e fatores associados ao medo do parto: inquérito online nacional em adultos brasileiros*

Objetivo:  identificar a prevalência e os fatores associados ao medo do parto em adultos brasileiros.

Método:  estudo transversal com 528 participantes entre 18 e 58 anos. Os dados foram coletados por meio de um inquérito online, que abordou características sociodemográficas, comportamentais, além de informações relacionadas à saúde, à história obstétrica e ao medo do parto, conforme a versão brasileira do instrumento Childbirth Fear Prior to Pregnancy. As variáveis foram analisadas e ajustadas por modelos de regressão linear múltipla, assumindo que os resíduos seguem uma distribuição normal.

Resultados:  a prevalência do medo do parto foi de 28,4% (n=133) para baixo, 19,5% (n=103) para moderado e 26,9% (n=142) para alto medo do parto. Análises multivariadas mostraram que escores mais baixos de medo do parto estavam associados à idade mais jovem (p=0,002) e sexo feminino (p<0,000). Por outro lado, indivíduos com gestação anterior tiveram maiores escores do CPFF (p=0,005).

Conclusão:  a prevalência do medo do parto foi 71,6% (n=378), distribuída entre baixo (25,2%), moderado (19,5%) e alto medo (26,9%). Fatores como maior idade e gênero feminino foram associados a menores escores de medo, enquanto a gestação prévia esteve ligada a um nível mais elevado de medo. Esses resultados sugerem que a experiência materna pode influenciar decisões futuras sobre a escolha do próprio parto ou impactar a percepção de outras pessoas do seu convívio.

Descritores:
Enfermagem Obstétrica; Medo; Parto; Internet; Educação em Saúde; Gestante


Destaques:

(1) Escores mais altos de medo do parto mostraram-se associados ao sexo feminino. (2) Prevalência de medo do parto na população que deseja ter filhos. (3) A população mais jovem apresenta mais medo do parto. (4) Maior associação ao medo do parto em mulheres com experiência anterior.

Objective:   to identify the prevalence and factors associated with fear of childbirth in Brazilian adults.

Method:   cross-sectional study with 528 participants aged between 18 and 58 years. Data were collected via an online questionnaire that addressed sociodemographic and behavioral characteristics, as well as information related to health, obstetric history, and fear of childbirth, using the Brazilian version of the Childbirth Fear Prior to Pregnancy instrument. The variables were analyzed and adjusted by multiple linear regression models, assuming that the residuals follow a normal distribution.

Results:  the prevalence of fear of childbirth was 28.4% (n=133) for low, 19.5% (n=103) for moderate, and 26.9% (n=142) for high fear of childbirth. Multivariate analyses showed that lower fear of childbirth scores were associated with younger age (p=0.002) and female gender (p<0.000). On the other hand, individuals with previous pregnancies had higher CPFF scores (p=0.005).

Conclusion:   the prevalence of fear of childbirth was 71.6% (n=378), distributed between low (25.2%), moderate (19.5%), and high fear (26.9%). Factors such as older age and female gender were associated with lower fear scores, while previous pregnancy was linked to a higher level of fear. These results suggest that maternal experience may influence future decisions about the choice of childbirth or impact the perception of other people in their social circle.

Descriptors:
Obstetric Nursing; Fear; Childbirth; Internet; Health Education; Pregnant Person.


Highlights:

(1) Higher scores for fear of childbirth were associated with female gender. (2) Prevalence of fear of childbirth in the population who wish to have children. (3) The younger population shows more fear of childbirth. (4) Greater association with fear of childbirth in women with previous experience.

Objetivo:  identificar la prevalencia y los factores asociados con el miedo al parto en adultos brasileños.

Método:   estudio transversal con 528 participantes de entre 18 y 58 años. Los datos se recopilaron mediante una encuesta en línea, que abordó características sociodemográficas y conductuales, así como información relacionada con la salud, la historia obstétrica y el miedo al parto, según la versión brasileña del instrumento Childbirth Fear Before to Pregnancy. Las variables fueron analizadas y ajustadas por múltiples modelos de regresión lineal, asumiendo que los residuos siguen una distribución normal.

Resultados:  la prevalencia del miedo al parto fue del 28,4% (n=133) para el bajo miedo, del 19,5% (n=103) para el moderado y del 26,9% (n=142) para el alto miedo al parto. Los análisis multivariantes mostraron que puntuaciones más bajas de miedo al parto se asociaban con una edad más joven (p=0,002) y el sexo femenino (p<0,000). Por otro lado, las personas con embarazos previos obtuvieron puntuaciones CPFF más altas (p=0,005).

