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Alimentação complementar em crianças no segundo ano de vida

Alimentación complementar en niños en el segundo año de vida

Resumos

OBJETIVO: Estudar as práticas alimentares de crianças no segundo ano de vida, comparando as que estão em aleitamento materno complementado com aquelas desmamadas antes dos 12 meses de vida. MÉTODOS: Estudo transversal envolvendo crianças de 12 a 24 meses da área de abrangência de um serviço de atenção primária de Belo Horizonte, Minas Gerais. As mães foram entrevistadas sobre as práticas de alimentação de seus filhos. Foram comparadas as práticas alimentares das crianças em aleitamento materno complementado com aquelas desmamadas antes dos 12 meses de vida por meio dos testes qui-quadrado ou exato de Fisher, t de Student e Kruskal-Wallis, com nível de significância de 5%. RESULTADOS: Foram avaliadas 118 crianças com idade média de 16,8±4,0 meses, sendo que 35% delas ainda eram amamentadas e 15,3% mantiveram aleitamento exclusivo por seis meses. Nas crianças amamentadas, a duração mediana do aleitamento exclusivo foi de quatro meses e, nas desmamadas, dois meses (p=0,13). Em ambos os grupos houve introdução precoce de alimentos complementares, elevado consumo de alimentos industrializados, alta prevalência de consumo diário de óleos ou gorduras (90,7%) e baixo consumo de frutas (38,1%). CONCLUSÕES: Os resultados sinalizam práticas alimentares inadequadas nos lactentes, independentemente do consumo recomendado de leite materno, denotando a necessidade de aprimoramento e integração das ações de promoção do aleitamento materno e alimentação saudável nos serviços de atenção primária à saúde.

aleitamento materno; alimentação complementar; desmame; hábitos alimentares; nutrição do lactente


OBJETIVO: Estudiar las prácticas alimentares de niños en el segundo año de vida, comparando los que están en lactancia materna complementada (LMC) con aquellos destetados antes de los 12 meses de vida (SLM). MÉTODOS: Estudio transversal implicando a niños entre 12 y 24 meses de edad en el área de alcance de un servicio de atención primaria de Belo Horizonte/Minas Gerais (Brasil). Las madres fueron entrevistadas sobre las prácticas de alimentación de sus hijos. Se compararon las prácticas alimentares de los niños en LMC con aquellos SLM por medio de las pruebas chi cuadrado o exacto de Fisher, t de Student y Kruskal-Wallis, con un nivel de significancia de 5%. RESULTADOS: Fueron evaluados 118 niños con promedio de edad de 16,8±4,0 meses, siendo que el 35% de ellos todavía eran amamantadas y el 15,3% mantuvieron lactancia exclusiva por seis meses. En los niños amamantados, la duración mediana de la lactancia exclusiva fue de cuatro meses y, en los destetados, dos meses (p=0,13). En ambos grupos, hubo introducción temprana de alimentos complementares, elevado consumo de alimentos industrializados, alta prevalencia de consumo diario de aceites/grasas (90,7%) y bajo consumo de frutas (38,1%). CONCLUSIÓN: Los resultados apuntan prácticas alimentares inadecuadas en los lactantes, independiente de la recomendación de consumo de leche materna, denotando la necesidad de perfeccionamiento e integración de las acciones de promoción de la lactancia materna y alimentación sana en los servicios de atención primaria a la salud.

Lactancia materna; alimentación complementar; destete; hábitos alimentares; nutrición del lactante


