Resumo
Objetivo: analisar a associação entre instabilidade no trabalho, distúrbios osteomusculares e absenteísmo em enfermeiros da Atenção Primária à Saúde.
Método: estudo metodológico, transversal, quantitativo, realizado com 286 enfermeiros(as) da Atenção Primária à Saúde. Utilizaram-se o Questionário Sociodemográfico e Ocupacional e a versão brasileira da Nurse-Work Instability Scale. A coleta de dados ocorreu via plataforma digital, por meio de estatística descritiva, testes estatísticos e modelos de regressão (p<0,05). Para a elaboração do estudo foi utilizado o Strengthening the Reporting of Observational studies in Epidemiology (STROBE).
Resultados: participaram do estudo 286 enfermeiros, contudo 143 (50,0%) apresentaram instabilidade no trabalho, sendo 9,8% de baixo risco, 32,9% de médio risco e 57,3% de alto risco. Houve associação significativa entre alta instabilidade e sintomas musculoesqueléticos como dor, sensação de peso e fadiga, afetando múltiplas regiões corporais. Notou-se maior instabilidade entre profissionais com maior renda familiar. Os distúrbios musculoesqueléticos foram as principais causas de absenteísmo, embora não tenha havido associação estatística entre instabilidade e afastamentos.
Conclusão: a instabilidade no trabalho entre enfermeiros(as) da Atenção Primária à Saúde foi prevalente e relacionada aos fatores ocupacionais e físicos, exigindo ações para preservação da capacidade laboral.
Descritores:
Segurança do Emprego; Transtornos Traumáticos Cumulativos; Atenção Primária à Saúde; Enfermagem; Saúde Ocupacional; Absenteísmo
Destaques:
(1) Estudo analisou instabilidade no trabalho e dores musculoesqueléticas na Atenção Primária à Saúde.
(2) Instabilidade associou-se à dor no pescoço e maior absenteísmo nos enfermeiros.
(3) Alta instabilidade associou-se à dor, peso e fadiga em várias regiões do corpo.
(4) Sintomas musculoesqueléticos foram as principais causas de afastamento por doença.
(5) Resultados impactam políticas de saúde e gestão do trabalho na enfermagem.
Abstract
Objective: to analyze the association between work instability, musculoskeletal disorders and absenteeism in primary health care nurses.
Method: a methodological, cross-sectional, quantitative study conducted with 286 primary health care nurses. The Sociodemographic and Occupational Questionnaire and the Brazilian version of the Nurse-Work Instability Scale were used. Data collection was performed via a digital platform and analyzed using descriptive statistics, statistical tests, and regression models (p<0.05). The Strengthening the Reporting of Observational studies in Epidemiology (STROBE) guidelines were used to prepare the study.
Results: 286 nurses participated in the study, however, 143 (50.0%) presented work instability, with 9.8% at low risk, 32.9% at medium risk, and 57.3% at high risk. There was a significant association between high instability and musculoskeletal symptoms, including pain, heaviness, and fatigue, affecting multiple body regions. Greater instability was noted among professionals with higher family income. Musculoskeletal disorders were the primary cause of absenteeism, although there was no statistically significant association between instability and leave of absence.
Conclusion: instability at work among primary health care nurses is prevalent and associated with occupational and physical factors, necessitating interventions to preserve work capacity.
Descriptors:
Job Security; Cumulative Trauma Disorders; Primary Health Care; Nursing; Occupational Health; Absenteeism
Highlights:
(1) Study analyzed work instability and musculoskeletal pain in Primary Care.
(2) Instability was associated with neck pain and higher absenteeism among nurses.
(3) High instability was associated with pain, heaviness and fatigue in various regions of the body.
(4) Musculoskeletal symptoms were the main cause of sick leave.
(5) Results impact health policies and work management in nursing.
Resumen
Objetivo: analizar la asociación entre la inestabilidad laboral, los trastornos musculoesqueléticos y el absentismo en enfermeros de la Atención Primaria de Salud.
Método: estudio metodológico, transversal, cuantitativo, realizado con 286 enfermeros y enfermeras de la Atención Primaria de Salud. Se utilizaron el Cuestionario Sociodemográfico y Ocupacional y la versión brasileña de la Nurse-Work Instability Scale. La recopilación de datos se realizó a través de plataformas digitales, mediante estadística descriptiva, pruebas estadísticas y modelos de regresión (p<0.05). Para la elaboración del estudio, se utilizó el programa Strengthening the Reporting of Observational studies in Epidemiology (STROBE).