Conclusión:  la prevalencia del miedo al parto fue del 71,6% (n=378), distribuida entre un miedo bajo (25,2%), moderado (19,5%) y alto (26,9%). Factores como la edad avanzada y el género femenino se asociaron con puntuaciones de miedo más bajas, mientras que el embarazo previo se asoció con un nivel más alto de miedo. Estos resultados sugieren que la experiencia de la madre puede influir en decisiones futuras sobre la elección de su propio nacimiento o influir en la percepción que otras personas tienen de su vida.

Descriptores:
Enfermería Obstétrica; Miedo; Parto; Internet; Educación para la Salud; Persona Embarazada


Destacados:

(1) Las puntuaciones más altas por miedo al parto se asociaron con el género femenino. (2) Prevalencia del miedo al parto en la población que quiere tener hijos. (3) La población más joven tiene más miedo al parto. (4) Mayor asociación con el miedo al parto en mujeres con experiencia previa.

Introdução

O medo do parto é caracterizado por sentimento de insegurança e ansiedade antes, durante ou após o nascimento, em relação ao processo de trabalho de parto e ao momento de dar à luz, com variações de níveis mais leves ou mais graves1-2. Esse sentimento pode ser decorrente de relatos ou experiências ruins em partos anteriores, geradas por tratamento hostil pela equipe, sensação de abandono ou não participação das decisões em relação à assistência3-4.

O medo intenso do parto é uma questão multifacetada que se estende muito além do evento obstétrico em si, impactando significativamente a saúde mental e o bem-estar emocional das mulheres a longo prazo. Conforme evidenciado pela literatura, a complexidade do parto, que mobiliza uma gama de sentimentos contraditórios como ansiedade, insegurança e estresse, já aponta para a relevância dos aspectos psicológicos envolvidos5.

As evidências científicas indicam que fatores socioculturais desempenham um papel significativo no desencadeamento do medo do parto. Narrativas culturais, transmitidas por familiares e amigos, que associam o parto vaginal à dor e ao sofrimento, contribuem para que as mulheres desenvolvam ansiedade, insegurança e temores intensificados. Isso resulta na subestimação da própria capacidade fisiológica de dar à luz, apesar da história milenar de partos naturais sem medicalização. O grande desafio na assistência obstétrica é, portanto, devolver à gestante o controle sobre seu corpo e pensamentos, promovendo essa confiança ao longo de todo o pré-natal, e não apenas nas horas que antecedem o parto6.

Essa apreensão profunda pode gerar uma série de consequências que se manifestam de diversas formas na vida das mulheres. Além dos efeitos fisiológicos já conhecidos - como prolongamento da dilatação, maior risco de pré-eclâmpsia, parto prematuro e cesariana de emergência -, o medo do parto está intrinsecamente ligado a resultados negativos de saúde mental e qualidade de vida. Ele pode levar ao desenvolvimento de depressão pós-parto, afetar os índices de amamentação e até mesmo resultar em maior necessidade de admissão do recém-nascido em unidades de terapia intensiva7-8.

Esse estudo identificou que a primeira gestação, menor nível educacional, concepção natural e preferência por cesariana estão associados a um maior nível de medo. Além disso, comorbidades como alta miopia e doenças urinárias foram apontadas como preditores independentes de medo severo. Reconhecer a complexidade do medo do parto é crucial para os profissionais de saúde que integram a triagem obstétrica nos cuidados pré-natais, especialmente em grupos de risco. Isso permite oferecer aconselhamento e apoio personalizados, promovendo escolhas de parto informadas e contribuindo para o bem-estar psicológico materno e melhores resultados obstétricos9.

A Suécia é um dos poucos países em que o medo do parto é reconhecido como um problema importante e onde serviços de aconselhamento estão disponíveis para a maioria das mulheres grávidas. Uma pesquisa realizada em 2006, com 2.262 mulheres suecas, indicou a prevalência do medo do parto em torno de 10%. As mulheres eram recrutadas em sua primeira consulta a uma clínica pré-natal durante três semanas predeterminadas, distribuídas ao longo de 1 ano. O estudo revelou que o medo do parto estava associado a um aumento da taxa de cesarianas eletivas e com experiência de parto “aceitável” nas mulheres que realizaram aconselhamento4.

Em um estudo realizado na Croácia, envolvendo estudantes universitárias jovens e não grávidas dos cursos de ciências da saúde, ciências sociais e humanas, demonstrou-se que 25,9% das estudantes relataram medo significativo do parto, sendo que o das estudantes de ciências da saúde era em nível menor quando comparado com o das demais estudantes dos outros programas, além de terem recebido mais informações sobre parto no contexto familiar quando comparado ao processo de aprendizagem. Acredita-se que o nível mais alto de medo do parto poderia ser previsto na identificação de fatores como a sensibilidade à ansiedade, traço de ansiedade, expectativa de dor no parto e fontes de conhecimento sobre parto10.

