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Os “psicopatas autistas” na idade infantil1 1 Tese de livre-docência, entregue para a faculdade de medicina da Universidade de Viena. (Parte 3)

A inteligência autista

O desempenho de uma criança nasce de uma tensão entre dois polos: a produção espontânea e autônoma e a imitação de algo mostrado para a criança, a aprendizagem de conhecimentos e capacidades que os adultos já possuem. Ambas as coisas precisam existir na medida certa para que o desempenho tenha valor. Na ausência da produção própria ou, ao menos, da elaboração autônoma daquilo que foi assumido, o desempenho torna-se uma forma vazia, é apenas mecanizado superficialmente, existe somente na “forma de gestos”. Encontramos o distúrbio inverso no caso da inteligência autista. As crianças são capazes de produzir prioritariamente de modo espontâneo, conseguem ser apenas originais, mas aprendem pouco, é difícil mecanizá--las, não se encontram ajustadas para assimilar conhecimentos de adultos, por exemplo, do professor. As capacidades e as dificuldades especiais dessas pessoas se devem a isso, assim como, em geral, os méritos e as falhas do ser humano são inseparáveis.

Isso se torna especialmente nítido no caso das produções linguísticas das crianças autistas: Elas — e principalmente aquelas que possuem um elevado dom intelectual — têm uma relação muito criativa com a língua, são capazes de passar as suas vivências originais, as suas observações originais de forma igualmente original para a linguagem falada — seja através de palavras incomuns, das quais supomos estarem muito distantes da vida dessas crianças, seja através de expressões criadas ou, ao menos, recriadas que muitas vezes são bastante acertadas e significativas, outras vezes, porém, um tanto aberrantes. É preciso mencionar aqui que crianças pequenas amiúde têm uma relação livre com a linguagem falada e formam, sem maiores preocupações, palavras novas que, na maior parte das vezes, são um tanto acertadas — é justamente isso que torna a “fala das crianças”* * No original: Kindermund – boca da criança. Trata-se de uma expressão idiomática. (N. da T.) tão atraente. Entretanto, para além da primeira infância, encontramos essas expressões livremente criadas somente entre as crianças autistas.

A seguir, alguns exemplos: Um menino entre seis e sete anos descreve a diferença entre escada e escadote da seguinte maneira: “O escadote anda de um jeito pontudo e a escada anda se enrolando como uma serpente”.

Um menino autista de 11 anos apresentava produções linguísticas originais especialmente ricas: “Com a boca não sei fazer isso, mas com a cabeça sim” (ele queria dizer que havia compreendido algo, mas não conseguia expressá-lo); “hoje o meu sono foi longo, porém, magro”; (este é, ao mesmo tempo, um exemplo para a autoavaliação do autista); “para o artista essas imagens podem ser belas, a mim não agradam”, “não gosto de um sol muito forte, mas também não gosto da escuridão, prefiro uma sombra com tons de cinza” (em relação à pergunta se ele é religioso) — “não quero dizer que não sou religioso, mas Deus não me dá nenhum sinal”.

Por trás da autonomia das formulações linguísticas há a originalidade da vivência. As crianças autistas têm a capacidade de enxergar as coisas e os processos do meio ambiente a partir de novas perspectivas. Esses pontos de vista por vezes revelam uma maturidade admirável, as questões com que se deparam vão muito além do pensamento de outras crianças da mesma idade — um bom exemplo para tal é a descrição do segundo caso (Harro L.). Normalmente trata-se de uma área de conhecimento muito estreita e isolada cujo desenvolvimento chega a ser hipertrófico.

Um é um “cientista natural” que elabora questões praticamente científicas; as suas observações são realizadas através de um olhar que se volta de modo incomum para o que há de essencial, ele as ordena de acordo com uma visão de mundo, constrói as suas teorias que, às vezes, são um pouco abstrusas; a menor parte disso tudo foi ouvida ou lida por ele, ele sempre se refere às suas próprias experiências. Um outro é um químico que investe todo o seu dinheiro — mesmo que tenha que roubá-lo — em experimentos que muitas vezes são o terror de seu meio entorno; alguns se “especializam” em experimentos que explodem e fedem. Um menino autista se concentrou em venenos, possuía um saber admirável a respeito, uma coleção de venenos em parte preparados por ele de forma um tanto ingênua. Veio até nós, pois roubou da caixa de venenos de sua escola uma grande quantidade de cianeto! Já para um outro, o reino dos números se encontra no centro; sem receber instrução alguma, sem aulas escolares, operações matemáticas complicadas se tornam óbvias para ele; recordemo-nos do primeiro caso descrito (Fritz V.), no qual, entretanto, também o fracasso do autista se revela claramente. É possível que uma criança desse tipo, que surpreende o seu meio circundante através da resolução de complexos problemas matemáticos, tenha graves dificuldades de assimilar os métodos a serem aprendidos na escola, isto é, aqueles apresentados pelo meio externo. Outra criança, por sua vez, tem principalmente interesses técnicos, possui um saber incrível a respeito da estrutura de máquinas complexas — adquiriu esse conhecimento através de perguntas minuciosas das quais não era possível esquivar-se e, principalmente, através de sua própria observação. Ela se dedica a invenções fantásticas como naves espaciais e coisas semelhantes. Nessas horas, percebe-se o quão distantes da realidade por vezes estão os interesses autistas.

Outro traço “original” que encontramos em algumas crianças autistas é um conhecimento de arte excepcionalmente maduro. A arte sofisticada não diz nada à criança “normal” — o gosto desta opta pela pintura simples, colorida, com bastante rosa e azul-celeste, frequentemente o kitsch (por isso, os livros infantis de estilo rígido, que estavam “na moda” mais ou menos 15 a 20 anos atrás, não podem ser mais impróprios para crianças — atualmente isso melhorou um pouco). As crianças autistas, porém, amiúde nos surpreendem através de uma sensibilidade artística muito diferenciada, conseguem seguramente diferenciar a arte do kitsch, compreendem inclusive obras artísticas muito “complexas” que não dizem nada a muitos adultos — por exemplo, esculturas românicas ou pinturas de Rembrandt —, avaliam-nas de forma acertada. Não somente o que está sendo representado em uma pintura, e sim, igualmente, o que se encontra por trás, qual o caráter das pessoas representadas, que tipo de atmosfera a imagem transmite. Consideremos que muitos adultos jamais alcançam a maturidade e a consciência da personalidade necessárias para um saber desse tipo!

A esse entendimento de arte está associada uma capacidade que igualmente encontramos com frequência entre crianças autistas: uma autoavaliação especial e uma avaliação acertada das outras pessoas. Enquanto a criança “normal” simplesmente vive, quase sem consciência dela mesma, constituindo, entretanto, uma parte do mundo que reage adequadamente, essas crianças refletem sobre si, se auto-observam, representam um problema para si mesmas, voltam a sua atenção para as funções de seu corpo. Um exemplo: Um menino de nove anos, bastante autista, que, como costuma ser no caso dessas crianças, sente muita falta de casa durante os primeiros dias na seção, relata como se acalma de noite na cama, pois é nessa hora que a falta de casa é mais aguda: “Quando colocamos a cabeça no travesseiro há aquele sussurro no ouvido e precisamos ficar quietos durante um longo tempo e isso é bom”. O mesmo menino também descreve uma micropsia que, vez ou outra, o acomete: “Na escola às vezes vejo a professora com uma cabeça assim bem pequena, daí não sei o que é isso, é muito embaraçoso ver isso, então fico apertando os meus olhos (ele demonstra como aperta os seus olhos) e assim melhora”.