Resultados: participaron 286 enfermeros en el estudio, pero 143 (50,0%) presentaron inestabilidad en el trabajo, de los cuales el 9,8% eran de bajo riesgo, el 32,9% de riesgo medio y el 57,3% de alto riesgo. Existía una asociación significativa entre alta inestabilidad y síntomas musculoesqueléticos como dolor, sensación de pesadez y fatiga, que afectaban a múltiples regiones del cuerpo. Se observó una mayor inestabilidad entre los profesionales con mayores ingresos familiares. Los trastornos musculoesqueléticos fueron la principal causa del absentismo, aunque no existía una asociación estadística entre la inestabilidad y las bajas laborales por enfermedad.
Conclusión: la inestabilidad laboral entre enfermeros y enfermeras de la Atención Primaria de Salud fue prevalente y está relacionada con factores ocupacionales y físicos, lo que requiere acciones para preservar la capacidad laboral.
Descriptores:
Seguridad del Empleo; Trastornos de Traumas Acumulados; Atención Primaria de Salud; Enfermería; Salud Laboral; Absentismo
Destacados:
(1) Este estudio analizó la inestabilidad laboral y dolores musculoesqueléticas en la Atención Primaria de Salud.
(2) La Inestabilidad se asoció con dolor dolor de cuello y un mayor ausentismo entre enfermeros.
(3) Una alta inestabilidad se asoció con dolor, pesadez y fatiga en varias regiones del cuerpo.
(4) Los síntomas musculoesqueléticos fueron las principales causas de baja por enfermedad.
(5) Los resultados impactan en las políticas sanitarias y la gestión del trabajo en enfermería.
Introdução
O trabalho humano é um dos principais motores para o desenvolvimento social e econômico, proporcionando ao indivíduo não apenas sustento, mas também importantes relações sociais e oportunidades de crescimento profissional. Nesse contexto, a saúde e a segurança no trabalho, bem como a capacidade funcional dos trabalhadores, são determinantes para a sustentabilidade dos sistemas produtivos e para o bem-estar social1.
A enfermagem, enquanto profissão central na área da saúde, tem papel fundamental na promoção da qualidade de vida e no cuidado integral às pessoas, atuando em diferentes níveis do sistema de saúde, especialmente na Atenção Primária à Saúde (APS)2.
No Brasil, os profissionais de enfermagem representam a segunda maior categoria de trabalhadores de nível superior na saúde, sendo essenciais para a operacionalização das políticas públicas e para a garantia do acesso universal e integral aos serviços de saúde3. Contudo, esses profissionais frequentemente enfrentam sobrecarga de trabalho, múltiplas funções e exigências crescentes, fatores que elevam o risco de adoecimento físico e mental, especialmente na APS, onde as condições de trabalho e os desafios organizacionais impactam diretamente sua saúde4. Além disso, um estudo internacional mostrou que fatores como jornadas prolongadas, maior carga física e diminuição da autonomia do profissional podem provocar maior vulnerabilidade para o surgimento dos distúrbios osteomusculares, evidenciando a influência do contexto socioeconômico na ocorrência desses distúrbios5.
Os riscos ocupacionais na enfermagem abrangem desde fatores físicos, químicos e biológicos até riscos ergonômicos e psicossociais. Destacam-se, especialmente, os distúrbios osteomusculares relacionados ao trabalho (DORT), ocasionados por posturas inadequadas, esforços repetitivos e longas jornadas, que resultam em limitações funcionais e impacto na capacidade para o trabalho6. Paralelamente, os riscos psicossociais, como o estresse laboral, assédio, insegurança e falta de suporte, têm sido reconhecidos como importantes fatores de adoecimento mental entre enfermeiros(as), contribuindo para a síndrome de burnout, ansiedade e depressão7.
No ambiente laboral, o período antes da deficiência para o trabalho pode ocorrer quando o trabalhador começa a apresentar dificuldades para cumprir as atividades laborais, sendo necessárias intervenções neste momento para prevenir o afastamento e até a perda do emprego8)-(9. Com isso, a instabilidade no trabalho pode ser vista como um estado transitório e potencialmente reversível se for identificada e tratada precocemente, promovendo benefícios nos âmbitos psicossociais e econômicos para o(a) trabalhador(a) e instituição empregadora9, minimizando os afastamentos e a redução da capacidade no trabalho10.