O medo do parto afeta negativamente as mulheres de várias maneiras, o que pode desencadear o aumento do uso de analgesia de parto, desequilíbrio emocional, prolongamento do trabalho de parto, a escolha por uma cesárea eletiva, dificuldade de vínculo com o bebê e depressão pós-parto11-14. Adicionalmente, isso pode impactar a harmonia nas relações familiares e com o parceiro. Há evidências substanciais indicando que altos níveis de medo do parto acarretam transtorno de estresse pós-traumático, ansiedade pós-parto, depressão e psicose, e até mesmo aumentam a necessidade de cuidados psiquiátricos a longo prazo15-16.

Evidências crescentes sugerem que o medo do parto não é uma prerrogativa exclusiva das mulheres; os futuros pais também podem vivenciar ansiedades significativas relacionadas ao nascimento, embora suas preocupações e manifestações possam diferir. A inclusão da perspectiva masculina na investigação do medo do parto é fundamental, não apenas para compreender a experiência paterna em si, mas também devido ao impacto que o bem-estar do pai pode ter sobre a parceira, a dinâmica familiar e o próprio processo de transição para a parentalidade17. Ignorar o medo do parto nos homens significa deixar uma parcela da população sem o suporte e a compreensão necessários durante um período de vulnerabilidade.

A adoção de medidas de avaliação e intervenção sobre o parto contribui para a desmistificação de medos e crenças errôneas, melhorando o bem-estar e a qualidade de vida dos jovens, além de reforçar os esforços internacionais na redução das taxas de cesarianas eletivas e da medicalização. É importante avaliar e intervir previamente em populações não grávidas, uma vez que é no período gestacional que os medos se tornam mais intensos18.

Nesse cenário, a enfermagem assume um papel central e insubstituível. Profissionais de enfermagem, com sua proximidade e abordagem holística no cuidado perinatal, estão em uma posição privilegiada para atuar como facilitadores no processo de desmistificação do parto e na redução do medo associado. Por meio de uma escuta ativa, educação perinatal abrangente, e implementação de práticas de cuidado personalizadas e fundamentadas em evidências científicas, a enfermagem pode empoderar tanto mulheres quanto homens. Isso envolve desconstruir mitos, fornecer informações claras e realistas sobre o processo de nascimento, discutir opções de manejo da dor, promover o protagonismo do casal e criar um ambiente de confiança e segurança19-21.

Uma pesquisa qualitativa22 investigou a percepção de mulheres sobre o aconselhamento de parteiras em relação ao medo do parto. Os resultados revelaram uma melhora na confiança das mulheres para o parto após a aquisição de informações e conhecimentos. As participantes relataram sentir maior calma e preparação, o que fortaleceu sua capacidade de lidar com a incerteza do processo de parturição, impactando positivamente a experiência de dar à luz. Adicionalmente, o sentimento de segurança proporcionado pelo apoio profissional durante o parto contribuiu para que as mulheres se sentissem fortalecidas. Essa experiência positiva, por sua vez, reforçou a autoconfiança para partos futuros, e o medo do parto foi percebido como reduzido ou controlável.

Apesar de sua comprovada eficácia na redução da dor, diminuição do tempo de trabalho de parto e do parto em si, e por serem de baixo custo e fácil aplicabilidade, métodos não farmacológicos como terapia térmica, massagem, aromaterapia, acupressão, dança e exercícios com bola suíça ainda são pouco divulgados. Essas abordagens também estão associadas a um menor uso de intervenções medicamentosas para analgesia. No entanto, é no cenário do parto, com a presença e atuação da enfermagem obstétrica, que esses métodos ganham maior visibilidade e são mais amplamente empregados23-24. A enfermagem desempenha um papel crucial como facilitadora na desmistificação do parto e na redução do medo, promovendo ativamente essas práticas de cuidado personalizadas e baseadas em evidências, que empoderam a mulher e contribuem para uma experiência mais positiva e menos medicalizada do parto.

Torna-se imperativo investigar os fatores associados ao medo do parto, ampliando o escopo tradicional para incluir a população masculina e considerando a avaliação em fases que antecedem a gestação, particularmente no contexto brasileiro. A compreensão aprofundada desses fatores é fundamental para subsidiar o desenvolvimento de estratégias de intervenção mais eficazes, inclusivas e culturalmente sensíveis, promovidas especialmente pela enfermagem, visando aprimorar a saúde perinatal e a experiência de nascimento para todos os envolvidos. Desse modo, esse estudo teve como objetivo identificar a prevalência e os fatores associados ao medo do parto em adultos brasileiros.

Método

Delineamento do estudo

Trata-se de um estudo transversal e analítico, realizado com um inquérito online com adultos acima de 18 anos, brasileiros das cinco macrorregiões do país, norteado pela diretriz Strengthening the Reporting of Observational Studies in Epidemiology (STROBE)25, realizado no período de janeiro a abril de 2022 por meio do formulário digital disponibilizado pela ferramenta Google Forms.