OBJECTIVE: To study the eating habits of children in their second year of life, comparing these habits in children that received complementary breastfed to the ones who weaned before 12 months of life. METHODS: Cross-sectional study involving children aged 12 to 24 months in a primary health care service in Belo Horizonte, in the state of Minas Gerais, Southeast Brazil. Mothers were interviewed about the feeding practices of their children. The eating habits of complementary breastfed children were compared to those who weaned before 12 months of life by the chi-square, Fisher, Student's t, and Kruskal-Wallis tests, with a significance level of 5%. RESULTS: 118 children were included with a mean age of 16.8±4.0 months. About 35% of them were still breastfed and only 15.3% kept exclusive breastfeeding for six months. In breastfed children the median duration of exclusive breastfeeding was four months and, for the weaned ones, two months (p=0.13). In both groups there was early introduction of complementary food, high intake of processed food, high daily consumption of oils and fats (90.7%), and low consumption of fruits (38.1%). CONCLUSIONS: The results point out the existence of inadequate feeding practices in infants regardless of the recommended intake of breast milk, therefore indicating the need for improvement and integration of actions to promote breastfeeding and healthy diets in primary attention services.

breastfeeding; supplementary feeding; weaning; food habits; infant nutrition


ARTIGO ORIGINAL

Alimentação complementar em crianças no segundo ano de vida

Cláudia Regina L. AlvesI; Luana Caroline dos SantosII; Lúcia Maria H. de F. GoulartIII; Pollyana Ribeiro CastroIV

Instituição: Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Belo Horizonte, MG, Brasil

IDoutora em Ciências da Saúde pela UFMG; Professora Adjunta do Departamento de Pediatria da Faculdade de Medicina da UFMG, Belo Horizonte, MG, Brasil

IIDoutora em Saúde Pública pela Universidade de São Paulo (USP); Professora Adjunta do Curso de Nutrição, Departamento de Enfermagem Materno-Infantil e Saúde Pública da Escola de Enfermagem da UFMG, Belo Horizonte, MG, Brasil

IIIDoutora em Ciências da Saúde pela UFMG; Professora-Associada do Departamento de Pediatria da Faculdade de Medicina da UFMG, Belo Horizonte, MG, Brasil

IVNutricionista Graduada pela UFMG, Belo Horizonte, MG, Brasil

Endereço para correspondência Endereço para correspondência: Cláudia Regina L. Alves Rua Tavares Bastos, 287 - Cidade Jardim CEP 30380-040 - Belo Horizonte/MG E-mail: lindgrenalves@gmail.com

RESUMO

OBJETIVO: Estudar as práticas alimentares de crianças no segundo ano de vida, comparando as que estão em aleitamento materno complementado com aquelas desmamadas antes dos 12 meses de vida.

MÉTODOS: Estudo transversal envolvendo crianças de 12 a 24 meses da área de abrangência de um serviço de atenção primária de Belo Horizonte, Minas Gerais. As mães foram entrevistadas sobre as práticas de alimentação de seus filhos. Foram comparadas as práticas alimentares das crianças em aleitamento materno complementado com aquelas desmamadas antes dos 12 meses de vida por meio dos testes qui-quadrado ou exato de Fisher, t de Student e Kruskal-Wallis, com nível de significância de 5%.

RESULTADOS: Foram avaliadas 118 crianças com idade média de 16,8±4,0 meses, sendo que 35% delas ainda eram amamentadas e 15,3% mantiveram aleitamento exclusivo por seis meses. Nas crianças amamentadas, a duração mediana do aleitamento exclusivo foi de quatro meses e, nas desmamadas, dois meses (p=0,13). Em ambos os grupos houve introdução precoce de alimentos complementares, elevado consumo de alimentos industrializados, alta prevalência de consumo diário de óleos ou gorduras (90,7%) e baixo consumo de frutas (38,1%).

CONCLUSÕES: Os resultados sinalizam práticas alimentares inadequadas nos lactentes, independentemente do consumo recomendado de leite materno, denotando a necessidade de aprimoramento e integração das ações de promoção do aleitamento materno e alimentação saudável nos serviços de atenção primária à saúde.

Palavras-chave: aleitamento materno; alimentação complementar; desmame; hábitos alimentares; nutrição do lactente.