Diante da relevância da enfermagem na APS e dos impactos negativos das condições laborais sobre a saúde e produtividade desses profissionais, torna-se fundamental investigar a instabilidade no trabalho, especialmente no que tange aos distúrbios osteomusculares e absenteísmo. Embora existam estudos sobre riscos ocupacionais e distúrbios osteomusculares em enfermeiros, a instabilidade no trabalho ainda é um tema pouco explorado, sobretudo na APS. Essa lacuna de conhecimento limita a compreensão sobre como os vínculos laborais precários e condições de trabalho instáveis podem afetar a saúde física e mental desses profissionais, repercutindo na capacidade para o trabalho e no absenteísmo.
Assim, este estudo teve como objetivo analisar a associação entre instabilidade no trabalho, distúrbios osteomusculares e absenteísmo em enfermeiros da Atenção Primária à Saúde.
Método
Delineamento do estudo
Trata-se de um estudo realizado em duas etapas procedimentais: a primeira etapa compreendeu um estudo metodológico de construção e validação de um questionário e a segunda de um estudo observacional, descritivo, transversal, com abordagem quantitativa dos dados e para a elaboração do estudo foi utilizado o Strengthening the Reporting of Observational Studies in Epidemiology (STROBE).
A primeira etapa correspondeu à construção e validação de um questionário sociodemográfico e ocupacional para enfermeiros(as) da Atenção Primária à Saúde, fundamentada nos referenciais de Polit e Beck11 e Pasquali12. Inicialmente, elaborou-se a versão preliminar do instrumento com base na revisão de literatura e princípios teóricos de formulação de itens, estrutura e semântica. Em seguida, o instrumento foi submetido à validação de conteúdo por um comitê de sete especialistas com experiência em saúde ocupacional, distúrbios musculoesqueléticos e saúde mental. A validação ocorreu em três rodadas, com análise da relevância dos itens e cálculo do Índice de Validade de Conteúdo (IVC), obtendo-se IVC final de 1,0. Posteriormente, foi realizado o pré-teste com 30 enfermeiros(as) da APS para verificar a clareza, aplicabilidade e equivalência semântica e cultural do questionário sociodemográfico e ocupacional. Os participantes do pré-teste foram incluídos na amostra final do estudo e os resultados confirmaram a adequação do questionário para sua aplicação em larga escala. A segunda etapa consistiu em um estudo observacional, descritivo e transversal, com abordagem quantitativa dos dados em que foram utilizados os seguintes questionários para a coleta de dados: questionário sociodemográfico e ocupacional (Quest APS - sociodemográfico ocupacional) e Escala de Instabilidade no Trabalho de Enfermagem (EIT- enfermagem)
Local do estudo
Unidades de Atenção Primária à Saúde do Estado de São Paulo, Brasil, no período de 27 de julho de 2023 a 30 de setembro de 2023.
População e amostra
A população foi constituída pelos enfermeiros(as) atuantes em unidades de Atenção Primária à Saúde do Estado de São Paulo. A amostragem do estudo para a seleção dos participantes foi obtida por conveniência11, atendendo aos seguintes critérios de inclusão estabelecidos para o estudo: enfermeiros(as) do sexo feminino e masculino, sem limites de idades, atuantes na assistência direta ou na gestão de Unidades Básicas de Saúde (UBS) ou Unidades de Saúde da Família (USF) no Estado de São Paulo. Foram incluídos enfermeiros (as) que exerceram atividade na enfermagem há mais de um ano e sem outra ocupação fora da área da enfermagem, que apresentaram distúrbio osteomuscular nos últimos três meses e com pelo menos um episódio com duração igual ou maior que duas horas8. Os(as) enfermeiros (as) que exerceram outra ocupação fora da área da enfermagem foram excluídos da amostra.
Destaca-se que não foi realizado cálculo amostral prévio, uma vez que se tratou de amostragem por conveniência, baseada na disponibilidade e adesão dos participantes no período de coleta de dados.
Os convites para participação no estudo foram enviados, via e-mail, pelo Conselho Regional de Enfermagem de São Paulo (COREN/SP).