Definição da amostra

O estudo incluiu homens e mulheres acima de 18 anos, independentemente de seu estado conjugal, com intenção de ter filhos no futuro. Foram excluídos os participantes que não responderam ao instrumento no período da coleta de dados e aqueles cujos formulários não tiveram todas as perguntas respondidas.

Diante da população-alvo, formada por adultos acima de 18 anos que tinham intenção de ter filhos no futuro, residindo em qualquer região do país, a amostra é classificada como não probabilística do tipo intencional. É prudente considerar que o plano amostral adotado de amostragem não probabilística tipo intencional de 528 participantes pode gerar erros sistemáticos de seleção que influenciam nas estimativas das associações entre os fatores investigados e o desfecho do escore do medo do parto, sobretudo se considerarmos que a intenção é a inferência à população brasileira.

Contudo, para a estimativa do seu tamanho, considerou-se que a intenção era conhecer um processo e não inferir para uma população especificamente delimitada no tempo-espaço. Sendo assim, para o cálculo do número mínimo de participantes (e não para o tamanho mínimo de uma amostra representativa de uma população-alvo), assumiu-se prevalência de 0,50, nível de 5% de significância e precisão de 3%.

Variáveis do estudo

As variáveis independentes foram: dados sociodemográficos como idade (em anos); gênero (masculino; feminino; prefiro não identificar); cor da pele autorreferida (branco/a; preto/a; pardo/a; indígena; amarelo/a); escolaridade (sem escolaridade; ensino fundamental incompleto; ensino fundamental completo; ensino médio incompleto; ensino médio completo; ensino superior; pós-graduação); procedência (norte; nordeste; sul; sudeste; centro-oeste); profissional da saúde (sim ou não); situação conjugal (com companheiro/a ou sem companheiro/a). As variáveis obstétricas: possui filhos (sim ou não); tipo de parto da última gestação (normal; cesariana); vivenciou experiência negativa na gestação anterior (sim; não); variáveis comportamentais: experiências de amigos ou familiares influenciaram o tipo de parto que escolheu (sim; não); fonte de informação da população estudada: onde busca informações sobre parto (vídeos/internet; material impresso; parentes e amigos; profissional de saúde; artigos científicos; não busco informações sobre parto). Neste estudo, considerou-se como variável dependente a escala Childbirth Fear Prior to Pregnancy (CFPP) como instrumento de avaliação do medo do parto por permitir a avaliação do medo antes da concepção, em homens e mulheres, sendo reconhecido por sua linguagem acessível, de fácil aplicação, auxiliando o desenvolvimento de intervenções direcionadas. Suas dimensões abordam o medo da dor do parto, o medo das complicações relacionadas ao bebê e o medo de danos corporais18.

Coleta de dados

Para este estudo, os pesquisadores desenvolveram um instrumento de coleta de dados virtual utilizando a plataforma Google Forms. Esse questionário foi composto por 26 questões fechadas para levantar informações sobre características sociodemográficas, obstétricas e comportamentais dos participantes (variáveis independentes).

A versão brasileira online da CFPP foi adotada como instrumento de medida da variável dependente, por ser o único instrumento validado para a população brasileira na avaliação do medo do parto em homens e mulheres26. Outro ponto relevante são suas características psicométricas adequadas, incluindo uma linguagem clara e de fácil compreensão, o que facilita sua aplicação. Essas qualidades tornam a CFPP uma ferramenta valiosa não apenas para a pesquisa, mas também para o desenvolvimento de intervenções eficazes e direcionadas à redução do medo do parto18.

A versão online brasileira da CFPP é um instrumento de medida curta e simples, unidimensional, de 10 itens, com 5 opções de respostas que variam entre (1) discordo totalmente, (2) discordo, (3) discordo parcialmente, (4) concordo e (5) concordo totalmente, dispostas na vertical. A pontuação final é obtida pela soma da pontuação dos 10 itens, sendo a pontuação mínima 10 e a máxima 5026.

A coleta de dados foi realizada por meio de um inquérito online, seguindo as recomendações da lista CHERRIES (Checklist for Reporting Results of Internet E-Surveys)27, que possibilitou, em um momento que exigia a necessidade de distanciamento social, o alcance de uma amostra diversificada por meio da internet, com abrangência de indivíduos em diferentes regiões geográficas do Brasil e de forma imediata28.