Introdução

A amamentação exclusiva nos primeiros seis meses de vida e a manutenção do aleitamento materno complementado (AMC) por dois anos ou mais são práticas recomendadas pela Organização Mundial da Saúde (OMS) e pelo Ministério da Saúde (MS)(1,2). Apesar disso, no Brasil, estudos identificaram inadequações como baixa prevalência de aleitamento materno exclusivo (AME) e introdução precoce de alimentos na alimentação do lactente(3-6).

A Pesquisa Nacional de Demografia e Saúde (PNDS), realizada em 2006, constatou que 62% das crianças amamentadas no Brasil já consumiam alimentos complementares no quarto e quinto meses de vida(6). Dados da segunda Pesquisa de Prevalência de AM nas Capitais Brasileiras e Distrito Federal, em 2009, evidenciaram introdução de água, chás e outros leites já no primeiro mês de vida em 13,8, 15,3 e 17,8% das crianças, respectivamente(3). Verificou-se também que 25% dos lactentes entre três e seis meses de idade consumiam comida salgada e frutas, denotando que, apesar dos avanços alcançados desde a implantação da Política Nacional de Incentivo ao Aleitamento Materno, o Brasil encontra-se aquém das metas propostas pela OMS e pelo MS(3).

Por um lado, ressalta-se que a introdução precoce de alimentos pode estar associada ao aumento da morbimortalidade infantil, devido ao risco de higienização inadequada dos alimentos, à ocorrência de reações alérgicas, à menor absorção de nutrientes e à falta de ingestão dos fatores de proteção do leite materno (LM)(1). Por outro lado, a introdução tardia dos alimentos complementares também é desfavorável devido à possibilidade de redução do crescimento infantil e, consequentemente, do aumento de desnutrição e deficiência de alguns micronutrientes, particularmente ferro, zinco e vitamina A(2,7,8).

Apesar da importância da alimentação complementar e da oferta de alimentos em idade oportuna, estudos sobre o processo de introdução de alimentos e práticas alimentares em lactentes são escassos, em contraposição ao volume de publicações sobre AME(9,10).

Este estudo teve como objetivos: estudar as práticas alimentares de crianças no segundo ano de vida, em Belo Horizonte, Minas Gerais, comparando as que estão em AMC com aquelas que haviam sido desmamadas antes dos 12 meses de vida (SLM); e investigar a associação do consumo de LM por mais de um ano com variáveis sociodemográficas, econômicas, comportamentais e assistenciais.

Método

Trata-se de estudo transversal envolvendo crianças entre 12 e 24 meses de idade residentes na área de abrangência de uma Unidade Básica de Saúde (UBS) de Belo Horizonte, a qual apresenta médio e elevado risco de adoecer e morrer, de acordo com o Índice de Vulnerabilidade à Saúde (IVS), desenvolvido pela Prefeitura Municipal de Belo Horizonte(11).

Foram consideradas elegíveis para o estudo as crianças com idade entre 12 e 24 meses completos. Com base no cadastro dos agentes comunitários de saúde (ACS), estimou-se que havia aproximadamente 200 delas nesta faixa etária no início de 2009. As mães foram convidadas a participar do estudo por meio de visitas domiciliares e foram realizadas entrevistas na UBS de fevereiro a abril de 2009. Foram avaliadas 118 crianças, correspondendo a 59% do total daquelas identificadas. Dezesseis mães se recusaram a participar e as demais não puderam ser contatadas após os convites impressos, as visitas domiciliares e os contatos telefônicos.

As entrevistas foram realizadas por estudantes do último ano do curso de Nutrição da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), utilizando um questionário estruturado previamente testado em estudo-piloto. O instrumento constava de 73 questões, que abordavam: aspectos sociodemográficos e econômicos da mãe (idade, escolaridade, ocupação profissional, participação em união estável e renda per capita) e do lactente (sexo e idade); história obstétrica (tipo de parto, paridade e número de filhos); utilização dos serviços de saúde para controle de saúde e número de consultas realizadas no último ano; e questões sobre o acesso às informações de alimentação infantil, padrão de AM, frequência de consumo dos alimentos e sobre o processo de introdução dos alimentos complementares.