Variáveis do estudo
As variáveis de desfecho do estudo avaliadas correspondem ao número total de locais do corpo nos quais os(as) enfermeiros(as) manifestaram o sintoma referido. Os sintomas avaliados foram dor, dormência, fadiga, formigamento, sensação de peso e outro sintoma. Também foi avaliado como desfecho a classificação final da Escala de Instabilidade do Trabalho (EIT-Enfermagem), com as respostas baixo|médio e alto. Como variáveis independentes do estudo para todos os desfechos foram avaliadas: idade (em anos); sexo (masculino, feminino); renda familiar (até 3 salários-mínimos; acima de 3 até 7 salários-mínimos; acima de 7 salários-mínimos); índice de massa corporal (IMC) (kg/m²); prática de exercício físico (sim, não); trabalha como enfermeiro assistencial/responsável técnico (sim, não); trabalha como gerente/supervisor de atenção primária (sim, não); tipo de contrato (estatutário, Consolidação das Leis do Trabalho - CLT, outro); trabalha em Unidade Básica de Saúde/Unidade de Saúde da Família - UBS/USF (sim, não); tempo de trabalho na Atenção Primária a Saúde (anos); tempo de profissão de enfermeiro (anos); carga horária semanal (até 36 horas, 40 horas, acima 40 horas); trabalha no turno da manhã/tarde (sim, não), afastamento por sintomas musculoesqueléticos (sim, não), afastamento por motivo de ansiedade (sim, não), afastamento por motivo de depressão (sim, não).
Coleta dos dados
A coleta de dados foi realizada de forma remota por meio da plataforma Research Electronic Data Capture (REDCap)13, durante os meses de julho a setembro de 2023. Enfermeiros(as) com registro ativo e e-mails válidos no COREN/SP foram convidados a participar do estudo por meio de um único envio de convite: via e-mail institucional. O questionário permaneceu disponível para resposta entre 27 de julho e 30 de setembro de 2023.
Foram utilizados dois instrumentos: (1) um questionário sociodemográfico e ocupacional, elaborado e composto por 22 itens, sendo nove relacionados às características demográficas e treze aos aspectos ocupacionais, absenteísmo e presença de sintomas musculoesqueléticos e (2) a versão nacional da escala Nurse Work Instability Scale (Nurse-WIS), traduzida e validada no Brasil14. A escala, composta por 20 afirmações do tipo verdadeiro/falso, identifica o nível de instabilidade no trabalho entre profissionais com distúrbios musculoesqueléticos, classificando o risco como baixo (<7 pontos), médio (7-13) ou alto (≥14 pontos). A versão brasileira apresentou índice de confiabilidade de 0,931. O uso da escala Nurse-WIS foi previamente autorizado pelo grupo dos direitos autorais, vinculado à Universidade de Leeds, Reino Unido.
Análise dos dados
A análise estatística utilizou modelos da classe GAMLSS (Generalized Additive Models for Location, Scale and Shape), que permitem modelar distribuições paramétricas da variável resposta com variáveis independentes de forma paramétrica ou não paramétrica15. Essa abordagem abrange diferentes tipos de distribuições (contínuas, discretas, assimétricas ou com caudas pesadas), considerando até quatro parâmetros: posição (μ), escala (σ), assimetria (υ) e curtose (τ). Cada parâmetro é associado a um conjunto de variáveis independentes, por meio de funções de ligação específicas. Essa abordagem oferece uma análise mais completa e ajustada à natureza dos dados coletados.
A seleção da distribuição da variável resposta e das variáveis independentes foi guiada pelo critério de informação de Akaike (AIC)16, com penalidade-padrão (k=2) para escolha dos desfechos e k=4 para seleção de preditores, conforme sugerido na literatura. O critério BIC (k=log(n)) também foi considerado17.
A adequação dos modelos foi verificada por meio do teste de normalidade de Shapiro-Wilk aplicado aos resíduos. Foram estimadas medidas de associação como aumento relativo (AR = (exp(β) - 1) × 100) e odds ratio. As correlações entre variáveis numéricas e desfechos foram analisadas pelo coeficiente de Spearman e a comparação entre variáveis nominais e os desfechos foi realizada com os testes de Kruskal-Wallis, qui-quadrado de Pearson e exato de Fisher18.
As análises foram conduzidas no software R (versão 4.3.1), adotando-se nível de significância de 5% (α = 0,05). Os resultados foram apresentados em tabelas.