A coleta de dados foi realizada pelos pesquisadores e três alunos de graduação, colaboradores da pesquisa. Os participantes foram recrutados por meio da divulgação do formulário digital, disponibilizado via Google Forms, em diversos canais online, incluindo e-mails, redes sociais (Facebook e Instagram) e contatos pessoais via WhatsApp. Esse processo expandiu-se por meio de um efeito multiplicador, denominado “bola de neve” ou amostragem de rastreamento de links. A amostragem em bola de neve é uma técnica não probabilística que gera um efeito multiplicador na coleta de dados, similar ao crescimento de uma bola de neve. O processo começa com a identificação de um ou mais “informantes-chave”. Estes, por sua vez, indicam novos participantes de suas redes de contato que se enquadram nos critérios da pesquisa, criando uma cadeia de referências que se expande exponencialmente. Essa abordagem é particularmente eficaz para acessar grupos de difícil alcance ou que abordam temas sensíveis, pois aproveita as conexões existentes entre os indivíduos29.

Análise dos dados

Os dados coletados foram transportados e organizados no programa Microsoft Office Excel. As análises estatísticas foram realizadas no software IBM - Statistical Package for the Social Sciences (SPSS versão 21).

Primeiramente, realizou-se análise exploratória dos dados com a finalidade de identificar e tratar valores atípicos e identificar o mecanismo de geração de missings. Após avaliação inicial, realizou-se análise bivariada para investigar a associação isolada de cada variável independente com a pontuação da escala CFPP por meio de regressões lineares simples com resposta com distribuição probabilística normal (que acomoda desfechos numéricos com grau de simetria no mínimo razoável).

O corte p < 0,20 é utilizado para evitar deixar de fora uma variável que possua um papel importante e consolidado dentro de um modelo de determinação social ou dentro da patogênese do desfecho somente por causa de uma associação mais fraca. Em outras palavras, prioriza os paradigmas da saúde ao invés de um critério estatístico. No modelo de regressão múltipla, as associações foram consideradas estatisticamente significativas se p < 0,05.

Aspectos éticos

Todas as atividades foram desenvolvidas após a aprovação do Comitê de Ética em Pesquisa da Faculdade de Medicina de Botucatu, sob o parecer n.º 4.836.471, em conformidade com a Resolução do Conselho Nacional de Saúde n.º 510/2016. A aceitação em participar da pesquisa foi registrada por meio do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE) no formato digital30.

Resultados

Aceitaram participar do estudo 671 indivíduos. No entanto, 143 participantes foram excluídos por não atenderem aos critérios de inclusão, tendo o estudo como amostra final 528 participantes das cinco macrorregiões do Brasil.

Dos participantes, 81,6% (n=431) são do sexo feminino, com mediana de 24 anos (mínima de 18 e máxima de 58 anos), 69,3% (n=366) se autodeclararam brancos ou amarelos, 75,8% (n=400) com no mínimo o ensino médio, 50,9% (n=269) eram profissionais da saúde, 61% (n=322) referiram ter companheiro(a). A região Sudeste foi a mais representada, com 62,1% (n=328) dos participantes, conforme a Tabela 1.

Tabela 1
Caracterização sociodemográfica dos participantes (n = 528). Brasil, 2024

Dos 95 participantes que referiram ter filhos, 29,4% dos participantes (n=28) tiveram experiência com o parto normal ou vivenciaram com seus parceiros. Além disso, 33 (6,3%) dos participantes relataram experiências negativas na última gestação e 71,6% (n=378) referiram medo do parto. A busca de informações sobre o parto foi referida por 74,6% (n=394), sendo que 26,3% (n=139) buscam essas informações principalmente com profissionais de saúde e 22,2% (n=117) na internet e em vídeos, conforme a Tabela 2.

Tabela 2
Características obstétricas e percepções sobre parto e fonte de informações entre adultos. Brasil, 2024

A Tabela 3 mostra os escores dos participantes para o medo do parto, seguindo a classificação da CFPP. Verificou-se que a prevalência do medo do parto foi de 71,6% (n=378), sendo 25,2% (n=133) baixo, 19,5% (n=103) moderado e 26,9% (n=142) alto medo do parto.

Tabela 3
Classificação do medo do parto em adultos segundo CFPP* (n = 528). Brasil, 2024

Conforme os resultados apresentados na Tabela 4, a análise bivariada investigou a associação entre variáveis independentes e o escore da escala CFPP. Apresentaram associações estatisticamente significativas (p < 0,20) as variáveis idade (p < 0,001), sexo feminino (p < 0,001), não ser profissional da saúde (p = 0,027), residir nas regiões Sudeste (p=0,130) e Nordeste (p=0,150), situação conjugal com companheiro (p=0,137), não ter filhos (0,051), ter mais de uma gestação (p=0,001), experiência de amigos/família na escolha do tipo de parto (p=0,017), buscar informações em artigos científicos (p= 0,035), parentes e amigos (p=0,027), profissionais de saúde (p=0,007) e vídeos/internet (p=0,007).