O padrão de AM foi avaliado conforme critérios propostos pela OMS(1). A duração do AME foi considerada como o período em que as crianças recebiam apenas LM, sem ingestão de qualquer outro líquido ou sólido, com exceção de vitaminas, minerais e/ou medicamentos. Considerou-se AMC quando as crianças ingeriam LM associado a qualquer tipo de complemento: líquido, semissólido, sólido ou outros leites(1).

O consumo alimentar foi avaliado por meio de um questionário de frequência alimentar qualitativo, elaborado especificamente para este estudo, no qual a mãe deveria relatar a frequência de consumo do lactente por grupos de alimentos: 'pães, tubérculos e cereais'; 'frutas e hortaliças'; 'leite e derivados'; 'carnes, aves e ovos'; 'leguminosas'; 'óleos e gorduras' e 'açúcares e doces'.

Para avaliar o processo de introdução da alimentação complementar foram utilizadas informações referentes à idade de introdução de alimentos, tais como: papa de legumes, sucos, frutas, carnes, ovos, salgadinhos, alimentos industrializados, chás, leites e doces. Os dados obtidos foram avaliados segundo os parâmetros do MS(2).

Os dados foram processados no software Statistical Package for the Social Sciences (SPSS), versão 12.0(12). Foi realizada análise descritiva e aplicação dos testes do qui-quadrado ou exato de Fisher, t de Student e Kruskal-Wallis, considerando 5% como nível de significância(13).

As crianças foram distribuídas em dois grupos: AMC e SLM. Testou-se a associação do consumo de LM por mais de um ano, com variáveis sociodemográficas, econômicas, comportamentais e assistenciais.

O estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Secretaria Municipal de Saúde de Belo Horizonte. As mães receberam informações sobre os objetivos e os procedimentos da pesquisa e assinaram o termo de consentimento livre e esclarecido, conforme preconiza a resolução 196 do Conselho Nacional de Saúde.

Resultados

As crianças tinham, em média, 16,8±4,0 meses de idade, sendo 50,8% do sexo feminino e 44% filhos únicos (Tabela 1). As mães possuíam, em média, 28±6,4 anos, sendo 6% adolescentes; 68% delas estudaram por mais de oito anos e menos da metade trabalhava fora de casa no momento da entrevista. A renda per capita de 51% das famílias era inferior a um salário mínimo/mês (Tabela 1).

A maioria das crianças era acompanhada rotineiramente na UBS participante deste estudo e quase 85% delas passaram por sete ou mais consultas de saúde nos 12 meses que antecederam a entrevista (Tabela 1). Ao serem inquiridas sobre as consultas de rotina nas UBS, verificou-se que 90,7% das mães receberam orientações sobre AM, introdução de alimentos e alimentação complementar durante consultas de controle e 89% relataram ter tido a oportunidade de esclarecer suas dúvidas durante estas consultas.

Aproximadamente 35% das crianças ainda recebiam LM, correspondendo ao grupo de crianças em AMC. Dessas, 36,6% recebiam LM em livre demanda e 63,4% em horários predeterminados. A duração mediana do AM no caso das crianças já desmamadas foi de sete meses.

Apenas 15,3% das crianças mantiveram AME até os seis meses de vida. Naquelas em AMC, a duração mediana do AME foi de quatro meses e, nas desmamadas, dois (Kruskal-Wallis; p=0,13).

A Tabela 2 apresenta as idades mínimas e máximas (amplitude) e as medianas de idade em que os alimentos foram introduzidos, comparando o grupo em AMC e o grupo SLM. Houve diferença estatística entre as medianas de idade de introdução de água (p=0,032), chás (p=0,046), sucos naturais (p=0,002) e outros leites (p=0,007), sendo estes introduzidos mais tardiamente no grupo em AMC quando comparado ao grupo SLM. Considerando o comportamento geral de ambos os grupos, quase todos os tipos de alimentos estudados (exceto café e salgadinhos tipo chips) foram oferecidos a pelo menos uma criança antes dos seis meses de idade. Destaca-se a introdução frequente de alimentos industrializados como refrigerantes, salgadinhos e guloseimas antes dos 12 meses de idade.

