O estudante de medicina e o paciente: uma aproximação à prática médica

RESENHA

O estudante de medicina e o paciente: uma aproximação à prática médica

Roosevelt M. S. Cassorla

Professor titular, colaborador do Departamento de Psicologia Médica e Psiquiatria, Faculdade de Ciências Médicas, Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP), Campinas, SP. Membro efetivo e analista didata, Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo, São Paulo, SP

Correspondência

Alfredo Cataldo Neto, Ivan Antonello, Maria Helena Itaqui Lopes (orgs.)

Porto Alegre, EDIPUCRS, 2006, 219 p.

Frente a uma prática em que o profissional médico tende a sentir-se como apenas uma peça de uma engrenagem desumana, refém de atividades desgastantes e propenso a variadas formas de sofrimento, faz falta o conhecimento profundo de variáveis que interferem nesse desgaste. Talvez por isso, vêm surgindo, em nosso meio, estudos e experiências que compreendem e auxiliam o médico a conhecer melhor seu trabalho e a si mesmo.

Essa demanda de compreensão inicialmente se centrou em áreas ligadas ao planejamento de ações voltadas à saúde coletiva, que obtiveram relativo sucesso. Mas, curiosamente, se temos um Sistema Único de Saúde teoricamente quase perfeito, ele deixa muito a desejar na prática. Interessante é que, nesse sistema, com freqüência, o médico é o bode expiatório, tanto para os usuários como para as autoridades, convênios e demais membros das equipes de saúde. Atitudes reativas dos médicos, defensivas ou agressivas, por vezes sentidas como apenas corporativas, fazem com que a atividade médica, que deveria ser dedicada ao paciente, seja contaminada por conflitos das mais variadas ordens.

Durante as décadas de 60-80, a ênfase nos aspectos sociais da doença escondiam e revelavam certa impotência em relação à ação mais ampla no funcionamento da sociedade como um todo. Concomitantemente, de forma sutil, em algumas faculdades de medicina, alguns professores não abandonavam seus ideais, muitas vezes românticos, em prol de uma "medicina da pessoa" (no dizer do psicanalista Danilo Perestrello), em que o ser humano fosse visto não apenas como uma doença ou um sistema ou órgão doente. No entanto, sua influência no ensino e na prática da medicina era muito pequena. Isso decorria de muitos fatores, entre eles o fato da maioria desses médicos provir da psiquiatria e da psicanálise, muitos com bastante dificuldade em dialogar com seus colegas de outras especialidades. Mesmo os clássicos grupos Balint, instrumentos utilíssimos para compreender as vicissitudes dos funcionamentos mentais de médico e paciente interagindo, atingiam apenas poucos médicos já predispostos a perceberem fenômenos emocionais.

Nos últimos 20 anos, o desenvolvimento e a idealização da tecnologia aplicada à medicina e a propaganda imoderada de medicamentos fizeram a população e os médicos acreditarem que a potência da medicina frente às doenças havia aumentado exponencialmente. Na verdade, mesmo que haja ocorrido algum desenvolvimento, perdeu-se ainda mais a percepção do paciente (e do médico) como ser humano, coisificado entre aparelhos, exames e procedimentos, sem que se lhes saiba ou pergunte algo sobre sua humanidade. A desumanização iatrogênica passou a fazer parte de uma medicina cada vez mais cara, restrita a pequenas parcelas da população, concomitantemente a uma medicina para "pobres". Isso transformou o médico num técnico sofisticado, que aplica tecnologia (em certa medicina), ou num técnico despreparado (na medicina para pobres), para servir de anteparo a demandas sociais (violência, desemprego, miséria, anomia), travestidas de problemas de saúde.

Todas essas mazelas, no entanto, não são suficientes para impedir que o médico seja, certamente, um dos profissionais mais apaixonados por sua atividade. Isso ocorre pela fascinação que o curso médico e, posteriormente, a prática médica provocam, fazendo com que o estudante se dedique intensamente, para responder às responsabilidades que busca e se lhe impõem. O prazer em ajudar outro ser humano compensa seus sacrifícios. Muitos desses sacrifícios poderiam tornar-se desnecessários ou serem minimizados, se as condições de trabalho melhorassem.

Mas existem outros fatores, intrínsecos à atividade médica, que nem sempre o estudante e o médico sabem enfrentar. Entre esses fatores, está o contato com as limitações humanas: a realidade da doença, a impossibilidade de curá-la sempre, as injustiças que fazem parte da vida (já que a natureza não é justa), a realidade da morte. Permeando tudo isso, existe o fato, importantíssimo, de que o médico lida com afetos, sentimentos e emoções, que invadem o tempo todo o paciente, o médico e o que acontece entre eles. O médico tem a difícil tarefa de usar sua subjetividade, sentindo a si mesmo e seu paciente, sem perder a objetividade, que permitirá sua atividade coerente.