Tabela 4
Associação bivariada entre variáveis sociodemográficas, obstétricas, comportamentais e o escore da CFPP* (n = 528). Brasil, 2024

Foi realizada uma análise multivariada por regressão linear múltipla, com o escore total da escala CFPP como variável dependente (pontuação variando de 10 a 50). Os resultados demonstraram que, quanto maior for a idade, menor a pontuação obtida na escala, ou seja, menor o medo do parto (b = -0,17; IC95% -0,25 a -0,08; p < 0,001). Além disso, os homens apresentaram pontuação em média 3,6 pontos menor, quando comparados com as mulheres, demonstrando menor medo do parto (b = -3,48; IC95% -5,14 a -1,81; p < 0,001). Por outro lado, participantes com experiência gestacional anterior maiores escores foram associados a participantes que relataram experiência de parto; apresentaram em média 4,5 pontos a mais, evidenciando um maior medo do parto (b = 4,52; IC95% 1,35 a 7,68; p = 0,005) (Tabela 5).

Tabela 5
Regressão linear múltipla entre variáveis sociodemográficas, obstétricas, comportamentais e o escore total da escala CFPP* (n = 528). Brasil, 2024

Discussão

O destaque do presente estudo foi buscar evidências, por meio de um instrumento apropriado ao contexto brasileiro, que pudessem contribuir para a identificação de fatores associados ao medo do parto normal na população brasileira, incluindo homens e mulheres, fornecendo subsídios para a realização de materiais educativos e ações de políticas na temática.

A tocofobia, ou medo intenso do parto, afeta aproximadamente 14% das mulheres globalmente11. Ao analisar a prevalência em diferentes países, observa-se uma variação significativa. Nos Estados Unidos, por exemplo, a condição é mais incidente, afetando 26,9% das gestantes31. Já em nações como Austrália e Finlândia, a taxa de medo do parto situa-se entre 20% e 25%32-33. Esses dados ressaltam a importância de se compreender e abordar a tocofobia, considerando suas particularidades culturais e geográficas.

Um estudo qualitativo realizado no Reino Unido, incluindo 10 gestantes e 13 parteiras, identificou elementos importantes que influenciam o medo do parto, tais como o medo de não conseguir lidar com o imprevisível; medo de que o bebê ou a própria gestante se machuque no parto; medo de não conseguir dar à luz; medo de não saber lidar com a dor; medo de não ter autonomia para tomada de decisão; medo de intervenções; medo do abandono e medo de perder o controle. Nesse estudo, ao serem questionadas sobre quando deveriam ser feitas perguntas sobre o medo do parto, a maioria respondeu que o mais precocemente possível. Destacou que é essencial avaliar o medo do parto em gestantes o mais precocemente possível, indicando até a 20ª semana de gestação. A avaliação precoce permite identificar e intervir de maneira eficaz, reduzindo a angústia das mulheres e minimizando o medo do parto antes do nascimento34.

No presente estudo, experiências prévias de gestação mostraram associação ao medo do parto, indo ao encontro dos resultados de metassíntese que incluiu 14 estudos qualitativos e buscou compreender as vivências de mulheres com medo do parto28. O estudo mostra que as mulheres sofreram consequências de experiências traumáticas de parto, pensamentos de parto anterior ou de ouvir outras mulheres contarem sobre sua terrível experiência de parto. Os autores destacam que a maioria das multíparas não sentiu medo durante a primeira gravidez, mas, depois de terem vivenciado um parto traumático, ficaram apavoradas com a experiência de outro parto. Recomendam que mulheres com medo após uma experiência negativa anterior precisam de apoio para poder recuperar a confiança nos profissionais da maternidade. Primigestas exigem apoio semelhante para garantir que as experiências de outras mulheres não serão repetidas com elas35. Concorda-se que os profissionais de saúde são mensageiros-chave que podem melhorar ou piorar o medo do parto em mulheres, a depender do modo de cuidado realizado34.

Investigação qualitativa conduzida no Brasil sinaliza os mitos e medos que permeiam o nascimento e destaca que tanto gestantes como puérperas verbalizaram a dor como fator que poderia impedir a preferência pelo parto normal. Os autores consideram que o alto grau atribuído à experiência do nascimento na vida das mulheres, que deixa marcas em suas vidas, é justificativa para a urgente necessidade de revisar as práticas e interações desumanas que ainda estão presentes na postura de tantos profissionais, substituindo-as por interações harmoniosas36.

Revisão sistemática que incluiu 21 estudos objetivou identificar possíveis causas e fatores predisponentes e desfechos do medo do parto para mulheres em idade fértil. No estudo, o fator preditivo mais forte para medo do parto em mulheres multíparas foi a experiência negativa no parto normal ou cesárea. Fatores como trabalho de parto prolongado, uso de peridural, complicações obstétricas, presença de sintomas de estresse traumático e necessidade de cuidados psiquiátricos são resultados relatados em mulheres com alto medo do parto16.