Essas peculiaridades nos levam a fazer um comentário que na verdade não pertence exatamente a esse lugar. Como sempre, quando a atenção se volta para os incríveis automatismos da vida vegetativa — que trabalha melhor quando permanece inconsciente —, encontramos igualmente aqui distúrbios dessas funções. Hamburger atentou, com razão, diversas vezes para o fato de educadores não deverem voltar a atenção da criança para atos como comer e dormir, defecar e urinar, pois assim certamente surgirão distúrbios desses automatismos.No caso das crianças autistas, porém, as funções do próprio corpo acabam invadindo a consciência por conta própria sem que o educador contribua para tal — são registradas, se tornam significativas e, em muitos casos, apresentam distúrbios. Distúrbios alimentares e do sono são especialmente frequentes, o que muitas vezes conduz a graves conflitos familiares.

Da mesma forma que essas crianças se autoavaliam, elas fazem uma avaliação surpreendentemente acertada e madura das pessoas ao seu redor, sentem claramente quem lhes quer bem e quem não, mesmo que as pessoas não se comportem de acordo com isso. Têm uma sensibilidade aguçada para a anormalidade de outras crianças. Independentemente de quão anormais elas próprias são, têm praticamente uma hipersensibilidade para tal.

Há aqui uma aparente controvérsia a ser solucionada, mas esta deve justamente nos levar adiante no que tange a um assunto importante. Queremos demonstrar que a anormalidade essencial dos psicopatas autistas consiste em um distúrbio das relações vivas com o meio circundante, distúrbio este que explica todas as anormalidades. Mas como um distúrbio de contato pode existir ao lado de tamanha lucidez — revelada através das características descritas acima —, como uma pessoa cujos relacionamentos apresentam tantos distúrbios é capaz de tantas experiências conscientes? Essa contradição é somente aparente. A criança normal, especialmente a criança menor, que ocupa o lugar adequado em seu meio entorno, reage e se move conforme este e age assim em função de seus instintos básicos. Na maior parte das vezes, contudo, não chega a fazer avaliações conscientes, pois para tal precisaria afastar-se das coisas concretas. A distância em relação às coisas isoladas é a precondição da abstração, da conscientização, da formação de conceitos. Justamente a distância pessoal intensificada, o distúrbio da reação baseada no instinto e no sentimento que caracteriza os autistas, é, em um certo sentido, a precondição para a boa compreensão conceitual do mundo por parte destes. Por isso, falamos da “clareza autista” dessas crianças — pois esta só está presente no caso delas. Nos casos mais favoráveis, essa capacidade, que naturalmente continua a existir, constitui a base da vida profissional, do êxito especial dessas pessoas, êxitos estes que outros não atingem É sabido que a capacidade de abstração desenvolvida é a precondição do êxito científico. De fato, há diversos caracteres autistas entre os cientistas mais importantes. O desamparo diante da vida prática, proveniente de um distúrbio de contato, que caracteriza o “gênio”, e o imortaliza como caricatura, é uma prova para tal.

Infelizmente o lado positivo, promissor dos traços autistas não predomina em todos, nem na maioria dos casos. Já mencionamos que existem caracteres autistas com níveis de personalidade muito variados: há a originalidade que beira a genialidade, o sujeito peculiar distante da realidade, excêntrico, pouco capaz, e por fim, o mentecapto autômato com graves distúrbios de contato. Ernst K., o terceiro caso por nós descrito, possibilita uma noção desse grupo intermediário.Outro exemplo consiste na resposta de um menino de oito a nove anos: (Pergunta: Diferença entre madeira e vidro) “a madeira cresce e adquire uma pele suja, atrai a sujeira da terra e fica tão dura que gruda na árvore e não sai mais, a terra se fixa tão rente à árvore; quando deixamos cair o vidro, ele quebra, apesar de ele ser juntado, pois a cola que se botou lá dentro desgruda e o vidro quebra”, quer dizer, uma teoria bastante abstrusa que parece ser mais despropositada do que original!

A sequência então se desenrola de forma ininterrupta até chegar naqueles mentecaptos com hábitos estereotipados, automatizados, com interesses estranhos que pouco favorecem um bom desempenho, nos “homens-calendário” que conhecem o nome do santo de cada dia do ano, nas crianças que bem antes de entrarem na escola (especial) sabem de cor todas as linhas do bonde de Viena, os pontos de partida e destinos destes, ou nas crianças com outros desempenhos automatizados da memória.

Se até então consideramos os desempenhos da inteligência das crianças autistas segundo o ponto de vista da produção espontânea, dos interesses próprios, daqui em diante nos dedicaremos à aprendizagem, à questão escolar. Quem apenas cede aos seus impulsos espontâneos e é pouco acessível no que diz respeito às exigências do meio entorno pode de fato ser original, mas não é capaz de aprender. É algo que se confirma em quase todos esses casos. Essas crianças que, volta e meia, surpreendem os seus professores com respostas demasiadamente maduras para a sua idade fracassam de modo extremo nas matérias escolares, principalmente quando se trata de exigências de aprendizagem mecanizada, que não apresentam dificuldade alguma para os menos inteligentes, para muitos alunos especiais. Trata-se prioritariamente da leitura, ortografia, matemática (a tabuada!). Às vezes essas matérias não apresentam problemas, pois coincidem com os interesses específicos da criança: algumas dessas crianças, por exemplo, aprendem a ler com facilidade, pois começam a devorar tudo que é passível de leitura excepcionalmente cedo — com seis a sete anos (normalmente a paixão pela leitura só começa aos dez anos de idade). Os que possuem dons matemáticos comumente conseguem fazer contas na escola, apesar de nesse caso existirem igualmente conflitos muito significativos: a obsessão de traçar o próprio caminho, de aplicar métodos pessoalmente inventados, impede a criança de assimilar os métodos matemáticos apresentados pela escola. Ela cria dificuldades para si mesma, complica as coisas, se engana e, por fim, chega a resultados errôneos. No primeiro e no segundo caso (Fritz V. e Harro L. — este é descrito de forma detalhada) já apresentamos exemplos para tal fato. Um outro exemplo: uma criança autista recém-ingressada na escola, que elabora e resolve por conta própria o problema de quantos segundos têm duas horas, quando exigida a somar cinco mais seis afirma: “Das contas de menos* * Contas de menos – subtrações. (N. da T.) eu não gosto nenhum pouco, prefiro bem mais 1000 x1000”. Quando, após ter produzido por um tempo maior as suas capacidades matemáticas “espontâneas”, foi apressada a, finalmente, resolver o problema em questão, apresentou o seguinte método original, porém, um tanto complicado: “Vejam, eu faço assim: seis mais seis é igual a 12 e cinco mais seis é um a menos, quer dizer 11”. Esses métodos complexos, contudo, nem sempre levam ao resultado certo; não apenas por a própria criança tornar as coisas tão difíceis para si, e sim, revelou-se no caso dela igualmente algo que dificulta bastante o desempenho de muitas crianças autistas: Ela era especialmente confusa, a fonte de sua distração era interna.

Encontramos esse distúrbio da atenção ativa quase regularmente entre as crianças autistas. Desse modo, não se observa — ou, pelo menos, não apenas — o distúrbio de concentração mais comum de muitas crianças neuropáticas, que são distraídas de seu trabalho através de qualquer movimento ou agitação do meio ambiente. Pelo contrário, essas crianças, de antemão, não se sentem inclinadas a direcionar a sua atenção, a sua concentração para aquilo que o mundo externo, nesse caso a escola, exige delas. Estão envolvidas com os seus próprios problemas, que, na maior parte das vezes, se encontram muito afastados da vida comum. Não saem de sua esfera pessoal, normalmente nem deixam os outros se aproximar desta. Assim como no caso de seus problemas de conduta, é igualmente muito árduo influenciá-las de forma externa nessa sua dificuldade.