A Tabela 3 apresenta a frequência de consumo dos grupos alimentares pelas crianças avaliadas. Verificou-se que os grupos alimentares com maior consumo diário foram os 'pães, tubérculos e cereais' (95,8%), seguidos pelos 'óleos e gorduras' (90,7%) e 'leite e derivados' (86,4%), o que contrasta com o baixo consumo diário de frutas (38,1%), carnes e aves (55,9%) e hortaliças (69,5%). Além disso, 44% das crianças consumiram ovos apenas ocasionalmente, 25,4% ingeriam carne uma vez ou menos por dia (cinco a sete vezes por semana) e 26,3% consumiam frutas apenas de uma a quatro vezes por semana.

A análise da associação entre variáveis explicativas e padrão de alimentação das crianças é apresentada na Tabela 4. Não houve diferença significativa entre os grupos quanto ao número de filhos, à escolaridade e à condição de trabalho e/ou ao estudo materno e renda per capita. Também não foi demonstrada associação entre a prática de AMC com a reação da criança à introdução de novos alimentos (p=0,710). Verificou-se que o grupo de crianças amamentadas apresentou maior frequência de consumo diário de leguminosas do que as desmamadas (p=0,03). O mesmo ocorreu com o consumo de outros tipos de leite (p=0,01). Os grupos de crianças apresentaram comportamentos semelhantes quanto ao consumo dos demais tipos de alimentos.

Discussão

O presente estudo identificou um padrão alimentar inadequado nas crianças avaliadas, com pequena duração do AME, introdução precoce de alimentos complementares e consumo de dieta desbalanceada. Isso ocorreu apesar de as mães terem recebido orientações dos profissionais de saúde sobre diversos aspectos da alimentação infantil e suas crianças terem sido assistidas regularmente durante o primeiro ano de vida. Pesquisas realizadas em São Paulo com crianças menores de três anos encontraram resultados semelhantes com baixa duração do AME e consumo de alimentos inadequados para a idade(14,15).

O percentual de crianças que receberam LM exclusivo até os seis meses ficou muito aquém do recomendado pela OMS. A duração mediana do AME no grupo de crianças que ainda estavam sendo amamentadas foi o dobro daquela observada no grupo das desmamadas. Os valores apresentados para o Brasil e para Belo Horizonte em 2009 pela pesquisa nacional(3), em torno de 1,8 meses de duração de AME, aproximam-se do encontrado no presente estudo para crianças desmamadas. É possível que a maior duração do AME no grupo de crianças amamentadas indique maior valorização do LM por estas mães, o que as levou a manter o AM por 12 meses ou mais.

A duração mediana de AM estimada para o Brasil e para Belo Horizonte em 2009 foi, respectivamente, 11,2 e 10 meses(3). Estudo realizado na mesma comunidade entre 1980 e 2004 revelou que a mediana de duração do AM passou de cinco para 11 meses entre o primeiro e o último inquérito (p<0,001)(16). Esses valores são superiores aos encontrados na presente pesquisa para as crianças desmamadas. Pouco mais de um terço delas ainda recebiam LM no segundo ano de vida, o que mostra que a situação do AM está longe daquela preconizada pela OMS, apesar dos avanços observados nas últimas décadas.

Muitos autores têm estudado os fatores que podem interferir na duração e no padrão de AM e concluíram que esta prática é influenciada por questões de natureza social, cultural e assistencial, entre outras(16-20). Pesquisa que acompanhou 151 crianças em Porto Alegre, no Rio Grande do Sul, apontou como fatores associados à manutenção do AM por dois anos ou mais: a permanência da mãe em casa nos primeiros seis meses, a não oferta de chupeta, o adiamento da oferta de água/chá e outros leites e o fato de não coabitar com o companheiro(21). O mesmo não foi observado no presente estudo, provavelmente pela homogeneidade sociocultural da população analisada.