Em revisão de literatura conduzida por pesquisadores brasileiros37, com o objetivo de revisar conceitos e definições sobre o medo do parto, os achados foram diferentes dos encontrados em nosso estudo. A revisão aponta que mulheres nulíparas têm mais medo do parto do que as multíparas, tanto no início quanto no final da gravidez, e que a idade gestacional mais avançada está associada a um maior nível de medo do parto. Os resultados demonstraram que o medo do parto está relacionado a um risco aumentado de eventos obstétricos adversos, como aumento de cesáreas, parto prematuro, trabalho de parto prolongado, depressão pós-parto e estresse pós-traumático. Essas evidências destacam a importância da discussão sobre o medo do parto no pré-natal e acendem um alerta para a necessidade de estratégias futuras para a avaliação e tratamento desse medo37.

Em nosso estudo, ser mais jovem, sobretudo com menos de 25,5 anos, foi um fator que influenciou o medo do parto. Nossos achados corroboram diferentes pesquisas. Investigação conduzida nos Estados Unidos da América, incluindo 758 mulheres jovens e estudantes, sugere que as mulheres apresentam mais déficits de conhecimento e desejam aprender mais sobre o parto. O estudo também identificou que os canais informais, como amigos e familiares, exercem grande influência nas escolhas de mulheres jovens em relação ao parto14.

Os fatores sociodemográficos podem ter pouca influência nas intervenções de cuidados de saúde, mas é essencial considerar sua influência nas condições das pessoas ao planejar cuidados para o parto. Diferentemente dos nossos achados, revisão sistemática não identificou associação entre medo do parto e idade. O impacto da idade no medo do parto variou entre os estudos: alguns não encontraram associação, enquanto outros identificaram maior risco em mulheres nulíparas < 32 anos e em mulheres nulíparas e multíparas ≥ 40 anos. Além disso, a variação no tamanho das populações estudadas pode ter implicações nos resultados16.

Por essa razão, é recomendado que a educação para o parto seja realizada bem antes do primeiro parto de uma mulher jovem, quando as visões sobre a assistência à maternidade estão sendo estabelecidas e há potencial para reforçar a noção de que um parto de baixa intervenção, seguido de um parto vaginal, é a opção mais saudável e melhor para a maioria das mulheres em idade fértil37.

Um estudo transversal, que objetivou traçar o perfil epidemiológico do medo do parto em gestantes brasileiras, utilizou a versão portuguesa do Wijma Delivery Expectancy/Experience Questionnaire (W-DEQ) e demonstrou fraca correlação positiva entre a idade da gestante e a pontuação (W-DEQ), sugerindo que, quanto mais velha for a mulher, maiores os seus níveis de medo do parto13.

Nosso estudo avaliou o medo de homens e mulheres, sendo o medo associado ao sexo feminino. Embora o medo do parto seja frequentemente mais discutido entre as mulheres, é crucial reconhecer que a figura paterna pode ser um suporte fundamental para a gestante. Muitos pais se tornam o principal apoio emocional e prático durante a gestação e o parto.

Uma revisão integrativa examinou e sintetizou os resultados de 17 pesquisas relacionadas ao medo do parto paterno e identificou que os futuros pais experimentam um medo patológico em relação ao parto, relacionado à saúde e vida do bebê, à saúde e vida da parceira e às suas próprias reações e comportamentos durante o processo. Esta investigação revelou que o medo do parto influencia negativamente a vida dos homens e, consequentemente, a de suas famílias. O estudo destaca a necessidade de uma investigação mais aprofundada sobre métodos e modelos de identificação do medo paterno, com o uso de instrumentos confiáveis e validados para a cultura local, direcionados a homens em risco ou com medo do parto. Além disso, é essencial desenvolver novas estratégias educacionais sobre o parto, fornecendo informações apropriadas para essa população, pois o medo paterno do parto pode influenciar a escolha das mulheres para cesariana. Uma intervenção que inclua o casal pode ser apropriada em alguns casos17.

Um estudo realizado no Reino Unido com estudantes do sexo feminino e sem filhos para avaliar a influência das representações socioculturais e as percepções sobre o parto revelou que estudantes com impressões negativas sobre o nascimento eram significativamente mais propensas a apresentar escores mais elevados de medo do parto. As impressões negativas de gravidez percebidas em amigos ou familiares e as percepções de nascimento representadas na mídia visual foram associadas a escores mais altos de medo do parto. As estudantes que tiveram experiência de assistir a um nascimento descreveram a experiência como incrível, e suas pontuações eram mais baixas para o medo do parto. Esses achados destacam a potencial influência negativa das representações socioculturais. Eles também indicam a necessidade de estudos com métodos mistos para determinar os efeitos positivos da promoção de imagens e mensagens positivas de parto e nascimento dentro de iniciativas de saúde pública38.