Por isso, não é de se admirar que a maior parte das crianças autistas tenha grandes problemas de aprendizagem. No caso das mais inteligentes, os professores às vezes ignoram, devido ao êxito e às respostas originais e inteligentes destas, o mau desempenho nas exigências escolares que envolvem a mecanização. Contudo, geralmente o professor entra em desespero por causa do esforço extenuante exigido de ambas as partes em função desse distúrbio de procedimento.Em muitos casos ocorrem igualmente conflitos característicos entre professores e pais: os pais, que tendem a avaliar os seus filhos de forma favorável, julgam a criança de acordo com a forma que esta externa a sua inteligência, por exemplo através de suas ideias originais — e a consideram especialmente inteligente. O professor, por sua vez, percebe o fracasso na aprendizagem e dá notas baixas — quer dizer, existe material suficiente para um conflito no qual ambas as partes têm razão de algum modo.

Nesse momento faremos ainda outro comentário a respeito do nosso método de avaliação da inteligência. A maioria dos métodos — principalmente o de Binet e as modificações deste — usualmente aplicados abdicam conscientemente de examinar o conhecimento escolar, pois este dependeria amplamente de fatores exógenos. Em vez disso, fazem propositalmente apenas exigências que não envolvem aquilo que é aprendido, que dependem do meio social (o que, num sentido estrito, é praticamente impossível). Mas, assim como no caso de alguns outros tipos de crianças, quando o método de Binet é aplicado em crianças autistas, muitas vezes obtemos uma imagem errônea da capacidade de aprendizagem destas: os testes de Binet que, principalmente no caso de crianças mais velhas, exigem o pensamento lógico-abstrato são especialmente fáceis para essas crianças, de modo que o resultado revela um “coeficiente de inteligência alto”. O fracasso dessas crianças, porém, só aparece e se torna nítido quando são exigidas em termos de aprendizagem, quando o distúrbio de procedimento em relação à aprendizagem se torna observável durante o próprio teste. Por isso, o nosso método de avaliação inclui igualmente testes de aprendizagem que não revelam somente o conhecimento escolar das crianças, e sim, informam simultaneamente sobre a forma de proceder, por exemplo, a atenção, a concentração, a facilidade de se distrair, a perseverança. É óbvio que na hora da avaliação dos resultados precisa se considerar a influência de fatores exógenos — por exemplo, a possibilidade de um abandono em relação à aprendizagem —, algo que certamente exige muita experiência. Mas isso precisa igualmente ser feito no caso do teste de Binet, se queremos de fato aproveitar os resultados (só para mencionar um exemplo: o quanto nesses casos não ajuda a habilidade linguística de crianças procedentes de meios sociais mais elevados, algo que amiúde tem como consequência um resultado melhor, porém falso, do teste!)

O comportamento no grupo social

Queremos demonstrar que o transtorno básico dos psicopatas autistas consiste em um estreitamento das relações com o meio ambiente, que a personalidade das crianças deve ser compreendida a partir disso, que ela é “organizada” dessa forma. Até então consideramos as crianças por si só, demonstramos como esse transtorno se manifesta em seus fenômenos de expressão, seus desempenhos relativos à inteligência. Porém, a forma mais imediata através da qual a natureza dessas crianças se revela é quando as consideramos a partir de seu comportamento em relação a outras pessoas.

De fato, isso se torna mais evidente a partir de sua conduta no grupo social, dos graves conflitos que se dão com elas desde pequenas. Os conflitos são especialmente intensos no grupo social mais próximo, naquele em que o ser humano nasce, na família. (Um paralelo para tal é o fato de que, de acordo com a experiência, no caso dos esquizofrênicos os conflitos na própria família costumam igualmente ser os mais graves. A razão para isso é evidente: o grupo social familiar se baseia principalmente na ligação emocional entre os membros da família. A influência exercida sobre aqueles que são educados pela família se dá prioritariamente através do sentimento, da interação dos sentimentos entre pais e filhos. Tanto o esquizofrênico emocionalmente embotado quanto o autista emocionalmente limitado não sabem como lidar com esse sentimento, não o compreendem e o rejeitam. São justamente os pais que mais percebem o comportamento isento de sentimentos de seus filhos e se sentem especialmente infelizes em função disso.)

É principalmente na família que os “atos maldosos autistas” dessas crianças ocorrem. Estes são caracterizados por seu requinte especial: de forma infalível e certeira as crianças descobrem o que naquela situação seria mais desagradável, mais ofensivo, e atuam de modo precisamente premeditado; falta a essas crianças emocionalmente empobrecidas igualmente a noção do quanto podem ferir os outros: fisicamente, no caso dos irmãos menores, e psiquicamente, no dos adultos. Às vezes ocorrem atos claramente sádicos (sobre isso falar-se-á mais adiante). O deleite com a maldade — praticamente a única ocasião que faz o olhar comumente tão perdido dessas crianças resplandecer —, contudo, raramente falta.

Semelhantes a esses atos de maldade são as reações negativistas que foram descritas e consideradas nos casos isolados, principalmente nos primeiros. Além da característica espontânea, impulsiva desse comportamento negativista, o fracasso dessas crianças é, sem dúvida, igualmente a raiz dessas reações. Uma insuficiência justamente perante as exigências cotidianas da vida prática — já observamos o quão inábeis são as crianças autistas, como precisam aprender, mediante muito esforço e com a ajuda do raciocínio, de regras e leis, aquilo que outras adquirem “num passe de mágica” através da imitação inconsciente das ações dos adultos. Os pais, entretanto, na maior parte das vezes não entendem isso. Exigem uma obediência natural quando se trata de tarefas cotidianas como vestir-se, lavar-se, comer e, sendo assim, é justamente nessas situações que ocorrem graves cenas e conflitos, as reações negativistas e maldades dessas crianças.

Por hora consideramos reações que expressam uma atitude que se opõe ao grupo familiar, mas em todos os casos há também o isolamento da criança autista na família, principalmente quando convive com irmãos, mas também, conforme acontece na maior parte das vezes, quando é filho único. “É como se estivesse sozinha no mundo” — é algo que escutamos com frequência; vagueia por aí tal como um estranho, parece não notar nenhum dos acontecimentos ao seu redor. É óbvio que, por vezes, nos surpreendemos com o quanto ela assimilou e elaborou daquilo que ocorre a sua volta, apesar de seu aparente desligamento. Essas crianças se encontram mergulhadas em suas brincadeiras, em suas ocupações — isoladas em algum canto, mas também no meio dos irmãos ou companheiros agitados. Nesses casos, porém, constituem um corpo estranho, permanecem totalmente intocadas pelo barulho e movimento, inacessíveis em relação àquilo que fazem, não aceitam nenhum estímulo externo, se irritam fortemente quando são incomodadas.

A ocupação das crianças autistas pequenas amiúde consiste em manejos inteiramente estereotipados, por vezes estereotipias do movimento bem simples como balançar-se de modo rítmico, brincar durante horas, e de forma invariável, com um cadarço, com um determinado brinquedo que é tratado quase como um fetiche. Por exemplo, um chicote, uma velha boneca; as crianças batem o ritmo e se deleitam visivelmente com este, formam sequências com os seus brinquedos, ordenam os seus bloquinhos de madeira — em vez de construir de fato algo com estes — de acordo com cores, formas ou tamanhos, ou de acordo com outras leis inexplicáveis. Na maior parte das vezes não é possível afastá-las de suas brincadeiras, de seus problemas. Um menino autista de sete anos vivia fortes conflitos na hora de comer, pois não parava de observar os pedaços de gordura que boiavam em sua sopa e o interessavam tão intensamente. Ele os movia ou soprava para lá e para cá — visivelmente as variadas formas eram muito vivas e significativas para ele.