Estudos que avaliaram a prática da amamentação em outras faixas etárias demonstraram menor duração e prevalência dos diversos padrões de AM quando as mães possuem baixa escolaridade, são adolescentes ou primíparas(17). Outros fatores, como as dificuldades iniciais para amamentação, o conceito de duração ideal de AM e a opinião do pai, também já foram identificados na literatura como determinantes da duração da amamentação(16).

Caetano et al verificaram que as decisões sobre a introdução de alimentos tomadas pelas mães eram baseadas em suas próprias experiências de vida ou de suas famílias, tendo o pediatra e a mídia influências menos significativas(22). Monteiro et al realizaram um estudo com 231 nutrizes, sendo que aproximadamente 30% delas julgavam produzir leite 'fraco', o que influenciaria na introdução de alimentos de forma inadequada(23).

Tais dados podem auxiliar na compreensão dos resultados do presente estudo, tendo em vista que quase a totalidade das mães entrevistadas informou ter recebido orientações sobre o AM e a alimentação complementar durante o acompanhamento de rotina de seus filhos na UBS e, ainda assim, adotaram práticas inadequadas. Por outro lado, uma meta-análise de estudos abordando o impacto de práticas educativas com mães de lactentes mostrou a eficácia desta abordagem para a continuidade do AM, para a melhoria da oferta de alimentação complementar e para a utilização de alimentos saudáveis disponíveis na cultura local(24).

De acordo com a OMS, não devem ser oferecidos água ou chás às crianças antes dos seis meses de vida(1). Outros estudos realizados no Brasil também identificaram a introdução desses alimentos antes do tempo adequado(7,15,22,25). O presente estudo demonstrou que a introdução de água, chás, sucos naturais e outros leites que não o materno ocorreu antes do sexto mês de vida em ambos os grupos, porém, isto aconteceu mais precocemente entre as crianças que desmamaram antes dos 12 meses. Aparentemente, a reação das crianças à introdução de novos alimentos parece ter sido boa, o que sugere não ter havido dificuldades neste processo.

Ressalta-se a escassez de estudos envolvendo crianças amamentadas por mais de um ano para uma melhor compreensão do padrão alimentar, conhecido como AMC. A contradição observada entre a prática prolongada de AM e a introdução precoce de alimentos complementares mostra que, em parte, as mães têm consciência dos benefícios da amamentação, porém, apresentaram atitudes conflitantes em relação às recomendações sobre a oferta de alimentos a seus filhos. Isso se torna especialmente preocupante devido ao fato de que a maioria das mães levava seus filhos rotineiramente à UBS e afirmava ter sido orientada pelos profissionais de saúde quanto ao AM e à alimentação infantil. Chama a atenção o fato de o padrão alimentar dos dois grupos de crianças (AMC e SLM) ter se mostrado praticamente idêntico do ponto de vista qualitativo. Questões culturais e socioeconômicas podem ser determinantes deste processo.

A interferência da introdução precoce de alimentos no aumento do risco de desenvolvimento de alergias, diabetes melito, obesidade e doenças cardiovasculares foi demonstrada em vários estudos(26-32). Esta prática, apesar de aumentar a cota de energia, nem sempre fornece todos os nutrientes que a criança necessita, podendo interferir no estado nutricional e no desenvolvimento infantil(27,30-32).

Outros autores, em pesquisa realizada com crianças de 24 a 72 meses de idade em Minas Gerais, também demonstraram que os grupos alimentares mais consumidos foram os cereais, as leguminosas, o leite e seus derivados, os doces e as gorduras(32).Observou-se ainda que a maioria das crianças não possui ingestão alimentar, segundo a recomendação do MS(2). A baixa frequência do consumo de ovos pode estar relacionada a tabus alimentares de que este seria inadequado para consumo na infância, elevando os níveis sanguíneos de colesterol. Foi comum o relato de consumo de doces, guloseimas, frituras e alimentos industrializados antes mesmo do primeiro ano de vida, o que configura uma dieta de reduzido valor nutricional. Ressalta-se a necessidade de desestimular o consumo desses alimentos e reforçar o de frutas e hortaliças.