Considerações éticas
O estudo foi conduzido de acordo com as diretrizes de ética nacionais e internacionais e aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo sob protocolo CAAE: 57568822.0.0000.5393. A Resolução 466/12 referente às normas éticas de pesquisas envolvendo seres humanos foi seguida19. Todos os participantes que consentiram em participar do estudo assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE) e sua anonimização e a confidencialidade dos dados foram asseguradas.
Resultados
Participaram do estudo 286 enfermeiros; contudo, 143 (50,0%) apresentaram instabilidade no trabalho, sendo que 14 (9,80%) apresentaram baixo risco, 47 (32,90%) médio risco e 82 (57,30%) alto risco.
Dentre os(as) enfermeiros(as), 125 (87,40%) eram mulheres, 77 (54,60%) casados/viviam com companheiro, 99 (69,70%) brancos, 68 (47,90%) não possuíam filhos, 62 (43,70%) tinham uma renda entre quatro e seis salários mínimos e 84 (58,70%) não praticavam exercício físico regularmente. A idade média dos trabalhadores foi de 38,90 anos e a média do IMC foi de 28,22 kg/m².
Com relação aos dados ocupacionais, 124 (86,70%) participantes atuavam como enfermeiros(as) assistenciais e 35 (24,50%) como gerentes de atenção primária, 71 (50,00%) eram contratados pelo regime estatutário, 44 (34,60%) trabalhavam na cidade de São Paulo, 70 (49,00%) atuavam em UBS e 87 (60,80%) em USF; a carga horária semanal mais prevalente foi a de 40 horas semanais (104 - 73,20%) e 121 (84,60%) atuavam no período da manhã. Dos enfermeiros(as), 14 (9,80%) tinham outro vínculo empregatício e a maioria (7 - 49,90%) trabalhava como enfermeiro(a) assistencial.
Dentre os 143 enfermeiros (as) que informaram a presença da dor, 101 (70,60%) referiram-na no pescoço, 89 (62,20%) nos ombros, 71 (49,70%) na parte superior das costas, 11 (7,70%) nos cotovelos, 51 (35,70%) nos punhos/mãos, 58 (40,60%) na parte inferior das costas, 27 (18,90%) no quadril/coxas, 43 (30,10%) nos joelhos, 32 (22,40%) nos tornozelos/pés, nove (6,30%) em outra região.
Em relação ao formigamento, 15 (10,50%) profissionais referiram-no no pescoço, 13 (9,10%) nos ombros, quatro (2,80%) na parte superior das costas e cotovelos respectivamente, 59 (41,30%) nos punhos/mãos, nove (6,30%) na parte superior das costas, sete (4,90%) no quadril/coxas, cinco (3,50%) nos joelhos, 31 (21,70%) nos tornozelos/pés e oito (5,6%) relataram-no em outra região.
Dos enfermeiros(as) que manifestaram a dormência nas regiões anatômicas, 11 (7,70%) apresentaram-na no pescoço, oito (5,60%) nos ombros, quatro (2,80%) na parte superior e inferior das costas e joelhos respectivamente, cinco (3,50%) nos cotovelos, 45 (31,50%) nos punhos/mãos, seis (4,20%) no quadril/coxas e em outra região respectivamente e 24 (16,80%) nos tornozelos/pés.
Em relação à sensação de peso nas regiões anatômicas, 64 (44,80%) dos enfermeiros(as) relataram este sintoma no pescoço, 88 (61,50%) nos ombros, 49 (34,30%) na parte superior das costas, três (2,10%) nos cotovelos, dez (7,00%) nos punhos/mãos, 31 (21,70%) na parte inferior das costas, 24 (16,80%) no quadril/coxas, 17 (11,90%) nos joelhos, 34 (23,80%) nos tornozelos/pés e cinco (3,50%) em outro local do corpo.
Em relação à presença da fadiga, 57 (39,90%) enfermeiros(as) referiram no pescoço, 68 (47,60%) nos ombros, 53 (37,10%) na parte superior das costas, seis (4,20%) nos cotovelos, 15 (10,50%) nos punhos/mãos, 38 (26,60%) na parte inferior das costas, 24 (16,80%) no quadril/coxas, 21 (14,70%) nos joelhos, 31 (21,70%) nos tornozelos/pés e 14 (9,80%) em outra região.