Essas crianças seguem os seus próprios impulsos em relação a tudo, perseguem os seus próprios interesses sem se preocupar com as exigências do meio entorno. Dentro da família é possível ser bastante tolerante com essas particularidades — no intuito de evitar conflitos. Permite-se que essas crianças simplesmente sigam os seus próprios caminhos. Somente no caso das exigências da vida cotidiana, na hora de se levantar, vestir, lavar, na hora de comer ocorrem confrontos significativos. Quando a criança entra na escola tudo muda. Lá lhe é tirada amplamente a liberdade do impulso, do interesse espontâneo. Ela deve permanecer sentada, prestar atenção, reagir constantemente como é ordenado — coisas que essas crianças não sabem fazer ou somente com grandes dificuldades. Os motivos de conflitos aumentam consideravelmente. Enquanto os pais conseguem muitas vezes lidar com as particularidades das crianças autistas pequenas, as crianças que ingressam na escola são quase todas encaminhadas para o aconselhamento de educação especial, pois os métodos comuns não funcionam.

Nos primeiros casos as dificuldades escolares foram descritas detalhadamente, de modo que podemos nos referir a elas. Foram descritas tanto as dificuldades de aprendizagem e de conduta baseadas no comportamento autista, como o comportamento anormal no grupo escolar. Existem motivos suficientes para conflitos. Simplesmente o fato de essas crianças serem diferentes das outras, de se afastarem do rebanho em função de todo o seu modo de ser é razão suficiente para serem rejeitadas e atacadas pelos colegas. Fora isso, todas as suas atitudes extravagantes, o seu modo de falar e, por fim, porém não menos importante, a sua inabilidade quase sempre grotesca simplesmente provocam a zombaria. Crianças costumam ter um olhar especialmente aprimorado e uma ironia certeira quando se trata de peculiaridades características de outras pessoas.

Sendo assim, é possível observar sempre de novo aquela situação significativa na qual uma criança constitui, na hora do intervalo e sobretudo no caminho para a escola, o centro de uma horda vociferante de meninos. Ela própria se encontra irada, tenta atacar cegamente — e por isso aparenta ser especialmente cômica —, ou então está desamparada, chorando. Em todo caso se encontra indefesa diante de seus hábeis torturadores. Eventualmente a coisa se agrava de tal maneira que apenas uma mãe que acompanha a criança é capaz de protegê-la de seus cruéis colegas, de modo que até o final do ensino primário, e às vezes para além disso, a criança necessita de um acompanhante no caminho para a escola — da mesma forma que precisa de ajuda ou de instruções na hora de se vestir.Em casos mais favoráveis, essas crianças conseguem conquistar, através de habilidades especiais, seja em função de sua inteligência ou de ataques especialmente brutos, o respeito — naturalmente jamais isento de zombaria — dos outros.

A vida pulsional e sentimental dos autistas

Em função do que foi dito até então, necessariamente já se tornou evidente o quão desarmônica é a personalidade das crianças descritas por nós. Enquanto o intelecto muitas vezes se encontra desenvolvido acima da média, distúrbios consideráveis se revelaram nas camadas profundas da personalidade — na zona pulsional, instintiva — e se expressaram igualmente nos transtornos de adaptação instintiva à situação a partir de um fracasso diante das exigências da vida comum. A descrição dos fenômenos de expressão e do restante do comportamento dessas crianças evidenciou tal fato. A seguir, desejamos examinar detalhadamente os distúrbios da esfera pulsional e sentimental.

Começamos com a sexualidade. Aqui o quadro não é unívoco. Alguns casos permanecem durante toda a infância, mas também para além da puberdade, sexualmente frios e desinteressados, fracos em termos de pulsão. Em sua vida posterior igualmente não desenvolvem uma sexualidade vital e saudável. Na maior parte dos casos, porém, encontramos anormalidades sexuais primevas. Em muitas casos estas se revelam a partir de uma masturbação precoce, realizada de forma intensa, mantida de modo obstinado, resistente a todas as formas de tratamento. Muitas vezes o sentimento de culpa e o pudor, que normalmente acompanham esses atos, estão inteiramente ausentes; eventualmente as crianças se entregam de modo exibicionista a essa sua mania — com toda insubmissão à influência e tenacidade dos psicopatas autistas. Sabe-se igualmente de atos homossexuais entre crianças relativamente jovens (vide caso 2!)

Também há relatos frequentes sobre traços sádicos. Como exemplo serão apresentadas declarações de um menino, consideravelmente autista, de sete anos: “Mamãe, um dia pegarei uma faca e a cravarei em seu peito; o sangue vai jorrar, será um tanto estrondoso”. “Como seria bom se eu fosse um lobo, pois poderia dilacerar ovelhas e pessoas e o sangue escorreria”. Quando um dia a mãe cortou o dedo:” Por que não escorre mais sangue? O sangue precisa escorrer”. Quando ele próprio se feriu, teria ficado um tanto entusiasmado, de modo que a médica que estava fazendo o curativo pareceu ter considerado a situação bastante alarmante. Fora isso, entretanto, o menino é muito assustado, teme virar com a cadeira, na rua tem muito medo de carros que correm. Não raro, a tendência para a coprolalia está igualmente presente — um comportamento que se opõe de modo estranho à sua linguagem normalmente tão sofisticada!

Desse modo, se no caso da primeira faceta da vida pulsional (a sexualidade) por nós considerada se revela uma acentuada desarmonia — uma pulsão fraca ou então uma maturidade precoce e pulsões desviantes, porém não um processo de maturação que se insere harmoniosamente na personalidade —, encontramos um comportamento semelhante nos diversos âmbitos da vida sentimental. Um excesso de sensibilidade e uma extrema falta de sensibilidade se defrontam.

Apresentaremos alguns exemplos:

Deparamo-nos de modo quase regular com preferências e aversões muito diferenciadas no âmbito do paladar — a presença tão frequente desse fato, que se dá de modo semelhante, constitui mais uma prova a favor da uniformidade de nosso tipo: amiúde há uma preferência especial por alimentos muito ácidos ou condimentados, como picles e carne frita; muitas vezes existe uma aversão insuperável contra legumes e alimentos que contêm leite. Encontramos algo equivalente no âmbito do tato: várias crianças desse tipo têm uma aversão quase anômala contra certas sensações do toque. Por exemplo, veludo, seda, algodão, giz. Não suportam a aspereza de camisas novas, meias costuradas, cortar as unhas, ou seja, a sensação certamente não agradável que temos após cortar as unhas. Tudo isso são motivos para que nessas ocasiões haja intensos confrontos. Igualmente a água, na hora do banho, é frequentemente uma fonte de sensações desagradáveis e, por isso, razão para conflitos. No hospital revela-se uma hipersensibilidade da garganta, de modo que o exame rotineiro com espátulas se torna um procedimento complicado. Essas crianças também são claramente hipersensíveis em relação a ruídos ou barulho — por vezes as mesmas crianças que em outras situações se encontram totalmente desligadas e são insensíveis em relação a tudo que acontece ao seu redor, inclusive ao barulho.

A impressão de desarmonia, de contradição, que se dá em função de tudo que foi relatado até então, torna-se maior ainda se passarmos da percepção sensorial para a consideração dos sentimentos mais sofisticados que se revelam na relação com objetos, animais e outras pessoas. Logo de início, quando começamos a nos relacionar com essas crianças, somos tomados pela impressão de que existe uma nítida falha do sentimento que precisa ser considerada a causa principal da relação alterada com o meio ambiente.

Essa falha já se torna evidente a partir do isolamento das crianças diante de outras pessoas, através da forma como se opõem ao meio entorno, principalmente ao próximo. São pobres no que diz respeito às carícias, carícias estas que tornam a convivência com crianças pequenas tão repleta de felicidade. Ouvimos a respeito de algumas crianças desse tipo que elas jamais conseguiam fazer agrados ou “dar amor”, que se tornavam ferinas quando se desejava agradá-las. As suas maldades e crueldades também depõem claramente a favor da pobreza de ânimo.