Em outras palavras, a medicina não é uma atividade técnica, ainda que essa vertente exista ou a deforme. Ela é também arte, e essa arte passa pelos afetos - a arte de colocar-se no lugar do paciente, de compreendê-lo e de usar essa compreensão para potencializar a ação médica. Para tal, o médico deverá ter contato com seus próprios afetos, porque serão eles, afetados pelos afetos do paciente, que servirão de guia para sua arte.

Como ensinar o estudante de medicina a entrar em contato com seus afetos, com seu próprio mundo mental? Como ensinar algo que não se aprende através de técnicas? Sabemos que a arte médica somente se constitui a partir da identificação com os professores, os mestres e os colegas. A escola médica será o lugar privilegiado para que isso se desenvolva.

A Faculdade de Medicina da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS) é, certamente, uma das instituições em que a preocupação com a formação do médico tem proporcionado não somente idéias, mas também sua colocação em prática, a partir de criativas reflexões. Essa prática, cuidadosa e em constante avaliação, é fruto do trabalho de seu corpo docente, estimulado por um grupo interessado e atuante de médicos de várias áreas, e não somente psiquiatras. Não é possível qualquer movimento fértil e criativo se não ocorre envolvimento da instituição como um todo.

O livro "O estudante de medicina e o paciente: uma aproximação à prática médica" é fruto do trabalho desse grupo. Seus organizadores são Alfredo Cataldo Neto, professor adjunto de Psiquiatria, Ivan Antonello, professor titular de Medicina Interna, e Maria Helena Itaqui Lopes, professora adjunta de Medicina Interna. O livro conta com 42 colaboradores, professores, médicos e estudantes de medicina, que relatam, de forma clara, precisa e profunda, aspectos da prática médica, tomando como centro o estudante de medicina.

O livro consta de três partes. Na primeira, "Fundamentos teóricos", são discutidas características do estudante de medicina. Os capítulos abordam expectativas, fantasias e emoções dos calouros e dos estudantes de medicina; fatores relacionados à vocação médica; as fases e vicissitudes pelas quais passa o estudante; a discussão sobre os primeiros contatos com a medicina e os pacientes. A segunda parte, "A medicina e sua história", aborda como a prática médica foi se constituindo nas várias épocas. A terceira parte, "Vivências médicas", brinda-nos com relatos de estudantes e médicos sobre experiências vividas.

A leitura do livro é indispensável para professores e médicos envolvidos com o processo de ensino-aprendizagem - em suma, para todos os médicos, pois estamos sempre ensinando e aprendendo: com alunos, residentes, colegas e pacientes. A tomada de consciência dos momentos, fases, experiências e o poder senti-los e pensá-los são facilitados se pudermos dividi-los com o outro. Será esse outro, muitas vezes um colega ou amigo, que, ao ouvir-nos, servirá de espelho para que nos vejamos. A partir desse olhar refletido, poderemos pensar, isto é, transformar nossas emoções em pensamento.

As vivências, em particular, constituem-se num complemento que enriquece muito os capítulos anteriores. Se estes são claros, com bibliografia adequada, idéias criativas e exemplos sensíveis, as vivências permitem que o leitor, principalmente se médico, possa lembrar-se de suas próprias experiências, reavaliá-las e verificar como elas o enriqueceram. Essa revisão as tornará ainda mais úteis e criativas. Não é possível deixar de emocionar-se frente aos relatos dos estudantes de medicina, sobre o vestibular, os colegas, os livros, as notas, o cadáver, os primeiros pacientes, as vicissitudes institucionais, as dores, traumas, sofrimentos e alegrias que fazem parte do dia-a-dia. Há também relatos de médicos experientes, que recuperam as suas antigas experiências, avaliando suas conseqüências. O leitor se surpreende com a humanidade dos relatos, com a auto-percepção dos sentimentos envolvidos, com o poder pensar sobre o vivido. Certamente, isso somente foi possível porque os estudantes e demais autores puderam entrar em contato consigo mesmos, graças ao estímulo precoce com situações discutidas no dia-a-dia, fruto do novo currículo da Faculdade.

Dessa forma, no livro verificamos como a arte da medicina pôde transformar-se em arte na literatura. Essa arte certamente fertilizará os leitores, emocionando-os e fazendo-os pensar suas próprias experiências. E, estimulando-os a se envolverem na fascinante aventura de formar médicos preparados, isto é, médicos que pensam sua ética e sentimentos, condições básicas para poderem aplicar seus conhecimentos científicos em forma correta e criativa. Somente médicos assim formados poderão fazer a ponte entre o exagerado biologismo que domina a medicina atual e o exagerado sociologismo que domina as políticas de saúde, repondo o que faz falta a ambos: os afetos, sentimentos e emoções. Em outras palavras, o fator humano, sem o qual a medicina deixa de ser o que ela é: ciência e arte da compreensão e tratamento do adoecer humano.

  • Correspondência:
    Roosevelt M. S. Cassorla
    Av. Francisco Glicério 2331/24
    CEP 13032-101 - Campinas, SP
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Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    16 Nov 2006
  • Data do Fascículo
    Ago 2006
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