Dos participantes que referiram a presença de outro sintoma, cinco (3,50%) referiram no pescoço e parte inferior das costas, respectivamente; sete (4,90%) nos ombros e parte superior das costas, respectivamente; dois (1,40%) nos cotovelos; um (0,70%) nos punhos/mãos, quatro (2,8%) no quadril/coxas e tornozelos/pés, respectivamente; seis (4,20%) nos joelhos e 12 (8,4%) em outra região do corpo. Os sintomas relatados, de um modo geral, foram: cefaleia, convulsão, dispneia, insônia, taquicardia, tontura, torcicolo, vertigem, precordialgia.
Os dados da Tabela 1 mostram os valores dos testes bivariados das características sociodemográficas, ocupacionais e instabilidade no trabalho de enfermeiros(as). Contudo, destaca-se que nem todos os participantes do estudo responderam a todas as perguntas do questionário.
Para a análise dos dados da classificação da EIT, foi realizado um agrupamento entre as categorias baixo e médio, devido a um pequeno número de respondentes na categoria baixa instabilidade no trabalho. Dentre os enfermeiros(as) participantes do estudo, a maioria apresentou alta instabilidade no trabalho.
Com relação às variáveis analisadas, houve associação entre renda familiar e instabilidade no trabalho (p=0,003) e, dentre os participantes, a maioria apresentou alta instabilidade no trabalho e renda familiar acima de 7 salários mínimos (43-72,9%), o que mostrou que quanto maior foi a renda, maior a instabilidade no trabalho.
Dados referentes aos sintomas musculoesqueléticos, idade, IMC, tempo de atuação na Atenção Primária à Saúde e como enfermeiro(a) assistencial são apresentados na Tabela 2.
Distribuição dos valores obtidos segundo os sintomas musculoesqueléticos, idade (em anos), índice de massa corporal (kg/m²), tempo de atuação na Atenção Primária à Saúde e como enfermeiro(a) assistencial (em anos) e instabilidade no trabalho dos(as) enfermeiros(as) atuantes na Atenção Primária à Saúde paulista (n = 143). Estado de São Paulo, Brasil, 2023
Por meio dos testes estatísticos, identificou-se que ocorreram diferenças entre a dor e alta instabilidade no trabalho (p=0,0164), sensação de peso e alta instabilidade no trabalho (p=0,0023) e fadiga e alta instabilidade no trabalho (p=0,0233).
Com relação à dor, os(as) enfermeiros(as) apresentaram um número médio de 3,72 regiões com dor na alta instabilidade no trabalho.
Sobre a sensação de peso, constatou-se que os participantes tiveram um número médio de 2,60 regiões com sensação de peso na alta instabilidade no trabalho.
Por fim, houve também um número médio de 2,66 regiões com fadiga na alta instabilidade no trabalho entre os participantes.
A Tabela 3 apresenta os dados da análise de regressão da instabilidade no trabalho em relação à dor, dormência, formigamento, sensação de peso, fadiga, outro sintoma e renda familiar.
Com base na análise de regressão realizada, identificou-se que os participantes que possuíam renda familiar entre um e três salários-mínimos apresentaram uma pontuação média 70,60% (1 - 0,2940) (p=0,0443) menor de instabilidade no trabalho do que aqueles que possuíam renda superior a sete salários-mínimos. Além disso, os enfermeiros(as) com renda familiar entre quatro e seis salários-mínimos demonstraram uma pontuação média 76,98% (1 - 0,2302) (p=0,0007) menor na instabilidade do que aqueles com renda superior a sete salários-mínimos.
A Tabela 4, a seguir, evidencia o absenteísmo entre os enfermeiros(as) nos últimos 12 meses, manifestado por meio de sintomas como instabilidade no trabalho.
Com relação à presença de sintomas musculoesqueléticos nos últimos 12 meses e à instabilidade no trabalho, constatou-se que não houve significância por meio do teste estatístico; contudo, dos 29 (65,9%) enfermeiros(as) que se afastaram, a maioria apresentou alto risco para a instabilidade no trabalho.
Discussão
Por meio do estudo, constatou-se que a maioria dos participantes era do sexo feminino, casada, branca, sem filhos, com uma média de idade de 38,90 anos e com renda mensal entre 4 e 6 salários-mínimos. Em uma pesquisa realizada entre enfermeiros(as) com instabilidade no trabalho, evidenciou-se que a população do estudo, na sua maioria, era de mulheres, confirmando a predominância do sexo feminino no trabalho de enfermagem. Em relação ao peso e IMC, a média foi de 77,38 kg e 28,22 kg/m², respectivamente20; ademais, a maior parte dos participantes não praticava exercício físico com regularidade, sendo classificada com sobrepeso3.