São extremamente egocêntricas, seguem apenas os seus desejos, interesses, impulsos espontâneos, sem considerar regras ou proibições externas. Carecem do sentimento de respeito pela outra pessoa. Quando falamos com elas, comportam-se inteiramente de igual para igual, expressam-se com evidente segurança; também a sua desobediência revela uma falta de respeito insuperável — entretanto, torna-se rapidamente claro que não se trata de um atrevimento consciente ou intencional, e sim, simplesmente falham quando precisam compreender o outro.

Também não são sensíveis no que diz respeito à distância pessoal: da mesma forma como se encostam em qualquer pessoa — mesmo em estranhos — a tocam como se não fosse humana, e sim, qualquer coisa, uma peça do mobiliário, convocam os outros sem a menor cerimônia, exigem os seus serviços, começam uma conversa cujo tema elas próprias estabelecem — tudo isso sem a menor noção de diferenças de idades, de adequação ou submissão, regras de conduta e cortesia.

As relações das crianças autistas com objetos igualmente fogem aos padrões normais. Enquanto para a criança normal, principalmente para a criança pequena, os objetos se tornam claramente vivos, pois ela os preenche com a sua própria vida através da boa relação que com eles estabelece; enquanto ela se constitui através dos objetos, faz as suas experiências com estes, projeta o seu amor neles, não encontramos nada nesse sentido no caso dessas crianças psicopatas. Ou elas nem tomam conhecimento dos objetos ao seu redor — não se interessam, por exemplo, por brinquedos — ou então estabelecem um vínculo fixo aberrante, não se separam em momento algum de um chicote, um bloco de madeira, uma boneca apenas rudimentar, não conseguem comer, dormir, se o “fetiche” não estiver com elas, brigam intensamente se alguém tenta arrancar delas o objeto ao qual se agarram com tamanha paixão.

Amiúde a relação dessas crianças com objetos se restringe à coleção. Encontramos o mesmo comportamento presente em vários outros sentidos: em vez de uma plenitude harmoniosamente ordenada na qual nada se destaca de modo especial, encontramos aqui falhas e espaços vazios nos quais objetos isolados hipertrofiam. A coleção, principalmente a forma como crianças autistas a realizam, representa um desalmamento da posse. Acumulam determinados objetos, mas não para de fato fazer algo com estes, como brincar, modificar e transformá-los, e sim, somente para se assegurar de sua posse. Desse modo, um menino de seis anos tem a ambição de conseguir juntar mil caixas de fósforos, um objetivo que persegue fanaticamente. A mãe, porém, jamais o vê montando trenzinhos como outras crianças costumam fazer com essas caixas. Um outro menino coleciona barbantes, um terceiro “tudo” que encontra pela rua ou que leva de algum lugar. Mas tudo isso não se dá à maneira dos moleques de rua, adaptados à realidade, em cujos bolsos encontramos de tudo, de tudo mesmo que estes necessitam para pregar as suas peças — o menino autista entope caixas e mais caixas com tralhas inúteis, ordena as coisas sempre de novo, vela-as como um avarento, graves confrontos se dão quando a mãe ousa jogar algo fora. À medida que as crianças envelhecem, a sua mania de colecionar geralmente se torna mais interessante e “sensata” em função da escolha dos objetos, da sua ordem e elaboração mental. Os verdadeiros colecionadores, porém, amiúde são excêntricos com claros traços autistas mesmo quando mais velhos.

As crianças autistas também não têm um sentimento adequado em relação ao seu próprio corpo. Somente com grande esforço, às vezes sem sucesso pleno, ensina-se a elas que é preciso manter-se limpo e que isso exige diversos cuidados referentes à higiene corporal. Até mesmo os adultos, que geralmente acabaram enveredando para profissões intelectuais, podem ser encontrados sujos e descuidados. Até o final da infância, se comportam de modo muito pouco apresentável, se sujam da cabeça aos pés, “desenham” com a comida, estão tomados pelos seus próprios problemas.

Um traço significante dessas crianças é a sua falta de senso de humor. “Não gostam de brincadeiras”, muito menos quando estas se voltam contra elas próprias (esta é mais uma razão para os outros zombarem tanto delas, pois quem consegue rir de si próprio, acaba com a zombaria). Não conseguem se comportar de forma realmente descontraída e alegre, não alcançam aquela compreensão de fato genuína do mundo que faz parte do verdadeiro senso de humor. Quando estão bem-humoradas, geralmente causam uma impressão desagradável: há excesso, distorção, falta de medida; pulam e correm pelo quarto, não mantêm distância, tornam-se insistentes, agressivas. Somente em relação a um ponto são especialmente eficientes, quer dizer, criativas: nos jogos de palavras, que vão de distorções de palavras, efeitos que se dão em função de assonâncias, a declarações sagazes de fato inteligentes e engraçadas.

Entretanto, criaríamos uma imagem errônea se enxergássemos e avaliássemos somente os traços acima delineados. Certas observações indicam que é possível avaliar a esfera dos sentimentos dessas crianças de modo não tão claramente negativo. Fomos surpreendidos repetidamente por intensas reações, como saudades de casa, que as crianças apresentavam quando eram internadas em nossa seção. Em princípio estas não combinavam em absoluto com os outros indícios, impossíveis de serem ignorados, da pobreza de sentimento. Enquanto as crianças comuns, inclusive aquelas que têm uma ligação autêntica e forte com os pais, se adaptam rapidamente após um breve sentimento de tristeza — pois sentem o amor e o cuidado dispensados a elas —, passam a se interessar pelo novo meio circundante, pela atividade que preenche o dia todo, os autistas, por via de regra, apresentam intensas saudades de casa. Choram desesperadamente durante dias, principalmente à noite a dor volta a irromper. Falam dos pais — pais estes que tanto atazanavam em casa — e de seu lar com muita ternura, por meio da linguagem madura que já conhecemos dessas crianças, mas igualmente através de um sentimento surpreendentemente diferenciado que crianças dessa idade quase sempre não conseguem expressar. Apresentam uma razão após a outra pelas quais não podem permanecer, e sim, precisam, sem falta, voltar ainda naquele dia para casa. Razões estas que novamente evidenciam uma mistura de ingenuidade e requinte. Escrevem cartas suplicantes e comoventes para casa. Tudo isso demora muito mais do que as reações de saudades de casa das crianças normais, até que, por fim, elas se acostumam e começam a se sentir bem com a ordem existente e inevitável, estabelecida por uma instância superior, porém, ao mesmo tempo, aberta às dificuldades dessas crianças. É possível que a ligação, que beira à neurose obsessiva, com os objetos e hábitos do meio doméstico faça com que as crianças sintam excessivamente a separação de casa, isto é, a diminuição de sua liberdade de agir é a razão dessa reação. Mesmo assim, essa intensa saudade de casa revela os sentimentos dos quais essas crianças são capazes.

Mas há outros exemplos desse tipo. O menino, que nos deu vários exemplos de uma expressão verbal especialmente original e criativa (vide página 719), tinha dois ratos brancos dos quais cuidava de forma comovente e que, conforme enfatizou diversas vezes, preferia a qualquer ser humano — o mesmo menino que através de suas maldades fez com que os pais ficassem fora de si, que atazanava o seu pequeno irmão com requinte! Exemplos semelhantes de ligações indubitavelmente profundas com animais podem ser encontrados sempre de novo no caso de crianças autistas.

Diante desses fatos, a questão da esfera sentimental dessas crianças se tornou muito complicada. De qualquer maneira, não devemos compreendê-la simplesmente a partir da ideia da “pobreza de sentimentos”, quer dizer, segundo um ponto de vista quantitativo, trata-se muito mais de um modo de ser diferente qualitativo, uma desarmonia em termos de sentimentos, ânimo — por vezes repleto de contradições surpreendentes —, que caracterizam essas crianças, que causam os seus distúrbios de adaptação.