Embora não tenha sido observada grande diferença no consumo dos grupos alimentares entre as crianças amamentadas e as demais, é possível que as mães daquelas em aleitamento sejam mais bem informadas ou sensibilizadas para a importância de determinados alimentos na dieta de seus filhos, como, por exemplo, o consumo de leguminosas, que são importantes fontes de vitaminas e minerais.

Este estudo chama a atenção para a importância de intervenções visando à melhoria da alimentação dos lactentes. Santos et al conduziram intervenção educativa baseada na capacitação dos profissionais para aconselhamento em alimentação nos moldes da estratégia de Atenção Integrada em Doenças Prevalentes na Infância (AIDPI) e observaram melhoria quantitativa e qualitativa das práticas alimentares de mães de crianças desnutridas de dois meses a cinco anos de idade. A capacitação aumentou ainda o conhecimento dos profissionais treinados e os tornou mais habilitados a fazer o aconselhamento sobre alimentação infantil(33). Caldeira et al mostraram que o treinamento das equipes de saúde da família foram eficazes para aumentar a prevalência do AME(34) .

Este estudo teve como limitação o fato de ter sido realizado em apenas uma UBS de Belo Horizonte e ter avaliado apenas 59% do total de crianças elegíveis. Destaca-se, assim, a necessidade de estudos prospectivos com maior número de participantes e que abordem as percepções, os sentimentos e as concepções das mães para melhor compreensão do processo de introdução dos alimentos complementares ao AM. No entanto, os resultados encontrados não esgotam o tema, mas suprem lacunas sobre o consumo de alimentos complementares ao LM e conduzem à recomendação do reordenamento das ações de incentivo à prática do AM e das estratégias de promoção da alimentação saudável em época oportuna, incorporando, as diretrizes da Política Nacional de Alimentação e Nutrição(35) em todos os níveis de atenção à saúde e no espaço comunitário.

Pode-se concluir que a prática do AM por mais de 12 meses não veio acompanhada de uma alimentação complementar satisfatória, quando analisados o processo de introdução destes alimentos e a qualidade nutricional da dieta dessas crianças. Tais achados sugerem que as mães ainda não são suficientemente orientadas quanto à oferta de alimentos complementares ao LM ou ainda não incorporaram conceitos importantes para a prática de uma alimentação saudável.

Os profissionais de saúde devem estar atentos a este fato e ser capazes de adequar as ações de promoção aos contextos sociodemográfico e cultural da população assistida, a fim de propiciar às mães oportunidades de adquirir conhecimentos e habilidades sobre alimentação infantil. Espera-se, portanto, que este estudo possa contribuir para a reorientação das ações de educação nutricional nos serviços de saúde, além de fortalecer, nas famílias, atitudes e hábitos positivos, garantindo uma alimentação infantil mais saudável. Ainda, deve-se aprimorar e integrar ações de promoção do AM e de alimentação saudável nos serviços de atenção primária à saúde com vistas à prevenção de agravos nutricionais, como deficiência de micronutrientes, desnutrição e obesidade.

Agradecimentos

às nutricionistas Maíra Vasconcelos Reis, Bárbara Galvão Caldas e Gabriela Barbosa Pires de Souza pela contribuição na coleta e na digitação do banco de dados.

Recebido em: 28/2/2012

Aprovado em: 25/6/2012

Conflito de interesse: nada a declarar

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  • Endereço para correspondência:

    Cláudia Regina L. Alves
    Rua Tavares Bastos, 287 - Cidade Jardim
    CEP 30380-040 - Belo Horizonte/MG
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  • Datas de Publicação

    • Publicação nesta coleção
      04 Jan 2013
    • Data do Fascículo
      Dez 2012

    Histórico

    • Recebido
      28 Fev 2012
    • Aceito
      25 Jun 2012
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