Dados similares em relação ao sexo e idade foram encontrados em um estudo que avaliou a instabilidade no trabalho entre trabalhadores de enfermagem de um hospital universitário brasileiro21.
Na atuação do trabalho de enfermagem, a maioria dos enfermeiros(as) trabalhava na assistência da APS, na cidade de São Paulo e pelo regime estatutário. Já sobre o local de trabalho, a maior parte de enfermeiros(as) paulistanos atuava em USF, no período da manhã e a carga horária semanal mais prevalente foi a de 40 horas semanais. Ainda sobre as características ocupacionais, a minoria possuía outro vínculo empregatício. Constatou-se, também, que os(as) enfermeiros(as) apresentavam em média 9,21 anos de trabalho na APS e 12,17 anos trabalhando como enfermeiro(a).
Dentre os sintomas musculoesqueléticos dos(as) enfermeiros(as) com instabilidade no trabalho, a dor no pescoço, o formigamento e a dormência nos punhos/mãos, a sensação de peso e a fadiga nos ombros foram os mais relatados. Os outros sintomas referidos foram dor no corpo, irritabilidade, ardência corporal, cefaleia, taquicardia, vertigem, torcicolo, ansiedade, convulsão, dispneia, fadiga, insônia, lesão por herpes-zoster e lombalgia.
Estudos sobre a instabilidade no trabalho entre enfermeiros(as) da APS não foram encontrados; todavia, em uma pesquisa realizada com profissionais de enfermagem de um hospital universitário do Brasil, constatou-se que a região lombar, parte superior das costas, ombros, tornozelos e pés, pescoço e joelhos foram as regiões mais acometidas por distúrbios osteomusculares, nessa ordem21.
Neste estudo foi constatado que houve associação entre renda familiar e instabilidade no trabalho e, dentre os(as) enfermeiros(as), a maioria apresentou alta instabilidade no trabalho e renda familiar acima de 7 salários-mínimos. A análise de regressão realizada constatou que os participantes que possuíam renda familiar entre 1 e 3 salários-mínimos apresentaram uma pontuação média 70,60% menor de instabilidade no trabalho do que os que possuíam renda superior a 7 salários-mínimos e, aqueles com renda familiar entre 4 e 6 salários-mínimos demonstraram uma pontuação média de 76,98% menor na instabilidade do que os que tinham renda superior a 7 salários-mínimos.
Estes dados permitem afirmar que quanto maior for a renda, maior a chance de ocorrência da instabilidade no trabalho entre enfermeiros(as) e essa situação pode ser ocasionada pelo baixo salário da enfermagem e a necessidade de possuir mais de um emprego a fim de melhorar a renda.
Há alguns anos, a enfermagem brasileira está em busca de reconhecimentos, direitos e condições de trabalho decentes; contudo, tem enfrentado diversas dificuldades e entraves22. Neste contexto, sabe-se que a valorização e o piso salarial da enfermagem envolvem aspectos históricos e morais, bem como a promoção de um trabalho digno e decente para essa classe profissional23.
Riscos elevados para a instabilidade no trabalho por sintomas musculoesqueléticos foram identificados em outros estudos desenvolvidos com profissionais de enfermagem19),(21 e isso pode ocorrer devido aos tipos de atividades laborais realizadas, organização do trabalho e à presença dos riscos ocupacionais.
Em uma revisão de literatura, mostrou-se que os distúrbios osteomusculares em enfermeiros associaram-se à carga física, condições organizacionais e psicossociais relacionadas ao contexto socioeconômico aumentando a vulnerabilidade ao adoecimento24)-(25.
Com as análises, foi identificado que diferenças estatísticas ocorreram entre os sintomas de dor, sensação de peso e fadiga associados à alta instabilidade no trabalho. Em relação à dor, os enfermeiros(as) apresentaram um número médio de 3,72 regiões com dor na alta instabilidade no trabalho. Sobre a sensação de peso, constatou-se que os participantes tiveram um número médio de 2,60 regiões com sensação de peso na alta instabilidade no trabalho. Por fim, houve um número médio de 2,66 regiões com fadiga na alta instabilidade no trabalho entre os enfermeiros(as).