Herança biológica

Em face da uniformidade e da constância desse tipo de crianças psicopatas impõe-se igualmente a questão da hereditariedade. A questão de se estados psicopáticos são também de origem constitucional e, desse modo, hereditários já foi resolvida há muito tempo, assim como o fato de se tratar obviamente de uma esperança vã quando queremos evidenciar um processo hereditário claro e simples. Pois estes estados são, sem dúvida, poliméricos, isto é, encontram-se ligados a várias unidades hereditárias e, a não ser que se queira forçar alguma situação, não se chegará a nenhum resultado no sentido de decidir se um estado dessa espécie é passado em diante através de herança dominante ou recessiva.

A apresentação de achados genealógicos específicos precisa ser adiada para um trabalho posterior. Aqui pretendemos dizer apenas de forma resumida: no decorrer de dez anos observamos mais de duzentas crianças que apresentavam o quadro do autista psicopata de modo mais ou menos claro. Em todos os casos nos quais foi possível conhecer melhor os pais ou parentes, pudemos constatar traços psicopáticos na ascendência familiar do indivíduo. Amiúde só encontrávamos pequenas particularidades isoladas, muitas vezes, porém, o quadro pleno do psicopata autista: dos fenômenos de expressão característicos e da inabilidade às “dificuldades de se inserir” — aqui naturalmente presentes num outro nível. Na maior parte dos casos o pai — quando é dele que a criança herdou os traços autistas — tem uma profissão intelectual. Se, porventura, há um ou outro artesão, temos a impressão de que este errou de profissão (vide o caso 2!). Em muitos casos os antepassados dessas crianças são intelectuais já há diversas gerações. Em função de suas características foram fatalmente empurrados para profissões desse tipo. Frequentemente encontramos descendentes de importantes famílias de estudiosos e artistas entre essas crianças. Por vezes, naturalmente, temos a impressão de que da grandeza destes restaram apenas as extravagâncias e excentricidades da criança que amiúde também estão presentes nos grandes cientistas. Muitos dentre os pais de nossas crianças autistas ocupavam, apesar de sua forte excentricidade, postos altos — o que contribui igualmente para a questão do valor social desse tipo de personalidade.

Os achados de hereditariedade aqui esboçados seguramente falam a favor tanto da hereditariedade do quadro, como da persistência das disposições, mas também — em função de a hereditariedade se dar de modo tão semelhante na maioria dos casos — do caráter especial do estado psicopático.

Em relação à hereditariedade, algumas outras questões serão analisadas aqui.

Se considerarmos as nossas crianças autistas no que diz respeito ao gênero, nos deparamos primeiramente com o fato surpreendente de se tratar quase que exclusivamente de meninos. Encontramos, com efeito, igualmente distúrbios de contato entre as meninas que, em relação a alguns traços, lembravam os psicopatas autistas. Havia meninas em cujos casos precisamos considerar uma encefalite anterior à razão de seu estado (como no caso 4, Hellmuth L.), mas não encontramos o quadro pleno, presente, por exemplo, nos casos 1 a 3, entre as meninas. Como se deve explicar isso? Trata-se aqui de uma hereditariedade ligada ao gênero ou, ao menos, limitada ao gênero? É algo nesse sentido.

O psicopata autista é uma variante extrema da inteligência masculina, do caráter masculino. No âmbito de variação normal há diferenças típicas entre a inteligência dos meninos e das meninas: Geralmente as meninas aprendem melhor, têm facilidade com o que é concreto, plástico, prático, com o trabalho assíduo e caprichoso. Em contraposição, a lógica, a capacidade de abstração, o pensamento preciso e a formulação, a pesquisa independente se configuram mais como possibilidades dos meninos. Esta é também a razão pela qual os meninos geralmente têm resultados melhores do que as meninas nos níveis de idades mais avançados do teste de Binet. As exigências lógico-abstratas, um tanto unilaterais, que os testes de Binet fazem a partir do nível de idade dos dez anos se adéquam muito mais aos meninos! No caso dos psicopatas autistas esse comportamento é levado ao extremo. A abstração — que, como um todo, é mais fácil para o homem ao passo que a fêmea sente mais e se apoia seguramente em seus instintos — está tão avançada que as relações com o que é concreto, com coisas e pessoas, se perderam amplamente. A adaptação às exigências do meio ambiente, que em grande parte se dá através das funções do instinto, é alcançada somente de forma bem reduzida.

Apesar de, conforme já relatamos, não termos conhecido nenhuma menina em que o quadro de autismo se encontrava plenamente desenvolvido, nos deparamos com várias mães de crianças autistas que apresentavam um comportamento claramente autista. Não sabemos explicar esse fato. Se é uma coincidência de justamente entre os nossos casos não existirem meninas autistas — pois estas certamente são mais raras do que os meninos — ou se os traços autistas só se manifestam após a puberdade no caso do sexo feminino, disso não sabemos.

Durante um levantamento de nossos casos, constatamos que os psicopatas autistas são em grande medida — bem acima da média, mesmo quando consideramos o contexto dos grandes centros urbanos — filhos únicos (também nesse ponto, números mais exatos precisam ser adiados para um trabalho posterior). Um observador voltado para a psicologia do indivíduo obviamente elucidaria todo o quadro a partir da situação do filho único, considerá-la-ia uma prova da causa exógena; simplesmente explicaria os distúrbios de relação com o grupo social, assim como a fala e o pensamento precoces, a partir do fato de essas crianças terem sido criadas somente entre adultos, não terem aprendido a se adaptar a um grupo de irmãos. Os pais, porém igualmente os professores das crianças autistas, com frequência explicam as dificuldades delas através da realidade do filho único. Mas assim como em vários outros sentidos, o ponto de vista da psicologia individual confunde causa e efeito. Quando acompanhamos a criação dessas crianças desde o início, quando é possível observar como o seu modo de ser se estabelece desde a tenra infância no sentido descrito, quando, além disso, sabemos que crianças autistas que crescem entre irmãos se desenvolvem exatamente da mesma forma como os filhos únicos, a explicação da causa exógena parece absurda. Não, o fato de essas crianças serem autistas não se deve às influências desfavoráveis da educação às quais uma criança sem irmãos é exposta, e sim, se fundamenta nas disposições herdadas dos pais igualmente autistas. Porém, é uma expressão do caráter autista dos pais o fato de estes estarem dispostos a dar a vida somente a uma única criança. O desejo de filhos em um casamento é, sem dúvida, a expressão de uma mentalidade. Tratando-se de pessoas com essa mentalidade — e que se encontram dentro de um âmbito normal de variação —, esse desejo é passível de modificação e suscetível à influência da educação. A atualidade alemã mais recente nos oferece um exemplo grandioso e historicamente único para tal. A partir dessas variantes extremas do caráter humano é possível demonstrar que o desejo de um filho, ou a ausência deste, também se encontra profundamente ancorado na camada das pulsões do ser humano, quer dizer, em sua constituição estabelecida através da disposição. A falta ou o enfraquecimento do desejo de um filho, entretanto, é um traço de caráter presente na maior parte das personalidades autistas e mais um sintoma de sua natureza hipossexual, alterada ou fraca em termos de instinto. Sendo assim, podemos observar que diversos caracteres desse tipo vivem a sua vida de modo antissocial, sem esposa e filhos; que entre aqueles que casam há muitos que vivem um casamento repleto de problemas e tensões no qual não existe a harmonia adequada entre pulsão e espírito, no qual, acima de tudo, não há espaço para a criação de um grupo maior de crianças. Pensemos aqui na ideia de Klages sobre “o espírito como opositor da vida”. Por isso, deve-se enfatizar que o fato do filho único é mais sintoma do que causa do quadro autista.