Mesmo com os achados desse estudo apontando o medo do parto predominantemente no sexo feminino, entende-se que as intervenções para assistência ao parto também precisam ser direcionadas aos homens, uma vez que eles também são impactados pelos componentes da gestação. Um estudo realizado em uma amostra de homens australianos para identificar os fatores de risco associados ao sofrimento mental perinatal paterno verificou que distúrbios de sono, sofrimento mental devido à gravidez não planejada, conflito trabalho-família, estresse relacionado ao papel de provedor, sofrimento conjugal e depressão materna são fatores de risco significativos que afetam os homens e aumentam o sofrimento mental paterno durante a gravidez. Estes achados são de grande significado para o desenvolvimento de intervenções precoces específicas à assistência perinatal paterna39.

Neste estudo, 46,5% dos participantes eram profissionais da saúde, que demonstraram medo em relação ao parto. É importante destacar que a presença do medo pode criar obstáculos para esses profissionais ao tentarem desmistificar os sentimentos negativos que cercam o processo de parto. É essencial que esses profissionais reconheçam e abordem suas próprias preocupações em relação ao parto, a fim de garantir uma assistência adequada e acolhedora às gestantes.

Como limitações desta pesquisa, destaca-se a menor participação de indivíduos do sexo masculino, o que pode ter influenciado a análise comparativa entre os gêneros. Além disso, o recrutamento foi realizado em ambiente virtual, o que pode ter excluído pessoas em situação de vulnerabilidade social, com acesso limitado à internet, equipamentos eletrônicos ou com baixa proficiência digital. Também se ressalta que a amostra foi obtida por método não probabilístico do tipo intencional, o que representa uma limitação metodológica, pois restringe a possibilidade de generalização dos achados para a população brasileira como um todo. Ainda que o objetivo do estudo não tenha sido inferencial, essa característica deve ser considerada na interpretação dos resultados.

Em síntese, este estudo revela que o medo do parto é uma realidade expressiva entre adultos brasileiros, atingindo uma prevalência considerável. Destaca-se a complexidade desse fenômeno, com a influência de fatores como idade e experiência gestacional prévia na intensidade do medo. A identificação desses preditores é crucial, pois oferece subsídios valiosos para o desenvolvimento de estratégias de saúde pública mais eficazes. Compreender quem são os grupos mais vulneráveis ao medo do parto permite que intervenções direcionadas sejam criadas, visando oferecer suporte psicológico e educacional, o que pode não só melhorar a experiência do parto, mas também ter um impacto positivo nas decisões reprodutivas e na saúde mental da população em geral.

Conclusão

Observou-se que o medo do parto é frequente entre adultos brasileiros. Os escores mais altos do medo do parto mostraram-se estar associados a adultos, ao sexo feminino e a mulheres que já haviam tido uma gestação. As variáveis que exercem influência no medo do parto devem ser valorizadas nas intervenções de saúde, antes do início da gestação e durante o pré-natal.

Compreender os fatores associados ao medo do parto em diferentes populações é essencial, pois os resultados podem variar significativamente devido a influências contextuais. Fatores como contextos sociais, etnias, religiões, crenças, percepções e legislações podem influenciar o olhar de homens e mulheres para o parto. Cada um desses elementos pode afetar as expectativas e experiências de homens e mulheres de maneiras distintas. Destaca-se a importância de abordagens culturalmente sensíveis e personalizadas no cuidado pré-natal e no apoio emocional. Analisar essas variáveis pode proporcionar uma compreensão mais profunda e abrangente, permitindo intervenções mais eficazes para mitigar o medo do parto e melhorar a experiência das gestantes. Com base nos achados desta pesquisa, acredita-se que estudos de intervenção para o medo do parto devem ser aprofundados para o desenvolvimento de estratégias preventivas e de suporte que promovam uma experiência mais positiva durante a gestação e o parto.

Declaração de Disponibilidade de Dados:

Os conjuntos de dados relacionados a este artigo estarão disponíveis mediante solicitação ao autor correspondente.

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    Artigo extraído da tese de doutorado “Construção e validação de uma estratégia educativa frente ao medo do parto”, apresentada à Universidade Estadual Paulista, Botucatu, SP, Brasil. O presente trabalho foi realizado com apoio do Programa de Apoio à Pós-Graduação (PROAP) do Programa de Pós-Graduação em Enfermagem-Acadêmico da Faculdade de Medicina UNESP - Auxílio n. 3703/2025, Brasil.
  • Como citar este artigo:
    Castro AB, Prata RA, Avila MAG, Jamas MT. Prevalence and factors associated with fear of childbirth: national online survey of Brazilian adults. Rev. Latino-Am. Enfermagem. 2026;34:e4897 [cited ano mês dia ]. Available from: URL .https://doi.org/10.1590/1518-8345.7617.4897

Editado por

  • Editor Associado:
    Ricardo Alexandre Arcêncio

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    21 Ago 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    06 Ago 2024
  • Aceito
    27 Dez 2025
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