Por meio desses resultados, pode-se afirmar que os sintomas musculoesqueléticos (dor, sensação de peso e fadiga) e alta instabilidade podem causar irregularidades entre a capacidade dos enfermeiros(as) e as atividades de trabalho, interferindo negativamente na prática laboral.
Sobre a ocorrência da instabilidade no trabalho e a presença de sintomas musculoesqueléticos nos últimos 12 meses, identificou-se que a maioria dos(as) enfermeiros(as) teve um alto risco para a instabilidade, apesar de não apresentarem associação estatisticamente significativa entre as variáveis. Todavia, a presença de sintomas musculoesqueléticos pode estar relacionada ao maior risco de instabilidade no trabalho7)-(8 e, além disso, à importância de aprofundar em estudos relacionados ao impacto da instabilidade no trabalho e o absenteísmo.
Como limitações, o estudo do tipo transversal não estabelece relação entre causa e efeito das variáveis estudadas; a utilização de questionário de autopreenchimento pode ocasionar interferência de fatores não controlados e a inviabilidade de comparar alguns resultados com outros estudos científicos relacionados à instabilidade no trabalho e sintomas musculoesqueléticos entre enfermeiros(as) da APS. A amostragem por conveniência restringiu a generalização dos resultados, mas foi adotada pela viabilidade de acesso aos participantes e pela facilidade de coleta em ambiente de trabalho, permitindo reunir dados relevantes sobre a instabilidade no trabalho de enfermeiros da Atenção Primária à Saúde. Além disso, a autodeclaração dos sintomas nos últimos três meses pode envolver viés de memória, influenciando a precisão das informações sobre os sintomas relatados e provocando também limitação temporal. Já a restrição geográfica limita a generalização dos resultados, uma vez que as condições de trabalho e os vínculos laborais podem variar entre diferentes regiões do país.
Contudo, este estudo trouxe avanços importantes ao demonstrar a complexa relação entre a instabilidade no trabalho e os distúrbios osteomusculares em enfermeiros(as) da APS no Estado de São Paulo. A pesquisa aprofundou a compreensão dos fatores individuais e laborais que influenciam a prevalência e gravidade dos sintomas musculoesqueléticos, como dor, formigamento e sensação de peso, evidenciando, por exemplo, a influência da idade, do IMC, da renda familiar e da carga horária. Além disso, o estudo destacou que a instabilidade no trabalho está associada aos diferentes perfis de sintomas e que a identificação pode ser uma ferramenta estratégica para prevenir o absenteísmo, o abandono profissional e a aposentadoria precoce, oferecendo subsídios para a criação de políticas e intervenções que promovam melhores condições laborais e a saúde dos profissionais de enfermagem.
Conclusão
O estudo analisou a ocorrência da instabilidade no trabalho em enfermeiros(as) da APS do Estado de São Paulo e a associação com distúrbios osteomusculares e seu impacto no absenteísmo.
Dentre os sintomas musculoesqueléticos entre os enfermeiros(as) com instabilidade no trabalho, a pesquisa mostrou que a dor no pescoço, formigamento e dormência nos punhos/mãos, sensação de peso e fadiga nos ombros ocorreram em maior prevalência.
As análises estatísticas dos enfermeiros(as) com instabilidade no trabalho mostraram que ocorreu associação entre renda familiar e instabilidade no trabalho.
Em relação aos sintomas musculoesqueléticos (dor, sensação de peso e fadiga), ocorreram diferenças na alta instabilidade no trabalho.
Por meio deste estudo, conclui-se que os sintomas musculoesqueléticos e a instabilidade no trabalho correlacionaram-se com as condições e os comportamentos individuais e as condições de trabalho dos(as) enfermeiros(as) da APS. Além disso, identificar previamente a instabilidade no trabalho entre essa categoria profissional pode minimizar a redução da capacidade do trabalho e, consequentemente, evitar o absenteísmo, o abandono da profissão e a aposentadoria precoce pela ocorrência dos sintomas musculoesqueléticos. Destaca-se que identificar a instabilidade no trabalho é fundamental para orientar ações e estratégias voltadas à melhoria das condições laborais dos profissionais de enfermagem, além de subsidiar políticas de prevenção e promoção da saúde ocupacional voltadas aos enfermeiros.
Declaração de Disponibilidade de Dados
Todos os dados gerados ou analisados durante este estudo estão incluídos neste artigo publicado.
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