A descrição dos casos, principalmente dos primeiros, nos dá a impressão de que há certas semelhanças entre os psicopatas autistas e os quadros esquizofrênicos. Surgiu, inclusive, a pergunta de se nos casos de crianças tão anormais como Fritz V. não se trata, como um todo, de uma esquizofrenia infantil. Durante a discussão desse caso, considerações de caráter diagnóstico-diferencial foram feitas nesse sentido e o diagnóstico de uma psicose esquizofrênica foi rejeitado. O mesmo vale para os outros casos, entre os quais nenhum é tão gravemente anormal como o primeiro.

Entretanto, há ainda outra questão a ser respondida: os casos descritos representam — ou ao menos alguns entre eles — possivelmente pré-estágios de uma esquizofrenia? Uma real psicose se desenvolve a partir deles? Baseando-nos em nosso material, precisamos igualmente negar essa possibilidade. Os quadros por nós descritos não revelam nada no sentido de um processo. Como um todo, parecem ser constantes ao longo da vida, apesar de, comumente, ocorrer uma adaptação cada vez melhor às exigências do meio ambiente e, desse modo, a inserção social. Conhecemos um único caso que consideramos um psicopata autista com graves distúrbios de instinto; dois anos após, porém, surgiram uma degradação e uma decadência progressivas, de modo que agora é necessário fazer o diagnóstico de uma hebefrenia. Contudo, em todos os outros casos, alguns observados por nós durante vinte ou mais anos, não se verificou a transição desse tipo de psicopatia para uma verdadeira psicose.

Há ainda outra questão nesse contexto: o quadro psicopático descrito se baseia em disposições parciais de esquizofrenia (considerando-se que a esquizofrenia é herdada de modo polimérico, esses psicopatas são portadores de genes isolados entre os quais uma combinação de diversas disposições patológicas causa a esquizofrenia?) ou o estado se baseia em predisposições para a esquizofrenia que nesses casos não se manifestaram? Essas questões poderiam ser elucidadas a partir de achados genealógicos exatos, pois teria que existir um número acima da média de esquizofrênicos entre os consanguíneos dessas crianças.

Por enquanto não podemos responder de modo concludente a essa pergunta. Em relação a esse ponto, precisamos igualmente remeter a um possível trabalho futuro. Por agora, apenas afirmamos que não temos a impressão de existir um acúmulo marcante de esquizofrênicos ao redor das crianças autistas, de modo que não parece que caracteres autistas têm algo a ver com a esquizofrenia em termos de hereditariedade biológica e, sendo assim, geneticamente. Isto condiria com o ponto de vista de Schröder que afirma que psicopatas não são “nem loucos pela metade nem loucos por um quarto”, também não no sentido do comportamento biológico-hereditário.

O valor social dos psicopatas autistas

Em nosso trabalho nos encarregamos da tarefa de apresentar um quadro de psicopatia infantil que, até onde sabemos, ainda não foi descrito. O capítulo presente vai além disso. Impõe-se a pergunta: Qual o futuro das crianças autistas? Desse modo é levantada simultaneamente a questão do valor social, uma questão de tamanha importância que, apesar de nos limitarmos conscientemente ao quadro do autismo infantil, acreditamos precisar ser tratada.

O que foi dito até então faz crer que a inserção social dessas pessoas é muito difícil, talvez até impossível, posto que sublinhamos o transtorno de adaptação às exigências do meio ambiente como característica principal do quadro delas. Essa expectativa, entretanto, se confirma na menor parte dos casos, isto é, apenas em relação às pessoas que, além dos traços autistas, apresentam uma clara inferioridade intelectual.

Nesses casos, entretanto, há poucas esperanças. Na melhor das hipóteses, essas pessoas acabam em uma profissão inferior marginalizada, amiúde inconstante, que sempre muda. Quando as condições são menos favoráveis vagueiam enquanto tipos excêntricos pelas ruas, desleixadas de forma grotesca, falando sozinhas em voz alta, dirigindo-se despreocupadamente, e ao modo dos autistas, às pessoas, tornando-se motivo de escárnio para todos os moleques de rua, reagindo aos seus torturadores através de ataques malsucedidos.

Quando, entretanto, se trata de psicopatas autistas intelectualmente intactos, principalmente daqueles com inteligência acima da média, o caso é outro. Certamente existem também entre os adultos os mesmos distúrbios de relação com as pessoas de seu convívio, que no caso das crianças levam aos conflitos característicos. Se uma antiga definição designa os psicopatas como seres humanos que sofrem em função de si próprios e em função dos quais o seu meio entorno sofre, a segunda parte da frase certamente se aplica aos autistas. Porém, é quase impossível avaliar no caso de pessoas que mal se revelam para nós, cuja vida sentimental é tão diferente, que são tão impenetráveis, se estas sofrem em função de si próprias. Se, conforme há de se esperar a partir do comportamento das crianças autistas, não é fácil lidar com essas pessoas, principalmente para os parentes próximos — em especial os seus cônjuges —, a avaliação a respeito delas se torna inteiramente diferente quando se considera o seu êxito profissional.

Na grande maioria dos casos dá-se um bom desempenho profissional e, dessa forma, a inserção social — amiúde em profissões elevadas, amiúde de modo tão excepcional que somos forçados a reconhecer que ninguém mais do que justamente esses seres humanos autistas seria capaz de tal êxito. É como se eles recebessem, através de um tipo de hipertrofia compensatória, capacidades especiais para compensar os seus consideráveis defeitos. A persistência e a efetividade que estão presentes na atividade “espontânea” do autista, a limitação a âmbitos isolados da vida, a um interesse isolado especial, aqui se revelam como valores positivos que capacitam essas pessoas para grandes êxitos em âmbitos determinados. Observamos justamente no caso dos autistas — com uma clareza bem maior do que quando se trata dos “normais” — que estes parecem ser predestinados, desde a mais tenra juventude, para uma profissão específica, que essa profissão se desenvolve fatalmente a partir de suas disposições especiais.

Para tal, um exemplo: acompanhamos, durante quase três décadas, a vida de um menino e jovem rapaz cujo comportamento revelava claramente o quadro do psicopata autista. Da infância à vida adulta, ele tinha uma conduta extremamente autista. Era como se nem tomasse conhecimento das outras pessoas de tão ausente que estava, por vezes não reconhecia os conhecidos mais próximos. Da mesma forma que era especialmente inábil em termos de motricidade (na hora de aprender as tarefas diárias necessárias havia, em grande medida, todas as dificuldades anteriormente descritas), todo o seu comportamento continuou inábil e inadaptado (quando já um jovem rapaz era possível vê-lo no bonde limpando, com entrega e dedicação, o seu nariz com os dedos!). Na escola havia problemas constantes, ora ele estudava, ora não, dependendo do que queria. Tinha pouquíssimas habilidades para línguas, na escola secundária não teria conseguido passar do grego básico. Acabava passando de ano somente em consideração às suas outras habilidades.

Já desde muito cedo, revelou-se nesse ser humano um dom especial para a matemática que irrompeu espontaneamente. Através de perguntas, das quais não era possível esquivar-se, ele obtinha dos adultos o saber necessário que, em seguida, elaborava de modo inteiramente autônomo. Sendo assim, relata-se a seguinte cena de quando ele tinha apenas três anos de idade! Um dia conversou-se sobre quadrados. A mãe teve que desenhar para ele um triângulo, um quadrado e um pentágono na areia. Então ele mesmo pega o bastão, faz um traço e diz: “Isso é um bi-ângulo, não é?”, faz um ponto e diz: “E isso é um uno-ângulo?”. Toda brincadeira e todo interesse do menino estavam voltados para a matemática. Antes de entrar na escola já sabia calcular a raiz cúbica. Enfatiza-se repetidamente que os pais não tinham a menor intenção de inculcar no menino habilidades matemáticas mecânicas e não compreendidas. Pelo contrário, o menino praticamente forçava, por conta própria e opondo-se à relutância de seus educadores, a ocupação com a matemática. Na escola secundária surpreendia os seus professores através de seu conhecimento matemático especial, que se estendia aos âmbitos mais abstratos. É a esse conhecimento que se deve o fato de ele ter conseguido passar, sem grandes obstáculos, pela Matura,2 2 Exame escolar realizado na Áustria no fim do ensino médio que habilita o estudante a cursar a universidade. apesar de seu comportamento amiúde impossível e de seu fracasso nas outras matérias. Não muito tempo após ter ingressado na universidade — escolheu a astronomia teórica como faculdade — comprovou um erro de cálculo de Newton. O seu professor o aconselhou a usar essa descoberta como base de sua dissertação. De antemão estava decidido que se dedicaria à carreira acadêmica. Em muito pouco tempo tornou-se assistente e obteve a livre-docência.

Esse tipo de percurso não é de forma alguma uma exceção isolada. Para a nossa surpresa, pudemos observar que em quase todos os casos os psicopatas autistas, a não ser que apresentem problemas intelectuais, conseguem uma inserção profissional. A maior parte deles em profissões claramente intelectuais, altamente especializadas; vários deles alcançam cargos elevados. Priorizam conteúdos abstratos do conhecimento. Encontramos um grupo maior em que a habilidade matemática determina a profissão. Além dos “matemáticos puros”, há técnicos, químicos e também funcionários públicos — amiúde encontramos igualmente profissões específicas incomuns, extravagantes. Por exemplo, um heraldista que, conforme se diz, é autoridade nessa área, alguns músicos renomados também foram crianças autistas observadas por nós. O fato, em princípio surpreendente, de que crianças tão difíceis e anormais alcançam, por fim, uma inserção social que as sustenta e que é muito elevada nos parece, quando examinado mais profundamente, explicável.

Toda inserção profissional força a unilateralidade, significa desistir de possibilidades — o que é muito sofrido para uns e outros. Por essa razão alguns jovens fracassam na hora de escolher uma profissão, pois em função de suas diversas habilidades não conseguem se decidir, não têm impulso suficiente para seguir uma determinada direção. No caso dos psicopatas autistas, porém, temos a impressão de que traçam o seu caminho com foco e segurança natural — com antolhos diante das diversas possibilidades da vida —, caminho este para o qual muitas vezes parecem ser predestinados desde crianças. No caso dessas pessoas, comprova ser igualmente verdadeira a frase de que em todo caráter qualidades e falhas se originam dos mesmos traços, que o positivo e o negativo são dois lados que dificilmente podem ser separados, dos quais não podemos aceitar somente a faceta boa e rejeitar a ruim.

Acreditamos que igualmente essas pessoas têm o seu lugar no organismo do grupo social, espaço este que preenchem plenamente, algumas delas, talvez, de forma única — justamente elas, que amiúde foram crianças que causaram as maiores dificuldades e preocupações para os seus educadores.

Revela-se, especialmente no caso desse tipo de caracteres, o quão passíveis de desenvolvimento e adaptação personalidades anormais podem ser, quantas vezes, ao longo do desenvolvimento, surgem possibilidades de inserção social que não vislumbrávamos para estas pessoas. Sendo assim, esse fato determina igualmente a nossa atitude e avaliação perante todos os tipos de pessoas difíceis e nos dá o direito, e a obrigação, de nos empenharmos com toda a nossa personalidade por elas, pois acreditamos que somente o investimento pleno do educador amoroso é capaz de obter sucesso no caso de pessoas tão complexas.

Fim

Por ora, no fim do presente trabalho, seria a nossa obrigação analisar a literatura especializada. Deveríamos examinar que relações existem entre o tipo de crianças por nós descrito e os tipos apresentados por outros, em relação a que traços aquele coincidiria com estes, em que sentido se diferenciaria. Queremos apenas repetir o que já afirmamos no início, isto é, que não acreditamos na possibilidade de uma tipologia verdadeiramente sistemática. Entretanto, cremos já ter comprovado através de nosso trabalho que em determinados casos a noção de um tipo pode ser frutífera para o conhecimento. Nesse sentido precisamos lançar mão da literatura sobre tipos psicológicos para efetuarmos uma comparação.Encontramos assim certas semelhanças entre os psicopatas autistas e os esquizotímicos de Kretschmer. Há igualmente semelhanças com determinadas formas dos desintegrados de E.R. Jaensch e principalmente com o “tipo pensamento introvertido” de Jung. Especialmente em relação à descrição dos caracteres introvertidos, encontramos muitos aspectos aparentados com as personalidades infantis por nós apresentadas. Pois a “introversão” nada mais é do que uma restrição ao nosso próprio ser (autismo), uma limitação das relações com o meio ambiente.

Mesmo assim, por ora não consideramos muito frutífero o estudo desses autores: nenhum deles se manifesta a respeito, a não ser a partir de comentários muito breves e raros, de como os caracteres por eles descritos se comportam durante a idade infantil. Carecem amplamente de elementos passíveis de comparação, as suas descrições se encontram em um âmbito totalmente diverso das nossas. Esse estudo tornar-se-á, sem dúvida, muito mais proveitoso à medida que mostramos o que acontece com as crianças por nós descritas na vida adulta. Por isso, precisamos remeter-nos novamente a um futuro trabalho mais abrangente. Neste não apenas a base biológico-hereditária deve ser elaborada de modo mais exato, e sim, o tema deste trabalho, que se limita conscientemente à idade infantil, deve ser continuado. Sendo assim, surgirá a possibilidade de analisarmos mais profundamente os caracteres apresentados por outros autores, realçarmos correspondências e diferenças.

O objetivo de nosso trabalho foi descrever um tipo de crianças anormais — a partir de uma convivência intensa, a partir de um profundo investimento pedagógico — que nos pareceu digno de interesse não somente em função de suas peculiaridades e dificuldades, e sim, devido à perspectiva que se abre em relação a problemas psicológicos, pedagógicos e sociológicos centrais.

Referências

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  • Jung, C.G. Psychologische Typen [Tipos psicológicos]. Zurique e Leipzig: Rascher.
  • Klages, L. (1936). Grundlegung der Wissenschaft vom Ausdruck [Fundamentação da ciência da expressão]. Leipzig: Johann Ambrosius Barth.
  • Klages, L. (1936). Die Grundlagen der Charakterkunde [A fundamentação da teoria do caráter]. Leipzig: Johann Ambrosius Barth.
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  • Schneider, K. (1934). Die psychopathischen Persönlichkeiten [As personalidades psicopatas]. Leipzig e Viena.
  • Schröder, P. (1931). Kindliche Charaktere und ihre Abartigkeiten, mit erläuternden Beispielen von Heinze [Caracteres infantis e os seus desvios com exemplos elucidativos de Heinze]. Breslau: F. Hirt.
  • Schröder, P. (1938). Mschr. Psychatr. 99) [mensário psiquiátrico]
  • *
    No original: Kindermund – boca da criança. Trata-se de uma expressão idiomática. (N. da T.)
  • *
    Contas de menos – subtrações. (N. da T.)
  • 2
    Exame escolar realizado na Áustria no fim do ensino médio que habilita o estudante a cursar a universidade.
  • 1
    Tese de livre-docência, entregue para a faculdade de medicina da Universidade de Viena.
Editor do artigo/Editor : Prof. Dr. German E. Berrios.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    Oct-Dec 2015

Histórico

  • Recebido
    8 Out 1943
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